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quinta-feira, 4 de abril de 2013

Comissão de juízes busca responsáveis pela crise do Chipre

Comissão de juízes busca responsáveis pela crise do Chipre

Publicado em R7

Nicósia, 2 abr (EFE).- Uma comissão independente de juízes tentará esclarecer a partir desta terça-feira se houve algum tipo de atuação política ou bancária que tenha gerado a crise financeira no Chipre, uma investigação com componentes de escândalo em um momento no qual os cidadãos têm acesso limitado ao seu capital. Os três ex-juízes do Supremo Tribunal que comandarão a investigação durante aproximadamente três meses tomaram posse de seus cargos em um ato solene realizado no Palácio Presidencial, no qual o presidente do Chipre, Nicos Anastasiades, disse que a constituição desta comissão é o "mínimo que o Estado pode fazer para seu povo". População que deu nas últimas semanas lições de paciência e disciplina, pois apesar das rígidas restrições aos movimentos de capital, impostas na semana passada após a reabertura dos bancos, não houve incidentes nem grandes manifestações. No ato de hoje, Anastasiadis ressaltou que os cidadãos estão pagando as consequências de "uma série de atos ou omissões" de pessoas responsáveis pela economia e pelos bancos que levaram o país à beira da falência. O leque de tarefas que os três designados deverão investigar, em cooperação com uma equipe de juristas e economistas, é tão amplo que parece impossível que possam ser abordadas em tão pouco tempo. A investigação abrange o período compreendido a partir da separação do banco britânico HSBC do Banco Popular (Laiki), agora em processo de liquidação, até 23 de março passado, quando o acordo final com o Eurogrupo para o resgate do país estava para ser fechado. Algumas das questões que a comissão tentará responder são: por que o Banco Popular foi expandido para a Grécia quando a crise já estava em andamento? E por que os bancos locais compraram bônus do Estado grego no mercado secundário enquanto as grandes entidades internacionais se desfaziam destes títulos? Além disso, serão tema de análise o pagamento de bonificações a altos executivos bancários, assim como todos os aspectos políticos e econômicos relacionados com a negociação do resgate. Nem todos os aspectos da investigação constituem potencialmente um delito, mas no caso de questões passíveis de punições, os ex-juízes encaminharão os resultados à Procuradoria Geral, que seria encarregada de abrir um processo. Apesar da lista de tarefas ser imensa, o interesse midiático está centrado em dois aspectos. Primeiro, a saída maciça de capital nos dias anteriores ao primeiro acordo com o Eurogrupo (15 de março), que estipulava um imposto para todos os depósitos bancários mas que foi depois rejeitado no Parlamento. A imprensa cipriota publicou uma lista com 132 operações de particulares e empresas que tiraram pelo menos 700 milhões de euros do país antes desta data. Entre eles figura o consogro do presidente, cuja empresa transferiu para o exterior entre 12 e 13 de março um total de 21 milhões de euros. Anastasiadis não se esquivou das acusações e hoje pediu aos juízes que deem prioridade ao seu caso e investiguem não apenas o seu consogro, mas também a empresa da qual ele próprio foi sócio. Ontem, o presidente negou que tenha passado informação privilegiada para qualquer pessoa e que sua preocupação na época "era evitar a taxa bancária". A princípio, este debate tem mais caráter moral do que legal, pois todo mundo sabia desde fevereiro que algo iria mudar no Chipre, como demonstra o aumento da retirada de depósitos nesse mês por parte de clientes da eurozona, segundo dados publicados recentemente pelo Banco Central do Chipre. De maior gravidade é a denúncia de que políticos, empresários e sindicalistas tiveram empréstimos perdoados parcial ou totalmente, ou pelo menos não precisaram dar as mesmas garantias cobradas do restante dos clientes, pelos três principais bancos do país. De acordo com as listas publicadas por vários meios de comunicação, todos os partidos políticos, excetuando-se social-democratas e ecologistas, estariam envolvidos no escândalo. Entre os personagens mais conhecidos figura o ex-presidente Yorgos Vassiliu, que teve um empréstimo de 5,8 milhões de euros destinado a sua empresa perdoado. EFE ih-fl/dk (foto) 

Caso do Chipre não é modelo para outros resgates, diz BCE

Caso do Chipre não é modelo para outros resgates, diz BCE

 Publicado em Exame

 Segundo presidente do banco, sua proposta para a ajuda da ilha não contemplava a participação dos depositantes

 

  O presidente do Banco Central Europeu (BCE), Mario Draghi, disse nesta quinta-feira que o resgate do Chipre "não é um modelo" que será aplicado em outros países e que a proposta da instituição para a ajuda da ilha não contemplava a participação dos depositantes.

O presidente do BCE atribuiu a um "mal-entendido" as controvertidas declarações do chefe do eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, que afirmou que o resgate do Chipre seria um modelo.
Draghi explicou que cada um dos países que até agora recorreram a um resgate se encontravam em situações muito "distintas", como por exemplo no caso da "da Irlanda e Espanha".
No entanto, o presidente do BCE insistiu na necessidade de se atuar com rapidez em situações como as vividas na Irlanda, Grécia e Espanha, porque "qualquer demora é extremamente decepcionante".
Draghi conversou com a imprensa após o Conselho do BCE, que além dos assuntos sobre política monetária tratou do caso do Chipre.
A instituição decidiu manter as taxas de juros na zona do euro em 0,75%, mesmo índice desde julho de 2012.

A lição de Nicósia

A lição de Nicósia  
 Publicado em Le monde Diplomatique

Esse episódio produz algo mais do que um rancor sem consequências: a certeza emancipatória de que, para essas populações, tudo também é possível
por Serge Halimi

Tudo se tornou impossível. Aumentar os impostos desencorajaria os “investidores”. Proteger-se do dumpingcomercial de países com baixos salários contrariaria os acordos de livre-comércio. Impor uma taxa (minúscula) sobre as transações financeiras exigiria que a maioria dos Estados estivesse de acordo. Baixar o imposto sobre valor agregado (IVA) requereria o aval de Bruxelas.
No sábado, 16 de março de 2013, porém, tudo mudou. Instituições “irrepreensíveis” como o Banco Central Europeu (BCE), o FMI, o Eurogrupo (grupo que reúne os ministros da Fazenda europeus e as autoridades monetárias da União Europeia) e o governo alemão de Angela Merkel intimaram as autoridades do Chipre a executar uma medida que, se fosse uma decisão de Hugo Chávez, teria sido julgada como liberticida, ditatorial, tirânica, além de fazer o Estado venezuelano ser bombardeado com editoriais indignados por todo o mundo: a punção automática dos depósitos bancários. Inicialmente acordado entre 6,7% e 9,9%, o índice a ser confiscado correspondia a cerca de mil vezes o montante da taxa Tobin, da qual tanto se fala há quinze anos.
Aí está a prova: na Europa, quando se quer, tudo pode! Mas com a condição de saber escolher os alvos: nem os acionários nem os credores dos bancos endividados, e sim os clientes. De fato, é mais liberal saquear um aposentado do Chipre com o pretexto de que se trata, na realidade, de um mafioso russo refugiado em um paraíso fiscal do que obrigar um banqueiro alemão, uma fabricante de navios grega ou uma multinacional que recolhe dividendos na Irlanda, Suíça ou Luxemburgo a restituir seus credores.
Merkel, o FMI e o BCE não pararam de martelar que o restabelecimento imperativo da confiança dos credores impedia o aumento das despesas públicas e a renegociação da dívida soberana dos Estados. Os mercados financeiros, previam eles, sancionariam qualquer medida nesse sentido. Mas que “confiança” merece a moeda única e a sagrada garantia dos depósitos bancários se qualquer cliente de um banco europeu pode acordar uma manhã e deparar com sua poupança amputada na calada da noite?
Assim, os dezessete Estados-membros do Eurogrupo ousaram o impensável. Nenhum cidadão europeu poderá, de agora em diante, ignorar que será o alvo privilegiado de uma política financeira decidida a utilizar o fruto de seu trabalho para restabelecer as contas da União Europeia. Em Roma, Atenas ou Nicósia, as marionetes dirigentes parecem estar resignadas a dançar conforme a música tocada por Bruxelas, Frankfurt ou Berlim, mesmo sob risco de crítica e descrédito de suas populações.1
Esse episódio do Chipre produz algo mais do que um rancor sem consequências: a certeza emancipatória de que, para essas populações, tudo também é possível. No dia seguinte a essa imposição, o desconforto visível de certos ministros europeus revelava também o temor de terem desmentido trinta anos da “pedagogia” liberal que transformou a impotência pública em teoria de governo para legitimar medidas de rigor. Um dia, elas poderiam incomodar a Alemanha. E visar a alvos mais prósperos do que os pequenos poupadores de Nicósia.
Serge Halimi
*Serge Halimié diretor do Le Monde Diplomatique.


