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sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Zona de livre-comércio entre EUA e UE pode redefinir comércio mundial

Zona de livre-comércio entre EUA e UE pode redefinir comércio mundial

Publicado em Carta Capital

As duas maiores potências econômicas do mundo, a União Europeia e os Estados Unidos, iniciam conversas para se unir numa zona de livre comércio em breve. Porém, os obstáculos são gigantescos, já que as metas de ambos são ambiciosas.
Economistas, políticos e empresários aclamam unanimemente a ideia de que uma zona livre iria impulsionar o crescimento dos dois lados do Oceano Atlântico. E asseguraria que, num futuro próximo, as regras do jogo na economia sejam ditadas pelo Ocidente, e não pela China.

O tratado representaria a consolidação dos maiores mercados do mundo e seria uma resposta eficaz à ameaça de hegemonia chinesa
O tratado representaria a consolidação dos maiores mercados do mundo e seria uma resposta eficaz à ameaça de hegemonia chinesa

Os dados econômicos confirmam: um tratado amplo de livre comércio seria, de fato, o que se denomina um game changer, ou seja, ele redistribuiria as cartas no pôquer do comércio mundial. Pois os negócios entre a UE e os EUA representam a maior parceria econômica bilateral do mundo, envolvendo um intercâmbio de bens em serviços num valor superior a 1,8 bilhão de euros. Juntas, as duas potências, somando 800 milhões de habitantes, controlam metade da oferta de serviços em todo o mundo e cerca de um terço do fluxo global de mercadorias.

Boas perspectivas

Segundo estimativas da UE, um tratado amplo de livre comércio com os Estados Unidos aumentaria o Produto Interno Bruto europeu em 0,5%, ou 65,7 bilhões de euros por ano; e os ganhos para os norte-americanos seriam comparáveis. Além disso, devido às proporções dos mercados envolvidos, uma unificação transatlântica dos padrões industriais e dos procedimentos de licenciamento transformariam essas normas, de fato, em padrões mundiais, com especial vantagem para a forte indústria europeia.
Acordo de livre comércio UE-EUA seria chance de fazer frente ao avanço comercial da China
Acordo de livre comércio UE-EUA seria chance de fazer frente ao avanço comercial da China

A proposta de uma zona transatlântica de livre comércio conta com grande apoio dentro da UE. A chanceler federal alemã, Angela Merkel, e o primeiro-ministro britânico, David Cameron, já se manifestaram a favor do projeto. E tanto o presidente da Comissão Europeia, José Manuel Barroso, quanto o chefe de Estado norte-americano, Barack Obama, são, em princípio, favoráveis desde meados de 2012, quando um grupo de trabalho euro-americano divulgou um relatório parcial positivo sobre as oportunidades de um convênio.
O relatório final desse grupo transatlântico deverá ser conhecido nos próximos dias, e espera-se que contenha a recomendação para o início das negociações. No entanto, ainda assim, é totalmente incerto que essa zona de livre comércio venha a se tornar realidade.

Harmonização de normas: um problema

“Um tratado amplo de livre comércio iria mais longe do que todos os acordos comerciais que firmamos até agora. Será que chegaremos lá? Não será fácil, mas as perspectivas são boas”, declarou em dezembro último o comissário da UE para o Comércio, Karel de Gucht.
De fato, em comparação, não passam de bagatelas tanto o recente tratado comercial entre a UE e Cingapura, quanto o acordo com o Canadá, prestes a ser concluído, ou tratados anteriores com a Coreia do Sul ou o México.
Daniel Gros, Direktor do Centre for European Policy Studies, sediado em Bruxelas, é inteiramente a favor de um convênio com os EUA. “Só não creio que a vontade política seja forte bastante para superar todas as resistências”, pondera.
No caso de um acordo em grande escala, a diminuição das barreiras alfandegárias transatlânticas, já bastante reduzidas, nem seria o principal problema. Tampouco é intransponível a questão da agricultura – um setor econômico tradicionalmente sensível, de ambos os lados do Atlântico, por ser fortemente regulamentado pelo Estado.
“O grande problema é a independência dos diferentes órgãos reguladores”, afirma Gros, mencionando, como exemplo, a Food and Drug Administration (FDA), responsável nos EUA pela regulamentação de medicamentos. “Este é um tema muito delicado. O órgão norte-americano será capaz de simplesmente aceitar uma certificação europeia e vice-versa?”

