quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Joaquim Barbosa afirma que Lula tem de ser investigado

Joaquim Barbosa afirma que Lula tem de ser investigado

Presidente do STF diz que Lula tem de ser investigado
Autor(es): Felipe Recondo,Mariãngela Gallucci
O Estado de S. Paulo - 12/12/2012
 

O presidente do STF, Joaquim Barbosa, defendeu que o ex-presidente Lula seja investigado pelo Ministério Público, após as denúncias de Marcos Valério. Barbosa disse que teve acesso ao depoimento: "Tomei conhecimento oficioso, não oficial". Segundo integrantes da Corte, Barbosa e o procurador-geral Roberto Gurgel não quiseram misturar as novas declarações com o processo do mensalão. Gurgel disse que aguardará o fim do julgamento.

O presidente do Supremo Tri­bunal Federal e relator do men­salão, Joaquim Barbosa, defen­deu ontem que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva seja in­vestigado pelo Ministério Pú­blico. Barbosa confirmou que teve acesso às 13 páginas do de­poimento prestado por Mar­cos Valério em setembro à Procuradoria-Geral da República.
No depoimento, cujo conteú­do foi revelado ontem pelo Esta­do, Valério acusou Lula de rece­ber recursos do esquema para pa­gar despesas pessoais e de ter da­do o "ok" para a tomada de em­préstimos bancários fraudulen­tos que constituíram a fachada fi­nanceira que bancou o mensalão (mais informações no quadro ao la­do). A oitiva ocorreu em 24 de se­tembro, em Brasília, dias depois de o empresário mineiro ter sido condenado como o operador do mensalão, esquema de pagamen­to de parlamentares que, segun­do o Supremo, serviu para com­prar apoio político no Congresso entre 2003 e 2005, no primeiro mandato de Lula no Planalto.
Na ocasião, o empresário minei­ro, além de fazer novas revela­ções, afirmou que ainda tinha mais a falar. Queria, em troca, pro­teção e redução da sua pena - ele viria a ser condenado a mais de 40 anos pelo Supremo por sua parti­cipação no mensalão; Valério res­ponde ainda a outros processos, como o do mensalão mineiro, no qual políticos são acusados de des­viar dinheiro público do governo de Minas a fim de abastecer, em 1998, a campanha à reeleição do então governador tucano Eduar­do Azeredo, ex-presidente do PSDB e hoje deputado federal.
Barbosa afirmou que conhe­cia o depoimento de Valério. "Tomei conhecimento oficioso, não oficial", disse. O ministro preferiu não fazer juízo de valor sobre a gravidade das denúncias feitas por Valério, mas disse que o Ministério Público deve abrir uma investigação sobre os fatos. Ao ser perguntado se o ex-presi­dente deveria ser investigado, afirmou: "Creio que sim"
Dias depois de Valério prestar o novo depoimento, a íntegra foi re­metida para o Supremo. Mas Bar­bosa, relator do processo, devol­veu o depoimento para o Ministé­rio Público. De acordo com inte­grantes da Corte, Barbosa e o pro­curador-geral da República, Ro­berto Gurgel, não quiseram mistu­rar as novas declarações com o jul­gamento da ação penal do mensa­lão. Por isso, o depoimento não foi anexado ao processo.
Os ministros Gilmar Mendes e Marco Aurélio Mello também de­fenderam uma nova investiga­ção sobre as declarações do em­presário. "Isso aí, se procedente, é muito grave", disse Marco Auré­lio sobre a afirmação de Valério de que dinheiro do mensalão pa­gou despesas pessoais de Lula.
Ambos disseram que even­tuais suspeitas contra o ex-presi­dente não podem ser incluídas no processo que está em fase fi­nal de julgamento pelo STF. Mas as investigações poderiam trami­tar perante a Justiça Federal em um inquérito autônomo ou ain­da poderiam ser incluídas em ou­tros procedimentos já em anda­mento no Judiciário. "Sabemos que o que está aqui (no STF) é um porcentual muito pouco sig­nificativo do que se fez", afir­mou Mendes. Para o ministro, um eventual inquérito para apu­rar suspeitas contra Lula não tra­mitará no STF. "Ele não detém prerrogativa de foro", disse.
Segundo os ministros, o depoi­mento de Valério não afeta o pro­cesso em julgamento no Supre­mo, mas pode influenciar os pro­cedimentos abertos na Justiça Fe­deral, como o que apura suspeitas de irregularidades em emprésti­mos concedidos pelo BMG.
Para os ministros, o fato de Va­lério ter dado a declaração lan­çando suspeitas sobre Lula não garante ao empresário o benefí­cio da delação premiada no julga­mento do mensalão. "Se tivesse feito isso lá no início, quando o inquérito estava tramitando, aí ele poderia ser tido como dela­tor", disse Marco Aurélio. Consi­derado o operador do esquema, Valério foi condenado pelo STF a mais de 40 anos de prisão.
CAMINHO DA ACUSAÇÃO
O Ministério Público pode...
Arquivar o depoimento por en­tender não haver elementos para abrir qualquer investigação
Abrir procedimento interno para fazer uma investigação pré­via sobre as acusações
Depois se houver indícios...
Pedir a abertura de um inquéri­to no Supremo nos casos dos citados com foro privilegiado, como é o caso do senador Hum­berto Costa (PT-PE)
Instaurar inquérito em instân­cias inferiores do Ministério Públi­co para investigar os citados sem foto privilegiado, como é o caso do ex-presidente Lula
Depois, se houver provas...
Denunciar os envolvidos à Justiça a fim de que as acusa­ções sejam julgadas

