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quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

O acordo com o Irã e a hegemonia dos EUA

O acordo com o Irã e a hegemonia dos EUA

Autor(es): Sérgio Amaral
O Estado de S. Paulo - 09/12/2013
 

As reuniões da madrugada de 25 de novembro em Genebra, entre o chamado P5+1 (os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU mais a Alemanha) e o Irã, para a conclusão de um acordo sobre o programa nuclear iraniano ainda darão muito o que falar. O entendimento alcançado é frágil e ambíguo. Na verdade, limita-se ao congelamento por seis meses de atividades de enriquecimento de urânio, ante um alívio parcial nas sanções impostas ao Irã, num montante de cerca de US$ 4,2 bilhões por mês.
A diferença entre o êxito e o fracasso dependerá, entre outras condições, da capacidade de operacionalizar cláusulas complexas de verificação pela Agência Internacional de Energia Atômica. O objetivo da moratória é criar as condições para a negociação de um acordo mais abrangente, capaz de impedir o acesso do Irã à arma nuclear. Não obstante as dificuldades à frente, que são muitas, o plano aprovado sinaliza um novo caminho. Se tiver êxito, mais do que um simples entendimento tópico com o Irã sobre a extensão do seu programa nuclear, poderá representar úm passo significativo para a reestruturação da governança mundial, sob a égide de uma nova hegemonia norte-americana.
O acordo com o Irã é a reafirmação do multilateralismo e da ONU. É o fortalecimento do regime internacional de não proliferação nuclear, que já parecia fadado ao fracasso. É a fixação de critérios objetivos, quantificáveis e verificáveis para o exercício do direito ao enriquecimento de urânio para fins pacíficos e, ao mesmo tempo, o fechamento da porta - que a índia foi a última a transpor - para o acesso consentido ao restrito clube dos detentores da arma nuclear. Uma vez estabelecidos, os novos parâmetros tenderão a estender-se a todos os países que buscam dominar o ciclo da tecnologia nuclear, o Brasil incluído.
O palco para a negociação foi a ONU. Foram as sanções adotadas pelo Conselho de Segurança que levaram o Irã à mesa da negociação. Mas se a moldura é a da ONU, não é necessariamente a de um Conselho de Segurança reformado, como temos legitimamente defendido, e sim a de um arranjo informal P5+1, concebido para incluir a Alemanha. Areformado Conselho de Segurança pode, assim, já estar em curso, de modo informal, tal como tem ocorrido com a constituição de diretórios ad hoc, em outros elos da nova governança mundial.
Ao unilateralismo de George W. Bush seguiu-se o multilateralismo de Barack Obama. Ade-cisão solitária pelo recurso à força cedeulugar auma paciente ourivesaria política, ao diálogo e à negociação, com aliados e adversários. O novo não está na defesa retórica do multilateralismo, mas no compromisso de respeitá-lo e na demonstração de que pode funcionar. Assim, o desenho de uma nova governança mundial é ao mesmo tempo a reconstrução da hegemonia norte-americana, abalada pela crise econômica e pela desastrada política externa de Bush. Os contornos da nova hegemonia afirmam-se, com mais nitidez, no momento em que parece não haver candidato cóm condições ou com vontade para disputá-la.
A China segue o script da emergência pacífica, na economia antes, na política depois. Essa visão, que se tomou a doutrina oficial da diplomacia chinesa, ajudou a abafar os ruídos provocados pelos deslocamentos que a China continua a introduzir na economia mundial. Favoreceu o reconhecimento da necessidade de um novo tipo de relacionamento entre grandes potências, consagrado pelo encontro Xi Jinping-Obama, de junho passado. Beijing apoia o fortalecimento do regime de não proliferação nuclear, mas de maneira discreta. Joga ao mesmo tempo a carta do Conselho de Segurança e a dos Brics. Mas os seus interesses estratégicos estão mais na mesa da negociação P5+1 do que nas cúpulas dos Brics.
A Rússia teve a sua visibilidade restaurada, ainda que temporariamente, pela contribuição que deu ao compromisso da eliminação das armas químicas na Síria. Mas, tanto quanto a China, não tem interesse no descarrilamento do processo de não proliferação, que preserva o seu papel privilegiado de potência nuclear.
A Europa compartilha a preocupação com o eventual acesso do Irã ao armamento nuclear e não teve hesitação em conceder aos Estados Unidos a liderança no processo, até mesmo simbolicamente, pois foi Obama que anunciou os termos do novo acordo. A Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento, apesar das dificuldades inerentes a um projeto tão ambicioso, explicita a vontade de ambos os lados do Atlântico de partilhar uma mesma visão estratégica e construir uma poderosa aliança econômica neste cenário em profunda transformação.
O deslocamento do eixo estratégico do Oriente Médio para a Asia, do Atlântico para o Pacífico, sinaliza a sintonia da diplomacia norte-americana com as novas realidades econômicas e geopolíticas do mundo global. E o reconhecimento de que alguns conflitos regionais terão uma duração mais longa que o esperado e, exceto no caso do Irã, não afetam, necessariamente, interesses estratégicos dos Estados Unidos. A prioridade para a Ásia já é uma realidade no plano militar e um projeto em construção no plano econômico, pela via de várias parcerias transpacíficas. A nova hegemonia está, por fim, lastreada pela retomada da economia, sob o impulso da revolução do gás de xisto, que não apenas reduz a dependência da energia importada, mas estimula a reindustrialização do país.
É bem verdade que a formação de um condomínio global ampliado, com o ingresso da China e, em certa medida, de outros países emergentes, implica objetivamente uma perda do poder relativo dos Estados Unidos. Mas também é verdade que o desenho multipolar em construção reserva à potência norte-americana a posição de um polo central e hegemônico da nova ordem.

