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quarta-feira, 6 de março de 2013

O fim do chavismo?

O fim do chavismo?

Carta Capital
 
*Reportagem publicada por CartaCapital em dezembro de 2012

O segredo mantido pelo presidente Hugo Chávez sobre a natureza exata de sua doença sempre sugeriu que se tratava de um câncer de mau prognóstico (confira A política da doença, em -CartaCapital 701)*. O anúncio da recaída e da quarta cirurgia em 18 meses indica que a esperança de um milagre não se realizou. A última operação foi bem-sucedida segundo os boletins oficiais e os cubanos certamente se empenharam pelo homem que tirou Cuba do isolamento e da crise a sufocá-la desde o colapso da União Soviética. A medicina tem limites e a recuperação seria “complexa, difícil e delicada”, admitiu seu vice e chanceler Nicolás Maduro.
Antes de partir para Havana, o líder bolivariano admitiu pela primeira vez que podederia ocorrer algo para “inabilitá-lo de alguma maneira” e pediu que nesse caso o povo venezuelano eleja Maduro.
Chávez, por fim, admite sua mortalidade. Mas isso não significa necessariamente o fim do Chavismo Foto: Leo Ramirez/AFP

A notícia da recaída atropelou a campanha para as eleições dos governos e assembleias estaduais em 16 de dezembro. Depois da reeleição do presidente, o desfecho da disputa pelo governo do estado de Miranda, entre o ex-candidato presidencial da oposição Henrique Capriles e o ex-ministro e ex-vice chavista Elías Jaua, deveria ser o fato político mais importante, pois definiria se Capriles terá fôlego para liderar a oposição nos próximos seis anos. Agora, isso passou a segundo plano. Mais importante, para os analistas, -será sentir nas ruas e nas urnas se a -doença do líder levou desânimo a seus eleitores e militantes ou os mostra dispostos a construir um chavismo sem Chávez.
Apesar das esperanças declaradas da oposição venezuelana e das direitas -latino-americanas e estadunidenses, o falecimento de Chávez não significa a morte do chavismo. O varguismo permaneceu no poder por uma década após o suicídio de Getúlio Vargas em 1954 e foi a principal referência da oposição até ser superado pelo PT em 1989. E o peronismo manda na Argentina de hoje, quase quatro décadas após a morte de Juan Perón em 1974.
Chávez já governou a Venezuela por quase 14 anos, pouco menos que a duração da primeira era Vargas (1930-1945) e bem mais que a soma dos dois governos de Perón (1946-1955 e 1973-1974), com a diferença de ter sido sempre -escolhido em eleições livres e sem fraudes (com forte ajuda da máquina estatal, sim, mas é outra questão). Tanto quanto ambos, se não mais, transformou seu país de forma a deixar sua marca por muito tempo e influenciou mais os rumos das nações vizinhas que qualquer um deles. Pode não ser mais o sucessor aparente de Fidel Castro como porta-voz das esquerdas latino-americanas (e não é impossível que o idoso cubano lhe sobreviva), mas tudo indica que seu futuro como símbolo, ao menos, parece tão assegurado quanto o de Che Guevara, Salvador Allende ou o próprio Simón Bolívar. Mas símbolo do quê, exatamente?
O mundo ouviu falar do tenente-coronel Chávez pela primeira vez em 4 de fevereiro de 1992, quando liderou um golpe fracassado contra o governo de Carlos Andrés Pérez. Para os jornalistas de fora, soou como uma quartelada latino-americana como qualquer outra, mas tanto o líder como as condições de seu país eram muito peculiares.
O primeiro governo de Pérez, em 1974-1979, cumpriu o programa -oficialmente social-democrata de seu partido Ação Democrática e foi relativamente progressista. Reatou relações com Cuba, apoiou o retorno do socialista Felipe González à Espanha após a morte de Franco, combateu os regimes de Augusto Pinochet, no Chile, e Anastasio Somoza, na Nicarágua, e ampliou políticas sociais com base no aumento da renda das exportações proporcionado pelos choques do petróleo.
Mas ao mesmo tempo reprimia as guerrilhas comunistas no interior. E o então capitão Chávez, enviado a combater os guerrilheiros do partido Bandera Roja, de linha albanesa, veio a simpatizar com sua causa, embora não aprovasse seus métodos e se indignasse com a tortura no Exército e a corrupção visível nos meios militares tanto quanto nos civis.
Segundo o próprio Chávez, sua simpatia pelas esquerdas vinha de antes. Foi inspirado em especial pelo general e líder peruano Juan Velasco Alvarado, que conheceu como cadete ao participar no Peru das comemorações dos 150 anos da Batalha de Ayacucho, na qual Antonio José de Sucre, lugar-tenente de Bolívar, conquistou a vitória final sobre os espanhóis nas Américas. A partir de 1974, Chávez leu avidamente os livros e discursos de Velasco e fez amizade com o filho do coronel e líder panamenho Omar Torrijos, outro militar que promovia o nacionalismo, a reforma agrária e o combate aos privilégios das elites. Em 1977 criou uma organização clandestina, o Exército de Libertação do Povo da Venezuela e começou a buscar contatos com a esquerda civil. Ao se tornar organização cívico-militar, veio a se chamar Movimento Bolivariano Revolucionário 200 ou MBR-200, em homenagem aos 200 anos de Simón Bolívar (nascido em 1783), herói da América Latina e especialmente de Chávez, fascinado por sua vida e pensamento desde a juventude.
Enquanto isso, a guerra entre o Irã e o Iraque, o aumento da produção petrolífera fora da Opep e os conflitos internos do cartel derrubaram o preço da mercadoria e a Venezuela, como muitos outros integrantes da Opep, enfrentou dificuldades sérias.
Em 1988, Pérez candidatou-se de novo e fez campanha atacando o FMI como “uma bomba de nêutrons que mata as pessoas, mas deixa os edifícios de pé” e os funcionários do Banco Mundial como “genocidas a serviço do totalitarismo econômico”. Mas, ao vencer e tomar posse em 2 de fevereiro, de 1989, aceitou de imediato o pacote neoliberal -imposto -pelos EUA e pelo FMI em troca de um empréstimo de 4,5 bilhões de dólares. Isso incluiu a retirada súbita dos subsídios aos combustíveis, com um impacto brutal nos preços dos transportes e no custo de vida.
Não foi o único latino-americano da época a eleger-se com um discurso nacionalista e popular e aderir ao Consenso de Washington após a posse. Carlos Menem, na Argentina, foi outro exemplo notório. Mas a virada de Pérez foi mais -chocante, por sua história e por governar um país mais desigual, onde os desfavorecidos eram ampla maioria. A frustração popular explodiu com uma revolta sem precedentes no país, o Caracazo de 27 de fevereiro. A repressão aos saques e depredações pelo Exército e pela polícia política (a Disip) deixou mais de 2 mil mortos, a grande maioria gente pobre dos chamados cerros, as favelas da periferia de Caracas, que foi sepultada anonimamente e em segredo, em valas comuns.
O evento tornou-se um divisor de águas na história da Venezuela, tanto quanto o Bogotazo, de 1948, na Colômbia. Perderam legitimidade tanto Pérez quanto o sistema político criado pelo chamado Pacto de Punto Fijo, quando, após a queda do ditador Pérez Jiménez, os principais chefes políticos se reuniram na povoação do mesmo nome na casa de Rafael Caldera, líder do democrata-cristão COPEI e acertaram um regime de eleições livres, mas limitadas na prática à alternância de seu partido com a social-democrata ACD e de Caldera, com o banimento dos comunistas.
Foi nesse contexto que Chávez e o MBR-200 tentaram o golpe de fevereiro de 1992. Mobilizaram-se em várias cidades, mas não conseguiram capturar Pérez nem pôr sua mensagem no ar para mobilizar apoio popular. Desistiram após confrontos que deixaram 14 mortos e 130 feridos. Rendido, Chávez falou à tevê e pediu a seus partidários para desistirem “por enquanto”. Tornou-se, porém, um herói. Manifestações populares foram apoiá-lo em frente à prisão. Em novembro, fracassou outra tentativa de golpe militar por simpatizantes de Chávez na Marinha e Aeronáutica que resultou em 172 mortos, 40 dos quais em execuções extrajudiciais de civis e rebeldes rendidos.
Sucessão. Maduro saberá ser um novo Chávez?

