Mostrando postagens com marcador eleições venezuela. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador eleições venezuela. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Economia, desafio na Venezuela

Economia, desafio na Venezuela

Reorganizar um país, a difícil tarefa do sucessor de Chávez
Autor(es): Por Fabio Murakawa | De Caracas
Valor Econômico - 15/04/2013
 

Melhorar a eficiência de um Estado inchado e reduzir a burocracia que alimenta uma corrupção endêmica. Tratar uma economia doente, com um déficit fiscal de cerca de 15% do PIB e inflação acima de 20% e subindo. Diversificar a economia de um país que importa 70% dos alimentos que consome. E convencer uma nação órfã de um presidente querido, morto há pouco mais de um mês, de que à frente da Presidência há um líder. Essas são as tarefa desafiadoras do sucessor de Hugo Chávez, qualquer que seja o vencedor das eleições, na disputa entre o chavista Nicolás Maduro e o opositor Henrique Capriles. Até o fechamento desta edição, o resultado não havia sido divulgado, mas circulavam informações de que a votação de Capriles tinha sido melhor do que o previsto nas pesquisas.

Melhorar a eficiência de um Estado inchado e reduzir a burocracia que alimenta uma corrupção endêmica. Tratar uma economia doente, com déficit fiscal de cerca de 15% do PIB e inflação acima de 20% e subindo. Diversificar a economia de um país que importa 70% dos alimentos que consome e onde o petróleo é responsável por 96% dos dólares da exportação. E convencer uma nação órfã de um presidente carismático e popular, morto há pouco mais de um mês, de que à frente da Presidência há um verdadeiro líder, capaz de conduzir e dar estabilidade a um país com histórico de golpes de Estado.
Essa é a tarefa hercúlea do sucessor de Hugo Chávez, qualquer que seja o vencedor da eleição presidencial realizada ontem na Venezuela, na disputa entre o chavista Nicolás Maduro, presidente interino, e o líder opositor Henrique Capriles. Até o fechamento desta edição ainda não havia um resultado.
"Independentemente de quem ganhe, é pouco provável que consiga substituir o papel de Chávez", diz Héctor Briceño, professor do Centro de Estudo de Desenvolvimento da Universidade Central da Venezuela (UCV). "O novo presidente terá o desafio de construir um modelo de sociedade e político que não gire em torno da figura do presidente. Com a morte de Chávez, isso perde o sentido".
Maduro herdou a candidatura, e a eleição tida como provável, do prestígio de Chávez junto à população mais pobre. Em dezembro, já ciente da gravidade de seu câncer, o ex-presidente pediu à população que votasse nele, caso não pudesse voltar ao poder após um derradeiro período de tratamento em Cuba, para onde embarcaria horas depois. Mas, na opinião de analistas, o pedido de Chávez não representa um cheque em branco para um eventual governo Maduro. Ele terá que provar sua capacidade de gestão e percorrer um caminho delicado entre manter os programas sociais criados pelo antecessor e reorganizar uma economia em processo de deterioração.
"Do ponto de vista eleitoral, o eleitor de Maduro votou no candidato designado por Chávez. Do ponto de vista do exercício do poder, o cenário é outro", diz Gilberto Buenaño, acadêmico chavista que foi vice-ministro de Planejamento de 2000 a 2005. "O apoio depende do comportamento de Maduro".
De acordo com ele, um dos grandes desafios de Maduro, caso eleito, será diversificar a economia, que há décadas se acostumou a viver da renda do petróleo, um modelo que já durante a gestão Chávez se dizia estar em esgotamento. "Somos dependentes das exportações. Não produzimos o que consumimos e não consumimos o que produzimos. Se o processo bolivariano não resolver o problema da economia produtiva, vai ter problemas para continuar existindo".
Se Maduro herdou de Chávez o direito à candidatura, o mesmo vale em relação aos problemas econômicos que foram crescendo ao longo de seus 14 anos de governo. A situação se agravou após a campanha para as eleições de 7 de outubro do ano passado, quando Chávez bombou os gastos sociais para aumentar suas chances de vitória contra o mesmo Capriles.
Depois disso, o governo teve que fechar as torneiras, e o país começou a sofrer com a escassez de produtos básicos nos supermercados e de divisas para a importação, o que elevou o dólar paralelo a uma cotação cerca de quatro vezes maior do que a oficial. Como parte de um ajuste fiscal, e com o presidente ainda vivo em Cuba, Maduro promoveu uma desvalorização do bolívar de 4,30 para 6,30 por dólar. No paralelo ilegal, a moeda americana varia de 20 a 28 bolívares.
"Há indícios de que a situação macroeconômica será difícil e vai chegar a outros âmbitos da vida nacional", diz um diplomata venezuelano. "Mas a liderança carismática do presidente Chávez não estará no panorama político. Os chavistas vão ter que dar grandes mostras de capacidade de gestão".
Maduro parece ter notado isso. Em seu último evento de campanha, um gigantesco comício em Caracas na quinta-feira, ele anunciou a criação de mais uma "missão" (como são batizados os principais programas sociais chavistas), a "Grande Missão Eficiência ou Nada". Sem detalhar, disse se tratar de "um corpo especial secreto para perseguir a corrupção".
O problema para Maduro será, na avaliação de analistas, manter unidos setores que ele não controla dentro do chavismo, como as Forças Armadas, os funcionários públicos, sobretudo os da PDVSA, e lideranças de bairros e conselhos comunais, caso a situação econômica piore. A tendência é que, nesse caso, o chavismo se fragmente e seu chegue ao fim antes do término do mandato de seis anos por meio de um referendo revogatório, previsto na Constituição.
Uma fonte do governo brasileiro nota que "há um desejo de mudança por eficiência do governo" e que "Capriles convence grande parcela da população que está cansada do chavismo". O opositor adotou contra Maduro tom mais agressivo que na campanha anterior. E tentou chamar para si o voto de eleitores fiéis a Chávez, mas não às pessoas que o cercavam. "Eu peço a todos os seguidores do "comandante" que votem em mim", disse no encerramento da campanha. "Maduro não é Chávez, e eu não sou a oposição. Sou a solução".
O trabalho de um eventual governo Capriles não será simples. Dos 23 Estados, 20 são governados por chavistas, que também controlam a Assembleia Nacional. A PDVSA está inchada com 120 mil funcionários, a maioria nomeada por Chávez. E instituições como a Justiça e as Forças Armadas também estão aparelhadas por simpatizantes do ex-presidente. Para Capriles, a tarefa mais difícil seria governar.

quarta-feira, 6 de março de 2013

O fim do chavismo?

O fim do chavismo?

Carta Capital
 
*Reportagem publicada por CartaCapital em dezembro de 2012

O segredo mantido pelo presidente Hugo Chávez sobre a natureza exata de sua doença sempre sugeriu que se tratava de um câncer de mau prognóstico (confira A política da doença, em -CartaCapital 701)*. O anúncio da recaída e da quarta cirurgia em 18 meses indica que a esperança de um milagre não se realizou. A última operação foi bem-sucedida segundo os boletins oficiais e os cubanos certamente se empenharam pelo homem que tirou Cuba do isolamento e da crise a sufocá-la desde o colapso da União Soviética. A medicina tem limites e a recuperação seria “complexa, difícil e delicada”, admitiu seu vice e chanceler Nicolás Maduro.
Antes de partir para Havana, o líder bolivariano admitiu pela primeira vez que podederia ocorrer algo para “inabilitá-lo de alguma maneira” e pediu que nesse caso o povo venezuelano eleja Maduro.
Chávez, por fim, admite sua mortalidade. Mas isso não significa necessariamente o fim do Chavismo Foto: Leo Ramirez/AFP

A notícia da recaída atropelou a campanha para as eleições dos governos e assembleias estaduais em 16 de dezembro. Depois da reeleição do presidente, o desfecho da disputa pelo governo do estado de Miranda, entre o ex-candidato presidencial da oposição Henrique Capriles e o ex-ministro e ex-vice chavista Elías Jaua, deveria ser o fato político mais importante, pois definiria se Capriles terá fôlego para liderar a oposição nos próximos seis anos. Agora, isso passou a segundo plano. Mais importante, para os analistas, -será sentir nas ruas e nas urnas se a -doença do líder levou desânimo a seus eleitores e militantes ou os mostra dispostos a construir um chavismo sem Chávez.
Apesar das esperanças declaradas da oposição venezuelana e das direitas -latino-americanas e estadunidenses, o falecimento de Chávez não significa a morte do chavismo. O varguismo permaneceu no poder por uma década após o suicídio de Getúlio Vargas em 1954 e foi a principal referência da oposição até ser superado pelo PT em 1989. E o peronismo manda na Argentina de hoje, quase quatro décadas após a morte de Juan Perón em 1974.
Chávez já governou a Venezuela por quase 14 anos, pouco menos que a duração da primeira era Vargas (1930-1945) e bem mais que a soma dos dois governos de Perón (1946-1955 e 1973-1974), com a diferença de ter sido sempre -escolhido em eleições livres e sem fraudes (com forte ajuda da máquina estatal, sim, mas é outra questão). Tanto quanto ambos, se não mais, transformou seu país de forma a deixar sua marca por muito tempo e influenciou mais os rumos das nações vizinhas que qualquer um deles. Pode não ser mais o sucessor aparente de Fidel Castro como porta-voz das esquerdas latino-americanas (e não é impossível que o idoso cubano lhe sobreviva), mas tudo indica que seu futuro como símbolo, ao menos, parece tão assegurado quanto o de Che Guevara, Salvador Allende ou o próprio Simón Bolívar. Mas símbolo do quê, exatamente?
O mundo ouviu falar do tenente-coronel Chávez pela primeira vez em 4 de fevereiro de 1992, quando liderou um golpe fracassado contra o governo de Carlos Andrés Pérez. Para os jornalistas de fora, soou como uma quartelada latino-americana como qualquer outra, mas tanto o líder como as condições de seu país eram muito peculiares.
O primeiro governo de Pérez, em 1974-1979, cumpriu o programa -oficialmente social-democrata de seu partido Ação Democrática e foi relativamente progressista. Reatou relações com Cuba, apoiou o retorno do socialista Felipe González à Espanha após a morte de Franco, combateu os regimes de Augusto Pinochet, no Chile, e Anastasio Somoza, na Nicarágua, e ampliou políticas sociais com base no aumento da renda das exportações proporcionado pelos choques do petróleo.
Mas ao mesmo tempo reprimia as guerrilhas comunistas no interior. E o então capitão Chávez, enviado a combater os guerrilheiros do partido Bandera Roja, de linha albanesa, veio a simpatizar com sua causa, embora não aprovasse seus métodos e se indignasse com a tortura no Exército e a corrupção visível nos meios militares tanto quanto nos civis.
Segundo o próprio Chávez, sua simpatia pelas esquerdas vinha de antes. Foi inspirado em especial pelo general e líder peruano Juan Velasco Alvarado, que conheceu como cadete ao participar no Peru das comemorações dos 150 anos da Batalha de Ayacucho, na qual Antonio José de Sucre, lugar-tenente de Bolívar, conquistou a vitória final sobre os espanhóis nas Américas. A partir de 1974, Chávez leu avidamente os livros e discursos de Velasco e fez amizade com o filho do coronel e líder panamenho Omar Torrijos, outro militar que promovia o nacionalismo, a reforma agrária e o combate aos privilégios das elites. Em 1977 criou uma organização clandestina, o Exército de Libertação do Povo da Venezuela e começou a buscar contatos com a esquerda civil. Ao se tornar organização cívico-militar, veio a se chamar Movimento Bolivariano Revolucionário 200 ou MBR-200, em homenagem aos 200 anos de Simón Bolívar (nascido em 1783), herói da América Latina e especialmente de Chávez, fascinado por sua vida e pensamento desde a juventude.
Enquanto isso, a guerra entre o Irã e o Iraque, o aumento da produção petrolífera fora da Opep e os conflitos internos do cartel derrubaram o preço da mercadoria e a Venezuela, como muitos outros integrantes da Opep, enfrentou dificuldades sérias.
Em 1988, Pérez candidatou-se de novo e fez campanha atacando o FMI como “uma bomba de nêutrons que mata as pessoas, mas deixa os edifícios de pé” e os funcionários do Banco Mundial como “genocidas a serviço do totalitarismo econômico”. Mas, ao vencer e tomar posse em 2 de fevereiro, de 1989, aceitou de imediato o pacote neoliberal -imposto -pelos EUA e pelo FMI em troca de um empréstimo de 4,5 bilhões de dólares. Isso incluiu a retirada súbita dos subsídios aos combustíveis, com um impacto brutal nos preços dos transportes e no custo de vida.
Não foi o único latino-americano da época a eleger-se com um discurso nacionalista e popular e aderir ao Consenso de Washington após a posse. Carlos Menem, na Argentina, foi outro exemplo notório. Mas a virada de Pérez foi mais -chocante, por sua história e por governar um país mais desigual, onde os desfavorecidos eram ampla maioria. A frustração popular explodiu com uma revolta sem precedentes no país, o Caracazo de 27 de fevereiro. A repressão aos saques e depredações pelo Exército e pela polícia política (a Disip) deixou mais de 2 mil mortos, a grande maioria gente pobre dos chamados cerros, as favelas da periferia de Caracas, que foi sepultada anonimamente e em segredo, em valas comuns.
O evento tornou-se um divisor de águas na história da Venezuela, tanto quanto o Bogotazo, de 1948, na Colômbia. Perderam legitimidade tanto Pérez quanto o sistema político criado pelo chamado Pacto de Punto Fijo, quando, após a queda do ditador Pérez Jiménez, os principais chefes políticos se reuniram na povoação do mesmo nome na casa de Rafael Caldera, líder do democrata-cristão COPEI e acertaram um regime de eleições livres, mas limitadas na prática à alternância de seu partido com a social-democrata ACD e de Caldera, com o banimento dos comunistas.
Foi nesse contexto que Chávez e o MBR-200 tentaram o golpe de fevereiro de 1992. Mobilizaram-se em várias cidades, mas não conseguiram capturar Pérez nem pôr sua mensagem no ar para mobilizar apoio popular. Desistiram após confrontos que deixaram 14 mortos e 130 feridos. Rendido, Chávez falou à tevê e pediu a seus partidários para desistirem “por enquanto”. Tornou-se, porém, um herói. Manifestações populares foram apoiá-lo em frente à prisão. Em novembro, fracassou outra tentativa de golpe militar por simpatizantes de Chávez na Marinha e Aeronáutica que resultou em 172 mortos, 40 dos quais em execuções extrajudiciais de civis e rebeldes rendidos.
Sucessão. Maduro saberá ser um novo Chávez?

