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terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Os caminhos inesperados de Mandela

O HOMEM TORNA-SE ÍCONE
Os caminhos inesperados de Mandela
Seu nome, entoado nos cinco continentes, é sinônimo de resistência, libertação, universalidade. Lutador obstinado e esperto, Nelson Mandela não existe mais. Porém, a mera ideia de que as pessoas se lamentassem ao pé de sua estátua o exasperava: é necessário ir em frente, dizia, e continuar na tarefa da emancipação
por Achille Mbembe
Agora que Nelson Mandela se foi, temos o direito de declarar o fim do século XX, do qual ele terá sido uma das figuras mais emblemáticas. Exceção feita a Fidel Castro, ele era talvez o último de uma linhagem de grandes homens condenada à extinção, numa época que tem pressa em acabar de uma vez por todas com os mitos.
Se é preciso conceder a Mandela a recusa da santidade que ele não cessava de rejeitar, devemos reconhecer também que ele estava longe de ser um homem comum. Oapartheidprovocou o surgimento de uma classe de mulheres e de homens sem medo que, ao preço de sacrifícios incríveis, precipitaram sua abolição. Se, de todos, Mandela tornou-se o nome, foi porque a cada encruzilhada em sua vida ele se mostrou capaz de adotar, às vezes sob a pressão das circunstâncias e muitas vezes voluntariamente, caminhos inesperados.
Sua vida vai ser resumida em poucas palavras: um homem sempre à procura, sentinela da partida e cujos retornos, tão inesperados quanto milagrosos, apenas terão contribuído ainda mais para sua mitificação.
Na base do mito não se encontram apenas o desejo do sagrado e a sede do secreto. Ele floresce pela primeira vez na proximidade da morte, essa primeira forma de partida e afastamento. Bem cedo, Mandela teve uma experiência assim, quando seu pai, Mphakanyiswa Gadla Mandela, morreu quase diante de seus olhos. Essa primeira partida precipitou outra. Acompanhado de sua mãe, o jovem Mandela deixou Qunu, o lugar de sua infância e dos primórdios de sua adolescência. Ele voltaria a se estabelecer ali depois de seus longos anos de prisão, após ter construído no local uma casa, réplica com todos os detalhes da última prisão onde ficou encarcerado pouco antes de sua libertação.
Recusando-se a se conformar com os costumes, Mandela partiria uma segunda vez no final da adolescência. Príncipe fugitivo, virou as costas para uma carreira junto ao chefe dos Thembus, seu clã de origem. Seguiu para Johannesburgo, cidade voltada à mineração, em pleno crescimento, e lugar das contradições sociais, culturais e políticas geradas por essa montagem barroca de capitalismo e racismo que assumiria em 1948 a forma e o nome de apartheid. Chamado a se tornar um líder na ordem vigente, Mandela se converteria ao nacionalismo como outros a uma religião, e a cidade das minas de ouro se tornaria o palco principal do encontro com seu destino.
Começou então uma via crucis longa e dolorosa, feita de privações, prisões constantes, perseguições intempestivas, vários comparecimentos diante dos tribunais, estadas regulares nos presídios com seu rosário de torturas e seus rituais de humilhação, períodos mais ou menos prolongados de vida clandestina, inversão dos mundos diurno e noturno, disfarces mais ou menos espontâneos, uma vida familiar dispersa, moradias abandonadas – o homem em luta, rastreado, o fugitivo constantemente de partida, guiado apenas pela convicção de um dia futuro, o dia do retorno.
De fato, Mandela assumiu riscos enormes. Com a própria vida, que ele viveu intensamente, como se tudo fosse recomeçar a cada vez e como se cada vez fosse a última. Mas também com a de muitos outros, a começar por sua família, que, consequência inevitável, pagou um preço inestimável pelos compromissos e convicções dele. Ela o vinculava por isso a uma dívida insondável que ele sempre soube não estar em condições de compensar, o que só fez agravar seus sentimentos de culpa.
Mandela evitou por pouco a pena de morte. Foi em 1964. Estava preparado para ser condenado. “Se tínhamos de desaparecer, melhor fazê-lo em meio a uma nuvem de glória. Ficávamos satisfeitos de saber que a morte representaria nossa última oferta ao nosso povo e à nossa organização.”1 Essa visão eucarística, no entanto, estava isenta de qualquer desejo de martírio. E, ao contrário de todos os outros, de Ruben Um Nyobè a Patrice Lumumba, passando por Amílcar Cabral, Martin Luther King até Mohandas Karamchand Gandhi, ele escaparia à foice.
Resto de humanidade
Foi na prisão de Robben Island que ele teve realmente a experiência desse desejo de vida, no limite do trabalho forçado, da morte e do banimento. A prisão se tornaria o local de uma prova extrema, a do confinamento e do retorno do homem à sua mais simples expressão. Nesse lugar de privação máxima, Mandela aprendeu a viver na cela na qual passaria mais de vinte anos como se fosse um sobrevivente forçado a se casar com um caixão.2
