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quarta-feira, 10 de abril de 2013

Europa enfrenta dilema com paraísos fiscais em seu próprio território

Europa enfrenta dilema com paraísos fiscais em seu próprio território

Publicado em Carta Capital

Para um investidor, nada é mais importante que segurança, altos rendimentos e baixos impostos para o seu dinheiro. E tais condições paradisíacas não são oferecidas apenas em praias de areia branca do Caribe – dentro da própria Europa florescem alguns paraísos fiscais. “Não precisamos olhar para o Caribe. Basta olhar ao nosso redor”, diz o auditor fiscal alemão Reinhard Kilmer.
O Reino Unido, por exemplo, protege as ilhas do Canal da Mancha e a Ilha de Man. A França protege Mônaco. Além disso, aponta Kilmer, os europeus ainda têm problemas com Luxemburgo, Suíça e Áustria. Nestes três países, os rendimentos não são tão elevados como, por exemplo, nas Ilhas Virgens, mas a segurança é imbatível.
Mulher caminha em frente ao banco austríaco Raiffeisenbank. Foto: Alexander Klein/ AFP
Mulher caminha em frente ao banco austríaco Raiffeisenbank. Foto: Alexander Klein/ AFP
O líder entre os paraísos fiscais da União Europeia é o pequeno Grão-Ducado de Luxemburgo, um membro fundador do bloco. O ministro luxemburguês das Finanças, Luc Frieden, rejeita, no entanto, a classificação. “Somos um centro financeiro europeu e não incentivamos ninguém à evasão fiscal”, diz.
Em Luxemburgo estão instalados 141 bancos de 26 países, segundo informações do governo local. “Luxemburgo está entre os dez melhores centros financeiros mundiais e é o segundo maior centro para fundos de investimentos do mundo”, afirma orgulhosamente o site da sucursal do Deutsche Bank no país.
O Deutsche Bank também sabe dizer por que Luxemburgo é tão popular: “A receita de sucesso: clareza e flexibilidade. Por um lado, um sigilo bancário rigoroso e duras leis de lavagem de dinheiro; pelo outro, uma política fiscal competitiva e autoridades pragmáticas, que dão andamento a processos de aprovação de forma rápida e desburocratizada.”
Transparência em questão
Há décadas Luxemburgo vem cultivando sua reputação de centro financeiro seguro. Por volta de 2,1 trilhões de euros estão aplicados apenas na forma de ativos de fundos de investimentos no país, segundo a empresa de consultoria financeira Ogier. Os fundos quase não pagam impostos sobre esse dinheiro.
Muitas empresas internacionais acabam abrindo filiais em Luxemburgo apenas para ter seus lucros submetidos a taxas menores. De acordo com as regras europeias, a manobra é totalmente legal. O dinheiro do exterior assegura a Luxemburgo a maior renda per capita da União Europeia, e não é de se admirar que eles defendam seu modelo de negócios. Nesse ponto, Frieden não quer que nada seja alterado – empresas e investidores devem continuar a se sentir bem amparados em Luxemburgo.

O eurodeputado Sven Giegold, especialista financeiro do Partido Verde, exige mais transparência nos modelos fiscais das empresas. “Em seus balanços, uma empresa deveria divulgar quantas filiais possui, quais os seus lucros e onde os obtêm e quanto imposto foi pago sobre eles”, diz Giegold. Assim, jornalistas e a sociedade civil poderiam constatar se isso se encontra numa proporção sensata. “Dessa forma, todo esse turismo fiscal ganharia transparência.”
Em entrevista ao jornal alemão FAZ, neste último fim de semana, Luc Frieden mostrou-se disposto a considerar se, no futuro, a receita proveniente dos juros de investimentos privados sejam automaticamente comunicados às autoridades fiscais do país de origem do investidor. Em Luxemburgo, ele foi logo criticado. “O sigilo bancário deve permanecer”, exigem imediatamente os Jovens Democratas (ala jovem do Partido Democrata) em comunicado.
Até agora, Luxemburgo e Áustria, o paraíso financeiro nos Alpes, evitaram a comparação automática entre rendimentos e impostos pagos na União Europeia. No ano passado, o comissário europeu responsável pela política fiscal, Algirdas Semeta, classificou o fato de “uma prática completamente injusta.”
UE como espectadora
A UE não é a responsável de fato pela política fiscal, mas os Estados-membros. A competição entre si por meio de diferentes alíquotas é proposital. Malta, por exemplo, não cobra nenhum imposto sobre empresas. O Chipre cobra 10%, e a Irlanda, 12,5%. Há anos os ministros de Finanças tentam chegar a um acordo quanto às bases de cálculo, ou seja, definir quanto da riqueza e da renda está sujeito ao imposto.
Sob a luz da política financeira, não é necessário que as taxas de impostos sejam uniformes, diz Guntram Wolff, economista do think tank Bruegel, em Bruxelas. O importante, segundo ele, é que as regras sejam claramente visíveis: “Acho que a transparência fiscal é absolutamente necessária. Paraísos fiscais na Zona do Euro não são desejáveis. Isso não pode acontecer, porque, em caso contrário, um país poderia operar realmente seus bancos e sua política tributária a custa de outros países.”
Quando um paraíso fiscal é atingido por tempestades, como foi o caso recente do Chipre, outros países da Zona do Euro podem ser convocados a ajudar. Os porta-vozes do governo em Luxemburgo e Malta excluíram ser comparados com o Chipre. Mas os bancos nesses dois países poderiam, em algum momento, entrar em dificuldades, acredita Thomas Meyer, economista-chefe do Deutsche Bank.
No site EU-Observer, ele declarou: “Mesmo com a melhor supervisão financeira, os bancos podem ficar debilitados. E se um Estado for muito pequeno em comparação com o setor financeiro, então esse Estado vai à falência.”
Filas às portas dos bancos na ilha do Mediterrâneo. Foto: Patrick Baz/ AFP
União europeia teve que intervir com 10 bilhões de euros para evitar que bancos cipriotas quebrassem. Foto: Patrick Baz/ AFP

No caso do Chipre, no entanto, os países da Zona do Euro intervieram com 10 bilhões de euros de ajuda. No Chipre, os depósitos bancários valiam sete vezes mais que o rendimento econômico anual da ilha. Em Luxemburgo, os bancos são 22 vezes mais valiosos que a economia do país. Meyer aconselha que os bancos mantenham mais capital próprio em Estados pequenos. Esse seria o caso atual da Suíça. Em Luxemburgo, Áustria e outros paraísos financeiros, prefere-se confiar no apoio da Zona do Euro e dos pacotes de resgate, afirma.
Suíça à frente
Através de seu porta-voz, a Comissão Europeia observa que, até agora, os Estados-membros ainda não conseguiram entrar em consenso sobre o que é um paraíso fiscal. Aplicando as normas da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), nenhum país europeu pertenceria mais ao rol dos paraísos fiscais. Baixas taxas de imposto num país, o que leva à evasão fiscal em outros países com impostos mais altos, não é ilegal, mas, para muitos, vai contra o senso de justiça.
Os ministros das Finanças de Luxemburgo, Letônia e Eslováquia – onde a carga tributária para empresas é mais baixa que na Alemanha e na França – argumentam de forma contrária: países com altos impostos poderiam reduzir suas taxas para atrair empresas e investidores.
A ONG britânica Tax Justice Network publicou uma lista própria de paraísos fiscais. A lista considera o tamanho do centro financeiro e o grau de discrição, ou seja, do sigilo bancário. Segundo o índice, a Suíça é o paraíso fiscal número 1, seguido das Ilhas Cayman e de Luxemburgo.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Déficit orçamentário nos países do euro foi maior que o esperado em 2011

Déficit orçamentário nos países do euro foi maior que o esperado em 2011

Da Deutsche Welle
Polícia alemã fecha acampamento de manifestantes em frente à sede do Banco Central Europeu, em Frankfurt. A crise, e a falta de soluções, continua a provocar protestos na Europa. Foto: Daniel Roland / AFP
Enquanto os resultados de Grécia, Espanha, Portugal e Irlanda são piores do que o inicialmente previsto para 2011, Alemanha tem deficit menor que o esperado. Foto: Daniel Roland / AFP

O Eurostat, órgão de estatísticas da União Europeia (UE), divulgou na segunda-feira 22 os números revisados de 2011 sobre o endividamento na região. Apesar de os dados demonstrarem maior controle sobre o deficit orçamentário, a dívida pública continua a crescer além dos limites estabelecidos na zona do euro.
Os 17 países que utilizam o euro como moeda corrente tiveram deficit orçamentário equivalente a 4,1% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2011, uma redução de 2,1 pontos percentuais em relação a 2010. O limite máximo individual estabelecido pela zona do euro é de 3% do PIB.
Apesar de os países estarem se endividando menos, a dívida total na Zona do Euro cresceu de 85,4% para 87,3% do PIB, muito além do teto de 60%.
Já nos 27 países que integram o bloco europeu, o deficit público caiu de 6,5% em 2010 para 4,4% em 2011, enquanto a dívida aumentou de 80% para 82,5%.
Nos países da região mais atingidos pela crise, o resultado acabou sendo maior do que se esperava, principalmente na Espanha, onde o aumento foi de quase um ponto percentual. O deficit orçamentário espanhol foi de 9,4% do PIB, em vez do 8,5% inicialmente previstos.
Na Grécia, o deficit também chegou ao patamar de 9,4%, em vez dos 9,1% estimados pelo Eurostat há alguns meses. O país, o mais afetado pela crise do euro, deverá anunciar em breve novas medidas de austeridade.
Em Portugal, o deficit orçamentário foi de 4,4%, em vez de 4,3%, e na Irlanda atingiu 13,4%, ante os 13,1% esperados.

Resultado alemão  

O deficit público na Alemanha foi mais baixo que o esperado, fechando em 0,8% do PIB em vez de 1%, atrás apenas de Luxemburgo (0,3%) e Finlândia (0,6%).
A Alemanha se aproxima de um recorde histórico de arrecadação anual de impostos, registrando em setembro um aumento de 4,2% em relação ao mesmo mês no ano anterior, segundo dados do Ministério das Finanças divulgados na segunda-feira.
O crescimento se deve ao elevado nível de ocupação da força de trabalho, assim como à situação da economia e ao aumento do lucro das empresas.
O Ministério das Finanças espera um aumento de arrecadação maior do que o inicialmente previsto para 2012. Entre janeiro e setembro foi registrada alta de 5,6% em comparação com o mesmo período de 2011, chegando aos 403,4 bilhões de euros. Esse crescimento nos nove primeiros meses do ano superou a expectativa inicial de 4% para 2012.
Economistas estimam que o valor da arrecadação possa pela primeira vez ultrapassar a marca dos 600 bilhões de euros.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Desemprego na Eurozona bate recorde e chega a 11,4%, em agosto

Desemprego na Eurozona bate recorde e chega a 11,4%, em agosto

Fila de desempregados em agência do governo no centro de Madri. Foto: ©AFP / Dominique Faget

O desemprego na Eurozona bateu recorde em agosto, chegando a 11,4%, arrastado pela Espanha, onde o índice foi de 25,1%, anunciou a agência oficial de estatísticas Eurostat. Isso representa 18,196 milhões de pessoas. Em julho, 11,3% da força de trabalho da Zona do Euro estavam desempregados.
Depois da Espanha, a Grécia aparece com a segunda maior taxa de desemprego, de 24,4%, segundo os últimos dados disponíveis do país, de junho. Com o agravamento da crise, o índice atual de desemprego na economia grega pode ser ainda maior. Este é o 16º mês consecutivo no qual o desemprego supera 10% da população ativa no bloco, integrado por 17 países. Entre os países da Zona do Euro, a Áustria tem a menor taxa de desemprego (4,5%). Em seguida aparecem Luxemburgo (5,2%), Holanda (5,3%) e Alemanha (5,5%).