Engenharia genética e produtos financeiros

O mesmo vale para o licenciamento e regulamentação de numerosas mercadorias e serviços. Por exemplo: a UE exige a identificação de alimentos transgênicos, enquanto os EUA, não. Também teriam que ser considerados serviços complexos e até então sujeitos a regulamentos diversos, como seguros e produtos financeiros.
Alimentos transgênicos esbarram em forte resistência na União Europeia
Alimentos transgênicos esbarram em forte resistência na União Europeia

“Acho pouco realista esperar que um tratado de livre comércio possa harmonizar todas essas normas”, comenta Charles Ries, vice-presidente da Rand Corporation, de Washington. Ele é a favor de uma versão menor: “Eu visaria um tratado de livre comércio que eliminasse todas as taxas alfandegárias e quotas entre os Estados Unidos e a Europa”. Ries participou das negociações do Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (Nafta, na sigla original), entre o seu país, o México e o Canadá.
No entanto, os EUA e a UE pretendem jogar a grande cartada. “Na verdade, as tarifas alfandegárias não pesam tanto assim no comércio transatlântico”, assegura John Clancy, porta-voz do comissário europeu do Comércio, Gucht. “Os grandes obstáculos são as diferentes normas de licenciamento e padrões. Por isso, não queremos apenas acabar com as taxas, mas sobretudo visar uma harmonização dessas normas.”

Trauma de Doha

Observadores especializados estão céticos de que o plano possa ter sucesso. Eles lembram que há anos a visão do livre comércio transatlântico paira sobre os debates políticos em Washington e Bruxelas, sem nunca se tornar realidade.
Por muito tempo, os EUA também estiveram extremamente reticentes em apoiar esse megaprojeto. Após anos de negociações – por fim fracassadas – em torno de um tratado mundial de livre comércio, o assim chamado Acordo de Doha, o país não estava disposto a novamente se empenhar em conversações intermináveis e sem perspectivas.
Assim, para sondar o grau de seriedade dos europeus, a administração Obama exigiu um sinal bem claro do Bruxelas. E este veio: na segunda-feira (04/02), a UE anunciou que a partir de 25 de fevereiro estará permitida a importação de porcos vivos e de carne de vaca tratada com ácido lático, originários dos Estados Unidos.
Porém, mesmo que a UE e os EUA iniciem as negociações oficiais nos próximos meses, o sucesso está longe de ser garantido. Pois os negociadores de Washington e da Comissão Europeia não agem com autonomia absoluta. Sem o aval final do Congresso norte-americano e do Parlamento Europeu, não há acordo. E outros parceiros terão que participar das negociações, pelo menos em caráter informal: tanto a Turquia – estreitamente associada à UE através de um acordo alfandegário – quanto o México e o Canadá – ligados aos EUA através do Nafta.

Cronograma rigoroso

Deste modo, Estados Unidos e analistas reivindicam negociações ágeis, dentro de um cronograma bem definido. Segundo os analistas, um ano após o início das conversações, deverá se alcançar um consenso básico, e no prazo de dois a três anos, o tratado deverá estar fechado.
No entanto, os riscos políticos de uma zona transatlântica de livre comércio continuam sendo difíceis de calcular, na opinião de Daniel Gros. “Quando se inicia um grande projeto mas ele não é levado até o fim, talvez a situação para os participantes fique pior do que se nem o tivessem começado.”

