Mostrando postagens com marcador crise financeira. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador crise financeira. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Crise mundial pode inviabilizar acordos

Crise mundial pode inviabilizar acordos

Crise global põe em xeque fundo ambiental
O Globo - 15/06/2012
 
O agravamento da crise econômica na Europa minou qualquer possibilidade de sair da Rio+20 um texto ambicioso. Na véspera do fim das negociações — previsto para hoje —, o embaixador Luiz Alberto Figueiredo, chefe da delegação brasileira na Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável, disse que o mundo "não pode ficar refém de uma retração gerada por uma crise financeira, que pode acabar em um ou dois anos".
O temor parece estar virando realidade. Ontem, nos corredores do Riocentro, já se admitia a possibilidade de um texto genérico, sem compromissos a curto prazo, o que inviabilizaria a criação do fundo de US$ 30 bilhões para projetos de desenvolvimento sustentável, defendido pelos países emergentes.
— A retração forte de recursos financeiros de países doadores está dificultando internacionalmente uma postura solidária — admitiu Figueiredo.
Numa mudança de postura inesperada, o G-77 (grupo de 130 países mais pobres e emergentes) partiu para o to, ameaçando inviabilizar a discussão sobre economia verde se o fundo não for aprovado.
O diretor do Departamento de Desenvolvimento Sustentável, Assuntos Econômicos e Sociais da ONU, Nikhil Seth, também reconheceu a enorme dificuldade para se obter um acordo e fechar o documento final. Os nós mais difíceis de serem desatados estão nas discussões sobre regras de financiamento.
Reunidos no Encontro da Indústria para a Sustentabilidade, organizado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), especialistas mostraram ceticismo com a possibilidade de aprovação do fundo — além de apontar que, mesmo se criado, seus recursos não seriam suficientes.
— Acredito que (o fundo) é um cenário ganha-ganha para países ricos e pobres, mas a realidade orçamentária em diversos países torna mais improvável chegar a isso — afirmou o economista Dani Rodrik.
A ex-primeira ministra da Noruega Gro Brundtland, que cunhou nos anos 80 a expressão desenvolvimento sustentável, também admitiu que o fundo não deve sair, embora tenha expressado esperança quanto a avanços no financiamento.
O fundo, porém, está longe de ser o único ponto de desavenças na Rio+20. A transformação do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente numa agência especializada da ONU— com orçamento próprio e autonomia — também não é consenso. Outra pendência é quanto ao fim dos subsídios aos combustíveis fósseis: o G-77 está se opondo em bloco, mas o Brasil não deixou clara sua posição.
No Forte de Copacabana, o chanceler Antônio Patriota admitiu que as negociações podem se estender além do prazo.
— Estamos trabalhando ativamente para encontrar as convergências necessárias que possibilitem submeter aos chefes de Estado um texto limpo. É natural que haja dificuldades, isso é próprio do processo democrático. Ninguém adota em dois dias um projeto sobre uma questão tão complexa como desenvolvimento sustentável — afirmou. (Liana Melo, Eliane Oliveira, Lucianne Carneiro, Henrique Gomes Batista e Flávia Milhorance)

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Europeus reagem contra a austeridade

Europeus reagem contra a austeridade

Publicado em Carta Capital

Por Peter Beaumont
François Hollande poderá ser um foco de mudanças se vencer Nicolas Sarkozy nas eleições presidenciais francesas. Foto: Patrick Kovarik/AFP