Atualidades Financeiras: Juros voltaram a subir no crédito

Sinais trocados: Juros voltaram a subir no crédito

O soluço dos juros
Autor(es): João Sorima Neto
O Globo - 12/12/2012
 
Às vésperas do Natal, taxa ao consumidor volta a subir. Na média, chega a 5,63% ao mês
SÃO PAULO e RIO Num movimento inesperado para o mercado, as taxas de juros em operações de crédito ao consumidor interromperam em novembro uma sequência de quatro quedas consecutivas e inverteram o sinal. Pesquisa feita pela Associação Nacional dos Executivos de Finanças (Anefac) mostrou que, em seis linhas de crédito pesquisadas, somente o juro no rotativo do cartão de crédito manteve-se inalterado. Na média, a taxa de juro para pessoa física subiu de 5,50% ao mês em outubro para 5,63% em novembro. No ano, a taxa média ficou em 92,95%, a maior desde setembro de 2012.
O levantamento mostrou que os juros do comércio subiram de 4,10%, em outubro, para 4,30% em novembro. No cheque especial, a taxa passou de 7,75% para 7,92%. O juro do empréstimo para financiamento de automóveis subiu de 1,49% para 1,64%. Nos empréstimos pessoais em bancos, a taxa passou de 3,02% para 3,14% e nos empréstimos pessoais em financeiras saltou de 7,24% para 7,42%. No cartão de crédito, a taxa de juro se manteve inalterada em 9,37%.
Temor de aumento da inadimplência
O soluço dos juros pegou de surpresa tanto os consumidores que tomaram dinheiro emprestado no mês passado quanto os especialistas que vinham acompanhando a queda das taxas desde meados de abril. Entre as explicações para essa subida inesperada do juro, está o temor do aumento da inadimplência, que atualmente está em 7,9% para pessoa física.
- Existe o fantasma gerado em 2009 com a inadimplência dos financiamentos de veículos. Desde aquele ano, os bancos reformularam a maneira de conceder o crédito ficando mais restritivos. Agora, já com esse novo método, eles veem uma economia fraca, que continuará sofrendo nos próximos anos. Os bancos, portanto, estão prevendo esse risco. Na prática, o bom pagador arca com os calotes - explicou Willian Eid Júnior, professor de Finanças da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FGV-SP).
O coordenador da pesquisa da Anefac, Miguel Ribeiro de Oliveira, concorda que a expectativa de aumento da inadimplência tenha desencadeado essa subida do juro. Tecnicamente, diz ele, não existe explicação para a alta do juro. Na última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), a taxa básica de juro (a Selic) não foi alterada e se manteve em 7,25% ao ano, assim como não houve redução da oferta de crédito.
- Ficamos surpresos com a alta, mas nossa expectativa é que o movimento de queda do juro do crédito seja retomado em dezembro, com maior concorrência entre os bancos e redução da inadimplência com a retomada do crescimento da economia - diz Oliveira.
Luis Miguel Santacreu, analista de bancos da Austin Rating, avalia que o aumento do juro não é expressivo. Santacreu acredita que a alta pode ser explicada por uma questão metodológica da pesquisa, que usa médias ponderadas do juro cobrado por 30 bancos para fazer o cálculo. Segundo ele, como os bancos privados, que emprestam a juros mais altos que os públicos, concederam mais financiamentos em novembro, a tendência é a média do juro subir.
- Se de fato esta for a explicação para a alta da taxa, o aumento mostra uma disposição maior das instituições privadas em emprestar como quer o governo - avalia.
Outra explicação para a elevação do juro ao consumidor pode ser atribuída ao aumento do custo de captação dos bancos. As taxas de juro de longo prazo foram mais altas no mês passado, segundo explica o economista Antonio Madeira, da LCA Consultores.
- O aumento do custo de captação ocorreu por uma pressão no mercado câmbio, com reflexo na inflação e nas taxas de juro futuras. Nesse cenário, os bancos pagaram mais para captar e repassaram aos clientes - diz Madeira, que prevê a retomada do movimento de queda das taxas em dezembro.
A alta de juros na véspera do Natal pode prejudicar consumidores como Rosilene de Oliveira, que pretende comprar uma cama nova.
- Vou usar meu dinheiro do décimo terceiro para acertar as contas. Com isso, vou poder voltar a comprar e quero uma cama nova dividida em dez vezes. Depois que passar o período de festas de fim de ano, aí quero comprar uma TV de LED de 42 polegadas - diz Rosilene.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Morsi dá poderes policiais ao Exército até o referendo sobre a Constituição

Morsi dá poderes policiais ao Exército até o referendo sobre a Constituição

Publicado em Carta Capital

O presidente egípcio, Mohamed Morsi, concedeu nesta segunda-feira poderes policiais ao Exército até o anúncio do resultado de um referendo, previsto para sábado, sobre o projeto de nova Constituição, um texto polêmico que divide o país.
“As Forças Armadas apoiam os serviços de polícia em total cooperação para manter a segurança e proteger as instalações vitais do Estado por um período temporário, até o anúncio do resultado do referendo sobre a Constituição”, afirma um decreto publicado nesta segunda-feira no Diário Oficial.
Soldados egípcios fazem uma barreira contra manifestantes no palácio presidencial, no Cairo, em 9 de dezembro. Foto: Gianluigi Guercia/AFP
O decreto, publicado no Diário Oficial com o nome de “Lei 107″, é uma consequência dos confrontos e das grandes manifestações dos últimos dias no Cairo entre partidários e opositores de Morsi, muitos deles da Irmandade Muçulmana, a organização a qual pertence o presidente.
O Exército, que comandou o Egito da queda de Hosni Mubarak, em fevereiro de 2011, até as eleições presidenciais de junho, quer permanecer neutro na crise das últimas semanas e fez um pedido de diálogo a todas as partes.
As autoridades militares afirmaram na semana passada que “não tolerariam” a degradação da situação.
Desde quinta-feira da semana passada, os tanques e as forças militares estão mobilizadas nas proximidades do palácio presidencial no Cairo, mas até o momento não executaram nenhuma ação contra os milhares de manifestantes na área.
A oposição, formada majoritariamente por grupos seculares, liberais e de esquerda, considera que o projeto da nova Constituição não garante liberdades fundamentais como a liberdade religiosa ou os direitos das mulheres e reduz a independência do Poder Judiciário.
Apesar dos protestos, Morsi decidiu seguir adiante com o referendo, que, segundo o presidente, é a garantia para prosseguir com a transição política após os 30 anos de regime autocrático de Mubarak.
O presidente fez uma concessão no sábado e aceitou anular um decreto, promulgado no mês passado, que ampliava e blindava seus poderes, algo que a oposição considera insuficiente.
No domingo, o principal grupo de oposição, a Frente de Salvação Nacional (FSN), convocou novas manifestações no Cairo para rejeitar o referendo de 15 de dezembro.
“Não reconhecemos o rascunho de Constituição porque não reconhece o povo egípcio”, afirmou um porta-voz da FSN, Sameh Ashur.
“Seguir adiante com este referendo, nesta situação explosiva, com a ameaça das milícias da Irmandade Muçulmana, significa que o regime abandona suas responsabilidades”, completou o porta-voz.
Nos últimos dias, os manifestantes exigiram a anulação do decreto e do referendo, assim como a renúncia do presidente.
A Irmandade Muçulmana convocou uma nova manifestação na terça-feira no Cairo para apoiar o referendo e Morsi.
“Convocamos uma manifestação na terça-feira com o lema ‘Sim à legitimidade’” disse à AFP o porta-voz da organização, Mahmud Ghozlan, que considera que o povo deve decidir se aprova ou não o projeto de Constituição.
Se o texto for rejeitado, Morsi promete um novo rascunho elaborado por 100 pessoas que seriam eleitas diretamente pelo povo, e não entre os membros do Parlamento, dominado pelos islamitas.