Durante longas e terríveis horas de solidão, levado à beira da loucura, ele redescobriria o essencial, aquele que jaz no silêncio e no detalhe. Tudo lhe falaria do novo: uma formiga que corre não se sabe onde; a semente enterrada que morre e depois se recupera, criando a ilusão de um jardim; um pedaço de algo, não importa o quê; o silêncio dos dias mornos que se juntam sem parecer que se passam; o tempo que se alonga interminavelmente; a lentidão dos dias e o frio das noites; a palavra que se torna rara; o mundo para além dos muros do qual não se ouvem mais os murmúrios; o abismo que foi Robben Island e os traços do penitenciário em seu rosto agora esculpido pela dor, em seus olhos murchos pela luz do sol que refrata sob o quartzo, a poeira nesse rosto transformado em espectro fantasmagórico e em seus pulmões, nos dedos dos pés, e acima de tudo esse sorriso alegre e brilhante, essa postura altaneira, firme, em pé, o punho cerrado, pronto para abraçar de novo o mundo e fazer soprar a tempestade.
Despojado de quase tudo, ele lutou com unhas e dentes para não abdicar de forma alguma do resto de humanidade que seus captores queriam a qualquer preço arrancar dele e brandir como o troféu final. Reduzido a viver com quase nada, ele aprendeu a economizar tudo, mas também a cultivar um profundo desapego em relação às coisas da vida profana, aí incluídos os prazeres da sexualidade. Até o ponto de, confinado entre duas paredes e meia, não ser, apesar de tudo, escravo de ninguém.
Homem de carne e osso, Mandela viveu, portanto, próximo ao desastre. Ele penetrou na noite da vida, o mais próximo das trevas, à procura de uma ideia, de saber como viver livre da raça e da dominação do mesmo nome. Suas escolhas o conduziram à beira do abismo. Ele fascinou o mundo, porque voltou vivo do país das sombras.
Como os movimentos operários do século XIX ou ainda as lutas das mulheres, nossa modernidade foi trabalhada pelo sonho de abolição trazido pelos escravos. É esse sonho que foi prolongado, no início do século XX, pelas lutas em favor da descolonização. A práxis política de Mandela se inscreve nessa história específica das grandes lutas africanas pela emancipação humana. Tais lutas se revestiram, desde as origens, de uma dimensão planetária. Seu significado nunca foi apenas local. Sempre foi universal. Mesmo quando mobilizaram atores locais, em um país ou em um território nacional bem circunscrito, elas estavam no ponto de partida de solidariedades forjadas numa escala global e transnacional.
Foram lutas que, a cada vez, permitiram a extensão ou mesmo a universalização de direitos que até então tinham permanecido como o apanágio de uma raça. Foi o triunfo do movimento abolicionista ao longo do século XIX que pôs fim à contradição representada pelas modernas democracias escravagistas. Encontramos a mesma universalidade no movimento anticolonialista. O que ele visava senão tornar possível a manifestação de um poder próprio de gênese – o poder de se manter de pé por si mesmo, de se autodeterminar?
Ao tornar-se um símbolo da luta global contra o apartheid, Mandela ampliou esses significados. Aqui, o objetivo é estabelecer uma comunidade além da raça. Enquanto o racismo está de volta sob formas mais ou menos inesperadas, o projeto de igualdade universal está mais do que nunca diante de nós.
Resta dizer uma coisa sobre a África do Sul que Mandela deixa atrás de si.
A passagem de uma sociedade de controle para uma de consumo representa, sem dúvida, uma das transformações mais decisivas desde sua libertação e do fim do apartheid. Sob o regime de segregação, o controle consistia em rastrear e restringir a mobilidade dos negros. Ele se baseava na regulação dos espaços nos quais eles estavam confinados, com o objetivo de extrair deles o máximo de trabalho possível. Os contatos entre os indivíduos eram proibidos ou regulados por leis rigorosas, especialmente quando essas pessoas pertenciam a categorias raciais diferentes. O controle passava, portanto, pela modulação da brutalidade ao longo de linhas raciais.
Sob o apartheid, tal brutalidade tinha três funções.
Por um lado, visava enfraquecer a capacidade dos negros de garantir sua reprodução social. Eles nunca foram capazes de levantar os meios indispensáveis para uma vida digna, quer se tratasse de acesso a alimentação, moradia, educação e saúde etc. Essa brutalidade tinha por outro lado uma dimensão somática. Visava imobilizar os corpos, paralisá-los, quebrá-los se necessário. Por fim, atacava o sistema nervoso e tendia a secar as capacidades de suas vítimas de criar seu próprio mundo de símbolos. Suas energias eram, na maior parte do tempo, desviadas para as tarefas de sobrevivência. Esse era, com efeito, o trabalho que se esperava que o racismo realizasse.
Essas formas de violência e brutalidade foram objeto de uma interiorização mais profunda do que nós gostaríamos de admitir. Elas são, desde 1994, reproduzidas num modo molecular no âmbito da existência comum e pública. Manifestam-se em todos os níveis das interações sociais cotidianas, quer se trate das esferas íntimas da vida, das estruturas do desejo e da sexualidade ou até do irreprimível desejo de consumir todos os tipos de mercadorias.