No final do mês passado, 5 mil pessoas marcharam por Dublim em protesto contra um novo imposto residencial de cerca de 100 euros que o governo irlandês já lutava para coletar dos eleitores, cansados das medidas de austeridade impostas a uma economia estagnada.
Foi uma demonstração pequena, pelos padrões de algumas realizadas em toda a Europa nos últimos meses — em lugares como a praça Syntagma em Atenas ou nas cidades espanholas durante a greve geral que ocorreu pouco antes do protesto em Dublim –, mas o número de pessoas nas ruas não é tudo hoje em dia.
Como revelaram pesquisas feitas na Irlanda na semana passada, a aprovação às políticas do governo de coalizão está despencando, enquanto o apoio ao Sinn Féin — que pede um voto negativo no referendo este mês sobre o pacto fiscal europeu que obrigaria os países membros (menos o Reino Unido, que optou por ficar fora) a déficits orçamentários de 3% ou menos perpetuamente — o transformou no segundo partido mais popular da Irlanda, depois do Fine Gael. Se ainda haverá um pacto fiscal a se votar quando os irlandeses forem às urnas é um ponto discutível. O provável vencedor do segundo turno das eleições presidenciais francesas neste domingo, o socialista François Hollande — que algumas pesquisas situam 9 pontos à frente do atual presidente, Nicolas Sarkozy –, disse que revisaria o acordo.
Nos últimos dias o governo de coalizão da Holanda foi derrubado pela saída do Partido da Liberdade, de extrema-direita, de Geert Wilders, que não quis assinar um orçamento de acordo com o pacote de aperto de cinto da UE, apesar de o governo holandês ter sido um dos mais agressivamente favoráveis à aplicação de rígidas medidas de austeridade a outros integrantes como Grécia e Portugal. Na verdade, pesquisas de opinião nos Países Baixos sugerem que se as eleições — marcadas para setembro — ocorressem hoje os partidos contrários ao regime de austeridade, tanto de esquerda como a extrema-direita, poderiam conquistar um terço dos assentos legislativos.
Enquanto alguns analistas indicaram a emergência da Holanda como líder de um movimento pan-europeu contra a austeridade, outros acreditam que algo mais complexo está ocorrendo — um “momento de virada de jogo” na Europa, em que eleitorados individuais são encorajados a reagir e discutir novas estratégias por eventos que eles veem ocorrer em outros países. O que está sendo pedido pelos eleitores, enquanto a dívida europeia continua inchando juntamente com o desemprego, enquanto o crescimento evaporou, é nada menos que um “plano B” — uma alternativa à diretriz antiausteridade dominante. De maneira significativa, pela primeira vez esses apelos estão ganhando força real.
“A única coisa que você percebe”, diz Eoin O’Malley, um professor de política na Universidade da Cidade de Dublim que pesquisa reações à crise europeia, “é como a reação em um país [contra a austeridade] influencia a política em outros lugares. Você vê os comentários de Hollande na França e a queda do governo holandês influenciando como os eleitores daqui veem o referendo irlandês sobre o pacto fiscal e acreditando cada vez mais que eles podem dizer não. Se você me perguntar hoje, eu apostaria que o voto negativo é mais provável do que era na semana passada.”
Em apenas algumas semanas, a antiga catástrofe da dívida europeia que tropeçou da cúpula para o resgate para a queda de governos se transformou em uma crise de legitimidade, muito mais corrosiva e cada vez mais ampla, que põe em confronto os eleitorados e as castas políticas estabelecidas. De Londres a Madri, do núcleo setentrional da UE a suas periferias, os eleitores começaram a resistir as rígidas políticas pregadas sobre metas e prazos para redução da dívida, para satisfazer os mercados e as agências de classificação que não têm meios de incentivar o crescimento.
Enquanto em Londres e Berlim políticos e autoridades se ativeram ao roteiro — visto que não há plano B –, em outros lugares nas últimas semanas houve cada vez mais sinais de que autoridades graduadas da UE e dos governos estão rapidamente acordando para os riscos que representa para a UE o novo clima de resistência do público. Isto viu a política se reafirmar em uma crise que durante muito tempo foi dominada por considerações econômicas e que causou a queda de cinco governos europeus até agora.
Na última quarta-feira, o Wall Street Journal citou autoridades não identificadas sugerindo de maneira tentativa que já começou um debate sobre a necessidade de atenuar as metas de 2009 para reduzir a dívida a 3% do PIB até 2013. “O debate não deve ser excluído”, teria declarado uma autoridade europeia, segundo o jornal, “mas poderia dar um sinal de que estamos afrouxando, em um momento em que lutamos para mostrar que podemos manter o sistema.”
Na sexta-feira, esse debate — iniciado por Hollande — havia sido adotado em lugares inesperados. Mario Monti, o primeiro-ministro tecnocrata da Itália instalado exatamente para seguir um regime de austeridade, tornou-se o último líder a criticar uma política focalizada apenas em cortes. “Se não houver demanda, o crescimento não se materializará. Todas as reformas que estamos implementando hoje são deflacionárias”, ele disse.
Na última quinta-feira, o presidente do Conselho Europeu, Herman Van Rompuy, disse que o crescimento precisa ser trazido para a frente do debate, embora mais tarde ele tenha advertido: “Não há fórmulas mágicas”. Ele estava respondendo a Mario Draghi, do Banco Central Europeu, que na quarta-feira disse à Comissão de Assuntos Econômicos e Monetários do Parlamento Europeu que um pacto fiscal deveria ser seguido de um “pacto de crescimento”.
É um debate que foi acompanhado por comentários intensos e febris de economistas e analistas na mídia, que se animaram a declarar natimorto, com menos de dois meses, o tão anunciado resgate da Europa.
No New York Times na semana passada, o economista Paul Krugman, ganhador do prêmio Nobel — há muito tempo na linha de frente dos críticos às medidas de austeridade –, denunciou as fracassadas “políticas econômicas zumbi” dos “austerianos” da Europa (e dos Estados Unidos).
No Financial Times, José Ignacio Torreblanca, do Conselho Europeu para Relações Exteriores, refletindo uma opinião crescente mesmo entre o governo conservador espanhol de Mariano Rajoy, cuja nota de crédito foi rebaixada pela segunda vez na sexta-feira, anunciou: “Está na hora de dizer basta ao absurdo da austeridade”.
Nada disso é o que a Alemanha e sua chanceler, Angela Merkel, querem ouvir antes de uma importante votação este mês no Parlamento alemão, que não apenas aprovaria o pacto fiscal, mas, ainda mais importante, o Mecanismo Europeu de Estabilidade — o novo fundo de resgate de emergência da região. Outros fatos no horizonte incluem eleições na Grécia e as eleições legislativas na França em junho, as quais ameaçam transformar o crescente momento antiausteridade, sustentado pelo populismo ascendente, em uma grande crise.
Mas se há um lugar onde a reação à austeridade não está sendo sentida é na Alemanha, onde a prescrição dos políticos e banqueiros centrais para os problemas da Europa continua praticamente a mesma. Ela foi reiterada em comentários feitos ao New York Times na semana passada por Jens Weidmann, presidente do Bundesbank e que já foi um dos principais assessores de Merkel. Ele advertiu que acordos feitos anteriormente devem ser respeitados, mesmo com a perda de uma parte da “soberania nacional”. Ulrike Guérot, uma colega de Torreblanca e pesquisadora representante da Alemanha no Conselho Europeu para Relações Exteriores, explica: “É diferente para o governo alemão. Ele ainda pode suportar o sentido mais amplo da crise política porque não tem 50% de desemprego como na Espanha, nem um populismo crescente”.
Apesar disso, ela acredita que fora da Alemanha “está chegando uma mudança de jogo” que Merkel não poderá ignorar. Enquanto Guérot acredita que a rápida mudança de tom do debate pode causar um momento de crise política para a Europa, ela também argumenta que o fim iminente de “Merkozy” — o relacionamento estreito entre França e Alemanha, personificado em Merkel e Sarkozy, que conduziu as políticas econômicas e a política europeias — pode ser uma boa coisa. “O que está acontecendo é sério. François Hollande parece estar surgindo como o líder de um movimento antiausteridade pan-europeu.”
Guérot acredita que o “relacionamento simbiótico” de Sarkozy e Merkel como propulsor das políticas da UE pode ter contribuído em grande medida para o sentimento de muitos países e eleitorados de que estavam sendo excluídos do debate. “Existe uma vantagem no fim da relação Merkel-Sarkozy, porque abrirá espaço para novas discussões, ideias e debates.” No mínimo, ela acrescenta, sobre o necessário realinhamento na relação entre a democracia na UE e a influência dos mercados. “Não estamos falando de crescimento versus austeridade. O debate é sobre o tipo de crescimento de que precisamos.” E, ela acrescenta, sobre se as metas do pacto fiscal são rígidas demais. “Não podemos só economizar. Precisamos investir. O mundo não vai acabar se a meta de 3% for infringida em alguns pontos no ano que vem.”
Enquanto alguns argumentam que uma crise política total na Europa, que cause a rejeição das medidas de austeridade propostas pela Alemanha, poderia forçar uma crise na Alemanha sobre a Europa, Guérot acredita que o resultado mais provável é uma renegociação. “Merkel é uma sobrevivente, e é pragmática. Eu acho que Hollande sabe que também vai precisar de uma acomodação. Se esse pacto fiscal falhar — se houver uma segunda versão — ele terá de ser enfrentado.”
Enquanto analistas como Guérot podem estar descontraídos sobre esse resultado, para os políticos no centro da tempestade crescente as apostas não poderiam ser mais altas. Na sexta-feira em Dublim, foi a vez de o vice-primeiro-ministro irlandês, Eamon Gilmore, cujo Partido Trabalhista foi crucificado nas pesquisas de opinião por apoiar a austeridade, usar linguagem apocalíptica, advertindo que a Irlanda não teria acesso a fundos alternativos se o tratado fiscal for rejeitado este mês.
A verdadeira pergunta é se os eleitores da Irlanda — ou da Europa –, depois de anos de sofrimento, ainda têm estômago para essa mensagem.