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Atualidades Financeiras: uma europa cada vez menos democrática

Uma Europa cada vez menos democrática
 Publicado em Le Monde Diplomatique


Ironia, incentivo ou epitáfio? O prêmio Nobel da paz para a U.E pode despertar a perplexidade quando, ao mesmo tempo, o Banco Central Europeu e a Comissão Europeia conduzem uma guerra monetária contra vários países-membros. A distinção convoca, em todo caso, a uma reflexão sobre o regime político da comunidade
por Cédric Durand, Razmig Keucheyan
"Se jogarmos um cristal no chão, ele se quebrará, mas não de qualquer maneira: os pedaços seguirão a forma delimitada dos veios que, apesar de invisíveis, já estavam predeterminados pela própria estrutura do cristal.” A observação de Sigmund Freud, feita na década de 1930 em relação a perturbações mentais,1 também pode ser aplicada a distúrbios políticos, em particular aos da União Europeia, estrutura “rachada” e “fissurada”.
A crise econômica desencadeada em 2007 revelou as contradições inerentes à construção europeia e demonstrou, em particular, que a União Europeia (UE) se apoiava em um regime político autoritário, suscetível à suspensão de procedimentos democráticos sob o argumento de emergência econômica ou financeira. Durante os últimos quatro anos, instituições como o Banco Central Europeu (BCE) e a Comissão Europeia escaparam de qualquer controle popular e impuseram – com a colaboração ativa das classes dominantes desses países – planos econômicos aos povos irlandês, húngaro, romeno, grego, italiano, espanhol, português e francês. O Tratado de Estabilidade, Coordenação e Governança (TSCG, na sigla em francês), o controle orçamentário dos Estados-membros e a vigilância dos bancos pela União Europeia aprofundam esse movimento.2 Como caracterizar essa forma de governar populações sem a participação delas?
Em queda livre
Para entender a natureza do novo regime político europeu, convém retomar as quatro fases da crise econômica. Tudo começou em agosto de 2007, quando o maior banco francês, o BNP Paribas, anunciou o congelamento dos ativos de três de seus fundos de investimento. Com o argumento da incapacidade de avaliação desses fundos, a UE não dispôs de nenhuma fonte financeira própria para intervir. Se por um lado a moeda única estimulou a criação de bancos que operam em escala continental, por outro a supervisão dessas instituições permanece uma prerrogativa dos Estados. O BCE injeta grandes volumes de liquidez, mas não pleiteia uma reforma profunda no sistema financeiro.
Em setembro de 2008, a quebra do quarto maior banco de investimentos do mundo, o Lehman Brothers, desencadeou a segunda fase da crise. O episódio conduziu o sistema financeiro à beira do abismo e gerou uma crise de crédito de amplitude mundial. Pela primeira vez depois da Segunda Guerra Mundial a economia global mergulhou em uma recessão.
A resposta das elites veio primeiro do G20 e dos bancos centrais das principais economias do planeta: todos reconheciam a necessidade de medidas provisórias que revertessem a situação. Na reunião do Conselho Europeu de 15 e 16 de outubro de 2008, os governos anunciaram a recapitalização dos estabelecimentos de crédito em dificuldade e prometeram garantir os empréstimos bancários. No âmbito da União Europeia, duas instituições tomaram a dianteira e funcionaram como verdadeiros centros de pilotagem em meio à tempestade: o BCE e a Direção Geral da Concorrência (DGC). Pelo fato de não serem legitimadas eleitoralmente, essas instituições se fortalecem de maneira inversamente proporcional ao nível de democracia da UE.
Terceira fase: fim de 2009. A Europa se transformou no epicentro da crise global e desencadeou um espiral nefasto com o aumento das taxas de juros da dívida púbica dos países da periferia, a generalização das medidas de austeridade e o crescimento mínimo ou em queda livre. Em meio à tempestade, as soberanias nacionais, combinadas com uma moeda única, ficaram à mercê dos ataques especulativos, uma vez que o BCE se recusou a assegurar essas economias.