Com informações da AFP. Leia mais em AFP Móvil

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

A Grécia e a Zona do Euro

A Grécia e a Zona do Euro

Renata Giraldi* - Repórter da Agência Brasil

O porta-voz da Presidência da República da Grécia, Simos Kedikoglou, disse hoje (28) que o esforço das autoridades gregas é para convencer seus parceiros da zona do euro de que não será necessário um novo empréstimo, se prolongado o prazo para garantir os ajustes no Orçamento. Para o primeiro-ministro da Espanha, Mario Rajoy, a saída dos gregos da zona do euro representa “um fracasso para toda a Grécia”.

“Já estamos discutindo [com os parceiros da zona euro] a ampliação do período necessário para reduzir nosso déficit público para menos de 3% do PIB [Produto Interno Bruto] e os nossos planos demonstram que não teremos necessidade de um financiamento suplementar dos Estados-Membros”, disse Kedikoglou.

Até o fim desta semana, o primeiro-ministro Antonis Samaras, conclui uma série de viagens pela Europa, passando pela Alemanha e França. “Mais tempo não significa automaticamente mais dinheiro”, disse Samaras.

Antes dessas manifestações, as autoridades da Grécia defendiam a ampliação do prazo para até 2016, período para a adoção de todos os ajustes nas contas públicas, como exigem os credores internacionais (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional). A data, por enquanto, para implementar as medidas é o final de 2014.

*Com informações da agência pública de notícias de Portugal, Lusa.

Edição: Talita Cavalcante

Fonte:EBC
 
 

Publicado em: 29/08/2012

terça-feira, 17 de julho de 2012

A crise europeia e o Pibinho do Brasil

A crise europeia e o Pibinho do Brasil

Mercado vê Pibinho de 1,9% em 2012
Autor(es): VICTOR MARTINS ROSANA HESSEL VERA BATISTA
Correio Braziliense - 17/07/2012
 

Enquanto espanhóis saem às ruas e chamam de "assalto" o corte de benefícios pelo governo de Rajoy, no Brasil analistas de mercado refazem as contas e reduzem de 2,01% para 1,9% a previsão de crescimento do país. No dia a dia, brasileiros começam a sentir no bolso os efeitos da crise global: medo de calote leva concessionárias a exigir entrada de 60% no financiamento de veículos.


Pela 10ª semana seguida, analistas cortam projeção para o avanço do Produto Interno Bruto. Se confirmado, será o pior resultado desde 2009. Apesar do fraco ritmo da atividade, inflação continuará corroendo o poder de compra das famíliasNotíciaGráfico

O pessimismo está cada vez maior. Para desespero do governo, o mercado financeiro refez as contas e cortou, pela 10ª semana seguida, a projeção de crescimento da economia para 2012, de 2,01% para 1,9%. Foi a primeira vez que as previsões para 2012 ficaram abaixo de 2%. Mais do que nunca, segundo especialistas, está claro que o efeito da crise mundial será maior do que o estimado pelo Banco Central, que, até três meses atrás, acreditava que o impacto das turbulências internacionais na economia brasileira seria de um quarto do observado em 2008. Será muito maior. E, pior: já compromete o ano de 2013. Tanto que as estimativas de avanço da atividade também recuaram, de 4,5% em agosto do ano passado para 4,1% ontem.
"Infelizmente, a realidade está falando mais alto. A falta de confiança dos consumidores e, sobretudo, dos empresários, está minando a economia brasileira. Teremos, em 2012, o pior resultado desde 2009, quando o Brasil afundou na recessão", admitiu um técnico da equipe econômica. O BC constatou, porém, que nem tudo está perdido. Em maio último, a queda de 0,02% na prévia do PIB calculado pela instituição só não foi maior graças à reação esboçada no Centro-Oeste e no Nordeste, regiões que cresceram, respectivamente, 1,2% e 0,3% no período. Essas economias estão sendo puxadas pelo aumento da massa salarial, pelo consumo de serviços e de bens duráveis e pela ligeira recuperação do agronegócio.
"A economia do Centro-Oeste está sendo impulsionada pelo setor agroindustrial, que predomina em Mato Grosso, em Mato Grosso do Sul e em Goiás. A região ainda tem peso grande do setor público por conta do Distrito Federal", explicou Júlio Myragaia, coordenador da Comissão de Política Econômica do Conselho Federal de Economia. Ele lembro ainda que Brasília, por ter 55% do seu PIB determinado pelo funcionalismo público, é menos afetada pela crise. "Quem está sofrendo mais com a desaceleração mundial é a indústria, e isso é uma coisa favorável para o DF e para o Centro-Oeste. O setor tem peso de apenas 2% no PIB da região", observou.
Problemas
Newton Rosa, economista-chefe da Sul América Investimentos, endossou: "A alta dos preços da soja e do milho deram sustentação à renda no interior do país". Na sua avaliação, a crise é mais visível na indústria porque o setor está mais exposto ao comércio exterior. "Mas isso não quer dizer que os problemas estão restritos às fábricas. Outros segmentos da economia começam a dar sinais de fraqueza", disse. Nos cálculos dele, o PIB brasileiro, diante do quadro de desaceleração, deve terminar o ano com crescimento de 1,5%. Para Mauro Schneider, economista-chefe do Banco Banif, o avanço será de, no máximo, 1,7%.
Pelos números do BC, a maior economia do Brasil, São Paulo, amargou, em maio, retração de 0,66%, mês em que a indústria nacional — concentrada majoritariamente no estado — demitiu 1,7% dos funcionários e diminuiu a produção em 4,3% na comparação com igual período do ano passado. Apenas as fábricas paulistas encolheram 6,9% nessa mesma base de comparação. Minas Gerais também sofreu os efeitos da crise e teve seu PIB dilapidado em 2,43% devido, principalmente, à menor produção de carros da Fiat e à diminuição do ritmo dos fornos da Usiminas.
Apesar da fraca atividade do país e das perspectivas ruins, a inflação, mesmo em nível tolerável, se mantém resistente. Mauro Schneider explicou que o custo de vida no país é elevado por causa da enorme quantidade de contratos corrigidos pela inflação passada. Em média, 30% do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), usado como referência pelo governo, vêm desses contratos, incluindo as tarifas públicas. "Outro problema é a redução da oferta. Enquanto a indústria se retrai, o consumo continua forte, mesmo que em bases menores que a observada recentemente", assinalou. Para 2012, o mercado estima um IPCA de 4,87%. Em 2013, a estimativa é de alta de 5,50%.
Essa resistência da inflação, num quadro de baixo crescimento, está ressuscitando entre os especialistas o debate sobre a possibilidade de o Brasil enfrentar o que chamam de estagflação. Ou seja, a combinação de fraco avanço do PIB com elevados índices de preços. "Esse temor tende a aumentar nos próximos meses, principalmente devido à quebra na safra de soja e de milho dos Estados Unidos, que já está forçando a alta dos preços desses produtos, base da cadeia alimentar", destacou o economista-chefe do Banco ABC Brasil, Luís Otávio de Souza Leal.
Ele ressaltou que esse risco se potencializa quando o crescimento dos países emergentes perde fôlego, como agora. "Ainda vamos ouvir falar muito nessa palavra, estagflação. Os preços das commodities agrícolas (produtos com cotação internacional) vinham caindo, mas, com a quebra da safra dos EUA, ocorreu uma inversão, o que é bastante preocupante, pois a economia global, principalmente a europeia, está à beira de uma recessão", completou Leal. "Os alimentos vão ficar mais caros, pois ninguém deixa de comer. Agora, a produção industrial continuará desacelerando se a crise na Europa perdurar."
Desânimo
Com a enxurrada de notícias ruins, o Brasil caiu da segunda para a oitava posição no ranking mundial de otimismo entre os empresários. Segundo a pesquisa International Report (IBR) 2012, da Consultoria Grant Thornton , 61% dos executivos brasileiros têm boas expectativas para os próximos 12 meses contra os 86% registrados no primeiro trimestre do ano. Situação contrária ocorreu com o otimismo global, que subiu quatro pontos percentuais, de 19% para 23%.
Segundo Fábio Luís de Souza, da Grant Thornton, com a continuidade da crise internacional, o empresariado brasileiro começa a sentir os efeitos dos cortes de investimentos e da fragilidade do consumo, já que as famílias estão muito endividadas e o governo não consegue executar seus projetos a contento. "As perspectivas não são mais animadoras, com a confirmação de um crescimento modesto do PIB e as políticas de incentivo do governo focadas no consumo e não no investimento produtivo", afirmou.
Na América Latina, o nível de otimismo caiu 20 pontos percentuais, de 73% para 53%. Na América do Norte, subiu de 47% para 52%. E, no Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), manteve-se em 41%. Na Zona do Euro, melhorou dois pontos, mas continuou negativo (-2%). Espanha é o país com maior grau de pessimismo: -66%, seguida de Grécia (-58%), Holanda (-46%) e Japão (-41%). Segundo o estudo, entre os mais otimistas estão os empresários do Peru (96%), do Chile (90%) e do Canadá (70%).

segunda-feira, 11 de junho de 2012

RESGATE EVITA INTERVENÇÃO NA ESPANHA, MAS CRISE CONTINUA

RESGATE EVITA INTERVENÇÃO NA ESPANHA, MAS CRISE CONTINUA

RESGATE DE 100 BILHÕES EVITA INTERVENÇÃO NA ESPANHA, MAS NÃO RESOLVE A CRISE DA EUROPA
Autor(es): ANDREI NETTO
O Estado de S. Paulo - 11/06/2012
 

País permanece em recessão e desemprego deve aumentar; bancos europeus enfrentam cenário difícil
O pacote de socorro de até € 100 bilhões aprovado pela União Européia e pelo Banco Central Europeu para recapitalizar o sistema financeiro da Espanha não resolveu a crise das dívidas e fragilizou o primeiro-ministro, Mariano Rajoy. O chefe de governo comemorou "ter evitado uma intervenção" no país, mas admitiu que, apesar da ajuda, a crise na Espanha deve piorar. O país permanecerá em sua segunda recessão em três anos e mais espanhóis vão perder seus empregos - uma em cada quatro pessoas já está desempregada. O premiê vem sendo criticado internamente por sua gestão de crise e deve ter de se explicar ao Parlamento. As circunstâncias da ajuda à Espanha provocaram insatisfações em Portugal. Líderes da oposição querem que o governo renegocie seu pacote, de € 78 bilhões. Analistas consideram que, apesar do acordo espanhol, a situação dos bancos europeus continua difícil.