Esse desejo desenfreado de consumo é tomado como essência e substância da democracia e da cidadania. A passagem de uma sociedade de controle para uma de consumo ocorre em um contexto marcado por várias formas de privação para a maioria dos negros. Opulência e privação extremas coexistem, e o fosso que separa esses dois estados tende cada vez mais a ser negociado pela violência e pelas diversas formas de acumulação.
A democracia pós-Mandela é composta principalmente de negros sem trabalho e de outros sem possibilidade de ser empregados, que não exercem um direito de propriedade sobre quase nada. A longa história do país é ela própria marcada pelo antagonismo entre dois princípios, o governo do povo pelo povo e a lei dos proprietários.
Até pouco tempo atrás, estes últimos eram quase exclusivamente brancos, e era isso que conferia às lutas uma conotação racial. As coisas não são mais exatamente assim hoje em dia. A classe média negra emergente, no entanto, não está em posição de desfrutar em total segurança os direitos de propriedade há pouco adquiridos. Ela não está segura de que a casa comprada a crédito não venha a ser retomada amanhã, pela força ou em virtude de circunstâncias econômicas adversas. Esse sentimento de precariedade é uma das marcas da psicologia de classe.
A África do Sul entra em um novo período de sua história, durante o qual os procedimentos de acumulação não acontecem mais por meio da expropriação direta. Eles passam agora pela captura e pela apropriação privada dos recursos públicos, pela modulação da brutalidade e por uma relativa instrumentalização da desordem. A constituição de uma nova classe dominante multirracial se dá, portanto, por meio de uma síntese híbrida dos modelos russo, chinês e africano pós-colonial.
Plenitude na humanidade
De resto, tanto da vida como da prática de Mandela, duas lições merecem ser lembradas. A primeira é que só existe um mundo, pelo menos de momento. O que, portanto, é comum para nós é o sentimento ou o desejo de sermos seres humanos de pleno direito. Esse desejo de plenitude na humanidade é algo que todos compartilhamos.
A segunda lição é que, para construir esse mundo que nos é comum, será preciso restituir àqueles que sofreram um processo de abstração e de coisificação na história a parte da humanidade que lhes foi roubada. Haverá pouca consciência de um mundo comum enquanto aqueles que foram imersos em uma situação de extrema pobreza não tiverem escapado das condições que os confinam na noite da infravida. No pensamento de Mandela, reconciliação e reparação estão no cerne da própria possibilidade de construção de uma consciência comum do mundo, isto é, a realização de uma justiça universal. Com base em sua experiência carcerária, ele chega à conclusão de que há uma parte de humanidade intrínseca da qual cada pessoa humana é depositária. Essa parte irredutível pertence a cada um de nós. Ela faz que, objetivamente, sejamos ao mesmo tempo distintos uns dos outros e semelhantes. A ética da reconciliação e da reparação, portanto, implica o reconhecimento daquilo que se poderia chamar de a parte do outro, que não é a minha e da qual eu, no entanto, sou o fiador, quer eu queira ou não. Essa parte do outro, eu não poderia agarrá-la sem consequências para a ideia de si mesmo, da justiça, da lei, ou até mesmo de toda a humanidade, ou ainda para o projeto do universal, se tal é de fato a destinação final.
Nessas condições, é inútil erigir fronteiras, construir paredes e lugares fechados, dividir, classificar, hierarquizar, tentar separar da humanidade aqueles que tivermos rebaixado, que desprezamos, que não se parecem conosco ou com os quais acreditamos que nunca vamos conseguir nos entender. Existe apenas um mundo, e somos todos herdeiros dele, ainda que as maneiras de habitá-lo não sejam as mesmas – daí justamente a real pluralidade das culturas e dos modos de viver. Dizer não significa de modo algum ofuscar a brutalidade e o cinismo que ainda caracterizam o encontro dos povos e das nações. Trata-se apenas de relembrar um dado imediato, inexorável, cuja origem se situa, provavelmente, no início dos tempos modernos: o processo irreversível de emaranhamento e entrelaçamento de culturas, povos e nações.
Muitas vezes, o desejo de diferença emerge precisamente ali onde se vive de forma mais intensa uma experiência de exclusão. A proclamação da diferença é então a linguagem inversa do desejo de reconhecimento e inclusão. Para aqueles que já experimentaram o domínio colonial ou para aqueles cuja parte de humanidade foi roubada em algum momento da história, a recuperação dessa parte de humanidade passa com frequência pela proclamação da diferença. Mas, como se vê em uma parte da crítica africana moderna, esse é apenas um momento de um projeto maior: o projeto de um mundo futuro, um mundo à nossa frente, cujo destino é universal; um mundo livre do fardo da raça, do ressentimento e do desejo de vingança que qualquer situação de racismo chama.

