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domingo, 2 de fevereiro de 2014

Guerra interna entre rebeldes e milicianos da al-Qaeda se espalha para o Leste da Síria

Guerra interna entre rebeldes e milicianos da al-Qaeda se espalha para o Leste da Síria

O Globo - 06/01/2014
 
BEIRUTE - Ativistas sírios afirmaram nesta segunda-feira que os combates internos entre rebeldes e milícias ligadas à al-Qaeda se espalharam para uma cidade no Leste do país, após varrer áreas controladas pela oposição no Norte. Ambos os grupos lutam contra o regime do ditador Bashar al-Assad.
De acordo com informações do Observatório Sírio para os Direitos Humanos, os rebeldes entraram em confronto nesta segunda-feira contra milicianos do Estado Islâmico no Iraque e do Levante (Isis, na sigla em inglês), ligado à al-Qaeda, no município de Raqqa, um dos redutos do grupo terrorista.
A luta interna começou nas províncias do Norte de Aleppo e Idlib na sexta-feira e vem se espalhando desde então. O impulso para o Leste sugere que os rebeldes estão se preparando para invadir todas as áreas controladas pelo Isis.
Para conter o avanço do grupo extremista, rebeldes opositores a Assad formaram uma aliança, chamada Exército dos Combatentes para a Jihad.
Nas mais recentes demonstrações de expansão do extremismo islâmico liderado pela al-Qaeda, o Estado Islâmico do Iraque e do Levante assumiu o controle da cidade de Falluja, no Iraque, e cometeu um atentado que matou cinco pessoas - entre elas uma brasileira - em Beirute, no Líbano, na semana passada.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Acenos entre Irã e EUA

Acenos entre Irã e EUA

Rouhani pede que Obama não ceda à "pressão de míopes"
O Globo - 25/09/2013
 
Presidente do Irã defende acordo nuclear; e americano acena com diálogo

Nova YORK- Logo pela manhã, o presidente americano, Barack Obama, citou em seu pronunciamento de 40 minutos a "humildade" aprendida com as guerras de Iraque e Afeganistão para justificar a escolha pelas vias diplomáticas no Irã. E num dos discursos mais esperados desta Assembleia Geral da ONU, o novo chefe de Estado do Irã alimentou as expectativas de negociação. Mesmo tendo rejeitado a oferta da Casa Branca de um encontro com Obama, Hassan Rouhani fez sua estreia no púlpito das Nações Unidas com promessas de moderação, abertura e "cooperação responsável" para uma nova diplomada intemadonal — e para resolver o impasse nuclear.
Ele surpreendeu ao mencionar Obama nominalmente e disse esperar que o presidente americano não ceda às pressões contrárias para alavancar o diálogo entre os dois países. Essa referên-da parecia ser um recado velado a Israel, que promete manter sobre Obama o lobby para uma política severa quanto a Teerã.
— Eu ouvi atentamente o discurso do presidente Obama hoje na Assembleia Geral. Espero que eles se abstenham de seguir os interesses míopes de grupos de pressão belicista para que possamos chegar a um meio de gerir
nossas diferenças. Nós esperamos ouvir uma voz consistente de Washington — afirmou.
A delegação israelense fora instruída pelo premier Benjamin Netanyahu a boicotar a aparição do iraniano, Rouhani conclamou os países-membros da ONU a participarem de um esforço coletivo intitulado "Mundo contra a violência e o extremismo" Mas também não poupou críticas duras, embora elegantes, aos EUA.
— A ameaça iraniana serviu de desculpa para justificar crimes nas últimas três décadas: Armar Saddam Hussein com armas químicas e estabelecer a al-Qaeda no Afeganistão... — lembrou ele, garantindo que "o Irã não representa ameaça ao mundo ou à região"
DRIBLE NO ALMOÇO DE BAN
Como de costume em seu país, o presidente iraniano abriu o discurso com um pedido de clemência a Deus. Falou numa era de medo da guerra e esperança pela escolha do diálogo. E não poupou críticas ao unilateralismo dos EUA, criticando, mais uma vez, uma "mentalidade bipolar de Guerra Fria"
— Os esforços de redesenhar as fronteiras políticas são extremamente perigosos e provocativos. O centro do poder do mundo é hegemônico. Relegar o Sul à periferia provocou um monólogo nas relações internacionais — criticou Rouhani.
Conforme vinha anunciando nas últimas semanas, o presidente reafirmou estar pronto para negociar sobre o programa nuclear que, assegurou, tem fins pacíficos.
— É uma oportunidade única. A República Islâmica do Irã acredita que todos os desafios podem ser resolvidos com sucesso, inclusive a questão nuclear.
Mais cedo, Rouhani faltou ao almoço oferecido aos chefes de Estado pelo secretário-geral da ONU Ban Ki-moon. Seria essa a 1 maior chance de um encontro, ainda que casual, com Obama — seria o primeiro entre líderes americano e iraniano em 36 anos. Segundo a rede iraniana , Press TV a ausência se justificpelo fato de o anfitrião servir vi-! nho aos convidados — bebida alcoólica cujo consumo é proibido aos muçulmanos.
UMA NOVA DOUTRINA OBAMA
A polêmica sobre o cardápio não se confirmou. Mas, horas depois, fontes da Casa Branca revelaram ter feito uma oferta de encontro com Obama à dele- i gação do Irã. Os iranianos declinaram o convite, alegando que i "questões políticas internas" tornavam "complicado" tal encontro. Houve, porém, uma reunião do iraniano com o presidente francês, François HoÜande.
Por sua vez, o presidente americano também tentou usar a ONU para apresentar mudanças. Segundo ele, os EUA não vão mais agir sozinhos para buscar seus interesses vitais, mas estarão prontos para usar a forçai  incitar a comunidade intemacional a agir. Foi o que fez com a Síria e o que pretende fazer no Oriente Médio até o fim de seu govemo, garantiu Obama. 
Síria e Irã dominaram o discurso. Sobre o primeiro, o presidente disse ser um "insulto"! duvidar dos crimes de guerra cometidos pelo regime def Bashar al-Assad. E sobre o segundo, ressaltou ter ordenado  ao secretário de Estado John-Kerry buscar um acordo. 
— O caminho diplomático  deve ser testado — afirmou, antes de fazer a ressalva — As palavras conciliatórias terão; que estar em linha com ações! transparentes e verificáveis. 
Apesar de frustrarem quem apostava num aperto de mão,! Obama e Rouhani ainda podem, esperar avanços amanhã. É quando os chanceleres de EUA e Irã estarão frente a frente num primeiro encontro sobre as negociações nucleares com o grupo chamado P5+1, formado pelas cinco potências do Conselho de Segurança da ONU mais a Alemanha, sob o comando da chefe da diplomacia europeia, Catherine Ashton. 
"Temos uma oportunidade histórica de resolver a questão nuclear" escreveu no Twitter o chanceler do Irã, Javad Zarif.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Assad rompe silêncio e pede ‘guerra a traidores’

