Europeus reagem contra a austeridade
Por Peter Beaumont

François
Hollande poderá ser um foco de mudanças se vencer Nicolas Sarkozy nas
eleições presidenciais francesas. Foto: Patrick Kovarik/AFP
No final do mês passado, 5 mil pessoas marcharam por Dublim em
protesto contra um novo imposto residencial de cerca de 100 euros que o
governo irlandês já lutava para coletar dos eleitores, cansados das
medidas de austeridade impostas a uma economia estagnada.
Foi uma demonstração pequena, pelos padrões de algumas realizadas em
toda a Europa nos últimos meses — em lugares como a praça Syntagma em
Atenas ou nas cidades espanholas durante a greve geral que ocorreu pouco
antes do protesto em Dublim –, mas o número de pessoas nas ruas não é
tudo hoje em dia.
Como revelaram pesquisas feitas na Irlanda na semana passada, a
aprovação às políticas do governo de coalizão está despencando, enquanto
o apoio ao Sinn Féin — que pede um voto negativo no referendo este mês
sobre o pacto fiscal europeu que obrigaria os países membros (menos o
Reino Unido, que optou por ficar fora) a déficits orçamentários de 3% ou
menos perpetuamente — o transformou no segundo partido mais popular da
Irlanda, depois do Fine Gael. Se ainda haverá um pacto fiscal a se votar
quando os irlandeses forem às urnas é um ponto discutível. O provável
vencedor do segundo turno das eleições presidenciais francesas neste
domingo, o socialista François Hollande — que algumas pesquisas situam 9
pontos à frente do atual presidente, Nicolas Sarkozy –, disse que
revisaria o acordo.
Nos últimos dias o governo de coalizão da Holanda foi derrubado pela
saída do Partido da Liberdade, de extrema-direita, de Geert Wilders, que
não quis assinar um orçamento de acordo com o pacote de aperto de cinto
da UE, apesar de o governo holandês ter sido um dos mais agressivamente
favoráveis à aplicação de rígidas medidas de austeridade a outros
integrantes como Grécia e Portugal. Na verdade, pesquisas de opinião nos
Países Baixos sugerem que se as eleições — marcadas para setembro —
ocorressem hoje os partidos contrários ao regime de austeridade, tanto
de esquerda como a extrema-direita, poderiam conquistar um terço dos
assentos legislativos.
Enquanto alguns analistas indicaram a emergência da Holanda como
líder de um movimento pan-europeu contra a austeridade, outros acreditam
que algo mais complexo está ocorrendo — um “momento de virada de jogo”
na Europa, em que eleitorados individuais são encorajados a reagir e
discutir novas estratégias por eventos que eles veem ocorrer em outros
países. O que está sendo pedido pelos eleitores, enquanto a dívida
europeia continua inchando juntamente com o desemprego, enquanto o
crescimento evaporou, é nada menos que um “plano B” — uma alternativa à
diretriz antiausteridade dominante. De maneira significativa, pela
primeira vez esses apelos estão ganhando força real.
“A única coisa que você percebe”, diz Eoin O’Malley, um professor de
política na Universidade da Cidade de Dublim que pesquisa reações à
crise europeia, “é como a reação em um país [contra a austeridade]
influencia a política em outros lugares. Você vê os comentários de
Hollande na França e a queda do governo holandês influenciando como os
eleitores daqui veem o referendo irlandês sobre o pacto fiscal e
acreditando cada vez mais que eles podem dizer não. Se você me perguntar
hoje, eu apostaria que o voto negativo é mais provável do que era na
semana passada.”
Em apenas algumas semanas, a antiga catástrofe da dívida europeia que
tropeçou da cúpula para o resgate para a queda de governos se
transformou em uma crise de legitimidade, muito mais corrosiva e cada
vez mais ampla, que põe em confronto os eleitorados e as castas
políticas estabelecidas. De Londres a Madri, do núcleo setentrional da
UE a suas periferias, os eleitores começaram a resistir as rígidas
políticas pregadas sobre metas e prazos para redução da dívida, para
satisfazer os mercados e as agências de classificação que não têm meios
de incentivar o crescimento.
Enquanto em Londres e Berlim políticos e autoridades se ativeram ao
roteiro — visto que não há plano B –, em outros lugares nas últimas
semanas houve cada vez mais sinais de que autoridades graduadas da UE e
dos governos estão rapidamente acordando para os riscos que representa
para a UE o novo clima de resistência do público. Isto viu a política se
reafirmar em uma crise que durante muito tempo foi dominada por
considerações econômicas e que causou a queda de cinco governos europeus
até agora.