Achille Mbembe é professor de história e ciências políticas na Universidade de Witwatersand em Johannesburg, autor de Le sujet de race. Contribution à la critique de la raison nègre, editora Fayard (Paris).

Ilustração: Tulipa Ruiz

1 Nelson Mandela, Conversations avec moi-même [Conversas comigo mesmo], Seuil, Paris, 2011.
2 Cf. Nelson Mandela, Un long chemin vers la liberté [Um longo caminho para a liberdade], The Paperback, Paris, 1996.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Nelson Mandela de corpo inteiro

 

Nelson Mandela de corpo inteiro

O mundo aclama, com razão, os frutos da sua revolução. Mas há quem tente esconder que ela não foi feita só com flores

 Publicado em Carta Capital de 02/01/2014 - Antônio Luiz M. C. Costa

Rolihlahla mandela nasceu em plena Primeira Guerra Mundial, recebeu o apelido inglês de Nelson de sua primeira professora primária segundo o costume do tempo, mas ficou mais conhecido de seus companheiros de luta como Madiba (nome de seu clã da etnia Xhosa) e do povo sul-africano como Tata, “pai”. Pensou como marxista, combateu como revolucionário e governou como reformista. Pode ser reivindicado como exemplo tanto pela esquerda radical quanto pela pragmática, embora a lição a ser aprendida seja, mais razoavelmente, que qualquer grau de sucesso depende da disposição de adaptar os meios e fins imediatos ao momento histórico sem abandonar os princípios e os fins últimos.
Inaceitável é tentar expurgar da sua história os confrontos com a brutalidade do apartheid que a marcaram, como se ele tivesse caído do céu em 1990 para trazer a paz e a fraternidade e desde então seu país tivesse vivido feliz para sempre. Falsificações como a da revista Veja, uma editora com 30% de capital do grupo sul-africano Naspers, que defendeu o apartheid até o último suspiro, chamá-lo de “Guerreiro da Paz” na capa, enquanto seus blogueiros insistiam em classificá-lo de terrorista, são parte da tentativa de cooptar uma vida revolucionária para fins conservadores. Que atingiu o cúmulo do ridículo com argumentos em blogs, jornais ou na tevê que Mandela seria contra as cotas raciais “petistas”: “Aos negros seria conveniente mirar-se nos exemplos de igualdade e jamais lutar por cotas”, atreveu-se a escrever um néscio no Diário da Manhã, de Goiânia, num artigo de opinião intitulado “O Legado de Mandela”.

Nem só colunistas obscuros de gazetas provincianas demonstraram ignorância abissal. Mais impressionante, por partir de um jornal de grande circulação, foi o editorial do El País de 11 de novembro, que criticou a presença no funeral de Raúl Castro e Robert Mugabe, “ditadores com nada que ver com Mandela” (sic). Nada a ver teve Bush, que manteve  Madiba e seu partido na lista de terroristas obrigados a obter uma autorização especial para entrar nos EUA até julho de 2008. Ou o presidente português Cavaco Silva, que em 1987, quando primeiro-ministro, fez Portugal votar na ONU contra uma resolução de apoio à luta contra o apartheid. Ou David Cameron: ainda em 1989 tentava fazer lobby para reverter as sanções contra a segregação sul-africana.
Madiba não foi um Cristo ao estilo masoquista e kitsch dos católicos tradicionalistas (sequer o Jesus real o foi, mas essa é outra história). Embora tenha conduzido com sucesso uma transição pacífica, ela só foi possível porque Mandela antes liderou e planejou a luta, inclusive armada, contra o apartheid, com apoio quase solitário da União Soviética, China e Cuba, e porque, enquanto estava na prisão, outros continuaram a lutar nas ruas em seu nome até obrigar o regime branco a aceitá-lo como interlocutor, negociar e, ao final do processo, ceder-lhe o poder. Quem quiser pode questionar suas escolhas éticas e políticas, mas sem elas Mandela não teria sido quem foi, nem merecido as homenagens do mundo.
Uma vez no governo, não ignorou a realidade de colonização e segregação. Não fingiu que o problema estava resolvido e brancos e negros haviam se tornado iguais por um passe de mágica. Iniciou a construção dessa igualdade na prática, inclusive com cotas raciais. Empresas grandes ou pequenas de todos os setores cumprem metas de participação de não brancos (mestiços, indianos e orientais incluídos) na força de trabalho, gerência e propriedade do capital. Universidades e faculdades também praticam a “discriminação positiva”.
Quando Mandela iniciou sua militância política, em 1943, defendia a independência do movimento negro em relação aos indianos, mestiços e comunistas (inclusive brancos), contrariando nisso a maioria do Congresso Nacional Africano, socialista e inclusivo desde 1912. Mudou de posição no início dos anos 1950, quando, convencido por amigos comunistas e pela cooperação dos soviéticos com os movimentos de independência africanos, aderiu ao marxismo e, por isso, a uma concepção de luta política capaz de ir além da raça e unir todos os oprimidos. Exatamente quando o apartheid se consolidava (a partir da eleição de 1948, da qual os negros foram excluídos), o comunismo era posto fora de lei (pelo Ato de Supressão de 1950) e se iniciava a segregação física e geográfica das raças.

Mandela foi preso pela primeira vez em 1952, em nome do Ato de Supressão, depois de incitar a desobedecer às leis do apartheid (principalmente a que obrigava os negros a portar passaportes fora das reservas a eles designadas, os bantustões) em um ato público da “Campanha do Desafio” pela desobediência civil, tática que para o Mahatma Gandhi e para parte do CNA era a “alternativa ética”, mas para Mandela era simplesmente a única opção realista do momento.  Em 1955, depois de a resistência passiva e protestos não conseguirem evitar o despejo de todo o bairro negro de Sophiatown, onde morava, passou a defender a luta armada, enquanto continuava a organização de greves e protestos, passava por duas prisões e tinha, na prática, uma dupla militância, atuando também no Partido Comunista.
Em 1961, inspirado por Fidel Castro e Che Guevara, fundou e liderou a organização Umkhonto we Sizwe (“Lança da Nação”, mais conhecida como MK), formada na maior parte por comunistas brancos, cujo objetivo era promover sabotagem e ataques noturnos, sem vítimas, a usinas elétricas, escritórios do governo e ferrovias. Em 16 de dezembro, quando os brancos comemoravam o aniversário de sua vitória sobre os zulus de 1838, lançou 57 ataques à bomba simultâneos. Até meados de 1963, cerca de 200 instalações foram bombardeadas e a única vítima fatal foi um militante morto pela própria bomba.
Mandela voltou a ser preso em agosto de 1962 com ajuda da CIA e inicialmente condenado a cinco anos por viajar ao exterior sem permissão e incitar greves. Em 1964 foi novamente julgado por seu envolvimento com o MK e seu “discurso do julgamento de Rivonia”, proferido às vésperas de ser condenado à prisão perpétua pelo Supremo Tribunal sul-africano, inspiraria a luta contra o apartheid por décadas, foi em parte inspirado no igualmente histórico discurso de Fidel Castro ao ser condenado pelo fracassado ataque ao quartel Moncada, “A História me Absolverá”. Ao lado de frases como “sentimos que o país estava à deriva em direção a uma guerra civil entre negros e brancos e vimos a situação com alarme” e “lutei contra a dominação branca e a dominação negra”, há também “a falta de dignidade humana vivida pelos africanos é o resultado direto da política de supremacia branca” e “sentimos que, sem violência, não haveria caminho aberto para o povo africano ter sucesso em sua luta contra a supremacia branca”.