Entretanto, Caldera rompeu com a COPEI e aliou-se à oposição de esquerda (inclusive comunistas) na chamada Convergência Nacional, isolou Pérez e o derrubou com um impeachment por corrupção em maio de 1993. Caldera foi eleito em dezembro, pôs fim a 35 anos de bipartidarismo e cumpriu a promessa de anistiar os militares golpistas. Mas a crise piorou e, em 1997, apelou ao FMI, voltou a retirar o subsídio aos combustíveis e ensaiou a privatização do petróleo, o que desencadeou novos protestos e garantiu a eleição de Chávez pelo recém-fundado Movimento V República, em 1998.
A cobertura por The Economist destacava sua promessa de reduzir o déficit público – grande à época, devido à queda do preço do petróleo a meros 9 dólares por barril, um mínimo histórico – e sugeria que, como o argentino Carlos Menem, o novo presidente venezuelano nomearia um economista “independente” como Domingo Cavallo para tranquilizar os investidores. A partir daí, a revista nunca mais deixou de errar em -suas avaliações sobre Chávez, cuja derrota previu praticamente a cada ano desde 2001. Errou ainda mais o presidente da Câmara de Comércio EUA-Venezuela, Antonio Herrera: descrevia Chávez como “um pragmático flexível que abandonou slogans de campanha e colaboradores inconvenientes com a maior facilidade”.
Como indicava o nome de seu partido, Chávez não se propunha apenas a fazer um governo de centro-esquerda, muito menos usar o populismo para alavancar reformas neoliberais. Queria refundar a república e foi o que fez. Tomou posse em fevereiro. Em abril, 88% dos eleitores aprovaram em referendo a convocação de uma Constituinte, formada em 95% por seus partidários, eleitos em julho.
Em dezembro, a nova Constituição foi aprovada com 72% dos votos. Além de rebatizar o país como República Bolivariana da Venezuela, aboliu o Senado, ampliou os poderes do presidente e das Forças Armadas e criou dois novos poderes independentes além dos três tradicionais: o Eleitoral e o Cidadão. A popularidade de Chávez continuou a aumentar, -tanto -pelas obras sociais promovidas pelas Forças Armadas quanto pela recuperação dos preços do petróleo que favoreceu ao acabar com a tradição venezuelana de burlar as quotas da Opep.
Por outro lado, começou a perder aliados de primeira hora, que o acusaram de “autocrata” e a ganhar a hostilidade da classe média e da Igreja. Mesmo assim, em 2000, foi reeleito sob a nova Constituição com uma maioria ainda mais ampla. Tratou de recuperar o controle estatal do setor de petróleo (minado pela abertura do setor a transnacionais desde Pérez e pela autonomia conferida à PDVSA pelo governo Caldera ao preparar sua privatização) e estabelecer a aliança com Fidel Castro, que lhe forneceu professores, médicos e assistência técnica em troca de petróleo.
A fúria da direita desembocou no fracassado golpe de abril de 2002. Chávez foi capturado e por um dia e meio, o empresário petroquímico Pedro Carmona, presidente da federação das indústrias, agiu como ditador com apoio da mídia, de Washington e do FMI, revogou a Constituição, anunciou a ruptura com Cuba e a Opep e anunciou a privatização do petróleo. Acabou expulso pelas massas populares mobilizadas pela militância chavista e pela ameaça de bombardeio pelos militares fiéis ao presidente, que também recebeu o apoio da maioria dos governos sul-americanos. Os antichavistas não se deram por vencidos. Apostavam no desgaste do governo ante a queda do preço do petróleo por efeito da crise estadunidense e promoveram um locaute nacional e a paralisação da PDVSA de dezembro de 2002 a fevereiro de 2003.
Foi um duplo erro da oposição. O golpe revelou seu perfil intolerante, truculento e elitista e a greve deu a Chávez oportunidade e apoio popular para afastar executivos e sindicalistas hostis, demitir 18 mil (metade dos funcionários) e assumir o controle total da estatal no momento em que os preços do petróleo voltavam a disparar e a economia se recuperava, proporcionando uma enorme ampliação dos programas sociais.
Além disso, a tentativa de golpe queimou as pontes entre o governo e a oposição tradicional. Até então, o -discurso chavista mantinha-se próximo daqueles do peruano Velasco e do panamenho Torrijos (embora mais democrático que ambos), identificando o “bolivarianismo” como uma terceira via nacionalista e popular entre o capitalismo e o socialismo clássico. A partir de 2004, radicalizou-se e em janeiro de 2005, no V Fórum Social Mundial, Chávez adotou a palavra de ordem marxista do “socialismo do século XXI”, proposta pelo sociólogo e professor da Unam Heinz Dieterich Steffan, e formalizou acordo com Cuba na Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América (Alba). Em 2007, transformou seu movimento no Partido Socialista Unificado Venezuelano (PSUV).
Em 2004, Chávez derrotou nas urnas, sem dificuldade, a tentativa da oposição de tirá-lo do poder por meio do mecanismo de revogação de mandato criado por sua própria Constituição e, em 2005, a oposição cometeu outro grande erro ao boicotar as eleições parlamentares para tentar deslegitimá-las. Conseguiu apenas dar uma maioria esmagadora ao chavismo e lhe possibilitar aprovar o que quisesse.
O prestígio internacional de Chávez cresceu com a eleição de seu aliado Evo Morales, na Bolívia, em 2005, e de Rafael Correa, no Equador, e Daniel Ortega, na Nicarágua no ano seguinte, que se uniram à Alba e promoveram reformas sociais e constitucionais semelhantes. A rejeição das elites acentuou então sua face mais brutal e racista. Chávez não só foi classificado como “tirano” pela mídia conservadora de todo o continente, como regularmente ameaçado de morte e ofendido como “macaco”, “gorila”, “negro” e “zambo (cafuzo) de m…” nos meios de seu país, assim como Evo foi rejeitado por ser “índio” ou “colla”.
Quanto ao desempenho econômico, a era Chávez é medíocre, mas não desastrosa. O crescimento médio do PIB, desde a sua posse é de 2,75% ao ano, melhor que o do México (2,39%), e um pouco abaixo do Brasil (3,20%), Argentina (3,58%) e Chile (3,97%). Nunca houve um programa de estabilização e a inflação segue na casa dos 20% (era 36% no último ano de Caldera), similar à da Argentina (maquiagem à parte) e acima do resto da região. Mas a melhora dos indicadores sociais é clara: a população atingida pela fome (segundo a FAO) caiu de 20%, em 2002, para 2%, em 2012 e o índice Gini de concentração de renda caiu de 48,65, em 1992, para 39,28, em 2009 (o do Brasil foi de 60,02 para 54,27).
Chávez caminhava para ser um novo Fidel Castro

A exasperação dos conservadores atingiu o auge após a não renovação da concessão para tevê aberta da arqui-inimiga e golpista RCTV (que continua a transmitir a cabo), mas foi fútil. Apesar das periódicas dificuldades econômicas e das previsões de analistas em contrário, Chávez venceu todas as eleições desde 1998, exceto (por margem minúscula) o plebiscito de 2007 sobre a reforma socialista da Constituição. Isso foi parcialmente compensado pela vitória no plebiscito de 2009, que lhe permitiu candidatar-se ao quarto mandato em 2012 e novamente vencer, apesar da oposição do ex-golpista Capriles ao recorrer a uma estratégia mais inteligente, se comparar a Lula e aceitar o discurso social do bolivarianismo.
E o que é o bolivarianismo? Apesar da ira das direitas latino-americanas e das esperanças de parte das esquerdas, não chega a ser socialismo no sentido que Che Guevara dava à palavra. Chávez teve o apoio de um círculo minoritário de empresários, a chamada “boliburguesia” e não parece cogitar de estatização em massa ao estilo stalinista. Latifúndios foram expropriados para a reforma agrária e algumas transnacionais hostis foram nacionalizadas, mas essas medidas só se destacam contra o fundo de extremismo neoliberal que as precedeu. Em outras épocas, teriam sido reconhecidas como reformistas, como foram as de governos nacionalistas da Índia, Egito, Peru e outros países do chamado “terceiro mundo” até os anos 1970. Em nenhum momento o chavismo censurou a imprensa ou rompeu com as práticas da democracia. Acatou sem discutir a derrota da proposta de mais “socialismo”, em 2007, e o ímpeto reformista arrefeceu à espera de condições políticas mais favoráveis.
O que não dá para negar foi seu caráter personalista e supercentralizado. A teimosia de Chávez em decidir sobre praticamente tudo, não designar sucessor, romper com ex-aliados que dele discordavam e conferir poder demais a incompetentes ou corruptos que mostrem fidelidade incondicional prejudicam visivelmente sua popularidade. Nem por isso ele mudou de atitude, mesmo ao saber da gravidade de sua doença. Assinou leis e decretos no leito do hospital e, como se pensasse ser imortal e insubstituível, não cogitou de um afastamento temporário e muito menos ceder a candidatura. Até o gesto simbólico de 10 de dezembro, no qual entregou a espada de Bolívar, símbolo do poder presidencial, a Maduro.
Apesar dos defeitos, Chávez permanecerá como um rosto – talvez não o mais bem-sucedido, mas certamente o mais ruidoso e expressivo – da virada histórica da América Latina deste início do século XXI, na qual as massas populares nativas e mestiças, após cinco séculos de marginalização, começam a conquistar a inclusão econômica e o protagonismo político e as elites a ceder parte do que sempre julgaram ser seu direito de nascença. Não se trata de ideias fundamentalmente novas, mas de dar conteúdo real a uma retórica nacionalista que é moeda corrente, mas sem lastro, desde o tempo de Bolívar – o que se mostra, para os privilegiados, muito mais assustador.
Por suas origens e pela coerência, embora rude e teimosa (e nem sempre perspicaz), com os próprios ideais declarados, o venezuelano conquistou um papel simbólico que líderes mais pragmáticos e ambíguos não podem ocupar inteiramente, mesmo se governam países maiores com índices de popularidade ainda mais altos. Seus esforços de cooperação e articulação ideológica internacional contra o imperialismo ganharam uma projeção que ultrapassa o continente: as esquerdas francesas e gregas, por exemplo, admitem sua influência. Com um rosto com o qual o povo pode se identificar, desafiou as elites e as potências com uma voz que o cidadão comum pode entender e esforçou-se por cumprir suas promessas e encorajar as massas a se apossar de fato da pátria que sempre lhe disseram ser sua, sem que isso saísse da teoria. É bem possível que, como outros líderes do passado, inspire gerações – e se falhar nisso, terá sido mais pela relutância em fortalecer discípulos e sucessores com luz própria do que por quaisquer outros erros.