O pacote de socorro de até € 100 bilhões aprovado pela União Europeia e pelo Banco Central Europeu (BCE) para recapitalizar o sistema financeiro da Espanha não resolveu a crise das dívidas e, além disso, fragilizou o primeiro-ministro espanhol, Mariano Rajoy. Em seu primeiro pronunciamento, o chefe de governo tentou mascarar a gravidade da situação comemorando "ter evitado uma intervenção" de Bruxelas e do Fundo Monetário Internacional (FMI).
Rajoy admitiu, no entanto, que, apesar da ajuda aos bancos, a crise na Espanha deve piorar. O país permanecerá preso em sua segunda recessão em três anos, e mais espanhóis vão perder seus empregos em um país onde uma em cada quatro pessoas já está desempregada, disse ele.
O premiê vem sendo criticado pela oposição e pela imprensa por sua gestão de crise e deve ter de se explicar ao Parlamento nos próximos dias. O silêncio de Rajoy teve início na tarde de sábado, quando o ministro da Economia, Luis de Guindos, foi destacado para anunciar à imprensa o acordo que garantirá até € 100 bilhões para a recapitalização do sistema financeiro da Espanha, abalado desde o início da crise do mercado imobiliário, em 2008.
Ontem, Rajoy fez seu primeiro pronunciamento sobre o pacote de socorro - o quinto concedido por Bruxelas, depois da Grécia, por duas vezes, da Irlanda e de Portugal terem recebido apoio financeiro. "Estou muito satisfeito, e creio que ultrapassamos uma etapa decisiva", disse. "Se não tivéssemos feito o que fizemos nos últimos cinco meses, o que teria acontecido seria uma intervenção na Espanha." O premiê também citou os números do pacote em tom de elogio. "Obter uma linha de crédito de € 100 bilhões não foi nada fácil."
Rajoy assegurou ainda que os juros do pacote de socorro não incidirão sobre o déficit público, já elevado. Em 2011, a Espanha registrou um rombo de 8,9% do Produto Interno Bruto (PIB) nas contas governamentais, e precisa reduzir o buraco a 5,3% até o fim de 2012. Tudo em um cenário de alto endividamento dos governos regionais e de desemprego em massa, que chegou a 24,44% no primeiro trimestre.
Como Guindos havia feito no sábado, Rajoy garantiu que o pacote de socorro não representa nenhum tipo de intervenção na gestão econômica da Espanha. Nenhum novo plano de austeridade teria sido acordado. A única exigência, segundo ele, é que as reformas já iniciadas, como a do mercado de trabalho e da previdência, sejam mantidas.
Na entrevista, Rajoy não usou as palavras "socorro" e "resgate" - o que foi interpretado como uma tentativa de demonstrar normalidade. Com esse espírito, Rajoy disse que assistiria ao jogo Espanha e Itália, na Polônia, no que foi duramente criticado. Analistas dizem que, apesar de o pacote evitar uma catástrofe iminente, os bancos do continente continuam a correr sério risco. / COM AFP E AP

sexta-feira, 18 de maio de 2012

A última chance de resgate do euro

A última chance de resgate do euro

Autor(es): Por Philip Stephens
Valor Econômico - 18/05/2012
 

Os líderes da Europa deveriam parar de brincar no parque infantil. O debate do euro tornou-se uma algazarra infantil a respeito de uma série de escolhas ilusórias: austeridade fiscal versus crescimento; os cortes de gastos "contra" a criação de empregos; reformas de mercado ou inclusão social. Isso beira a insanidade e a certeza de desintegração da moeda única.
O relógio agora mostra um minuto para a meia-noite. A Grécia provavelmente está além da salvação. Os primeiros sinais de corrida aos bancos na Espanha e em outras economias periféricas indicam que o vírus do contágio consolida-se mesmo antes de Atenas decidir-se sobre a realização de uma segunda eleição geral. As autoridades políticas têm menos tempo do que imaginavam há apenas alguns dias.
A eleição de François Hollande na França vem sendo vista amplamente como uma ameaça à coerência da região do euro. Em vez disso, o reequilíbrio da relação entre Berlim e Paris deveria ser visto como a última chance para uma conversa adulta. Com ou sem a Grécia, a região do euro precisa de uma nova estratégia - uma grande negociação, se você preferir. Os ingredientes vitais necessários são clareza e credibilidade.
Em busca da clareza, os governos deveriam começar concordando publicamente sobre o que de fato podem concordar. Todos, supostamente, podem aceitar a ideia de que déficits e dívidas devem ser reduzidos a níveis sustentáveis. Todos deveriam poder admitir que restaurar a competitividade das economias periféricas exigirá violentas reformas estruturais. Também é autoevidente que, sem crescimento econômico, as dívidas e déficits vão continuar altas e que o consenso político vai se evaporar. Não é preciso ser keynesiano para reconhecer as armadilhas do endividamento. Por fim, uma melhora no comércio exterior das economias mais fracas da região do euro exige superávits menores nas economias mais fortes.
Angela Merkel, da Alemanha, está certa ao dizer que os países da Europa não podem sair dos problemas por meio da captação de mais empréstimos. Não se pode contradizer Hollande quando ele diz que o crescimento é essencial para recuperar a sustentabilidade fiscal. Mario Monti, o outro membro central da troica de líderes europeus, está no caminho certo quando diz que deve haver uma dimensão pan-europeia tanto para os investimentos em estímulos ao crescimento quanto para as reformas estruturais com base nos mercados. A Alemanha poderia dar a partida, abrindo seu setor de serviços para a concorrência do resto do continente.
Os políticos precisam enfrentar outra simples verdade. Nos últimos séculos, a Europa determinou os termos de seu engajamento com a maior parte do resto do mundo. Suas estruturas sociais e econômicas foram ajustadas de acordo com isso. A ascensão do resto virou essa suposição de cabeça para baixo. Isso não significa que se deve jogar fora o modelo social europeu. Isso exige, no entanto, uma remodelação radical.
O ponto central - gritantemente óbvio, mas que se perdeu em meio à cacofonia - é que o importante é a combinação e o ordenamento das políticas escolhidas. A redução de déficits depende do crescimento, mas o crescimento é sustentável apenas no contexto de uma disciplina fiscal pré-programada. Pensar em termos de escolhas binárias é autodestrutivo: quando a discussão se torna Keynes versus Hayek, o jogo está perdido.
Como, então, conseguir a combinação correta de políticas? É aqui que entra a credibilidade. O começo da sabedoria está em reconhecer aqui que a credibilidade é um alvo móvel. Há um ou dois anos, tudo parecia fácil e natural: a crise financeira deixou como legado gigantescos déficits e dívidas governamentais e criou uma realimentação letal entre a solvência dos bancos e a capacidade creditícia dos captadores soberanos. A única forma de restaurar a confiança era via queda nos gastos públicos, elevação nos impostos e redução de déficits.
Era o que parecia. Vale dizer que isso não se trata de alguma trama da Alemanha para tomar o controle da região do euro. Por estar fora da união monetária, o Reino Unido não precisa aceitar sermões de Berlim. A primeira decisão tomada pela coalizão de David Cameron, no entanto, foi acelerar os planos para acabar com o déficit estrutural britânico. Sem esse compromisso, declarou, a credibilidade iria se evaporar e as taxas de juros, decolar. Pelo que me lembro, a estratégia foi aplaudida pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e Fundo Monetário Internacional (FMI).
Esta semana viu a confirmação de que grande parte da região do euro está atolada em um recessão. O Reino Unido está no mesmo barco. Os cortes de gastos e aumentos de impostos não trouxeram os declínios esperados nos déficits. Como resultado, os mercados vêm reconsiderando qual seria a estratégia mais confiável. Por sinal, é o que também vêm fazendo especialistas do FMI e OCDE. Até em Berlim, vem ocorrendo uma sutil mudança de tom. Inexplicavelmente, apenas Cameron parece determinado a pregar-se, seja como for, na cruz da austeridade.
A implosão dos principais partidos na Grécia adicionou o risco político à equação da confiança. O fortalecimento fiscal só pode ser confiável se tiver consentimento do eleitorado. Na ausência de crescimento econômico, por quanto tempo os eleitores espanhóis, portugueses, irlandeses e italianos vão tolerar as aflições de um aperto fiscal? As políticas de austeridade arquitetadas para sustentar a credibilidade agora começam a ter precisamente o efeito contrário.
Não será nada fácil encontrar uma combinação que recupere a confiança dos investidores. Os líderes europeus tornariam a tarefa menos complicada se oferecessem concessões políticas contrárias às que costumam defender. Hollande poderia dizer que os esforços para sustentar a economia europeia vão ser acompanhados na França por sérias reformas estruturais. Merkel poderia prometer que os compromissos blindados de disciplina fiscal vão ser acompanhados por uma Alemanha liderando os esforços de promoção do crescimento.
Isso ainda deixaria argumentos de sobra por discutir: o tamanho e alcance dos "muros de proteção financeira", a ampliação do papel do Banco Central Europeu (BCE), a mutualização das dívidas, o formato da união fiscal e todo o resto. O que se precisa primeiramente, no entanto, é uma clareza que traga credibilidade. Sem esses ingredientes, todo o resto pertence à esfera acadêmica. (Tradução de Sabino Ahumada)
Philip Stephens é editor e comentarista político do FT.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Com queda de 0,3% do PIB no primeiro trimestre, Espanha entra oficialmente em recessão

Com queda de 0,3% do PIB no primeiro trimestre, Espanha entra oficialmente em recessão

17/05/2012

Renata Giraldi*
Repórter da Agência Brasil

A economia espanhola entrou oficialmente em recessão, ao registrar queda de 0,3% do Produto Interno Bruto (PIB) no primeiro trimestre deste ano, segundo dados divulgados hoje (17) pelo Instituto Nacional de Estatística (INE).
Para os especialistas, a retração da economia espanhola foi provocada pela desaceleração nos gastos dos consumidores e das administrações públicas. É a segunda vez, após a crise que começou em 2008, que a Espanha entra em recessão. O INE informou que as economias da zona do euro não registraram crescimento no primeiro trimestre.
As economias da Alemanha e Áustria cresceram 0,5% e 0,2%, respectivamente, enquanto a da França ficou estagnada. No caso dos Países Baixos, do Reino Unido e da Espanha houve queda acentuada, sendo que a Itália registrou -0,8%.
Ontem (16), em visita a Brasília, o ministro de Assuntos Exteriores e Cooperação da Espanha, José Manuel García-Margallo, disse que as dificuldades vividas na Europa em decorrência dos impactos da crise econômica internacional são passageiras e que serão solucionadas.