Entretanto, Caldera rompeu com a COPEI e aliou-se à oposição de esquerda (inclusive comunistas) na chamada Convergência Nacional, isolou Pérez e o derrubou com um impeachment por corrupção em maio de 1993. Caldera foi eleito em dezembro, pôs fim a 35 anos de bipartidarismo e cumpriu a promessa de anistiar os militares golpistas. Mas a crise piorou e, em 1997, apelou ao FMI, voltou a retirar o subsídio aos combustíveis e ensaiou a privatização do petróleo, o que desencadeou novos protestos e garantiu a eleição de Chávez pelo recém-fundado Movimento V República, em 1998.
A cobertura por The Economist destacava sua promessa de reduzir o déficit público – grande à época, devido à queda do preço do petróleo a meros 9 dólares por barril, um mínimo histórico – e sugeria que, como o argentino Carlos Menem, o novo presidente venezuelano nomearia um economista “independente” como Domingo Cavallo para tranquilizar os investidores. A partir daí, a revista nunca mais deixou de errar em -suas avaliações sobre Chávez, cuja derrota previu praticamente a cada ano desde 2001. Errou ainda mais o presidente da Câmara de Comércio EUA-Venezuela, Antonio Herrera: descrevia Chávez como “um pragmático flexível que abandonou slogans de campanha e colaboradores inconvenientes com a maior facilidade”.
Como indicava o nome de seu partido, Chávez não se propunha apenas a fazer um governo de centro-esquerda, muito menos usar o populismo para alavancar reformas neoliberais. Queria refundar a república e foi o que fez. Tomou posse em fevereiro. Em abril, 88% dos eleitores aprovaram em referendo a convocação de uma Constituinte, formada em 95% por seus partidários, eleitos em julho.
Em dezembro, a nova Constituição foi aprovada com 72% dos votos. Além de rebatizar o país como República Bolivariana da Venezuela, aboliu o Senado, ampliou os poderes do presidente e das Forças Armadas e criou dois novos poderes independentes além dos três tradicionais: o Eleitoral e o Cidadão. A popularidade de Chávez continuou a aumentar, -tanto -pelas obras sociais promovidas pelas Forças Armadas quanto pela recuperação dos preços do petróleo que favoreceu ao acabar com a tradição venezuelana de burlar as quotas da Opep.
Por outro lado, começou a perder aliados de primeira hora, que o acusaram de “autocrata” e a ganhar a hostilidade da classe média e da Igreja. Mesmo assim, em 2000, foi reeleito sob a nova Constituição com uma maioria ainda mais ampla. Tratou de recuperar o controle estatal do setor de petróleo (minado pela abertura do setor a transnacionais desde Pérez e pela autonomia conferida à PDVSA pelo governo Caldera ao preparar sua privatização) e estabelecer a aliança com Fidel Castro, que lhe forneceu professores, médicos e assistência técnica em troca de petróleo.
A fúria da direita desembocou no fracassado golpe de abril de 2002. Chávez foi capturado e por um dia e meio, o empresário petroquímico Pedro Carmona, presidente da federação das indústrias, agiu como ditador com apoio da mídia, de Washington e do FMI, revogou a Constituição, anunciou a ruptura com Cuba e a Opep e anunciou a privatização do petróleo. Acabou expulso pelas massas populares mobilizadas pela militância chavista e pela ameaça de bombardeio pelos militares fiéis ao presidente, que também recebeu o apoio da maioria dos governos sul-americanos. Os antichavistas não se deram por vencidos. Apostavam no desgaste do governo ante a queda do preço do petróleo por efeito da crise estadunidense e promoveram um locaute nacional e a paralisação da PDVSA de dezembro de 2002 a fevereiro de 2003.
Foi um duplo erro da oposição. O golpe revelou seu perfil intolerante, truculento e elitista e a greve deu a Chávez oportunidade e apoio popular para afastar executivos e sindicalistas hostis, demitir 18 mil (metade dos funcionários) e assumir o controle total da estatal no momento em que os preços do petróleo voltavam a disparar e a economia se recuperava, proporcionando uma enorme ampliação dos programas sociais.
Além disso, a tentativa de golpe queimou as pontes entre o governo e a oposição tradicional. Até então, o -discurso chavista mantinha-se próximo daqueles do peruano Velasco e do panamenho Torrijos (embora mais democrático que ambos), identificando o “bolivarianismo” como uma terceira via nacionalista e popular entre o capitalismo e o socialismo clássico. A partir de 2004, radicalizou-se e em janeiro de 2005, no V Fórum Social Mundial, Chávez adotou a palavra de ordem marxista do “socialismo do século XXI”, proposta pelo sociólogo e professor da Unam Heinz Dieterich Steffan, e formalizou acordo com Cuba na Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América (Alba). Em 2007, transformou seu movimento no Partido Socialista Unificado Venezuelano (PSUV).
Em 2004, Chávez derrotou nas urnas, sem dificuldade, a tentativa da oposição de tirá-lo do poder por meio do mecanismo de revogação de mandato criado por sua própria Constituição e, em 2005, a oposição cometeu outro grande erro ao boicotar as eleições parlamentares para tentar deslegitimá-las. Conseguiu apenas dar uma maioria esmagadora ao chavismo e lhe possibilitar aprovar o que quisesse.
O prestígio internacional de Chávez cresceu com a eleição de seu aliado Evo Morales, na Bolívia, em 2005, e de Rafael Correa, no Equador, e Daniel Ortega, na Nicarágua no ano seguinte, que se uniram à Alba e promoveram reformas sociais e constitucionais semelhantes. A rejeição das elites acentuou então sua face mais brutal e racista. Chávez não só foi classificado como “tirano” pela mídia conservadora de todo o continente, como regularmente ameaçado de morte e ofendido como “macaco”, “gorila”, “negro” e “zambo (cafuzo) de m…” nos meios de seu país, assim como Evo foi rejeitado por ser “índio” ou “colla”.
Quanto ao desempenho econômico, a era Chávez é medíocre, mas não desastrosa. O crescimento médio do PIB, desde a sua posse é de 2,75% ao ano, melhor que o do México (2,39%), e um pouco abaixo do Brasil (3,20%), Argentina (3,58%) e Chile (3,97%). Nunca houve um programa de estabilização e a inflação segue na casa dos 20% (era 36% no último ano de Caldera), similar à da Argentina (maquiagem à parte) e acima do resto da região. Mas a melhora dos indicadores sociais é clara: a população atingida pela fome (segundo a FAO) caiu de 20%, em 2002, para 2%, em 2012 e o índice Gini de concentração de renda caiu de 48,65, em 1992, para 39,28, em 2009 (o do Brasil foi de 60,02 para 54,27).
Chávez caminhava para ser um novo Fidel Castro

A exasperação dos conservadores atingiu o auge após a não renovação da concessão para tevê aberta da arqui-inimiga e golpista RCTV (que continua a transmitir a cabo), mas foi fútil. Apesar das periódicas dificuldades econômicas e das previsões de analistas em contrário, Chávez venceu todas as eleições desde 1998, exceto (por margem minúscula) o plebiscito de 2007 sobre a reforma socialista da Constituição. Isso foi parcialmente compensado pela vitória no plebiscito de 2009, que lhe permitiu candidatar-se ao quarto mandato em 2012 e novamente vencer, apesar da oposição do ex-golpista Capriles ao recorrer a uma estratégia mais inteligente, se comparar a Lula e aceitar o discurso social do bolivarianismo.
E o que é o bolivarianismo? Apesar da ira das direitas latino-americanas e das esperanças de parte das esquerdas, não chega a ser socialismo no sentido que Che Guevara dava à palavra. Chávez teve o apoio de um círculo minoritário de empresários, a chamada “boliburguesia” e não parece cogitar de estatização em massa ao estilo stalinista. Latifúndios foram expropriados para a reforma agrária e algumas transnacionais hostis foram nacionalizadas, mas essas medidas só se destacam contra o fundo de extremismo neoliberal que as precedeu. Em outras épocas, teriam sido reconhecidas como reformistas, como foram as de governos nacionalistas da Índia, Egito, Peru e outros países do chamado “terceiro mundo” até os anos 1970. Em nenhum momento o chavismo censurou a imprensa ou rompeu com as práticas da democracia. Acatou sem discutir a derrota da proposta de mais “socialismo”, em 2007, e o ímpeto reformista arrefeceu à espera de condições políticas mais favoráveis.
O que não dá para negar foi seu caráter personalista e supercentralizado. A teimosia de Chávez em decidir sobre praticamente tudo, não designar sucessor, romper com ex-aliados que dele discordavam e conferir poder demais a incompetentes ou corruptos que mostrem fidelidade incondicional prejudicam visivelmente sua popularidade. Nem por isso ele mudou de atitude, mesmo ao saber da gravidade de sua doença. Assinou leis e decretos no leito do hospital e, como se pensasse ser imortal e insubstituível, não cogitou de um afastamento temporário e muito menos ceder a candidatura. Até o gesto simbólico de 10 de dezembro, no qual entregou a espada de Bolívar, símbolo do poder presidencial, a Maduro.
Apesar dos defeitos, Chávez permanecerá como um rosto – talvez não o mais bem-sucedido, mas certamente o mais ruidoso e expressivo – da virada histórica da América Latina deste início do século XXI, na qual as massas populares nativas e mestiças, após cinco séculos de marginalização, começam a conquistar a inclusão econômica e o protagonismo político e as elites a ceder parte do que sempre julgaram ser seu direito de nascença. Não se trata de ideias fundamentalmente novas, mas de dar conteúdo real a uma retórica nacionalista que é moeda corrente, mas sem lastro, desde o tempo de Bolívar – o que se mostra, para os privilegiados, muito mais assustador.
Por suas origens e pela coerência, embora rude e teimosa (e nem sempre perspicaz), com os próprios ideais declarados, o venezuelano conquistou um papel simbólico que líderes mais pragmáticos e ambíguos não podem ocupar inteiramente, mesmo se governam países maiores com índices de popularidade ainda mais altos. Seus esforços de cooperação e articulação ideológica internacional contra o imperialismo ganharam uma projeção que ultrapassa o continente: as esquerdas francesas e gregas, por exemplo, admitem sua influência. Com um rosto com o qual o povo pode se identificar, desafiou as elites e as potências com uma voz que o cidadão comum pode entender e esforçou-se por cumprir suas promessas e encorajar as massas a se apossar de fato da pátria que sempre lhe disseram ser sua, sem que isso saísse da teoria. É bem possível que, como outros líderes do passado, inspire gerações – e se falhar nisso, terá sido mais pela relutância em fortalecer discípulos e sucessores com luz própria do que por quaisquer outros erros.