LINHAS DE FALHA NA ZONA DO EURO

PAÍSES BAIXOS

Um dos maiores animadores do pacto fiscal, o governo holandês desmoronou na semana passada quando o Partido da Liberdade, de extrema-direita, deixou a coalizão governante por causa do orçamento de austeridade. Este propunha cortes de 14,4 bilhões de euros, reduzindo muito os gastos em saúde e os salários do setor público, e pretendia aumentar os impostos sobre o consumo e a idade de aposentadoria. Um acordo de última hora com partidos de oposição parecia ter garantido um novo orçamento dentro do pacto de 3%, mas poderia se desfazer nas eleições marcadas para setembro.

ESPANHA

Com o desemprego jovem em 50%, a quarta maior economia da Zona do Euro — que no mês passado teve uma greve geral e extensas demonstrações — é o último país a simbolizar os problemas financeiros da Europa. Na sexta-feira, a agência de classificação Standard & Poor’s diminuiu a nota de crédito da Espanha para BBB+, seu segundo rebaixamento, enquanto o desemprego geral atingiu 25%. Apesar de o primeiro-ministro Mariano Rajoy apoiar publicamente um programa de austeridade para evitar o resgate, há dúvidas crescentes sobre até onde vai seu desejo de implementar reformas.

IRLANDA

Hoje no quarto ano de um regime de austeridade, os eleitores irlandeses não viram o retorno do crescimento e começam a se rebelar contra os cortes do governo. Tendo seguido obedientemente a prescrição alemã de cortar a dívida, os irlandeses começaram a abandonar partidos como Fine Gael e o Trabalhista, enquanto promoviam o Sinn Féin ao segundo lugar, por seu apoio ao voto negativo no referendo sobre o pacto fiscal europeu em 31 de maio, que segundo o partido exigiria cortes extras de 6 bilhões de euros. Enquanto o apoio ao referendo ainda tem uma pequena maioria entre os que se dizem decididos, 39% dos eleitores irlandeses ainda não definiram sua posição.

FRANÇA

Com a França registrando seu 11º mês consecutivo de desemprego crescente — quase 10% em março –, o fraco crescimento e as finanças públicas em profunda tensão, os eleitores franceses parecem decididos a rejeitar Nicolas Sarkozy, um dos principais arquitetos, com Angela Merkel da Alemanha, do pacto fiscal que insiste que os déficits orçamentários se limitem a 3% do PIB perpetuamente. Em vez disso, eles afluíram para a extrema-direita de Marine Le Pen e para o socialista François Hollande, líder emergente do movimento antiausteridade na Europa, que advertiu que não ratificará o pacto.

ALEMANHA

A maior economia e o país mais competitivo da Europa. A chanceler Angela Merkel elaborou com a França as medidas de austeridade, e apesar de ter sustentado amplamente o euro a Alemanha hoje começa a parecer cada vez mais isolada na crescente reação contra os cortes orçamentários. Com um aliado chave, o presidente francês Nicolas Sarkozy, provavelmente de saída, e outro, os Países Baixos, prejudicado por um governo provisório ineficaz, como a Alemanha reagirá à crescente crise de legitimidade política na UE definirá em ampla medida o resultado.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Protestos contra crise dominam comemorações no Dia do Trabalho no mundo