*Com informações da agência estatal de notícias de Cuba, Prensa Latina // Edição: Juliana Andrade

terça-feira, 15 de maio de 2012

Grécia: Novas eleições são referendo sobre saída da União Europeia

Grécia: Novas eleições são referendo sobre saída da União Europeia

 Publicado em Carta Capital

Alexis Tsipras (centro) chega para reunião no palácio presidencial grego, em Atenas. Seu adversários dizem que ele criou um "muro de arrogância" por não ceder nas negociações. Foto: Louisa Gouliamaki / AFP
Alexis Tsipras (centro) chega para reunião no palácio presidencial grego, em Atenas. Seu adversários dizem que ele criou um "muro de arrogância" por não ceder nas negociações. Foto: Louisa Gouliamaki / AFP

Após nove dias de negociações infrutíferas, os representantes dos cinco principais partidos da Grécia desistiram nesta terça-feira 15 de chegar a um acordo sobre o futuro governo do país e anunciaram novas eleições para 17 de junho. Até lá, a Grécia viverá um mês de instabilidade, mas agora o eleitor tem ainda mais claro em sua mente o poder que tem nas mãos. Ir às urnas será quase um plebiscito. A Grécia vai decidir se mergulha fundo nas medidas de austeridade impostas pela União Europeia e pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) ou se embarca em uma aventura cujo fim é incerto: deixar a zona do euro.
Hoje, a possibilidade maior é de a Grécia abandonar o euro. Nas negociações dos últimos dias, o partido de extrema-esquerda Syriza bloqueou todas as iniciativas de formar um governo de coalizão. Seu líder, Alexis Tsipras, deixou claro que o Syriza, segundo colocado nas eleições, não faria parte de qualquer gabinete favorável às medidas de austeridade impostas ao país em troca de empréstimos bilionários. Tsipras não fez nada mais do que cumprir a vontade de seus eleitores. Pouco mais de 16% dos gregos votaram no Syriza como forma de protestar contra a austeridade. Afinal, as medidas impostas pela EU e pelo FMI jogaram a Grécia no caminho do desemprego galopante e da recessão profunda.
Nas próximas eleições, o Syriza é favorito para ficar com o maior número de vagas no parlamento. Como na primeira eleição 66% dos gregos votaram em partidos anti-austeridade, é provável que este resultado, no mínimo, se reproduza. Ao mesmo tempo, os partidos mais tradicionais da Grécia, o Nova Democracia (centro-direita) e o Pasok (centro-esquerda), ambos favoráveis à austeridade, continuam perdendo popularidade. Neste cenário, por enquanto hipotético, não é difícil imaginar um governo liderado pelo Syriza e completado por outros pequenos partidos anti-austeridade. Se essa possibilidade se concretizar, a Grécia estará indo em direção à porta de saída da zona do euro.


Hoje, parece não haver um caminho do meio para a Grécia. Se o Syriza é intransigente por recusar de antemão qualquer possibilidade de manter as medidas de austeridade, os dirigentes da União Europeia são também intransigentes sobre qualquer chance de a Grécia recusar essas medidas. E, diante do impasse político no país, não cogitaram reduzir a austeridade. Pelo contrário. Após meses mantendo este assunto como tabu, passaram a falar abertamente sobre a saída da Grécia da zona do euro. Nesta terça-feira, o ministro das Finanças da Alemanha, Wolfgang Schauble, foi o primeiro a se pronunciar sobre o fracasso das negociações. “Se a Grécia quiser continuar no euro então terá que aceitar as condições”, afirmou. Como se vê, a estratégia da União Europeia é jogar a Grécia contra a parede para aceitar as medidas draconianas de austeridade. Falta, no entanto, combinar isso com o eleitor grego.

Como um país deixa o euro?
Antonis Samaras, chefe do Nova Democracia, acusou o Syriza de "aventureirismo oportunista". Foto: Aris Messinis / AFP
Antonis Samaras, chefe do Nova Democracia, acusou o Syriza de "aventureirismo oportunista". Foto: Aris Messinis / AFP
 
Pelas legislações vigentes atualmente na Europa, um país não pode ser expulso da zona do euro. Ele pode, entretanto, ser pressionado a fazer isso. Em entrevista à agência de notícias Reuters na segunda-feira 14, um diplomata fez uma analogia simples para explicar a situação. “Em teoria, não é possível [expulsar um país do euro], mas é um pouco como o baterista da banda – se banda não gosta do baterista, sempre há um jeito de se livrar dele”. Para os países da zona do euro, a saída da Grécia é temerosa pois pode gerar pânico nos mercados (sempre eles). O temor é de que os investidores passem a pensar: ‘se a Grécia sucumbiu, Portugal, Irlanda, Espanha e Itália também vão sucumbir?’. Para os líderes europeus estarem falando abertamente na saída da Grécia, é por que já têm algum plano de reação para isso. Os países de economia mais fraca teriam disponíveis, por exemplo, os 240 bilhões de euros prometidos para a Grécia. Para os gregos, a situação é preocupante, e não se sabe ao certo até onde o Syriza e outros partidos anti-austeridade foram na análise de cenários futuros. O lado bom de sair do euro é que a Grécia poderia desvalorizar sua própria moeda e, assim, tornar seus produtos mais atrativos. No caso da Grécia, não é certo que isso seria suficiente para tirar o país da crise. Na segunda-feira, o economista norte-americano Richard Parker, ex-conselheiro do governo do ex-premiê George Papandreou, disse que a desvalorização tem limites. Segundo afirmou Parker ao canal Sky News, o turismo e os embarques comerciais marítimos, principais atividades econômicas da Grécia, não sustentariam a saída do país da crise.
Agrava a situação a logística que um país precisaria passar para abandonar o euro. Segundo o jornal The Guardian, o premier que colocou a Grécia na zona do euro, Costas Simitis, traçou um futuro desolador em evento nesta terça-feira. Segundo ele, seriam necessários três meses de bancos fechados para que a Grécia pudesse substituir o euro por uma nova moeda, que precisaria ser impressa e distribuída por todo o país. Esse tempo todo, segundo Simitis, levaria o país para uma situação de convulsão social.
O caos, entretanto, pode chegar antes. A Grécia está perto da falência e, se a UE e o FMI pararem de emprestar dinheiro para o país, o governo pode ficar, literalmente, sem dinheiro. Neste cenário, serviços públicos como transporte e saúde ficariam parados, a infraestrutura grega ficaria abandonada e os servidores não receberiam seus salários. Pelo menos verbalmente, esta é a ameaça da UE e do FMI à Grécia. Resta saber como os eleitores gregos vão responder a ela e, se os políticos gregos estão prontos a buscar alternativas para evitar um desastre.

RISCO GREGO PARA O EURO AFETA BOLSAS E DÓLAR ENCOSTA EM R$ 2

RISCO GREGO PARA O EURO AFETA BOLSAS E DÓLAR ENCOSTA EM R$ 2

RISCO DE GRÉCIA DEIXAR EURO DERRUBA BOLSAS GLOBAIS E FAZ DÓLAR SE APROXIMAR DE R$ 2
Autor(es): Andrei Netto
O Estado de S. Paulo - 15/05/2012
 

A instabilidade política na Grécia provocou ontem nova onda de choque no mercado financeiro global. Preocupados com a possibilidade da saída de Atenas da zona do euro, os investidores levaram as bolsas de valores ao vermelho. No Brasil, o dólar se aproximou de R$ 2 e o Ibovespa fechou no menor nível do ano. Pesaram para os investidores as recentes declarações de autoridades da UE segundo as quais a Grécia terá de sair do euro se não cumprir os acordos de austeridade. Em outro sintoma da crise, a agência de classificação de risco Moody"s anunciou o rebaixamento no crédito de 26 bancos italianos. Em meio ao impasse para a formação de novo governo, o presidente da Grécia, Carolo Papoulias, propôs ontem a criação de um gabinete de "notáveis", isto é, pessoas de fora dos círculos políticos. A proposta deve ser discutida até quinta-feira. Se for rejeitada, novas eleições serão convocadas

A instabilidade política na Grécia provocou ontem nova onda de choque no mercado financeiro global. Sob o impacto da possibilidade cada vez mais concreta de saída de Atenas da zona do euro – processo inédito e de consequências imprevisíveis –, os investidores levaram as bolsas de valores ao vermelho. No Brasil, o dólar se aproximou de R$ 2 e o Índice da Bolsa de Valores de São Paulo (Ibovespa) fechou no menor nível do ano. Em Londres, maior bolsa da Europa, o índice FTSE 100 caiu
1,97%, porcentual muito similar ao DAX, de Frankfurt, que recuou 1,94%. Em Paris, o pessimismo foi maior: o CAC 40 fechou com baixa de 2,29%. O pior resultado ocorreu em Atenas, onde o índice ASE perdeu 4,56%. Segundo analistas de mercado, pesaram sobre as decisões dos investidores as recentes declarações de autoridades da UE desfavoráveis à Grécia. José Manuel Durão Barroso, presidente do Conselho Europeu, advertiu na sexta-feira sobre a necessida- de de excluir o país da zona do euro, caso as regras acertadas não sejam cumpridas.
Em Berlim, Paris e Bruxelas, cresce a impaciência da opinião pública e, por extensão, da classe política em relação aos desacertos políticos gregos. Outro motivo de instabilidade é a posse do novo presidente da França, François Hollande, que sucede hoje Nicolas Sarkozy. À noite, o chefe de Estado encontrará em Berlim a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, para negociar uma saída para outro impasse político, dessa vez em torno do Pacto de Estabilidade, assinado por 25 dos 27 países europeus em março. Hollande deseja a renegociação do texto, que prevê regras estritas de austeridade e responsabilidade fiscal, propondo a inclusão de cláusulas em favor do estímulo ao crescimento econômico. Embora a perspectiva seja de um encontro de interesses entre Merkel e Hollande, os dois líderes políticos trocaram declarações intransigentes nos últimos dias – algo que não traz segurança aos investidores. Nesse cenário de instabilidade, a Espanha sofre. Ontem, os juros cobrados por títulos da dívida soberana com vencimento em 10 anos chegaram à marca de 6,27%, recorde desde dezembro.
Dólar. Com a alta de 1,79% ontem, a moeda americana acumula valorização de 6,31% no ano. Do fim de fevereiro até ontem, o real é a moeda que mais perdeu em relação ao dólar no mundo: 13,24%. Mesmo assim, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse que o movimento não preocupa o governo. "O dólar alto beneficia a economia brasileira, porque dá mais competitividade aos produtos brasileiros. Significa que a indústria brasileira pode competir melhor com os importados, que ficam mais caros, e pode exportar mais barato. Portanto, não preocupa."

