quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

ONU ataca lei da maconha do Uruguai

ONU ataca lei da maconha do Uruguai

O Globo - 12/12/2013
 

Órgãos internacionais criticam regulamentação; embaixadas do país recebem consultas sobre residência
Montevidéu- Não bastasse o debate acalorado no Uruguai, a nova legislação que regulamenta o cultivo, a distribuição e o uso da maconha criou polêmica bem além das fronteiras do país. Um dia depois de aprovada pelo Senado, a lei reverberou em Viena. E lá, o órgão da ONU que vigia o cumprimento dos convênios internacionais sobre drogas advertiu que a iniciativa viola tratados internacionais. A junta Internacional de Fiscalização de Entorpecentes (Jife) lamentou a proposta uruguaia e alegou que o governo do presidente José Mujica não levou em conta o "impacto negativo" da legalização da cannabis sobre a saúde da sociedade.
A condenação é baseada na Convenção Única de Entorpecentes. O tratado de 1961 foi adotado por 186 países — incluindo o Uruguai — e contempla o uso da maconha apenas para fins médicos ou científicos devido ao potencial de causar dependência e prejuízos ao cérebro.
"Causa surpresa saber que um governo que é um parceiro ativo na cooperação internacional e na manutenção do Estado de direito internacional tenha decidido conscientemente romper as disposições legais universalmente estipuladas. O uso e abuso da cannabis, principalmente entre os jovens, pode afetar gravemente seu desenvolvimento"," criticou, em nota, o presidente da Jife, Raymond Yans.
As críticas ecoaram em outro órgão internacional preocupado com o impacto sobre o narcotráfico — o Escritório da ONU para Crimes e Drogas (Undoc).
— É infeliz que numa era em que o mundo está envolvido numa discussão permanente sobre o problema das drogas, o Uruguai tenha agido antes da Assembléia Geral da ONU planejada para 2016 — queixou-se o porta-voz do Undoc, David Dadge.
Mas a ousadia do projeto despertou interesse também em outros lugares. Após a aprovação da
lei, embaixadas uruguaias estão recebendo uma enxurrada de consultas de interessados em obter residência por lá: apesar de permitir o plantio da erva para consumo pessoal e a compra de até 40 gramas por mês em farmácias autorizadas pelo Estado, a nova legislação se aplica somente a residentes.
— Os embaixadores receberam consultas sobre como obter residência no Uruguai, que direitos essa residência confere
diante da nova lei, as condições para o turismo... — afirmou o chanceler Luis Almagro, ao jornal local "El País"
A legislação deverá ser sancionada nos próximos dez dias pelo presidente José Mujica. Somente a partir daí, as novas regras poderão ser adotadas após um prazo de 120 dias, necessário para que o governo conclua as regras do mercado de maconha no país, da plantação ao cigarro, passando pelo preço e pelo registro de todos os envolvidos no processo — incluindo os consumidores. A Junta Nacional de Drogas do Uruguai prevê a comercialização de quatro ou cinco tipos de cannabis ao preço de US$ 1 o grama.
A expectativa pela implementação da lei é grande. Principalmente do artigo que permite o acesso à maconha através de clubes de cultura — associações com entre 15 e 45 membros, e até 99 pés de maconha. Para a Associação dos Estudos de Cannabis do Uruguai (Aecu), uma ONG com 600 integrantes, as limitações desses clubes podem inviabilizá-los. Dois deles já existem, antes mesmo de aprovada a nova lei.
— As experiências que fizemos até agora têm muitos problemas financeiros. Vai ser muito difícil ter clubes de cultivo com apenas 45 sócios, porque há muitos custos com as plantas — disse o porta-voz da Aecu, Juan Andrés Vaz.