Ilustração: Daniel Kondo
1    Cf. “Fate of Island depositors was sealed in Germany” [Destino das poupanças da ilha foi decidido na Alemanha], Financial Times, Londres, 18 mar. 2013. Nenhum deputado do Chipre aprovou o plano do Eurogrupo.

Confisco no Chipre pode chegar a 60%

Confisco no Chipre pode chegar a 60%

Autor(es): Andrei Netto
O Estado de S. Paulo - 01/04/2013
 

No maior banco do país, serão atingidos investimentos e contas superiores a € 100 mil
Uma semana após a aprova­ção de um plano de resgate de € 17 bilhões, o governo do Chi­pre e os correntistas dos maio­res bancos do país começam a descobrir a amplitude do con­fisco exigido pela União Europeia, pelo Banco Central Euro­peu (BCE) e pelo Fundo Mone­tário Internacional (FMI). Cálculos preliminares e extraoficiais indicam que o corte no sal­do de contas correntes, poupanças e investimentos com maisde € 100 mil poderá chegar a 60% para os clientes do Banco do Chipre,o maior da ilha. A situação só não é pior do que no Banco Laiki, onde os correntistas com recur­sos acima desse valor perderão 100%.
O confisco de recursos de in­vestidores privados foi a fórmu­la encontrada por Bruxelas e pe­lo FMI para fazer com que o go­verno cipriota arrecade € 7 bi­lhões em recursos, montante da contrapartida do país aos € 10 bilhões em recursos internacio­nais que lhes serão empresta­dos. Pelo acordo de socorro, o Banco Laiki (Popular) será extinto. Os correntistas poderão transferir até € 100 mil para o Banco do Chipre, mas valores acima disso serão perdidos.
O memorando de entendi­mento também previa o confis­co de parte dos recursos dos clientes do Banco do Chipre. Há uma semana, Jeroen Dijssel- bloem, coordenador do fórum de ministros de Finanças da zo­na do euro (Eurogrupo), havia estimado os cortes entre 25% e 40%. No sábado, o Banco Cen­tral cipriota anunciou que o cor­te será de 37,5%, valor que será transformado em ações do ban­co-o que transformará, compulsoriamente, os correntistas em sócios. Além disso, outros 22,5% serão congelados e poderão ser confiscados caso o governo pre­cise de recursos extras.
"A primeira estimativa feita é de que 37,5% dos depósitos aci­ma de € 100 mil serão converti­dos em ações", confirmou o mi­nistro de Finanças, Michalis Sar- ris. "Por segurança, uma vez que os cálculos foram feitos sobre o montante que precisamos, 22,5% ficarão em separado." Se­gundo nota do BC cipriota, a de­cisão será informada "90 dias após o fim da avaliação".
Segundo o porta-voz do gover­no cipriota, Christos Stylianides, as autoridades buscarão ou­tras alternativas para geração de recursos. Para Stylianides, as op­ções podem incluir "a redução de empréstimos e outros servi­ços fornecidos porbancos cipriotas no país e no exterior".
Chipre viveu um feriado ban­cário de 12 dias em razão da tur­bulência financeira no país. As agênciasbancárias foram reaber­tas na quinta-feira, mas um con­trole de fluxo de capitais, estabe­lecendo limites estritos para os correntistas, entre os quais sa­ques de € 300 por semana e trans­ferências internacionais de até € 5 mil por mês.
Segundo relatório do Institu­to de Finança Internacional (IIF), o órgão que representa grandes investidores mundiais, o plano de socorro da UE para o Chipre causará uma depressão da ordem de 20% do Produto In­terno Bruto (PIB) do país em apenas dois anos. Para efeitos de comparação, a Grécia, nação mais atingida pela recessão na Europa, levou cinco anos para chegar à depressão de 20%. /com AFP E REUTERS

Chipre: fila nos bancos

Chipre: fila nos bancos

Correio Braziliense - 29/03/2013
 
Nicósia — Os cipriotas fizeram filas sem tumultos diante dos bancos, que reabriram, ontem, sob um rigoroso controle de saques, destinado a evitar uma fuga de capitais, depois de o governo ser forçado a aceitar um pacote de resgate da União Europeia. Os bancos passaram quase duas semanas fechados, enquanto o governo negociava os termos de uma ajuda de 10 bilhões de euros (US$ 13 bilhões). Foi a primeira vez que um plano de socorro financeiro na Zona do Euro impôs prejuízos a correntistas bancários.

Os saques foram limitados a 300 euros por dia, e os bancos foram proibidos de descontar cheques. Os empregados das instituições chegaram cedo para trabalhar, em Nicósia, onde cédulas de euros eram distribuídas por caminhões blindados.

O Banco Central Europeu não comentou rumores de que, para atender a demanda por dinheiro vivo, teria enviado mais cédulas de euros à ilha. As autoridades dizem que a restrição aos saques será temporária — incialmente por sete dias —, mas economistas afirmam que
será difícil suspendê-la enquanto a economia estiver em crise.

Medo
Em Nicósia, havia alívio, mas também alguma apreensão. “Você não tem ideia do quanto eu estava esperando por isso”, disse o aposentado Froso Kokikou, numa fila do Banco Popular do Chipre (Laiki). “Tenho uma sensação de medo e frustração por precisar ficar desse jeito na fila; parece um país de terceiro mundo, mas o que se pode fazer?”, disse Kokikou. “Foi o que nos impuseram, e temos de conviver com isso.” A Bolsa cipriota permaneceu fechada.

Com apenas 860 mil habitantes, Chipre tem 68 bilhões de euros depositados em seus bancos — um sistema financeiro desproporcional ao tamanho do país, que atraía muitos depósitos de estrangeiros, especialmente russos, como um paraíso fiscal. A economia local acabou contaminada pela crise na vizinha Grécia. O ministro das Relações Exteriores, Ioannis Kasoulides, disse que o governo espera suspender completamente o regime de controles de capital sobre seus bancos em cerca de um mês.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Grécia aprova Orçamento com cortes

Grécia aprova Orçamento com cortes

Renata Giraldi* - Repórter da Agência Brasil

Em meio a protestos, o Parlamento da Grécia aprovou ontem (11) a proposta para o Orçamento do de 2013 do país, estabelecendo uma série de cortes e medidas de austeridade. O texto obteve 167 votos a favor e 128 contra. A aprovação do orçamento era uma exigência dos credores para o governo grego receber a ajuda de 31,5 bilhões de euros (mais de R$ 80 bilhões) da União Europeia e do Fundo Monetário Internacional (FMI).

Antes e durante a votação, mais de 100 mil manifestantes se reuniram em frente ao Parlamento, no centro de Atenas, a capital grega. O primeiro-ministro Antonis Samaras disse aos parlamentares que os cortes orçamentários serão os últimos que os gregos terão de enfrentar. "A Grécia fez o que lhe foi pedido. Agora é hora de os credores assumirem os compromissos que fizeram".

Anteriormente, Samaras havia dito que sem o auxílio da União Europeia e do FMI, o país pode enfrentar a falta de dinheiro no fim desta semana. A economia do país deve encolher 4,5% em 2013. Ministros da zona do euro vão se reunir hoje (12) em Bruxelas, na Bélgica. Samaras deve participar do encontro.

Um dos principais desafios enfrentados pelo primeiro-ministro é que pode demorar semanas até que a União Europeia aprove a nova cota de ajuda. A lentidão se deve ao fato de que a medida tem de ser aprovada  por alguns parlamentos dos países do bloco, incluindo a Alemanha.

Na semana passada, um pacote de austeridade foi aprovado, em meio a protestos violentos, nos quais os manifestantes lançaram coquetéis molotov contra a polícia de choque, que respondeu com bombas de gás lacrimogêneo.