 / COLABORARAM EDUARDO CUCOLO E LEANDRO MODÉ

quarta-feira, 9 de maio de 2012

GRÉCIA À DERIVA FORÇA EUROPA A APOSTAR NO CRESCIMENTO JÁ

GRÉCIA À DERIVA FORÇA EUROPA A APOSTAR NO CRESCIMENTO JÁ

ODISSEIA GREGA DERRUBA MERCADOS
Autor(es): agência o globo:Bruno Villas Bôas
O Globo - 09/05/2012
 
Ameaça de rompimento com UE e FMI faz Bolsa de SP cair 1,4% e dólar subir a R$ 1,939

Os mercados operaram com fortes perdas ontem pelo mundo, com euro e commodities também em queda, em meio a crescente preocupação dos investidores sobre o impasse político na Grécia. O líder da Coalizão da Esquerda Radical (Syriza), Alexis Tsipras, defendeu ontem o não cumprimento do acordo fechado com União Europeia (UE) e Fundo Monetário Internacional (FMI), além da suspensão de medidas prejudiciais aos trabalhadores, como demissões e cortes salariais. Se até amanhã Tsipras não formar um governo de coalizão com os partidos socialista (Pasok) e conservador (Nova Democracia), com cujos líderes ele se reunirá hoje, é quase certo que a Grécia convoque novas eleições no mês que vem. O resultado das eleições na Grécia e na França - onde o socialista François Hollande derrotou Nicolas Sarkozy, aliado da Alemanha na implantação de uma política de austeridade - levou a Comissão Europeia, órgão executivo da UE, a colocar na agenda a discussão sobre como estimular o crescimento econômico. A UE chegou a considerar ainda a convocação de uma reunião emergencial de líderes para o dia 23 de maio, mas a ideia não foi adiante.
Tsipras pediu aos líderes do Pasok e do Nova Democracia que enviem cartas à UE e ao FMI cancelando o acordo que garantiu o socorro à Grécia. Isso significaria que o país não adotaria cortes adicionais de 11 bilhões no mês que vem, condição para que continue recebendo os recursos de UE e FMI.
- O resultado das eleições gregas foi um voto contra um socorro bárbaro - disse Tsipras na TV grega. - Não haverá medidas adicionais de austeridade de 11 bilhões, e não serão eliminados 150 mil empregos.
Para analista, Grécia deixará o euro
Na Europa, os mercados tiveram a maior queda em quatro meses. Recuaram as Bolsa de Londres (1,78%), Paris (2,78%), Frankfurt (1,90%), Madri (0,80%) e Milão (2,37%). A Bolsa de Atenas, que na véspera despencara quase 7%, recuou 3,62% e atingiu o menor patamar em duas décadas.
A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) fechou no menor patamar em quase quatro meses, tendo operado abaixo dos 60 mil pontos pela manhã. O Ibovespa, seu índice de referência, recuou 1,40%, aos 60.365 pontos, influenciado pela queda das commodities.
- O mercado teme que o impasse atrapalhe a liberação das próximas parcelas da ajuda à Grécia, que precisa cumprir metas de cortes de gastos. O FMI disse que vai aguardar a formação de um novo governo para ir ao país. Isso pode precipitar a saída da Grécia da zona do euro e cria uma percepção negativa para outras nações, como Espanha, Portugal e Irlanda - disse Eduardo Velho, economista-chefe da Prosper Corretora.
Também mexeram com o mercado as declarações do analista do fundo hedge FX Concepts John Taylor, para quem a Grécia abandonará o euro, provavelmente, em junho.
- Os europeus não lhes darão mais dinheiro, o FMI não vai mais lhes dar o sinal verde. Eles ficarão sem recursos em junho - disse Taylor à Bloomberg TV.
Sem indicadores capazes de mudar o clima no mercado, o Standard & Poor"s 500, que reúne as principais empresas dos Estados Unidos, recuou 0,43% e registrou sua menor pontuação em um mês. O Dow Jones caiu 0,59% e o Nasdaq, 0,39%.
Os temores sobre a Grécia atraíram investidores para os títulos do Tesouro americano, os Treasuries. O dólar avançou, assim, 0,94%, a R$ 1,939. É o maior valor desde 14 de julho de 2009 (R$ 1,969). O movimento acompanhou a oscilação do euro, que recuou 0,47%, a R$ 1,299. Foi o sétimo pregão seguido de baixa, maior sequência desde setembro de 2008. Lá fora, o euro recuou 0,4% frente ao dólar, a US$ 1,305, o menor patamar em três meses.
- A Grécia voltou a assombrar e, desta vez, o mercado americano não ajudou a segurar a queda das bolsas - disse Carlos Augusto Nielebock, especialista em bolsa da Icap Brasil.
Tsipras ainda ganhou um curioso aliado na luta contra a austeridade: Charles Dallara, diretor do Instituto de Finanças Internacionais (IIF, na sigla em inglês), que representou os bancos na renegociação da dívida grega. Em entrevista à rede americana CNBC, ele disse que é preciso ajustar o foco à realidade econômica.
- O foco ficou por demais concentrado em cortes orçamentários de curto prazo, o que criou o sentimento de que a situação não tem saída - disse Dallara. - Acho que a Alemanha terá de reavaliar a atual estratégia.
No mercado brasileiro, a queda dos preços das commodities ajudou a derrubar as principais ações da Bolsa, como Vale PNA (-2,53%) e Petrobras PN (-1,55%). Das 68 ações que compõem o índice, apenas 11 fecharam em alta.
Os principais vendedores foram investidores estrangeiros, representados por corretoras como Morgan Stanley, Merrill Lynch e HSBC, com vendas de R$ 192,7 milhões, R$ 62,7 milhões e R$ 57,4 milhões, respectivamente. Segundo operadores, a queda foi intensificada pelo disparo de ordens automáticas de venda de ações, instrumento usado para evitar perdas maiores.
Para Fernando Goes, analista da Octo Investimentos, o Ibovespa não recuou mais porque há um ponto de resistência do mercado nos 60 mil pontos. Abaixo desse patamar, investidores acham que os papéis estão baratos e voltam a comprá-los. Se esse suporte for perdido, o Ibovespa pode voltar aos 56.500 pontos, eliminando a recuperação das ações no ano.
- A tendência de alta do mercado morreu. Existe agora uma resistência para a Bolsa subir além dos 61 mil pontos - disse Goes.

terça-feira, 8 de maio de 2012

A crise europeia é política

A crise europeia é política

Autor(es): Sergio Amaral
O Estado de S. Paulo - 08/05/2012
 
Ao início, a crise europeia era financeira e decorria do impacto da crise americana sobre os bancos europeus. Em seguida, tornou-se fiscal, pelos gastos excessivos feitos pelos governos para proteger o sistema financeiro, evitar a recessão e conter o desemprego. Hoje é, sobretudo, política.
Na aparência, a crise da dívida soberana é apenas econômica e se caracteriza pela inadimplência do governo diante dos seus credores externos, públicos ou privados. Mas, no fundo, é também política, pois a inadimplência leva a uma queda de braço entre o governo e os credores, sobre a repartição dos custos do ajustamento. O credor reluta em aceitar como pagamento menos do que emprestou; o devedor, sob a pressão política causada pela recessão e pelo desemprego, luta para reduzir o débito ou estender o prazo de pagamento.
Nos anos 1980 o Brasil teve de rever a sua carta de intenção - assim se chamava o compromisso com o Fundo Monetário Internacional (FMI) - oito vezes, porque não conseguia cumprir com as metas acordadas. Nessa mesma década teve nove ministros da Fazenda. Eles eram incompetentes? Não necessariamente. Sua missão é que era impossível.
Na Europa, cinco governos já caíram: na Grécia, na Irlanda, na Itália, em Portugal e na Espanha. Os novos governos na França e nos Países Baixos poderão dar o sinal definitivo de que o ajustamento preconizado pelo pacto fiscal europeu é inexequível.
Uma das diferenças entre a crise da América Latina nos anos 80 e a da Europa hoje está em que, no primeiro caso, os credores lograram uma melhor orquestração do processo de reestruturação. O ordenamento não escrito, mas conduzido sob a liderança incontestada dos Estados Unidos, prescrevia a negociação de um país devedor por vez, para reduzir o risco de contágio e de calote coletivo.
Na Europa a dívida é mais alta. O endividamento dos 17 países da zona do euro representa 87% do produto interno bruto (PIB) do grupo. O processo de reestruturação vinha sendo conduzido pela Alemanha e, até recentemente, pela França, num contexto mais desorganizado e politizado. Se quisermos encenar a queda de braços na Europa, bastariam duas dramatis personae: como credor, o parlamentar em Berlim, que busca reduzir a fatura do contribuinte alemão; do lado do devedor, o manifestante de rua, antes na Grécia, agora na Espanha, amanhã talvez na Itália, lança o grito de basta: basta de recessão, de desemprego e, sobretudo, do estreitamento das margens de esperança.
Ao contrário da visão técnica e muitas vezes economicista de analistas americanos, que já haviam decretado o fim do euro ou, pelo menos, a defecção de vários membros da união monetária, a saída desenhada pelo consórcio franco-alemão privilegiava o projeto político europeu e o salto para a frente. Se não era possível ter uma moeda comum sem uma união fiscal, era preciso começar desde já a preparar esse passo. O pacto fiscal, concluído recentemente, estipulou cortes de despesas e limites para o endividamento, a serem monitorados pela Comissão Europeia. E, ao mesmo tempo, era necessário mobilizar novos recursos para assegurar a liquidez dos bancos.
O paradoxo da Europa, neste momento, está em que um plano concebido para proteger e aprofundar o projeto europeu está fazendo o alvo da população se deslocar do Parlamento em Berlim para os burocratas de Bruxelas e contra transferência de poderes para um ente supranacional, a Comissão Europeia.
O conflito entre credores e devedores desbordou para a cena política interna. Governos tanto de direita quanto de esquerda não foram capazes de dar uma resposta satisfatória à revolta dos cidadãos na rua ou ao julgamento das urnas. Mesmo a França, que até agora se mantinha firme, ao lado da Alemanha, na defesa da austeridade fiscal, deverá, com a eleição de François Hollande (para suceder ao presidente Nicolas Sarkozy), defender uma revisão dos rumos.
Quais serão os próximos capítulos desse penoso e turbulento processo de ajustamento na Europa? As manifestações de rua e o resultado das eleições evidenciam que a austeridade está no seu limite. Que é preciso afrouxar as metas fiscais e dar algum fôlego ao crescimento. É o que já preconizam vários governos, é o que já sinalizou o FMI. É o que já começam a admitir os bancos: é preciso mobilizar mais recursos para suavizar a austeridade, mas, em compensação, os devedores deveriam subscrever o compromisso de reformas estruturais a médio prazo.
A música é-nos familiar. Lembra-nos da entrada em jogo do Banco Mundial, na crise latino-americana. O FMI cuidava das metas fiscais e monetárias. O Banco Mundial desenhava as reformas estruturais: privatização, desregulação e abertura da economia. Mais dinheiro em troca de mais condicionalidades.
No caso europeu, resta saber quem desempenhará esse papel. Quem redigirá as cartas de intenção, quem desenhará os programa de ajustamento estrutural? O FMI e o Banco Mundial não dispõem dos recursos para se tornarem relevantes diante do peso da dívida europeia, nem contam com o apoio político que lhes foi outorgado, por ocasião da crise latino-americana, pelos Estados Unidos e pela Europa. Atribuir funções semelhantes à Comissão Europeia significaria decretar sua morte política, no momento em que o aprofundamento do projeto europeu implicaria justamente uma transferência adicional de poderes para a Comissão de Bruxelas.
Por fim, quando se fala em mobilizar mais recursos para atenuar a austeridade, como já se faz agora, surge sempre a pergunta incômoda: mais dinheiro de quem? Dos governos, dizem logo os bancos; também dos bancos e de investidores privados, retrucam os governos. Esse será, provavelmente, o novo capítulo dessa sequência de quedas de braço. "It is politics, stupid", diria hoje Carville sobre a crise europeia.