Anúncio de saída de Monti desencadeia nova crise política na Itália

Anúncio de saída de Monti desencadeia nova crise política na Itália

Publicado em Carta Capital

Monti em entrevista coletiva no Palazzo Chigi, em Roma, na quinta-feira 6. Foto: Andreas Salaro / AFP

Em entrevista publicada no domingo 9 pelo jornal Il Sole 24 Ore, o presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, pediu para que a Itália não abandone o caminho das reformas econômicas depois de o primeiro-ministro, Mario Monti, ter declarado que renunciará ao cargo. Monti comunicou na noite anterior ao presidente do país, Giorgio Napolitano, sua intenção de renunciar, após o partido do ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi ter retirado seu apoio ao governo. Durão Barroso pediu à Itália que as próximas eleições “não se convertam num pretexto para duvidar da necessidade das medidas adotadas pelo governo Mario Monti”.
Na entrevista, o presidente da Comissão Europeia elogiou o chefe de governo italiano “não apenas pelas importantes medidas que adotou para organizar as contas públicas e reformar a economia nacional, mas também pelo seu papel no debate europeu”. Durão Barroso pediu também aos italianos que “não caiam na ilusão de que existem soluções rápidas ou mágicas [para sair da crise]“, lembrando que a Itália ainda tem “algumas perspetivas negativas” em matéria econômica.
A decisão de Monti foi anunciada num comunicado da presidência da Itália, depois de um encontro no sábado entre o presidente e o primeiro-ministro. Na nota, a presidência afirma que Monti considera que não pode continuar seu mandato “depois da declaração de sexta-feira no Parlamento pelo secretário-geral do partido Povo da Liberdade (PdL), Angelino Alfano, que constitui uma categórica retirada de confiança para o governo e a sua linha de ação”.
A decisão de Monti foi divulgada depois de os deputados do PdL terem optado na quinta-feira pela abstenção na votação de vários projetos de lei e horas depois de o fundador do partido, Berlusconi, ter anunciado que pretende se candidatar às legislativas de 2013.

Monti vai “verificar o mais rapidamente possível” se as forças políticas que não queiram ser responsáveis por “uma crise de consequências graves” estão dispostas a “contribuir para a aprovação da lei de estabilidade orçamental no prazo mais breve possível”, segundo o comunicado.
“Imediatamente após” a votação do orçamento, o primeiro-ministro irá “formalizar a sua demissão irrevogável e entregá-la ao chefe de Estado”, acrescenta o texto.
Mario Monti, economista, chefia um governo de tecnocratas, não eleito, que há um ano substituiu o executivo liderado por Berlusconi para impor um programa de austeridade, a fim de evitar que a Itália seja obrigada a pedir um empréstimo internacional.
Após a formalização do pedido de demissão, o presidente tem de dissolver o Parlamento e convocar eleições no prazo de 70 dias.
Pouco antes da divulgação da decisão de Monti, Berlusconi, de 76 anos, anunciou que deseja se candidatar ao cargo de primeiro-ministro pela quinta vez. Ele havia renunciado no ano passado, sob crescente pressão de problemas econômicos do país.

Anulado decreto do presidente do Egito

Anulado decreto do presidente do Egito

Carolina Gonçalves* - Repórter da Agência Brasil

Após a anulação do decreto que deu amplos poderes ao presidente egípcio, Mouhamed Mursi, os aliados do governo confiam no fim das manifestações no país. A Irmandade Muçulmana do Egito considera que "já não há motivos" para a oposição continuar os protestos.

“Já não há motivos para incentivar o povo a participar de manifestações nem para que haja mais contestações", disse o porta-voz do grupo, Mahmud Gozlan, em comunicado.

A anulação da medida adotada no dia 22 de novembro foi divulgada ontem (8), depois de um reunião entre Mursi e representantes políticos do país. O decreto provocou fortes reações entre as lideranças egípcias. A oposição considerou a medida uma "manobra política".

Mesmo com a decisão de recuar em relação ao decreto, representantes da oposição no Egito disseram hoje (9) que vão manter as manifestações públicas e greves nesta semana. A força de oposição a Mursi também mantém a insatisfação diante do referendo convocado pelo presidente para aprovar uma nova Constituição. Os opositores consideram que o projeto pode provocar uma islamização da legislação do país, por manter lacunas em matéria de liberdades e garantias.

O porta-voz da Irmandade Muçulmana do Egito pediu que a oposição respeite a realização do referendo. Mas os adversários de Mursi tentam, ao menos, o adiamento da consulta,   programada para o dia 15 de dezembro.

Sob as ameaças de continuidade dos protestos, o Exército construiu um muro com blocos de concreto para proteger o palácio presidencial do Egito, um dos principais focos das manifestações.

*Colaborou Renata Giraldi // Com informações das agências Lusa e BBC Brasil

Edição: Juliana Andrade

Fonte: EBC 
 
 
Publicado em: 10/12/2012

Prorrogado Protocolo de Quioto

Prorrogado Protocolo de Quioto

Da BBC Brasil

Delegados de quase 200 países reunidos em Doha, no Catar, na 18ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática (COP18) concordaram hoje (8) em estender o Protocolo de Quioto até 2020, evitando um grande retrocesso na luta contra as mudanças climáticas.

O acordo mantém o protocolo como o único plano legal obrigatório para o combate ao aquecimento global. Porém, determina metas obrigatórias apenas para os países em desenvolvimento, cuja parcela de responsabilidade pela emissão de gases de efeito estufa é menos de 15%.

Os Estados Unidos – atualmente o segundo maior emissor de gases do mundo, atrás somente da China – nunca ratificaram o protocolo original, de 1997, cujo primeiro período de compromisso expira no fim deste ano.

O encontro de 12 dias em Doha tentava um acordo para um tratado mais amplo a partir de 2015. O eventual novo tratado seria aplicado a todos os países e substituiria o Protocolo de Quioto.

Fonte: EBC 
 
 
Publicado em: 10/12/2012

A Venezuela e o Mercosul

A Venezuela e o Mercosul

Renata Giraldi e Mariana Tokarnia - Repórteres da Agência Brasil

Os chanceleres do Mercosul conseguiram hoje (6) fechar uma série de negociações para garantir que, em 5 de abril de 2013, a Venezuela terá atendido às principais exigências para ser integrada de forma plena ao bloco. Até lá, um terço dos produtos venezuelanos estarão dentro da nomenclatura e das normas do Mercosul.

Os ministros anunciaram também que, paralelamente, o Mercosul buscará o chamado fortalecimento produtivo, para incentivar o desenvolvimento do comércio e da economia na região.