*Com informações da BBC Brasil

Edição: Graça Adjuto

Fonte: EBC 
 
 

Publicado em: 12/11/2012

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Crise e capitalismo de Estado

Crise e capitalismo de Estado

Autor(es): Jorge Arbache
Valor Econômico - 02/08/2012
 

A "The Economist" publicou um provocativo relatório especial sobre capitalismo de Estado, modelo que, segundo a revista, "combina as forças do Estado com as forças do capitalismo". Desde então, o assunto ganhou atenção mundo afora e tem contribuído para os debates sobre a crise econômica e sobre modelos de desenvolvimento. A crescente influência das economias emergentes na economia mundial e a sua resiliência à crise financeira estariam por detrás do grande interesse pelo assunto. Contrariamente ao dirigismo muitas vezes observado até recentemente em muitos países em desenvolvimento, o capitalismo de Estado se utilizaria, segundo a revista, de instrumentos e métodos de gestão de mercado para atingir seus objetivos. O relatório justifica o foco nas experiências recentes dos países emergentes, notadamente a da China, porque elas "parecem ser cada vez mais a tendência futura".
As manifestações do capitalismo de Estado são variadas e podem ser complexas e sofisticadas, como as políticas públicas de apoio aos conglomerados privados sul-coreanos, ou a montagem de fundos soberanos com crescente influência nos fluxos de capitais e investimentos. Mas as experiências de capitalismo de Estado de países emergentes coexistem com manifestações de forte intervencionismo estatal na economia também nos países desenvolvidos, como no caso da empresa de petróleo estatal norueguesa, Statoil, e das políticas americana e europeia de subsídios ao setor agrícola. As experiências das diferentes vertentes de capitalismo de Estado sugerem haver em comum entre elas uma tensão, em maior ou menor grau, entre pragmatismo e ideologia.
Impactos adversos na economia brasileira, incluindo valorização cambial, especulação com preços de ativos e barreiras ao comércio e ao investimento, precisam ser mitigados com o emprego de estratégias de desenvolvimento e de inserção internacional
Mais recentemente, as inéditas e massivas intervenções na economia pelos governos dos países no epicentro da crise financeira por meio de "quantitative easing" e "bailouts", por exemplo, têm provocado profundas repercussões na alocação de recursos e formação de preços não apenas no plano doméstico, mas, também, internacional. Essas intervenções, muitas delas oportunistas, são especialmente intrusivas devido ao tamanho dessas economias e ao fato de suas moedas serem reserva de valor internacional, criando e agravando desequilíbrios macroeconômicos internacionais e acentuando as condições já assimétricas de competição.
O emprego de políticas de capitalismo de Estado parece estar se popularizando mundo afora à medida que a crise econômica e as incertezas se agravam. O capitalismo de Estado da China e o fracasso de políticas econômicas ultra-liberais, como algumas perseguidas pelos Estados Unidos até antes da crise, nos ajudam a entender porque um dos prováveis legados dessa crise para os políticos é a lição de que governos não devem limitar os seus papéis na economia.
Embora seja compreensível a atratividade do capitalismo de Estado num contexto de crise econômica, a sua multiplicação em escala global tem implicações deletérias. De fato, parece ser pouco plausível que muitos países possam se beneficiar, simultaneamente, de políticas de capitalismo de Estado devido à falácia da composição e devido às externalidades negativas por elas provocadas, que tendem a desorganizar o sistema econômico, fomentar reações mercantilistas e alimentar tensões políticas entre países. Por isso, é muito provável que a popularização dessas políticas dificulte a recuperação da economia mundial. O emprego de políticas de capitalismo de Estado também suscita questões associadas às escolhas entre interesses nacionais e compromissos internacionais, como os do G-20, com reflexos para a credibilidade do sistema multilateral.
Para que se mitiguem a proliferação do capitalismo de Estado e seus potenciais riscos para o crescimento econômico mundial, será preciso que os países, notadamente Estados Unidos, União Europeia e China, reconheçam a interdependência das políticas micro e macroeconômicas nacionais e seus impactos nos países em desenvolvimento. Será preciso, assim, redobrar os esforços de coordenação de políticas e de gestão de interesses conflitantes. No entanto, experiências como o colapso do Acordo de Doha, crise do Euro e as dificuldades de avanço nos acordos do clima ilustram os desafios de coordenação e de solução de controvérsias em períodos de crise.
Como as políticas de capitalismo de Estado têm significativos impactos adversos na economia brasileira, incluindo valorização cambial, especulação com preços de ativos e barreiras ao comércio e ao investimento, torna-se necessário o emprego de estratégias de desenvolvimento e de inserção internacional que busquem mitigar esses impactos. Tais estratégias deveriam levar em conta a combinação dos benefícios do comércio com os das políticas públicas de promoção da indústria conciliada com o desenvolvimento e a exploração das vantagens produtivas e competitivas nacionais. Deveriam, também, reconhecer as relações entre comércio e variáveis macroeconômicas como câmbio, juros e política fiscal e seus impactos na indústria e no comércio, buscar o reconhecimento internacional dos impactos dos grandes desequilíbrios macroeconômicos e das políticas de outros países na economia brasileira, e intensificar esforços indutores do aumento da competitividade através da redução dos custos de produção e aumento da produtividade e dos investimentos em capital humano e inovação

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Líderes do G8 se reúnem hoje e amanhã para discutir crise econômica internacional

Líderes do G8 se reúnem hoje e amanhã para discutir crise econômica internacional

18/05/2012 
 
Renata Giraldi*
Repórter da Agência Brasil


O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, coordena a Cúpula do G8 (Estados Unidos, Canadá, Inglaterra, Alemanha, França, Itália, Japão e Rússia), em Camps David (residência oficial do presidente norte-americano), a cerca de 100 quilômetros de Washington, capital norte-americana. Em pauta, os impactos da crise econômica internacional, o agravamento da situação na Grécia e os conflitos na Síria.
Os líderes se reunirão hoje (18) e amanhã para buscar um consenso sobre os esforços na tentativa de superar as dificuldades que a economia global enfrenta, principalmente por conta dos problemas na zona do euro.
Em videoconferência, ontem (17), a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, o novo presidente da França, François Hollande, o primeiro-ministro do Reino Unido, David Cameron, e o primeiro da Itália, Mario Monti, além do presidente da União Europeia, Herman Van Rompuy, e do presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, concentraram-se na discussão sobre a crise econômica.
De acordo com a assessoria de Merkel, todos defenderam o equilíbrio das finanças da União Europeia na tentativa de obter o crescimento econômico na região. O crescimento europeu faz parte das promessas de Hollande, enquanto Merkel defende as medidas de rigor para reduzir o déficit público no bloco.
Para Justin Vaisse, diretor do Centro de Estudos para Europa e Estados Unidos do Instituto Brookings, de Washington, "o grande desafio [da reunião do G8] não é se vai haver consenso ou não entre Hollande e Merkel".
"De certa forma, os líderes têm de concordar e ninguém pode se dar ao luxo de ficar isolado. A questão é se haverá medidas suficientes para incentivar o crescimento na Europa e acalmar o descontentamento da opinião pública", disse ele.
Porém, as discussões mais detalhadas sobre medidas econômicas e regulamentações financeiras devem ocorrer no encontro do G20 (que reúne as maiores economias do mundo), no próximo mês, no México. Para o diretor do centro de Cooperação Internacional da New York University, Bruce Jones, a crise é um dos fatores que tem "fortalecido o G8" nos últimos anos.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

América Latina suporta crise europeia, mas não ficou imune

América Latina suporta crise europeia, mas não ficou imune

The cononomist intelligence unit
Publicado em Carta Capital 26/04/2010

Os mercados financeiros internacionais estão preocupados com um ressurgimento da crise da dívida da Zona do Euro, de olhos fixos na Espanha, que poderia se tornar o quarto país a precisar de resgate financeiro. Enquanto a América Latina até agora suportou relativamente bem os problemas da Europa, não ficou imune. O ritmo do crescimento na região diminuiu, apesar de esperarmos que ele continue mais forte que a média global. Mas em um cenário em que as condições da Europa piorem — ou ocorra mais um choque, como um aumento nos preços do petróleo — poderá haver mais efeitos secundários nas economias, nos preços dos ativos e fluxos financeiros na América Latina.

Depois de uma forte recuperação em 2010 para 6%, causada por um surto de estímulo global, o crescimento na região da América Latina como um todo desacelerou para 4,4% em 2011. A Economist Intelligence Unit prevê uma nova desaceleração para 3,7% em 2012, em um contexto de clara contração na Zona do Euro (esperamos um encolhimento de 0,7%) e um crescimento abaixo do previsto nos EUA (de 2,2%).
O crescimento na maior economia da região, o Brasil, teve um início arrastado este ano, depois de despencar para 2,7% em 2011, contra 7,5% um ano antes. No lado positivo, os exportadores de matérias-primas da América do Sul continuarão se beneficiando da forte demanda chinesa. Vários fatores — como políticas macroeconômicas sólidas, a demanda interna resistente e a recuperação no crescimento da OCDE — vão reforçar o crescimento latino-americano a partir de 2013 (com crescimento médio de 4,2% em 2013-16). No entanto, muitos países da região continuarão vulneráveis a oscilações no sentimento do mercado e às crescentes pressões inflacionárias.
O balanço externo da região se fortaleceu nos últimos anos, o que ajudará a fornecer um amortecedor contra choques externos. A dívida externa está menor em relação ao PIB e as exportações e reservas cambiais estão em níveis recordes. No entanto, o crescimento das contas de importação, alimentado pela demanda interna e por moedas locais fortes, vai superar o crescimento da receita das exportações, resultando em grandes déficits de conta corrente na região — mesmo para os exportadores de matérias-primas. Essa situação é especialmente problemática para a Argentina, para a qual os superávits de conta corrente têm sido um pilar de estabilidade na última década, dado o acesso limitado do governo aos mercados internacionais de capital, o uso de reservas cambiais para pagar suas dívidas externas e a vulnerabilidade à fuga de capitais.