Fôlego curto na indústria

Fôlego curto na indústria

O Globo - 12/12/2013
 

Após cinco meses de queda, emprego cresce 0,1% no setor, mas não garante retomada
Após cinco meses de recuo, o emprego na indústria parou de cair. O total do pessoal ocupado nas fábricas avançou 0,1% em outubro, frente a setembro, segundo dados divulgados ontem pelo IBGE. Na comparação com o mesmo mês do ano anterior, no entanto, o indicador registrou a 25° queda consecutiva, de 1,7%. No acumulado do ano, a queda é de 1%. Mesmo com a reação no último mês, a expectativa entre especialistas é de que o emprego industrial só voltará a crescer quando a recuperação na produção industrial se consolidar.
O recuo no emprego em outubro ocorre quando a atividade na indústria começou a reagir, num ano de oscilações. A produção subiu 0,6% em outubro, terceira alta seguida frente ao mês anterior, num sinal de recuperação, ainda que moderada, após um 2013 de gangorra. No ano, a produção industrial acumula alta de 1,5%.
A pesquisadora do Ipea Maria Andréia Lameiras explica o descompasso entre a produção industrial e o emprego:
— Quando a produção começou a cair, em 2011 e 2012, o emprego se manteve estável. O empresário reteve a mão de obra achando que o recuo seria temporário. Mas a recuperação da produção demorou muito e o emprego na indústria acabou caindo também, embora em menor intensidade. Agora, vemos uma inversão. A produção começou a reagir, mas o emprego ainda está sob impacto — afirma Andréia.
QUEDA EM 13 DE 18 RAMOS INDUSTRIAIS
O professor de Estratégia da Fundação Dom Cabral Paulo Vicente dos Santos Alves lembra que há um período entre a retomada na produção e o início de contratação. Por isso, o que pode estar ocorrendo é um crescimento da produção a partir do uso da capacidade ociosa da indústria.
— Agora, a indústria começa a crescer, mas, por enquanto, pode não ser necessário contratar pessoal porque a mão de obra ficou com algum nível de ociosidade — diz, por sua vez, o pesquisador do Ipea Leonardo Carvalho.
Para o economista Rafael Bacciotti, da Tendências Consultoria, há uma expectativa de queda no emprego industrial em 2013 devido à retomada modesta da atividade econômica e à falta de confiança dos empresários:
— A despeito da desoneração da folha de pagamento e incentivos do governo, não vemos recuperação. A produção vem em um ritmo um pouco melhor que no ano passado graças ao câmbio mais valorizado e a ganhos de competitividade e de produtividade.
Em outubro, o total do pessoal ocupado recuou em 13 dos 18 ramos pesquisados na comparação com igual mês do ano passado, com destaque para produtos de metal (5,7%), máquinas e aparelhos eletrônicos (5,1%), máquinas e equipamentos (3,5%), calçados e couro (5,2%), outros produtos da indústria de transformação (3,8%) e produtos têxteis (3,6%).
O número de horas pagas na indústria, por sua vez, avançou 0,3% entre setembro e outubro, enquanto a folha de pagamento real recuou 0,8%. Frente a outubro de 2012, houve queda de 2% e avanço de 1,2%, respectivamente.
— (O avanço de 0,1%) é melhor do que uma nova queda, claro, mas o algo novo é apenas que parou de cair (o nível de emprego na indústria). É um resultado pontual. Ainda não dá para saber se há uma nova trajetória. O perfil dos recuos continua bem disseminado entre os setores — diz o gerente da coordenação de Indústria do IBGE, André Macedo,
REAÇÃO A VISTA
Estudo feito pelo Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) aponta que, em dez dos 18 segmentos da indústria, o número de ocupados caiu em 2012 e esta queda se manteve nos dez primeiros meses de 2013. O setor têxtil registrou recuo de 5,9% do pessoal ocupado no ano passado e de 3,8% no período entre janeiro e outubro de 2013. No vestuário, essas quedas foram de 8,9% e 2,9%, respectivamente. As taxas foram negativas em 6,2% e 5,3% no setor de calçados e couros e em 8% e 5,2% no de madeira.
— O emprego acabou não resistindo ao comportamento errático da produção industrial — aponta o economista chefe do Iedi, Rogério César de Souza.
A expectativa dos especialistas é de alguma reação na geração de empregos da indústria, assim que a produção consolidar sua tendência de crescimento:
—    Este 0,1% de alta em outubro já pode ser um indício de reação. A produção industrial está começando a retomar uma trajetória de recuperação e isso pode se refletir no emprego mais à frente — diz Andréia.
Para Souza, do Iedi, o emprego deve começar a reagir se a produção industrial mantiver um crescimento consistente por três a cinco meses. A projeção do Iedi é de um crescimento em torno de 2% da produção industrial em 2013 e de até 2,5% em 2014. lá Fernanda Guardado, da Brasil Plural, não espera uma melhora no ano que vem. Ela acha que a recuperação da indústria ao longo de 2013 perde fôlego. (Colaborou Márcio Beck)

Paraguai aprova Venezuela no Mercosul

Paraguai aprova Venezuela no Mercosul

Autor(es): Janaína Figueiredo
O Globo - 11/12/2013
 

Senado paraguaio reconhece adesão sete anos após decisão do bloco

-Buenos Aires- Sete anos após o Mercosul ter anunciado a incorporação plena da Venezuela ao bloco — decisão que posteriormente foi ratificada pelos parlamentos de Brasil, Argentina e Uruguai —, o Senado do Paraguai finalmente aprovou ontem a iniciativa, por 29 votos a favor e 10 contra. Para que o protocolo de adesão se transforme em lei falta apenas sinal verde da Câmara, onde o govemista Partido Colorado tem maioria e não deverá enfrentar dificuldades.
O debate no Senado paraguaio, que nos últimos anos rechaçou várias vezes a proposta, foi intenso. Congressistas da oposição acusaram o governo do presidente Horacio Cartes, empossado em agosto, de ter traído seus compromissos de campanha. De fato, até pouco tempo atrás, Cartes insistia em dizer que seu país, suspenso do bloco em junho de 2012, em consequência do impeachment contra o ex-presidente Fernando Lugo, só aceitaria a entrada da Venezuela após negociar seu retomo ao Mercosul.
Na última cúpula de presidentes do bloco, em meados deste ano, em Montevidéu, os governos de Brasil, Argentina, Uruguai e Venezuela comunicaram o fim da suspensão aplicada ao Paraguai. No entanto, o país, que durante a reunião presidencial tentou impedir que o presidente venezuelano Nicolás
Maduro assumisse a presidência pro tempore do bloco, ainda não voltou formalmente. Ontem, em Assunção, muitos jornalistas e políticos se perguntavam por que Cartes havia modificado sua postura, já que Maduro continua à frente do bloco.
Técnicos participam da elaboração de uma proposta do Mercosul à União Europeia para a negociação de um acordo de livre comércio. Mas o Paraguai ainda precisa discutir como será seu retorno e o que acontecerá com as 166 resoluções que o bloco adotou durante sua ausência.