Segundo o ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, o fortalecimento produtivo se refere a incrementar a capacidade tecnológica e adotar medidas que incentivem a competitividade industrial e leve ao desenvolvimento do comércio estratégico. “A reunião foi muito produtiva e estamos avançando de forma acelerada”, disse ele.

Patriota acrescentou ainda que, durante as discussões que ocorreram hoje, no Conselho do Mercado Comum (CMC), foi definido o Sistema Integrado do Mercosul (SIM) que se refere à implementação de ações que incentivem o intercâmbio de estudantes em nível superior – graduação e pós-graduação na região.

Também foram discutidas a ampliação do Programa Ciência sem Fronteiras, a aproximação do setor privado com  os órgãos públicos, a rede de agricultura familiar e a realização da Cúpula Social. As reuniões do CMC foram divididas em duas etapas – pela manhã, com chanceleres e embaixadores, e à tarde, com os ministros da Economia e presidentes de bancos centrais da região.

Os chanceleres adiaram a retomada da reunião, na parte da tarde, para irem ao velório do arquiteto Oscar Niemeyer, de 104 anos, que foi homenageado pelo grupo na primeira etapa de reuniões. Os ministros e embaixadores saíram juntos do Palácio Itamaraty em direção ao Palácio do Planalto – onde o arquiteto está sendo velado.

Edição: Davi Oliveira
 
Fonte: EBC  
 
 

Publicado em: 07/12/2012
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sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Atualidades Financeiras: uma europa cada vez menos democrática