Berlim reage a Hollande e diz que não muda pacto fiscal

Berlim reage a Hollande e diz que não muda pacto fiscal

Berlim reage a discurso de Hollande e rejeita renegociação de pacto fiscal
Autor(es): ANDREI NETTO
O Estado de S. Paulo - 08/05/2012
 

O governo alemão informou ontem que "não é possível renegociar o pacto fiscal" assinado na União Européia. Foi a primeira reação de Berlim à eleição de François Hollande à Presidência da França. O socialista prometeu rever o pacto de austeridade e "dar à construção europeia uma dimensão de crescimento".

Depois da festa, a dura realidade política e econômica. O presidente eleito da França, François Hollande, enfrentou ontem o primeiro atrito diplomático com o governo da Alemanha, que mandou recado via imprensa sobre sua recusa em renegociar o tratado de estabilidade fiscal da Europa.
O aviso de Berlim foi dado no momento em que cresce a pressão no bloco pela adoção de políticas de crescimento que complementem a austeridade defendida por Angela Merkel.
A controvérsia com o governo alemão ocorreu ainda cedo, quando Hollande chegou a seu escritório, no centro de Paris, ostentando olheiras no rosto, depois da maratona do histórico 6 de maio.
Jornais de toda a Europa trouxeram em reportagens de capa a mensagem enviada pelo presidente eleito em seu discurso de vitória em Tulle, quando o socialista prometeu "dar à construção europeia uma dimensão de crescimento, de emprego, de prosperidade e de futuro" e enfrentar a austeridade, que "não pode mais ser uma fatalidade".
A resposta de Berlim veio no início da manhã, por intermédio do porta-voz do governo, Steffen Seibert. Recusando o "crescimento por déficit" e enfatizando a necessidade de "reformas estruturais", o Executivo alemão afirmou que "não é possível renegociar o pacto fiscal", "assinado por 25 dos 27 países da União Europeia".
Hollande não respondeu às afirmações. Mas, em entrevista concedida na sexta-feira e publicada ontem pela revista eletrônica Slate.fr, o presidente eleito deu a tônica da firmeza com que pretende dialogar com a Alemanha de Merkel. "Nós teremos discussões com nossos parceiros, e em especial com nossos amigos alemães", disse. "No entanto, eles não podem pôr dois cadeados de uma só vez: um sobre eurobônus, outro sobre o financiamento direito das dívidas pelo Banco Central Europeu (BCE)."
De acordo com o ex-diretor de campanha do Partido Socialista, o primeiro encontro entre Hollande e Merkel ocorrerá em Berlim, no dia 16, o dia seguinte à transmissão de poder no Palácio do Eliseu.
Outras reuniões sobre a crise das dívidas ocorrerão a seguir, durante a cúpula da União Europeia, prevista para 28 e 29 de junho, em Bruxelas. O certo é que a Alemanha também terá de ceder para obter o aval da França e de outros países ao pacto de estabilidade fiscal. Desde domingo, diversos líderes políticos incorporaram o discurso desenvolvimentista de Hollande.
Gabinete. Em meio à controvérsia, o novo chefe de Estado tem uma semana para montar seu governo. Ontem, o socialista afirmou que informará seu gabinete na data da posse. "Em 15 de maio vocês terão o nome do primeiro-ministro", disse. O Palácio de Matignon, onde trabalha o chefe de governo, deve ser conduzido por um dentre três nomes: o senador Jean-Marc Ayrault, a secretária-geral do PS, Martine Aubry, ou o coordenador de campanha, Pierre Moscovici.
Além de preparar sua equipe, Hollande precisa se organizar para sua primeira viagem internacional como chefe de Estado. No dia 18, o presidente irá a Washington, onde terá reunião bilateral com o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama.
Na pauta dos dois líderes haverá outro assunto espinhoso: a retirada das tropas da França do Afeganistão. Em sua campanha eleitoral, o socialista havia prometido o retorno dos soldados até o fim de 2012, antecipando em um ano o calendário de Nicolas Sarkozy.
Ainda em 18 de maio, ele participará do G-8, em Camp David. A seguir, em 20 e 21, será a vez da cúpula da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), em Chicago.
Esse assunto também pode causar controvérsia, porque, nos bastidores diplomáticos, Paris está insatisfeita com o espaço obtido no Comando Integrado após a decisão de Sarkozy de retornar à aliança atlântica, tomada em 2009.
Não bastassem esses eventos, Hollande terá de enfrentar uma agenda de campanha carregada, já que a França passará por eleições parlamentares em junho que definirão a maioria na Assembleia Nacional e no Senado, cruciais para a sustentação de seu projeto político. Detalhe: o pleito se dará nos dias da conferência Rio+20, no Brasil. A decisão sobre sua participação não foi tomada.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

América Latina suporta crise europeia, mas não ficou imune

América Latina suporta crise europeia, mas não ficou imune

The cononomist intelligence unit
Publicado em Carta Capital 26/04/2010

Os mercados financeiros internacionais estão preocupados com um ressurgimento da crise da dívida da Zona do Euro, de olhos fixos na Espanha, que poderia se tornar o quarto país a precisar de resgate financeiro. Enquanto a América Latina até agora suportou relativamente bem os problemas da Europa, não ficou imune. O ritmo do crescimento na região diminuiu, apesar de esperarmos que ele continue mais forte que a média global. Mas em um cenário em que as condições da Europa piorem — ou ocorra mais um choque, como um aumento nos preços do petróleo — poderá haver mais efeitos secundários nas economias, nos preços dos ativos e fluxos financeiros na América Latina.

Depois de uma forte recuperação em 2010 para 6%, causada por um surto de estímulo global, o crescimento na região da América Latina como um todo desacelerou para 4,4% em 2011. A Economist Intelligence Unit prevê uma nova desaceleração para 3,7% em 2012, em um contexto de clara contração na Zona do Euro (esperamos um encolhimento de 0,7%) e um crescimento abaixo do previsto nos EUA (de 2,2%).
O crescimento na maior economia da região, o Brasil, teve um início arrastado este ano, depois de despencar para 2,7% em 2011, contra 7,5% um ano antes. No lado positivo, os exportadores de matérias-primas da América do Sul continuarão se beneficiando da forte demanda chinesa. Vários fatores — como políticas macroeconômicas sólidas, a demanda interna resistente e a recuperação no crescimento da OCDE — vão reforçar o crescimento latino-americano a partir de 2013 (com crescimento médio de 4,2% em 2013-16). No entanto, muitos países da região continuarão vulneráveis a oscilações no sentimento do mercado e às crescentes pressões inflacionárias.
O balanço externo da região se fortaleceu nos últimos anos, o que ajudará a fornecer um amortecedor contra choques externos. A dívida externa está menor em relação ao PIB e as exportações e reservas cambiais estão em níveis recordes. No entanto, o crescimento das contas de importação, alimentado pela demanda interna e por moedas locais fortes, vai superar o crescimento da receita das exportações, resultando em grandes déficits de conta corrente na região — mesmo para os exportadores de matérias-primas. Essa situação é especialmente problemática para a Argentina, para a qual os superávits de conta corrente têm sido um pilar de estabilidade na última década, dado o acesso limitado do governo aos mercados internacionais de capital, o uso de reservas cambiais para pagar suas dívidas externas e a vulnerabilidade à fuga de capitais.

Oscilações de sentimento

Diante da estreita integração das grandes economias latino-americanas nos mercados financeiros globais, as moedas locais e os preços dos ativos foram atingidos por oscilações no sentimento dos investidores. Mas graças a políticas flexíveis esses choques foram relativamente bem absorvidos. Em setembro de 2011 a região sofreu um aumento na aversão ao risco associada aos temores da Europa (com o real brasileiro e o peso mexicano em queda de 16,6% e 12,3%, respectivamente, em relação ao dólar naquele mês). Desde o início de 2012, os mercados de ativos de risco registraram grandes ganhos, enquanto a aversão ao risco diminuía, graças às operações de liquidez do Banco Central Europeu. Quando os efeitos destas se dissiparam, porém, a aversão ao risco retornou.
Além das flutuações no sentimento dos investidores, as autoridades latino-americanas enfrentam outros desafios. Na política monetária e de crédito elas lutam para atingir um equilíbrio entre sustentar a demanda interna (para compensar os mercados de exportação fracos na OCDE) enquanto mantêm a inflação sob controle em meio às pressões decorrentes dos altos preços dos alimentos e do petróleo. A agressiva série de cortes de taxas de juros no Brasil (com a última redução de 75 pontos básicos em 18 de abril situando a taxa básica em 9%, perto do piso recorde de 8,75%), atesta o objetivo do governo de sustentar o crescimento. Isto gerou preocupações sobre o compromisso do BC em alcançar a meta central de inflação (4,5%), e as expectativas inflacionárias para 2012 e 2013 continuaram subindo.

 E se?