Oscilações de sentimento

Diante da estreita integração das grandes economias latino-americanas nos mercados financeiros globais, as moedas locais e os preços dos ativos foram atingidos por oscilações no sentimento dos investidores. Mas graças a políticas flexíveis esses choques foram relativamente bem absorvidos. Em setembro de 2011 a região sofreu um aumento na aversão ao risco associada aos temores da Europa (com o real brasileiro e o peso mexicano em queda de 16,6% e 12,3%, respectivamente, em relação ao dólar naquele mês). Desde o início de 2012, os mercados de ativos de risco registraram grandes ganhos, enquanto a aversão ao risco diminuía, graças às operações de liquidez do Banco Central Europeu. Quando os efeitos destas se dissiparam, porém, a aversão ao risco retornou.
Além das flutuações no sentimento dos investidores, as autoridades latino-americanas enfrentam outros desafios. Na política monetária e de crédito elas lutam para atingir um equilíbrio entre sustentar a demanda interna (para compensar os mercados de exportação fracos na OCDE) enquanto mantêm a inflação sob controle em meio às pressões decorrentes dos altos preços dos alimentos e do petróleo. A agressiva série de cortes de taxas de juros no Brasil (com a última redução de 75 pontos básicos em 18 de abril situando a taxa básica em 9%, perto do piso recorde de 8,75%), atesta o objetivo do governo de sustentar o crescimento. Isto gerou preocupações sobre o compromisso do BC em alcançar a meta central de inflação (4,5%), e as expectativas inflacionárias para 2012 e 2013 continuaram subindo.

 E se?

Um agravamento da crise da dívida europeia, que prejudicaria as economias soberanas e os bancos europeus (que estão fortemente investidos em dívida soberana e já demonstram índices mais altos de empréstimos inadimplentes em suas outras carteiras), complicaria as coisas. A Economist Intelligence Unit atualmente atribui uma probabilidade moderada (40%) de saída da Grécia da Zona do Euro nos próximos dois anos, e uma probabilidade mais baixa, embora não insignificante, de uma ruptura da zona monetária (que definimos como a saída de vários países, incluindo pelo menos uma das grandes economias).
Mas mesmo sem a dissolução da Zona do Euro uma crise financeira completa a envolver a Espanha ou a Itália, as mais fracas das grandes economias europeias, seria danosa. Os bancos espanhóis, por exemplo, foram grandes compradores de dívidas de governos desde que o Banco Central Europeu lhes deu acesso a empréstimos baratos de três anos, destinados a reforçar a liquidez em toda a Zona do Euro. O governo não pode deixar os bancos falirem, assim como os bancos não podem sobreviver a uma corrida aos títulos do governo. Mesmo que o país possa evitar um resgate, seus bancos poderão precisar dele em breve.
Se os bancos se enfraquecerem, as linhas de crédito para a América Latina (incluindo finanças comerciais, que já foram afetadas pelos temores da Zona do Euro até agora) de entidades europeias e suas subsidiárias na região poderão encolher, como um primeiro passo. O impacto sobre as linhas de crédito internacionais também seria sentido de modo mais amplo, já que um novo “evento” de crédito na Zona do Euro causaria tensões financeiras globais e um aumento da aversão ao risco pelos investidores.
Além das condições de crédito internacionais mais rígidas, outros canais de transmissão incluiriam uma demanda e preços mais baixos para as exportações da América Latina, e haveria um sério impacto sobre as empresas e o sentimento dos consumidores na região. Uma crise da dívida mais profunda também prejudicaria o fluxo de investimento direto estrangeiro (IDE) para a América Latina, pois a Europa é uma fonte importante de IDE para a região. No caso de o crescimento econômico da China desacelerar mais acentuadamente do que se espera (atualmente imaginamos um crescimento do PIB de 8,3% este ano), a demanda e os preços para os exportadores de matérias-primas sul-americanos sofreriam ainda mais.
Bancos europeus recuam
As pressões sobre os bancos europeus desde meados de 2011 já levaram alguns a vender parte de seus ativos na América Latina para reforçar seus balanços. Esses ativos locais foram adquiridos por instituições financeiras latino-americanas, por isso o impacto sobre o crédito regional até agora foi discreto. Uma nova desalavancagem dos bancos europeus levaria a novas vendas de ativos. Onde os compradores agirem, o impacto sobre o crédito na América Latina será limitado. Mas há um risco de perturbações no crédito se as compras não se materializarem em tempo.
Os bancos europeus dos países periféricos seriam atingidos de maneira mais adversa por um choque da dívida europeia. Os bancos espanhóis representam pouco mais de 40% dos interesses estrangeiros totais na América Latina. Os empréstimos para bancos regionais da Grécia, Irlanda, Itália e Portugal são menos importantes. Também pode haver canais indiretos, como bancos não europeus que estão expostos a um evento da dívida europeia e também emprestam para a América Latina. Essas linhas de crédito também poderão sofrer.

Sistemas bancários locais devem resistir

O impacto sobre os sistemas bancários locais seria variável em relação às ações em ativos totais dos bancos europeus afetados em cada mercado. O impacto seria atenuado porque muitos bancos europeus (e outros estrangeiros) que operam na América Latina obtêm a maior parte de seus fundos localmente.
Além disso, indicadores do setor bancário sugerem que a maioria das instituições financeiras latino-americanas seria relativamente resistente a um evento de crédito europeu. Os bancos locais são razoavelmente bem capitalizados e líquidos. O crescimento do crédito, incentivado por políticas expansionistas depois da crise financeira global de 2008-09, hoje está geralmente em desaceleração. Os políticos da maioria dos países poderiam afrouxar a política monetária (incluindo reduzir as exigências de reservas) para ajudar a abrandar as tensões financeiras.
Também haveria certo espaço para políticas fiscais contracíclicas com o fim de apoiar o crescimento econômico durante o período de crise, embora houvesse menos capacidade para políticas de estímulo desta vez, já que nem todo o estímulo anterior foi retirado e os déficits fiscais estruturais estão ligeiramente mais altos hoje. Alguns países (México e Colômbia) têm linhas de crédito de contingência do FMI, e outros (no Caribe e na América Central, por exemplo) provavelmente procurariam o Fundo com sucesso para obter crédito de contingência.
No entanto, a região ainda sofreria, mais ou menos do mesmo modo que após o colapso do Lehman Brothers no final de 2008. Uma recessão europeia mais severa provocada por um agravamento da crise financeira provavelmente seria mais duradoura do que foi a recessão nos Estados Unidos depois do colapso do Lehman, e isto teria efeitos adversos nos fluxos de investimentos e no comércio Europa-América Latina. Nesse caso, a América Latina poderia sofrer uma perda de até 3 pontos percentuais do PIB no primeiro ano, ou cair em uma recessão moderada. Ela se recuperaria gradualmente depois, mas mais lentamente que sua recuperação de 2010 após a crise financeira global de 2008-09.

domingo, 8 de abril de 2012

Crise econômica é a maior ameaça à saúde no planeta, alerta presidente do Conselho Nacional de Saúde

Crise econômica é a maior ameaça à saúde no planeta, alerta presidente do Conselho Nacional de Saúde