Satélite brasileiro cai na Terra após lançamento falhar

Satélite brasileiro cai na Terra após lançamento falhar

Autor(es): Herton Escohar
O Estado de S. Paulo - 10/12/2013
 



Uma falha no foguete de lançamento resultou ontem na perda do satélite CBERS-3, desenvolvido em parceria entre Brasil e China. O satélite chegou a entrar em órbita e funcionou durante 30 minutos, mas não atingiu a velocidade necessária para permanecer em órbita e acabou caindo de volta na Terra.
O lançamento ocorreu no horário previsto (11h26 em Pequim, 1h26 em Brasília), do Centro de Lançamento de Satélites de Taiyuan, na China, e foi inicialmente considerado um sucesso por ambos os lados. Cerca de uma hora depois, porém, os chineses perceberam que algo estava errado.
Segundo as análises preliminares, houve um problema no tempo de funcionamento do motor do último estágio do foguete - aquele que leva o satélite dentro de uma coifa, para colocá-lo efetivamente em órbita. O foguete parou de funcionar 11 segundos antes do previsto, de forma que o satélite foi liberado no espaço a uma altitude menor (720 km, em vez de 778 km) e com uma velocidade horizontal abaixo da mínima necessária (de 8 km/segundo) para permanecer em órbita.
Sem velocidade suficiente para se contrapor à atração gravitacional da Terra, o CBERS-3 começou a perder altitude rapidamente, até reentrar na atmosfera e ser pulverizado pelo calor gerado durante a queda. Acredita-se que ele tenha caído sobre a região da Antártida.
"Tudo correu bem até 11 segundos antes do fim do lançamento", lamentou o vice-diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Os-waldo Miranda. "Esses 11 segundos (de impulso) que faltaram foram fatais para o CBERS. É como num estilingue: se você não puxar bem o elástico, a pedra cai bem na sua frente."
A diferença de altitude na órbita, segundo Miranda, poderia ter sido corrigida por meio do acionamento de propulsores internos do satélite. A perda de velocidade horizontal, porém, era incorrigível. Não se sabe qual foi a velocidade exata de liberação, "mas certamente ficou bem abaixo de 8 km/s", segundo Miranda.
Ele ressaltou que, uma vez liberado pelo foguete, o CBERS-3 entrou automaticamente em operação e funcionou perfeitamente durante 30 minutos, antes de desaparecer. "Não houve nenhuma falha do satélite. O problema foi no lançador", afirmou.
O CBERS-3 era o quarto de uma série de satélites de observação da Terra desenvolvidos por Brasil e China.
Experiência. O foguete usado no lançamento era um Longa Marcha 4B, um modelo bem conhecido e de alta confiabilidade. A falha de ontem foi a primeira registrada no programa espacial chinês com esse tipo de foguete, após 34 lançamentos consecutivos de sucesso.

Fronteiras da biotecnologia

Fronteiras da biotecnologia

Autor(es): Nico Graziano
O Estado de S. Paulo - 10/12/2013
 



Plantas transgênicas vieram para ficar. E prevalecer. Suas variedades passaram a dominar a safra de grãos no Brasil. Na corrida tecnológica, ninguém segura a engenharia genética. A ciência vence o medo obscurantista.
Lavouras geneticamente modificadas de soja, milho e algodão, nessa ordem, lideram, com dois terços, a semeadura da área nacional. Produtividade, facilidade no trato, economia de defensivos: aqui as razões principais que explicam seu notável desempenho. Problemas agronômicos, como resistência de ervas invasoras a. herbicidas ou ressurgência de pragas, existem, mas se assemelham aos das lavouras convencionais. Não se comprovou alguma tragédia ambiental, tampouco dano à saúde humana, decorrente do uso específico de transgênicos.
Há séculos o melhoramento genético tradicional tem modificado os organismos. As variedades atualmente plantadas ou criadas pouco se parecem com suas ancestrais: o frango deixou de ser caipira, o milho tomou-se ereto, as frutas perdem suas sementes. Nenhum alimento continua "natural".
O patamar da evolução mudou, porém, quando os cientistas descobriram a possibilidade de modificar artificialmente o DNA das espécies. Sem cruzamento sexual.
Tudo começou em 1972. Pesquisadores perceberam que parasitas do gênero Agrobacterium transferiam partes de seu germoplasma para as plantas hospedeiras, estimulando nestas a produção de açúcar, do qual se alimentavam. Quer dizer, ocorria na natureza um mecanismo de transgenia. Dez anos depois, em Gent (Bélgica),cientistas conseguiram pioneiramente efetuar a transgênese em laboratório. Em seguida, certas bactérias foram geneticamente modificadas visando à produção de insulina humana. Os diabéticos comemoraram. A ciência havia dado um tremendo salto no conhecimento. Desde então as equipes de ponta, em oficinas públicas e privadas, passaram a investir na engenharia genética, turbinando mundialmente a biotecnologia. Esta se destacou, ininialmente, na manipulação de microrganismos. Depois, em 1996, chegou ao campo, com o lançamento de uma variedade de soja resistente à aplicação de herbicida. Começou a grande polêmica. Ativistas ambientais denunciaram a "comida Frankenstein". Religiosos condenaram os cientistas por manipularem a vida. A opinião pública ficou confusa.
Tal temor, compreensível, resultou na proposta de uma "moratória" de cinco anos, precaução adotada pela União Europeia em 1999. Esse período se considerava suficiente para buscar o esclarecimento das dúvidas sobre a nova tecnologia. O tempo passou, a engenharia genética evoluiu, os preconceitos religiosos e ideológicos cederam lugar às evidências científicas. Novas transgenias surgiram, barreiras foram caindo. Hoje, na agricultura, as variedades modernas, geneticamente alteradas, se fazem presentes em 50 países, plantadas por 17,3 milhões de agricultores, ocupando 10% da terra arável do mundo. Não é mais uma experiência.
Novidades biotecnológicas continuam surgindo. Entre animais, desenvolvem-se cabras transgênicas que produzem em seu leite uma proteína típica da teia de aranha, capaz de gerar polímeros altamente resistentes. Nos vegetais, entusiasma a possibilidade da geração de plantas que suportam "stress hídrico". Na Embrapa, um gene de cafeeiros resistentes à seca foi introduzido em plantas de fumo, fazendo-as suportar a falta de água no solo. Em Israel, cientistas do Instituto de Tecnologia alteraram os genes de alface, impedindo que suas folhas murchem após a colheita. Sensacional.
Técnicas chamadas "DNA recombinante" invadem a medicina. Utilizando-as, o Instituto Butantã (São Paulo) desenvolveu recente vacina contra a hepatite B; também pela intervenção no genoma viral surgem vacinas contra influenza,dengue, coqueluche e tuberculose. Na Faculdade de Medicina da USP em Ribeirão "Preto estuda-se uma vacina transgênica para combater câncer. Porcos geneticamente modificados em Munique (Alemanha) provocaram fraca reação do sistema imunológico humano, abrindo caminho para os xenotransplantes.
Bactérias, leveduras e fungos geneticamente modificados têm sido utilizados na fabricação de alimentos há tempos. Esses microrganismos atuam diretamente nos processos de fermentação, gerando queijos, massas, cerveja; ajudam até na definição do aroma em bebidas e comidas. Etanol celulósico, a partir do bagaço da cana ou de capim, virá de leveduras geneticamente modificadas. Na indústria, o sabão em pó contêm enzimas, oriundas de bactérias transgênicas, que facilitam a degradação de gordura nos tecidos.
Na fronteira da biotecnologia desenvolve-se aqui, na Embrapa, uma incrível técnica -dos promotores constitutivos - capaz de restringir a manifestação de certas proteínas transgênicas em folhas e frutos das plantas modificadas. Ou seja, a planta será transgênica, mas seus frutos, ou grãos, escapam do DNA alterado. O avanço da engenharia genética, base da biotecnologia, é extraordinário em todos os ramos, dando a impressão de que o melhor ainda está por vir.
Por que, então, diante de tanto sucesso ainda há restrições contra os transgênicos, taxando-os de produtos do mal? Boa pergunta. A resposta encontra-se no preconceito criado lá atrás. A rigor, hoje em dia os produtos transgênicos, submetidos a legislação super rigorosa, são bastante seguros para o consumo. Já outros alimentos, embora "convencionais", mais parecem uma bomba química: salgadinhos, latarias, maioneses, doces insossos, essas gororobas, sim, impunemente destroem nossa saúde.
Conclusão: transgênico ou convencional, pouco importa. Vale o alimento ser saudável.
A impressão é de que o melhor dos avanços da engenharia genética ainda está por vir.