Protestos contra crise dominam comemorações no Dia do Trabalho no mundo

01/05/2012 
 
Renata Giraldi*
Repórter da Agência Brasil

As comemorações do Dia do Trabalho (1º) estão sendo marcadas por protestos em várias cidades do mundo contra as medidas de combate à crise econômica internacional. Na França, a cinco dias do segundo turno das eleições presidenciais, a campanha política domina as comemorações. Na Grécia, as celebrações do 1° de Maio coincidem com uma paralisação geral que conta com a participação de funcionários públicos e privados de vários setores.
Só na França, as entidades sindicais programaram 280 protestos em várias cidades do país, além de Paris. Os sindicatos franceses prometem que não haverá mensagens políticas durante os protestos.
As comemorações do Dia do Trabalho deste ano ocorrem no momento em que vários governos tentam adotar pacotes de austeridade, que atingem boa parte da população. Os trabalhadores da Espanha, de Portugal, da Grécia e da Irlanda temem o aumento do desemprego e perdas de benefícios sociais.
Há protestos organizados ao longo do dia na Espanha, em Portugal e na Grécia - países que vivem uma grave crise fiscal e que tentam implementar pacotes de austeridade. Os espanhóis prometem manifestações em 60 cidades. Em Atenas, capital grega, o protesto popular foi convocado por entidades sindicais ligadas aos trabalhadores em greve.
Ônibus, trens e metrôs da capital grega não funcionarão hoje, enquanto os trabalhadores de barcas e navios da Grécia, fundamentais para o turismo do país, cruzam os braços por quatro horas. Profissionais da área de saúde pretendem trabalham com o mínimo de suas equipes nos hospitais públicos e privados. Na Grécia, os protestos ocorrem a cinco dias das eleições.
Na Rússia, o presidente eleito, Vladimir Putin, e o atual presidente, Dmitri Medvedev, participaram de um ato público em comemoração ao Dia do Trabalho. Em uma semana, Putin assume o governo em meio a controvérsias envolvendo sua eleição, sob suspeitas de irregularidades.
Em Havana, capital de Cuba, a celebração do Dia do Trabalho é uma das mais importantes do ano para o governo comunista. Em Istambul, na Turquia, manifestantes, representando diferentes tendências políticas, também foram às ruas. Segundo autoridades do país, 20 mil policiais foram mobilizados para garantir a segurança na Praça Taksim, a mais importante da cidade.
Até 2010, protestos na Turquia eram proibidos. Na Praça Taksim, em 1° de maio de 1977, houve mortes e feridos durante um protesto considerado ilegal, que descambou para um confronto entre manifestantes e policiais.
Em Jacarta, na Indonésia, cerca de 9 mil manifestantes foram às ruas reivindicar aumento de salários. A Indonésia é o quarto país mais populoso do mundo, registrando uma das maiores taxas de crescimento econômico do planeta, mas metade da população ainda vive abaixo da linha da pobreza. Passeatas também foram registradas no Timor Leste, nas Filipinas e em Hong Kong.

*Com informações da RFI, emissora pública de rádio da França
Edição: Vinicius Doria

terça-feira, 24 de abril de 2012

A Europa com a faca no pescoço

A Europa com a faca no pescoço

Zona do Euro

24.04.2012
O socialista François Hollande tem boa chance de derrotar Sarkozy, ameaçando a “saída” germânica para a crise, onde a Alemanha preserva a sua competitividade. Foto: Foto:Philippe Wojazer/Reuters/Latinstock

A sociedade europeia está com a faca na garganta. Nós já estivemos na mesma situação, conhecemos o roteiro de cor. Quem ameaça a jugular dos europeus? Os suspeitos de sempre: bancos, hegde funds e corretoras. Não fosse assim, como explicar a queda generalizada das bolsas de valores nas principais praças da Zona do Euro ocorrida ontem, segunda 23? Ou a segunda recessão em três anos imposta à Espanha, acompanhada da escalada dos juros cobrados para financiar o governo espanhol, um evidente ataque especulativo assistido (nos dois sentidos) pelo Banco Central Europeu?
Os jornais de hoje. terça 24,  trazem as justificativas dos “investidores”: a Holanda não parece disposta a desmontar o aparato de proteção social erigido durante décadas; na França, idem, o socialista François Hollande tem boa chance de derrotar Sarkozy, ameaçando a “saída” germânica para a crise, onde a Alemanha preserva a sua competitividade, dá a cartas e os demais ficam com os cortes orçamentários em salários, aposentadorias, saúde, segurança, educação.
O “não” holandês preocupa. Quando a sociedade se manifesta, é problema. Do ponto de vista “deles”, claro. E talvez de Miriam Leitão, a precursora do jornalismo econômico à pururuca, uma velhinha de Taubaté das estatísticas, a última a defender com unhas e dentes os interesses do mercado financeiro, como se falasse “em defesa da sociedade”. Mas há uma diferença: a personagem de Luis Fernando Verissimo tinha charme, é inegável.
Por meio de seus porta-vozes, a alta finança promete que mais três anos de desmonte resultarão em algo proveitoso. Eles têm a razão deles: tirarão nesse período proveito do empréstimo trilionário dado pelo BCE, a taxas de juros negativas. E farão o que sabem fazer: vão especular com os títulos espanhóis, logo mais com franceses, faturam com os títulos brasileiros, e assim por diante.
Na América do Sul, a bola da vez, no momento, é a Argentina, após o governo Cristina Kirchner encampar a petroleira YPF, sob o argumento de que a empresa não cumpriu o prometido em um segmento estratégico. Controlada pelos espanhóis, a companhia remeteria seus lucros, inclusive para fazer frente à dificuldade de fazer caixa na Espanha, em vez de investir na ampliação da sua capacidade produtiva, algo que implicaria assumir riscos.
Alinhada aos interesses do mercado financeiro, a agência de classificação de riscos Standard & Poor´s saiu na frente e rebaixou a nota argentina. Contribuiu assim para elevar a temperatura do ambiente especulativo, caro ao mercado financeiro. Logo mais tiram a faca da botina.