Uma Europa cada vez menos democrática
 Publicado em Le Monde Diplomatique


Ironia, incentivo ou epitáfio? O prêmio Nobel da paz para a U.E pode despertar a perplexidade quando, ao mesmo tempo, o Banco Central Europeu e a Comissão Europeia conduzem uma guerra monetária contra vários países-membros. A distinção convoca, em todo caso, a uma reflexão sobre o regime político da comunidade
por Cédric Durand, Razmig Keucheyan
"Se jogarmos um cristal no chão, ele se quebrará, mas não de qualquer maneira: os pedaços seguirão a forma delimitada dos veios que, apesar de invisíveis, já estavam predeterminados pela própria estrutura do cristal.” A observação de Sigmund Freud, feita na década de 1930 em relação a perturbações mentais,1 também pode ser aplicada a distúrbios políticos, em particular aos da União Europeia, estrutura “rachada” e “fissurada”.
A crise econômica desencadeada em 2007 revelou as contradições inerentes à construção europeia e demonstrou, em particular, que a União Europeia (UE) se apoiava em um regime político autoritário, suscetível à suspensão de procedimentos democráticos sob o argumento de emergência econômica ou financeira. Durante os últimos quatro anos, instituições como o Banco Central Europeu (BCE) e a Comissão Europeia escaparam de qualquer controle popular e impuseram – com a colaboração ativa das classes dominantes desses países – planos econômicos aos povos irlandês, húngaro, romeno, grego, italiano, espanhol, português e francês. O Tratado de Estabilidade, Coordenação e Governança (TSCG, na sigla em francês), o controle orçamentário dos Estados-membros e a vigilância dos bancos pela União Europeia aprofundam esse movimento.2 Como caracterizar essa forma de governar populações sem a participação delas?
Em queda livre
Para entender a natureza do novo regime político europeu, convém retomar as quatro fases da crise econômica. Tudo começou em agosto de 2007, quando o maior banco francês, o BNP Paribas, anunciou o congelamento dos ativos de três de seus fundos de investimento. Com o argumento da incapacidade de avaliação desses fundos, a UE não dispôs de nenhuma fonte financeira própria para intervir. Se por um lado a moeda única estimulou a criação de bancos que operam em escala continental, por outro a supervisão dessas instituições permanece uma prerrogativa dos Estados. O BCE injeta grandes volumes de liquidez, mas não pleiteia uma reforma profunda no sistema financeiro.
Em setembro de 2008, a quebra do quarto maior banco de investimentos do mundo, o Lehman Brothers, desencadeou a segunda fase da crise. O episódio conduziu o sistema financeiro à beira do abismo e gerou uma crise de crédito de amplitude mundial. Pela primeira vez depois da Segunda Guerra Mundial a economia global mergulhou em uma recessão.
A resposta das elites veio primeiro do G20 e dos bancos centrais das principais economias do planeta: todos reconheciam a necessidade de medidas provisórias que revertessem a situação. Na reunião do Conselho Europeu de 15 e 16 de outubro de 2008, os governos anunciaram a recapitalização dos estabelecimentos de crédito em dificuldade e prometeram garantir os empréstimos bancários. No âmbito da União Europeia, duas instituições tomaram a dianteira e funcionaram como verdadeiros centros de pilotagem em meio à tempestade: o BCE e a Direção Geral da Concorrência (DGC). Pelo fato de não serem legitimadas eleitoralmente, essas instituições se fortalecem de maneira inversamente proporcional ao nível de democracia da UE.
Terceira fase: fim de 2009. A Europa se transformou no epicentro da crise global e desencadeou um espiral nefasto com o aumento das taxas de juros da dívida púbica dos países da periferia, a generalização das medidas de austeridade e o crescimento mínimo ou em queda livre. Em meio à tempestade, as soberanias nacionais, combinadas com uma moeda única, ficaram à mercê dos ataques especulativos, uma vez que o BCE se recusou a assegurar essas economias.
Maio de 2010. O primeiro plano de salvamento da Grécia colocou Atenas sob tutela da Troika: FMI, BCE e Comissão Europeia. Na esteira dessa medida, as taxas de juros da Irlanda e de Portugal, e em seguida as da Espanha e da Itália, dispararam, contrariando a hipótese de que a Grécia seria um caso particular. Ao mesmo tempo, nascia o Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (Fesf, na sigla em francês). Apesar da oposição de parte das elites continentais, o BCE ampliou o campo de suas prerrogativas e passou a comprar títulos públicos no mercado secundário.
Essas mudanças afetaram os juros do mercado financeiro. Klaus Regling assumiu o Fesf. Antigo quadro do FMI, do Ministério da Fazenda alemão e da Comissão Europeia, ele construiu parte de sua carreira no setor privado: trabalhou para a associação de banqueiros alemães durante a década de 1980, dirigiu um fundo especulativo (hedge fund) em Londres entre 1999 e 2001 e trabalhou como consultor financeiro privado em Bruxelas. Caso similar: Jacques de Larosière. Ex-diretor geral do FMI, alto funcionário do Tesouro francês, depois conselheiro de Michel Pébereau e CEO do BNP Paribas, Larosière presidiu, em fevereiro de 2009, o grupo de especialistas que fez o relatório sobre a reforma da arquitetura financeira europeia. Quatro dos oito membros desse grupo já haviam sido ligados a instituições financeiras como Goldman Sachs, BNP Paribas, Lehman Brothers e Citigroup.
Na quarta fase, que começou em julho de 2011, a crise da dívida das nações periféricas se estendeu a certos países do núcleo histórico da União Europeia, como a Itália, que viu as taxas de juros de sua dívida pública dispararem em relação às da Alemanha. O conjunto do continente entrou novamente em recessão, enquanto os países do Sul saíam da depressão. Ao mesmo tempo, a crise politizou-se e as tensões recrudesceram no cenário internacional, tanto entre os países europeus como no seio das sociedades mais afetadas pelas turbulências econômicas europeias: Espanha, Itália, Portugal e Grécia.
O papel desempenhado pelo Instituto de Finanças Internacionais (IFI) foi crucial nessa fase. Espécie de lobby de grandes estabelecimentos financeiros mundiais, esse organismo pressionou os representantes dos governos nacionais e da UE. Envolveu-se diretamente nas negociações da reforma da arquitetura financeira europeia e conseguiu, por exemplo, vetar a proposta de uma nova taxa para o setor bancário.3
Quando, em outubro de 2011, o primeiro-ministro grego George Papandreou anunciou a intenção de convocar um referendo sobre o novo plano de ajuda, os governos europeus ameaçaram puni-lo. Nicolas Sarkozy evocou pela primeira vez a possibilidade de a Grécia deixar a zona do euro. Papandreou pediu demissão e foi substituído por Lucas Papademos – ex-dirigente do Banco Central em Atenas e Frankfurt –, que tomou a dianteira do “governo de união nacional”.
Na Itália, Silvio Berlusconi teve a mesma sorte. Em novembro de 2011, depois do comissário de relações econômicas Olli Rehn encaminhar uma carta à Itália exigindo reformas econômicas e fiscais drásticas, o primeiro-ministro se viu obrigado a pedir demissão. Foi substituído por Mario Monti, clone transalpino de Papademos, Larosière e Regling. Ex-comissário europeu para a concorrência, Monti também foi presidente do European Money and Finance Forum, um think thank que reúne executivos do mercado financeiro, políticos e universitários e já prestou consultoria para Goldman Sachs e Coca-Cola.
A incapacidade dos Estados europeus de enfrentar a crise conduziu a uma aceleração do processo de integração europeia. O novo tratado cuja ratificação está em curso limita as políticas orçamentárias nacionais, submetendo-as à fiscalização da Comissão e de outros governos. O princípio segundo o qual a “soberania diminui quando a solvência diminui” reduz a condição do país em regime de assistência a quase protetorado. Em Atenas, Lisboa e Dublin, os homens de preto da Troika ditam as medidas a serem tomadas, revelando as relações coloniais a que são submetidos os países da periferia. Na reunião do Conselho da União Europeia em junho de 2012, a Espanha e a Itália – apoiadas pelo novo governo francês – conseguiram arrancar uma promessa vaga de que a tutela seria menos rígida no futuro. A desilusão não tardou: em declarações recentes, Mario Draghi afirmou que só é possível usufruir a garantia completa do BCE – do qual ele se tornou diretor em novembro de 2011 – se as injunções da Troika forem completamente obedecidas pelas autoridades nacionais.4
Cesarismo europeu
Assim, desde o início da crise, a Europa manifesta as características de um regime autoritário: governantes eleitos forçados a pedir demissão e substituídos por tecnocratas sem legitimidade democrática; proeminência de instituições supostamente “neutras”, como o BCE; enfraquecimento do Parlamento Europeu, cujo presidente – o social-democrata alemão Martin Schulz – se esforça para que reconheçam o papel desempenhado pela instituição;5 anulação de referendos; interferência do setor privado em decisões políticas...
Para compreender essa dinâmica antidemocrática – passível de ser revertida somente por um movimento social amplo e de escala continental –, pode ser útil recorrer a um contemporâneo de Freud, também observador perspicaz da crise da civilização na década de 1930: Antonio Gramsci.
De acordo com o intelectual italiano, durante as grandes crises do capitalismo, as instituições que dependem do sufrágio universal, como os parlamentos, passam para segundo plano. E, de forma inversa, circunstâncias extraordinárias consolidam “a posição relativa do poder da burocracia (civil e militar), do mercado financeiro, da Igreja e, de forma geral, de todos os organismos relativamente independentes das flutuações da opinião pública”.6
Em tempos normais, as instituições democráticas prevalecem no comando. Em situações de crise, contudo, suas contradições se agudizam e enfraquecem a capacidade decisória necessária quando o ritmo da política se acelera. Simultaneamente, nesses períodos, a opinião pública flutua consideravelmente e muitas vezes tende a apoiar soluções mais radicais.
Gramsci chama de “cesarismo” essa propensão dos regimes democráticos a manifestar facetas autoritárias em tempos de crise. No século XIX e na primeira metade do XX, os elementos cesaristas emergiam no seio dos exércitos – como Napoleão Bonaparte, Otto von Bismarck e Benito Mussolini, três figuras emblemáticas desse fenômeno. A expressão “cesarismo” é inspirada em César, carismático general romano que atravessou o Rubicão e eliminou a fronteira entre o militar e o político. Mas Gramsci observou que atores não militares também podiam exercer a função de “césar”: é o caso da Igreja, do mercado financeiro ou da burocracia estatal. O autor dos Cadernos do cárcereconstata, por exemplo, a natureza fragmentária da nação forjada pelo Risorgimentoitaliano no século XIX – constituída pela agregação de territórios sucessivamente anexados sem a implicação das massas populares. Somente a burocracia estatal seria capaz de garantir a unidade desses povos, por isso desempenharia o papel de “césar”, sem o qual as forças centrífugas dividiriam novamente o conjunto.
As dinâmicas em marcha na União Europeia evocam, assim, uma forma de cesarismo: não militar, mas financeiro e burocrático. Entidade política de soberania fragmentária, a Europa tem sua unidade garantida apenas pela burocracia de Bruxelas e pela interferência no funcionamento estrutural das finanças internacionais. Nos últimos três anos, os supostos “progressos” no processo de integração europeia acentuam essa característica.
Esse cesarismo não é uma invenção da UE. Após a Segunda Guerra Mundial, algumas instituições não democráticas, entre as quais as cortes constitucionais ou os bancos centrais independentes, se tornaram cada vez mais centrais na Europa ocidental. As elites continentais da época consideravam que os totalitarismos gêmeos – nazismo e stalinismo – haviam sido produzidos pelo “excesso” de democracia, razão pela qual era necessário proteger a Europa de seu próprio descontrole.7 Desde sua origem, o projeto europeu se inscreve nessa lógica de manter as populações a distância. Mas a aceleração brutal desde 2009 radicalizou o processo: a união econômica e monetária tornou-se um instrumento autoritário usado para administrar as contradições econômicas e sociais produzidas pela crise.
Assim, a atualidade não opõe mais construção europeia e retorno à escala nacional – como querem fazer acreditar os grandes meios de comunicação e os intelectuais euroliberais. Opõe, sim, duas opções antagonistas: o cesarismo e a democracia.
Cédric Durand
Conferencista de Economia da universidade Paris 13