Na prisão de Robben Island, mantido em condições terríveis que lhe causaram danos permanentes à visão e uma tuberculose cujas sequelas o debilitaram e acabaram por causar sua morte, Mandela liderou as reivindicações de seus companheiros e forjou laços com prisioneiros de outras organizações, entre eles o Movimento de Consciência Negra, responsável pelo levante de Soweto de 1976, que deixou cerca de 700 mortos. Seu líder, Steve Biko (criador do slogan “black is beautiful”), foi capturado e morreu por tortura em 1977.

Embora menos violento e menos focado na “identidade negra”, o CNA tampouco abandonou a luta, inclusive armada. O MK continuou com seus ataques armados ao regime e se aliou formalmente à guerrilha marxista pró-soviética de Zimbábue (então Rodésia) liderada por Joshua Nkomo,  depois unida à organização rival, maoísta, do “nada que ver” Robert Mugabe. De 1976 a 1986, seus ataques causaram cerca de 130 mortes.
A partir dos anos 1970, as condições da prisão melhoraram e Mandela pôde se corresponder com líderes negros moderados, como Mangosuthu Buthelezi (líder do partido Inkatha, aceito pelos brancos como líder do bantustão zulu) e o bispo anglicano Desmond Tutu. O movimento internacional de boicote ao apartheid, proposto em 1959, começava a engatinhar, com a exclusão do país de competições olímpicas e eventos acadêmicos. Do ponto de vista econômico, mal arranhava, porém, os interesses da minoria branca.
Mandela era celebrado como líder pelos movimentos negros da África do Sul, pelas novas nações africanas e pelos países socialistas, mas para Ronald Reagan e Margaret Thatcher ele e sua organização eram meros terroristas comunistas e o apartheid era uma realidade irreversível. Israel colaborou com o regime racista nos campos comercial e militar e lhe forneceu tecnologia nuclear. Há indícios de que, em 1979, os dois países testaram conjuntamente uma bomba atômica na sul-africana ilha Prince Edward.

Quando estudantes britânicos de esquerda começaram a participar, em 1980, da campanha por sua libertação, colegas conservadores replicaram com uma campanha por seu enforcamento. Mas em 1985, ante a ameaça das ex-colônias africanas e asiáticas de abandonar a Comunidade Britânica, a própria Thatcher foi forçada a aderir ao boicote ao apartheid. No ano seguinte, o Congresso dos EUA, pressionado pelos eleitores negros, aprovou a lei de embargo que tramitava desde 1972 e derrubou o veto de Reagan. A perda de mercados e de acesso ao crédito internacional e o encorajamento da resistência negra pelo apoio internacional tornaram o país ingovernável, forçaram a elite branca a negociar e Mandela, o “terrorista”, era o único interlocutor suficientemente respeitado pela maioria das facções do movimento negro para negociar uma transição pacífica em seu nome.

Um dos seus primeiros atos ao sair da prisão foi ir a Cuba agradecer o apoio do “nada que ver” Fidel Castro: “Quem treinou o nosso povo, quem nos forneceu recursos, que ajudaram tanto nossos soldados, nossos doutores?” Palavras que reiterou em sua cerimônia de posse em 1994, ao receber Castro: “O que Fidel tem feito por nós é difícil descrever com palavras. Primeiro, na luta contra o apartheid, ele não hesitou em nos dar todo tipo de ajuda. E agora que somos livres, temos muitos médicos cubanos trabalhando aqui”.
Mandela esteve à altura da oportunidade histórica. Desmantelou o apartheid e o arsenal atômico legado pelos israelenses, criou uma Comissão da Verdade que serviu de modelo a outras nações, inclusive o Brasil, evitou o revanchismo e consolidou a África do Sul como um país democrático e multirracial, o que dez anos antes parecia impossível. A extrema-esquerda o considerou um traidor por não derrubar o capitalismo ou promover uma reforma agrária radical (80% das terras continuam nas mãos de 50 mil fazendeiros brancos) e os resultados da ação afirmativa iniciada em seu governo são ambíguos. De um lado, integrou uma substancial classe média não branca em todos os níveis do Estado e da empresa privada. Por outro, não pôde tirar da pobreza a grande maioria dos negros, a renda continua muito concentrada e os brancos se queixam de seus jovens serem forçados a emigrar por falta de empregos “adequados”. Como nas ocasiões em que se decidiu pela resistência passiva, pela luta armada, ou pela articulação política a partir da prisão, Mandela optou pelo que era factível naquele momento – o auge da ideologia neoliberal em todo o mundo – para caminhar rumo a seu ideal igualitário e multirracial.