Satélite brasileiro vira pó no espaço

Satélite brasileiro vira pó no espaço

Foguete chinês falha, e satélite se desintegra
Autor(es): Vilhena Soares
Correio Braziliense - 10/12/2013
 
Equipamento de observação desenvolvido pela China e pelo Brasil ao custo de R$ 300 milhões se desintegra antes de entrarem órbita. Falha no foguete chinês causou o fracasso do projeto
Segundo informações obtidas pelo Inpe, o equipamento de observação sino-brasileiro CBERS-3 não se posicionou corretamente na órbita terrestre porque motores do veículo lançador foram desligados 11 segundos antes do previsto. Apesar do fracasso, a parceria será mantida


Uma falha de funcionamento no foguete chinês Longa Marcha 4B é a causa apontada pelo fracasso do lançamento do Satélite Sino-Brasileiro de Recursos Terrestres 3 (CBERS-3), que não conseguiu chegar à orbita da Terra como planejado. O equipamento foi enviado às 11h26 (1h26 em Brasília) do Centro de Lançamentos de Satélites de Taiyhuan. De acordo com informações do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o satélite se desintegrou durante a queda. O acidente atrasa os planos do Brasil de contar com imagens próprias geradas do espaço, mas o projeto terá continuidade, e um novo mecanismo será desenvolvido para substituir o que foi perdido. 

De acordo com o Inpe, os dados obtidos pelos pesquisadores mostram que os subsistemas do CBERS-3 funcionaram como esperado. Técnicos brasileiros que acompanhavam o processo por meio de teleconferência, no Centro de Controle de Satélites, em São José dos Campos (SP), chegaram a comemorar quando o painel solar do satélite foi aberto, dando a impressão de que a missão havia sido bem-sucedida. No entanto, o equipamento não alcançou a órbita pretendida devido ao desligamento precoce do motor de propulsão do foguete lançador, que aconteceu 11 segundos antes do planejado. Essa seria a terceira e última etapa para que o observatório entrasse em órbita. 

 O CBERS-3 seria o quarto satélite do programa de cooperação a orbitar o planeta. Os três enviados anteriormente operaram normalmente, conseguindo alcançar seus objetivos. O custo do projeto para o Brasil foi de aproximadamente R$ 150 milhões, 50% do total. A outra metade do investimento coube ao governo da China, que era também responsável por enviar a máquina ao espaço. O desastre, contudo, não deve interromper a parceria, e ambos os lados já manifestaram o interesse em iniciar imediatamente discussões técnicas que antecipem a montagem e o lançamento do CBERS-4. 

Independência

A intenção da iniciativa é que os dois países contem com imagens da superfície de seus territórios, graças a câmeras de alta resolução. Isso não ocorre desde 2010, quando o CBERS-2 encerrou suas atividades. Com um satélite próprio, o Brasil deixa de depender totalmente de informações vindas de outras nações. O monitoramento auxilia, por exemplo, o zoneamento agrícola, a prevenção de desastres naturais e também o acompanhamento de alterações da cobertura vegetal, fundamental para conter o desmatamento na Amazônia e outras florestas nacionais. 