Razmig Keucheyan Conferencista de Sociologia da Universidade Paris-Sorbonne


Ilustração: Benett
1 Sigmund Freud, Nouvelles conférences d’introduction à la psychanalyse [Novas conferências de introdução à psicanálise], Gallimard, Paris, 1984 (1ª ed.: 1933).
2 Ler Raoul Marc Jennar, “Deux traités pour un coup d’État européen” [Dois tratados para um golpe de Estado europeu] e “Traité flou, conséquences limpides” [Tratado fluido, consequências límpidas], Le Monde Diplomatique, respectivamente jun. e out. 2012.
3 Financial Times, Londres, 20 jul. 2011.
4 Financial Times, 7 set. 2012.
5 Le Monde, 9 jan. 2012.
6 Antonio Gramsci, Guerre de mouvement et guerre de position [Guerra de movimento e guerra de posição], fragmentos de Cahiers de prison [Cadernos do cárcere], escolhidos e comentados por Razmig Keucheyan, La Fabrique, Paris, 2012. Ler “Gramsci, une pensée devenue monde” [Gramsci, pensamento que se tornou mundo], Le Monde Diplomatique, jul. 2012.
7 Cf. Jan-Werner Müller, Contesting democracy. Political ideas in twentieth-century Europe [Contestando a democracia. Ideias políticas na Europa do século XX], Yale University Press, New Haven, 2010.

Dos Militares para a Irmandade

Dos militares para a Irmandade         

 Publicado em Le Monde Diplomatique

No Egito, o presidente Mohamed Morsi conseguiu marginalizar o Exército, que ainda mantinha os amplos poderes de que gozava durante o governo Hosni Mubarak. Contudo, ele ainda precisa enfrentar outras oposições e a rejeição suscitada pela Irmandade Muçulmana em uma parte da sociedade
por Alain Gresh
(Presidente Mohamed Morsi empossa o novo ministro da Defesa Abdel Fatah Sissi, em 12 de agosto )
"Domingo, 12 de agosto de 2012, às 10 horas da manhã, os dois membros-chave do Conselho Supremo das Forças Armadas (CSFA), Hussein Tantaui, ministro da Defesa, e Sami Annan, chefe do Estado-Maior, foram convocados para o palácio presidencial. Confinados em uma sala ‘de segurança’, eles não podiam nem mesmo usar o celular. Enquanto esperavam, o presidente Mohamed Morsi, em uma sala adjacente, dava posse ao novo ministro da Defesa, o general Abdel Fatah Sissi. Poucas horas antes, o Diário Oficial publicara um decreto anulando a declaração constitucional adicional adotada entre os dois turnos da eleição presidencial pelo CSFA, que se outorgava mais poderes a fim de se colocar ‘ao abrigo’ de uma vitória de Morsi. Em seguida, o presidente foi até os dois generais e anunciou que eles tinham sido demitidos. O estupor deles rivalizava com sua impotência.”
Narrada por um parente do presidente, a cena marca o fim da situação de dualidade de poder vigente no Cairo desde que Morsi tomou posse, em 30 de junho de 2012. Todo mundo estava convencido: um equilíbrio tão instável só poderia acabar por se quebrar. “A imprensa nacional publicava as declarações de Tantaui em seis colunas, e as do presidente em duas”, cita indignado Abdel Moneim Abul Fotuh, candidato derrotado na eleição presidencial. “Antes de concordar em formar o governo, Hicham Kandil [o primeiro-ministro] já havia solicitado previamente a aprovação dos militares!”

Um tigre de papel
“No fim das contas, o CSFA não passava de um tigre de papel.” A velha fórmula maoísta agora está florescendo nas ruas do Cairo. No entanto, algumas semanas antes, ninguém imaginava Morsi colocando as mãos em uma instituição que dominava o Egito desde a derrubada do rei Faruk I pelos “oficiais livres”, em 23 de julho de 1952, e que regia a vida política desde a saída do presidente Hosni Mubarak, em 14 de fevereiro de 2011.
No primeiro turno da eleição presidencial, realizada em 23 e 24 de maio, Hamdin Sabbahi, de tendência nasserista, Abul Fotuh, dissidente da Irmandade Muçulmana, e alguns outros candidatos de esquerda que tinham participado ativamente da revolução de 25 de janeiro de 2011 haviam obtido 40% dos votos. Mas suas divisões haviam deixado isolados na corrida para o segundo turno o general Ahmed Shafik (23,6%), representante do antigo regime, e Morsi (24,8%), representante da Irmandade Muçulmana. Enquanto Sabbahi não tinha dado uma orientação de voto, Fotuh por sua vez havia apoiado Morsi, junto com várias forças, entre elas o Juventude 6 de Abril e figuras como o blogueiro Wael Ghonim e o escritor Alaa el-Aswani, autor do inesquecível O Edifício Yacoubian,1 crítico impiedoso dos muçulmanos, que assim justificou seu voto: “Não estávamos com Morsi, nós apoiávamos a revolução”. O primeiro objetivo era colocar o Exército de escanteio.
Relutante, o CSFA aceitou o resultado do segundo turno, mas o jogo ainda não tinha sido jogado. A nomeação do novo gabinete, dominado por figuras do antigo regime, só poderia fazer crescer a impressão de que Morsi reinaria, mas não governaria. O general Tantaui, presidente do CSFA, declarou em 15 de julho de 2012 que não iria permitir que uma “facção” (leia-se a Irmandade) tomasse conta do Egito. Convocações para o protesto, em 24 e 25 de agosto, contra o novo presidente foram lançadas, e o diário Al-Dustour chegou a defender um golpe de Estado.2
Vãs esperanças. A legitimidade estava agora nas urnas e nas ruas, como evidenciado pelas longas filas de cidadãos à espera sob sol escaldante, no final de junho, para colocar seu voto na urna e indicar seu presidente. Na noite da proclamação dos resultados, multidões alegres e coloridas – muitas vezes jovens, ora usando uma máscara dos Anonymous, ora exibindo um cartaz da Irmandade – festejavam menos a vitória de Morsi que a derrota do antigo regime e o triunfo do sufrágio universal.
O novo presidente, que era visto como um maçante apparatchik sem carisma, iria demonstrar uma habilidade real. Depois de assumir suas funções, nos diversos comandos militares, ele pôde avaliar que o Exército era atravessado por correntes subterrâneas. Uma geração de oficiais cinquentenários aspirava a desempenhar um papel mais importante; a sacudir a tutela da “geração de 1973” – uma referência à guerra de outubro de 1973 contra Israel –; e a atacar os males que gangrenavam tanto sua instituição quanto o resto do país: a falta de profissionalismo, o favoritismo e a corrupção.
E a ocasião surgiu. Ela chegou mais rápido do que o esperado, com o ataque desfechado em 5 de agosto por um grupo jihadista a um posto militar em Rafah, no Sinai. Dezesseis soldados foram mortos a sangue frio. O comando conseguiu escapar e percorrer impunemente cerca de 15 quilômetros em território egípcio, antes de ser destruído em poucos minutos pelo Exército israelense quando tentava cruzar a fronteira. Esse fiasco mortal em relação à segurança permitiu ao novo presidente colocar de lado o CSFA.
Sem uma gota de sangue, assim se virou uma página da muito jovem revolução egípcia: o Exército voltava aos quartéis. Ele certamente continuará a ter peso nas escolhas sobre segurança (incluindo o Sinai) ou regionais (relações com Israel e, claro, com os Estados Unidos), mas não vai mais assumir todos os poderes.