Morte de Chávez abre corrida política

Morte de Chávez abre corrida política

Morte abre disputa pelo poder na Venezuela
Autor(es): Por Fabio Murakawa | De São Paulo
Valor Econômico - 06/03/2013
 

O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, morreu ontem em um hospital de Caracas após travar batalha de 20 meses contra um câncer. O anúncio foi feito pelo vice-presidente, Nicolás Maduro, em discurso na televisão. Após a notícia, os chefes das Forças Armadas também foram à TV para garantir lealdade a Maduro, apontado pelo próprio Chávez como seu sucessor. O presidente regressou de Havana, onde se submeteu à última de quatro cirurgias, há duas semanas, e não era visto em público desde 10 de dezembro

A morte do presidente Hugo Chávez ontem em Caracas deu início à corrida pela sua sucessão na Venezuela. Segundo analistas, a princípio essa disputa será travada apenas entre seus seguidores e a oposição venezuelana. Mas, no médio prazo, o vice-presidente Nicolás Maduro - escolhido por Chávez para ser seu sucessor - pode ter problemas para manter a unidade em torno de sua figura.
Pela Constituição, com a morte do governante, o presidente da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello, tem até 30 dias para marcar uma data para novas eleições.
A oposição, derrotada pelo chavismo tanto no pleito presidencial de outubro quanto nas eleições para governadores, em dezembro, vem sinalizando desde o início do ano que mais uma vez apresentará um candidato único para concorrer à Presidência. Ainda não há consenso, mas o nome mais forte continua sendo o do governador de Miranda, Henrique Capriles. Ele obteve cerca de 45% dos votos na eleição para presidente, contra 55% de Chávez, e foi um dos três governadores de oposição eleitos em janeiro, contra 23 governistas.
Ontem, Capriles pediu unidade à Venezuela e expressou sua "solidariedade a todos os familiares e seguidores do presidente".
Do lado chavista, a questão foi resolvida pelo próprio Chávez. Antes de embarcar para tratamento em Cuba em 10 de dezembro, ele anunciou que, se por qualquer motivo, se visse impedido de retornar à Presidência, seu sucessor seria Maduro. "No curto prazo, a comoção gerada pela morte de Chávez certamente vai gerar uma unidade", diz Luiz Pinto, pesquisador do Instituto de Estudos Latino-Americanos da Universidade de Columbia. "Uma vez ganhas as eleições, a situação fica mais complicada, e algumas divisões dentro do chavismo podem ser expostas."
Segundo ele, há uma disputa de poder entre lideranças chavistas que têm ascendência sobre algumas instituições, como as Forças Armadas e a estatal de petróleo PDVSA - responsável por 95% das exportações do país.
Além de Maduro e Cabello, vinham sendo apontados como possíveis sucessores de Chávez o presidente da PDVSA, Rafael Ramírez, o irmão do presidente morto e governador do Estado de Barinas, Adán, e o atual ministro das Relações Exteriores, Elías Jaua. Até o momento, no entanto, as maiores lideranças do chavismo têm se mostrado coesas.
Para Héctor Briceño, professor do Centro de Estudos de Desenvolvimento da Universidade Central da Venezuela, o discurso de Maduro - em que disparou contra o "imperialismo americano" e a "oposição burguesa" - momentos antes de ele próprio anunciar a morte de Chávez foi um chamado à união do chavismo em torno de sua figura. "O discurso foi moldado para preparar esses setores para uma notícia mais forte sobre a saúde do presidente", disse Briceño ao Valor cerca de dez minutos antes do anúncio da morte do líder bolivariano.
Segundo ele, até o momento não houve nenhum sinal importante de ruptura dentro do chavismo, apesar de rumores de que setores das Forças Armadas estavam insatisfeitos com o "vazio constitucional" que se havia criado com o afastamento do presidente.

A MORTE DE CHÁVEZ / ENCRUZILHADA VENEZUELANA

A MORTE DE CHÁVEZ / ENCRUZILHADA VENEZUELANA

CÂNCER DERROTA HUGO CHÁVEZ
O Globo - 06/03/2013
 

transição Morte do presidente 3 meses depois da última cirurgia encerra ciclo de 14 anos no poder e joga o país num cenário de incerteza. Em desrespeito à Carta, Maduro assume para convocar eleições
Janaína Figueiredo
BUENOS AIRES Poucas horas depois de anunciar que Hugo Chávez estava atravessando o momento mais difícil de sua luta contra o câncer, o vice-presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, confirmou, com a voz embargada de emoção, a morte do presidente, aos 58 anos. Vítima de um câncer na região da pélvis, Chávez já não era visto em público há 85 dias. Reeleito em outubro para um quarto mandato de seis anos, ele sequer chegou a tomar posse no evento marcado para o dia 10 de janeiro. O presidente havia regressado ao país há duas semanas, estava sendo submetido a rigorosas sessões de quimioterapia e não conseguia mais falar, segundo o governo. A morte de Chávez encerra um ciclo de 14 anos no poder, marcados por um forte culto à personalidade do presidente e joga o país num cenário de incerteza, com dúvidas sobre a continuidade do chavismo e sobre a capacidade de união da oposição.
A Constituição bolivariana, uma das primeiras grandes iniciativas de Chávez, estabelece que, com a morte do chefe de Estado, o poder deve ser transferido para o presidente da Assembleia Nacional, o chavista e também militar reformado Diosdado Cabello, que seria o encarregado de convocar eleições num prazo de 30 dias. Mas num sinal de desrespeito à Carta, o chanceler Elías Jaua informou que o vice assumirá para convocar novas eleições. Ontem, a data dos futuros comícios não foi confirmada pelas autoridades do Conselho Nacional Eleitoral (CNE) e o provável adversário do chavismo nas urnas como candidato da oposição, o governador de Miranda, Henrique Capriles, enviou sua solidariedade à família Chávez pelo Twitter e, em comunicado, cobrou o cumprimento da Constituição.
- Com esta dor imensa por uma tragédia histórica que assola nossa Pátria, convocamos todos os compatriotas a ser vigilantes da paz, do amor e do respeito - declarou Maduro, rodeado por todo o Gabinete chavista.
Jaua informou que o corpo do presidente será levado hoje para a Academia Militar da Venezuela, em Fuerte Tina, em cuja capela será velado até sexta-feira. Neste dia, às 10h (horário local), haverá o funeral com a presença de chefes de Estado.
teorias da conspiração
A partir de agora, o vice Nicolás Maduro deve assumir o papel de candidato do Palácio Miraflores nas próximas eleições. Desde que Chávez partiu para sua última cirurgia em Cuba, em dezembro, e anunciou seu desejo de que Maduro fosse o candidato oficial em eventuais eleições, o vice ampliou seus espaços de poder. Ontem, após chefiar reunião da Direção Política e Militar da Revolução Bolivariana, ele endureceu o discurso e acusou os EUA e a direita venezuelana de estarem por trás de uma conspiração para criar um clima de caos que justifique uma intervenção militar estrangeira, nos mesmos moldes da Líbia. Maduro denunciou supostos contatos entre um adido militar americano em Caracas, identificado como David del Mónaco, e militares venezuelanos, e ordenou sua expulsão do país. No mesmo pronunciamento, o vice, que referiu-se ao presidente como "o Libertador do século XXI", assegurou que os "inimigos da revolução" seriam os responsáveis pela "inoculação" do câncer em Chávez e antecipou que uma comissão de cientistas estudará o caso em detalhe.
- Temos pistas - declarou Maduro, comparando o caso ao do líder palestino Yasser Arafat.
As especulações do vice provocaram debate nas redes sociais e temor entre jornalistas e políticos. Para Vladimir Villegas, ex-chavista e irmão do ministro das Comunicações, Ernesto Villegas, "o tom ameaçador de Maduro antecipa etapa de tensão".
- A sensação é de que esta campanha será feroz - comentou Villegas.
Já a deputada opositora Maria Corina Machado afirmou que a oposição deve preparar-se para exigir eleições "limpas e transparentes".
- O governo se engana se acha que vai nos intimidar com seus ataques - afirmou Maria Corina, que defendeu a candidatura de Capriles, consenso praticamente selado entre os opositores.
Com ânimos acirrados, cinco meses após a última vitória de Chávez nas urnas, o país será cenário de nova queda de braço eleitoral que definirá o futuro da revolução chavista.

MORRE CHÁVEZ E EXÉRCITO DÁ APOIO AO VICE DA VENEZUELA

MORRE CHÁVEZ E EXÉRCITO DÁ APOIO AO VICE DA VENEZUELA

HUGO CHÁVEZ 1954 - 2013
O Estado de S. Paulo - 06/03/2013
 

Após 2 anos de luta do presidente contra câncer, venezuelanos vivem fim de uma era; Herdeiro político, Maduro reforçou que o chavismo permanecerá; Governo acusou os EUA pela doença e expulsou diplomatas
Morreu ontem, aos 58 anos, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez Frias, após quase dois anos de luta contra um câncer na região pélvica. A morte foi anunciada pelo vice e herdeiro político, Nicolás Maduro. "Recebemos a informação mais dura e trágica que podemos transmitir ao nosso povo. Morreu nosso comandante Chávez", disse, em cadeia nacional. Maduro reforçou que o governo chavista permanecerá o mesmo. Ele foi respaldado pelo ministro da Defesa, Diego Molero, que foi à TV dar "total garantia" das Forças Armadas a Maduro e ao presidente da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello. A Constituição prevê eleições 30 dias após a morte do presidente. "Vamos cumprir a Constituição, para o bem da república", garantiu Molero, sem mencionar eleições. Antes do anúncio da morte de Chávez, Maduro chegou a acusar os Estados Unidos pela doença do presidente e determinou a expulsão dos diplomatas dos EUA em Caracas David Delmonico e Deblin Costal. Após 14 anos de governo, Hugo Chávez adotou o mais radical discurso anti-EUA na América Latina, apesar de continuar a fornecer petróleo para Washington. Projetos sociais garantiram a popularidade necessária para transformá-lo em um campeão das urnas: perdeu somente uma eleição em 15 disputadas. Em pronunciamento, a presidente Dilma Rousseff descreveu Chávez como "amigo do Brasil".
Morre o líder bolivariano
Hugo Chávez perde luta contra o câncer; Constituição prevê eleição nos próximos 30 dias
As complicações decorrentes de um câncer detectado em 2011 puseram fim ontem à era de Hugo Chávez na Venezuela. Após 14 anos de governo, o líder bolivariano converteu-se na mais radical personalidade anti-EUA dos últimos anos na América Latina - apesar de ser um dos principais fornecedores de petróleo de Washington.
Beneficiado pela alta do preço do produto na última década, Chávez manejou mais de US$ 1 trilhão da receita do petróleo do país. Seu investimento em projetos sociais garantiu a popularidade que o transformou em um campeão das urnas. Perdeu apenas 1 dos 15 processos eleitorais a que se submeteu durante o período em que permaneceu no poder.
Elevado quase à condição de divindade por partidários, Chávez, no entanto, era tido como um líder autocrático pelos adversários - que o acusavam de distribuir a riqueza venezuelana com países aliados a seu arco esquerdista.
O líder venezuelano também tinha uma relação de confronto com a mídia privada e causou o fechamento de emissoras de rádio e TV. Sua doença foi tratada como segredo de Estado.