Assad rompe silêncio e pede ‘guerra a traidores’

O Estado de S. Paulo - 07/01/2013
 

Ditador volta à cena após 6 meses com promessa de esmagar "terroristas" aliados ao Ocidente e plano de diálogo com oposição "que não traiu a Síria"

O ditador da Síria, Bashar As­sad, rompeu ontem seis meses de silêncio com uma promes­sa de esmagar os "criminosos assassinos" e "aliados da Al-Qaeda" que estariam por trás da insurreição na Síria. Assad voltou a falar numa transição negociada com opositores "que não traíram a nação", a qual incluiria uma reforma constitucional e eleições - sem que ele deixe o poder.
Foi a primeira vez que o líder sírio falou publicamente desde junho, quando concedeu uma longa entrevista a uma rede de TV russa aliada ao Kremlin. Assad discursou no palco da Ópera de Damasco para uma platéia lo­tada de partidários que várias ve­zes o interrompiam com gritos em defesa do regime. Horas an­tes do pronunciamento, parte da internet saiu do ar na Síria.
"Estamos combatendo uma agressão externa que é mais peri­gosa do que qualquer outra, pois ela usa (sírios) para matarem uns aos outros", disse Assad, diante de um mural em que retra­tos de sírios formavam uma enor­me bandeira nacional. "Trata-se de uma guerra entre a nação e seus inimigos, entre o povo e as­sassinos criminosos."
O ditador propôs um novo pla­no de mudança na Constituição e eleições, mas recusou qual­quer negociação com grupos que pegaram em armas contra Damasco. "Não rejeitamos o diá­logo, mas com quem devemos conversar? Com os extremistas que não falam nenhuma língua a não ser a dos assassinatos e do terrorismo? Devemos terum diálogo oficial com um fantoche criado pelo Ocidente?".
Líderes da oposição síria imediatamente recusaram o plano proposto por Assad. "Essa inicia­tiva apresentada (pelo ditador, prevendo uma mudança na Constituição e eleições) é exce­lente e só falta um aspecto cru­cial: que ele renuncie", afirmou  Kamal Labwani, político secular veterano da dissidência de Damasco e integrante da Coalizão :Nacional Síria, grupo que reúne várias forças anti-Assad.
Isolado. O ditador sírio também afirmou que não receberá "ordens, mas apenas conselhos" de autoridades estrangeiras - uma indireta contra os esforços de mediação do emissário da ONU e da Liga Árabe, o argelino  Lakhdar Brahimi.
O discurso do ditador sírio ir­ritou países da região e do Oci­dente que apoiam a oposição sí­ria. Em encontro com o chance­ler do Brasil, Antonio Patriota, em Izmir, na Turquia, o minis­tro das Relações Exteriores de Ancara foi irônico: "Parece que (Assad) andou trancado em seu quarto e por meses ficou lendo relatórios de inteligência entregues por quem quer lhe ba­jular".
Até o início da insurreição na Síria, em março de 2011, a Tur­quia era um dos países mais pró­ximos do regime Assad. Quan­do Damasco respondeu aos pro­testos por maiores liberdades com uma violenta repressão, o governo turco rompeu rela­ções. Hoje, centenas de milha­res de refugiados sírios vivem na Turquia.
Para o Departamento de Esta­do dos EUA, Assad "tentou mais uma vez se agarrar ao poder" com o discurso.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Ban Ki-moon pede que Conselho de Direitos Humanos da ONU classifique atos na Síria como crimes de guerra