Acordo nuclear deflagra peregrinação ao Irã

Acordo nuclear deflagra peregrinação ao Irã

Autor(es): Renata Malkes
O Globo - 05/12/2013
 
Diplomatas e empresários correm para fechar negócios pós-sanções; Teerã envia chanceler a países do Golfo

As medidas que vão aliviar o isolamento do Irã ainda nem entraram em vigor, mas já provocam um entra-e-sai sem prece-dentes no aeroporto internacional Imam Khomeini, em Teerã. Embalado pela assinatura do acordo nuclear com as potências ocidentais, o govemo iraniano acelerou o trabalho e apostou em outra ofensiva diplomática — dessa vez, para se aproximar dos vizinhos árabes sunitas do Golfo Pérsico. Mas sem esquecer a economia. Enquanto o chanceler Mohammad Javad Za-rif partia para visitas a Qatar, Emirados Árabes, Kuwait e Omã, as chegadas a Teerã também registraram um ritmo frenético. Diplomatas, ministros e empresários de vários países voaram para a capital iraniana para fazer decolar, desde já, parcerias econômicas num futuro pós-sanções.
Uma peregrinação internacional ao Irã é o primeiro resultado concreto do acordo fechado há três semanas em Genebra. Ciente de que a política externa e as mazelas internas de uma economia que registra déficit de US$ 80 bi-Ihões estão atreladas, o presidente Hassan Rouhani tenta jogar nas duas frentes ao mesmo tempo.
— O governo está agindo com muita ousadia. Depois de 35 anos de isolamento, os iranianos não querem perder nenhuma oportunidade, seja para uma re-aproximação com a Arábia Saudita ou a volta de empresas petrolíferas ocidentais. Rouhani às vezes até parece um pouco perdido, sem foco ou prioridade, embora aliviar as sanções seja a base de toda sua política — constatou o pesquisador iraniano Rasool Nafisi, da Universidade Strayer, em Maryland, nos EUA.
BRASIL ESTUDA ENVIAR EMPRESÁRIOS
Tão logo as delegações anunciaram o acordo nuclear, a Rússia se apressou para anunciar seu interesse na retomada dos negócios da gigante petrolífera estatal Lukoil, segunda maior produto-ra de petróleo russa, no Irã. Um dia depois, a mais alta diplomata da índia, Sujatha Singh, se reuniu com o vice-chanceler iraniano, Ebrahim Rahim-pour, para acelerar a construção de um porto no Sul do Irã, em Chabahar — o que abriria caminho para os indianos rumo ao Afeganistão sem passar pelo rival e vizinho Paquistão; e, para o Irã, daria acesso ao mercado da índia.
Até vizinhos estremecidos, como o premier iraquiano, Nuri al-Maliki, foram a Teerã. A Turquia, que viu suas relações com a República Islâmica esfriarem por conta de divergências sobre a guerra civil síria, também percebeu a oportunidade: enviou rapidamente seu ministro das Finanças, Zafer Caglayan, com a promessa de que todos os bancos turcos poderão fazer transações com o Irã assim que as sanções forem relaxadas. Empresas francesas, como Peugeot e Renault, a alemã Volkswagen, a sul-coreana Kia e a japonesa Suzuki também despacharam executivos para uma feira automotiva no último sábado na capital iraniana.
Toda essa presença ocidental incomoda a alguns. Mas, ao menos por ora, o governo moderado de Rouhani não enfrenta oposição aberta em sua política de reaproximação — o que, junto com a necessidade de injetar recursos na economia, justificaria a ampla série de manobras diplomáticas ao mesmo tempo.