Contra o capitalismo, pelo “socialismo do século XXI”

Contra o capitalismo, pelo “socialismo do século XXI”

Carta Capital
Foto de Chávez diante de seus eleitores em Caracas, 24 de novembro, 2006. Foto: Presidência
Foto de Chávez diante de seus eleitores em Caracas, 24 de novembro, 2006. Foto: Presidência

Nos quase 14 anos como presidente da Venezuela, o tenente-coronel reformado Hugo Chávez, morto nesta terça-feira 5 vítima de um câncer, construiu uma imagem associada ao bolivarianismo. Dono do lema “socialismo do século XXI”, ampliou o papel do Estado na economia com nacionalizações, controle de preços  e parcerias público-privadas.
Afastou-se dos Estados Unidos, seu maior parceiro comercial, e reforçou laços com o regime cubano de Fidel Castro. Por outro lado, buscou criar alianças estrangeiras com potências emergentes, como China, Rússia e Brasil.
Crítico ferrenho do capitalismo, que acusou de “expropriar o povo” e de ser “a condenação da raça humana”, Chávez procurou adotar medidas para diminuir a desigualdade no país. Apoiado nas receitas geradas pelo petróleo da Venezuela, que detém as maiores reservas do mundo, reduziu os níveis de pobreza de 42% para 9,5%.
“Assumimos o compromisso de dirigir a Revolução Bolivariana até o socialismo do século XXI, baseada na solidariedade, fraternidade, amor, liberdade e igualdade”, disse ao ser reeleito em 2006.
Ao longo dos anos, demostrou-se um influente ator na América Latina, trabalhando com Bolívia, Cuba e Equador.
A partir de 2003, o governo passou a mostrar maior intervencionismo na economia, com controles como a fixação dos preços de alimentos básicos, como arroz, farinha e leite.
Com a elevação dos preços do petróleo em 2004, Chávez pediu uma série de reformas legais que permitiram o aumento das receitas com o item por meio de impostos e controle acionário dos projetos de energia concedidos na década de 1990 a petroleiras privadas nacionais e estrangeiras.

Com o lema “O petróleo é agora de todos”, o carismático líder armou uma estrutura de fundos que permitiu o uso de enormes recursos para reforçar suas políticas sociais, mas também para financiar uma onda de nacionalizações que caracterizariam sua política econômica.
Chávez ordenou a recuperação de mais de 2,5 milhões de hectares de terras de propriedade privada e a nacionalização de setores estratégicos, como cimento, aço, telecomunicações, alimentos, elétrica ou bancário.
A siderúrgica argentina Sidor, a empresa mexicana de cimento Cemex, o banco espanhol Santander ou os supermercados Êxito – com participação acionária francesa -, são alguns dos principais nomes nesta série de expropriações.
Enquanto isso, também com recursos do Estado, Chávez promoveu a criação de cooperativas, empresas cogeridas e de produção social como novas formas de “propriedade solidária”.
No entanto, o setor privado ficou com cada vez menos espaço de manobra por causa do controle do Estado e da inflação galopante. Em 2009, o Estado atingiu mais de 30% do PIB, uma ameaça à sua própria sobrevivência. A nova dinâmica nacional também foi estendida aos seus parceiros externos.
Confrontando politicamente os EUA, seu principal parceiro comercial, o governo de Chávez começou a buscar novos mercados, mais de acordo com a sua linha ideológica, como China, Rússia e Brasil.
A China, que até recentemente não estava no mapa econômico da Venezuela, é agora o segundo destino do petróleo nacional (500,00 b/d) e também um de seus principais financiadores, graças a uma série de acordos pelos quais o governo de Chávez conseguiu empréstimos de mais de 30 bilhões de dólares em troca de petróleo.
O PIB da Venezuela, que em 1998 foi de 91 bilhões de dólares, foi para 328 bilhões em 2011, impulsionado principalmente pelo aumento dos gastos governamentais.
O governo de Chávez, no entanto, não conseguiu controlar a alta inflação e evitar a escassez de commodities cíclicas e os efeitos disso sempre são sentidos nas massas, que seu governo sempre alegou tanto proteger.
Ao mesmo tempo, o país, com uma moeda supervalorizada para efeito de controle de câmbio, se tornou muito dependente das importações de produtos agrícolas, em particular.
Críticas
Por diversas vezes, o líder bolivariano foi criticado pela oposição por tentar dominar os meios de comunicação do país e se fazer onipresente na vida dos venezuelanos. Seduzia com o povo de forma carismática e desafiava constantemente seus opositores, que o derrotaram em poucas ocasiões nas urnas.
Poucos meses após assumir o poder em 1999, lançou o programa dominical “Alô, Presidente”, com duração média de cinco horas aos domingos. Como principal plataforma de exposição, utilizou as cadeias de rádio e televisão (de transmissão obrigatória) para informar os venezuelanos, liberar recursos ou inaugurar obras em aparições sempre impregnadas por um estilo próprio, com piadas, contos e músicas.
Também atacava a oposição e os meios de comunicação privados, que chamava de “apátridas”, “burgueses” ou “imperialistas”. As acusações de conspiração contra seu governo eram constantes.
Mas a “guerra midiática”, como afirmava Chávez, começou realmente durante o golpe de abril de 2002, que o afastou do poder por 48 horas, quando os canais privados optaram por exibir desenhos animados e não informar sobre as manifestações nas ruas que pediam o retorno do presidente.
Chávez decidiu em 2007 não renovar a concessão da RCTV, a mais antiga emissora de televisão do país, que tinha grande audiência, o que provocou uma onda de protestos liderados por estudantes e muitas críticas internacionais.
Desde então, apenas um canal de oposição continuou com transmissão em sinal aberto, a Globovisión, mas com um alcance limitado a Caracas e à cidade de Valencia, enquanto a frequência da RCTV – a de maior alcance – passou a ser usada pela estatal TVES.
A Globovisión, apesar de não ter sofrido o mesmo destino da RCTV e de outras 30 emissoras de rádio, recebeu multas milionárias, dezenas de processos administrativos e acusações contra os sócios do sócios do canal, chamado por Chávez de “terrorista midiático”.
A deposição
Em abril de 2002, Chávez foi deposto por um golpe da cúpula militar em meio a manifestações contra seu governo. Pouco depois, acabou devolvido ao poder por militares leais e multidões entusiasmadas.
Após o golpe, Fidel Castro forneceu milhares de médicos, agrônomos, assessores militares e militantes a Chávez para montar as chamadas “missões” sociais que lhe deram mais apoio popular. Este, por sua vez, se tornou o salvador de uma Cuba frágil após a queda da União Soviética, com o fornecimento de petróleo e ajuda econômica.
Chávez também passou a criar iniciativas regionais como o grupo de integração econômica e coordenação política Aliança Bolivariana das Américas (ALBA), integrada por Bolívia, Cuba, Equador, Nicarágua e ilhas caribenhas anglófonas, assim como o Petrocaribe, de subsídios petroleiros.
Implacável com os opositores, isolou quem não estava com ele e retomou de Fidel Castro os EUA como inimigo do país. No entanto, foi suficientemente pragmático para manter seu calendário de eleições e referendos e para seguir enviando um milhão de barris diários de petróleo a Washington.
Chávez governou de forma pouco convencional, misturando seu olfato político e o ensino militar, delegando poderes apenas a um pequeno grupo de colaboradores, do qual talvez saia seu herdeiro político.
Sob esta ótica, seu chanceler e vice-presidente, Nicolás Maduro, foi apontado como seu sucessor no auge de sua batalha contra o câncer. Definido por Chávez como “um revolucionário por completo, um homem com muita experiência, apesar de sua juventude”, Maduro foi designado pelo bolivariano para sucedê-lo em 9 de dezembro, dois dias antes de embarcar para uma cirurgia em Cuba.
Ao morrer, Chávez concentrava um grande poder em suas mãos. Era presidente, comandante-em-chefe das Forças Armadas e presidente do PSUV. Além disso, seus partidários controlam a maioria parlamentar e ostentam uma maioria no Supremo Tribunal de Justiça.
Filho de dois professores de educação primária e criado por sua avó materna, Chávez cresceu em Sabaneta, estado de Barinas (sudoeste). Casou-se e se divorciou duas vezes, e teve quatro filhos.

Morte de Chávez abre corrida política

Morte de Chávez abre corrida política

Morte abre disputa pelo poder na Venezuela
Autor(es): Por Fabio Murakawa | De São Paulo
Valor Econômico - 06/03/2013
 

O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, morreu ontem em um hospital de Caracas após travar batalha de 20 meses contra um câncer. O anúncio foi feito pelo vice-presidente, Nicolás Maduro, em discurso na televisão. Após a notícia, os chefes das Forças Armadas também foram à TV para garantir lealdade a Maduro, apontado pelo próprio Chávez como seu sucessor. O presidente regressou de Havana, onde se submeteu à última de quatro cirurgias, há duas semanas, e não era visto em público desde 10 de dezembro