Na última quarta-feira, o
Wall Street Journal citou
autoridades não identificadas sugerindo de maneira tentativa que já
começou um debate sobre a necessidade de atenuar as metas de 2009 para
reduzir a dívida a 3% do PIB até 2013. “O debate não deve ser excluído”,
teria declarado uma autoridade europeia, segundo o jornal, “mas poderia
dar um sinal de que estamos afrouxando, em um momento em que lutamos
para mostrar que podemos manter o sistema.”
Na sexta-feira, esse debate — iniciado por Hollande — havia sido
adotado em lugares inesperados. Mario Monti, o primeiro-ministro
tecnocrata da Itália instalado exatamente para seguir um regime de
austeridade, tornou-se o último líder a criticar uma política focalizada
apenas em cortes. “Se não houver demanda, o crescimento não se
materializará. Todas as reformas que estamos implementando hoje são
deflacionárias”, ele disse.
Na última quinta-feira, o presidente do Conselho Europeu, Herman Van
Rompuy, disse que o crescimento precisa ser trazido para a frente do
debate, embora mais tarde ele tenha advertido: “Não há fórmulas
mágicas”. Ele estava respondendo a Mario Draghi, do Banco Central
Europeu, que na quarta-feira disse à Comissão de Assuntos Econômicos e
Monetários do Parlamento Europeu que um pacto fiscal deveria ser seguido
de um “pacto de crescimento”.
É um debate que foi acompanhado por comentários intensos e febris de
economistas e analistas na mídia, que se animaram a declarar natimorto,
com menos de dois meses, o tão anunciado resgate da Europa.
No
New York Times na semana passada, o economista Paul
Krugman, ganhador do prêmio Nobel — há muito tempo na linha de frente
dos críticos às medidas de austeridade –, denunciou as fracassadas
“políticas econômicas zumbi” dos “austerianos” da Europa (e dos Estados
Unidos).
No
Financial Times, José Ignacio Torreblanca, do Conselho
Europeu para Relações Exteriores, refletindo uma opinião crescente mesmo
entre o governo conservador espanhol de Mariano Rajoy, cuja nota de
crédito foi rebaixada pela segunda vez na sexta-feira, anunciou: “Está
na hora de dizer basta ao absurdo da austeridade”.
Nada disso é o que a Alemanha e sua chanceler, Angela Merkel, querem
ouvir antes de uma importante votação este mês no Parlamento alemão, que
não apenas aprovaria o pacto fiscal, mas, ainda mais importante, o
Mecanismo Europeu de Estabilidade — o novo fundo de resgate de
emergência da região. Outros fatos no horizonte incluem eleições na
Grécia e as eleições legislativas na França em junho, as quais ameaçam
transformar o crescente momento antiausteridade, sustentado pelo
populismo ascendente, em uma grande crise.
Mas se há um lugar onde a reação à austeridade não está sendo sentida
é na Alemanha, onde a prescrição dos políticos e banqueiros centrais
para os problemas da Europa continua praticamente a mesma. Ela foi
reiterada em comentários feitos ao
New York Times na semana
passada por Jens Weidmann, presidente do Bundesbank e que já foi um dos
principais assessores de Merkel. Ele advertiu que acordos feitos
anteriormente devem ser respeitados, mesmo com a perda de uma parte da
“soberania nacional”. Ulrike Guérot, uma colega de Torreblanca e
pesquisadora representante da Alemanha no Conselho Europeu para Relações
Exteriores, explica: “É diferente para o governo alemão. Ele ainda pode
suportar o sentido mais amplo da crise política porque não tem 50% de
desemprego como na Espanha, nem um populismo crescente”.
Apesar disso, ela acredita que fora da Alemanha “está chegando uma
mudança de jogo” que Merkel não poderá ignorar. Enquanto Guérot acredita
que a rápida mudança de tom do debate pode causar um momento de crise
política para a Europa, ela também argumenta que o fim iminente de
“Merkozy” — o relacionamento estreito entre França e Alemanha,
personificado em Merkel e Sarkozy, que conduziu as políticas econômicas e
a política europeias — pode ser uma boa coisa. “O que está acontecendo é
sério. François Hollande parece estar surgindo como o líder de um
movimento antiausteridade pan-europeu.”
Guérot acredita que o “relacionamento simbiótico” de Sarkozy e Merkel
como propulsor das políticas da UE pode ter contribuído em grande
medida para o sentimento de muitos países e eleitorados de que estavam
sendo excluídos do debate. “Existe uma vantagem no fim da relação
Merkel-Sarkozy, porque abrirá espaço para novas discussões, ideias e
debates.” No mínimo, ela acrescenta, sobre o necessário realinhamento na
relação entre a democracia na UE e a influência dos mercados. “Não
estamos falando de crescimento
versus austeridade. O debate é
sobre o tipo de crescimento de que precisamos.” E, ela acrescenta, sobre
se as metas do pacto fiscal são rígidas demais. “Não podemos só
economizar. Precisamos investir. O mundo não vai acabar se a meta de 3%
for infringida em alguns pontos no ano que vem.”