Para Renato Las Casas, coordenador do Grupo de Astronomia e professor do Departamento de Física do Instituto de Ciências Exatas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o percalço do projeto CBERS deverá ser superado, e, futuramente, a parceria brasileira com os chineses terá mais sucesso. “Esse foi o primeiro problema enfrentado por essa empreitada, mas os satélites lançados anteriormente obtiveram bastante sucesso. Acredito que essa falha poderá atrasar, mas não irá inviabilizar todo o programa”, declara. 

 O professor também acredita que a continuidade da iniciativa é importante para o país. “As câmeras utilizadas nesse satélite podem auxiliar no monitoramento das florestas e, dessa forma, evitar desmatamento e invasões irregulares, além de ajudar no socorro a vítimas de tragédias como a de Petrópolis (RJ), onde as fortes chuvas e alagamentos deixaram pessoas em perigo. Esses recursos auxiliariam nos resgates de sobreviventes ilhados, por exemplo, pois o alcance visual é notável”, complementa. “Sou a favor de um maior investimento na área espacial, pois ela contribui para que a economia cresça. Todos os países desenvolvidos possuem sucesso nessa área, e precisamos seguir esse mesmo caminho.”

Senador boliviano se adapta a Brasília

Senador boliviano se adapta a Brasília

Autor(es): Andreza Matais
O Estado de S. Paulo - 09/12/2013
 
Após confinamento, Roger Pinto vive "de favor; definição sobre visto permanente sai em fevereiro

Cento e seis dias após protagonizar uma fuga espetacular para cruzar a fronteira que separa a Bolívia do Brasil, o senador boliviano Roger Pinto Molina transpôs na semana passada os limites que o mantinham abrigado no quarto de empregada do apartamento funcional do senador Sérgio Petecão (PSD-AG). "Pinto foi promovido", disse o político brasileiro. Ele ganhou um quarto fora da área de serviço, um antigo escritório, com janela, cama de casal e ventilador. O espaço era ocupado por um sobrinho do senador que se mudou.
O político boliviano chegou ao Brasil no fim de agosto, após deixar a embaixada do Brasil em La Paz com a ajuda de diplomatas brasileiros. A fuga provocou uma crise na diplomacia brasileira, resultou na demissão de Antonio Patriota do comando do Ministério das Relações Exteriores e a abertura de processos administrativos que podem resultar na demissão dos dois diplomatas que ajudaram Pinto a sair do seu país.
A decisão pela fuga foi tomada 454 dias após o senador ter se refugiado na embaixada brasileira na Bolívia. Ele sofria ameaças depois de acusar o governo de Evo Morales de envolvimento com o narcotráfico. Sem poder sair do prédio da embaixada, com depressão e problemas de saúde, o senador comoveu os diplomatas brasileiros que decidiram agir por conta própria diante do silêncio do governo brasileiro sobre a situação. Essa é definida pelo senador como a primeira fase do martírio de um refugiado. Amais difícil, segundo ele, é a expectativa pela volta. "Como vai ser? Os amigos estarão lá? A vida terá seguido para eles", desabafa aos mais próximos.
A mulher de Pinto também teve de deixar o país após o senador boliviano ser avisado pela polícia local de que havia um plano para sequestrá-la como tentativa para fazê-lo sair da embaixada brasileira. Ela se abrigou no Acre, onde o casal comprou uma casa. O senador, porém, não pode se mudar para o novo endereço. Recentemente, foi alertado por policiais que seria perigoso ficar na fronteira.
Os dias são preenchidos com visitas ao Senado, onde fez amigos. Entre eles, cita os senadores Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE), Ricardo Ferraço (PMDB-ES) e Petecão. Tem reuniões com o advogado Fernando Ti-búrcio, que chegou a acolhê-lo em sua casa quando ingressou no Brasil, e conversas com outros bolivianos refugiados no Brasil - 350 viveriam no Brasil nessá condição.
O senador também estuda português. Ele diz que pretende aprimorar sua fluência no idioma para o caso de ganhar permissão definitiva para ficar no país. No dia 24 de fevereiro, ou em 77 dias, como costuma contar, termina sua autorização para viver no Brasil. Caberá ao Comitê Nacional para os Refugiados (Conare) definir sua situação. São três as hipóteses: ganhar o refúgio, ter o prazo de permanência ampliado e ter negado o refúgio. No último caso, o senador teria que procurar um novo país. Ele não pensa em retornar para a Bolívia enquanto Evo estiver no poder. "Tem centenas de políticos presos porque fazem oposição, 750 exilados no mundo todo", justifica.
A expectativa sobre a decisão do seu futuro não angustia mais o senador. Ele costuma repetir que "quando terminam as opções, se aclaram as ideias". Os mais próximos apostam que o ano eleitoral de 2014 irá ajudar o senador. O governo dificilmente criará um fato negativo entregando-o aos narcotraficantes.
Guarda-chuva. No início da semana, o senador viveu seu primeiro dissabor no Brasil. O carro de sua mulher foi apreendido na fronteira do lado brasileiro pela Receita Federal. Ele mandou a mulher comprar um guarda-chuva para amenizar as caminhadas que passarão a ser feitas a pé a partir de agora. "É o que dá para fazer." O senador renunciou ao salário de parlamentar, mas não ao mandato. Vive hoje de rendimentos de uma fazenda de gado. "Estamos comendo todas as vacas."
No fim do ano, os dois devem se reencontrar para passar as festas e cumprir uma tradição da família de montar a árvore de Natal juntos. As viagens, contudo, ainda são discretas. O senador, que adotou o hábito de correr e caminhar os 10 quilômetros do Parque da Cidade após ganhar 10 quilos, costuma ser reconhecido nas ruas. Dia desses ouviu de um grupo: "Olha o ministro boliviano!". E respondeu: "Não sou ministro, sou senador".
Na Bolívia o senador também não foi esquecido. Há três semanas, o vice-presidente Garcia Li-nera o chamou em programa de TV de "gordo", "burro", "delinqüente" e "preguiçoso". Esta e outras situações são tratadas com bom humor, até mesmo a estada inicial no quartinho sem ventilação. "Aqui eu tenho liberdade", costuma dizer.
A maior angústia é sobre quando poderá voltar a sua terra. "Não estou preocupado com a decisão do Conare porque é algo que vai beneficiar apenas a mim.