MORTE DE CHÁVEZ ABRE CAMINHO PARA A SUCESSÃO NUM PAÍS DIVIDIDO E EM CRISE - O FIM DE UMA ERA

MORTE DE CHÁVEZ ABRE CAMINHO PARA A SUCESSÃO NUM PAÍS DIVIDIDO E EM CRISE - O FIM DE UMA ERA

HUGO CHÁVEZ PERDE A BATALHA
Autor(es): » RODRIGO CRAVEIRO » GABRIELA FREIRE VALENTE
Correio Braziliense - 06/03/2013
 

Um dos mais controversos dirigentes políticos da América Latina, Hugo Chávez governava a Venezuela desde 1999. Foi golpista (em 1992, acabou preso) e também vítima de um golpe (em 2002, chegou a ser apeado da Presidência por quase 48 horas). Mudou a Constituição para garantir sucessivas reeleições e se perpetuar no poder. Teve a carreira interrompida ontem, aos 58 anos, quando perdeu a luta que travava contra um câncer. Populista, ressuscitou o bolivarianismo, que batizou de "socialismo do século 21", e fez escola no continente, deixando seguidores como Rafael Correa, no Equador; Evo Morales, na Bolívia; e o deposto Fernando Lugo, no Paraguai. No próprio país, apontou o vice, Nicolás Maduro, como sucessor. O discípulo não perdeu tempo: anunciou que convocará nova eleição presidencial dentro de 30 dias. Quer ser testado nas urnas logo. De preferência, com a população ainda comovida com a perda do caudilho.
Dilma cancela viagem e vai a velório do amigo.
Enterro foi marcado para a sexta-feira.
Obama prevê tempo de mudanças no país.
Bolivarianismo deve perder forca política.
Presidente venezuelano sucumbe ao câncer, descoberto em junho de 2011. Após assumir o poder, vice Nicolás Maduro convocará eleições "nos próximos 30 dias". Enterro está marcado para a sexta-feira

“Patriotas que nos escutam, que nos veem, em todo o território da pátria e nossos irmãos do mundo. (…) Hoje, acompanhávamos sua filha, seu irmão e seus familiares quando recebemos a informação mais dura e mais trágica que podemos transmitir ao nosso povo. Às 16h25 de hoje (17h55 em Brasília), 5 de março, faleceu o comandante presidente Hugo Chávez Frías.” Visivelmente emocionado, o vice-presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, informou que Chávez acabara de sucumbir a uma batalha de quase dois anos contra o câncer. O anúncio foi o último capítulo de um dia tumultuado. Após se reunir com o Conselho de Ministros e com o Diretório Político-Militar da Revolução Bolivariana, Maduro atacou duramente “os inimigos da pátria”, acusou-os de conspirar contra Chávez e ordenou a expulsão dos adidos norte-americanos da Aeronáutica David Delmonaco e Devlin Kostal. “Rejeitamos totalmente a alegação do governo de Caracas que envolve os EUA em algum tipo de conspiração para desestabilizar o governo da Venezuela”, afirmou o Pentágono, por meio de um comunicado. Cerca de duas horas depois, o vice retornou à tevê e fez o comunicado fúnebre. Pela manhã, María Gabriela, uma de suas filhas, pedira à nação, por meio do microblog Twitter, que orasse pelo pai.

O corpo de Chávez, de 58 anos, será trasladado hoje do Hospital Militar Dr. Carlos Arvelo para a Academia Militar da Venezuela. O velório na capela ardente durará até sexta-feira, data do sepultamento, marcado para as 10h (11h30 em Brasília), na presença de chefes de Estado e de governo. Desde ontem, o país vive luto oficial de sete dias. Amado e odiado, polêmico e sem papas na língua, o mandatário que forjou sua ideologia na figura do conquistador Simón Bolívar e adotou o socialismo do século 21 como a alma de seu governo morreu no mesmo dia que Josef Stalin, 60 anos depois. A presidente Dilma Rousseff considerou a perda “irreparável” e lembrou que Chávez era uma liderança comprometida com os povos da América Latina.

Com a ausência do venezuelano, surgem dúvidas sobre o futuro do chavismo e de sua revolução. O chanceler, Elías Jaua, confirmou que Maduro assume o poder interinamente. “Estas foram as ordens do comandante presidente Hugo Chávez”, disse. “No momento em que se declara a ausência absoluta, ele terá que convocar eleições dentro de um mês, provavelmente para 7 de abril”, explicou ao Correio Tony De Viveiros, cientista político da Universidad Simón Bolívar (em Caracas). Principal líder da oposição, Henrique Capriles Radonski, governador do estado de Miranda, expressou solidariedade para com a família do presidente e exortou a população a se unir. “Nesses momentos difíceis, devemos demonstrar nosso profundo amor e respeito à nossa Venezuela! Unidade da família venezuelana!”, escreveu, por meio do microblog Twitter.

De acordo com Maduro, Chávez morreu após lutar “duramente” contra o câncer, “com o amor do povo, com as bênçãos do povo e com a lealdade mais absoluta de seus companheiros e companheiras de luta e com o amor de todos os seus familiares”. O vice-presidente ordenou a mobilização especial de toda a Força Armada Nacional Bolivariana e da polícia, a fim de garantir a paz na Venezuela. “Nessa dor imensa, dessa tragédia histórica que toca a nossa Pátria, chamamos a todos os compatriotas a sermos os vigilantes da paz, do respeito e do amor”, declarou Maduro. “As bandeiras de Chávez serão levantadas com honra e com dignidade. Comandante, onde o senhor estiver, obrigado, mil vezes obrigado”, acrescentou, entre lágrimas. O pranto também tomou conta de simpatizantes, que se reuniram, na noite de ontem, diante do Hospital Militar Dr. Carlos Arvelo e nas praças Bolívar, espalhadas pelo país. Nesses locais, o choro se misturava a discursos acalorados em defesa da revolução.

Em uma demonstração de obediência, a Força Armada Nacional Bolivariana prometeu cumprir a Constituição. “Nos encontramos unidos para cumprir e fazer cumprir os preceitos constitucionais e a vontade do nosso líder, comandante Hugo Rafael Chávez Frías”, disse Diego Molero, ministro da Defesa, que expressou apoio a Maduro, a Diosdado Cabello (presidente da Assembleia Nacional) e aos demais poderes do Estado. Por sua vez, o general Wilmer Barrientos, chefe do comando estratégico operacional das Forças Armadas da Venezuela, comentou que as fronteiras, incluindo os mares, estavam sendo vistoriados. “Até o momento, tudo segue em plena normalidade”, afirmou à rede Telesur.

Por telefone, de Miami, o médico venezuelano José Rafael Marquina — que garantia ter informações privilegiadas sobre o prontuário médico do presidente — explicou ao Correio que um dos pulmões de Chávez estava totalmente invadido pelo tumor. “A falência respiratória continuou progredindo até o momento em que mais nada funcionava, nem mesmo a ventilação mecânica”, disse. Segundo ele, o tumor teve início no Psoas, um músculo da pélvis, se espalhou pela coluna e atingiu os pulmões.

Governo

Apesar do carisma considerado único de Chávez, a Venezuela deverá experimentar apenas uma pequena mudança na forma de governo. A opinião é de Alberto Pfeifer, especialista em América Latina pela Universidade de São Paulo (USP). “Se Chávez era dono de uma retórica inigualável, Maduro é dotado do populismo, herdado de seu mentor”, comentou à reportagem. O especialista alerta para o risco de conflitos internos a médio prazo. “A figura de Chávez era aglutinadora. Ainda não sabemos se Nicolás Maduro terá essa característica.”

Professora da Universidad Simón Bolívar, Natalia Brandler acredita que os chavistas precisarão realizar várias manobras, caso queiram se fortalecer. “Eles têm que jogar várias cartas ao mesmo tempo: manter a polarização, culpar a oposição por todos os males econômicos e transformar Chávez numa figura mítica e religiosa. Um líder que deixou um último desejo: o de que o povo votasse no intragável Maduro para preservar a Revolução”, explicou. Apesar de a oposição ter perdido o poder de mobilização, ela já começa a trabalhar para desconstruir a imagem de Maduro. Nas últimas semanas, os antichavistas organizaram protestos contra a deterioração econômica do país, que enfrenta escassez de produtos e desvalorização da moeda.


Sigo aferrado a Cristo e confiado em médicos e enfermeiros. Até a vitória sempre! Viveremos e venceremos!”
Hugo Chávez, presidente da Venezuela, na última mensagem publicada no microblog Twitter, em 18 de fevereiro

Suas bandeiras serão levantadas com honra e dignidade. Comandante, onde estiver, obrigado, mil vezes obrigado”
Nicolás Maduro, vice-presidente da Venezuela


Gratidão e despedida

Antes do anúncio da morte de Chávez, a filha mais nova do presidente, María Gabriela (D), agradeceu o apoio de admiradores e pediu orações em intenção do pai. “Não fique triste, meu povo. Elevemos nossas orações e não percamos em nenhum momento a fé”, escreveu, em sua página no Twitter. Horas mais tarde, ela disse ser “eternamente grata” aos que lhe enviaram mensagens de força e lembrou o legado de Chávez. “Devemos seguir seu exemplo. Devemos seguir construindo a Pátria! Até sempre, meu papai”

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Venezuela entra em clima de campanha

Venezuela entra em clima de campanha

Sem certeza sobre Chávez, oposição e governo acirram campanha antecipada
Autor(es): Roberto Lameirinhas
O Estado de S. Paulo - 25/02/2013
 