Um agravamento da crise da dívida europeia, que prejudicaria as economias soberanas e os bancos europeus (que estão fortemente investidos em dívida soberana e já demonstram índices mais altos de empréstimos inadimplentes em suas outras carteiras), complicaria as coisas. A Economist Intelligence Unit atualmente atribui uma probabilidade moderada (40%) de saída da Grécia da Zona do Euro nos próximos dois anos, e uma probabilidade mais baixa, embora não insignificante, de uma ruptura da zona monetária (que definimos como a saída de vários países, incluindo pelo menos uma das grandes economias).
Mas mesmo sem a dissolução da Zona do Euro uma crise financeira completa a envolver a Espanha ou a Itália, as mais fracas das grandes economias europeias, seria danosa. Os bancos espanhóis, por exemplo, foram grandes compradores de dívidas de governos desde que o Banco Central Europeu lhes deu acesso a empréstimos baratos de três anos, destinados a reforçar a liquidez em toda a Zona do Euro. O governo não pode deixar os bancos falirem, assim como os bancos não podem sobreviver a uma corrida aos títulos do governo. Mesmo que o país possa evitar um resgate, seus bancos poderão precisar dele em breve.
Se os bancos se enfraquecerem, as linhas de crédito para a América Latina (incluindo finanças comerciais, que já foram afetadas pelos temores da Zona do Euro até agora) de entidades europeias e suas subsidiárias na região poderão encolher, como um primeiro passo. O impacto sobre as linhas de crédito internacionais também seria sentido de modo mais amplo, já que um novo “evento” de crédito na Zona do Euro causaria tensões financeiras globais e um aumento da aversão ao risco pelos investidores.
Além das condições de crédito internacionais mais rígidas, outros canais de transmissão incluiriam uma demanda e preços mais baixos para as exportações da América Latina, e haveria um sério impacto sobre as empresas e o sentimento dos consumidores na região. Uma crise da dívida mais profunda também prejudicaria o fluxo de investimento direto estrangeiro (IDE) para a América Latina, pois a Europa é uma fonte importante de IDE para a região. No caso de o crescimento econômico da China desacelerar mais acentuadamente do que se espera (atualmente imaginamos um crescimento do PIB de 8,3% este ano), a demanda e os preços para os exportadores de matérias-primas sul-americanos sofreriam ainda mais.
Bancos europeus recuam
As pressões sobre os bancos europeus desde meados de 2011 já levaram alguns a vender parte de seus ativos na América Latina para reforçar seus balanços. Esses ativos locais foram adquiridos por instituições financeiras latino-americanas, por isso o impacto sobre o crédito regional até agora foi discreto. Uma nova desalavancagem dos bancos europeus levaria a novas vendas de ativos. Onde os compradores agirem, o impacto sobre o crédito na América Latina será limitado. Mas há um risco de perturbações no crédito se as compras não se materializarem em tempo.
Os bancos europeus dos países periféricos seriam atingidos de maneira mais adversa por um choque da dívida europeia. Os bancos espanhóis representam pouco mais de 40% dos interesses estrangeiros totais na América Latina. Os empréstimos para bancos regionais da Grécia, Irlanda, Itália e Portugal são menos importantes. Também pode haver canais indiretos, como bancos não europeus que estão expostos a um evento da dívida europeia e também emprestam para a América Latina. Essas linhas de crédito também poderão sofrer.

Sistemas bancários locais devem resistir

O impacto sobre os sistemas bancários locais seria variável em relação às ações em ativos totais dos bancos europeus afetados em cada mercado. O impacto seria atenuado porque muitos bancos europeus (e outros estrangeiros) que operam na América Latina obtêm a maior parte de seus fundos localmente.
Além disso, indicadores do setor bancário sugerem que a maioria das instituições financeiras latino-americanas seria relativamente resistente a um evento de crédito europeu. Os bancos locais são razoavelmente bem capitalizados e líquidos. O crescimento do crédito, incentivado por políticas expansionistas depois da crise financeira global de 2008-09, hoje está geralmente em desaceleração. Os políticos da maioria dos países poderiam afrouxar a política monetária (incluindo reduzir as exigências de reservas) para ajudar a abrandar as tensões financeiras.
Também haveria certo espaço para políticas fiscais contracíclicas com o fim de apoiar o crescimento econômico durante o período de crise, embora houvesse menos capacidade para políticas de estímulo desta vez, já que nem todo o estímulo anterior foi retirado e os déficits fiscais estruturais estão ligeiramente mais altos hoje. Alguns países (México e Colômbia) têm linhas de crédito de contingência do FMI, e outros (no Caribe e na América Central, por exemplo) provavelmente procurariam o Fundo com sucesso para obter crédito de contingência.
No entanto, a região ainda sofreria, mais ou menos do mesmo modo que após o colapso do Lehman Brothers no final de 2008. Uma recessão europeia mais severa provocada por um agravamento da crise financeira provavelmente seria mais duradoura do que foi a recessão nos Estados Unidos depois do colapso do Lehman, e isto teria efeitos adversos nos fluxos de investimentos e no comércio Europa-América Latina. Nesse caso, a América Latina poderia sofrer uma perda de até 3 pontos percentuais do PIB no primeiro ano, ou cair em uma recessão moderada. Ela se recuperaria gradualmente depois, mas mais lentamente que sua recuperação de 2010 após a crise financeira global de 2008-09.

terça-feira, 24 de abril de 2012

A Europa com a faca no pescoço

A Europa com a faca no pescoço

Zona do Euro

24.04.2012
O socialista François Hollande tem boa chance de derrotar Sarkozy, ameaçando a “saída” germânica para a crise, onde a Alemanha preserva a sua competitividade. Foto: Foto:Philippe Wojazer/Reuters/Latinstock

A sociedade europeia está com a faca na garganta. Nós já estivemos na mesma situação, conhecemos o roteiro de cor. Quem ameaça a jugular dos europeus? Os suspeitos de sempre: bancos, hegde funds e corretoras. Não fosse assim, como explicar a queda generalizada das bolsas de valores nas principais praças da Zona do Euro ocorrida ontem, segunda 23? Ou a segunda recessão em três anos imposta à Espanha, acompanhada da escalada dos juros cobrados para financiar o governo espanhol, um evidente ataque especulativo assistido (nos dois sentidos) pelo Banco Central Europeu?
Os jornais de hoje. terça 24,  trazem as justificativas dos “investidores”: a Holanda não parece disposta a desmontar o aparato de proteção social erigido durante décadas; na França, idem, o socialista François Hollande tem boa chance de derrotar Sarkozy, ameaçando a “saída” germânica para a crise, onde a Alemanha preserva a sua competitividade, dá a cartas e os demais ficam com os cortes orçamentários em salários, aposentadorias, saúde, segurança, educação.
O “não” holandês preocupa. Quando a sociedade se manifesta, é problema. Do ponto de vista “deles”, claro. E talvez de Miriam Leitão, a precursora do jornalismo econômico à pururuca, uma velhinha de Taubaté das estatísticas, a última a defender com unhas e dentes os interesses do mercado financeiro, como se falasse “em defesa da sociedade”. Mas há uma diferença: a personagem de Luis Fernando Verissimo tinha charme, é inegável.
Por meio de seus porta-vozes, a alta finança promete que mais três anos de desmonte resultarão em algo proveitoso. Eles têm a razão deles: tirarão nesse período proveito do empréstimo trilionário dado pelo BCE, a taxas de juros negativas. E farão o que sabem fazer: vão especular com os títulos espanhóis, logo mais com franceses, faturam com os títulos brasileiros, e assim por diante.
Na América do Sul, a bola da vez, no momento, é a Argentina, após o governo Cristina Kirchner encampar a petroleira YPF, sob o argumento de que a empresa não cumpriu o prometido em um segmento estratégico. Controlada pelos espanhóis, a companhia remeteria seus lucros, inclusive para fazer frente à dificuldade de fazer caixa na Espanha, em vez de investir na ampliação da sua capacidade produtiva, algo que implicaria assumir riscos.
Alinhada aos interesses do mercado financeiro, a agência de classificação de riscos Standard & Poor´s saiu na frente e rebaixou a nota argentina. Contribuiu assim para elevar a temperatura do ambiente especulativo, caro ao mercado financeiro. Logo mais tiram a faca da botina.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Dica crise financeira EUA X Crise financeira da Eurozona

Crise Financeira dos EUA de 2008 = Crise de Crédito ligada perda de liquidez do sistema bancário tendo sua origem na construção civil (bolha da economia amaericana)!


Crise Européia =  Crise de Crédito liga a perda de liquidez do sistema bancário e o enfraquecimento do EURO tendo como origem o descompaso das contas públicas dos PIIGS (Portugal, Irlanda, Itália, Grécia, e Espanha)!


sábado, 31 de março de 2012

‘Corte de orçamento vai aprofundar recessão’

‘Corte de orçamento vai aprofundar recessão’

De Carta Capital

Após anúncio de corte de 27,3 bilhões de euros nas contas do governo, analistas defendem que política europeia de austeridade não é o melhor caminho para conter crise . Foto: Marta F. Maeso

Um dia após uma greve geral levar milhares de pessoas às ruas de diversas cidades da Espanha, entre elas Valencia, Bilbao, Barcelona e a capital, Madri, o governo anunciou nesta sexta-feira 30 um corte de 27,3 bilhões de euros no orçamento de 2012.
A mais rígida medida de austeridade desde a redemocratização do país em 1978, segundo o ministro da Fazenda Cristóbal Montoro.
O objetivo é reduzir o déficit público de 8,51% do PIB do país em 2011 para 5,3% no final deste ano, embora a meta esperada pela União Europeia fosse de 4,4%. Inviabilizada, os líderes europeus concordaram em aumentar a margem, mas a ação gerou desconfiança no mercado e alta nos juros dos títulos da dívida espanhola.
Com o temor de enfrentar dificuldades para se financiar a partir da venda de títulos, o país optou pelas medidas de austeridade para garantir sua credibilidade, explica Antonio Carlos Alves dos Santos, doutor em economia e professor da PUC-SP, embora isso deva provocar um “baque maior” maior na economia espanhola.
Antes do anúncio, a expectativa era que o país registrasse uma queda de 1,7% no PIB. “A medida não é o melhor caminho, porque o país já registra elevados níveis de desemprego, mas ao não cumprir a meta de déficit público ficou em situação delicada.”
Santos acredita que o país viu-se pressionado a apostar em no financiamento do mercado ao invés do crescimento econômico.
Júlio Sérgio Gomes de Almeida, doutor em economia e consultor do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI), também defende que o corte no orçamento, a princípio, deve influenciar no crescimento do país, a menos que outros fatores – como um programa de relançamento da economia europeia –, o compense. “Os países europeus em cenário de recessão apresentaram uma leve melhora, mas não há, no momento, sinal de algum mecanismo de compensação.”
Em meio a pressões, o governo espanhol congelou o salário dos servidores públicos e deve cortar cerca de 15% do orçamento de cada um dos ministérios para atingir um valor final “muito austero”, segundo o primeiro-ministro conservador Mariano Rajoy – pressionado pela EU para conter o déficit público.