Ban Ki-moon pede que Conselho de Direitos Humanos da ONU classifique atos na Síria como crimes de guerra

10/09/2012 
 
Renata Giraldi*
Repórter da Agência Brasil

O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon, pediu hoje (10) que o Conselho de Direitos Humanos defina como “crimes de guerra” os episódios de mortes de civis na Síria. Ban Ki-moon disse que tanto a oposição como o governo do presidente sírio, Bashar Al Assad, cometeram crimes e devem responder por isso na Justiça. Organizações não governamentais (ONGs) estimam que mais de 25 mil pessoas morreram desde março de 2011.
“Nós devemos garantir que todas as pessoas, dos dois lados, que cometeram crimes de guerra, crimes contra a humanidade e violações internacionais dos direitos humanos ou do direito humanitário sejam levadas à Justiça”, disse o secretário-geral, na presença dos 47 integrantes do conselho, em Genebra, na Suíça.
“[Estou] profundamente perturbado com os bombardeios aéreos contra civis feitos pelas forças do governo [sírio] e também pelo aumento das tensões e a deterioração da situação humanitária.” Segundo ele, oposição e governo escolheram a “força” como método no lugar do “diálogo”.
No último relatório, publicado em 15 de agosto, a comissão de investigação internacional enviada pela ONU à Síria denunciou os “crimes de guerra” no país, acusando o governo Assad e as Forças Armadas. A comissão revelou também a preparação de uma lista
confidencial de responsáveis, sendo esta a primeira etapa para eventuais processos internacionais.
Até quarta-feira, o Conselho de Direitos Humanos da ONU examina o relatório. No dia 17, é esperado o anúncio de uma decisão. A missão é chefiada pelo brasileiro Paulo Sérgio Pinheiro.
O mandato da comissão acaba nesta sessão do conselho, mas os integrantes do órgão vão discutir nos próximos dias uma resolução sobre a Síria que poderia prolongar as atividades dos especialistas.
Por seu lado, a alta-comissária da ONU para os Direitos Humanos, Navi Pillay, denunciou hoje os crimes de guerra e os crimes contra a humanidade na Síria, e pediu “uma investigação imediata” sobre o massacre de Daraya, onde mais de 500 corpos foram descobertos.
“Eu estou profundamente chocada com os relatórios sobre o massacre de Daraya e peço uma investigação imediata e aprofundada sobre este incidente e peço ao governo [sírio] que assegure o acesso completo sem entraves à comissão de investigação independente da ONU”, disse Pillay.

*Com informações da agência pública de notícias de Portugal, Lusa 

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Sïria: A nova Líbia?

A nova Líbia?