Paraguai deve dar aval à Venezuela amanhã

Paraguai deve dar aval à Venezuela amanhã

Autor(es): Roberto Simon
O Estado de S. Paulo - 09/12/2013
 
Senado de Assunção já reúne votos suficientes para aprovar entrada de Caracas no Mercosul, abrindo caminho para retorno paraguaio ao bloco
Senadores paraguaios devem aprovar com folga amanhã o protocolo de adesão da Venezuela ao Mercosul, abrindo caminho para que Assunção retorne plenamente ao bloco sul-americano. Calcula-se que o governo de Horacio Cartes tenha pelo menos oito votos amais do que o necessário para conseguir passar o texto no Senado.
Os governos da região querem que o Paraguai dê o aval à Venezuela agora e, na cúpula do bloco no dia 17 de janeiro, em Caracas, receba a presidência rotativa do Mercosul. Pela ordem, seria a vez de a Argentina ocupar a cadeira, mas o Brasil propôs oferecê-la aos paraguaios como um atrativo a mais para que o país volte ao bloco e para que o governo Cartes consiga "Vender" mais facilmente a decisão ao público interno.
Em entrevista ao Estado, o chanceler paraguaio, Eladio Loizaga, negou que a pressão do Brasil e da Argentina tenha feito Cartes enviar o protocolo de adesão da Venezuela ao Senado na quinta-feira (mais informações nesta página). "Essa é uma decisão soberana do Paraguai, a qual atende aos interesses paraguaios", disse. Loizaga afirma que Assunção quer retomar logo suas funções no bloco para influenciar as negociações de um acordo comercial entre Mercosul e União Européia.
Hoje o secretário-geral do Itamaraty, Eduardo dos Santos, deve desembarcar em Assunção para discutir o assunto. O chanceler paraguaio viajará em seguida para Brasília.
A suspensão do Paraguai foi revogada pelos demais membros do Mercosul em agosto, após a eleição de Cartes. No entanto, falta ainda aos paraguaios aprovar o protocolo de adesão da Venezuela.
A punição ao Paraguai foi imposta em razão do impeach-ment relâmpago do presidente Fernando Lugo, em junho de 2012. À época, os paraguaios eram os únicos entre os membros do Mercosul que não haviam aprovado a entrada venezuelana. Com Assunção de fora, os demais membros admitiram Caracas.
Revoltados com a suspensão e com a decisão à revelia do Paraguai, senadores de Assunção votaram e reprovaram a entrada da Venezuela. Eles também declararam o então chanceler -hoje presidente - venezuelano, Nicolás Maduro, persona non grata no país. Ambas as decisões devem ser anuladas hoje.
Folga» Uma maioria simples entre os 45 senadores garante a aprovação do texto da adesão de Caracas ao bloco. A estimativa é que 31 integrantes da Câmara Alta do Congresso votem a favor, dando uma confortável vitória ao governo.
Se confirmado, esse será o quarto triunfo de Cartes no Senado em quatro meses de mandato. Ele conseguiu aprovar uma lei de responsabilidade fiscal, uma autorização para parcerias público-privadas e o aval para que o Exército seja empregado contra o Exército do Povo Paraguaio (EPP), grupo radical que vem ampliando suas ações.
"Há setores no país que querem que sigamos insatisfeitos (com a suspensão ao Paraguai), mas é preciso buscar o que é do interesse dos cidadãos paraguaios", afirmou Cartes, na sexta-feira, ao retornar da Bolívia, que está em processo de adesão ao Mercosul. Desde que assumiu, ele viajou para todos os países do bloco.
Os principais jornais do Paraguai atacaram a decisão de Cartes. "Assim, barato, se entregará a dignidade (do Paraguai) ante a afronta perpetrada pela imperatriz bandeirante (Dilma Rousseff) e sua comadre "viúva negra"do Prata (Cristina Kirchner), com a cumplicidade do ex-tupamaro (José Mujica)", escreveu o ABC Color.

Educação: Nem a elite se salva

Educação: Nem a elite se salva

Elite brasileira também fica entre as piores no PISA
Autor(es): Leonardo Vieira, Eduardo Vanini e Antônio Gois
O Globo - 09/12/2013
 
Estudantes brasileiros de 15 anos que estão entre os 25% mais ricos do país tiveram média inferior aos 25% mais pobres de nações com maior nível de desenvolvimento. O desempenho foi medido pelo Programa Internacional de Avaliação de Alunos, que compara o aprendizado em 65 países.
  