Maio de 2010. O primeiro plano de salvamento da Grécia colocou Atenas sob tutela da Troika: FMI, BCE e Comissão Europeia. Na esteira dessa medida, as taxas de juros da Irlanda e de Portugal, e em seguida as da Espanha e da Itália, dispararam, contrariando a hipótese de que a Grécia seria um caso particular. Ao mesmo tempo, nascia o Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (Fesf, na sigla em francês). Apesar da oposição de parte das elites continentais, o BCE ampliou o campo de suas prerrogativas e passou a comprar títulos públicos no mercado secundário.
Essas mudanças afetaram os juros do mercado financeiro. Klaus Regling assumiu o Fesf. Antigo quadro do FMI, do Ministério da Fazenda alemão e da Comissão Europeia, ele construiu parte de sua carreira no setor privado: trabalhou para a associação de banqueiros alemães durante a década de 1980, dirigiu um fundo especulativo (hedge fund) em Londres entre 1999 e 2001 e trabalhou como consultor financeiro privado em Bruxelas. Caso similar: Jacques de Larosière. Ex-diretor geral do FMI, alto funcionário do Tesouro francês, depois conselheiro de Michel Pébereau e CEO do BNP Paribas, Larosière presidiu, em fevereiro de 2009, o grupo de especialistas que fez o relatório sobre a reforma da arquitetura financeira europeia. Quatro dos oito membros desse grupo já haviam sido ligados a instituições financeiras como Goldman Sachs, BNP Paribas, Lehman Brothers e Citigroup.
Na quarta fase, que começou em julho de 2011, a crise da dívida das nações periféricas se estendeu a certos países do núcleo histórico da União Europeia, como a Itália, que viu as taxas de juros de sua dívida pública dispararem em relação às da Alemanha. O conjunto do continente entrou novamente em recessão, enquanto os países do Sul saíam da depressão. Ao mesmo tempo, a crise politizou-se e as tensões recrudesceram no cenário internacional, tanto entre os países europeus como no seio das sociedades mais afetadas pelas turbulências econômicas europeias: Espanha, Itália, Portugal e Grécia.
O papel desempenhado pelo Instituto de Finanças Internacionais (IFI) foi crucial nessa fase. Espécie de lobby de grandes estabelecimentos financeiros mundiais, esse organismo pressionou os representantes dos governos nacionais e da UE. Envolveu-se diretamente nas negociações da reforma da arquitetura financeira europeia e conseguiu, por exemplo, vetar a proposta de uma nova taxa para o setor bancário.3
Quando, em outubro de 2011, o primeiro-ministro grego George Papandreou anunciou a intenção de convocar um referendo sobre o novo plano de ajuda, os governos europeus ameaçaram puni-lo. Nicolas Sarkozy evocou pela primeira vez a possibilidade de a Grécia deixar a zona do euro. Papandreou pediu demissão e foi substituído por Lucas Papademos – ex-dirigente do Banco Central em Atenas e Frankfurt –, que tomou a dianteira do “governo de união nacional”.
Na Itália, Silvio Berlusconi teve a mesma sorte. Em novembro de 2011, depois do comissário de relações econômicas Olli Rehn encaminhar uma carta à Itália exigindo reformas econômicas e fiscais drásticas, o primeiro-ministro se viu obrigado a pedir demissão. Foi substituído por Mario Monti, clone transalpino de Papademos, Larosière e Regling. Ex-comissário europeu para a concorrência, Monti também foi presidente do European Money and Finance Forum, um think thank que reúne executivos do mercado financeiro, políticos e universitários e já prestou consultoria para Goldman Sachs e Coca-Cola.
A incapacidade dos Estados europeus de enfrentar a crise conduziu a uma aceleração do processo de integração europeia. O novo tratado cuja ratificação está em curso limita as políticas orçamentárias nacionais, submetendo-as à fiscalização da Comissão e de outros governos. O princípio segundo o qual a “soberania diminui quando a solvência diminui” reduz a condição do país em regime de assistência a quase protetorado. Em Atenas, Lisboa e Dublin, os homens de preto da Troika ditam as medidas a serem tomadas, revelando as relações coloniais a que são submetidos os países da periferia. Na reunião do Conselho da União Europeia em junho de 2012, a Espanha e a Itália – apoiadas pelo novo governo francês – conseguiram arrancar uma promessa vaga de que a tutela seria menos rígida no futuro. A desilusão não tardou: em declarações recentes, Mario Draghi afirmou que só é possível usufruir a garantia completa do BCE – do qual ele se tornou diretor em novembro de 2011 – se as injunções da Troika forem completamente obedecidas pelas autoridades nacionais.4