É cômodo perorar de fora que “os fins não justificam os meios”, mas não se pode aprovar o resultado e apagar a história que o tornou possível, com todos os seus atos de violência e alianças desagradáveis aos bem-pensantes. Sem isso, ainda se viveria a violência maior do apartheid. Não é razoável negar que a África do Sul de hoje é mais digna e justa que aquela dos anos anteriores à transição e que as homenagens prestadas pelo povo sul-africano e pelos líderes mundiais em 2013 foram muito merecidas. Barack Obama, é preciso reconhecer, fez um discurso inspirado (“Não poderia imaginar a minha vida sem o exemplo de Mandela... ele libertou prisioneiros e carcereiros”) em comparação com as falas mornas e burocráticas da brasileira Dilma Rousseff, do secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, e mesmo do cubano Raúl Castro, para não falar do vice chinês e dos presidentes da Namíbia e Índia.
Mas não escapou da hipocrisia: “Há muitos líderes que se apegam à solidariedade da luta de Madiba pela liberdade, mas não toleram a dissidência”, advertiu o responsável pela espionagem da NSA, pela perseguição a Edward Snowden e pela execução arbitrária de acusados de terrorismo. E o episódio do selfie (autorretrato) com David Cameron e a primeira-ministra dinamarquesa, Helle Thorning-Schmidt, embora não tenha o significado que a imaginação popular lhe atribuiu, não deixou de ser desrespeitoso. Não pela descontração – nesse momento, os próprios sul-africanos homenageavam Madiba com cantos e danças alegres –, mas pela obsessão egoísta dos líderes ocidentais com a própria imagem na ocasião em que se homenageava um homem muito maior que todos eles juntos.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Nelson Mandela - 1918 2013 - Peregrinação à África do Sul

Nelson Mandela - 1918 2013 - Peregrinação à África do Sul

O Estado de S. Paulo - 09/12/2013
 
No primeiro de sete dias de cerimônias oficiais de despedida a Nelson Mandela, a África do Sul lotou templos de todas as religiões. O país se prepara para receber 53 chefes de Estado e de governo que confirmaram presença em uma jornada de homenagens que começarão com uma multidão de 80 mil pessoas reunidas no estádio Soccer City, amanhã, em Joanesburgo.
Cerimônia tão concorrida na história recente só a do papa João Paulo II, que está em processo de canonização pela Igreja Católica. No funeral do Pontífice, em 2005, compareceram cinco reis, seis rainhas, 70 presidentes e primeiros-ministros e 2 milhões de fiéis.
Para o último adeus a Mandela, que morreu aos 95 anos na quinta-feira por complicações decorrentes de problemas pulmonares, a presidente Dilma Rousseff levará uma comitiva de peso. Pela primeira vez em um evento internacional, participarão todos os presidentes do Brasil vivos. Eles haviam se encontrado na posse dos integrantes da Comissão da Verdade, em maio de 2012, em Brasília. Embarcam juntos, hoje, ao meio-dia, no Rio. Antes, Dilma participa de um evento com o ex-presidente americano Bill Clinton, que também viaja para a África.
Enquanto os líderes se preparam para se deslocar ao país que viveu quase cinco décadas sob o regime oficial de segregação racial, o apartheid, e foi redemocratizado em 1994, quando o partido de Mandela, o Congresso Nacional Africano (CNA) foi eleito com 62% dos votos e desde então está no poder, a África do Sul reza. Ontem, por cerca de três horas, uma multidão orou e cantou em um dos locais mais simbólicos da resistência ao apartheid, a igreja Regina Mundi, em Soweto. Na Regina Mundi, Mandela é lembrado em um mural na entrada, ao lado de vidraças com buracos de bala com quase 40 anos de idade, ainda preservados. Para lá correram jovens perseguidos pela polícia na revolta do Soweto, em1976.
Com apenas 7% da população, a Igreja Católica é uma das maiores e mais organizadas da África do Sul, dada sua fragmentação religiosa.
Orgulhosamente africana, a Regina Mundi faz suas missas em línguas tradicionais, como zulu e soto, faladas pela maioria da população negra de Joanesburgo. O inglês é secundário. Os vitrais têm imagens de negros ao lado de passagens bíblicas, e o quadro principal ao lado do altar mostra Maria e o menino Jesus de pele escura. A Bíblia exposta é em zulu. Em tom messiânico, o padre Sebastian Rossouw referiu-se a Mandela como "luz maior, a luz de Deus".
Mandela, mesmo sem ser católico, tinha relação próxima com o local. Em 1997, já como presidente, deixou-se filmar lá dançando com os braços dobrados junto ao corpo, no que ficou popularizado como "Madiba dance". Foi na Regina Mundi que ocorreram as audiências da Comissão de Verdade e Reconciliação após o apartheid, modelo para todas as outras (inclusive a brasileira).
Em todo o país, catedrais, igrejas de bairro, sinagogas, mesquitas e locais de culto religioso em geral prepararam algo diferente para a tradicional celebração de domingo, o primeiro desde a morte de Mandela. O atual presidente sul-africano, Jacob Zuma, compareceu a um serviço metodista – a Igreja à qual a família Mandela pertence – na periferia de Joanesburgo com Winnie, ex-mulher do também Prêmio Nobel da Paz de 1993.
– Quando nossa luta (contra o apartheid) terminou, ele pregou e praticou a reconciliação para que os que haviam se enfrentado se perdoassem e se convertessem em uma nação – lembrou Zuma diante de mil pessoas.
A confluência de líderes de Estado reunidos já gera polêmicas. Ontem, um jornal conservador iraniano, o Kayhan, que representa a ala mais dura do regime iraniano, advertiu neste domingo para a "armadilha" de uma eventual participação do presidente Hassan Rouhani no funeral, onde o líder do Irã poderia se encontrar com Barack Obama. Teerã ainda não anunciou quem será o representante do país. Mandela fez duas visitas ao Irã, em 1992 e 1999.