A morte do presidente Hugo Chávez ontem em Caracas deu início à corrida pela sua sucessão na Venezuela. Segundo analistas, a princípio essa disputa será travada apenas entre seus seguidores e a oposição venezuelana. Mas, no médio prazo, o vice-presidente Nicolás Maduro - escolhido por Chávez para ser seu sucessor - pode ter problemas para manter a unidade em torno de sua figura.
Pela Constituição, com a morte do governante, o presidente da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello, tem até 30 dias para marcar uma data para novas eleições.
A oposição, derrotada pelo chavismo tanto no pleito presidencial de outubro quanto nas eleições para governadores, em dezembro, vem sinalizando desde o início do ano que mais uma vez apresentará um candidato único para concorrer à Presidência. Ainda não há consenso, mas o nome mais forte continua sendo o do governador de Miranda, Henrique Capriles. Ele obteve cerca de 45% dos votos na eleição para presidente, contra 55% de Chávez, e foi um dos três governadores de oposição eleitos em janeiro, contra 23 governistas.
Ontem, Capriles pediu unidade à Venezuela e expressou sua "solidariedade a todos os familiares e seguidores do presidente".
Do lado chavista, a questão foi resolvida pelo próprio Chávez. Antes de embarcar para tratamento em Cuba em 10 de dezembro, ele anunciou que, se por qualquer motivo, se visse impedido de retornar à Presidência, seu sucessor seria Maduro. "No curto prazo, a comoção gerada pela morte de Chávez certamente vai gerar uma unidade", diz Luiz Pinto, pesquisador do Instituto de Estudos Latino-Americanos da Universidade de Columbia. "Uma vez ganhas as eleições, a situação fica mais complicada, e algumas divisões dentro do chavismo podem ser expostas."
Segundo ele, há uma disputa de poder entre lideranças chavistas que têm ascendência sobre algumas instituições, como as Forças Armadas e a estatal de petróleo PDVSA - responsável por 95% das exportações do país.
Além de Maduro e Cabello, vinham sendo apontados como possíveis sucessores de Chávez o presidente da PDVSA, Rafael Ramírez, o irmão do presidente morto e governador do Estado de Barinas, Adán, e o atual ministro das Relações Exteriores, Elías Jaua. Até o momento, no entanto, as maiores lideranças do chavismo têm se mostrado coesas.
Para Héctor Briceño, professor do Centro de Estudos de Desenvolvimento da Universidade Central da Venezuela, o discurso de Maduro - em que disparou contra o "imperialismo americano" e a "oposição burguesa" - momentos antes de ele próprio anunciar a morte de Chávez foi um chamado à união do chavismo em torno de sua figura. "O discurso foi moldado para preparar esses setores para uma notícia mais forte sobre a saúde do presidente", disse Briceño ao Valor cerca de dez minutos antes do anúncio da morte do líder bolivariano.
Segundo ele, até o momento não houve nenhum sinal importante de ruptura dentro do chavismo, apesar de rumores de que setores das Forças Armadas estavam insatisfeitos com o "vazio constitucional" que se havia criado com o afastamento do presidente.

A MORTE DE CHÁVEZ / ENCRUZILHADA VENEZUELANA

A MORTE DE CHÁVEZ / ENCRUZILHADA VENEZUELANA

CÂNCER DERROTA HUGO CHÁVEZ
O Globo - 06/03/2013
 

transição Morte do presidente 3 meses depois da última cirurgia encerra ciclo de 14 anos no poder e joga o país num cenário de incerteza. Em desrespeito à Carta, Maduro assume para convocar eleições
Janaína Figueiredo
BUENOS AIRES Poucas horas depois de anunciar que Hugo Chávez estava atravessando o momento mais difícil de sua luta contra o câncer, o vice-presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, confirmou, com a voz embargada de emoção, a morte do presidente, aos 58 anos. Vítima de um câncer na região da pélvis, Chávez já não era visto em público há 85 dias. Reeleito em outubro para um quarto mandato de seis anos, ele sequer chegou a tomar posse no evento marcado para o dia 10 de janeiro. O presidente havia regressado ao país há duas semanas, estava sendo submetido a rigorosas sessões de quimioterapia e não conseguia mais falar, segundo o governo. A morte de Chávez encerra um ciclo de 14 anos no poder, marcados por um forte culto à personalidade do presidente e joga o país num cenário de incerteza, com dúvidas sobre a continuidade do chavismo e sobre a capacidade de união da oposição.
A Constituição bolivariana, uma das primeiras grandes iniciativas de Chávez, estabelece que, com a morte do chefe de Estado, o poder deve ser transferido para o presidente da Assembleia Nacional, o chavista e também militar reformado Diosdado Cabello, que seria o encarregado de convocar eleições num prazo de 30 dias. Mas num sinal de desrespeito à Carta, o chanceler Elías Jaua informou que o vice assumirá para convocar novas eleições. Ontem, a data dos futuros comícios não foi confirmada pelas autoridades do Conselho Nacional Eleitoral (CNE) e o provável adversário do chavismo nas urnas como candidato da oposição, o governador de Miranda, Henrique Capriles, enviou sua solidariedade à família Chávez pelo Twitter e, em comunicado, cobrou o cumprimento da Constituição.
- Com esta dor imensa por uma tragédia histórica que assola nossa Pátria, convocamos todos os compatriotas a ser vigilantes da paz, do amor e do respeito - declarou Maduro, rodeado por todo o Gabinete chavista.
Jaua informou que o corpo do presidente será levado hoje para a Academia Militar da Venezuela, em Fuerte Tina, em cuja capela será velado até sexta-feira. Neste dia, às 10h (horário local), haverá o funeral com a presença de chefes de Estado.
teorias da conspiração
A partir de agora, o vice Nicolás Maduro deve assumir o papel de candidato do Palácio Miraflores nas próximas eleições. Desde que Chávez partiu para sua última cirurgia em Cuba, em dezembro, e anunciou seu desejo de que Maduro fosse o candidato oficial em eventuais eleições, o vice ampliou seus espaços de poder. Ontem, após chefiar reunião da Direção Política e Militar da Revolução Bolivariana, ele endureceu o discurso e acusou os EUA e a direita venezuelana de estarem por trás de uma conspiração para criar um clima de caos que justifique uma intervenção militar estrangeira, nos mesmos moldes da Líbia. Maduro denunciou supostos contatos entre um adido militar americano em Caracas, identificado como David del Mónaco, e militares venezuelanos, e ordenou sua expulsão do país. No mesmo pronunciamento, o vice, que referiu-se ao presidente como "o Libertador do século XXI", assegurou que os "inimigos da revolução" seriam os responsáveis pela "inoculação" do câncer em Chávez e antecipou que uma comissão de cientistas estudará o caso em detalhe.
- Temos pistas - declarou Maduro, comparando o caso ao do líder palestino Yasser Arafat.
As especulações do vice provocaram debate nas redes sociais e temor entre jornalistas e políticos. Para Vladimir Villegas, ex-chavista e irmão do ministro das Comunicações, Ernesto Villegas, "o tom ameaçador de Maduro antecipa etapa de tensão".
- A sensação é de que esta campanha será feroz - comentou Villegas.
Já a deputada opositora Maria Corina Machado afirmou que a oposição deve preparar-se para exigir eleições "limpas e transparentes".
- O governo se engana se acha que vai nos intimidar com seus ataques - afirmou Maria Corina, que defendeu a candidatura de Capriles, consenso praticamente selado entre os opositores.
Com ânimos acirrados, cinco meses após a última vitória de Chávez nas urnas, o país será cenário de nova queda de braço eleitoral que definirá o futuro da revolução chavista.

MORRE CHÁVEZ E EXÉRCITO DÁ APOIO AO VICE DA VENEZUELA

MORRE CHÁVEZ E EXÉRCITO DÁ APOIO AO VICE DA VENEZUELA

HUGO CHÁVEZ 1954 - 2013
O Estado de S. Paulo - 06/03/2013
 

Após 2 anos de luta do presidente contra câncer, venezuelanos vivem fim de uma era; Herdeiro político, Maduro reforçou que o chavismo permanecerá; Governo acusou os EUA pela doença e expulsou diplomatas
Morreu ontem, aos 58 anos, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez Frias, após quase dois anos de luta contra um câncer na região pélvica. A morte foi anunciada pelo vice e herdeiro político, Nicolás Maduro. "Recebemos a informação mais dura e trágica que podemos transmitir ao nosso povo. Morreu nosso comandante Chávez", disse, em cadeia nacional. Maduro reforçou que o governo chavista permanecerá o mesmo. Ele foi respaldado pelo ministro da Defesa, Diego Molero, que foi à TV dar "total garantia" das Forças Armadas a Maduro e ao presidente da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello. A Constituição prevê eleições 30 dias após a morte do presidente. "Vamos cumprir a Constituição, para o bem da república", garantiu Molero, sem mencionar eleições. Antes do anúncio da morte de Chávez, Maduro chegou a acusar os Estados Unidos pela doença do presidente e determinou a expulsão dos diplomatas dos EUA em Caracas David Delmonico e Deblin Costal. Após 14 anos de governo, Hugo Chávez adotou o mais radical discurso anti-EUA na América Latina, apesar de continuar a fornecer petróleo para Washington. Projetos sociais garantiram a popularidade necessária para transformá-lo em um campeão das urnas: perdeu somente uma eleição em 15 disputadas. Em pronunciamento, a presidente Dilma Rousseff descreveu Chávez como "amigo do Brasil".
Morre o líder bolivariano
Hugo Chávez perde luta contra o câncer; Constituição prevê eleição nos próximos 30 dias
As complicações decorrentes de um câncer detectado em 2011 puseram fim ontem à era de Hugo Chávez na Venezuela. Após 14 anos de governo, o líder bolivariano converteu-se na mais radical personalidade anti-EUA dos últimos anos na América Latina - apesar de ser um dos principais fornecedores de petróleo de Washington.
Beneficiado pela alta do preço do produto na última década, Chávez manejou mais de US$ 1 trilhão da receita do petróleo do país. Seu investimento em projetos sociais garantiu a popularidade que o transformou em um campeão das urnas. Perdeu apenas 1 dos 15 processos eleitorais a que se submeteu durante o período em que permaneceu no poder.
Elevado quase à condição de divindade por partidários, Chávez, no entanto, era tido como um líder autocrático pelos adversários - que o acusavam de distribuir a riqueza venezuelana com países aliados a seu arco esquerdista.
O líder venezuelano também tinha uma relação de confronto com a mídia privada e causou o fechamento de emissoras de rádio e TV. Sua doença foi tratada como segredo de Estado.