Cesarismo europeu
Assim, desde o início da crise, a Europa manifesta as características de um regime autoritário: governantes eleitos forçados a pedir demissão e substituídos por tecnocratas sem legitimidade democrática; proeminência de instituições supostamente “neutras”, como o BCE; enfraquecimento do Parlamento Europeu, cujo presidente – o social-democrata alemão Martin Schulz – se esforça para que reconheçam o papel desempenhado pela instituição;5 anulação de referendos; interferência do setor privado em decisões políticas...
Para compreender essa dinâmica antidemocrática – passível de ser revertida somente por um movimento social amplo e de escala continental –, pode ser útil recorrer a um contemporâneo de Freud, também observador perspicaz da crise da civilização na década de 1930: Antonio Gramsci.
De acordo com o intelectual italiano, durante as grandes crises do capitalismo, as instituições que dependem do sufrágio universal, como os parlamentos, passam para segundo plano. E, de forma inversa, circunstâncias extraordinárias consolidam “a posição relativa do poder da burocracia (civil e militar), do mercado financeiro, da Igreja e, de forma geral, de todos os organismos relativamente independentes das flutuações da opinião pública”.6
Em tempos normais, as instituições democráticas prevalecem no comando. Em situações de crise, contudo, suas contradições se agudizam e enfraquecem a capacidade decisória necessária quando o ritmo da política se acelera. Simultaneamente, nesses períodos, a opinião pública flutua consideravelmente e muitas vezes tende a apoiar soluções mais radicais.
Gramsci chama de “cesarismo” essa propensão dos regimes democráticos a manifestar facetas autoritárias em tempos de crise. No século XIX e na primeira metade do XX, os elementos cesaristas emergiam no seio dos exércitos – como Napoleão Bonaparte, Otto von Bismarck e Benito Mussolini, três figuras emblemáticas desse fenômeno. A expressão “cesarismo” é inspirada em César, carismático general romano que atravessou o Rubicão e eliminou a fronteira entre o militar e o político. Mas Gramsci observou que atores não militares também podiam exercer a função de “césar”: é o caso da Igreja, do mercado financeiro ou da burocracia estatal. O autor dos Cadernos do cárcereconstata, por exemplo, a natureza fragmentária da nação forjada pelo Risorgimentoitaliano no século XIX – constituída pela agregação de territórios sucessivamente anexados sem a implicação das massas populares. Somente a burocracia estatal seria capaz de garantir a unidade desses povos, por isso desempenharia o papel de “césar”, sem o qual as forças centrífugas dividiriam novamente o conjunto.
As dinâmicas em marcha na União Europeia evocam, assim, uma forma de cesarismo: não militar, mas financeiro e burocrático. Entidade política de soberania fragmentária, a Europa tem sua unidade garantida apenas pela burocracia de Bruxelas e pela interferência no funcionamento estrutural das finanças internacionais. Nos últimos três anos, os supostos “progressos” no processo de integração europeia acentuam essa característica.
Esse cesarismo não é uma invenção da UE. Após a Segunda Guerra Mundial, algumas instituições não democráticas, entre as quais as cortes constitucionais ou os bancos centrais independentes, se tornaram cada vez mais centrais na Europa ocidental. As elites continentais da época consideravam que os totalitarismos gêmeos – nazismo e stalinismo – haviam sido produzidos pelo “excesso” de democracia, razão pela qual era necessário proteger a Europa de seu próprio descontrole.7 Desde sua origem, o projeto europeu se inscreve nessa lógica de manter as populações a distância. Mas a aceleração brutal desde 2009 radicalizou o processo: a união econômica e monetária tornou-se um instrumento autoritário usado para administrar as contradições econômicas e sociais produzidas pela crise.
Assim, a atualidade não opõe mais construção europeia e retorno à escala nacional – como querem fazer acreditar os grandes meios de comunicação e os intelectuais euroliberais. Opõe, sim, duas opções antagonistas: o cesarismo e a democracia.
Cédric Durand
Conferencista de Economia da universidade Paris 13