— Rouhani encontra resistência nas Guardas Revolucionárias, que temem perder privilégios. Mas por enquanto, ninguém se opôs a ele na prática. Rouhani e os ultraconservadores estão se testando para ver os limites — avaliou Rafisi.
Testes também acontecem fora das fronteiras iranianas. O jornalista Arash Karami, do site "al-Monitor" destaca que o presidente vem se resguardando de eventuais fracassos no exterior.
— Rouhani deu muitas responsabilidades ao chanceler, que conhece bem o Ocidente. Foi muito astuto deixar que Zarif testasse as águas internacionais para ver quem morde e quem não morde na diplomacia — disse Karami ao GLOBO.
Apesar de engatinhar nessa nova realidade, no Irã, as oportunidades parecem infinitas. E, segundo o embaixador brasileiro em Teerã, Santiago Mourão, estão na mira do Brasil. A previsão é que as exportações ao Irã, que chegaram no ano passado de US$ 2,2 bilhões, cresçam. Para o diplomata, a prioridade do govemo Rouhani num primeiro momento foi a melhoria das relações com os EUA e a Europa; agora é a vez dos países do Golfo Pérsico e, num terceiro momento, provavelmente já em 2014, o radar dos iranianos chegará, finalmente, à América Latina.
— É um momento importante, em que o Irã está voltando à comunidade internacional. Temos relações sólidas e percebemos a abertura, a aproximação. Há muita " expectativa do setor empresarial e da própria população. Estamos pensando em trazer ao uma missão empresarial brasileira no próximo ano. Os brasileiros aindajgj não reagiram, estão cautelosos, pois at grande dificuldade é a transferência de xeM cursos — afirmou o embaixador.
O Irã também se prepara para retomar§ seus níveis de exportação de petróleo pré--sanções: 2,5 milhões de barris por dia. E|| em outro flerte com o Ocidente, em Viena, ontem, a diplomacia iraniana aproveitou/ uma reunião da Organização dos Países Produtores de Petróleo (Opep) para sinalizar que está de braços abertos para receber sete petrolíferas estrangeiras (Total/ França; Shell/anglo-holandesa; ENI/Itá-lia; Statoil/Noruega; BP/Reino Unido; Ex-.; xon Mobil e ConocoPhillips/EUA). §§
CHANCE DE VISITA À ARÁBIA SAUDITA f
O interesse do mundo no Irã, porém/; não é menor que o interesse do próprio/ Irã no resto do mundo — principalmen-f ; te nos vizinhos árabes, com quem os f persas mantêm histórica rivalidade eco-f nômica, étnica, política e cultural. Nos| últimos dias, numa ofensiva diplomática? calculada, o chanceler Mohammad Ja-f vad Zarif, fez um raríssimo giro pelo Golfo. Visitou Kuwait, Qatar, os Emirados1 Árabes Unidos e Omã. E reforçou rumores de que uma visita a Arábia Saudita, a potência sunita maior rival do Irã xiita, pode acontecer num futuro próximo.
— Nós vemos a Arábia Saudita como um país regional importante e influente. Estamos trabalhando para reforçar a cooperação pelo bem da região. Estou pronto para ir a Arábia Saudita, é apenas uma questão de encontrar um tempo mutuamente conveniente — declarou Zarif
Se confirmada, essa visita enterra de vez a velha ordem de alianças vigente nas últimas três décadas no Oriente Médio.
— É uma grande saída do ciclo dos últimos anos — garantiu Karami.