MORTE DE CHÁVEZ ABRE CAMINHO PARA A SUCESSÃO NUM PAÍS DIVIDIDO E EM CRISE - O FIM DE UMA ERA

MORTE DE CHÁVEZ ABRE CAMINHO PARA A SUCESSÃO NUM PAÍS DIVIDIDO E EM CRISE - O FIM DE UMA ERA

HUGO CHÁVEZ PERDE A BATALHA
Autor(es): » RODRIGO CRAVEIRO » GABRIELA FREIRE VALENTE
Correio Braziliense - 06/03/2013
 

Um dos mais controversos dirigentes políticos da América Latina, Hugo Chávez governava a Venezuela desde 1999. Foi golpista (em 1992, acabou preso) e também vítima de um golpe (em 2002, chegou a ser apeado da Presidência por quase 48 horas). Mudou a Constituição para garantir sucessivas reeleições e se perpetuar no poder. Teve a carreira interrompida ontem, aos 58 anos, quando perdeu a luta que travava contra um câncer. Populista, ressuscitou o bolivarianismo, que batizou de "socialismo do século 21", e fez escola no continente, deixando seguidores como Rafael Correa, no Equador; Evo Morales, na Bolívia; e o deposto Fernando Lugo, no Paraguai. No próprio país, apontou o vice, Nicolás Maduro, como sucessor. O discípulo não perdeu tempo: anunciou que convocará nova eleição presidencial dentro de 30 dias. Quer ser testado nas urnas logo. De preferência, com a população ainda comovida com a perda do caudilho.
Dilma cancela viagem e vai a velório do amigo.
Enterro foi marcado para a sexta-feira.
Obama prevê tempo de mudanças no país.
Bolivarianismo deve perder forca política.
Presidente venezuelano sucumbe ao câncer, descoberto em junho de 2011. Após assumir o poder, vice Nicolás Maduro convocará eleições "nos próximos 30 dias". Enterro está marcado para a sexta-feira

“Patriotas que nos escutam, que nos veem, em todo o território da pátria e nossos irmãos do mundo. (…) Hoje, acompanhávamos sua filha, seu irmão e seus familiares quando recebemos a informação mais dura e mais trágica que podemos transmitir ao nosso povo. Às 16h25 de hoje (17h55 em Brasília), 5 de março, faleceu o comandante presidente Hugo Chávez Frías.” Visivelmente emocionado, o vice-presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, informou que Chávez acabara de sucumbir a uma batalha de quase dois anos contra o câncer. O anúncio foi o último capítulo de um dia tumultuado. Após se reunir com o Conselho de Ministros e com o Diretório Político-Militar da Revolução Bolivariana, Maduro atacou duramente “os inimigos da pátria”, acusou-os de conspirar contra Chávez e ordenou a expulsão dos adidos norte-americanos da Aeronáutica David Delmonaco e Devlin Kostal. “Rejeitamos totalmente a alegação do governo de Caracas que envolve os EUA em algum tipo de conspiração para desestabilizar o governo da Venezuela”, afirmou o Pentágono, por meio de um comunicado. Cerca de duas horas depois, o vice retornou à tevê e fez o comunicado fúnebre. Pela manhã, María Gabriela, uma de suas filhas, pedira à nação, por meio do microblog Twitter, que orasse pelo pai.

O corpo de Chávez, de 58 anos, será trasladado hoje do Hospital Militar Dr. Carlos Arvelo para a Academia Militar da Venezuela. O velório na capela ardente durará até sexta-feira, data do sepultamento, marcado para as 10h (11h30 em Brasília), na presença de chefes de Estado e de governo. Desde ontem, o país vive luto oficial de sete dias. Amado e odiado, polêmico e sem papas na língua, o mandatário que forjou sua ideologia na figura do conquistador Simón Bolívar e adotou o socialismo do século 21 como a alma de seu governo morreu no mesmo dia que Josef Stalin, 60 anos depois. A presidente Dilma Rousseff considerou a perda “irreparável” e lembrou que Chávez era uma liderança comprometida com os povos da América Latina.

Com a ausência do venezuelano, surgem dúvidas sobre o futuro do chavismo e de sua revolução. O chanceler, Elías Jaua, confirmou que Maduro assume o poder interinamente. “Estas foram as ordens do comandante presidente Hugo Chávez”, disse. “No momento em que se declara a ausência absoluta, ele terá que convocar eleições dentro de um mês, provavelmente para 7 de abril”, explicou ao Correio Tony De Viveiros, cientista político da Universidad Simón Bolívar (em Caracas). Principal líder da oposição, Henrique Capriles Radonski, governador do estado de Miranda, expressou solidariedade para com a família do presidente e exortou a população a se unir. “Nesses momentos difíceis, devemos demonstrar nosso profundo amor e respeito à nossa Venezuela! Unidade da família venezuelana!”, escreveu, por meio do microblog Twitter.

De acordo com Maduro, Chávez morreu após lutar “duramente” contra o câncer, “com o amor do povo, com as bênçãos do povo e com a lealdade mais absoluta de seus companheiros e companheiras de luta e com o amor de todos os seus familiares”. O vice-presidente ordenou a mobilização especial de toda a Força Armada Nacional Bolivariana e da polícia, a fim de garantir a paz na Venezuela. “Nessa dor imensa, dessa tragédia histórica que toca a nossa Pátria, chamamos a todos os compatriotas a sermos os vigilantes da paz, do respeito e do amor”, declarou Maduro. “As bandeiras de Chávez serão levantadas com honra e com dignidade. Comandante, onde o senhor estiver, obrigado, mil vezes obrigado”, acrescentou, entre lágrimas. O pranto também tomou conta de simpatizantes, que se reuniram, na noite de ontem, diante do Hospital Militar Dr. Carlos Arvelo e nas praças Bolívar, espalhadas pelo país. Nesses locais, o choro se misturava a discursos acalorados em defesa da revolução.

Em uma demonstração de obediência, a Força Armada Nacional Bolivariana prometeu cumprir a Constituição. “Nos encontramos unidos para cumprir e fazer cumprir os preceitos constitucionais e a vontade do nosso líder, comandante Hugo Rafael Chávez Frías”, disse Diego Molero, ministro da Defesa, que expressou apoio a Maduro, a Diosdado Cabello (presidente da Assembleia Nacional) e aos demais poderes do Estado. Por sua vez, o general Wilmer Barrientos, chefe do comando estratégico operacional das Forças Armadas da Venezuela, comentou que as fronteiras, incluindo os mares, estavam sendo vistoriados. “Até o momento, tudo segue em plena normalidade”, afirmou à rede Telesur.

Por telefone, de Miami, o médico venezuelano José Rafael Marquina — que garantia ter informações privilegiadas sobre o prontuário médico do presidente — explicou ao Correio que um dos pulmões de Chávez estava totalmente invadido pelo tumor. “A falência respiratória continuou progredindo até o momento em que mais nada funcionava, nem mesmo a ventilação mecânica”, disse. Segundo ele, o tumor teve início no Psoas, um músculo da pélvis, se espalhou pela coluna e atingiu os pulmões.

Governo

Apesar do carisma considerado único de Chávez, a Venezuela deverá experimentar apenas uma pequena mudança na forma de governo. A opinião é de Alberto Pfeifer, especialista em América Latina pela Universidade de São Paulo (USP). “Se Chávez era dono de uma retórica inigualável, Maduro é dotado do populismo, herdado de seu mentor”, comentou à reportagem. O especialista alerta para o risco de conflitos internos a médio prazo. “A figura de Chávez era aglutinadora. Ainda não sabemos se Nicolás Maduro terá essa característica.”

Professora da Universidad Simón Bolívar, Natalia Brandler acredita que os chavistas precisarão realizar várias manobras, caso queiram se fortalecer. “Eles têm que jogar várias cartas ao mesmo tempo: manter a polarização, culpar a oposição por todos os males econômicos e transformar Chávez numa figura mítica e religiosa. Um líder que deixou um último desejo: o de que o povo votasse no intragável Maduro para preservar a Revolução”, explicou. Apesar de a oposição ter perdido o poder de mobilização, ela já começa a trabalhar para desconstruir a imagem de Maduro. Nas últimas semanas, os antichavistas organizaram protestos contra a deterioração econômica do país, que enfrenta escassez de produtos e desvalorização da moeda.


Sigo aferrado a Cristo e confiado em médicos e enfermeiros. Até a vitória sempre! Viveremos e venceremos!”
Hugo Chávez, presidente da Venezuela, na última mensagem publicada no microblog Twitter, em 18 de fevereiro

Suas bandeiras serão levantadas com honra e dignidade. Comandante, onde estiver, obrigado, mil vezes obrigado”
Nicolás Maduro, vice-presidente da Venezuela


Gratidão e despedida

Antes do anúncio da morte de Chávez, a filha mais nova do presidente, María Gabriela (D), agradeceu o apoio de admiradores e pediu orações em intenção do pai. “Não fique triste, meu povo. Elevemos nossas orações e não percamos em nenhum momento a fé”, escreveu, em sua página no Twitter. Horas mais tarde, ela disse ser “eternamente grata” aos que lhe enviaram mensagens de força e lembrou o legado de Chávez. “Devemos seguir seu exemplo. Devemos seguir construindo a Pátria! Até sempre, meu papai”

CRONOLOGIA: confira a trajetória política de Hugo Chávez

CRONOLOGIA: confira a trajetória política de Hugo Chávez

Jornal Zero Hora

Líder teve uma longa e controversa história política na Venezuela

 Morto na tarde desta terça-feira, vítima de um câncer cujo tratamento era cercado de mistério, o presidente Hug Chávez teve longa e controversa história política na Venezuela.

1992
Em 4 de fevereiro de 1992, o tenente-coronel Hugo Chávez liderou um golpe contra o presidente Carlos Andrés Pérez. O motivo alegado era a crise econômica, que empobrecia a população com inflação e desemprego altos. Antes disso, manifestações populares já vinham ocorrendo, com destaque para o "Caracazo", em 1989, contra o aumento do preço das passagens de ônibus. Ônibus foram incendiados e casas comerciais foram saqueadas.

1997
Depois de ter sido preso em razão do golpe contra Pérez, Chávez funda o Movimiento V República (MVR).

1998
Nas eleições presidenciais de 6 de dezembro, apoiado por uma coligação de esquerda e centro-esquerda _ o chamado Polo Patriótico _, Chávez é eleito com 56% dos votos.