Um conjunto de reformas
No entanto, a transição política está longe de terminar: uma nova Constituição está sendo elaborada; ela deverá ser aprovada até o final de novembro, depois submetida a um referendo e abrir caminho para novas eleições legislativas, tendo o Parlamento sido dissolvido pela Alta Corte em junho de 2012. A algumas centenas de metros da Praça Tahrir, em uma sala do Majliss al-chura (o Senado), a comissão encarregada de sua redação realiza a sessão na presença de muitos jornalistas. No edifício, decorado com afrescos do Egito faraônico com figuras femininas seminuas, se acotovelam o ex-secretário-geral da Liga Árabe, Amr Moussa, para quem “as questões religiosas não são da competência da Constituição”, e Naddar Bakkar, o muito midiático porta-voz do partido salafista Nour; mulheres com lenços e outras com os cabelos ao vento; generais e alguns jovens revolucionários (poucos); sacerdotes coptas e representantes da Universidade Al-Azhar; um camponês de galabiyya (roupa tradicional) pedindo ajuda para a agricultura etc. Dá para pensar que estamos em qualquer assembleia parlamentar, e, apesar das profundas divergências, uma atmosfera amigável prevalece durante os debates, dirigidos com voz firme por Hossam el-Gheriany, um respeitado juiz.
No centro das discussões: o papel da charia, em especial o artigo 2º da Constituição. Em 1971, o presidente Anuar Sadat teve de incluir esse parágrafo que afirmava que a charia, a lei islâmica, seria “uma das principais fontes da legislação”. Por uma alteração em 1980, ela tornou-se “a” principal fonte da legislação. Na Assembleia Constituinte, os salafistas pediram que se substituísse “a charia” por “os princípios da charia”, uma formulação mais vaga que teria permitido desvios perturbadores. Então, depois de haver renunciado a isso, exigiram que não fosse mais o Supremo Tribunal Constitucional a julgar a conformidade de uma lei com a charia,3 mas sim o Al-Azhar, a mais alta autoridade do islã sunita. “Seria uma ‘xiitização’ do Egito”, observa ironicamente um participante. “Essa reforma daria a uma instância religiosa a última palavra sobre as leis do país, como no Irã.” Um absurdo para os salafistas, profundamente hostis ao xiismo. O Al-Azhar, por sua vez, também se recusou a desempenhar esse papel.
Um compromisso surgirá daí? Como comenta um observador hostil aos muçulmanos, “Morsi tem interesse em que a Constituição seja equilibrada, para não criar problemas para sua presidência. Se todos os não muçulmanos deixassem a comissão para protestar, isso seria muito ruim para ele”.
Esses debates estão longe de empolgar a opinião pública, mesmo que envolvam princípios importantes, tanto sobre a religião quanto sobre a igualdade entre os cidadãos, ou entre homens e mulheres. Indiretamente, alinham-se outras questões. A Irmandade vai confiscar o poder? O Egito iria se transformar em um novo Irã?
A confraria suscita uma forte rejeição em amplos setores da população – rejeição essa que, ao contrário do que acreditam muitos de seus membros, não é apenas o resultado de uma campanha de desinformação. Notavelmente estruturados, com militantes dedicados que muitas vezes passaram pelas prisões, os membros da Irmandade são considerados às vezes, inclusive por crentes praticantes, como cínicos, envolvidos em esquemas políticos e mais preocupados com os interesses de sua organização que com os do país. Mesmo os salafistas os criticam duramente, acusando-os de querer “oprimir em nome da religião aqueles que eles desprezam”.4 Se seu papel na revolução não é contestado – ainda que tenham pegado o bonde andando –, seus compromissos com o CSFA ao longo de todo o ano de 2011 lhes valeram muitos ressentimentos. Sua decisão de apresentar um candidato para a eleição presidencial, violando seus compromissos anteriores, aumentou ainda mais as suspeitas.
Sua aura acabou empalidecendo: Morsi recebeu 5,7 milhões votos no primeiro turno das eleições presidenciais, enquanto seu partido, o Partido da Liberdade e da Justiça (PLJ), tinha granjeado quase o dobro nas eleições parlamentares no final de 2011-início de 2012.5 E, no segundo turno, o general Chafiq recebeu 12 milhões de votos: um resultado que reflete mais a rejeição à Irmandade do que uma nostalgia do antigo regime.
No centro do Cairo, num bairro construído no século XIX e cujos edifícios lembram a arquitetura haussmanniana e a antiga influência cultural francesa, fica o Café Riche. Badalado lugar de encontro de jornalistas e intelectuais, ele teve seu tempo de glória nos momentos que se seguiram à Primeira Guerra Mundial, quando ali se reuniam em uma de suas salas – dotada de uma entrada secreta – os revolucionários que exigiam a independência do país.
Esse é o lugar onde está instalado o doutor Mohammed Abul Ghar, ginecologista a quem se atribuem maneiras civilizadas, que tem bem uns 70 anos. Presidente do Partido Social-Democrata, ele retornou do Cabo, onde foi realizado o Congresso da Internacional Socialista. Ele relembra sua constante batalha contra a Irmandade: “Não votei em Chafik nem em Morsi, mas a vitória de Chafik teria levado à violência e a uma nova insurreição, dessa vez dirigida pela Irmandade. É do interesse de todos que eles cheguem ao governo, onde vão ter de agir. Vão cometer erros e tomar medidas impopulares”.