As recentes informações que sugerem uma piora no estado de saúde do presidente venezuelano, Hugo Chávez, acabaram precipitando a campanha para sua sucessão. Líderes da oposição intensificaram a pressão sobre a aliança Mesa da Unidade Democrática (MUD) para que defina rapidamente um candidato.
No mesmo sentido, o vice-presidente, Nicolás Maduro, designado por Chávez como seu sucessor, passa a ocupar cada vez mais os espaços da mídia em inaugurações e solenidades oficiais - na maioria das vezes, emulando gestos e repetindo frases que sempre caracterizaram o líder bolivariano.
Embora o governador do Estado de Miranda e candidato presidencial derrotado por Chávez em 7 de outubro, Henrique Capriles, se perfile como o nome natural da MUD, o prefeito de Caracas, Antonio Ledezma, cobrou, durante um ato político no sábado à tarde, uma decisão definitiva da aliança opositora.
Em meio a gritos de "onde está Capriles" dos cerca de 300 manifestantes reunidos na Praça Brion de Chacaíto, Ledezma defendeu, sem mencionar nomes, uma rápida definição da candidatura opositora.
O prefeito advertiu seus companheiros da oposição de que o sigilo e a escassez de informações sobre o estado de saúde de Chávez é parte de um "plano militar" para surpreender os antichavistas e encontrá-los ainda desorganizados no momento em que, finalmente, ficar definida a necessidade de uma nova eleição. "Antes que se eleja o sucessor de Bento XVI, teremos de contar com um candidato", disse. "Precisamos estar preparados para, se houver eleições, cortar seus bigodes", acrescentou, referindo-se a Maduro.
A Constituição venezuelana prevê a convocação de eleições para o prazo de 30 dias a partir da declaração de incapacidade de Chávez para exercer a presidência.
Por seu lado, Maduro tem intensificado suas aparições na mídia oficial, inaugurando obras e presidindo solenidades. O vice-presidente, a quem Chávez entregou a "espada de Bolívar" na emocionante despedida de 8 dezembro - antes de partir para Cuba para a mais recente cirurgia para combater o câncer na região pélvica -, adotou de vez o gestual e a retórica do líder bolivariano.
"O chavismo manobra com uma série de pesquisas de opinião elaborada pelo instituo Hinterlaces, que mostra um apoio popular ainda significativo para o governo", declarou ao Estado o consultor de política da empresa EcoLatina, Miguel Mendoza.
"Com a comoção causada por uma eventual ausência de Chávez, Maduro teria boas chances de manter o chavismo no poder por mais um mandato. Ao mesmo tempo, a oposição tem uma delicada equação para resolver: articular a organização de uma campanha eleitoral, contornando suas óbvias divisões internas, sem parecer um grupo de políticos oportunistas ante a doença de um líder popular."
Durante o ato político da oposição, Ledezma ironizou as declarações de Maduro de que conversou com Chávez por cinco horas no sábado. O vice-presidente mencionou a conversa com o líder um dia depois de dois ministros, o das Comunicações e Informação, Ernesto Villegas, e o chanceler, Elías Jaua, terem informado sobre a persistência da insuficiência respiratória, que ampliou a apreensão de seus aliados.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Chávez reeleito presidente da Venezuela

Chávez reeleito presidente da Venezuela

08.10.2012 
 Por Ana Cristina Pereira, Caracas

Chávez celebra a vitória no Palácio Miraflores  
Chávez celebra a vitória no Palácio Miraflores (Jorge Silva/Reuters)
Eram dez da noite (3h30 em Lisboa) quando a presidente do Conselho Nacional Eleitoral, Tibisay Lucena, leu o primeiro boletim oficial: Hugo Chávez ganhou as eleições presidenciais na Venezuela com 54,42% dos votos (7.444.082); o opositor Henrique Capriles arrecadou 44,97% (6.151.544).

"Obrigado ao meu amado povo! Viva a Venezuela! Viva Bolívar!", agradeceu o Presidente, alguns minutos depois, através da sua conta no Twitter, a mais popular rede social no país. Àquela hora, já apoiantes seus celebravam nas ruas.

Há décadas que os venezuelanos não se empenhavam tanto numas eleições. Apurados mais de 90% dos votos, tinham comparecimento 80,94% dos eleitores.

Capriles foi o primeiro a discursar. Fê-lo na sua sede de campanha: "Iniciamos a construção de um caminho e aí estão mais de seis milhões de pessoas à procura de um melhor futuro.”

O candidato da Mesa da Unidade Democrática dirigiu-se aos eleitores que votaram por ele e aos que não: “Quero dizer-lhes que contem comigo, que estou ao seu serviço, mas também quero dizer aos outros venezuelanos que contem comigo.” E felicitou Chávez: “Espero que leia com grandeza a expressão do nosso povo. Há um país que tem duas visões e ser um bom Presidente significa trabalhar para a união de todos os venezuelanos.”

Eram já 22h30 (5h00 em Lisboa) quando Chávez se dirigiu ao balção do povo, no palácio de Miraflores, e fez o seu discurso. O Presidente felicitou “os compatriotas que votaram pela revolução” e os opositores por terem reconhecido de imediato os resultados eleitorais. A “batalha” fora democrática. “Graças a Deus e à consciência do nosso povo, não houve nada que manchasse a batalha perfeita e a vitória perfeita.”

O líder do Partido Socialista Unido da Venezuela espera ser melhor Presidente do que foi nestes 13 anos que já conta no cargo. “Convido-os a que sejamos cada dia melhores venezuelanos e melhores venezuelanas para acelerar a construção da Venezuela potência. Quero comprometê-los a todos e a todas, incluindo os sectores da oposição.”

Eleito em 1998 e reeleito em 2000, a fase da lua-de-mel, Chávez enfrentou uma forte oposição em 2002/2003, que incluiu um golpe de estado relâmpago e uma greve petrolífera. Ultrapassou um referendo revogatório em 2004 e foi reeleito em 2006. Com a vitória de ontem, garante a presidência até 2019, somando 20 anos.

As reportagens na Venezuela são financiadas no âmbito do projecto Público Mais

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Um chavismo sem Chávez é possível?