Publicado em Carta Capital

Gianni Carta

Sírios vs. sírios. O presidente Al-Assad pode ter deixado o país. E em Alepo, seguem os conflitos. Foto: Bulent Kilic/AFP

O futuro de Bashar Al-Assad passou para o segundo plano em um cenário mundial no qual se delineiam possíveis conflitos entre defensores e detratores estrangeiros da Síria. A guerra civil a ser decidida na batalha entre as forças regulares e o Exército Sírio Livre (ESL), em Alepo, no noroeste do país, terá repercussões no Oriente Médio e em capitais ocidentais, diz o professor Michael Clarke, diretor-geral do Royal United Services Institute (Rusi). No relatório do Rusi, intitulado A Collision Course for Intervention, Clarke não descarta uma intervenção externa limitada na Síria.
“Na verdade, essa guerra nunca deixou de ser um entrevero entre a Arábia Saudita e o Iraque”, argumenta Malek Chebel, filósofo e antropólogo especializado em Islã. Segundo Chebel, autor, entre dezenas de livros, de Manifeste pour un Islam des Lumières, de um lado estão os iranianos no apoio ao grupo xiita Hezbollah (considerada uma organização terrorista pelos EUA), com sede no Líbano, e xiitas e alauítas na Síria e na liderança do Iraque. Do outro estão os sauditas, aliados da maioria sunita na Síria e no Líbano, bem como da minoria sunita no Iraque.
No tablado internacional, os sauditas e os países conservadores do Golfo Pérsico fornecem armas para a oposição síria. A Turquia também auxilia a oposição e colabora (a exemplo da Arábia Saudita) com os EUA. Chebel, aliás, não descarta a possibilidade de a recente derrubada de um caça turco que teria violado o espaço aéreo sírio não ter sido uma tática para motivar uma invasão estrangeira por parte de Washington.


Israel, como os EUA, gostaria de assistir à queda de Assad. O motivo? “O elo entre o Hezbollah e Teerã seria rompido”, responde Hesam Houryaband, analista independente de relações internacionais. Os serviços de inteligência israelenses culpam o Hezbollah e o Irã pelo atentado suicida na Bulgária que provocou a morte de cinco cidadãos de Israel.
Além disso, Tel-Aviv teme uma transferência de armas químicas da Síria para o Hezbollah. Em entrevista à ultradireitista Fox News, o premier israelense, Benjamin Netanyahu, afirmou: “Certamente, não queremos estar expostos a armas químicas nas mãos do Hezbollah, seria algo como a Al-Qaeda ter essas armas”. Se isso acontecer, acrescentou Netanyahu, “teremos de agir”.
Neste momento crítico no qual naufragou a coalizão do governo de Bibi, como é conhecido o premier, e, por tabela, às vésperas de novas eleições legislativas, Tel-Aviv não descarta um ataque ao Irã. “Na verdade, a grande obsessão de Israel, Estados Unidos e um punhado de países europeus é Mahmoud Ahmadinejad. A queda de Assad seria uma maneira de neutralizar o Irã”, afirma Houryaband.
Israel, é preciso frisar, pode perder com a queda de Assad. Isso aconteceria se uma legenda sunita integrista chegasse ao poder. A oposição sunita ao poder do existente clã de aluítas xiitas, religião professada por 10% da população, é um saco de gatos. Vários deles integram formações fundamentalistas. A Irmandade Muçulmana, por exemplo, uniu-se aos rebeldes sírios. A Al-Qaeda, também. Observa Houryaband: “É irônico, mas as armas químicas poderiam cair nas mãos da Al-Qaeda, como sugeriu, sem crer na possibilidade, Netanyahu”. O grupo fundamentalista poderia atacar não somente Israel, mas o Iraque, Afeganistão e até a Europa, projeta o analista.

Uma intervenção externo limitada não está descartada, apesar da resistência de Rússia e China. Foto: Bulent Kilic/AFP