07/04/2012

Gilberto Costa
Repórter da Agência Brasil

A crise econômica internacional e a consequente diminuição de gastos públicos na saúde devem ser a principal preocupação da humanidade hoje (7), data que marca a passagem do Dia Mundial da Saúde. A avaliação é do presidente do Conselho Nacional de Saúde (CNS), Francisco Batista Júnior, em entrevista ao programa Revista Brasil, da Rádio Nacional.
“A maior ameaça [à saúde no mundo] é o momento político. Em função de uma crise estrutural, a saúde está cada vez mais ameaçada pela possibilidade de ser transformada única e exclusivamente em mercadoria e não tratada como direito do ser humano”, opinou Batista Júnior.
A crise econômica diminui a oferta de emprego em outros países e restringe as fontes de financiamento baseadas em descontos nos salários para custeio de seguridade social. O presidente do CNS diz que se preocupa, especialmente, com a situação dos países europeus que, em função de problemas de orçamento do Estado, estão diminuindo o alcance das políticas de bem-estar social.
Para ele, o funcionamento do Sistema Único de Saúde (SUS), em tempos de crise internacional, é um trunfo brasileiro. “A reforma sanitária que levou ao SUS foi pensada na lógica da saúde sendo um direito universal das pessoas; como direito inalienável e inquestionável e não um bem a ser vendido do mercado”, defendeu.
De acordo com o especialista, o SUS “é o maior responsável pela melhoria da qualidade de vida do Brasil”. Antes do sistema (previsto na Constituição de 1988), o país padecia com “diversas moléstias” e hoje tem uma “situação sanitária de mais qualidade” e “com acesso a tecnologias de última geração”, ressaltou.
O presidente do CNS reconhece, no entanto, que o SUS não foi implementado integralmente. “Está em desacordo com o que diz a legislação e a Constituição Federal”, disse fazendo referência ao “subfinanciamento” e às “lacunas graves na prevenção”.

terça-feira, 3 de abril de 2012

As fontes morais da austeridade

As fontes morais da austeridade
A União Europeia aprovou novo acordo para ajuda financeira à Grécia, com a condição de que ela aceite uma “supervisão reforçada” da sua gestão orçamentária. O plano agrava ainda mais a situação de um país que já sangra. A obstinação em preconizar o rigor se explicaria por convicções morais mais poderosas que a razão?
por Mona Chollet
"Rigor”, “austeridade”, “esforços”, “sacrifícios”, “disciplina”, “medidas dolorosas”... De tanto assediar nossos ouvidos com suas fortes conotações moralizadoras, o vocabulário da crise acaba por intrigar. Em janeiro, na véspera do Fórum Econômico de Davos, seu presidente, Klaus Schwab, falou, sem rodeios, de “pecado”: “Nós estamos pagando pelos pecados dessas dez últimas décadas”, diagnosticou, antes de se perguntar “se os países que pecaram, especialmente os do Sul, têm a vontade política de empreender as reformas necessárias”.1 No Le Point, num texto de Franz-Olivier Giesbert, o veredito contra nossos bacanais desenfreados é mais amplo: o editorialista deplora “trinta anos de disparates, loucuras e imprevidência, quando vivemos acima de nossos meios”.2
Líderes e comentaristas repetem sem cessar o mesmo relato puramente fantástico: ao se mostrarem preguiçosos, descuidados e perdulários, os povos da Europa teriam atraído para eles, como uma punição justa, a praga bíblica da crise. Agora, têm de passar por uma expiação. Precisamos “apertar os cintos”, restaurar a honra das boas e velhas virtudes de poupança e frugalidade. Le Monde (17 jan. 2012) cita o exemplo da Dinamarca, um país modelo onde um “remédio amargo” permitiu voltar às boas graças das agências de rating. E, em seu discurso de posse em dezembro de 2011, o primeiro-ministro espanhol, Mariano Rajoy, arengava seus compatriotas: “Nós estamos diante de uma tarefa ingrata, como a daqueles pais que têm de se virar para alimentar quatro pessoas com o dinheiro para duas”.
Muitos observadores apontam para a fraude desse raciocínio que pretende calcar o comportamento de um Estado no de um lar. Ele escamoteia a questão da responsabilidade pela crise com o fardo insuportável que a austeridade impõe às pessoas, cujo único defeito foi terem desejado tratar da própria saúde ou pagar professores para seus filhos. Para uma pessoa, o rigor no orçamento pode ser uma fonte de orgulho e satisfação; para um Estado, isso significa a ruína de milhões de cidadãos, quando não descamba, como é o caso da Grécia, num “sociocídio” puro e simples. Na Dinamarca, Le Monde especificou, o “remédio amargo” foi traduzido numa explosão do desemprego e numa redução drástica nos programas sociais; “70 mil famílias perderam suas casas”. Assim, esse falso bom-senso não apenas apaga magicamente as desigualdades sociais e oculta os estragos da austeridade, como defende, diante da crise, uma política econômica que só faz piorá-la, impedindo qualquer recuperação pelo consumo. “Poupar e investir são virtudes para as famílias; é difícil para as pessoas imaginar que na escala das nações um excesso de frugalidade pode causar problemas”, observa o editorialista Peter Coy da Business Week (26 dez. 2011).
Irracionais, a bem dizer delirantes, os chamados à contrição não mantêm nenhuma relação com o menor elemento da realidade. Como explicar então que eles continuem a ressoar de um extremo a outro do espaço europeu? Porque eles servem aos interesses dominantes. De fato, eles oferecem a oportunidade de finalizar, sob o pretexto da dívida, a destruição das conquistas sociais do pós-guerra, levada a cabo há trinta anos. Antes disso, eles já tinham permitido, na França de Vichy, que enterrassem a memória funesta da Frente Popular. O “processo de Riom”, realizado em 1942 na pequena cidade de Puy-de-Dôme, visava demonstrar que os líderes “revolucionários”, como Léon Blum e Edouard Daladier, eram responsáveis pela derrota de junho de 1940 contra o Exército alemão. A mudança para as 40 horas nas fábricas de armamentos, e não as decisões do Estado-maior, teria sido fatal para as tropas francesas... Em vista da “recuperação nacional”, o marechal Philippe Pétain pretendia substituir o “espírito de diversão” pelo “espírito de sacrifício”. Na abertura do processo, o diário Le Matindesignava Blum como “o homem que inoculou o vírus da preguiça no sangue de um povo”.3 Os franceses, setenta anos antes dos gregos.
E o mesmo se passa com os portugueses, que seu primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, admoesta com estas palavras: “Vocês com certeza se lembram daquele episódio grotesco, quando a Troika [europeia] trabalhava em Lisboa para elaborar um programa de assistência em Portugal [em 2011] e tudo estava fechado no país, porque todo mundo estava aproveitando uma emenda de feriado. A Troika, que emprestava dinheiro para Portugal, estava trabalhando; e o país curtia a folga”.4