Um chavismo sem Chávez é possível?
Economia profundamente reestruturada, apoio popular que o passar dos anos não erodiu, candidatos à sua sucessão... Uma derrota de Hugo Chávez – que não é prevista por nenhuma pesquisa – nas eleições de 7 de outubro ou sua morte conduziriam ao fim do processo político ao qual ele deu início?
por Steve Ellner
 "Um favor é sempre obtido em troca de outro”, admite Joanna Figueroa. Essa moradora de Viñedo, bairro popular da cidade costeira de Barcelona, no leste da Venezuela, prometeu trabalhar pela reeleição de Hugo Chávez desde que o Estado lhe proporcionou um teto por meio da Grande Missão Habitação, um ambicioso programa de moradia social. Ela própria construiu sua casa, em meio a uma “equipe de trabalhadores” formada por um pedreiro, um encanador e um eletricista nomeados por um conselho comunitário. Seu trabalho consistiu em misturar o cimento. “O amor que recebemos é pago pelo amor que damos de volta”, professa, retomando o lema em uso entre os partidários de Chávez. O sucesso desse refrão, ouvido em todo o país, reflete o vínculo emocional que existe entre muitos venezuelanos e seu presidente.
A eleição em 7 de outubro próximo cristaliza questões consideráveis. Embora o candidato da oposição Henrique Capriles Radonski goste de se apresentar como um renovador, sem vieses ideológicos, ele também não deixa de pertencer ao conservador Partido da Justiça (PJ), que defende os interesses dos investidores privados e vê com desconfiança qualquer intervenção do Estado na economia. A oposição amadureceu, no entanto, desde seu golpe fracassado de 2002 e de sua decisão, tomada por despeito na esteira dos acontecimentos, de boicotar as eleições nacionais. Agora, seus líderes participam do processo eleitoral e demonstram apoio fervoroso à Constituição de 1999, aprovada por uma maioria esmagadora dos votos e a qual tinham rejeitado na época. Eles chegaram até mesmo a se unir em torno de um candidato comum, investido em fevereiro depois de uma primária.
O bom balanço da Missão Habitação, que forneceu um teto para milhares de famílias de baixa renda envolvendo-as na aplicação do programa no âmbito dos bairros, provavelmente contribui para a persistente popularidade de Chávez, que continua à frente nas pesquisas. A oposição tenta inutilmente proclamar que tem a vitória, mas um certo desencorajamento emerge. Figura influente da direita e adversário ferrenho de Chávez, o empresário da comunicação Rafael Poleo recentemente desautorizou a candidatura de Capriles, considerado “incapaz de ir aonde quer que seja”. A declaração se seguiu à publicação em maio de uma pesquisa de opinião que dava 43,6% dos votos ao presidente em exercício, contra apenas 27,7% para Capriles. O balanço do governo Chávez recolheu por sua vez 62% de opiniões favoráveis − uma pílula que se torna ainda mais amarga quando se sabe que o autor da pesquisa, o Instituto Datanalisis, pertence a Vicente Leon, fiel partidário da oposição.
A popularidade que Chávez parece usufruir não deixa de surpreender, dados os seus treze anos de poder e o cansaço que tal longevidade instala necessariamente na opinião pública. Sua candidatura poderia sofrer de incertezas relacionadas ao seu câncer, tornado público em 30 de junho de 2011 (sem que tenham sido revelados o local e a gravidade da doença). A oposição também não deixou de denunciar a falta de visão do presidente, que se recusou a nomear um substituto capaz de assegurar a continuidade do poder em caso de vacância precipitada. Dentro e fora do país, os meios de comunicação próximos aos negócios exploram de bom grado os problemas de saúde do chefe de Estado venezuelano para minorar suas chances de reeleição. Como indica um estudo realizado pelo jornalista Keane Bhatt, o duelo sob os trópicos entre a “fragilidade de Chávez” e a “energia juvenil” de Capriles se impôs como um clássico na produção da Reuters, da Associated Press e do Miami Herald.1
A irrupção da doença também revive a espinhosa questão da liderança no seio do movimento de Chávez, que começa a reconhecer que a concentração do poder em suas mãos não tem só vantagens: enquanto seus ministros vêm e vão, o presidente – cujo retrato adorna quase todos os cartazes bolivarianos – reina como a única encarnação de um processo político que parece só depender dele.
Durante uma visita ao Brasil, em abril de 2010, um repórter perguntou a Chávez se ele planejava um dia dar lugar a outro dirigente: “Eu não tenho um sucessor em vista”, retrucou. É esse o caso ainda hoje? No ano passado, ele fez uma concessão a um de seus ex-assessores, o acadêmico espanhol Juan Carlos Monedero, que acabara de alertá-lo contra os perigos de um “hiperliderança” na Venezuela: “Eu preciso aprender a delegar mais poder”. Durante os períodos em que os tratamentos o afastavam dos negócios, vários políticos ocuparam o vazio e surgiram como potenciais sucessores. Notadamente, o atual ministro das Relações Exteriores, Nicolás Maduro, um ex-líder sindical que presidiu a comissão que esteve por trás da nova legislação trabalhista e que dispõe de sólidos apoios entre organizações dos trabalhadores. Ou ainda o vice-presidente executivo Elías Jaua, muito popular entre as bases militantes do movimento chavista. Sem mencionar o presidente da Assembleia Nacional, o pragmático Diosdado Cabello, um ex-tenente que tem fortes apoios no Exército. Apesar da onipresente tutela de Chávez, “alguns de nós pensamos que seria difícil continuar o processo”, explicou Monedero em maio passado. “Agora não temos mais esse medo, pois vejo dezenas de pessoas que poderiam continuar o trabalho sem o menor problema.”
 Em direção ao socialismo
No caso de um terceiro mandato, o futuro político de Chávez dependerá sem dúvida da capacidade de seu staff de aprofundar as mudanças iniciadas, desenvolver novos programas sociais, fortalecer a base popular e lutar contra a insegurança.2 O caminho já percorrido não permite prever isso. Eleito pela primeira vez em dezembro de 1998, com um programa moderado concebido para apagar a imagem beligerante que estava colada a ele desde sua tentativa de golpe em 1992, o ex-encrenqueiro da Academia Militar de Caracas ficou ansioso para votar uma nova Constituição, lançar uma ampla reforma agrária e transformar a legislação social e econômica. Em 2005, ele proclamou sua conversão ao socialismo e nacionalizou os setores estratégicos da economia, tais como telecomunicações, bancos, eletricidade e aço. A partir de 2009, a “revolução bolivariana” começou a estender seu controle às empresas menores, mas cruciais para a vida diária da população. Acompanhada por uma escalada verbal contra a “burguesia”, a “oligarquia” e o “imperialismo norte-americano”, essa política de expropriação perseguiu, no entanto, um objetivo menos controverso: garantir a soberania alimentar do país.
Por meio de uma rede de empresas públicas, bens de primeira necessidade, como arroz, café, óleo ou leite, passaram a ser produzidos no local de consumo e estão disponíveis a preços acessíveis. Em junho, a Venezuela chegou a inaugurar sua primeira linha de produção de maionese à base de óleo de girassol. O estabelecimento de novos serviços públicos reconhecidos como eficientes – alimentação, bancos, telecomunicações – sugere que um Estado não é necessariamente incompetente para gerir empresas. A demonstração é menos convincente no caso de indústrias pesadas, como a do aço, do alumínio e do cimento, ainda atormentadas por conflitos sociais e pelas falhas da rede comercial. Assegurando ele próprio a venda de materiais de construção para os bairros carentes, sem passar por intermediários preocupados com suas margens de lucro, o governo espera resolver pelo menos parte do problema.
De acordo com a Comissão Econômica da Organização das Nações Unidas para a América Latina e o Caribe (Cepal), o índice de pobreza na Venezuela diminuiu 21% entre 1999 e 2010. Mas essa proposta de redistribuição em favor dos mais pobres não faz a felicidade das classes médias, que permanecem em sua maioria hostis ao presidente em fim de mandato. Se as pesquisas dão a este último um avanço de vinte pontos sobre seu rival, as proporções se invertem quando nos aproximamos dos bairros mais desenvolvidos. Entre os mais ricos, o bardo do bolivarismo muitas vezes desperta uma hostilidade visceral, em razão do medo – inteligentemente mantido pela oposição e pelos meios patronais – de que o governo acabe um dia por proibir a propriedade privada. Ao que se acrescenta em alguns casos um ressentimento em relação aos pobres, que parecem drenar para eles todas as benesses do Estado. O governo, no entanto, não economizou ações para as classes médias e altas, como a introdução de uma taxa de câmbio preferencial para viagens ao exterior.
Enquanto Chávez parece querer se destacar de certos excessos do passado, Capriles desempenha decididamente o papel de homem da renovação. Ele nunca perde a oportunidade de lembrar que tem apenas 40 anos e que, portanto, não é responsável por políticas desastrosas impostas aos venezuelanos antes de 1998 – mesmo que os partidos que estavam no comando na época o apoiem hoje. Em seus discursos, frequentemente associa a “velha maneira de fazer política” aos episódios de intolerância e de polarização que marcaram o país antes e depois da chegada ao poder de Chávez. Posando como um baluarte contra o sectarismo, ele promete não excluir programas sociais do atual governo, mas sim melhorá-los. Oferece, por exemplo, a colocação em votação de uma nova lei, chamada “Missões iguais para todos”, que garantiria aos cidadãos de todas as classes e de todos os rótulos políticos o acesso aos programas sociais. Entrevistado por um canal de TV privado em 1o de fevereiro de 2011, explicou: “O que é positivo no balanço de Chávez é que ele recolocou na ordem do dia a questão da luta contra a pobreza. Mas agora temos de ir mais longe e superar os meros discursos para acabar com esse flagelo”.
Sem dúvida alguma – os números da Cepal confirmam isso –, os programas sociais do governo venezuelano não se baseiam em “meros discursos”. Mas as propostas de Capriles (que corroboram as de Teodoro Petkoff, um ex-guerrilheiro que agora é porta-voz do establishment local) representam uma forma de vitória ideológica de Chávez. Elas também mostram que, aos olhos do candidato da oposição, o ex-tenente-coronel não seria talvez o ditador louco que os meios de comunicação privados denunciam há anos.
Se a oposição quase não contesta mais a eficácia da política social bolivariana, Chávez e Capriles assumem em contrapartida posições diametralmente opostas em matéria de política econômica. É em relação à questão das desapropriações que os dois lados combatem com mais virulência. Para os partidários de Chávez, a desapropriação é uma ferramenta para construir uma economia mista dedicada ao interesse geral, nomeadamente no que se refere à construção, aos bancos e à alimentação: abrindo uma brecha no domínio dos monopólios privados sobre esses setores vitais, o Estado pôs fim à escassez artificial que outrora os consumidores experimentavam. “Por que desta vez não se vê nenhum tipo de escassez, como as que atingiram o país durante os períodos eleitorais passados?”, perguntou recentemente o deputado Iran Aguilera, que é próximo de Chávez. “Porque as empresas do Estado preencheram o vazio que era criado com fins políticos pelo setor privado.”
 Oposição, currículo sob suspeita
A oposição, por sua vez, tem a intenção de devolver prontamente ao setor privado seus direitos inalienáveis. “Não pretendo discutir com empresários ou com mais ninguém sobre isso”, admite com franqueza Capriles. O favorito dos líderes empresariais argumenta que as empresas controladas pelo Estado têm visto sua produção cair, sem fornecer estatísticas para apoiar essa tese. Ele prefere enfatizar o retorno alardeado para os investidores estrangeiros, esperando que sua cornucópia lhe permita manter sua promessa cardeal: a criação de 3 milhões de postos de trabalho em seis anos. A ortodoxia liberal que permeia seu programa não poupa a Segurança Social, da qual o Estado perderia o controle em benefício de um sistema misto que daria ênfase à “poupança individual voluntária.” Por sua vez, a Mesa da Unidade Democrática (MUD), a coligação heteróclita formada pelos partidos que apoiam Capriles, reclama uma “flexibilização” da lei que rege o controle estatal sobre a indústria do petróleo “para promover a concorrência e a participação do setor privado”.3
Bem de acordo com seu desejo de conquistar um amplo apoio, o candidato anti-Chávez não está seguro de que conseguirá seduzir muito além das classes médias que compõem a base de seu próprio partido, o PJ. Primeiro, porque ele veio de uma família de empresários que fizeram fortuna nos mais diversos setores, do mercado imobiliário à indústria, passando pelos meios de comunicação: um perfil pouco divulgado no seio da classe política venezuelana. Além disso, Capriles é ex-prefeito de Baruta, um gueto chique da Grande Caracas. Não dá para ter certeza que a imagem modesta e jovem que ele tenta impor a si próprio seja suficiente para compensar tal currículo entre os eleitores menos favorecidos, mesmo que eles estejam cansados de Chávez.
O líder da oposição nem sempre é ajudado por suas próprias tropas. Recentemente, o MUD atacou de frente a Missão Habitação, chamando de “fraude” e “fracasso” a desapropriação de terras para a criação de hábitats sociais. Uma ofensiva arriscada, tratando-se do programa de governo mais popular dos anos Chávez. De acordo com o ministro da Informação, Andrés Izarra, os primeiros objetivos foram alcançados com a construção de 200 mil moradias desde o lançamento do plano, em 2011.
Sem nunca esquecer seu passado militar, Chávez a apresentou como uma “guerra” que deveria mobilizar o conjunto do governo e do movimento bolivariano. Em alguns distritos, estudantes recebem uma bolsa para treinar “brigadas” responsáveis pela construção de casas. Mas o papel principal está com os 30 mil conselhos comunitários criados desde 2006. Eles são os únicos que empregam trabalhadores, qualificados ou não, e selecionam os beneficiários do programa. O contrato de “substituição das favelas por moradias dignas” estipula em que lugar e de acordo com quais padrões a nova casa deve ser construída. Cada trabalhador é pago no final do projeto, na forma de um cheque emitido por um banco nacionalizado, já que os pagamentos em espécie geraram malversações de fundos no passado. Além disso, medidas são tomadas para evitar que as casas sejam revendidas de forma especulativa. “Estamos em um processo de aprendizagem no qual os erros antes cometidos por falta de controle são corrigidos progressivamente”, explica Leandro Rodríguez, da Comissão de Participação Cidadã do Congresso Nacional.
Chávez escolheu oportunamente a data de 1o de maio, em pleno coração da campanha eleitoral, para aprovar o novo Código do Trabalho, última grande iniciativa de seu mandato. Os progressos que ele traz não são nada cosméticos: a redução do tempo de trabalho para quarenta horas por semana (contra 44 anteriormente), a proibição da terceirização em benefício da estabilidade de emprego e a extensão da licença-maternidade para 26 semanas (contra 18 anteriormente). O texto também restaura o antigo sistema de indenizações de licença, abolido em 1997 pelo governo liberal da época. A partir de agora, o trabalhador demitido receberá um bônus igual ao valor de seu salário mensal multiplicado pelo número de anos na empresa – uma reivindicação antiga dos sindicatos venezuelanos. Capriles protestou contra a nova lei, argumentando que isso não resolve o problema do desemprego ou da situação dos trabalhadores sem contrato de trabalho, privados da proteção social. Em seguida, explicou a natureza da queixa: “Chávez tirou da cartola essa lei para ajudá-lo a ganhar em 7 de outubro”.
 Reaproximação com os Estados Unidos
O resultado da eleição terá um grande impacto sobre todo o continente sul-americano. Capriles já prometeu restabelecer relações amistosas com os Estados Unidos, enquanto outros membros da oposição anunciavam uma revisão completa dos programas de ajuda e de cooperação firmados entre a Venezuela e alguns de seus vizinhos. Um acordo desse tipo também está previsto com a China, que forneceria empréstimos baratos em troca de petróleo. Finalmente, durante a visita do presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad a Caracas, em junho, Capriles não deixou de denunciar a aliança incomum com Teerã, exigindo que o governo “se preocupe em vez disso com os interesses da Venezuela, criando empregos para os venezuelanos”.
O ativismo pan-americano de Chávez resultou na criação de vários organismos supranacionais: a União de Nações Sul-Americanas (Unasul) – presidida por seu homem de confiança, Alí Rodríguez Araque –, a Comunidade dos Estados Latino-Americanos e do Caribe (Celac), fundada em Caracas, em dezembro, e, finalmente, a Aliança Bolivariana para os Povos de Nossa América – Tratado de Comércio dos Povos (Alba-TCP), que inclui, entre outros, Venezuela, Cuba, Bolívia, Equador e Nicarágua.4 Em junho, por iniciativa de Chávez, o bloco latino-americano condenou vivamente a deposição ilegal do presidente do Paraguai – de esquerda – Fernando Lugo, apontando a inércia dos Estados Unidos e do organismo por eles controlado, a Organização dos Estados Americanos (OEA). A resposta imediata do presidente venezuelano (convocação de seu embaixador no Paraguai, suspensão do fornecimento de petróleo) lhe valeu, mais uma vez, reclamações de Capriles.
 Diante da perspectiva de uma alternância em Caracas, uma impaciência febril tomou conta de Washington. Para a Casa Branca e a classe política norte-americana em sua grande maioria, Chávez continua sendo o inimigo público número um nessa parte do mundo. Três semanas antes de deixar a presidência do Banco Mundial, em junho, Robert Zoellick, resumiu a esperança geral: “Chávez está com os dias contados”. E alegremente previu que, privados da ajuda venezuelana, países como Cuba e Nicarágua em breve enfrentariam “tempos difíceis”. Esse cenário de sonho, acrescenta Zoellick, forneceria “uma oportunidade para transformar o hemisfério ocidental no primeiro hemisfério democrático”, em oposição ao “santuário de golpes de Estado, caudilhos e cocaína” que, segundo ele, o pesadelo bolivariano encarna. No início de 2012, o ensaísta Michael Penfold alertou na revista Foreign Affairs: “Se Chávez vencer em outubro, grande parte da oposição política venezuelana será esmagada. De muitas maneiras, isso será um retorno à estaca zero”.5
Mesmo entre os especialistas em América Latina, as comparações entre o presidente venezuelano e seus colegas de mesma sensibilidade raramente ficam a favor dele. Em um livro dedicado ao impulso dos movimentos de esquerda na América do Sul, os pesquisadores Maxwell Cameron e Kenneth Sharpe retratam Chávez com os traços de um déspota fervorosamente empenhado em “desmantelar as instituições políticas do Estado” e “criar um partido oficial servil”, enquanto o presidente boliviano Evo Morales simbolizaria um “movimento político em que a função do dirigente não consiste em monopolizar o poder”.6
Apenas um punhado de intelectuais acredita que Chávez fez melhor do que seus iguais na Bolívia, no Equador ou em outros lugares. Jeffrey Webber, um universitário engajado e coautor de outro livro sobre as esquerdas sul-americanas, chama Morales de “neoliberal reconstituído”, mas aplaude Chávez por ter “revivido a crítica ao neoliberalismo e recolocado na ordem do dia o debate sobre o socialismo”.7 Não é sem razão que os políticos e observadores de todos os matizes tendem a dar um tratamento especial ao regime venezuelano. Expropriações de grande amplitude, reformas para inverter a ordem liberal das coisas, redistribuição das receitas do petróleo, programas de cooperação para beneficiar países vizinhos mais pobres: poucos governos no mundo podem se orgulhar de ter impulsionado reformas tão audaciosas – ou também espoliadoras, dependendo do ponto de vista.
 “Cinturão de esquerda” no continente
Uma nova vitória de Chávez em outubro poderia acelerar a dinâmica de transformação social em curso na Venezuela. Seu programa “Para uma administração bolivariana e socialista 2013-2019” defende a intervenção mais maciça do Estado nas áreas de comércio e transporte, por meio de “centros locais de distribuição para a venda direta de produtos”, que eliminaria intermediários e tornaria obsoleto o modelo de varejo dominante fora dali.
Outro objetivo: a extensão dos poderes democráticos exercidos pelos conselhos comunitários. Centenas de “comunas em construção” em todo o país, cada uma agrupando uma dúzia ou mais de conselhos, garantiriam serviços de utilidade pública, como a distribuição de gás ou de água. No total, as novas comunas representariam 68% da população. Elas disporiam das mesmas prerrogativas que o Estado e as prefeituras, sobretudo na elaboração dos orçamentos, no planejamento e na arrecadação dos impostos.
Em um nível mais amplo, a reeleição de Chávez consolidaria o “cinturão de esquerda” que atravessa a América Latina e restringiria assim a esfera de influência dos Estados Unidos. A ascensão das esquerdas na América do Sul nos últimos anos tem favorecido os processos de unificação no continente. Se a direita venceu a eleição no Chile, em 2009, ela não esperou muito tempo para que entrasse em colapso a popularidade do presidente Sebastián Piñera. No ano seguinte, a vitória na Colômbia do centrista Juan Manuel Santos augurava uma desventura semelhante, mas o novo presidente logo se juntou ao objetivo da união latino-americana defendido pela esquerda, chegando a se dar ao luxo de erguer o tom contra Washington em várias questões-chave.8 Apenas o Paraguai, depois da deposição do presidente Lugo, marcha atualmente na contramão de seus vizinhos.
Mas ainda é na Venezuela que a eleição de outubro assume seu significado mais decisivo. A derrota de Chávez resultaria – apesar do que diz seu rival – em levar o país para a situação de antes de 1998. Um novo mandato daria a seu reinado dezoito anos de idade; é muito, talvez demais. A transformação social de um país durante um período tão longo, sob a liderança de um chefe de Estado eleito democraticamente, representaria, no entanto, uma experiência sem equivalente na história.
Steve Ellner
Professor de História da Universidade de Oriente (Venezuela) e autor de Rethinking Venezuelen politics Class, conflict amd the Chávez phenomenon, Lynne Riemmer. Boulder (Colorado), 2008.