Os israelenses temem um novo regime na Síria semelhante ao que chegou ao poder no Egito com a vitória eleitoral de Mohamed Morsi, da Irmandade Muçulmana. Recentemente, Morsi foi à Faixa de Gaza para encontrar a liderança do Hamas, legenda com braço armado e também considerada terrorista pelos EUA. E o Egito liberou o ingresso de palestinos, fato inédito desde 2007, quando o Hamas venceu as eleições em Gaza e as fronteiras com Israel e o Egito, então presidido por Hosni Mubarak, foram bloqueadas. Estaria Morsi se afastando de Israel?
Além do Irã, dois países defendem a Síria: Rússia e China, membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Portanto, uma resolução para invadir a Síria seria vetada por ambos. “Os russos e os chineses não querem deixar a Síria para o Ocidente porque perderiam credibilidade”, analisa Chebel. Para eles, seria a perda de uma esfera de influência.
A Rússia fala, de fato, em uma nova Guerra Fria. O chanceler russo, Serguei Lavrov, por exemplo, denunciou na quarta-feira 25 a falta de condenação, por parte dos Estados Unidos, do atentado à bomba, em 18 de julho, que matou três aliados do alto escalão de Assad. “Trata-se de uma autorização direta ao terrorismo”, disparou Lavrov. Emendou o chanceler: “Em outros termos, isso significa que os Estados Unidos continuarão a apoiar tais atos terroristas, enquanto o Conselho de Segurança não fizer o que eles querem”.
Lavrov denunciou ainda as novas sanções da União Europeia contra o regime sírio. Na segunda-feira 23, a UE acrescentou 26 pessoas e três novas entidades à lista negra do bloco e fortaleceu o embargo sobre as armas mediante controles reforçados.
O efeito dominó iniciado na Tunísia e a subsequente Primavera Árabe atingiram a Síria 17 meses atrás. Num primeiro momento, o conflito era parecido com aqueles do Magreb. A oposição síria reivindicava melhores condições de vida e mais liberdade. Pouco a pouco, os manifestantes se transformaram em grupos de guerrilheiros e recentemente os embates finalmente receberam a definição de guerra civil pelo Comitê Internacional da Cruz Vermelha. Ocorre que agora a Síria atravessa uma guerra entre religiões e etnias.

Comando. General Tlass, do exército sírio, não desiste. Foto: AFP

Ao contrário do Magreb, onde os países são relativamente livres uns dos outros, o Levante é uma região na qual as políticas de países como a Síria e o Líbano não podem ser dissociadas. Um dos temores é que o Líbano seja um dos primeiros países a sofrer as repercussões da guerra síria. No início do ano, 20 pessoas perderam a vida em Trípoli num confronto entre a minoria xiita alauíta, religião de Assad, e a maioria sunita.
Essas rivalidades sectárias e étnicas sempre existiram. Damasco localiza-se no epicentro do Levante, como era conhecida essa região do Oriente Médio nos tempos do Império Otomano, e englobava vários países: Líbano, Israel, territórios palestinos, Jordânia e Iraque.  Religião e etnia sempre foram um problema sério e as guerras jamais escassearam. Mas, como defende Pascal Boniface, um especialista francês em Oriente Médio, a questão central na região sempre foi a luta entre os territórios palestinos e Israel. Na Síria, etnias e religiões pareciam ser menos importantes do que na Palestina, em Israel ou na Arábia Saudita.
A partir da revolução de 1979 no Irã, o quadro mudou. O governo de Hafez al-Assad, pai do atual presidente, aliou-se ao líder supremo do Irã, o aiatolá Khomeini. Uma união no mínimo estranha: um árabe laico e socialista com um persa e líder islamita. Eles tinham, entretanto, um inimigo comum, Saddam Hussein. Ambos os países concordaram em monitorar os passos de Israel e dos EUA (embora a Síria tenha ajudado os norte-americanos na luta contra Saddam). Mais: os dois países passaram a apoiar os grupos Hezbollah, Hamas e Jihad Islâmica.
Clarke, o diretor-geral do Rusi, parece acreditar no fim dessa triangulação entre xiitas na região – e no futuro domínio de sunitas. E visto que a derrota (e mesmo a improvável vitória) de Assad terá repercussões internacionais, países estrangeiros consideram a possibilidade de uma intervenção limitada. Fundamental, por exemplo, é encontrar e se desfazer das armas químicas. Igualmente importante é controlar os fluxos de refugiados e campos potencialmente radicais no Líbano, Turquia, Jordânia, Gaza e Iraque.
Assad, segundo Clarke, já pode ter deixado o país com sua família, mas a estratégia do exército regular prevalecia na quinta-feira 26. Os estrangeiros (ocidentais) poderiam organizar operações clandestinas, colocar assessores e dar apoio militar ao ESL, encorajar um golpe de Estado. “De fato, em alguns aspectos importantes, a intervenção ocidental começou”, escreve o especialista.
Chebel acrescenta: “As grandes potências ocidentais não são nada humanistas, são cínicas”. Sobre se os EUA estariam interessados em fazer brotar democracias no mundo árabe, avalia: “Assim como Muammar Kaddafi, Assad deveria ser varrido do poder rapidamente. É uma questão moral. Mas são os sírios que têm de fazer isso. A razão? Por anos e anos esses ocidentais eram íntimos de Assad”.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

