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segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

O cotidiano da Líbia

O cotidiano da Líbia

Renata Giraldi - Repórter da Agência Brasil

Um mês antes da morte do então presidente da Líbia,  Muammar Khadafi, em outubro de 2011, a comunidade internacional, reunida na 66ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York, nos Estados Unidos, autorizou a participação do Conselho Nacional de Transição (CNT) nas sessões. Na ocasião, a bandeira da oposição a Khadafi foi hasteada. O Brasil foi um dos países que apoiou a participação da oposição das discussões nas Nações Unidas.

Com 6,5 milhões de habitantes, a Líbia se divide em três grandes regiões, controladas por clãs familiares que estabelecem núcleos próprios de poder, assim como culturas e reivindicações distintas. Para as autoridades líbias, um dos principais desafios é obter o consenso unificando os desejos e as demandas desses clãs. 

A Líbia é um país multicultural, como define o embaixador do Brasil em Trípoli (capital líbia), Afonso Carbonar. Criado a partir das colonizações grega, romana e egípcia, o país mescla ainda a cultura dos povos nômades que lá estavam quando chegaram os estrangeiros. Até os dias atuais os resquícios dos séculos anteriores estão presentes no cotidiano dos líbios, que oficialmente falam árabe, mas mantêm numerosos dialetos.

No cotidiano, os líbios misturam um cardápio com características das cozinhas árabe e italiana. Com 84% da população alfabetizada, é comuns andar pelas ruas das grandes cidades e esbarrar com pessoas que falam além do árabe, italiano e inglês. O Conselho Nacional de Transição (CNT), que detém o poder na Líbia, quer criar salas de leituras públicas, um dos apelos da população.

A Líbia é dona da 9ª maior reserva de petróleo do mundo e da 25ª de gás natural. O país também registra um Produto Interno Bruto (PIB) de cerca de US$ 100 bilhões (dados de 2008 a 2010). Só com o Brasil há uma carteira de projetos e negócios estimada em US$ 5,8 bilhões. Para o embaixador, esses negócios deverão chegar a US$ 10 bilhões, nos próximos cinco anos.

Porém, em meio a dados positivos da economia, os líbios vivem dificuldades concretas no seu dia a dia. Dependentes da comércio exterior para alimentos e produtos básicos de subsistência, eles sofrem também com as limitações causadas por anos de isolamento e conflitos. Há carência na área de atendimento médico e odontológico, por exemplo.

Edição: José Romildo

Fonte: EBC  
 
 

Publicado em: 17/12/2012
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sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Por que ainda vale a pena apoiar a Primavera Árabe

Por que ainda vale a pena apoiar a Primavera Árabe

 Publicado em Carta Capital

Manifestante líbio lamenta a morte do embaixador Chris Stevens: “Desculpe, Chris. Benghazi não conseguiu proteger você”. Foto: Reprodução / Twitter

O saldo da semana em que o mundo lembrou o 11 de setembro é uma lástima. Quatro diplomatas norte-americanos foram mortos na Líbia, duas embaixadas dos Estados Unidos foram invadidas e protestos em diversos países árabes deixaram pelo menos cinco mortos, quatro no Iêmen e um no Líbano. O pretexto para a violência era o filme Innocence of Islam, produzido nos EUA, que retrata o profeta Maomé como pedófilo e bissexual. A violência gerou inúmeras dúvidas quanto ao futuro da Primavera Árabe, mas este é um momento decisivo para o futuro do Oriente Médio, que precisa de apoio para encontrar a liberdade genuína.
A Primavera Árabe teve inícios e desfechos diferentes em cada um dos países pelos quais passou. Há, entretanto, um aspecto em comum na história recente de Tunísia, Egito, Líbia e Iêmen, países em que os ditadores foram derrubados. Em todos eles, a “primavera” serviu para libertar forças políticas e sentimentos que eram suprimidos pelos regimes autoritários em vigor. Um grupo político particularmente saliente é o dos salafistas, fundamentalistas ultraconservadores que lideraram os protestos contra o filme. As manifestações desta semana escancararam, também, o forte sentimento anti-EUA presente no mundo árabe.
Um olhar sobre a história recente do Oriente Médio ajuda a perceber que o fundamentalismo religioso e o anti-americanismo estão interligados. O radicalismo se tornou influente nas sociedades muçulmanas a partir da segunda metade do século XX. Neste período, os Estados Unidos apoiaram vários golpes de Estado, adotaram como aliados alguns dos mais sangrentos ditadores, invadiram o Iraque e sempre apoiaram firmemente Israel, que os árabes odeiam em uníssono. Esses governos ditatoriais apoiados pelos EUA fecharam jornais, partidos, sindicatos e suprimiram quaisquer outras formas de dissenso na sociedade. A não ser as mesquitas. No Islã, e muitas vezes na interpretação mais fundamentalista dele, milhões de pessoas encontraram abrigo das torturas, da violência policial e da repressão política, além de alívio para a pobreza, o desemprego e o analfabetismo.
Entender a origem do que se observa no Oriente Médio não significa apoiar a violência. A interpretação do Islã e a forma como as sociedades muçulmanas da região encaram suas dificuldades estão recheadas de problemas. Pululam no Oriente Médio líderes religiosos que pregam o ódio e a violência. Políticos e cidadãos não conseguem entender, como afirma o analista Ed Husain no London Evening Standard, que a liberdade de blasfemar com o lamentável Innocence of Islam é a mesma que garante a construção de mesquitas e cemitérios muçulmanos em países ocidentais. Falta ao Islã, continua Husein, uma reforma de pensamentos que valorize o legado positivo de Maomé, profeta que, segundo o Corão, perdoou e protegeu um beduíno que blasfemara ao urinar em uma mesquita.