Ilustração: Benett
1 Keane Bhatt, “Our man in Caracas: the U.S. media and Henrique Capriles” [Nosso homem em Caracas: a mídia dos Estados Unidos e Henrique Capriles], Nacla, 18 jun. 2012. Disponível em: www.nacla.org.
2 Ler Maurice Lemoine, “Caracas em chamas”, Le Monde Diplomatique Brasil, ago. 2010.
3 VenEconomía, Caracas, v.29, n.6, mar. 2012, p.2.
4 Steve Ellner, “Latin American unity takes center stage at Cartagena summit” [Unidade latino-americana toma o lugar central na Cúpula de Cartagena], Nacla, jul.-set. 2012.
5 Michael Penfold, “Capriles Radonski and the new Venezuelan opposition” [Capriles Radonski e a nova oposição venezuelana], Foreign Affairs, 26 jan. 2012. Disponível em: www.foreignaffairs.com.
6 Maxwell Cameron e Kenneth Sharpe, “Andean left turns. Constituent power and constitution making” [Esquerda andina ativa. Poder constituinte e fazer da Constituição]. In: Latin America’s left turns. Politics, policies and trajectories of change [Esquerda latino-americana ativa. Política, políticas e trajetórias de mudança], Lynne Rienner Publishers, Boulder, 2010, p.68 e 74.
7 Jeffery Webber, “Venezuela under Chávez. The prospects and limitations of twenty-first century socialism, 1999-2009” [Venezuela sob Chávez. Perspectivas e limitações do socialismo do século XXI, 1999-2009], Socialist Studies/Études Socialistes, Victoria, 2010; J. Webber, “From left-indigenous insurrection to reconstituted neoliberalism in Bolivia” [Da insurreição de indígenas de esquerda à reconstituição do neoliberalismo na Bolívia]. In: Barry Carr e J. Webber (orgs.), The new Latin American left. Cracks in the empire [A nova esquerda latino-americana. Rachaduras no império], Rowman and Littlefield, Lanham, 2012.
8 Ler “Histoire des gauches au pouvoir” [História das esquerdas no poder], Manière de Voir, n.124, ago-set. 2012.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

A disputa Presidencial na Venezuela

Deus entra em campanha na Venezuela

Doença testa a "santidade" de Chávez
Autor(es): Fabio Murakawa | De Caracas
Valor Econômico - 11/05/2012
 

A disputa presidencial na Venezuela, nas eleições marcadas para 7 de outubro, ganhou um contorno inusitado. A religiosidade e a disputa pelo "apoio" de Deus estão no centro das campanhas dos dois candidatos, o presidente Hugo Chávez, que está em tratamento de um câncer, e o representante da oposição, Henrique Capriles.
Por causa de seus programas sociais, Chávez é visto por muitos venezuelanos pobres como uma espécie de Messias. Em seus discursos, faz com frequência referências religiosas e repete que Jesus Cristo é socialista. Capriles — neto de judeus poloneses — também tenta explicitar sua fé cristã. Mantém em seu escritório várias imagens de santos e tenta desqualificar a "preferência" de Jesus pelo chavismo.
"Chávez é um homem que Deus nos mandou, um enviado de Deus. Ele tem sido para nós o máximo. E eu peço a Deus que dê a ele saúde, que cuide dele, porque nós o veneramos. É um homem maravilhoso que nos protege, cuida de nós. Estou segura de que vamos seguir adiante e que o presidente não vai nos deixar só."
A dona de casa Francis Vegas, 57 anos, é uma das milhares de pessoas desabrigadas pelas chuvas que devastaram bairros inteiros na periferia de Caracas em setembro de 2010. Vive desde então provisoriamente em um prédio construído dentro do complexo militar de Fuerte Tiuna, na capital venezuelana. Ganhou do governo, além do alojamento, tudo o que as águas lhe tomaram: geladeira, fogão, máquina de lavar, sofá, mesa, cadeiras. Aguarda ali seu lar definitivo, em um conjunto habitacional a ser erguido pelo programa "Gran Missión Viviendas", o "Minha Casa, Minha Vida" de Chávez.
O apartamento provisório, de dois quartos, sala, uma ampla cozinha, transformou-se em um santuário do presidente. Pôsteres e calendários se espalham pelas paredes, e ela faz questão de mostrar a coleção de camisetas estampadas com o rosto de Chávez. O artigo mais precioso, porém, é o "Chavecito", uma espécie de boneco Falcon versão Hugo Chávez, vendido nas lojas de souvenir bolivarianas da capital a 70 bolívares (cerca de R$ 15 no câmbio paralelo e R$ 30 no oficial). "Foi meu marido quem me deu", diz, orgulhosa, enquanto Anabel, 6 anos, filha da vizinha Marivel Ranjel, maneja o brinquedo. "Viva Chávez!", grita a menina.
A doença do presidente - um câncer sobre o qual há muitas especulações e nenhum diagnóstico confiável - coloca à prova a imagem de super-homem que ele cativou. Segundo analistas, a enfermidade pode ser decisiva nas eleições de 7 de outubro, em que Chávez concorre contra um candidato único da oposição, Henrique Capriles. Pode assustar principalmente os chamados "ni-ni" (nem Chavez, nem oposição), diante da possibilidade de ter à frente do país um líder incapaz de governar. Mas o câncer do presidente venezuelano parece não abalar a fé daqueles que dizem ter se sentido negligenciados por governos anteriores e que foram beneficiados por seus programas sociais.
"Chávez é uma benção, que nos protege e nos dá saúde", afirma Marivel, 42 anos, vizinha de Francis, dizendo-se satisfeita com a assistência dada a seu marido, Carlos Escorche, 38 anos, também vítima de um câncer. "Meu marido lutou e sobreviveu e, com fé, ficou muito melhor. Eu penso que o meu presidente, se ele se cuidar, se a quimioterapia e a radioterapia funcionarem, vai ficar bom."
A falta de clareza do governo em torno da doença de Chávez tem aumentado as especulações sobre seu real estado de saúde. O presidente tem passado mais tempo em tratamento em Cuba do que no Palácio de Miraflores. Críticos afirmam que ele tem governado o país pelo Twitter, tão raras são suas aparições no "balcón del pueblo", sacada do palácio onde ele costumava fazer seus longos discursos.
No escritório de Capriles, imagens da "Virgen del Valle" e de Jesus Cristo
Na semana passada, o colunista Nelson Bocaranda, do jornal "El Universal", escreveu que o presidente mal consegue caminhar - as sessões de radiografia teriam provocado uma fratura em seu fêmur. Bocaranda disse que foi "cuidadosamente montada" uma fotografia divulgada dias antes pelo governo em que Chávez aparecera em pé, chegando a Cuba, ao lado do presidente Raúl Castro. E disse que líder passa por um tratamento psicológico para combater a depressão, devido à gravidade da doença. Bocaranda vem acertando nas notícias sobre Chávez.
A imprensa internacional também especula se Chávez estaria preparando uma transição. Na semana passada, ele criou um Conselho de Estado com amplos poderes, liderado pelo vice-presidente Elías Jaua. Deu ao novo órgão a atribuição de tirar a Venezuela da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), que vem apontando violações cometidas na era Chávez - muitas vezes baseadas em denúncias levadas por opositores do governo.
Mas, na opinião de analistas, o novo conselho pode ter a tarefa de conduzir o país, caso o presidente não tenha saúde para tal.
Ninguém em Fuerte Tiuna, porém, sequer cogita a hipótese de Chávez não concorrer à reeleição, muito menos perdê-la. "Não, amigo. Chávez já ganhou. Não diga isso. Aqui ninguém acredita que Chávez vá perder. Aqui somos Chávez 100%. Para mim, Chávez já ganhou", diz Marivel.
Para ela, se Chávez "é uma bênção divina", seu opositor, Capriles, representa exatamente o contrário. "É um satanás, um satânico. Não deveria nem ser candidato."
À parte questões de fundo mais prático, como o combate aos altíssimos índices de violência e a continuidade dos programas sociais, a religiosidade e a disputa em torno da primazia do apoio de Deus estão no centro do debate político venezuelano. Chávez já disse repetidas vezes, por exemplo, que Jesus Cristo é socialista. "O único Cristo que veio à Terra está conosco, apoiando os humildes, os pobres e chamando os ricos à consciência, à paz", disse certa vez. "O primeiro socialista foi Cristo, para nós, para mim, que sou cristão. Alguém imagina Cristo capitalista? Judas, que o vendeu por umas moedas, esse é o capitalista, que vende até Cristo, até o pai e a mãe, pelo dinheiro."
Capriles, por sua vez, também tenta explicitar a sua fé cristã. Neto de judeus poloneses que chegaram à Venezuela fugidos do nazismo, ele mantém em seu escritório duas estátuas e um pôster da Virgen del Valle, padroeira do Oriente Venezuelano, e um grande busto de Jesus Cristo. Demonizado pelo pai do "Socialismo do Século 21", Capriles passou boa parte da última quaresma tentando desqualificar a preferência de Jesus pelo chavismo. "Nesta Semana Santa é bom recordar que Cristo não era socialista nem capitalista, obsessão do eterno candidato [Chávez] com o tema", escreveu em sua conta no Twitter. "Dizem [os chavistas] ser seguidores de Jesus, mas estão bem longe dele."
A disputa eleitoral entre Deus e o diabo não é nova na Venezuela. Segundo Mireya Lozada, diretora do Departamento de Psicologia da Universidade Central da Venezuela (UCV), "o demônio foi um dos eixos da campanha de 2006". "Podia ser a demonização de um candidato ou a divinização de outro. Mas também, na época, Fidel Castro ou George W. Bush podiam ser divinizados ou satanizados."
Para Lozada, "há uma utilização política do imaginário religioso venezuelano por ambos os candidatos". "E com a doença do presidente, se reforçou essa tendência."
Nos últimos meses, em meio às dúvidas sobre sua saúde, Chávez tem frequentemente apelado à ajuda divina por uma cura. "Cristo, não me leve ainda", disse há cerca de um mês.
Para Luis Vicente León, presidente da consultoria Datanalisis, o presidente pode estar se aproveitando das especulações em torno de sua doença para preparar um "retorno triunfal". "É algo uma hipótese a ser considerada", diz.
Ainda é impossível dizer se Chávez esconde seu estado de saúde por causa da gravidade da doença ou por mera estratégia eleitoral. De qualquer maneira, o falatório ao redor da enfermidade do presidente o tem claramente beneficiado, principalmente por monopolizar o noticiário político do país.
Segundo analistas, o câncer de Chávez tem ofuscado as propostas e as ações de Capriles nesse estágio de pré-campanha. E o presidente até ampliou sua vantagem nas pesquisas. Pela Datanalisis, o placar mudou de 44% a 31% para 43% a 26% a favor de Chávez entre o final de março e o início deste mês. Já o GIS XXI, de tendência mais governista, aponta vitória do presidente por 56,5% a 21%.
Para León, a enfermidade do líder venezuelano pode ser uma faca de dois gumes, em termos eleitorais. "A popularidade de Chávez subiu pela solidariedade primária desde o anúncio de seu câncer no ano passado", diz ele. "Mas, em algum momento, a população pode ficar nervosa sobre o que seria a doença de Chávez no futuro, e isso pode prejudicá-lo."
Por outro lado, diz ele, se Chávez manda uma mensagem de que está curado, sua campanha ganha mais força. "Se isso acontecer, Chávez pode manter essa vantagem e até ampliá-la."
No próximo dia 10 de junho, completa-se um ano desde que o presidente anunciou que tinha "uma doença". E os venezuelanos ainda não sabem exatamente qual é a sua real gravidade, o que só ajuda a aumentar a boataria. Em meio ao jogo de desinformações sobre a saúde presidencial, o país especula também quem herdaria o comando do chavismo, caso o líder tenha que sair de cena. Assim como a maioria dos analistas, León aponta quatro grandes candidatos.
"Temos três correntes. O chanceler Nicolás Maduro e o vice-presidente Elías Jaua são próximos de Chávez e têm um certo nível de popularidade frente ao chavismo. Tem os que poderiam preferir os atores mais pragmáticos. Aí está o Diosdado Cabello [atual presidente da Assembleia Nacional].", afirma. "E também a corrente familiar que, pela simbologia, creem que é preciso o sobrenome Chávez para manter a força do presidente. Aí fica o irmão de Chávez, Adán."
Para os chavistas ferrenhos, no entanto, o "Messias" não tem substituto. "Eu me sinto muito tranquila, tenho paz. Se você me pergunta qual outra pessoa seria capaz de conduzir o país, eu não consigo responder", diz Francis Vegas.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Chavismo em xeque