Razmig Keucheyan Conferencista de Sociologia da Universidade Paris-Sorbonne


Ilustração: Benett
1 Sigmund Freud, Nouvelles conférences d’introduction à la psychanalyse [Novas conferências de introdução à psicanálise], Gallimard, Paris, 1984 (1ª ed.: 1933).
2 Ler Raoul Marc Jennar, “Deux traités pour un coup d’État européen” [Dois tratados para um golpe de Estado europeu] e “Traité flou, conséquences limpides” [Tratado fluido, consequências límpidas], Le Monde Diplomatique, respectivamente jun. e out. 2012.
3 Financial Times, Londres, 20 jul. 2011.
4 Financial Times, 7 set. 2012.
5 Le Monde, 9 jan. 2012.
6 Antonio Gramsci, Guerre de mouvement et guerre de position [Guerra de movimento e guerra de posição], fragmentos de Cahiers de prison [Cadernos do cárcere], escolhidos e comentados por Razmig Keucheyan, La Fabrique, Paris, 2012. Ler “Gramsci, une pensée devenue monde” [Gramsci, pensamento que se tornou mundo], Le Monde Diplomatique, jul. 2012.
7 Cf. Jan-Werner Müller, Contesting democracy. Political ideas in twentieth-century Europe [Contestando a democracia. Ideias políticas na Europa do século XX], Yale University Press, New Haven, 2010.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Grécia: Novas eleições são referendo sobre saída da União Europeia

Grécia: Novas eleições são referendo sobre saída da União Europeia

 Publicado em Carta Capital

Alexis Tsipras (centro) chega para reunião no palácio presidencial grego, em Atenas. Seu adversários dizem que ele criou um "muro de arrogância" por não ceder nas negociações. Foto: Louisa Gouliamaki / AFP
Alexis Tsipras (centro) chega para reunião no palácio presidencial grego, em Atenas. Seu adversários dizem que ele criou um "muro de arrogância" por não ceder nas negociações. Foto: Louisa Gouliamaki / AFP

Após nove dias de negociações infrutíferas, os representantes dos cinco principais partidos da Grécia desistiram nesta terça-feira 15 de chegar a um acordo sobre o futuro governo do país e anunciaram novas eleições para 17 de junho. Até lá, a Grécia viverá um mês de instabilidade, mas agora o eleitor tem ainda mais claro em sua mente o poder que tem nas mãos. Ir às urnas será quase um plebiscito. A Grécia vai decidir se mergulha fundo nas medidas de austeridade impostas pela União Europeia e pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) ou se embarca em uma aventura cujo fim é incerto: deixar a zona do euro.
Hoje, a possibilidade maior é de a Grécia abandonar o euro. Nas negociações dos últimos dias, o partido de extrema-esquerda Syriza bloqueou todas as iniciativas de formar um governo de coalizão. Seu líder, Alexis Tsipras, deixou claro que o Syriza, segundo colocado nas eleições, não faria parte de qualquer gabinete favorável às medidas de austeridade impostas ao país em troca de empréstimos bilionários. Tsipras não fez nada mais do que cumprir a vontade de seus eleitores. Pouco mais de 16% dos gregos votaram no Syriza como forma de protestar contra a austeridade. Afinal, as medidas impostas pela EU e pelo FMI jogaram a Grécia no caminho do desemprego galopante e da recessão profunda.
Nas próximas eleições, o Syriza é favorito para ficar com o maior número de vagas no parlamento. Como na primeira eleição 66% dos gregos votaram em partidos anti-austeridade, é provável que este resultado, no mínimo, se reproduza. Ao mesmo tempo, os partidos mais tradicionais da Grécia, o Nova Democracia (centro-direita) e o Pasok (centro-esquerda), ambos favoráveis à austeridade, continuam perdendo popularidade. Neste cenário, por enquanto hipotético, não é difícil imaginar um governo liderado pelo Syriza e completado por outros pequenos partidos anti-austeridade. Se essa possibilidade se concretizar, a Grécia estará indo em direção à porta de saída da zona do euro.