“O islã é a solução”
Poucos dias antes, Morsi confirmava a assinatura, daqui até o final do ano, de um acordo para um empréstimo do FMI de um montante de US$ 4,8 bilhões, a uma taxa de 1,1%. Membros da Irmandade e salafistas, que denunciavam o princípio desse acordo alguns meses antes, justificam essa desobediência à proibição islâmica das taxas de juros com argumentos que se poderiam qualificar, debaixo de outros céus, de jesuíticos...
“O islã é a solução.” Por décadas, o slogan da confraria permitiu-lhe evitar se pronunciar sobre a maioria das questões vitais – mesmo que ela estivesse alinhada com o presidente Mubarak para liquidar a reforma agrária.6 Agora no poder, ela não pode mais negar as duras realidades da situação econômica e social deteriorada, como evidenciado pelas numerosas greves nas fábricas, na educação e nos hospitais. Hoje, a Irmandade não tem outra solução a propor senão o liberalismo econômico reconhecidamente menos corrupto do que o de Mubarak.
A grande chance de Morsi continua sendo a divisão da oposição. Com o passar dos dias, esta se organiza nas coalizões mais díspares, cujas figuras de proa passam sem pudor de uma para a outra. Até Hamdeen Sabbahi, o candidato que tinha conseguido galvanizar uma parte da opinião progressista durante a eleição presidencial, encontra dificuldades para apresentar um programa coerente. Como nota um observador, “o comitê central de sua Corrente Popular inclui representantes de partidos liberais, socialistas, nasseristas, que não estão de acordo sobre nada: nem sobre o papel do setor privado, nem sobre o lugar da justiça social, nem sobre as relações com os Estados Unidos e Israel”. Como construir um sistema democrático – o que não é possível sem a integração da Irmandade na política –, ao mesmo tempo que se afirma um programa social e de política externa independente? A esquerda até hoje não resolveu esse dilema.
O caminho para a Irmandade, no entanto, está longe de ser balizado. Os desafios econômicos e sociais são gigantescos; o antigo regime mantém sólidas posições no aparelho de Estado, e é difícil mudar da noite para o dia estruturas e mentalidades – como ensinar a um policial que detém uma pessoa que sua primeira tarefa, na delegacia, não é bater nela? O presidente anistiou todas as pessoas presas pelos militares por razões políticas, mas será que ele vai conseguir lutar contra as persistentes violações dos direitos humanos?
A Irmandade aborda essas batalhas como uma organização, em que, pela primeira vez, a fidelidade incondicional ao murchid (o guia da confraria) não é mais garantida.7 Em março, foram precisos três dias de reuniões do Majlis al-chura, a mais alta instância da organização, para confirmar sua participação na eleição presidencial – e mais: por uma pequena maioria. Pela primeira vez em sua história, a Irmandade experimentou importantes cisões, com a criação do movimento de Abul Fotuh ou a do partido Wasat (“o centro”), para não mencionar as gerações mais jovens.
Muitos obstáculos a um domínio da organização sobre o Estado semelhante àquele que ela tinha conseguido impor ao presidente Mubarak. “Para garantir uma hegemonia sobre o Estado, a Irmandade iria precisar de um projeto”, explica Alaa al-Din Arafat, diretor de pesquisas do Centro de Estudos e Documentação Econômica, Jurídica e Social (Cedej) do Cairo. “Em 1952, os ‘oficiais livres’ foram capazes de construir a hegemonia e reunir as elites em torno do objetivo da independência nacional e da construção de uma economia independente. Sadat, quando tomou o poder, usou a derrota de 1967 e propôs a abertura econômica e um sistema multipartidário. A Irmandade não tem um projeto global – nem mesmo em assuntos internacionais – que lhe permitiria juntar-se aos diversos escalões do aparelho de Estado.”
Alain Gresh é jornalista, do coletivo de redação de Le Monde Diplomatique (edição francesa).

Ilustração: Handout / Reuters

1 Alaa el-Aswani, L’Immeuble Yacoubian [O Edifício Yacoubian], Actes Sud, Arles, 2006.
2 Citado por Hesham Sallam, “Morsi, the coup and the revolution: reading between the red lines” [Morsi, o golpe e a revolução: lendo entre as linhas vermelhas], Jadaliyya, 15 ago. 2012.
3 “Il y a charia et charia” [Existe charia e charia], Nouvelles d’Orient, Les blogs du Diplo, 20 ago. 2012.
4 Citado por Issandr el-Amrani, “In translation: salafis vs. Ikhwan” [Em tradução: salafistas × Ikhwan], The Arabist, 24 set. 2012.
5 As eleições legislativas se estenderam durante vários meses, com três partes do país votando uma por vez.
6 Ler Beshir Sakr e Phanjof Tarcir, “La lutte toujours recommencée des paysans égyptiens” [A luta sempre reiniciada dos camponeses egípcios], Le Monde Diplomatique, out. 2007.
7 Ler Alaa al-Din Arafat, “Les Frères musulmans pris
au piège du pluralisme” [A Irmandade Muçulmana pega na armadilha do pluralismo], Le Monde Diplomatique, maio 2012.

Apenas 40% do Brasil não é florestado

Apenas 40% do Brasil não é florestado

Nielmar de Oliveira - Repórter da Agência Brasil

O Brasil tem 516 milhões de hectares de florestas, o equivalente a 60,7% do território nacional, ficando atrás apenas da Rússia. A informação consta da pesquisa Produção da Extração Vegetal e da Silvicultura (Pevs), divulgada hoje (6) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Esse total de 516 milhões de hectares de florestas é composto por áreas destinadas a reservas extrativistas e de desenvolvimento sustentável, terras indígenas, áreas de proteção dos recursos hídricos e do solo, de conservação da biodiversidade em unidades de conservação federais e estaduais, de produção madeireira e não madeireira em florestas nacionais e estaduais e florestas plantadas, de proteção ambiental e áreas ocupadas com florestas.

O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) estima que 31% da superfície terrestre do planeta sejam ocupados por florestas habitadas por 300 milhões de pessoas. Delas dependem, de forma direta, 1,6 bilhão de seres humanos e 80% da biodiversidade terrestre.

Para promover ações que incentivem a conservação e a gestão sustentável de todos os tipos de florestas, a Organização das Nações Unidas (ONU) declarou 2011 o Ano Internacional das Florestas.

A iniciativa teve o objetivo de conscientizar a sociedade da importância das florestas, alertando que a sua exploração de forma inadequada acarreta, entre outras consequências, a perda da biodiversidade e o agravamento das mudanças climáticas.

No Brasil, o Ministério do Meio Ambiente promoveu vários eventos, enfocando a conservação, o manejo e o desenvolvimento sustentável.

Edição: Juliana Andrade

Fonte: EBC  
 
 

Publicado em: 07/12/2012