CRISE DERRUBA 10º GOVERNO DA UE E AFETA MERCADOS

CRISE DERRUBA 10º GOVERNO DA UE E AFETA MERCADOS

REAÇÃO A PLANO DE AUSTERIDADE DERRUBA GOVERNO HOLANDÊS, O 10º A CAIR NA EUROPA
Autor(es): Jamil Chade
O Estado de S. Paulo - 24/04/2012
 

A crise da dívida levou ontem à queda do governo da Holanda, o décimo da União Europeia a cair em apenas dois anos. Além disso, a Espanha anunciou nova recessão. Os problemas derrubaram as bolsas de valores. No Brasil, o dólar subiu 0,43% e fechou a R$ 1,881. Na Holanda, não houve acordo político para aprovar medidas de austeridade que resultariam em corte de € 16 bilhões. Entre as ações estava o aumento da idade mínima para aposentadoria, de 65 para 66 anos. Agora, os holandeses precisam apresentar em menos de dez dias seu novo orçamento à UE, com o compromisso de reduzir o déficit de 4,3% do PIB para 3%. "Há uma nuvem negra sobre a Holanda", declarou um ministro. A situação é vista como possível precedente contra o pacto fiscal. O socialista François Hollande, que liderou o primeiro turno presidencial francês, também quer rever o acordo
Incertezas políticas escancararam a fragilidade da economia europeia. Ontem, a crise da dívida levou à queda do décimo governo do bloco em apenas dois anos, a Espanha anunciou nova recessão e o pacto fiscal foi colocado sob risco. Os problemas derrubaram as bolsas de valores. No Brasil, o dólar subiu 0,43% e fechou a
R$ 1,881, pouco abaixo da cotação de quinta-feira, quando chegou a R$ 1,886, a maior desde novembro. Islândia, Irlanda, Grécia, Portugal, Reino Unido, Eslováquia, Romênia, Espanha e Itália já viram a queda de seus governos nos últimos 24 meses por causa da crise, que não tem feito distinção entre partidos de esquerda ou direita. Ontem, foi a vez da Holanda. A queda veio depois de o governo não conseguir um acordo entre os partidos para a aprovação de medidas de austeridade, que resultaria em um corte de € 16 bilhões no orçamento. O governo de coalizão perdeu o apoio de um partido de extrema direita e deixou de ter maioria no Parlamento. Sem poder passar sua reforma no orçamento, o governo de centro-direita de Mark Rutte apresentou demissão e convocou eleições. O  responsável pela queda foi o líder de extrema direita, Geert Wilders, que se recusou a aceitar os cortes propostos.
Pelo pacote, a Holanda aumentaria a idade mínima de aposentadoria de 65 para 66 anos e reduziria a ajuda a países mais pobres. Wilders alegou que não aceitaria porque temia que as aposentadorias seriam também afetadas. “Não queremos que os nossos aposentados sofram por causa dos ditadores de Bruxelas”, acusou, em referência à União Europeia (UE). A Holanda vive agora uma situação parecida com a de outros países considerados mais pobres. Por meses, foi uma das que mais criticaram Grécia e Portugal por não c onseguir a provar cortes em seus gastos. Agora, os holandeses precisam apresentar em menos de dez dias seu novo orçamento à UE, com o compromisso de reduzir o atual déficit de 4,3% do PIB para 3%. “Há uma nuvem negra sobre a Holanda”, declarou o ministro de Imigração, Geer Leers.
Precedente. O fracasso no estabelecimento de um orçamento na Holanda é visto como um precedente perigoso, que poderia levar outros países a adotar o mesmo caminho. O pacto fiscal é a grande aposta de França e Alemanha para tirar a União Europeia da crise. Já em sua elaboração, o Reino Unido optou por ficar de fora, crian-
do o primeiro racha político profundo na UE. Agora, se o número de governos que não adotam  o pacto aumentar, todo o projeto será questionado. François Hollande, candidato socialista que liderou o primeiro turno francês, também indicou que, se eleito, pediria uma revisão do acordo. Sua vitória no domingo, portanto, contribuiu para deixar os investidores tensos.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Dica crise financeira EUA X Crise financeira da Eurozona

Crise Financeira dos EUA de 2008 = Crise de Crédito ligada perda de liquidez do sistema bancário tendo sua origem na construção civil (bolha da economia amaericana)!


Crise Européia =  Crise de Crédito liga a perda de liquidez do sistema bancário e o enfraquecimento do EURO tendo como origem o descompaso das contas públicas dos PIIGS (Portugal, Irlanda, Itália, Grécia, e Espanha)!