O mundo perde seu guerreiro da liberdade

O mundo perde seu guerreiro da liberdade

Autor(es): Bernardo Barbosa
O Globo - 06/12/2013
 
Icone da luta contra o apartheid, Nelson Mandela deixa ao mundo legado de paz e diálogo

 O tempo venceu Nelson Mandela ontem, porque só o tempo poderia vencê-lo. O preconceito não o derrotou; a perseguição de um governo racista, também não; nem os quase 30 anos na prisão e o surgimento de problemas de saúde ainda em idade precoce. Sua força, sua inteligência e sua paciência o levaram a se tornar um dos maiores nomes do século XX, quando foi ativista, pacifista e estadista. Mandela morreu aos 95 anos apenas porque, ao contrário do legado de paz, firmeza e diálogo que deixa para o mundo, o ser humano não é imortal.
A morte do primeiro chefe de Estado negro da África do Sul, em sua casa em Johannesburgo, foi anunciada pelo atual presidente, Jacob Zuma. Dois dias antes, Makaziwe, filha de Mandela, havia declarado que o pai estava em seu leito de morte. Seguindo seu desejo, seu corpo será sepultado no vilarejo de Qunu, onde cresceu. Já de madrugada, muitos sul-africanos foram às ruas chorar a morte do líder e celebrar sua história.
Como poucos, Mandela soube conciliar a combatividade de seu discurso com os apelos a uma resistência pacífica.Sua luta amplia a trajetória de nomes como Martin Luther King (1929-1968), assassinado por sua defesa da igualdade de direitos nos Estados Unidos e lembrado por Mandela ao receber o Nobel da Paz em 1993 ao lado de Frede-rik Wiilem de Klerk, com quem dividiu a tarefa de dar fim ao apartheid e levar a África do Sul a ser uma democracia multirracial.
— Fui transformado, pela lei, em um criminoso, não por causa do que eu havia feito, mas por causa do que eu representava, por causa do que eu pensava, por causa da minha consciência. (...) Não tenho dúvida de que a posteridade vai declarar que eu era inocente e que os criminosos que deveriam ter sido trazidos diante desta corte são os membros do governo — disse Mandela em sua histórica defesa no julgamento de 1964.
Presidente da África do Sul entre 1994 e 1999, Mandela se engajou na reconciliação entre a maioria negra e a minoria branca na África do Sul, além de se dedicar a melhorar a imagem de seu país após a era de segregação. Foi eleito presidente já com 75 anos após uma disputa justamente contra de Klerk, seu antecessor no cargo e impulsor de várias medidas para acabar com o apartheid.
Mandela só deixou a cadeia aos 71 anos, após quase três décadas atrás das grades por jamais abrir mão da batalha pela igualdade racial em seu país. Foi durante o tempo na prisão de Robben Island que tiveram origem os problemas pulmonares que o afetaram até o fim da vida. Os anos de detenção em uma cela úmida culminaram em um diagnóstico de tuberculose em 1988.
À medida que sua idade avançava, Mandela passou a se retirar de forma gradativa da vida pública, da qual abriu mão formalmente em junho de 2004, um mês antes de completar 86 anos. No último ano, enfrentou quatro internações devido a uma infecção pulmonar.
— Ele faleceu em paz. Nossa nação perdeu seu maior filho. Nosso povo perdeu um pai — disse Zuma. — Este momento é de grande dor, mas deve ser de nossa maior determinação. Viver como Madiba viveu, batalhar como Madiba batalhou.
"Seu combate transformou-se em um paradigma, não só para o continente africano, como para todos aqueles que lutam pela justiça, pela liberdade e pela igualdade. 0 exemplo deste grande líder guiará todos aqueles que lutam pela justiça social e pela paz no mundo."
Dilma Rousseff - Presidente do Brasil
"A morte de Nelson Mandela torna o mundo mais pobre de referências de coragem, dignidade e obstinação na defesa das causas justas. Sua vida altiva traduziu o sentido maior da existência humana"
Joaquim Barbosa - Presidente do Supremo Tribunal Federal
"O grande legado do Nelson Mandela foi fazer com que o povo negro da África do Sul descobrisse uma coisa que parece simples, mas não é simples, de que, se a maioria do povo era negra, não tinha nenhum sentido a minoria branca continuar governando aquele país. As pessoas se descobriram por uma força motora capaz de mover a sociedade."
Luiz Inácio Lula da Silva - Ex-presidente brasileiro

MANCHETE: O ÚLTIMO HERÓI DA LIBERDADE

MANCHETE: O ÚLTIMO HERÓI DA LIBERDADE

A HUMANIDADE PERDE MANDELA
Autor(es): RODRIGO CRAVEIRO
Correio Braziliense - 06/12/2013
 
