O anúncio de que o vírus HIV sumiu após o tratamento feito numa
criança dos EUA foi recebido com cautela pelos médicos. Para alguns
especialistas, a técnica tem riscos e não seria alternativa de combate à
doença.
Para a OMS e especialistas, o caso de um bebê que teve o vírus da
Aids controlado mesmo depois de o tratamento ser suspenso requer mais
estudos. A técnica não pode ser considerada uma alternativa de combate à
doença, pois seria muito arriscada Bruna Sensêve
O caso do primeiro bebê a obter a cura da infecção pelo vírus da
Aids, anunciado durante a 20ª Conferência Anual sobre Retrovírus e
Infecções Oportunistas (CROI), nos Estados Unidos, movimenta a
comunidade científica mundial. A criança adquiriu o HIV da mãe,
soropositiva, durante o parto, mas, depois de uma intensa e precoce
terapia com antirretrovirais, deixou de apresentar níveis detectáveis
do micro-organismo, mesmo com a suspensão da medicação. O caso —
apresentado pela equipe da infectologista Deborah Persaud, do Hospital
Universitário Johns Hopkins, em Baltimore — foi comemorado pela
Organização Mundial da Saúde (OMS), mas a entidade, assim como
especialistas da área, pediu ontem muita cautela sobre o episódio, já
que a descoberta ainda precisa de confirmações.
Antecipado no fim de semana pelo jornal The New York Times, o caso foi
apresentado à comunidade médica na manhã de ontem. O coordenador do
Laboratório de Pesquisa em Infectologia da Universidade Federal da
Bahia (UFBA) e diretor da Sociedade Brasileira de Infectologia, Carlos
Brites, acompanhou o evento e detalhou ao Correio o relato feito pelos
autores do trabalho. Segundo ele, os pesquisadores contaram que a mãe
só foi diagnosticada como portadora do HIV ao chegar, já em trabalho de
parto, a um hospital no estado americano de Mississipi . Todos os
protocolos para diminuir as chances de transmissão do vírus à criança
foram realizados, mas não foi possível impedir a infecção. Logo nas
primeiras 24 horas, um exame detectou a presença do HIV, e o bebê
passou a receber antirretrovirais 30 horas após o nascimento (veja ao
lado).
Uma bateria de 16 testes foi feita na criança durante o primeiro mês de
vida. Todos os exames confirmaram a infecção e registraram a
multiplicação do HIV. “O vírus foi detectado em vários momentos,
mostrando que ele tinha adquirido a infecção, e que não se tratava de um
erro de laboratório ou algo do tipo”, contou Brites. A confirmação
feita pela equipe refuta muitas indagações levantadas por especialistas
da área após a primeira divulgação, no domingo. A principal dúvida
antes da apresentação de ontem era se o bebê estava realmente
contaminado.
O questionamento fazia sentido. Na transmissão vertical, essa
confirmação ocorre, geralmente, seis meses após o nascimento. Isso
porque os anticorpos da mãe e do bebê se misturam, ficando difícil
identificar se as células que combatem o vírus observadas nos testes
são, de fato, produzidas pela criança para combater a infecção ou se
têm origem materna (nesse caso, o filho só herda as células de defesa, e
não o HIV). “Ficou claro que esse tipo de erro não é uma
possibilidade. Foi uma sequência grande de testes muito sofisticados
que confirmou a infecção”, atestou o especialista brasileiro.
O que o caso tem de inédito é o fato de o paciente ter continuado com
uma presença reduzidíssima do HIV no organismo meses depois de a
medicação ter sido suspensa. Até a criança deixar de tomar os remédios,
a equipe do Johns Hopkins realizou o procedimento considerado padrão
nesses casos, mantendo o tratamento constantemente. Contudo, quando o
bebê estava com 1 ano e 6 meses, a mãe parou de levá-lo ao hospital,
interrompendo a terapia.
Cinco meses mais tarde, ela voltou. A expectativa dos médicos era
observar elevados níveis de vírus no sangue. Surpreendentemente, os
exames não confirmaram o quadro de piora. A equipe observou que o HIV
não estava mais presente no sangue da criança e que algumas poucas
células, só detectadas com tecnologia avançada, não se replicavam,
mesmo na ausência do tratamento. “Provavelmente, a introdução precoce
da terapia evitou que a infecção se instalasse definitivamente. É um
caso que se junta ao do paciente de Berlim”, acrescentou Brites.
Funcional
O coordenador do Comitê de Retrovirose da Sociedade Brasileira de
Infectologia e professor de imunologia clínica e alergia da
Universidade de São Paulo (USP), Esper Kallás, explica que a cura do
bebê é chamada de funcional, pois o vírus, apesar de controlado, ainda
está presente no corpo da criança. Assim, não é possível saber se o
vírus pode voltar a se manifestar.
Os níveis não detectáveis de HIV encontrados no bebê são comuns em
pacientes que estão sob terapia antirretroviral, mas não se mantêm
quando a medicação é retirada. Uma vez iniciado, o tratamento é para a
vida toda. “Se for retirado de uma pessoa que toma o coquetel hoje, em
uns 15 dias o vírus volta a ser detectado no sangue. O acaso de a mãe
suspender o tratamento por conta própria proporcionou essa observação”,
observa Kallás.
O professor lembra ainda que uma parcela muito pequena (menos de 1%) de
adultos soropositivos apresenta quadros semelhantes. “Espontaneamente,
eles parecem controlar o vírus, mas infelizmente são muito poucos. O
que faz com que eles controlem, a gente não sabe.” A própria natureza
do experimento não é passível de replicação, pois a interrupção do
tratamento em um recém-nascido pode piorar o estado de infecção. “É
antiético propor um estudo desses. A mãe, nesse caso, suspendeu porque
quis, colocando em risco a saúde da criança”, pondera.
Para o infectologista Alberto Chebabo, do Laboratório Exame e do
Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, ligado à Universidade
Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), se os resultados anunciados realmente
forem verdadeiros, o estudo é uma confirmação do que já era imaginado
pela comunidade médica. Chebabo explica que, atualmente, é possível
reduzir a carga viral a níveis não detectáveis no sangue, mas o vírus
permanece presente no organismo em locais denominados de reservatórios
ou santuários. Ali, estão células infectadas do sistema imunológico que
não passam na corrente sanguínea. Estão no cérebro, no intestino ou
outras áreas que a droga não consegue atuar adequadamente.
“O que pode ter acontecido é que não houve tempo de o vírus evoluir
para esses santuários”, analisa. “O resultado pode confirmar a teoria
de que, se conseguirmos eliminar esses reservatórios, conseguiríamos a
cura. Porém, é só o primeiro passo.”
Transplante
O americano Timothy Brown é considerado o primeiro caso de cura do HIV.
O método usado ficou conhecido como cura por esterilização. Ele tomava
o coquetel contra o HIV quando foi diagnosticado com leucemia. Brown
passou por uma agressiva quimioterapia que destruiu sua medula e
precisou receber um transplante com células-tronco. Seu doador possuía
uma mutação genética que o tornava naturalmente resistente à infecção
pelo HIV. Depois da cirurgia, realizada em Berlim, o vírus não voltou a
se replicar no organismo do americano.