Média dos alunos mais ricos do país é pior que a dos jovens de menor renda em nações desenvolvidas

Os maus resultados do Brasil na Educação não se devem apenas à má qualidade da escola pública ou ao baixo desempenho dos alunos mais pobres.
A elite brasileira, quando comparada com a de outros países, também se sai muito mal no Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), exame divulgado na semana passada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e que compara o aprendizado de jovens de 15 anos de idade em 65 países em testes de Matemática, leitura e Ciências. Este ano, o Pisa avaliou a capacidade matemática dos estudantes.
Considerando apenas os alunos que, pelos critérios da OCDE, estariam entre os 25% de maior nível socioeconômico em cada nação, a elite brasileira figuraria apenas na 57º posição entre os 65 países. O resultado deixa a desejar mesmo quando esse grupo é comparado com os mais pobres da média da OCDE, grupo que congrega principalmente nações desenvolvidas. Enquanto os brasileiros no topo da pirâmide social registraram uma média de 437 pontos, os 25% mais pobres da OCDE tiveram média de 452 pontos.
Na prática, com essa pontuação, a OCDE entende que os brasileiros de condições econômicas mais favoráveis já dominam operações matemáticas como frações, porcentagens e números relativos, sendo capazes de resolver problemas simples — cerca de 65% dos alunos brasileiros não atingiram esse nível no Pisa. No entanto, eles não conseguem formular e comunicar explicações e argumentos com base em suas interpretações e ações.
Outra maneira de comparar seria considerar um número ainda menor de alunos de elite, considerando que o percentual de 25%, para um país ainda em desenvolvimento como o Brasil, pode não ser um retrato fiel do topo da pirâmide social. Mesmo assim, se considerada só a média dos 5% de alunos com melhor desempenho nos 65 países, a posição do Brasil no ranking seguiria praticamente inalterada: 58º.
O diagnóstico é o mesmo também quando se consideram apenas alunos cujos pais têm nível superior. Nessa comparação, o Brasil ficaria na 56º posição. No topo desse ranking, aparece novamente a província chinesa de Xangai, cuja média dos alunos é 219 pontos superior à dos brasileiros. Pela escala do Pisa, isso equivale a dizer que essa elite brasileira com pais de alta escolaridade precisaria estudar mais cinco anos letivos para chegar ao nível de conhecimento dos chineses de Xangai em Matemática.
Os dados do Pisa foram divulgados uma semana depois de o resultado do Enem 2012 mostrar que as escolas com as melhores médias no exame do MEC são particulares. De acordo com um levantamento feito pelo GLOBO, nove dos dez colégios cariocas com as notas mais altas no Enem têm mensalidades acima de R$ 2 mil.
Na opinião do coordenador da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, Daniel Cara, os dados mostram que as escolas particulares no Brasil cobram muito por um serviço que não é assim tão melhor do que o oferecido pela rede pública. Segundo ele, o ensino privado no Brasil é desregulamentado e conserva margens de lucro superiores aos seus pares no exterior:
— É um comportamento parecido com um mercado de luxo: não presta um serviço tão bom assim, mas consegue fazer com que a elite se diferencie em termos de consumo. Para um determinado estrato da sociedade, colocar os filhos em escolas muito caras, independentemente da qualidade do serviço, é um caráter de diferenciação. E você tem chances também de construir um capital social: o filho de um grande empresário pode conviver com filhos de outro grande empresário — explica Cara.
Para o presidente do Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino no Estado do Rio de Janeiro (Sinepe), Vitor Notrica, o mau desempenho brasileiro dos 25% mais ricos no Pisa não se deve necessariamente às escolas, mas a questões culturais. Ele acha que esse rendimento abaixo da média pode estar ligado à relação entre alunos e professores no Brasil.
— A mensalidade da escola está ligada à sua proposta pedagógica. Tem escolas bilíngues, aplicadas em tecnologia, horário integral... Mas a qualidade do ensino depende, principalmente, do pulmão do professor. É fato que em países como a França e a Alemanha os alunos respeitam muito mais o professor, e por isso são cobrados com vigor. Isso pode também ser uma explicação para o resultado — afirma Notrica.
Membro do Conselho Nacional de Educação e professor da UFMG, Francisco Soares alerta que, mesmo no grupo de 25% mais ricos do Brasil, ainda há alta heterogeneidade:
— Separar em quatro grupos de mesmo tamanho não é razoável para um país tão desigual como o Brasil. Nós temos uma elite, sim, mas não é de 25%. Se formos lá na nata das nossas escolas, talvez elas não deixem a desejarem relação ao resto do mundo. Há escolas, sim, que estão cobrando caro, mas estão colocando os alunos na elite mundial.
O diretor executivo da Fundação Lemann, Denis Mizne, segue a mesma linha de análise de Francisco Soares, mas ressalta que apenas 1% dos estudantes brasileiros atingiu os níveis mais elevados na prova de Matemática do Pisa:
— Os 25% não são uma comparação ideal num país com renda tão concentrada como o Brasil. Nossa elite se aproxima dos 10% ou 5%, em média. Mas a grande questão é que ninguém está indo muito bem em Educação aqui. Mesmo nessa amostra, somente 1% dos nossos alunos conseguiu alcançar notas boas. Esse é o dado mais assustador. Temos pouquíssimos alunos que sabem bem.
Eliane Porto é gerente-geral no Rio da agência de intercâmbios Cl, que envia jovens brasileiros para cursar parte do ensino médio no exterior. Segundo ela, os alunos voltam empolgados com o ensino lá fora:
— Eles elogiam muito a infinidade de matérias eletivas, que vão da prática de esportes a aulas de marcenaria. Tudo isso os deixa mais envolvidos e motivados com a escola.
DIFERENÇA NO RESPEITO AO PROFESSOR
Cursando o 2º ano do ensino médio num colégio particular do Rio, o aluno Decio Greenwood, de 16 anos, conhece pelo menos duas realidades distintas. Devido ao trabalho de seus pais, o adolescente já passou por escolas inglesas duas vezes: a primeira aos 12 anos; a segunda, no começo deste ano. Segundo ele, as diferenças já começam pelo tratamento dado à rede pública.
— Estudei lá fora em escolas públicas, que são tão boas ou melhores que as particulares daqui. Este ano, frequentei por um mês um colégio que fica perto de Oxford e notei como o ensino de lá é mais preocupado em proporcionar uma vivência ampla ao aluno. Os estudantes têm laboratórios de tecnologia, aulas de culinária e muitas opções esportivas. Enquanto no Brasil as escolas se preocupam em mostrar que um mais um são dois, os professores de lá estão mais interessados em mostrar por que um mais um são dois — compara.
A valorização dos professores nas escolas inglesas também chamou a atenção de Decio.
— Os professores na Inglaterra são muito respeitados. Independentemente da idade deles, os alunos os tratam com muito respeito. Esses profissionais são elevados a um nível muito acima do que esse que notamos aqui, onde nem mesmo o governo os respeita — diz.