O governo também pretende arrecadar 12,3 bilhões de euros em 2012, ajudado pelo aumento de impostos a grandes companhias e elevação de preços da energia em 7% e do gás.
Nas ruas, os espanhóis protestaram na quinta-feira 29. Barcelona reuniu cerca 800 mil pessoas nas ruas, de acordo com dados dos sindicatos e 80 mil nas estimativas da policia. Em Madri, os sindicatos estimaram a participação popular 900 mil indivíduos.
O país tem o maior índice de desemprego da Europa, com 24% de sua população desocupada. Entre os jovens a situação é ainda mais crítica com quase metade dos jovens com menos de 25 anos estão sem trabalho.
Segundo o consultor do IEDI, essa situação também é influenciada pela política da UE de defender cortes para reequilibrar o orçamento de países em crise, seguindo a lógica de que isso favoreceria o retorno do crescimento. “Se um corte leva ao declínio da atividade econômica, fica mais difícil obter o equilíbrio fiscal”, questiona.
“Qual país tem uma melhora no seu déficit fiscal capaz de beneficiá-lo de tal forma a tirá-lo da crise? A melhora fiscal não é um elemento que por si só promova a volta do crescimento do país.”
Neste cenário, os ministros da Zona do Euro chegaram a um acordo nesta sexta-feira para reforçar a barreira contra a crise a até 800 bilhões de euros, como pretendia a Alemanha. A ideia é unir os fundos já comprometidos do Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (FEEF), para os resgates de Grécia, Portugal e Irlanda, e os do Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEDE), definidos em 500 bilhões de euros.
A Comissão Europeia (CE) e alguns países, como a França, tinham um objetivo mais ambicioso. Pretendiam passar uma imagem de extrema solidez perante os mercados elevando o MEDE, o fundo permanente de resgate, que prevê entrar em vigor em julho, a 940 bilhões de euros.
Para isso propuseram acrescentar também os fundos não utilizados do FEEF, estimados em 240 bilhões de euros, como modo de reserva e em caso de extrema necessidade.
De acordo com Santos, o valor não seria suficiente para criar uma barreira efetiva, estimada pelo professor em 1 trilhão de euros. “Chegaram a este valor porque é o mínimo demandado pela Inglaterra e EUA para aceitar aumentar o volume de recursos do FMI.”
Por outro lado, Almeida acredita que o valor do fundo é suficiente, mas outra solução seria um arrojo maior com um programa de reestruturação de parte das dívidas nacionais por títulos de responsabilidade da União Europeia. “Essa medida seria complicada, pois haveria um comprometimento de países que hoje não estão na berlinda com a dívida de outros. Mas seria um bom início de entendimento para reduzir as dívidas impagáveis e melhora a situação dos que entram em situações críticas.”
O bloco, explica, deveria ter um programa mais flexível no campo fiscal e ter um programa de relançamento das economias da região. “Isso ajudaria esses países a se fortalecer fiscalmente, mas sem impulsionar a recessão.”

terça-feira, 13 de março de 2012

O que a Grécia significa?

O que a Grécia significa

Autor(es): agência o globo:Paul Krugman
O Globo - 13/03/2012
 

Então a Grécia deu oficialmente o calote nos credores privados. Foi um calote "ordeiro", negociado ao invés de simplesmente anunciado, o que suponho seja bom. Ainda assim, a história está longe de acabar. Mesmo com esse alívio em sua dívida, a Grécia - como outras nações europeias forçadas a impor austeridade numa economia deprimida - parece condenada a muitos anos mais de sofrimento.
Esta é uma fábula digna de ser contada. Nos últimos dois anos, a história da Grécia tem sido, segundo um recente texto sobre economia política, "interpretada como uma parábola sobre os riscos de irresponsabilidade fiscal". Não passa um dia sem que, nos EUA, algum político ou comentarista entoe, com um ar de grande sabedoria, que é preciso cortar gastos do governo imediatamente, ou vamos acabar como a Grécia, Grécia eu lhes digo.
Apenas para usar um exemplo recente, quando Mitch Daniels, governador de Indiana, apresentou a resposta republicana ao discurso do presidente Obama sobre o Estado da União, insistiu que "estamos a uma pequena distância de Grécia, Espanha e outros países europeus que hoje enfrentam a catástrofe econômica". Ninguém aparentemente lhe disse que a Espanha tinha baixo déficit governamental e superávit orçamentário às vésperas da crise; o país está em apuros devido aos excessos do setor privado, não do setor público.
Mas o que a experiência da Grécia de fato mostra é que se incorrer em déficits em tempos de fartura pode criar problemas - o que é o caso da Grécia, embora não o da Espanha - tentar eliminar déficits quando você já está em apuros é uma receita para depressão.
Hoje em dia, depressões econômicas induzidas por políticas de austeridade são visíveis em toda a periferia europeia. A Grécia é o pior caso, com o desemprego escalando para 20% e os serviços públicos, incluindo o setor de saúde, entrando em colapso. Mas a Irlanda, que fez tudo o que queria o pessoal da austeridade, também está em terrível estado, com o desemprego perto dos 15% e o PIB em queda de dois dígitos. Portugal e Espanha estão em situação crítica também.
Impor austeridade numa crise não inflige apenas grande sofrimento. Há evidência crescente de que é autodestrutivo mesmo em termos puramente fiscais, pois a combinação de receitas em queda devido à economia deprimida e perspectivas de longo prazo piores reduz a confiança do mercado e torna a carga da dívida futura mais difícil de carregar. Deve-se perguntar como países que estão sistematicamente negando um futuro a sua juventude - o desemprego entre jovens na Irlanda, que costumava ser menor do que nos EUA, é agora de quase 30%, chegando perto dos 50% na Grécia - conseguirão crescimento suficiente para pagar o serviço da dívida.
Não é isso o que devia ter acontecido. Há dois anos, quando muitos começaram a pedir um giro do estímulo para a austeridade, prometeram grandes vantagens em troca do sofrimento. "A ideia que medidas de austeridade possam trazer estagnação é incorreta", declarou, em junho de 2010, Jean-Claude Trichet, então presidente do Banco Central Europeu. Ele insistiu que, ao invés disso, a disciplina fiscal inspiraria confiança, e isso levaria ao crescimento econômico.
Cada ligeira melhora de um indicador de uma economia em austeridade era aclamada como prova de que essa política funciona. A austeridade irlandesa foi proclamada uma história de sucesso, não uma vez, mas duas - a primeira no verão de 2020 e de novo no último outono; em cada vez a suposta boa notícia rapidamente se evaporou.
Pode-se perguntar que alternativa países como Grécia e Irlanda tinham, e a resposta é que não tinham e não têm boas alternativas a não ser deixar o euro, um passo extremo que, realisticamente, seus líderes não podem dar até que todas as outras opções tenham falhado - um estado de coisas tal que, se me perguntarem, diria que a Grécia dele se aproxima rapidamente.
A Alemanha e o Banco Central Europeu poderiam ter agido para tornar esse passo extremo menos necessário, tanto ao exigir menos austeridade quanto ao fazer mais para impulsionar a economia europeia como um todo. Mas o principal ponto é que os EUA de fato têm uma alternativa: temos nossa própria moeda e podemos tomar empréstimos a prazos longos e a juros historicamente baixos; então, não necessitamos entrar numa espiral descendente de austeridade e contração econômica.
Então, é tempo de parar de invocar a Grécia como um exemplo de cautela diante do perigo dos déficits; de um ponto de vista americano, a Grécia deveria, ao contrário, ser vista como exemplo dos perigos de tentar reduzir o déficit rapidamente demais, enquanto a economia ainda está profundamente deprimida. (E sim, a despeito de algumas boas notícias ultimamente, nossa economia ainda está profundamente deprimida.)
Se você quer saber quem está realmente tentando transformar os EUA em Grécia, não são os que defendem mais estímulos à economia; são os partidários de que imitemos a austeridade ao estilo grego, embora não enfrentemos constrangimentos de crédito ao estilo grego, e assim mergulhemos numa depressão ao estilo grego.

sábado, 10 de março de 2012

Ajuda de 35,5 bi de euros

Ajuda de 35,5 bi de euros

Correio Braziliense - 10/03/2012
 


Após dar calote em credores privados, Grécia recebe primeira parte do socorro. FMI deve liberar mais 28 bi de euros
Finalmente, os ministros de Finanças da Zona do Euro desbloquearam ontem 35,5 bilhões de euros para salvar a Grécia da falência, após o fechamento do acordo de reestruturação da dívida do país.
É a primeira parte de um pacote de 130 bilhões de euros, que será entregue pelo Banco Central Europeu (BCE) na próxima semana, quando o Fundo Monetário Internacional (FMI) deverá aprovar a sua cota, de 28 bilhões de euros. O governo grego anunciou, quinta-feira, que 95,7% dos credores vão perdoar 100 bilhões de euros dos débitos do país. Eles trocarão os atuais títulos públicos por outros com valor 53,5% menor.
Após o anúncio da adesão ao calote e do acordo fechado, as bolsas de valores iniciaram os pregões ontem em alta. Ajudaram a animar os investidores também os dados favoráveis sobre aumento de 227 mil vagas de empregos nos Estados Unidos. Mas os ganhos foram reduzindo ao longo do dia por causa dos indicadores econômicos da China que decepcionaram os investidores. A produção do país asiático cresceu apenas 11,4% em fevereiro contra expectativa de 12,3%.
O Ibovespa — índice que reúne as ações mais negociadas da Bolsa de Valores de São Paulo — acabou fechando em leve queda de 0,31%, aos 66.704 pontos, depois de valorizar 1,35% até o início da tarde. Em Nova York, o índice Dow Jones subiu 0,11% e o Nasdak, 0,70%. Na Europa, a bolsa inglesa teve alta de 0,47%, a de Paris, de 0,26% e a de Frankfurt, na Alemanha, de 0,67%.
Garantias
Os 35,5 bilhões de euros são para ajudar os bancos a oferecer garantias ao Banco Central Europeu (BCE), disse o ministro das Finanças da Alemanha, Wolfgang Schäuble. O restante do pacote, 94,5 bilhões de euros, será desbloqueado provavelmente na próxima semana, disse Schäuble. Mas a crise na Grécia está longe de terminar. "Não superamos o problema, mas demos um passo importante", destacou o ministro.
O governo da Grécia anunciou que 84% de seus credores privados aceitaram a operação de troca da dívida. Atenas destacou ainda que, devido à ampla adesão, o governo ativou as cláusulas de ação coletiva (CAC) que forçam os credores privados reticentes a aceitar a operação. Essa medida elevará o nível de adesão a 95,7%. Os 130 bilhões de euros correspondem ao segundo pacote de ajuda à Grécia. O primeiro, de 110 bilhões de euros ,em 2010, foi insuficiente para salvar um país que entra no quinto ano consecutivo de recessão.