terça-feira, 3 de abril de 2012

As fontes morais da austeridade

As fontes morais da austeridade
A União Europeia aprovou novo acordo para ajuda financeira à Grécia, com a condição de que ela aceite uma “supervisão reforçada” da sua gestão orçamentária. O plano agrava ainda mais a situação de um país que já sangra. A obstinação em preconizar o rigor se explicaria por convicções morais mais poderosas que a razão?
por Mona Chollet
"Rigor”, “austeridade”, “esforços”, “sacrifícios”, “disciplina”, “medidas dolorosas”... De tanto assediar nossos ouvidos com suas fortes conotações moralizadoras, o vocabulário da crise acaba por intrigar. Em janeiro, na véspera do Fórum Econômico de Davos, seu presidente, Klaus Schwab, falou, sem rodeios, de “pecado”: “Nós estamos pagando pelos pecados dessas dez últimas décadas”, diagnosticou, antes de se perguntar “se os países que pecaram, especialmente os do Sul, têm a vontade política de empreender as reformas necessárias”.1 No Le Point, num texto de Franz-Olivier Giesbert, o veredito contra nossos bacanais desenfreados é mais amplo: o editorialista deplora “trinta anos de disparates, loucuras e imprevidência, quando vivemos acima de nossos meios”.2
Líderes e comentaristas repetem sem cessar o mesmo relato puramente fantástico: ao se mostrarem preguiçosos, descuidados e perdulários, os povos da Europa teriam atraído para eles, como uma punição justa, a praga bíblica da crise. Agora, têm de passar por uma expiação. Precisamos “apertar os cintos”, restaurar a honra das boas e velhas virtudes de poupança e frugalidade. Le Monde (17 jan. 2012) cita o exemplo da Dinamarca, um país modelo onde um “remédio amargo” permitiu voltar às boas graças das agências de rating. E, em seu discurso de posse em dezembro de 2011, o primeiro-ministro espanhol, Mariano Rajoy, arengava seus compatriotas: “Nós estamos diante de uma tarefa ingrata, como a daqueles pais que têm de se virar para alimentar quatro pessoas com o dinheiro para duas”.
Muitos observadores apontam para a fraude desse raciocínio que pretende calcar o comportamento de um Estado no de um lar. Ele escamoteia a questão da responsabilidade pela crise com o fardo insuportável que a austeridade impõe às pessoas, cujo único defeito foi terem desejado tratar da própria saúde ou pagar professores para seus filhos. Para uma pessoa, o rigor no orçamento pode ser uma fonte de orgulho e satisfação; para um Estado, isso significa a ruína de milhões de cidadãos, quando não descamba, como é o caso da Grécia, num “sociocídio” puro e simples. Na Dinamarca, Le Monde especificou, o “remédio amargo” foi traduzido numa explosão do desemprego e numa redução drástica nos programas sociais; “70 mil famílias perderam suas casas”. Assim, esse falso bom-senso não apenas apaga magicamente as desigualdades sociais e oculta os estragos da austeridade, como defende, diante da crise, uma política econômica que só faz piorá-la, impedindo qualquer recuperação pelo consumo. “Poupar e investir são virtudes para as famílias; é difícil para as pessoas imaginar que na escala das nações um excesso de frugalidade pode causar problemas”, observa o editorialista Peter Coy da Business Week (26 dez. 2011).
Irracionais, a bem dizer delirantes, os chamados à contrição não mantêm nenhuma relação com o menor elemento da realidade. Como explicar então que eles continuem a ressoar de um extremo a outro do espaço europeu? Porque eles servem aos interesses dominantes. De fato, eles oferecem a oportunidade de finalizar, sob o pretexto da dívida, a destruição das conquistas sociais do pós-guerra, levada a cabo há trinta anos. Antes disso, eles já tinham permitido, na França de Vichy, que enterrassem a memória funesta da Frente Popular. O “processo de Riom”, realizado em 1942 na pequena cidade de Puy-de-Dôme, visava demonstrar que os líderes “revolucionários”, como Léon Blum e Edouard Daladier, eram responsáveis pela derrota de junho de 1940 contra o Exército alemão. A mudança para as 40 horas nas fábricas de armamentos, e não as decisões do Estado-maior, teria sido fatal para as tropas francesas... Em vista da “recuperação nacional”, o marechal Philippe Pétain pretendia substituir o “espírito de diversão” pelo “espírito de sacrifício”. Na abertura do processo, o diário Le Matindesignava Blum como “o homem que inoculou o vírus da preguiça no sangue de um povo”.3 Os franceses, setenta anos antes dos gregos.
E o mesmo se passa com os portugueses, que seu primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, admoesta com estas palavras: “Vocês com certeza se lembram daquele episódio grotesco, quando a Troika [europeia] trabalhava em Lisboa para elaborar um programa de assistência em Portugal [em 2011] e tudo estava fechado no país, porque todo mundo estava aproveitando uma emenda de feriado. A Troika, que emprestava dinheiro para Portugal, estava trabalhando; e o país curtia a folga”.4