1999
Assume a presidência da Venezuela, para mandato de cinco anos. Põe fim a quatro décadas de hegemonia dos partidos tradicionais, o Acción Democrática (AD), de Pérez, e o Comité de Organización Política Electoral Independiente (Copei). Promove um referendo sobre a convocação de uma Assembleia Constituinte. Em 25 de abril, 70% dos venezuelanos se manifestam favoráveis. Em plebiscito, a nova Constituição foi aprovada por 71,21% dos votos.

2000
Com base na nova Constituição, são realizadas eleições presidenciais. Chávez confirma seu mandato (para alguns, uma reeleição, para outros uma eleição sob as novas regras), com 59,7% dos votos. O governo aprovou a Lei Habilitante, que lhe permitia governar por decreto durante um ano. Surgem daí as primeiras acusações segundo as quais ele seria um ditador.

2001
Chávez promulga 49 decretos. Entre eles, a Lei de Hidrocarbonetos, que fixava a participação do Estado no setor petrolífero em 51%, e a Lei de Terras e Desenvolvimento Agrário, prevendo a expropriação de latifúndios. Seus adversários reagem.

11 de abril de 2002

Uma marcha por Caracas pede a destituição de Chávez. No Palácio Miraflores, havia uma contramanifestação. As duas se encontram. Quinze pessoas morrem nos embates. No dia seguinte, 12 de abril, o general Lucas Rincón anuncia que Chávez renunciara. No seu lugar, assumiria o presidente da Fedecámaras, Pedro Carmona. Na noite de sábado para domingo, porém, ele envia mensagem dizendo que não renunciara ao "poder legítimo". Carmona dissolve a assembleia e assume poderes extraordinários. Ocorrem protestos contra Carmona, e militares alinhados a Chávez, encabeçados por Diosdado Cabello, promovem o contragolpe. Chávez, então, deixa a prisão na ilha de La Orchila e é recebido por uma multidão, retomando o controle do governo.

2003/2004

Em novembro de 2003, a oposição promove uma coleta de assinaturas para a convocação de uma consulta popular sobre a permanência de Chávez no poder. O referendo ocorre em 15 de agosto de 2004: 58,25% apoiaram a permanência de Chávez na presidência até ao fim do mandato.

2006

Reeleito com 62.9% dos votos, derrotando Manuel Rosales, que teve 36.9%. Em seguida, Chávez anuncia que iria unir os 23 integrantes de sua coalizão no PSUV, sendo ele o cacique partidário.

2007

O governo de Chávez, a partir de 2007, foi mais tranquilo: não havia oposição no Congresso. Em uma estratégia que hoje os próprios oposicionistas contestam, eles boicotaram as eleições legislativas. O presidente, então, conseguiu ampliar seus poderes para governar por 18 meses através de decretos em 11 setores, por meio da Lei Habilitante. Em dezembro, uma reforma à nova Constituição foi submetida ao veredicto do povo da Venezuela, num plebiscito. O povo rejeitou as emendas propostas por Chávez, e ele se mostrou magnânimo em rede nacional, acatando a decisão popular.

2008

Grave crise diplomática entre Venezuela e Equador, de um lado, e a Colômbia, de outro. O desconforto ocorreu depois que tropas da Colômbia mataram Raúl Reyes, líder das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).

2009

A Venezuela entra em uma profunda crise energética. O governo propõe que os venezuelanos tomem menos banhos para economizar água e energia. Também nacionalizou os bancos que se recusassem a oferecer mais crédito aos correntistas.

2010

A oposição muda de estratégia e disputa as eleições parlamentares. O chavismo mantém maioria no parlamento, mas apenas com maioria simples, o que representa, de certa forma, uma derrota.

2012

Nas eleições mais disputadas dos últimos tempos, Chávez derrota o oponente Henrique Capriles, com 55% dos votos. Debilitado pelo câncer, ele ainda assim saiu em campanha, surpreendendo quem não o imaginava em atividades eleitorais de rua. Em seguida, colocou Nicolás Maduro como vice-presidente, para ser seu eventual substituto.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Governo venezuelano adia posse de Chávez

Governo venezuelano adia posse de Chávez

Governo da Venezuela adia posse de Chávez
O Estado de S. Paulo - 09/01/2013
 

O governo da Venezuela anunciou oficialmente ontem que Hugo Chávez não vai à posse prevista pela Constituição para amanhã. Também pediu à Assembleia Nacional que permita o adiamento da cerimônia, que seria feita diante do Tribunal Supremo de Justiça. A informação foi transmitida numa carta enviada pelo vice-presidente Nicolas Maduro ao presidente da Assembléia Nacional Diosdado Cabello. A carta lida por Cabelo faz menção aos dois argumentos levantados pelos chavistas que permitiriam a continuidade do presidente em suas funções apesar da ausência na posse: a licença de 90 dias concedida pelo Legislativo e a “razão de força maior” que permitiria a Chávez fazer o juramento ante o TSJ, em data não estabelecida. O líder da oposição no país, Henrique Capriles, pediu que a Suprema Corte se manifeste e disse que vai recorrer à OEA caso a Constituição seja desrespeitada

O governo venezuelano anun­ciou ontem que o presidente Hugo Chávez não comparece­rá à posse prevista pela Consti­tuição para amanhã e pediu à Assembleia Nacional que per­mita o adiamento da cerimô­nia, que seria feita diante do Tribunal Supremo de Justiça. A informação foi transmitida numa carta enviada pelo vice- presidente Nicolás Maduro ao presidente da Assembleia Na­cional, Diosdado Cabello.
Na mensagem, Maduro afir­ma que Chávez agradeceu aos de­putados pela autorização emiti­da em dezembro para que ele se submetesse à cirurgia em Cuba e lamentou que, "por motivo de força maior", não poderá compa­recer à cerimônia de posse.
A carta lida por Cabello faz menção aos dois argumentos le­vantados pelos chavistas que permitiriam a continuidade do presidente em suas funções ape­sar da ausência na posse: a licen­ça de 90 dias concedida pelo Le­gislativo e a "razão de força maior" que permitiria - na visão de seus partidários - a Chávez fazer o juramento ante o Tribu­nal Supremo de Justiça (TSJ), em data não estabelecida.
Para alguns analistas venezue­lanos, a carta enviada por Madu­ro se trataria de um passo formal para acionar a Sala Constitucio­nal do TSJ, encarregada de diri­mir dúvidas sobre a Carta. O ór­gão máximo do Judiciário vene­zuelano é controlado pelo chavismo e não será surpresa se a câmara der aval à interpretação que favorece o atual governo.
Comunicado prolixo. Detalhes do real estado de saúde de Chá­vez, operado no dia 11 de dezem­bro pela quarta vez como parte do tratamento de um câncer na região pélvica, continuam desco­nhecidos. Por meio de um curto comunicado, aparentemente re­digido com a finalidade de ate­nuar seu conteúdo, o ministro de Comunicação da Venezuela, Er­nesto Villegas, informou na se­gunda-feira à noite que Chávez ainda apresenta quadro de infec­ção respiratória. Num sinal mais positivo, Villegas anunciou tam­bém que o líder tem reagido ao tratamento em Cuba.
"O presidente se encontra em uma situação estacionária em re­lação à descrita no boletim médi­co mais recente (de quinta-fei­ra), quando foi informada a insu- ficiência respiratória enfrentada pelo comandante Chávez como consequência de uma infecção pulmonar sobrevinda no curso do pós-operatório", disse Ville­gas. "O tratamento vem sendo aplicado, de forma permanente e rigorosa, e o paciente o está assi­milando", acrescentou o minis­tro, afirmando que o Executivo venezuelano tem mantido cons­tante contato com a equipe médi­ca que trata de Chávez, em Hava­na, e com parentes do presiden­te. Em cadeia nacional de rádio e TV, Villegas também pediu à pulação que não dê ouvidos aos rumores motivados pela "guerra psicológica" que a oposição esta­ria promovendo contra Chávez.
O uso do termo "estacioná­rio" - em lugar de "estável" e "es­tabilizado" usados de forma mais comum nos comunicados anteriores - causou estranheza para alguns jornalistas e diplomatas que vivem em Caracas.
"Não acredito nas teorias conspiratórias que circulam nas redes sociais nas últimas sema­nas"", disse ao Estado um diplo­mata sul-americano sob condi­ção de anonimato. "Mas esse foi um boletim, pelo menos, diferen­te." "A ausência de informações confiáveis nos leva de volta aos tempos dos "kremlinistas" dos anos 70, quando se procuravam sinais e linguagens cifradas que pudessem darpistas sobre o estado de saúde de líderes políticos", escreveu sobre o tema o jornalis­ta Ewald Scharfenberg.