Nelson Mandela - 1918 2013 - Peregrinação à África do Sul

Nelson Mandela - 1918 2013 - Peregrinação à África do Sul

O Estado de S. Paulo - 09/12/2013
 
No primeiro de sete dias de cerimônias oficiais de despedida a Nelson Mandela, a África do Sul lotou templos de todas as religiões. O país se prepara para receber 53 chefes de Estado e de governo que confirmaram presença em uma jornada de homenagens que começarão com uma multidão de 80 mil pessoas reunidas no estádio Soccer City, amanhã, em Joanesburgo.
Cerimônia tão concorrida na história recente só a do papa João Paulo II, que está em processo de canonização pela Igreja Católica. No funeral do Pontífice, em 2005, compareceram cinco reis, seis rainhas, 70 presidentes e primeiros-ministros e 2 milhões de fiéis.
Para o último adeus a Mandela, que morreu aos 95 anos na quinta-feira por complicações decorrentes de problemas pulmonares, a presidente Dilma Rousseff levará uma comitiva de peso. Pela primeira vez em um evento internacional, participarão todos os presidentes do Brasil vivos. Eles haviam se encontrado na posse dos integrantes da Comissão da Verdade, em maio de 2012, em Brasília. Embarcam juntos, hoje, ao meio-dia, no Rio. Antes, Dilma participa de um evento com o ex-presidente americano Bill Clinton, que também viaja para a África.
Enquanto os líderes se preparam para se deslocar ao país que viveu quase cinco décadas sob o regime oficial de segregação racial, o apartheid, e foi redemocratizado em 1994, quando o partido de Mandela, o Congresso Nacional Africano (CNA) foi eleito com 62% dos votos e desde então está no poder, a África do Sul reza. Ontem, por cerca de três horas, uma multidão orou e cantou em um dos locais mais simbólicos da resistência ao apartheid, a igreja Regina Mundi, em Soweto. Na Regina Mundi, Mandela é lembrado em um mural na entrada, ao lado de vidraças com buracos de bala com quase 40 anos de idade, ainda preservados. Para lá correram jovens perseguidos pela polícia na revolta do Soweto, em1976.
Com apenas 7% da população, a Igreja Católica é uma das maiores e mais organizadas da África do Sul, dada sua fragmentação religiosa.
Orgulhosamente africana, a Regina Mundi faz suas missas em línguas tradicionais, como zulu e soto, faladas pela maioria da população negra de Joanesburgo. O inglês é secundário. Os vitrais têm imagens de negros ao lado de passagens bíblicas, e o quadro principal ao lado do altar mostra Maria e o menino Jesus de pele escura. A Bíblia exposta é em zulu. Em tom messiânico, o padre Sebastian Rossouw referiu-se a Mandela como "luz maior, a luz de Deus".
Mandela, mesmo sem ser católico, tinha relação próxima com o local. Em 1997, já como presidente, deixou-se filmar lá dançando com os braços dobrados junto ao corpo, no que ficou popularizado como "Madiba dance". Foi na Regina Mundi que ocorreram as audiências da Comissão de Verdade e Reconciliação após o apartheid, modelo para todas as outras (inclusive a brasileira).
Em todo o país, catedrais, igrejas de bairro, sinagogas, mesquitas e locais de culto religioso em geral prepararam algo diferente para a tradicional celebração de domingo, o primeiro desde a morte de Mandela. O atual presidente sul-africano, Jacob Zuma, compareceu a um serviço metodista – a Igreja à qual a família Mandela pertence – na periferia de Joanesburgo com Winnie, ex-mulher do também Prêmio Nobel da Paz de 1993.
– Quando nossa luta (contra o apartheid) terminou, ele pregou e praticou a reconciliação para que os que haviam se enfrentado se perdoassem e se convertessem em uma nação – lembrou Zuma diante de mil pessoas.
A confluência de líderes de Estado reunidos já gera polêmicas. Ontem, um jornal conservador iraniano, o Kayhan, que representa a ala mais dura do regime iraniano, advertiu neste domingo para a "armadilha" de uma eventual participação do presidente Hassan Rouhani no funeral, onde o líder do Irã poderia se encontrar com Barack Obama. Teerã ainda não anunciou quem será o representante do país. Mandela fez duas visitas ao Irã, em 1992 e 1999.