Hoje, parece não haver um caminho do meio para a Grécia. Se o Syriza é intransigente por recusar de antemão qualquer possibilidade de manter as medidas de austeridade, os dirigentes da União Europeia são também intransigentes sobre qualquer chance de a Grécia recusar essas medidas. E, diante do impasse político no país, não cogitaram reduzir a austeridade. Pelo contrário. Após meses mantendo este assunto como tabu, passaram a falar abertamente sobre a saída da Grécia da zona do euro. Nesta terça-feira, o ministro das Finanças da Alemanha, Wolfgang Schauble, foi o primeiro a se pronunciar sobre o fracasso das negociações. “Se a Grécia quiser continuar no euro então terá que aceitar as condições”, afirmou. Como se vê, a estratégia da União Europeia é jogar a Grécia contra a parede para aceitar as medidas draconianas de austeridade. Falta, no entanto, combinar isso com o eleitor grego.

Como um país deixa o euro?
Antonis Samaras, chefe do Nova Democracia, acusou o Syriza de "aventureirismo oportunista". Foto: Aris Messinis / AFP
Antonis Samaras, chefe do Nova Democracia, acusou o Syriza de "aventureirismo oportunista". Foto: Aris Messinis / AFP
 
Pelas legislações vigentes atualmente na Europa, um país não pode ser expulso da zona do euro. Ele pode, entretanto, ser pressionado a fazer isso. Em entrevista à agência de notícias Reuters na segunda-feira 14, um diplomata fez uma analogia simples para explicar a situação. “Em teoria, não é possível [expulsar um país do euro], mas é um pouco como o baterista da banda – se banda não gosta do baterista, sempre há um jeito de se livrar dele”. Para os países da zona do euro, a saída da Grécia é temerosa pois pode gerar pânico nos mercados (sempre eles). O temor é de que os investidores passem a pensar: ‘se a Grécia sucumbiu, Portugal, Irlanda, Espanha e Itália também vão sucumbir?’. Para os líderes europeus estarem falando abertamente na saída da Grécia, é por que já têm algum plano de reação para isso. Os países de economia mais fraca teriam disponíveis, por exemplo, os 240 bilhões de euros prometidos para a Grécia. Para os gregos, a situação é preocupante, e não se sabe ao certo até onde o Syriza e outros partidos anti-austeridade foram na análise de cenários futuros. O lado bom de sair do euro é que a Grécia poderia desvalorizar sua própria moeda e, assim, tornar seus produtos mais atrativos. No caso da Grécia, não é certo que isso seria suficiente para tirar o país da crise. Na segunda-feira, o economista norte-americano Richard Parker, ex-conselheiro do governo do ex-premiê George Papandreou, disse que a desvalorização tem limites. Segundo afirmou Parker ao canal Sky News, o turismo e os embarques comerciais marítimos, principais atividades econômicas da Grécia, não sustentariam a saída do país da crise.
Agrava a situação a logística que um país precisaria passar para abandonar o euro. Segundo o jornal The Guardian, o premier que colocou a Grécia na zona do euro, Costas Simitis, traçou um futuro desolador em evento nesta terça-feira. Segundo ele, seriam necessários três meses de bancos fechados para que a Grécia pudesse substituir o euro por uma nova moeda, que precisaria ser impressa e distribuída por todo o país. Esse tempo todo, segundo Simitis, levaria o país para uma situação de convulsão social.
O caos, entretanto, pode chegar antes. A Grécia está perto da falência e, se a UE e o FMI pararem de emprestar dinheiro para o país, o governo pode ficar, literalmente, sem dinheiro. Neste cenário, serviços públicos como transporte e saúde ficariam parados, a infraestrutura grega ficaria abandonada e os servidores não receberiam seus salários. Pelo menos verbalmente, esta é a ameaça da UE e do FMI à Grécia. Resta saber como os eleitores gregos vão responder a ela e, se os políticos gregos estão prontos a buscar alternativas para evitar um desastre.