União Europeia aprova mais sanções à Síria e discute agravamento da crise na Ucrânia

União Europeia aprova mais sanções à Síria e discute agravamento da crise na Ucrânia

14/05/2012 
 
Renata Giraldi*
Repórter da Agência Brasil

A União Europeia (UE) aprovou hoje (14) mais um pacote de sanções ao governo do presidente da Síria, Bashar Al Assad. Pelas sanções, diversas pessoas ligadas a Assad estão proibidas de renovar o visto de entrada nos 27 países que integram o bloco europeu. Os nomes serão publicados no Boletim Oficial (espécie de Diário Oficial) da União Europeia.
Há 14 meses, uma série de ações violentas atingiu a Síria, pois manifestantes pressionam pela saída de Assad, que resiste em deixar o governo. Os embates entre forças do governo e opositores são diários. Organizações não governamentais e jornalistas são impedidos de entrar no país. Um grupo de observadores das Nações Unidas está na Síria para implementar o cessar-fogo.
Também foi definido congelamento de bens de duas empresas e de três pessoas consideradas agentes financiadores do governo Assad. Atualmente, 126 pessoas e 41 empresas são alvos de sanções europeias. As medidas afetam o Banco Central da Síria e o comércio de metais preciosos.
Na última reunião da União Europeia, em abril, foram proibidas as exportações de produtos de luxo para a Síria, uma medida essencialmente simbólica que visava ao casal Assad.
Os ministros das Relações Exteriores, da UE, reunidos hoje em Bruxelas discutem ainda a questão de direitos humanos na Ucrânia e o fim da ocupação no Afeganistão. A menos de um mês do início do campeonato da Europa de futebol, cujos jogos ocorrerão na Ucrânia (co-organizadora do evento com a Polônia), há o temor de que as divergências entre as autoridades europeias e ucranianas reflitam nas competições.
A União Europeia tem alertado sobre o funcionamento da democracia e da Justiça na Ucrânia, além de demonstrar preocupação sobre a ex-primeira-ministra ucraniana Iulia Timochenko – condenada a sete anos de prisão em um processo em que é acusada de desvio de dinheiro público. Ela alega sofrer maus-tratos de autoridades do governo.
Em relação ao Afeganistão, o tema será tratado na Cúpula da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), nos dias 20 e 21, em Chicago (Estados Unidos). Os ministros pretendem discutir também a assistência que a União Europeia prestará no Afeganistão a partir de 2014, após a retirada das tropas e transferência da segurança para as forças afegãs.

*Com informações da agência pública de notícias de Portugal, Lusa.
Edição: Talita Cavalcante

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Exigência síria inviabiliza plano de paz