Governo venezuelano adia posse de Chávez

Governo venezuelano adia posse de Chávez

Governo da Venezuela adia posse de Chávez
O Estado de S. Paulo - 09/01/2013
 

O governo da Venezuela anunciou oficialmente ontem que Hugo Chávez não vai à posse prevista pela Constituição para amanhã. Também pediu à Assembleia Nacional que permita o adiamento da cerimônia, que seria feita diante do Tribunal Supremo de Justiça. A informação foi transmitida numa carta enviada pelo vice-presidente Nicolas Maduro ao presidente da Assembléia Nacional Diosdado Cabello. A carta lida por Cabelo faz menção aos dois argumentos levantados pelos chavistas que permitiriam a continuidade do presidente em suas funções apesar da ausência na posse: a licença de 90 dias concedida pelo Legislativo e a “razão de força maior” que permitiria a Chávez fazer o juramento ante o TSJ, em data não estabelecida. O líder da oposição no país, Henrique Capriles, pediu que a Suprema Corte se manifeste e disse que vai recorrer à OEA caso a Constituição seja desrespeitada

O governo venezuelano anun­ciou ontem que o presidente Hugo Chávez não comparece­rá à posse prevista pela Consti­tuição para amanhã e pediu à Assembleia Nacional que per­mita o adiamento da cerimô­nia, que seria feita diante do Tribunal Supremo de Justiça. A informação foi transmitida numa carta enviada pelo vice- presidente Nicolás Maduro ao presidente da Assembleia Na­cional, Diosdado Cabello.
Na mensagem, Maduro afir­ma que Chávez agradeceu aos de­putados pela autorização emiti­da em dezembro para que ele se submetesse à cirurgia em Cuba e lamentou que, "por motivo de força maior", não poderá compa­recer à cerimônia de posse.
A carta lida por Cabello faz menção aos dois argumentos le­vantados pelos chavistas que permitiriam a continuidade do presidente em suas funções ape­sar da ausência na posse: a licen­ça de 90 dias concedida pelo Le­gislativo e a "razão de força maior" que permitiria - na visão de seus partidários - a Chávez fazer o juramento ante o Tribu­nal Supremo de Justiça (TSJ), em data não estabelecida.
Para alguns analistas venezue­lanos, a carta enviada por Madu­ro se trataria de um passo formal para acionar a Sala Constitucio­nal do TSJ, encarregada de diri­mir dúvidas sobre a Carta. O ór­gão máximo do Judiciário vene­zuelano é controlado pelo chavismo e não será surpresa se a câmara der aval à interpretação que favorece o atual governo.
Comunicado prolixo. Detalhes do real estado de saúde de Chá­vez, operado no dia 11 de dezem­bro pela quarta vez como parte do tratamento de um câncer na região pélvica, continuam desco­nhecidos. Por meio de um curto comunicado, aparentemente re­digido com a finalidade de ate­nuar seu conteúdo, o ministro de Comunicação da Venezuela, Er­nesto Villegas, informou na se­gunda-feira à noite que Chávez ainda apresenta quadro de infec­ção respiratória. Num sinal mais positivo, Villegas anunciou tam­bém que o líder tem reagido ao tratamento em Cuba.
"O presidente se encontra em uma situação estacionária em re­lação à descrita no boletim médi­co mais recente (de quinta-fei­ra), quando foi informada a insu- ficiência respiratória enfrentada pelo comandante Chávez como consequência de uma infecção pulmonar sobrevinda no curso do pós-operatório", disse Ville­gas. "O tratamento vem sendo aplicado, de forma permanente e rigorosa, e o paciente o está assi­milando", acrescentou o minis­tro, afirmando que o Executivo venezuelano tem mantido cons­tante contato com a equipe médi­ca que trata de Chávez, em Hava­na, e com parentes do presiden­te. Em cadeia nacional de rádio e TV, Villegas também pediu à pulação que não dê ouvidos aos rumores motivados pela "guerra psicológica" que a oposição esta­ria promovendo contra Chávez.
O uso do termo "estacioná­rio" - em lugar de "estável" e "es­tabilizado" usados de forma mais comum nos comunicados anteriores - causou estranheza para alguns jornalistas e diplomatas que vivem em Caracas.
"Não acredito nas teorias conspiratórias que circulam nas redes sociais nas últimas sema­nas"", disse ao Estado um diplo­mata sul-americano sob condi­ção de anonimato. "Mas esse foi um boletim, pelo menos, diferen­te." "A ausência de informações confiáveis nos leva de volta aos tempos dos "kremlinistas" dos anos 70, quando se procuravam sinais e linguagens cifradas que pudessem darpistas sobre o estado de saúde de líderes políticos", escreveu sobre o tema o jornalis­ta Ewald Scharfenberg.

Sem Chávez, país vive na incerteza

Sem Chávez, país vive na incerteza

Reféns da dúvida
Autor(es): RODRIGO CRAVEIRO
Correio Braziliense - 03/01/2013
 
A apenas uma semana da data estipulada para a posse do presidente Hugo Chávez, a Venezuela se afunda na incerteza e na dúvida. Com o chefe de Estado supostamente à beira da morte, em Havana, ninguém se arrisca a prever o futuro político do país. A Constituição Bolivariana, criada pelo próprio Chávez, permite declarar a ausência temporal ou a falta absoluta do presidente, mas não faz menção em relação a um líder reeleito. “O candidato eleito ou a candidata eleita tomará posse do cargo de presidente ou presidente da República em 10 de janeiro do primeiro ano de seu período constitucional, mediante juramento ante a Assembleia Nacional. Se, por qualquer motivo imprevisto, o presidente ou presidenta não puder tomar posse ante a Assembleia Nacional, o fará ante o Supremo Tribunal de Justiça”, determina o artigo nº 231 da Carta Magna. Chávez, de 58 anos, foi operado em 11 de dezembro, pela quarta vez, de um câncer localizado supostamente na região pélvica.

“Pelas declarações de altas fontes do governo, que insistem que Chávez pode prestar juramento qualquer dia, o mais provável é que ele se ausente em 10 de janeiro”, aposta o analista político Tony De Viveiros, ex-professor da Universidad Simón Bolívar. Na hipotética declaração da falta absoluta do presidente, Maduro assumiria o poder, de forma interina, até 10 de janeiro, e convocaria eleições em 30 dias. Se a ausência não for decretada e Chávez não assumir o quarto mandato consecutivo, o cenário seria incerto e sem precedentes. “Especula-se que o melhor seja postergar, por alguns dias, o começo do novo governo. Analistas advertem que Chávez possa vir a Caracas, prestar juramento e pedir sua imediata substituição temporária. Outros estudiosos acham que ele não esperará o fim do mandato para tanto”, afirmou ao Correio, por e-mail, Carlos António Romero Méndez, doutor em ciência política pela Universidad Central de Venezuela (UCV).

De acordo com o analista, o adiamento da transição política não interessaria aos opositores, cada vez mais dispersos. “As eleições a curto prazo (em 30 dias) favoreceriam o sucessor de Chávez, mas ocorreria o contrário se houvesse demora. Com a morte do presidente e ante um governo débil, o candidato da oposição poderia vencer nas urnas”, observa Méndez. Para ele, há apenas duas questões certezas: Chávez não está morto e não pediu sua substituição. “Qualquer opção é válida neste momento, incluindo o retorno e a posse do presidente.”

Muitos moradores de Caracas duvidam dessa possibilidade. “Por aqui, há muitíssima tensão, um silêncio sepulcral. Todo mundo prefere se refugiar em casa e a maioria das pessoas acha que Chávez morreu ou que está em uma condição muito grave”, disse à reportagem Valeria Scocozza, 18 anos, estudante de psicologia na UCV. Ela admite temer uma onda de violência, caso Chávez morra. “Há muita ambição pelo poder, vários candidatos farão o possível para obter vantagens. Vemos disputas até dentro do chavismo”, comentou. Acadêmico de direito na mesma universidade, Luis Eduardo Barrios Arocha, 18 anos, critica o hermetismo de informações do governo venezuelano e admite temer o desrespeito à Constituição. “Temos 14 anos de experiência (com Chávez) para saber que eles (chavistas) fazem o que querem com a Carta Magna. Fala-se até mesmo em juramento em Cuba”, afirmou, por e-mail.

O presidente da Bolívia, Evo Morales, foi um dos poucos a se pronunciar ontem sobre a saúde de Chávez. “A situação do irmão presidente Chávez é muito preocupante. Tomara que logo possamos vê-lo nos acompanhando”, declarou Morales, em entrevista coletiva na cidade de Cochabamba (centro), depois de ter se comunicado com a família do venezuelano. “Tomara que nossas orações e nossos rituais sejam efetivos para salvar sua vida”, emendou. Em sua conta no Twitter, Jorge Arreaza , genro de Chávez e ministro da Ciência e Tecnologia da Venezuela, informou que ele permanece “estável” dentro de seu “quadro delicado”.

Em Washington, a porta-voz do Departamento de Estado norte-americano, Victoria Nuland, externou o desejo de uma transição na Venezuela aferrada à Constituição. “Se existir a circunstância de que Chávez não esteja em capacidade de exercer suas funções, queremos ver uma transição apegada à Constituição”, afirmou, segundo a agência Associated Press.

“Ele está consciente”


O presidente venezuelano, Hugo Chávez, está consciente da complexidade de seu estado de saúde, disse o vice, Nicolás Maduro, em entrevista à rede de tevê Telesur, transmitida por volta das 23h de terça-feira (hora de Brasília). “Pude vê-lo em duas oportunidades (...) Ele está consciente da complexidade do estado pós-operatório”, declarou, em Havana. Maduro assegurou ter encontrado Chávez “com uma força gigantesca”. “Eu o saudei com a mão esquerda, depois me apertou com uma força gigantesca enquanto falávamos”, disse.

Preocupação brasileira

O governo brasileiro acompanha com preocupação o estado de saúde do presidente venezuelano, Hugo Chávez, mas não acredita haver razões para inquietações sobre o futuro da Venezuela. Em entrevista à agência France-Presse, um funcionário do Palácio do Planalto se negou a falar sobre o futuro da Venezuela, caso Chávez não possa assumir um novo mandato em 10 de janeiro. “Não há motivos para se preocupar, acreditar que algo extraordinário possa ocorrer no futuro com a Venezuela”, acrescentou. O funcionário disse ainda que o governo brasileiro não tem informações diferentes das difundidas pelas autoridades venezuelanas, segundo as quais Chávez atravessa um “pós-operatório complexo”.
“O Brasil mantém contatos com a Venezuela com a regularidade de sempre, independente do que tem se sabido sobre a saúde do presidente Hugo Chávez”, informou uma fonte da chancelaria.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Chávez reeleito presidente da Venezuela

Chávez reeleito presidente da Venezuela

08.10.2012 
 Por Ana Cristina Pereira, Caracas

Chávez celebra a vitória no Palácio Miraflores  
Chávez celebra a vitória no Palácio Miraflores (Jorge Silva/Reuters)
Eram dez da noite (3h30 em Lisboa) quando a presidente do Conselho Nacional Eleitoral, Tibisay Lucena, leu o primeiro boletim oficial: Hugo Chávez ganhou as eleições presidenciais na Venezuela com 54,42% dos votos (7.444.082); o opositor Henrique Capriles arrecadou 44,97% (6.151.544).