Um modo de pensar onipresente
Mas o convite para o trabalho, a mortificação e a abnegação não passaria de um artifício para fazer o maior número possível de pessoas aceitar a espoliação? Suas ênfases sinceras, apaixonadas, levam a pensar que ela não deve tudo ao cinismo, e que está enraizada num fundo cultural sólido. “Esse humor ‘sacrificial’, da ordem do éthos tanto quanto o raciocínio, suscita por parte de muitos comentaristas uma espécie de alegria mórbida, como se o sofrimento popular tivesse também uma dimensão ‘purificadora’”, constata o sociólogo Frédéric Lebaron a propósito da situação atual.5 Pétain, igualmente, queria lembrar aos franceses que “desde Adão, a punição é um apelo à reabilitação, uma promessa de regeneração”.6 Mais próximo de nós, Rajoy profetiza: “O esforço não será inútil. As nuvens escuras desaparecerão, vamos erguer a cabeça e chegará o dia em que falaremos bem da Espanha; o dia em que vamos olhar para trás e não nos lembraremos mais dos sacrifícios”.
A reivindicação, por parte do povo, de condições dignas de vida só faz alarmar aqueles cujos interesses são por ela contrariados: ela lhes inspira uma espécie de terror supersticioso, como se representasse uma transgressão impensável. Quando da derrota de 1940, relatou o historiador e membro da Resistência Marc Bloch, os líderes militares, oriundos da alta sociedade, haviam “aceitado o desastre, porque eles encontravam nela atrozes consolações: ficar de joelhos diante do castigo que o destino havia enviado a uma nação culpada”.7
Contudo, aqueles que, por sua posição na sociedade, não têm nenhum interesse objetivo em subscrever essa leitura dos acontecimentos são, no entanto, em bom número, receptivos a ela. Em vista dos danos infligidos à coletividade, os movimentos de “indignados” aparecem até como uma resposta bem tímida, dando a entender que a retórica da expiação necessária encontra, apesar de tudo, um terreno fértil. Em maio de 2011, um funcionário grego que já tinha visto seu salário passar de 1.200 euros para 1.050 euros, para um horário de trabalho que subira de 37,5 horas por semana para 40 horas, assegurava, por exemplo, estar “pronto para esforços adicionais”.8
Que um substrato cultural, até mesmo religioso, determine as atitudes dos protagonistas da crise do euro é algo que alguns não deixaram de apontar. “Especialistas e políticos negligenciam um fator: Deus. Enfim, a religião e, mais especificamente, o protestantismo luterano. Filha de pastor, [a chanceler alemã] Angela Merkel tem a noção do pecado, como muitos de seus compatriotas. Existe uma maneira alemã de falar do euro que tem bem o cheiro da influência do Templo. E que obviamente não deixa de ter consequências nas soluções propostas para socorrer a união monetária europeia”, escreve Alain Frachon emLe Monde (23 dez. 2011).
No entanto, pode-se duvidar que a influência do protestantismo se limite à área geográfica onde ele tomou impulso no século XVI. O sociólogo alemão Max Weber mostrou em um ensaio famoso, em 1905, como a ética protestante contribuiu para impulsionar o capitalismo, moldando um “espírito” que lhe era favorável.9 A partir daí, e até hoje, esse espírito tem perdurado e prosperado de maneira autônoma, além de qualquer referência religiosa. Ele acabou por se tornar tão onipresente e invisível quanto o ar que respiramos. A historiadora Janine Garrison cita o exemplo de Jean-Paul Sartre, que fazia ironia com a fé protestante de seu avô materno, sendo ele mesmo “muito mais próximo dele, de seu puritanismo, de seu gosto pelo conhecimento, do que gostaria de admitir. Não é o mesmo Sartre que proclama em alto e bom som que um intelectual que não trabalha pelo menos seis horas por dia não pode reivindicar esse título prestigioso?”.10
A tese de Weber é de fato que o protestantismo “fez a ascese sair dos conventos”, onde o catolicismo a havia confinado. A doutrina calvinista da predestinação, segundo a qual todo ser humano é eleito ou condenado por Deus por toda a eternidade, sem que nenhum dos seus atos seja suscetível de mudar o que quer que seja, poderia ter levado a uma forma de fatalismo. Ela produziu um efeito inverso: submetendo a totalidade de sua vida a uma disciplina rígida, os fiéis investiram toda sua energia no trabalho, buscando no sucesso econômico um sinal de sua salvação. A fortuna deixou então de ser condenável – muito pelo contrário. Só o fato de desfrutar dela era errado. Weber cita o caso de um rico fabricante cujo médico o havia aconselhado a comer todos os dias, para sua saúde, algumas ostras, mas não conseguia se permitir uma tal suntuosidade, não por avareza, mas por escrúpulo moral.
“A ideia do dever profissional”, escreve o sociólogo, “passeia por nossa vida como um fantasma das crenças religiosas de outrora”. Porque a mão de obra teve também ela de aprender a “realizar o trabalho como se fosse um fim absoluto em si mesmo – uma ‘vocação’”. Essa mentalidade, hoje dominante, só se impôs ao preço de um “combate pesado contra um mundo de potências hostis”, especialmente com a ajuda de uma política de baixos salários: João Calvino acreditava que a massa dos trabalhadores e dos artesãos “devia ser mantida em situação de pobreza para permanecer obediente a Deus. O protestantismo escavou entre eleitos e amaldiçoados “um fosso a priori mais intransponível e mais preocupante do que aquele que separava do mundo o monge da Idade Média – um fosso que imprimiu uma marca profunda a todos os sentimentos sociais”. O puritanismo inglês também inventou “uma legislação sobre a pobreza cuja dureza contrastava fortemente com as disposições anteriores”.
Fosse o homem rico ou pobre, a partir de então relaxar, curtir a vida, “perder tempo”, eram coisas que não poderia fazer sem peso na consciência. Temos uma ideia do que o mundo atual deve a essa visão quando lemos que o pastor luterano Philipp Jacob Spener, fundador do pietismo, denunciou como moralmente condenável “a tentação de se aposentar prematuramente”.
Em suma, como notara desde o século XVI o humanista alemão Sebastian Franck – citado por Weber –, a Reforma “impôs a todo homem que ele fosse um monge ao longo de sua vida”. A influência do cristianismo e sua desqualificação da existência terrena viram-se fortemente ampliadas. Pode-se presumir que esse patrimônio espiritual e cultural inibe as respostas possíveis aos ataques desferidos contra as sociedades. Após a secularização dos Estados, que dizer sobre a secularização das mentes?


Ilustração: Daniel Kondo

1 Entrevista a L’Hebdo, Lausanne, 18 jan. 2012.
2 Le Point, 23 nov. 2011. Cf. Mathias Reymond, “Les éditocrates sonnent le clairon de la rigueur” [Os editocratas soam a corneta do rigor], Acrimed.org, 12 dez. 2011.
3 Citado por Frédéric Pottecher, Le Procès de la défaite. Riom, février-avril 1942 [O processo da derrota. Riom, fevereiro-abril 1942], Fayard, Paris, 1989.
4 Expresso.pt, Lisboa, 6 fev. 2012.
5 Frédéric Lebaron, “Un parfum d’années 30...” [Um perfume de anos 30...], Savoir/Agir, n.18, dez. 2011.
6 Citado por Gérard Miller, Les Pousse-au-jouir du maréchal Pétain [O atirar-para-desfrutar do marechal Pétain], Seuil, col. “Points Essais”, Paris, 2004 (1.a ed.: 1975).
7 Marc Bloch, L’Etrange défaite [A estranha derrota], Gallimard, col. “Folio Histoire”, 1990.
8 “Comment les Grecs se sont mis au régime sec” [Como os gregos foram colocados no vagão], La Croix, Paris, 8 maio 2011.
9 Max Weber, L’Ethique protestante et l’esprit du capitalisme [A ética protestante e o espírito do capitalismo],col. “Champs classiques”, Paris, 2000 (1.a ed.: 1905). Mesma referência para as citações seguintes desse autor.
10 Janine Garrisson, L’Homme protestant [O homem protestante], Complexe, Bruxelas, 2000.

terça-feira, 13 de março de 2012

O que a Grécia significa?

O que a Grécia significa

Autor(es): agência o globo:Paul Krugman
O Globo - 13/03/2012
 

Então a Grécia deu oficialmente o calote nos credores privados. Foi um calote "ordeiro", negociado ao invés de simplesmente anunciado, o que suponho seja bom. Ainda assim, a história está longe de acabar. Mesmo com esse alívio em sua dívida, a Grécia - como outras nações europeias forçadas a impor austeridade numa economia deprimida - parece condenada a muitos anos mais de sofrimento.
Esta é uma fábula digna de ser contada. Nos últimos dois anos, a história da Grécia tem sido, segundo um recente texto sobre economia política, "interpretada como uma parábola sobre os riscos de irresponsabilidade fiscal". Não passa um dia sem que, nos EUA, algum político ou comentarista entoe, com um ar de grande sabedoria, que é preciso cortar gastos do governo imediatamente, ou vamos acabar como a Grécia, Grécia eu lhes digo.
Apenas para usar um exemplo recente, quando Mitch Daniels, governador de Indiana, apresentou a resposta republicana ao discurso do presidente Obama sobre o Estado da União, insistiu que "estamos a uma pequena distância de Grécia, Espanha e outros países europeus que hoje enfrentam a catástrofe econômica". Ninguém aparentemente lhe disse que a Espanha tinha baixo déficit governamental e superávit orçamentário às vésperas da crise; o país está em apuros devido aos excessos do setor privado, não do setor público.
Mas o que a experiência da Grécia de fato mostra é que se incorrer em déficits em tempos de fartura pode criar problemas - o que é o caso da Grécia, embora não o da Espanha - tentar eliminar déficits quando você já está em apuros é uma receita para depressão.
Hoje em dia, depressões econômicas induzidas por políticas de austeridade são visíveis em toda a periferia europeia. A Grécia é o pior caso, com o desemprego escalando para 20% e os serviços públicos, incluindo o setor de saúde, entrando em colapso. Mas a Irlanda, que fez tudo o que queria o pessoal da austeridade, também está em terrível estado, com o desemprego perto dos 15% e o PIB em queda de dois dígitos. Portugal e Espanha estão em situação crítica também.
Impor austeridade numa crise não inflige apenas grande sofrimento. Há evidência crescente de que é autodestrutivo mesmo em termos puramente fiscais, pois a combinação de receitas em queda devido à economia deprimida e perspectivas de longo prazo piores reduz a confiança do mercado e torna a carga da dívida futura mais difícil de carregar. Deve-se perguntar como países que estão sistematicamente negando um futuro a sua juventude - o desemprego entre jovens na Irlanda, que costumava ser menor do que nos EUA, é agora de quase 30%, chegando perto dos 50% na Grécia - conseguirão crescimento suficiente para pagar o serviço da dívida.
Não é isso o que devia ter acontecido. Há dois anos, quando muitos começaram a pedir um giro do estímulo para a austeridade, prometeram grandes vantagens em troca do sofrimento. "A ideia que medidas de austeridade possam trazer estagnação é incorreta", declarou, em junho de 2010, Jean-Claude Trichet, então presidente do Banco Central Europeu. Ele insistiu que, ao invés disso, a disciplina fiscal inspiraria confiança, e isso levaria ao crescimento econômico.
Cada ligeira melhora de um indicador de uma economia em austeridade era aclamada como prova de que essa política funciona. A austeridade irlandesa foi proclamada uma história de sucesso, não uma vez, mas duas - a primeira no verão de 2020 e de novo no último outono; em cada vez a suposta boa notícia rapidamente se evaporou.
Pode-se perguntar que alternativa países como Grécia e Irlanda tinham, e a resposta é que não tinham e não têm boas alternativas a não ser deixar o euro, um passo extremo que, realisticamente, seus líderes não podem dar até que todas as outras opções tenham falhado - um estado de coisas tal que, se me perguntarem, diria que a Grécia dele se aproxima rapidamente.
A Alemanha e o Banco Central Europeu poderiam ter agido para tornar esse passo extremo menos necessário, tanto ao exigir menos austeridade quanto ao fazer mais para impulsionar a economia europeia como um todo. Mas o principal ponto é que os EUA de fato têm uma alternativa: temos nossa própria moeda e podemos tomar empréstimos a prazos longos e a juros historicamente baixos; então, não necessitamos entrar numa espiral descendente de austeridade e contração econômica.
Então, é tempo de parar de invocar a Grécia como um exemplo de cautela diante do perigo dos déficits; de um ponto de vista americano, a Grécia deveria, ao contrário, ser vista como exemplo dos perigos de tentar reduzir o déficit rapidamente demais, enquanto a economia ainda está profundamente deprimida. (E sim, a despeito de algumas boas notícias ultimamente, nossa economia ainda está profundamente deprimida.)
Se você quer saber quem está realmente tentando transformar os EUA em Grécia, não são os que defendem mais estímulos à economia; são os partidários de que imitemos a austeridade ao estilo grego, embora não enfrentemos constrangimentos de crédito ao estilo grego, e assim mergulhemos numa depressão ao estilo grego.