Exigência síria inviabiliza plano de paz

Autor(es): JAMIL CHADE
O Estado de S. Paulo - 09/04/2012
 

Às vésperas da data estabelecida para o início do cessar-fogo na Síria, Bashar Assad praticamente enterrou o plano de paz feito pelo enviado da ONU, Kofi Annan. Ontem, Damasco fez exigências de última hora e disse que só retira seus tanques de zonas urbanas se receber o compromisso por escrito da oposição de que também respeitará o pacto - os rebeldes rejeitaram e já dão como certo o fracasso do plano.
Annan tinha dado até amanhã para que o governo sírio e rebeldes começassem uma retirada de armas pesadas de centros urbanos. No dia 12, às 6 horas de Damasco, um cessar-fogo completo teria de entrar em vigor para permitir que o diálogo político fosse iniciado. Uma missão de 250 soldados de uma força internacional seria enviada para garantir o cessar-fogo enquanto uma solução política fosse negociada.
Segundo Annan, Assad havia concordado com o plano por meio de uma carta. Ontem, porém, Damasco alegou que sua posição foi mal interpretada e sugeriu que, pelas condições atuais, não respeitará o cessar-fogo. O ditador sírio apresentou novas exigências, incluindo um compromisso de que governos estrangeiros não financiarão os rebeldes.
"Annan interpretou que a Síria havia confirmado que retiraria suas tropas das cidades no dia10 de abril. Mas esclarecemos que tal interpretação é errônea, sobretudo porque Annan não deu garantia escrita sobre a aceitação dos grupos terroristas armados de deter a violência em todas suas formas. Dizer que a Síria vai retirar suas forças das cidades em 10 de abril é inexato", indicou a chancelaria síria em comunicado.
Fracasso. A declaração foi recebida como um alerta de que o regime pode simplesmente não cumprir o acordo fechado com Annan no final de março. "A Síria não vai repetir o que ocorreu durante a missão da Liga Árabe, quando se comprometeu a retirar as tropas das cidades e, então, os grupos terroristas armados se aproveitaram para armar seus membros, fazer todas as formas de terrorismo, reorganizar-se e controlar bairros inteiros, ampliando assassinatos e sequestros", afirmou o porta-voz da chancelaria, Jihad Maqdisi.
No fim do ano passado, a Liga Árabe havia deslocado uma missão de observadores internacionais para a Síria na esperança de que um outro acordo fosse respeitado, o que acabou não ocorrendo.
Para o Conselho Nacional Sírio, que reúne boa parte dos opositores e recentemente foi reconhecido pelos EUA como legítimo representante dos sírios, as exigências de última hora são uma tática de Assad para rejeitar o plano de paz. Em declarações às agências internacionais na Turquia, o comandante da oposição armada, Riad Asaad, negou-se a enviar uma carta e alertou que o plano de Annan estava praticamente morto. "O regime não irá implementar o plano. Esse plano fracassará", disse.
Outras exigências. Asaad garantiu que seus homens respeitarão o acordo feito por Annan, mas que irão responder ao primeiro tiro dado pelas forças do regime. "O Exército não reconhece o regime e, por isso, não daremos garantias", afirmou o líder rebelde. "Ninguém nos pediu nada por escrito durante as negociações. Ninguém discutiu conosco a entrega de armas. Nunca iremos entregar nossas armas", insistiu. "Nós demos nossa palavra de que, se o regime se comprometer com o plano, nós também o faremos. Nós somos honestos."
As exigências de Damasco não se limitam ao compromisso por escrito por parte dos rebeldes. Assad quer que os governos de Catar, Turquia e Arábia Saudita declarem oficialmente que suspenderão o financiamento que estariam dando aos rebeldes.
Os três países anunciaram recentemente a criação de um fundo para alimentar o conflito, enquanto o governo turco já sugeriu o estabelecimento de uma área de proteção para os rebeldes sírios.
Ajuda russa. Uma última esperança pode estar nas mãos da Rússia, um dos poucos aliados de Damasco. Hoje, o chanceler sírio, Walid Moallen, estará em Moscou. Ontem, Annan fez em Genebra um apelo para que as potências mundiais que tenham influência sobre as partes usem o momento para convencê-las a aderir ao acordo de cessar-fogo. O Kremlin tem declarado seu apoio a Annan. No entanto, Moscou não deu ontem garantias de que usaria o encontro de hoje para fazer o regime de Assad abandonar suas mais recentes exigências.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Conflitos na Síria chegam a Damasco, capital do país

Conflitos na Síria chegam a Damasco, capital do país

19/03/2012 
Renata Giraldi*
Repórter da Agência Brasil

Os conflitos na Síria se intensificaram hoje (19) na região de Damasco, capital do país. Integrantes das forças de segurança sírias e grupos armados se envolveram em confrontos durante a madrugada. Porém, ainda há registros de vítimas.
Os conflitos em Damasco preocupam as autoridades estrangeiras, pois até então os confrontos se concentravam na região de Homs – considerada cidade de domínio da oposição. A estimativa é que mais de 8,5 mil pessoas morreram em um ano de tensão na Síria.
Um morador do bairro de Mazzeh, na capital síria, disse que os confrontos duraram cerca de duas horas. Segundo um ativista, os conflitos ocorreram em frente ao edifício da administração central de Damasco.

Manifestações contra o governo do presidente da Síria, Bashar Al Assad, ocorrem desde o ano passado. Os manifestantes cobram do governo mais liberdade política e de expressão, além do fim das violações aos direitos humanos.
A comunidade internacional fixou uma série de sanções ao governo Assad, impondo restrições econômicas e financeiras. Porém, o governo Assad indicou que não está disposto a negociar com a oposição por considerá-la terrorista.

sexta-feira, 2 de março de 2012

ONU quer que comunidade internacional assuma responsabilidades e reaja à violência na Síria

ONU quer que comunidade internacional assuma responsabilidades e reaja à violência na Síria