"Obrigado ao meu amado povo! Viva a Venezuela! Viva Bolívar!", agradeceu o Presidente, alguns minutos depois, através da sua conta no Twitter, a mais popular rede social no país. Àquela hora, já apoiantes seus celebravam nas ruas.

Há décadas que os venezuelanos não se empenhavam tanto numas eleições. Apurados mais de 90% dos votos, tinham comparecimento 80,94% dos eleitores.

Capriles foi o primeiro a discursar. Fê-lo na sua sede de campanha: "Iniciamos a construção de um caminho e aí estão mais de seis milhões de pessoas à procura de um melhor futuro.”

O candidato da Mesa da Unidade Democrática dirigiu-se aos eleitores que votaram por ele e aos que não: “Quero dizer-lhes que contem comigo, que estou ao seu serviço, mas também quero dizer aos outros venezuelanos que contem comigo.” E felicitou Chávez: “Espero que leia com grandeza a expressão do nosso povo. Há um país que tem duas visões e ser um bom Presidente significa trabalhar para a união de todos os venezuelanos.”

Eram já 22h30 (5h00 em Lisboa) quando Chávez se dirigiu ao balção do povo, no palácio de Miraflores, e fez o seu discurso. O Presidente felicitou “os compatriotas que votaram pela revolução” e os opositores por terem reconhecido de imediato os resultados eleitorais. A “batalha” fora democrática. “Graças a Deus e à consciência do nosso povo, não houve nada que manchasse a batalha perfeita e a vitória perfeita.”

O líder do Partido Socialista Unido da Venezuela espera ser melhor Presidente do que foi nestes 13 anos que já conta no cargo. “Convido-os a que sejamos cada dia melhores venezuelanos e melhores venezuelanas para acelerar a construção da Venezuela potência. Quero comprometê-los a todos e a todas, incluindo os sectores da oposição.”

Eleito em 1998 e reeleito em 2000, a fase da lua-de-mel, Chávez enfrentou uma forte oposição em 2002/2003, que incluiu um golpe de estado relâmpago e uma greve petrolífera. Ultrapassou um referendo revogatório em 2004 e foi reeleito em 2006. Com a vitória de ontem, garante a presidência até 2019, somando 20 anos.

As reportagens na Venezuela são financiadas no âmbito do projecto Público Mais

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Chavismo em xeque

Chavismo em xeque

Correio Braziliense - 25/02/2012
 

Simpatizantes fazem despedida triunfal para Hugo Chávez, que será submetido a uma extração de tumor em Havana. Antes de partir, o presidente prometeu lutar pela própria vida. Analistas veem incertezas no futuro político do país
Rodrigo Craveiro
Em 13 anos de governo, Hugo Chávez adotou o populismo e personificou o poder, ao assumir-se como o ideólogo da chamada Revolução Bolivariana. Acreditava estar acima de tudo e pretendia permanecer no governo da Venezuela pelo menos até 2020. Antes de deixar o Palácio de Miraflores e embarcar para Havana, na tarde de ontem, o presidente foi à tevê e declarou: "Estamos obrigados a triunfar e a vencer para garantir a paz da Venezuela. (...) Eu lhes juro que, nas próximas horas e dias, lutarei como vocês me ensinaram a lutar, por minha vida, que é a vida de vocês, da pátria". A iminente cirurgia em Cuba para a extração de um novo tumor na região pélvica não apenas lança dúvidas sobre o futuro do chavismo. De acordo com analistas consultados pelo Correio, a doença de Chávez ameaça causar rupturas no Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), mas também força os governistas a transcender a figura de seu líder.
"Chávez sabe que criou uma força política poderosa, arraigada em todos os poderes do Estado e nas camadas mais pobres. É o líder indiscutível das massas, sem a possibilidade de um sucessor imediato", admite o cientista político Victor Barranco, presidente do Conselho Superior do Centro de Altos Estudos — em Barquisimeto, a 363km de Caracas. Segundo ele, o presidente compreende que está cercado de pessoas desprovidas do sentido de valorização do projeto bolivariano e imbuídas de interesses particulares.
A "certeza da incerteza" levou Chávez a convocar um comando de campanha eleitoral, que ficará sob responsabilidade de Jorge Rodríguez, prefeito de Caracas. Para o historiador e analista político Juan Eduardo Romero, da Universidade del Zulia, o organismo traz um conteúdo simbólico. "O Comando Carabobo, como o presidente o batizou, é uma referência à derrota definitiva das tropas espanholas na província de mesmo nome, em 1821. A batalha consolidou o projeto de Simón Bolívar", explica. "Segundo Chávez, as eleições presidenciais de 8 de outubro serão uma batalha definitiva para derrotar um setor político ligado aos interesses dos EUA", emenda. Romero acredita que a estrutura do Comando Carabobo visa dar continuidade ao projeto chavista. Por sua vez, Barranco sustenta que, pela primeira vez em 13 anos, muitos aliados veem o futuro com ceticismo. Ele alerta que alguns chavistas já conspiram.
Apenas a Assembleia Nacional pode decidir sobre a incapacidade do presidente. "A relação entre o diagnóstico e uma declaração de incapacitação não é automática em nenhum país. Há todo um procedimento jurídico-constitucional", lembra Cesar Barrantes, analista da Universidade Central da Venezuela. O PSUV detém maioria absoluta de deputados, o que inviabiliza tal cenário. O especialista admite que a oposição vê Chávez como um cadáver humano e político. "Com ou sem Chávez, a Revolução Bolivariana seguirá se aprofundando", diz Barrantes. Segundo ele, o projeto socialista criou estruturas políticas e um tecido social sustentado por multirredes de movimentos comunitários e étnico-populares.
Um dos nomes da oposição, Diego Arría — ex-governador de Caracas — afirma que os "narcogenerais" estão aterrorizados com a possibilidade de que o mandatário não se apresente nas eleições. "Chávez não tem sucessor e eles sabem disso", comenta, por e-mail, o ex-candidato nas primárias do opositor Mesa de Unidade Democrática (MUD). Cotado como candidato à sucessão, o líder da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello, negou um vazio de poder.
Flores e beijos
No trajeto até o aeroporto, centenas de chavistas reuniram-se para se despedir do comandante. Acompanhado das filhas Rosa Virginia e Rosinés, Chávez apoiou-se sobre o teto solar do carro, que levava uma grande imagem de Jesus. Ganhou flores, uma chuva de pétalas e beijos. E enviou um recado aos rivais: "Ainda que este corpo se acabe, Chávez não se acabará, porque Chávez já não sou eu, Chávez está nas ruas e se fez povo". O presidente deve ser operado entre segunda e terça-feira. Oncologistas suspeitam de um tumor raro e agressivo (leia entrevista). Na quinta-feira, Chávez admitiu que é grande a possibilidade de um tumor maligno. "Oxalá não seja (maligno), mas a probabilidade existe e é preciso estar preparado para isso", declarou.
Dilma telefona para o colega e deseja sorte
A presidente Dilma Rousseff telefonou, no início da tarde de ontem, para o colega venezuelano, Hugo Chávez, e lhe desejou sorte e pronta recuperação na cirurgia. De acordo com o Planalto, Chávez agradeceu a Dilma pelo apoio e disse estar confiante. A ligação durou cerca de cinco minutos. Minutos antes de embarcar no avião presidencial, o mandatário citou a conversa. Segundo ele, Dilma mandou um recado do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao amigo. Lula disse que, se fosse preciso, viraria babá de Chávez.
Ponto de vista
Como o senhor analisa o cenário político na Venezuela, com o novo tumor de Chávez?
O anúncio da recaída no processo de recuperação do presidente provoca uma série de reações. O primeiro deles deriva dos simpatizantes do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV). O tipo de liderança carismática construído por Chávez lhe outorga um peso muito alto na construção do socialismo bolivariano do século 21. Sua doença é um duro teste para avaliar a capacidade de transformação do PSUV como ator político consolidado. O segundo diz respeito aos adversários. A opositora Mesa da Unidade Democrática tem o desafio de aproveitar a "debilidade" momentânea de Chávez. O problema é que a oposição não possui uma sólida unidade política.
É um quadro confuso. Chávez tinha conseguido convencer seus aliados que havia "derrotado" o câncer, e a oposição não deixou de pensar na doença como um "recurso de propaganda do presidente". É indubitável que o futuro se torna inquietante. A Revolução Bolivariana, bem como a saúde do presidente, joga com a incerteza. É um cenário ruim para quem acostumou a dominá-lo por inteiro. Alguns aliados de Chávez fazem previsões de salvamento, outros conspiram internamente. Chávez sabe que criou uma força política poderosa, arraigada com firmeza em todos os poderes do Estado e nas camadas sociais mais pobres do país.
Pânico é a melhor descrição para o que as autoridades civis e militares do regime enfrentam. Chávez dizia que a oposição fracassaria nas primárias e não chegaria a 500 mil eleitores. Pelo menos 3 milhões votaram em uma mensagem muito poderosa de unidade, antecipando-se às eleições de 7 de outubro. A mensagem teve repercussão dentro das Forças Armadas, que jamais permitirá à cúpula militar intervir no processo eleitoral. Chávez admitiu que tem "uma nova lesão seguramente maligna". A sequência desses eventos provocou impacto na política venezuelana. O culto à personalidade de Chávez o levou a crer que poderia decretar sua própria vida.