Só não se sabe ainda para onde.
nobras diplomáticas ao mesmo tempo.
— Rouhani encontra resistência nas Guardas Revolucionárias, que temem perder privilégios. Mas por enquanto, ninguém se opôs a ele na prática. Rouhani e os ultraconservadores estão se testando para ver os limites — avaliou Rafisi.
Testes também acontecem fora das fronteiras iranianas. O jornalista Arash Karami, do site "al-Monitor" destaca que o presidente vem se resguardando de eventuais fracassos no exterior.
— Rouhani deu muitas responsabilidades ao chanceler, que conhece bem o Ocidente. Foi muito astuto deixar que Za-rif testasse as águas internacionais para ver quem morde e quem não morde na diplomacia — disse Karami ao GLOBO.
Apesar de engatinhar nessa nova realidade, no Irã, as oportunidades parecem infinitas. E, segundo o embaixador brasileiro em Teerã, Santiago Mourão, estão na mira do Brasil. A previsão é que as exportações ao Irã, que chegaram no ano passado de US$ 2,2 bilhões, cresçam. Para o diplomata, a prioridade do govemo Rouhani num primeiro momento foi a melhoria das relações com os EUA e a Europa; agora é a vez dos países do Golfo Pérsico e, num terceiro momento, provavelmente já em 2014, o radar dos iranianos chegará, finalmente, à América Latina.
— É um momento importante, em que o Irã está voltando à comunidade interna-; cional. Temos relações sólidas e percebemos a abertura, a aproximação. Há muita " expectativa do setor empresarial e da própria população. Estamos pensando em trazer ao uma missão empresarial brasileira no próximo ano. Os brasileiros ainda não reagiram, estão cautelosos, pois at grande dificuldade é a transferência de recursos — afirmou o embaixador.
O Irã também se prepara para retomar seus níveis de exportação de petróleo pré-sanções: 2,5 milhões de barris por dia. E em outro flerte com o Ocidente, em Viena, ontem, a diplomacia iraniana aproveitou uma reunião da Organização dos Países Produtores de Petróleo (Opep) para sinalizar que está de braços abertos para receber sete petrolíferas estrangeiras (Total/ França; Shell/anglo-holandesa; ENI/Itália; Statoil/Noruega; BP/Reino Unido; Exxon Mobil e ConocoPhillips/EUA).
CHANCE DE VISITA À ARÁBIA SAUDITA
O interesse do mundo no Irã, porém; não é menor que o interesse do próprio Irã no resto do mundo — principalmente nos vizinhos árabes, com quem os persas mantêm histórica rivalidade econômica, étnica, política e cultural. Nos últimos dias, numa ofensiva diplomática calculada, o chanceler Mohammad Javad Zarif, fez um raríssimo giro pelo Golfo. Visitou Kuwait, Qatar, os Emirados Árabes Unidos e Omã. E reforçou rumores de que uma visita a Arábia Saudita, a potência sunita maior rival do Irã xiita, pode acontecer num futuro próximo.
— Nós vemos a Arábia Saudita como um país regional importante e influente. Estamos trabalhando para reforçar a cooperação pelo bem da região. Estou pronto para ir a Arábia Saudita, é apenas uma questão de encontrar um tempo mutuamente conveniente — declarou Zarif
Se confirmada, essa visita enterra de vez a velha ordem de alianças vigente nas últimas três décadas no Oriente Médio.
— É uma grande saída do ciclo dos últimos anos — garantiu Karami.
Só não se sabe ainda para onde.