02/03/2012 


Renata Giraldi*

Repórter da Agência Brasil

A alto comissária da Organização das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Navi Pillay, cobrou hoje (2) da comunidade internacional “responsabilidade urgente” em relação à onda de violência na Síria. Segundo ela, é preciso reagir para evitar mais mortes no país. A estimativa é que mais de 7.500 pessoas tenham morrido em cerca de 11 meses de confrontos na região. Há ainda violações de direitos humanos, como agressões sexuais e torturas.
"[O ano de 2011] foi crítico para os direitos humanos, com muitos problemas nessa área", disse Pillay. O porta-voz do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Rupert Colville, acrescentou que está alarmado com os relatos que começam a sair do bairro Baba Amro, em Homs, depois de ter sido tomado pelas forças do governo.
A expectativa é que ainda hoje o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) consiga entrar em Homs, na Síria, para ajudar as vítimas dos confrontos entre os agentes de segurança do governo e os críticos do presidente Bashar Al Assad. A cidade de Homs é considerada reduto dos rebeldes.
Ontem (1º), o governo Assad autorizou a ajuda humanitária, depois de a Organização das Nações Unidas (ONU) aprovar resolução recomendando a medida. Uma das propostas, segundo o  porta-voz da Cruz Vermelha na região, Hicham Hassan, é uma trégua humanitári, que seria de duas horas por dia.

*Com informações da agência pública de notícias do México, Notimex//Edição: Graça Adjuto

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Crise na Síria faz Brasil vender US$ 181 milhões a menos ao país

Crise na Síria faz Brasil vender US$ 181 milhões a menos ao país

Renata Giraldi* - Repórter da Agência Brasil

Os negócios entre o Brasil e a Síria apresentaram queda desde o ano passado, após o início dos protestos contra o governo do presidente Bashar Al Assad, que geraram uma crise interna e uma onda de violência na região. Aliadas às circunstâncias políticas e sociais, as sanções econômicas à Síria, impostas pelos países ocidentais, afetaram o crédito bancário, enfraquecendo a economia e as relações comerciais com o exterior.

O Ministério das Relações Exteriores informou que em função da situação atípica na Síria tem ocorrido uma contração econômica geral no país, gerando impactos no comércio exterior com todas as regiões do mundo. De acordo com a diplomacia brasileira, a situação econômica do país levou à redução na exportação de produtos brasileiros.

Em 2010, o Brasil exportou US$ 547 milhões para a Síria, enquanto que em 2011 as exportações totalizaram US$ 366 milhões. Entre os produtos que ocupam o topo da pauta de exportações estão o café, a soja e o açúcar.

As importações brasileiras atingiram US$ 47 milhões em 2010 e US$ 45 milhões em 2011. O fluxo comercial Brasil-Síria saiu do patamar de US$ 500 milhões em 2010 para US$ 322 milhões em 2011.

O presidente da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira, Michel Alaby,  disse que as exportações brasileiras ao país árabe foram afetadas pela dimimuição da demanda entre os empresários sírios, receosos com as sanções ocidentais, os conflitos armados e a violência. "Não temos tido tanto contato com empresários sírios. Acredito que deve haver dificuldade de negociar diretamente com a Síria no momento", disse ele.

Segundo Alaby, mesmo com a violência e a crise na Síria, os produtos brasileiros encontram meios de entrar no país de forma indireta. "Por experiência, algumas empresas brasileiras têm vendido ao Líbano, e de lá, as mercadorias seguem para a Síria. Dá para dizer que há brechas e os sírios se valem disso para negociar".

Para ele, apesar da queda nas exportações, o Brasil ainda mantém um padrão de negócios já que a maioria dos produtos vendidos pelos brasileiros é formada de matérias-primas ou commodities, como o açúcar, café, a soja e o milho.

Alaby acrescentou ainda que a demanda por esses produtos continua em alta, mas com a escassez de crédito bancário e com o bloqueio imposto com as sanções pelos Estados Unidos e países europeus, algumas empresas sírias usam bancos chineses, russos ou libaneses para operar financeiramente suas vendas.

Em relação ao Brasil, o presidente da Câmara de Comércio disse que o ambiente para negócios também mudou consideravelmente por conta das sanções. O Brasil vem mudando o tom contra o governo sírio, manifestando o desejo de que o regime ponha um fim à violência e à repressão no país. "Não acredito que a Síria tenha fechado voluntariamente seu mercado ao Brasil em termos de comércio bilateral".

A violência na Síria, segundo cálculos da Organziação das Nações Unidas (ONU), superou  7,3 mil mortos. O governo sírio restringe o acesso de jornalistas estrangeiros ao país, dificultando a confirmação de dados de forma independente.

*Com informações da BBC Brasil//Edição: Graça Adjuto

Fonte: EBC  

 
 

Publicado em: 27/02/2012