Nesta semana, ficou óbvio como o processo de democratização do Oriente Médio será complexo e problemático. É forte a tentação de abandonar a região a seu próprio destino, mas fazer isso seria abandonar o manifestante cuja fotografia abre este artigo em detrimento dos assassinos do embaixador Chris Stevens. Seria considerar que os 2 mil egípcios que protestaram na embaixada dos EUA no Cairo representam os 7 milhões de habitantes da cidade ou que a versão fundamentalista do Islã é a única possível para os mais de 1 bilhão de muçulmanos.
No Oriente Médio, é preciso tentar ver através da violência. Na revista Foreign Policy, Shadi Hamid lembra que nunca antes na história os EUA conseguiram aproximar tanto seus valores (democracia) de seus interesses (segurança) como ocorre hoje em relação à Líbia, à Tunísia e ao Egito. Assim, apoiar os processos de democratização desses países é, para os EUA, estar “do lado certo da história” no Oriente Médio pela primeira vez. É preciso valorizar também os sinais positivos recentes. Líbia, Egito e Tunísia conseguiram realizar eleições livres e limpas pela primeira vez em sua história nos últimos meses. Na Líbia, um dia após a morte do embaixador Chris Stevens, um novo primeiro-ministro foi eleito pelo Parlamento por apenas dois votos de diferença e o candidato derrotado aceitou o resultado imediatamente. Ainda é pouco, mas a democracia não é um receituário que pode ser simplesmente instalado num país. A democracia é um processo, doloroso e tortuoso, que continua sendo aperfeiçoado mesmo onde vigora há muito tempo. Lentamente, com apoio a quem defende a liberdade e a democracia, o Oriente Médio pode se transformar num lugar melhor para suas populações e, quem sabe, deixar o mundo todo mais estável e seguro.

terça-feira, 10 de julho de 2012

Democracia à vista na Líbia?

Democracia à vista na Líbia?

Publicado em Carta Capital
Gianni Carta

Muçulmano praticante, Mahmud Jibril chama para um diálogo as minorias, como os amazigh, os tuaregues e os islamitas fundamentalistas. Foto: AFP