Chavismo em xeque

Correio Braziliense - 25/02/2012
 

Simpatizantes fazem despedida triunfal para Hugo Chávez, que será submetido a uma extração de tumor em Havana. Antes de partir, o presidente prometeu lutar pela própria vida. Analistas veem incertezas no futuro político do país
Rodrigo Craveiro
Em 13 anos de governo, Hugo Chávez adotou o populismo e personificou o poder, ao assumir-se como o ideólogo da chamada Revolução Bolivariana. Acreditava estar acima de tudo e pretendia permanecer no governo da Venezuela pelo menos até 2020. Antes de deixar o Palácio de Miraflores e embarcar para Havana, na tarde de ontem, o presidente foi à tevê e declarou: "Estamos obrigados a triunfar e a vencer para garantir a paz da Venezuela. (...) Eu lhes juro que, nas próximas horas e dias, lutarei como vocês me ensinaram a lutar, por minha vida, que é a vida de vocês, da pátria". A iminente cirurgia em Cuba para a extração de um novo tumor na região pélvica não apenas lança dúvidas sobre o futuro do chavismo. De acordo com analistas consultados pelo Correio, a doença de Chávez ameaça causar rupturas no Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), mas também força os governistas a transcender a figura de seu líder.
"Chávez sabe que criou uma força política poderosa, arraigada em todos os poderes do Estado e nas camadas mais pobres. É o líder indiscutível das massas, sem a possibilidade de um sucessor imediato", admite o cientista político Victor Barranco, presidente do Conselho Superior do Centro de Altos Estudos — em Barquisimeto, a 363km de Caracas. Segundo ele, o presidente compreende que está cercado de pessoas desprovidas do sentido de valorização do projeto bolivariano e imbuídas de interesses particulares.
A "certeza da incerteza" levou Chávez a convocar um comando de campanha eleitoral, que ficará sob responsabilidade de Jorge Rodríguez, prefeito de Caracas. Para o historiador e analista político Juan Eduardo Romero, da Universidade del Zulia, o organismo traz um conteúdo simbólico. "O Comando Carabobo, como o presidente o batizou, é uma referência à derrota definitiva das tropas espanholas na província de mesmo nome, em 1821. A batalha consolidou o projeto de Simón Bolívar", explica. "Segundo Chávez, as eleições presidenciais de 8 de outubro serão uma batalha definitiva para derrotar um setor político ligado aos interesses dos EUA", emenda. Romero acredita que a estrutura do Comando Carabobo visa dar continuidade ao projeto chavista. Por sua vez, Barranco sustenta que, pela primeira vez em 13 anos, muitos aliados veem o futuro com ceticismo. Ele alerta que alguns chavistas já conspiram.
Apenas a Assembleia Nacional pode decidir sobre a incapacidade do presidente. "A relação entre o diagnóstico e uma declaração de incapacitação não é automática em nenhum país. Há todo um procedimento jurídico-constitucional", lembra Cesar Barrantes, analista da Universidade Central da Venezuela. O PSUV detém maioria absoluta de deputados, o que inviabiliza tal cenário. O especialista admite que a oposição vê Chávez como um cadáver humano e político. "Com ou sem Chávez, a Revolução Bolivariana seguirá se aprofundando", diz Barrantes. Segundo ele, o projeto socialista criou estruturas políticas e um tecido social sustentado por multirredes de movimentos comunitários e étnico-populares.
Um dos nomes da oposição, Diego Arría — ex-governador de Caracas — afirma que os "narcogenerais" estão aterrorizados com a possibilidade de que o mandatário não se apresente nas eleições. "Chávez não tem sucessor e eles sabem disso", comenta, por e-mail, o ex-candidato nas primárias do opositor Mesa de Unidade Democrática (MUD). Cotado como candidato à sucessão, o líder da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello, negou um vazio de poder.
Flores e beijos
No trajeto até o aeroporto, centenas de chavistas reuniram-se para se despedir do comandante. Acompanhado das filhas Rosa Virginia e Rosinés, Chávez apoiou-se sobre o teto solar do carro, que levava uma grande imagem de Jesus. Ganhou flores, uma chuva de pétalas e beijos. E enviou um recado aos rivais: "Ainda que este corpo se acabe, Chávez não se acabará, porque Chávez já não sou eu, Chávez está nas ruas e se fez povo". O presidente deve ser operado entre segunda e terça-feira. Oncologistas suspeitam de um tumor raro e agressivo (leia entrevista). Na quinta-feira, Chávez admitiu que é grande a possibilidade de um tumor maligno. "Oxalá não seja (maligno), mas a probabilidade existe e é preciso estar preparado para isso", declarou.
Dilma telefona para o colega e deseja sorte
A presidente Dilma Rousseff telefonou, no início da tarde de ontem, para o colega venezuelano, Hugo Chávez, e lhe desejou sorte e pronta recuperação na cirurgia. De acordo com o Planalto, Chávez agradeceu a Dilma pelo apoio e disse estar confiante. A ligação durou cerca de cinco minutos. Minutos antes de embarcar no avião presidencial, o mandatário citou a conversa. Segundo ele, Dilma mandou um recado do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao amigo. Lula disse que, se fosse preciso, viraria babá de Chávez.
Ponto de vista
Como o senhor analisa o cenário político na Venezuela, com o novo tumor de Chávez?
O anúncio da recaída no processo de recuperação do presidente provoca uma série de reações. O primeiro deles deriva dos simpatizantes do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV). O tipo de liderança carismática construído por Chávez lhe outorga um peso muito alto na construção do socialismo bolivariano do século 21. Sua doença é um duro teste para avaliar a capacidade de transformação do PSUV como ator político consolidado. O segundo diz respeito aos adversários. A opositora Mesa da Unidade Democrática tem o desafio de aproveitar a "debilidade" momentânea de Chávez. O problema é que a oposição não possui uma sólida unidade política.
É um quadro confuso. Chávez tinha conseguido convencer seus aliados que havia "derrotado" o câncer, e a oposição não deixou de pensar na doença como um "recurso de propaganda do presidente". É indubitável que o futuro se torna inquietante. A Revolução Bolivariana, bem como a saúde do presidente, joga com a incerteza. É um cenário ruim para quem acostumou a dominá-lo por inteiro. Alguns aliados de Chávez fazem previsões de salvamento, outros conspiram internamente. Chávez sabe que criou uma força política poderosa, arraigada com firmeza em todos os poderes do Estado e nas camadas sociais mais pobres do país.
Pânico é a melhor descrição para o que as autoridades civis e militares do regime enfrentam. Chávez dizia que a oposição fracassaria nas primárias e não chegaria a 500 mil eleitores. Pelo menos 3 milhões votaram em uma mensagem muito poderosa de unidade, antecipando-se às eleições de 7 de outubro. A mensagem teve repercussão dentro das Forças Armadas, que jamais permitirá à cúpula militar intervir no processo eleitoral. Chávez admitiu que tem "uma nova lesão seguramente maligna". A sequência desses eventos provocou impacto na política venezuelana. O culto à personalidade de Chávez o levou a crer que poderia decretar sua própria vida.