Um modo de pensar onipresente
Mas o convite para o trabalho, a mortificação e a abnegação não passaria de um artifício para fazer o maior número possível de pessoas aceitar a espoliação? Suas ênfases sinceras, apaixonadas, levam a pensar que ela não deve tudo ao cinismo, e que está enraizada num fundo cultural sólido. “Esse humor ‘sacrificial’, da ordem do éthos tanto quanto o raciocínio, suscita por parte de muitos comentaristas uma espécie de alegria mórbida, como se o sofrimento popular tivesse também uma dimensão ‘purificadora’”, constata o sociólogo Frédéric Lebaron a propósito da situação atual.5 Pétain, igualmente, queria lembrar aos franceses que “desde Adão, a punição é um apelo à reabilitação, uma promessa de regeneração”.6 Mais próximo de nós, Rajoy profetiza: “O esforço não será inútil. As nuvens escuras desaparecerão, vamos erguer a cabeça e chegará o dia em que falaremos bem da Espanha; o dia em que vamos olhar para trás e não nos lembraremos mais dos sacrifícios”.
A reivindicação, por parte do povo, de condições dignas de vida só faz alarmar aqueles cujos interesses são por ela contrariados: ela lhes inspira uma espécie de terror supersticioso, como se representasse uma transgressão impensável. Quando da derrota de 1940, relatou o historiador e membro da Resistência Marc Bloch, os líderes militares, oriundos da alta sociedade, haviam “aceitado o desastre, porque eles encontravam nela atrozes consolações: ficar de joelhos diante do castigo que o destino havia enviado a uma nação culpada”.7
Contudo, aqueles que, por sua posição na sociedade, não têm nenhum interesse objetivo em subscrever essa leitura dos acontecimentos são, no entanto, em bom número, receptivos a ela. Em vista dos danos infligidos à coletividade, os movimentos de “indignados” aparecem até como uma resposta bem tímida, dando a entender que a retórica da expiação necessária encontra, apesar de tudo, um terreno fértil. Em maio de 2011, um funcionário grego que já tinha visto seu salário passar de 1.200 euros para 1.050 euros, para um horário de trabalho que subira de 37,5 horas por semana para 40 horas, assegurava, por exemplo, estar “pronto para esforços adicionais”.8
Que um substrato cultural, até mesmo religioso, determine as atitudes dos protagonistas da crise do euro é algo que alguns não deixaram de apontar. “Especialistas e políticos negligenciam um fator: Deus. Enfim, a religião e, mais especificamente, o protestantismo luterano. Filha de pastor, [a chanceler alemã] Angela Merkel tem a noção do pecado, como muitos de seus compatriotas. Existe uma maneira alemã de falar do euro que tem bem o cheiro da influência do Templo. E que obviamente não deixa de ter consequências nas soluções propostas para socorrer a união monetária europeia”, escreve Alain Frachon emLe Monde (23 dez. 2011).
No entanto, pode-se duvidar que a influência do protestantismo se limite à área geográfica onde ele tomou impulso no século XVI. O sociólogo alemão Max Weber mostrou em um ensaio famoso, em 1905, como a ética protestante contribuiu para impulsionar o capitalismo, moldando um “espírito” que lhe era favorável.9 A partir daí, e até hoje, esse espírito tem perdurado e prosperado de maneira autônoma, além de qualquer referência religiosa. Ele acabou por se tornar tão onipresente e invisível quanto o ar que respiramos. A historiadora Janine Garrison cita o exemplo de Jean-Paul Sartre, que fazia ironia com a fé protestante de seu avô materno, sendo ele mesmo “muito mais próximo dele, de seu puritanismo, de seu gosto pelo conhecimento, do que gostaria de admitir. Não é o mesmo Sartre que proclama em alto e bom som que um intelectual que não trabalha pelo menos seis horas por dia não pode reivindicar esse título prestigioso?”.10
A tese de Weber é de fato que o protestantismo “fez a ascese sair dos conventos”, onde o catolicismo a havia confinado. A doutrina calvinista da predestinação, segundo a qual todo ser humano é eleito ou condenado por Deus por toda a eternidade, sem que nenhum dos seus atos seja suscetível de mudar o que quer que seja, poderia ter levado a uma forma de fatalismo. Ela produziu um efeito inverso: submetendo a totalidade de sua vida a uma disciplina rígida, os fiéis investiram toda sua energia no trabalho, buscando no sucesso econômico um sinal de sua salvação. A fortuna deixou então de ser condenável – muito pelo contrário. Só o fato de desfrutar dela era errado. Weber cita o caso de um rico fabricante cujo médico o havia aconselhado a comer todos os dias, para sua saúde, algumas ostras, mas não conseguia se permitir uma tal suntuosidade, não por avareza, mas por escrúpulo moral.
“A ideia do dever profissional”, escreve o sociólogo, “passeia por nossa vida como um fantasma das crenças religiosas de outrora”. Porque a mão de obra teve também ela de aprender a “realizar o trabalho como se fosse um fim absoluto em si mesmo – uma ‘vocação’”. Essa mentalidade, hoje dominante, só se impôs ao preço de um “combate pesado contra um mundo de potências hostis”, especialmente com a ajuda de uma política de baixos salários: João Calvino acreditava que a massa dos trabalhadores e dos artesãos “devia ser mantida em situação de pobreza para permanecer obediente a Deus. O protestantismo escavou entre eleitos e amaldiçoados “um fosso a priori mais intransponível e mais preocupante do que aquele que separava do mundo o monge da Idade Média – um fosso que imprimiu uma marca profunda a todos os sentimentos sociais”. O puritanismo inglês também inventou “uma legislação sobre a pobreza cuja dureza contrastava fortemente com as disposições anteriores”.
Fosse o homem rico ou pobre, a partir de então relaxar, curtir a vida, “perder tempo”, eram coisas que não poderia fazer sem peso na consciência. Temos uma ideia do que o mundo atual deve a essa visão quando lemos que o pastor luterano Philipp Jacob Spener, fundador do pietismo, denunciou como moralmente condenável “a tentação de se aposentar prematuramente”.
Em suma, como notara desde o século XVI o humanista alemão Sebastian Franck – citado por Weber –, a Reforma “impôs a todo homem que ele fosse um monge ao longo de sua vida”. A influência do cristianismo e sua desqualificação da existência terrena viram-se fortemente ampliadas. Pode-se presumir que esse patrimônio espiritual e cultural inibe as respostas possíveis aos ataques desferidos contra as sociedades. Após a secularização dos Estados, que dizer sobre a secularização das mentes?


Ilustração: Daniel Kondo

1 Entrevista a L’Hebdo, Lausanne, 18 jan. 2012.
2 Le Point, 23 nov. 2011. Cf. Mathias Reymond, “Les éditocrates sonnent le clairon de la rigueur” [Os editocratas soam a corneta do rigor], Acrimed.org, 12 dez. 2011.
3 Citado por Frédéric Pottecher, Le Procès de la défaite. Riom, février-avril 1942 [O processo da derrota. Riom, fevereiro-abril 1942], Fayard, Paris, 1989.
4 Expresso.pt, Lisboa, 6 fev. 2012.
5 Frédéric Lebaron, “Un parfum d’années 30...” [Um perfume de anos 30...], Savoir/Agir, n.18, dez. 2011.
6 Citado por Gérard Miller, Les Pousse-au-jouir du maréchal Pétain [O atirar-para-desfrutar do marechal Pétain], Seuil, col. “Points Essais”, Paris, 2004 (1.a ed.: 1975).
7 Marc Bloch, L’Etrange défaite [A estranha derrota], Gallimard, col. “Folio Histoire”, 1990.
8 “Comment les Grecs se sont mis au régime sec” [Como os gregos foram colocados no vagão], La Croix, Paris, 8 maio 2011.
9 Max Weber, L’Ethique protestante et l’esprit du capitalisme [A ética protestante e o espírito do capitalismo],col. “Champs classiques”, Paris, 2000 (1.a ed.: 1905). Mesma referência para as citações seguintes desse autor.
10 Janine Garrisson, L’Homme protestant [O homem protestante], Complexe, Bruxelas, 2000.