Quem diria? A Líbia, país brutalizado por 42 anos de ditadura e onde a perspectiva de uma democracia laica era impensável, pôs um fim na onda de vitórias de legendas radicais muçulmanas. O povo, segundo resultados parciais das legislativas realizadas no sábado escolheu Mahmud Jibril, líder da Aliança de Forças Nacionais (AFN), a qual defende a unidade dos demais partidos políticos.
Em miúdos, diante das vitórias de partidos islamitas no Egito e na Tunísia, a Líbia demonstra que existe uma saída laica, ou pelo menos moderada, para as insurreições que, mundo árabe afora, derrubaram déspotas por anos cortejados por hipócritas líderes ocidentais.
A AFN teria obtido 80 das 200 cadeiras da Assembleia Nacional encarregada de dirigir uma nova fase de transição. Oito meses após a morte de Muammar Kaddafi, 2,7 milhões de líbios tiveram a oportunidade de ir às urnas para participar de eleições livres.
Os islamitas eram representados por duas agremiações: o Partido da Justiça e da Construção (PJC), braço da Irmandade Muçulmana, e o Al-Watan, dirigido pelo controverso ex-chefe militar de Tripoli, Abdelhakim Belhai.
Para se ter uma ideia de quem eram os candidatos islamitas, Belhai esteve com Bin Laden nas prisões da CIA no Afeganistão. Com o colapso do regime de Kaddafi, foi um dos primeiros rebeldes a adentrar Tripoli. Norte-americanos e franceses lhe forneceram armas, a despeito de seu passado.
No entanto, a Primavera Árabe, ao contrário do que previam vários experts, não gerará somente integrantes da Irmandade Muçulmana ou de partidos como Al-Watan. E o que queriam esses observadores conservadores, incluindo considerável fatia da arcaica esquerda brasileira, a pregar o perigo de um mundo árabe sob o comando de fundamentalistas? Manter no poder o ditador Kaddafi, responsável pela tortura e morte de centenas de milhares de opositores líbios?
Para numerosos líbios, Jibril, diga-se, também não é flor que se cheire. Em 2007 foi ministro da Economia de Kaddafi. Mas quem não trabalhou para Kaddafi? Ademais pesa a favor de Jibril o fato de que ele renunciou ao regime ditatorial. À época, ele trabalhava para Saif al-Islam, o filho de Kaddafi que propunha uma nova Carta. Jibril preferiu deixar o governo quando ficou transparente que Saif não pretendia incluir reformas na nova Constituição.
E no início da insurreição contra Kaddafi, Jibril tornou-se, durante sete meses, premier do Conselho Nacional de Transição (CNT).
Mahmud Jibril, de 60 anos, estudou Ciências Políticas e Econômicas no Cairo. Fez mestrado na Universidade de Pittsburgh, Pensilvânia, onde foi professor. É muçulmano praticante, mas mesmo assim chama para um diálogo as minorias, como os amazigh, os tuaregues e os islamitas fundamentalistas.
Jibril quer, inclusive, um diálogo com os separatistas, estes insatisfeitos com a alocação de cadeiras na Assembleia: 100 para o oeste, 60 para o leste (onde se encontra 80% das reservas de petróleo) e 40 para o sul.
Jibril, carismático embora sem senso de humor, é considerado um pragmático. É visto como um homem experiente e teve o bom senso de formar uma coalizão no momento em que os líbios não estão interessados em homens fortes (leia autoritários) no poder.
Ajuda o fato de Jibril integrar a poderosa tribo Warfalla. Os Warfallas são ambiciosos, fazem carreiras em todos os campos. Frequentam universidades estrangeiras, tornam-se banqueiros, professores etc. Serviram Kaddafi, mas apoiaram Jibril.
Num país sem sociedade civil e partidos políticos – legado de Kaddafi – tribos tiveram mais poder nas legislativas do que os islamitas. No entanto, não podemos esperar um futuro transparente para Líbia: diferenças regionais e rivalidades não desapareceram com a queda de Kaddafi.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Entenda a situação na Líbia

Entenda a situação na Líbia

19/04/2012 
 
Renata Giraldi
Repórter da Agência Brasil

 Em outubro de 2011, Muammar Khadafi, ex-presidente da Líbia por 42 anos, foi capturado e morto, iniciando nova fase no país. Após sete meses de conflitos em 2011, várias cidades foram destruídas, como Sirte (terra natal de Khadafi) e Brega. Há ainda instituições públicas desfeitas e empresas privadas estrangeiras que deixaram o país devido à instabilidade e à ausência de segurança.
Desde o fim do ano passado, a Líbia é governada pelo Conselho Nacional de Transição (CNT), formado por forças de oposição e com o apoio da comunidade internacional. Não há data prevista para a realização de eleições presidenciais. A prioridade do CNT é a estabilização e a reorganização do país.
A morte de Khadafi encerrou um longo período que alternou momentos de tensão e isolamento com a comunidade internacional. Depois de 2003, Khadafi retomou as articulações para se reaproximar da comunidade internacional. Porém, o processo de desgaste do seu governo acentuou-se por protestos e manifestações na região.
Localizada no Norte da África, a Líbia viveu intensos conflitos entre manifestantes, que reivindicavam o fim do governo Khadafi, com as forças leais ao governo. Em meio aos conflitos, houve a intervenção da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Manifestantes e integrantes das forças leais foram mortos. Os números são incertos.
A imprensa internacional não foi autorizada a entrar no país. Mas houve relatos de pistas e cidades bombardeadas, dificultando o acesso às pessoas e aos bairros. A cidade de Brega, localizada em uma das principais regiões produtoras de petróleo, foi atacada. Em meio aos confrontos, o então ministro dos Negócios Estrangeiros líbio Moussa Koussa fugiu para Londres, na Grã-Bretanha.
Em setembro de 2011, a comunidade internacional, reunida na 66ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York, nos Estados Unidos, autorizou a participação do Conselho Nacional de Transição (CNT) nas sessões e a bandeira da oposição a Khadafi foi hasteada. O Brasil apoiou a participação da oposição nas discussões nas Nações Unidas.
Edição: Graça Adjuto