Enquanto alguns argumentam que uma crise política total na Europa,
que cause a rejeição das medidas de austeridade propostas pela Alemanha,
poderia forçar uma crise na Alemanha sobre a Europa, Guérot acredita
que o resultado mais provável é uma renegociação. “Merkel é uma
sobrevivente, e é pragmática. Eu acho que Hollande sabe que também vai
precisar de uma acomodação. Se esse pacto fiscal falhar — se houver uma
segunda versão — ele terá de ser enfrentado.”
Enquanto analistas como Guérot podem estar descontraídos sobre esse
resultado, para os políticos no centro da tempestade crescente as
apostas não poderiam ser mais altas. Na sexta-feira em Dublim, foi a vez
de o vice-primeiro-ministro irlandês, Eamon Gilmore, cujo Partido
Trabalhista foi crucificado nas pesquisas de opinião por apoiar a
austeridade, usar linguagem apocalíptica, advertindo que a Irlanda não
teria acesso a fundos alternativos se o tratado fiscal for rejeitado
este mês.
A verdadeira pergunta é se os eleitores da Irlanda — ou da Europa –,
depois de anos de sofrimento, ainda têm estômago para essa mensagem.
LINHAS DE FALHA NA ZONA DO EURO
PAÍSES BAIXOS
Um dos maiores animadores do pacto fiscal, o governo holandês
desmoronou na semana passada quando o Partido da Liberdade, de
extrema-direita, deixou a coalizão governante por causa do orçamento de
austeridade. Este propunha cortes de 14,4 bilhões de euros, reduzindo
muito os gastos em saúde e os salários do setor público, e pretendia
aumentar os impostos sobre o consumo e a idade de aposentadoria. Um
acordo de última hora com partidos de oposição parecia ter garantido um
novo orçamento dentro do pacto de 3%, mas poderia se desfazer nas
eleições marcadas para setembro.
ESPANHA
Com o desemprego jovem em 50%, a quarta maior economia da Zona do
Euro — que no mês passado teve uma greve geral e extensas demonstrações —
é o último país a simbolizar os problemas financeiros da Europa. Na
sexta-feira, a agência de classificação Standard & Poor’s diminuiu a
nota de crédito da Espanha para BBB+, seu segundo rebaixamento,
enquanto o desemprego geral atingiu 25%. Apesar de o primeiro-ministro
Mariano Rajoy apoiar publicamente um programa de austeridade para evitar
o resgate, há dúvidas crescentes sobre até onde vai seu desejo de
implementar reformas.
IRLANDA
Hoje no quarto ano de um regime de austeridade, os eleitores
irlandeses não viram o retorno do crescimento e começam a se rebelar
contra os cortes do governo. Tendo seguido obedientemente a prescrição
alemã de cortar a dívida, os irlandeses começaram a abandonar partidos
como Fine Gael e o Trabalhista, enquanto promoviam o Sinn Féin ao
segundo lugar, por seu apoio ao voto negativo no referendo sobre o pacto
fiscal europeu em 31 de maio, que segundo o partido exigiria cortes
extras de 6 bilhões de euros. Enquanto o apoio ao referendo ainda tem
uma pequena maioria entre os que se dizem decididos, 39% dos eleitores
irlandeses ainda não definiram sua posição.
FRANÇA
Com a França registrando seu 11º mês consecutivo de desemprego
crescente — quase 10% em março –, o fraco crescimento e as finanças
públicas em profunda tensão, os eleitores franceses parecem decididos a
rejeitar Nicolas Sarkozy, um dos principais arquitetos, com Angela
Merkel da Alemanha, do pacto fiscal que insiste que os déficits
orçamentários se limitem a 3% do PIB perpetuamente. Em vez disso, eles
afluíram para a extrema-direita de Marine Le Pen e para o socialista
François Hollande, líder emergente do movimento antiausteridade na
Europa, que advertiu que não ratificará o pacto.
ALEMANHA
A maior economia e o país mais competitivo da Europa. A chanceler
Angela Merkel elaborou com a França as medidas de austeridade, e apesar
de ter sustentado amplamente o euro a Alemanha hoje começa a parecer
cada vez mais isolada na crescente reação contra os cortes
orçamentários. Com um aliado chave, o presidente francês Nicolas
Sarkozy, provavelmente de saída, e outro, os Países Baixos, prejudicado
por um governo provisório ineficaz, como a Alemanha reagirá à crescente
crise de legitimidade política na UE definirá em ampla medida o
resultado.