   Alguns homens não morrem. Eterinzamm-se. Nelson Rolihlahla Mandela é um deles. Por volta das 20h50 de ontem (16h50 em Brasília), o mundo perdeu um de seus últimos grandes heróis e ganhou um legado inquestionável de resiliência, coragem e perdão. Aos 95 anos, o ícone da luta da igualdade racial estava acompanhado da família quando deu o último suspiro, em sua casa, no bairro de Houghton, em Johannesburgo. Era o fim de dois anos de uma luta árdua contra uma série de infecções pulmonares, resquícios do trabalho forçado durante as quase três décadas de prisão. E de uma vida que desafiou o ódio e a opressão da cor da pele. O anúncio da morte do ex-líder e Prêmio Nobel da Paz coube ao presidente da África do Sul, Ja- cob Zuma. O sucessor de Mandela estava visivelmente emocionado. "Ele agora está descansando. Ele está em paz. Nossa nação perdeu seu filho maior. Nosso povo perdeu um pai", declarou. "Ainda que soubéssemos que esse dia chegaria, nada pode diminuir nosso senso de perda profunda e perdurá- vel. Sua batalha incansável pela liberdade o fez ganhar o respeito do mundo. Sua humildade, sua compaixão e sua humanidade lhe valeram o amor do mundo", acrescentou.
Zuma afirmou que "nosso amado Madiba" receberá um funeral de Estado. "Eu ordenei que todas as bandeiras da República da África do Sul sejam baixadas a meio mastro a partir de amanhã, 6 de dezembro, e permaneça assim até depois do funeral", afirmou. O governante exortou os 48,6 milhões de sul- africanos a se comportarem com "a dignidade e o respeito que Madiba personificava". "Vamos reafirmar sua visão de uma sociedade na qual ninguém seja explorado, oprimido ou expropriado por outros. Vamos nos empenhar em lutar juntos — sem poupar força e coragem—para construir uma África do Sul unida, não racial, não sexista, democrática próspera", emendou Zuma. O funeral deve durar 10 ou 12 dias e, provavelmente, incluirá uma cerimônia no estádio de futebol Soccer City, emlohannesburgo. Depois, o caixão será colocado sob um domo próximo
ao local em que Mandela proferiu o discurso de juramento, em Pretória, ao ser empossado como o primeiro presidente eleito democraticamente da África do Sul, em 1994.0 corpo provavelmente será enterrado na aldeia de Qunu, onde Madiba foi criado.

Do lado de fora da casa da família Mandela, centenas de sul-africanos fizeram uma vigília, entoando o Hino Nacional da África do Sul e as "canções da liberdade" que Madiba usava para espantar a solidão do cárcere, na Robben Island. "Hayo O Tshwanang Le Yena" ("Não existe ninguém como ele", no dialeto tswana), gritava a multidão. "Há uma atmosfera de tristeza no ar e, ao mesmo tempo, as pessoas celebram a vida de Mandela. Bandeiras sul-africanas tremulam e flores estão sendo deixadas em frente à mansão", afirmou ao Correio, por telefone, a jornalista Qaanitah Hunter, que pretendia passar a madrugada ali. Os sul-africanos repetiram o tradicional gesto de luta e cerraram os punhos, enquanto oravam.
Em Soweto, onde Mandela viveu e arquitetou a luta antiapartheid antes de se tornar presidente, o clima era semelhante. "Ninguém está chorando. É quase uma celebração. Algumas pessoas dizem que ao menos ele descansou. As pessoas estão agradecidas e dizem que ele fez milagres pelo país", admitiu à reportagem, por meio da internet, a jornalista Angela Bolowana, diante da primeira casa adquirida por Madiba, hoje um museu. Em Londres e em Nova York, memoriais foram improvisados em honras ao histórico líder, com velas, flores e desenhos.
O homem que reconciliou uma nação e trouxe os inimigos para perto de si foi reverenciado, ontem, por anônimos, famosos e lideranças mundiais. Em nota oficial à imprensa, a presidente Dilma Rousseff lamentou a perda e destacou Mandela como "a personalidade maior do século 20". O norte- americano Barack Obama, por sua vez, comentou que Mandela "não pertence a nós, mas à história" (leia na página 3). Nos 45 minutos que sucederam o anúncio da morte, o nome de Mandela foi citado 2 milhões de vezes no microblog Twitter.
Mandela permaneceu internado de 8 de junho a Io setembro, depois de sofrer uma recaída por uma infecção pulmonar. Ele foi, en-
tão, levado para casa, equipada como um verdadeiro hospital para recebê-lo. Na última terça-feira, Makaziwe, uma das filhas de Madiba, deu uma declaração quase premonitária. "Tata ainda está conosco, muito forte e, eu diria, muito corajoso. Mesmo na falta de uma palavra melhor sobre seu leito de morte", eu acho que ele ainda nos ensina lições; lições de paciência, de amor, de tolerância", comentou, em entrevista a uma emissora de tevê estatal.
Madiba será lembrado como um homem que, por lutar contra a segregação racial, teve a liberdade tolhida por 27 anos. Após reconquistá-la, em 1990, ascendeu à Presidência e consolidou a democracia em uma nação que ultrajava a maioria negra. Durante a transição liderada por Mandela, não houve conflitos sérios entre os 11 grandes grupos étnicos do país. A mágoa foi abandonada, sem dar lugar a uma ditadura ou à usurpação do poder. Depois da aposentadoria, ao fim do mandato, em 1999, ele se dedicou à proteção da infância e da luta contra a Aids, uma praga que assola a África do Sul. Desde ontem, tornou-se um ícone imemorial de um povo que renasceu do ódio.
Colaborou Renato Alves