sábado, 31 de março de 2012

‘Corte de orçamento vai aprofundar recessão’

‘Corte de orçamento vai aprofundar recessão’

De Carta Capital

Após anúncio de corte de 27,3 bilhões de euros nas contas do governo, analistas defendem que política europeia de austeridade não é o melhor caminho para conter crise . Foto: Marta F. Maeso

Um dia após uma greve geral levar milhares de pessoas às ruas de diversas cidades da Espanha, entre elas Valencia, Bilbao, Barcelona e a capital, Madri, o governo anunciou nesta sexta-feira 30 um corte de 27,3 bilhões de euros no orçamento de 2012.
A mais rígida medida de austeridade desde a redemocratização do país em 1978, segundo o ministro da Fazenda Cristóbal Montoro.
O objetivo é reduzir o déficit público de 8,51% do PIB do país em 2011 para 5,3% no final deste ano, embora a meta esperada pela União Europeia fosse de 4,4%. Inviabilizada, os líderes europeus concordaram em aumentar a margem, mas a ação gerou desconfiança no mercado e alta nos juros dos títulos da dívida espanhola.
Com o temor de enfrentar dificuldades para se financiar a partir da venda de títulos, o país optou pelas medidas de austeridade para garantir sua credibilidade, explica Antonio Carlos Alves dos Santos, doutor em economia e professor da PUC-SP, embora isso deva provocar um “baque maior” maior na economia espanhola.
Antes do anúncio, a expectativa era que o país registrasse uma queda de 1,7% no PIB. “A medida não é o melhor caminho, porque o país já registra elevados níveis de desemprego, mas ao não cumprir a meta de déficit público ficou em situação delicada.”
Santos acredita que o país viu-se pressionado a apostar em no financiamento do mercado ao invés do crescimento econômico.
Júlio Sérgio Gomes de Almeida, doutor em economia e consultor do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI), também defende que o corte no orçamento, a princípio, deve influenciar no crescimento do país, a menos que outros fatores – como um programa de relançamento da economia europeia –, o compense. “Os países europeus em cenário de recessão apresentaram uma leve melhora, mas não há, no momento, sinal de algum mecanismo de compensação.”
Em meio a pressões, o governo espanhol congelou o salário dos servidores públicos e deve cortar cerca de 15% do orçamento de cada um dos ministérios para atingir um valor final “muito austero”, segundo o primeiro-ministro conservador Mariano Rajoy – pressionado pela EU para conter o déficit público.


O governo também pretende arrecadar 12,3 bilhões de euros em 2012, ajudado pelo aumento de impostos a grandes companhias e elevação de preços da energia em 7% e do gás.
Nas ruas, os espanhóis protestaram na quinta-feira 29. Barcelona reuniu cerca 800 mil pessoas nas ruas, de acordo com dados dos sindicatos e 80 mil nas estimativas da policia. Em Madri, os sindicatos estimaram a participação popular 900 mil indivíduos.
O país tem o maior índice de desemprego da Europa, com 24% de sua população desocupada. Entre os jovens a situação é ainda mais crítica com quase metade dos jovens com menos de 25 anos estão sem trabalho.
Segundo o consultor do IEDI, essa situação também é influenciada pela política da UE de defender cortes para reequilibrar o orçamento de países em crise, seguindo a lógica de que isso favoreceria o retorno do crescimento. “Se um corte leva ao declínio da atividade econômica, fica mais difícil obter o equilíbrio fiscal”, questiona.
“Qual país tem uma melhora no seu déficit fiscal capaz de beneficiá-lo de tal forma a tirá-lo da crise? A melhora fiscal não é um elemento que por si só promova a volta do crescimento do país.”
Neste cenário, os ministros da Zona do Euro chegaram a um acordo nesta sexta-feira para reforçar a barreira contra a crise a até 800 bilhões de euros, como pretendia a Alemanha. A ideia é unir os fundos já comprometidos do Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (FEEF), para os resgates de Grécia, Portugal e Irlanda, e os do Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEDE), definidos em 500 bilhões de euros.
A Comissão Europeia (CE) e alguns países, como a França, tinham um objetivo mais ambicioso. Pretendiam passar uma imagem de extrema solidez perante os mercados elevando o MEDE, o fundo permanente de resgate, que prevê entrar em vigor em julho, a 940 bilhões de euros.
Para isso propuseram acrescentar também os fundos não utilizados do FEEF, estimados em 240 bilhões de euros, como modo de reserva e em caso de extrema necessidade.
De acordo com Santos, o valor não seria suficiente para criar uma barreira efetiva, estimada pelo professor em 1 trilhão de euros. “Chegaram a este valor porque é o mínimo demandado pela Inglaterra e EUA para aceitar aumentar o volume de recursos do FMI.”
Por outro lado, Almeida acredita que o valor do fundo é suficiente, mas outra solução seria um arrojo maior com um programa de reestruturação de parte das dívidas nacionais por títulos de responsabilidade da União Europeia. “Essa medida seria complicada, pois haveria um comprometimento de países que hoje não estão na berlinda com a dívida de outros. Mas seria um bom início de entendimento para reduzir as dívidas impagáveis e melhora a situação dos que entram em situações críticas.”
O bloco, explica, deveria ter um programa mais flexível no campo fiscal e ter um programa de relançamento das economias da região. “Isso ajudaria esses países a se fortalecer fiscalmente, mas sem impulsionar a recessão.”