sábado, 10 de março de 2012

Ajuda de 35,5 bi de euros

Ajuda de 35,5 bi de euros

Correio Braziliense - 10/03/2012
 


Após dar calote em credores privados, Grécia recebe primeira parte do socorro. FMI deve liberar mais 28 bi de euros
Finalmente, os ministros de Finanças da Zona do Euro desbloquearam ontem 35,5 bilhões de euros para salvar a Grécia da falência, após o fechamento do acordo de reestruturação da dívida do país.
É a primeira parte de um pacote de 130 bilhões de euros, que será entregue pelo Banco Central Europeu (BCE) na próxima semana, quando o Fundo Monetário Internacional (FMI) deverá aprovar a sua cota, de 28 bilhões de euros. O governo grego anunciou, quinta-feira, que 95,7% dos credores vão perdoar 100 bilhões de euros dos débitos do país. Eles trocarão os atuais títulos públicos por outros com valor 53,5% menor.
Após o anúncio da adesão ao calote e do acordo fechado, as bolsas de valores iniciaram os pregões ontem em alta. Ajudaram a animar os investidores também os dados favoráveis sobre aumento de 227 mil vagas de empregos nos Estados Unidos. Mas os ganhos foram reduzindo ao longo do dia por causa dos indicadores econômicos da China que decepcionaram os investidores. A produção do país asiático cresceu apenas 11,4% em fevereiro contra expectativa de 12,3%.
O Ibovespa — índice que reúne as ações mais negociadas da Bolsa de Valores de São Paulo — acabou fechando em leve queda de 0,31%, aos 66.704 pontos, depois de valorizar 1,35% até o início da tarde. Em Nova York, o índice Dow Jones subiu 0,11% e o Nasdak, 0,70%. Na Europa, a bolsa inglesa teve alta de 0,47%, a de Paris, de 0,26% e a de Frankfurt, na Alemanha, de 0,67%.
Garantias
Os 35,5 bilhões de euros são para ajudar os bancos a oferecer garantias ao Banco Central Europeu (BCE), disse o ministro das Finanças da Alemanha, Wolfgang Schäuble. O restante do pacote, 94,5 bilhões de euros, será desbloqueado provavelmente na próxima semana, disse Schäuble. Mas a crise na Grécia está longe de terminar. "Não superamos o problema, mas demos um passo importante", destacou o ministro.
O governo da Grécia anunciou que 84% de seus credores privados aceitaram a operação de troca da dívida. Atenas destacou ainda que, devido à ampla adesão, o governo ativou as cláusulas de ação coletiva (CAC) que forçam os credores privados reticentes a aceitar a operação. Essa medida elevará o nível de adesão a 95,7%. Os 130 bilhões de euros correspondem ao segundo pacote de ajuda à Grécia. O primeiro, de 110 bilhões de euros ,em 2010, foi insuficiente para salvar um país que entra no quinto ano consecutivo de recessão.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Grécia consegue garantir empréstimo ao obter perdão de pelo menos 75% dos credores privados

Grécia consegue garantir empréstimo ao obter perdão de pelo menos 75% dos credores privados

09/03/2012 -


Renata Giraldi*
Repórter da Agência Brasil

Autoridades da Grécia confirmaram que mais de 75% dos credores privados aceitaram participar da troca de títulos da dívida pública do país. O governo grego comemorou a participação superior a três quartos. As negociações foram fechadas ontem (8) à noite. Se não conseguisse assegurar a participação de um número de credores equivalente a 75% da sua dívida, o governo anunciou que iria cancelar a operação de troca de títulos. Os credores privados, sobretudo os bancos, fundos de pensões e seguradoras tiveram prazo até ontem à noite para informar se aceitavam participar do plano de troca de dívida. A operação implica a perda de cerca de metade do valor facial dos títulos de dívida grega que detêm.
O objetivo da operação é aliviar a Grécia de cerca de 107 bilhões de euros na sua dívida. Mas, no total, o país tem uma dívida superior a 350 bilhões de euros. Sem o acordo, a Grécia não teria condições de garantir o segundo empréstimo internacional – com a União Europeia e o Fundo Monetário Internacional (FMI) - e poderia ir à falência em duas semanas, segundo analistas.
O primeiro-ministro da Itália, Mario Monti, disse estar otimista sobre o acordo entre as autoridades da Grécia e os credores privados. Foi a maior operação de perdão de dívida soberana feita nos últimos anos de forma voluntária, segundo ele.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Na Grécia, hoje é o Dia D para negociação da dívida

Na Grécia, hoje é o Dia D para negociação da dívida

Renata Giraldi* - Repórter da Agência Brasil

Na Grécia hoje (8) é o chamado Dia D, a data-limite para saber se a operação de reestruturação da dívida do país será bem-sucedida. As autoridades gregas esperam que o suspense acabe à noite. A troca de 206 bilhões de euros de títulos da dívida está em discussão. Um calote desordenado poderia custar 1 trilhão de euros para a economia mundial.

De acordo com os analistas econômicos, se a operação fracassar, o governo grego entrará oficalmente em falência, pois não terá mais condições de pagar os credores. A resposta virá em uma reação em cadeia, pois os gregos não poderão receber a parcela de 130 bilhões de euros da União Europeia.

Para a concessão do perdão de 107 bilhões - o equivalente à metade da dívida grega - é preciso que  pelo menos 75% dos credores aceitem renegociar os papéis soberanos gregos. Mas o ideal seria que a taxa de participação chegasse a 90%. O Instituto de Finança Internacional (IIF) apresentou uma lista com 30 nomes de bancos e fundos de investimento, sobretudo europeus, que apoiam publicamente o plano.

Até o momento, cerca de 40% dos credores, entre grandes bancos e fundos de investimento, confirmaram a adesão ao plano de troca. As autoridades gregas e europeias procuram mostrar otimismo e dizem que as expectativas são positivas. Mas o sucesso da operação ainda é incerto, segundo os analistas.

No entanto, as dificuldades aumentam porque um quarto da dívida grega está pulverizada nas mãos de centenas de fundos especulativos e de instituições que ainda não se pronunciaram sobre a operação. Pequenos investidores individuais também resistem em aceitar um calote parcial. Muitos deles são gregos e temem, em meio à grave crise que atinge o país, perder parte do patrimônio aplicado em papéis da dívida.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Dilma volta a criticar o "Tsunami Monetário" na Alemanha

Na Alemanha, Dilma volta a criticar injeção excessiva de recursos por países desenvolvidos para conter crise

05/03/2012 


Yara Aquino
Repórter da Agência Brasil

Fonte: Agência Brasil
Na Alemanha, onde se reúne hoje (5) com a chanceler alemã, Angela Merkel, a presidenta Dilma Rousseff voltou a criticar o excesso de recursos injetados na economia global pelos países desenvolvidos para amenizar os efeitos da crise econômica que enfrentam. Dilma disse que essa expansão monetária produz desvalorização artificial das moedas e uma bolha especulativa.
“Quando [se] expande nessa proporção, a massa monetária produz dois efeitos, um é a desvalorização artificial da moeda. Porque a desvalorização não artificial da moeda é produzida por ganhos de competitividade das economias domésticas, essa equivale a uma barreira tarifária e todo mundo se queixa de barreira tarifária, de protecionismo, e isso é uma forma de protecionismo”. A presidenta completou: “Tem um outro problema sério, cria-se uma massa monetária que não vai para a economia real, ela produz bolha, especulação”.
Dilma disse também que o momento é importante para discutir “mecanismos incorretos” de política cambial. “Por isso o Brasil quer mostrar que está em andamento uma forma concorrencial de proteção de mercado, que é o câmbio. Não é tarifa, é o câmbio. O câmbio hoje é uma forma artificial de proteção do mercado”, disse em entrevista.
Para a presidenta, neste contexto de crise, os países desenvolvidos devem adotar políticas de expansão do investimento. “O investimento não só melhora a demanda interna, mas abre também a demanda externa por nossos produtos”.
Dilma também ressaltou que o Brasil é uma economia soberana e que o país tomará as medidas necessárias para se proteger.
A crise econômica internacional será tema da conversa entre Dilma e Angela Merkel, que é a principal líder das negociações na União Europeia (UE) em busca de soluções para evitar o agravamento da crise. As duas também devem conversar sobre educação, ciência, tecnologia e inovação, além de desenvolvimento sustentável, energia e infraestrutura, assuntos centrais na cooperação bilateral.
Edição: Juliana Andrade

BRASIL AJUSTA POLÍTICA EXTERNA PARA ENFRENTAR MUNDO PÓS-CRISE

BRASIL AJUSTA POLÍTICA EXTERNA PARA ENFRENTAR MUNDO PÓS-CRISE

AJUSTE NA POLÍTICA EXTERNA
Autor(es): agência o globo:Eliane Oliveira
O Globo - 05/03/2012
 
  Determinação é aproveitar o bom momento do Brasil no cenário internacional

A presidente Dilma Rousseff determinou ao primeiro escalão da área internacional do governo que repense a política externa brasileira para ajustá-la ao cenário mundial pós-Primavera Árabe e crise europeia. A hora é de aproveitar o bom momento brasileiro para aumentar a influência do país no cenário internacional. A frase, que já virou um mantra repetido por ministros, assessores e diplomatas, é a inspiração básica para todos os envolvidos na discussão das mudanças na política externa brasileira.
- Houve fortes mudanças no mundo no último ano. Por isso, vamos redefinir um projeto de diversificação do Brasil no mundo - resume o assessor para assuntos internacionais da Presidência da República, Marco Aurélio Garcia.
Grupo discute novo papel do país
Desde o início do ano, um seleto grupo de ministros e assessores especiais da área externa está discutindo formas de o Brasil aproveitar o entusiasmo com o país para amplificar a sua voz nos grandes temas da atualidade. A equipe é comandada pelos ministros das Relações Exteriores, Antonio Patriota, da Fazenda, Guido Mantega, e do Meio Ambiente, Izabella Teixeira. Cada um na sua área, eles mapearão as oportunidades para reforçar a presença brasileira na agenda mundial.
- Relações internacionais não são uma ciência exata. Tentamos buscar caminhos através de uma postura de coerência que dê credibilidade ao país - explica Patriota.
Numa linguagem mais simples, diplomatas menos estrelados contam que já estão sentindo o gostinho de participar das grandes decisões do mundo, e são muitos os indícios de que o Brasil está entrando para o grupo dos países dominantes.
- É esta experiência que precisamos sistematizar e transformar em política - diz um embaixador.
Segundo Patriota, o governo manterá o que chamou de "âncora regional" em sua política externa, focada na preservação da paz e da democracia na América do Sul. Na vertente econômica, o chanceler diz que as perspectivas para os países da região são as mais promissoras das últimas décadas.
- Isso permite que nos concentremos em uma agenda positiva e em um engajamento pleno nas grandes questões internacionais - observa o ministro.
Marco Aurélio concorda, mas acredita que os países da região necessitam de mais atenção do Brasil:
- Os vizinhos reclamam nossa atenção. Estão carentes.
Tanto ele como Patriota destacam que o mundo agora é multipolar, o que permite um número maior de protagonistas. Ambos citam a China como exemplo e ressaltaram as divergências de opiniões surgidas no Conselho de Segurança da ONU em relação à Síria: chineses e russos de um lado e americanos de outro.
- Parece a volta da Guerra Fria - diz Marco Aurélio
- O Brasil se mantém firme em suas posições e leva muito em conta a opinião dos países da região - enfatiza Patriota.
Encontro para discutir crise
Os dois, no entanto, rejeitam a ideia de que o Brasil está menos falante desde que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva passou a faixa para Dilma. A presidente, dizem todos, gosta de fazer política externa, conhece o assunto e dedica ao tema o mesmo interesse que seu antecessor. Claro que cada um com seu estilo: Dilma lê para se informar, Lula era intuitivo.
- Lula sempre se moveu a partir de suas intuições. As reuniões de cúpula da América do Sul com os países árabes e com a África, assim como a tentativa de mediação de um acordo com o Irã, foram ideias dele. Agora, o momento é de colher frutos, olhar de forma mais minuciosa as mudanças que houve no mundo - diz Marco Aurélio, assessor internacional da Presidência desde o primeiro mandato de Lula.
Na semana passada, a presidente fez críticas aos países ricos, ao dizer que a Europa provocou um "tsunami monetário" com suas medidas adotadas para enfrentar a crise. Hoje, Dilma deverá tratar do tema com a chanceler da Alemanha, Angela Merkel. A presidente chegou na noite de ontem a Hannover, por volta das 20h30m, duas horas após o previsto. Uma escala técnica no Porto, em Portugal, provocou o atraso. O encontro com Merkel será hoje, na abertura da maior feira de tecnologia do mundo, a CeBit.
Ao ser perguntado, em Hannover, sobre a conversa que Dilma terá com a chanceler da Alemanha, Marco Aurélio diz que a presidente vai repetir em público e na reunião privada com a chanceler alemã a crítica que fez aos países ricos.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

G20 apoia medidas de austeridade na Europa

G20 apoia medidas de austeridade na Europa

Foto: Stewat Patrick
Renata Giraldi* - Repórter da Agência Brasil

Após dois dias de reuniões em Los Cabos, no México, os ministros da Fazenda do G20 (grupo dos países mais ricos do mundo) anunciaram apoio às medidas adotadas pelos europeus para conter os impactos da crise econômica internacional. Eles recomendaram, porém, que é necessário reforçar essas ações para impedir a expansão da contaminação para as instituições financeiras. O mês de abril foi fixado como prazo para definição das decisões.

A posição do G20 foi anunciada em comunicado assinado por todos os participantes. O Brasil foi representado pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega. “No fim de março, os países da zona do euro [17, dos 27 que integram a União Europeia] farão uma avaliação sobre o reforço das suas instituições que promovem apoio financeiro”, diz o texto. “[O resultado dessa avaliação será] fundamental na decisão que o G20 tomará para canalizar maiores recursos para o Fundo Monetário Internacional (FMI)”, acrescenta o comunicado.

No próximo mês, os líderes dos países da zona do euro devem definir o reforço dos fundos de resgate e se buscarão mais ajuda do Fundo Europeu de Estabilização Financeira do Mecanismo Europeu de Estabilidade – que deverão atingir 750 bilhões de euros.

O FMI propôs o aumento para US$ 500 mil de sua capacidade de empréstimo. Mas a diretora-gerente da instituição, Christine Lagarde, avisou que é possível rever esse valor, pois é necessário definir o repasse com os recursos do Fundo  Europeu.

O secretário norte-americano do Tesouro, Timothy Geithner, disse que houve  “importantes progressos” durante as discussões do G20, no México, ao estabelecer recomendações para os europeus receberem os empréstimos e evitar futuras crises. “Estamos assistindo a uma ampla convergência de estratégias de supervisão e transparência nos mercados de derivados”, disse ele.

O presidente do Banco Central Europeu, Mário Draghi, lembrou que a economia europeia começa a sinalizar o início da estabilização por meio de melhorias pontuais. “Alguns países devem registrar recessão moderada. Mas, para a maioria [dos países] da zona do euro, a situação parece estabilizar”, acrescentou.

*Com informações da agência pública de notícias de Portugal, Lusa//Edição: Graça Adjuto
 
Fonte: EBC  

 
 

Publicado em: 27/02/2012