| Uma Europa cada vez menos democrática |
Publicado em Le Monde Diplomatique
Ironia,
incentivo ou epitáfio? O prêmio Nobel da paz para a U.E pode despertar a
perplexidade quando, ao mesmo tempo, o Banco Central Europeu e a
Comissão Europeia conduzem uma guerra monetária contra vários
países-membros. A distinção convoca, em todo caso, a uma reflexão sobre o
regime político da comunidade
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| por Cédric Durand, Razmig Keucheyan |
A crise econômica desencadeada em 2007 revelou as contradições inerentes à construção europeia e demonstrou, em particular, que a União Europeia (UE) se apoiava em um regime político autoritário, suscetível à suspensão de procedimentos democráticos sob o argumento de emergência econômica ou financeira. Durante os últimos quatro anos, instituições como o Banco Central Europeu (BCE) e a Comissão Europeia escaparam de qualquer controle popular e impuseram – com a colaboração ativa das classes dominantes desses países – planos econômicos aos povos irlandês, húngaro, romeno, grego, italiano, espanhol, português e francês. O Tratado de Estabilidade, Coordenação e Governança (TSCG, na sigla em francês), o controle orçamentário dos Estados-membros e a vigilância dos bancos pela União Europeia aprofundam esse movimento.2 Como caracterizar essa forma de governar populações sem a participação delas? Em queda livre Para entender a natureza do novo regime político europeu, convém retomar as quatro fases da crise econômica. Tudo começou em agosto de 2007, quando o maior banco francês, o BNP Paribas, anunciou o congelamento dos ativos de três de seus fundos de investimento. Com o argumento da incapacidade de avaliação desses fundos, a UE não dispôs de nenhuma fonte financeira própria para intervir. Se por um lado a moeda única estimulou a criação de bancos que operam em escala continental, por outro a supervisão dessas instituições permanece uma prerrogativa dos Estados. O BCE injeta grandes volumes de liquidez, mas não pleiteia uma reforma profunda no sistema financeiro. Em setembro de 2008, a quebra do quarto maior banco de investimentos do mundo, o Lehman Brothers, desencadeou a segunda fase da crise. O episódio conduziu o sistema financeiro à beira do abismo e gerou uma crise de crédito de amplitude mundial. Pela primeira vez depois da Segunda Guerra Mundial a economia global mergulhou em uma recessão. A resposta das elites veio primeiro do G20 e dos bancos centrais das principais economias do planeta: todos reconheciam a necessidade de medidas provisórias que revertessem a situação. Na reunião do Conselho Europeu de 15 e 16 de outubro de 2008, os governos anunciaram a recapitalização dos estabelecimentos de crédito em dificuldade e prometeram garantir os empréstimos bancários. No âmbito da União Europeia, duas instituições tomaram a dianteira e funcionaram como verdadeiros centros de pilotagem em meio à tempestade: o BCE e a Direção Geral da Concorrência (DGC). Pelo fato de não serem legitimadas eleitoralmente, essas instituições se fortalecem de maneira inversamente proporcional ao nível de democracia da UE. Terceira fase: fim de 2009. A Europa se transformou no epicentro da crise global e desencadeou um espiral nefasto com o aumento das taxas de juros da dívida púbica dos países da periferia, a generalização das medidas de austeridade e o crescimento mínimo ou em queda livre. Em meio à tempestade, as soberanias nacionais, combinadas com uma moeda única, ficaram à mercê dos ataques especulativos, uma vez que o BCE se recusou a assegurar essas economias. Maio de 2010. O primeiro plano de salvamento da Grécia colocou Atenas sob tutela da Troika: FMI, BCE e Comissão Europeia. Na esteira dessa medida, as taxas de juros da Irlanda e de Portugal, e em seguida as da Espanha e da Itália, dispararam, contrariando a hipótese de que a Grécia seria um caso particular. Ao mesmo tempo, nascia o Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (Fesf, na sigla em francês). Apesar da oposição de parte das elites continentais, o BCE ampliou o campo de suas prerrogativas e passou a comprar títulos públicos no mercado secundário. Essas mudanças afetaram os juros do mercado financeiro. Klaus Regling assumiu o Fesf. Antigo quadro do FMI, do Ministério da Fazenda alemão e da Comissão Europeia, ele construiu parte de sua carreira no setor privado: trabalhou para a associação de banqueiros alemães durante a década de 1980, dirigiu um fundo especulativo (hedge fund) em Londres entre 1999 e 2001 e trabalhou como consultor financeiro privado em Bruxelas. Caso similar: Jacques de Larosière. Ex-diretor geral do FMI, alto funcionário do Tesouro francês, depois conselheiro de Michel Pébereau e CEO do BNP Paribas, Larosière presidiu, em fevereiro de 2009, o grupo de especialistas que fez o relatório sobre a reforma da arquitetura financeira europeia. Quatro dos oito membros desse grupo já haviam sido ligados a instituições financeiras como Goldman Sachs, BNP Paribas, Lehman Brothers e Citigroup. Na quarta fase, que começou em julho de 2011, a crise da dívida das nações periféricas se estendeu a certos países do núcleo histórico da União Europeia, como a Itália, que viu as taxas de juros de sua dívida pública dispararem em relação às da Alemanha. O conjunto do continente entrou novamente em recessão, enquanto os países do Sul saíam da depressão. Ao mesmo tempo, a crise politizou-se e as tensões recrudesceram no cenário internacional, tanto entre os países europeus como no seio das sociedades mais afetadas pelas turbulências econômicas europeias: Espanha, Itália, Portugal e Grécia. O papel desempenhado pelo Instituto de Finanças Internacionais (IFI) foi crucial nessa fase. Espécie de lobby de grandes estabelecimentos financeiros mundiais, esse organismo pressionou os representantes dos governos nacionais e da UE. Envolveu-se diretamente nas negociações da reforma da arquitetura financeira europeia e conseguiu, por exemplo, vetar a proposta de uma nova taxa para o setor bancário.3 Quando, em outubro de 2011, o primeiro-ministro grego George Papandreou anunciou a intenção de convocar um referendo sobre o novo plano de ajuda, os governos europeus ameaçaram puni-lo. Nicolas Sarkozy evocou pela primeira vez a possibilidade de a Grécia deixar a zona do euro. Papandreou pediu demissão e foi substituído por Lucas Papademos – ex-dirigente do Banco Central em Atenas e Frankfurt –, que tomou a dianteira do “governo de união nacional”. Na Itália, Silvio Berlusconi teve a mesma sorte. Em novembro de 2011, depois do comissário de relações econômicas Olli Rehn encaminhar uma carta à Itália exigindo reformas econômicas e fiscais drásticas, o primeiro-ministro se viu obrigado a pedir demissão. Foi substituído por Mario Monti, clone transalpino de Papademos, Larosière e Regling. Ex-comissário europeu para a concorrência, Monti também foi presidente do European Money and Finance Forum, um think thank que reúne executivos do mercado financeiro, políticos e universitários e já prestou consultoria para Goldman Sachs e Coca-Cola. A incapacidade dos Estados europeus de enfrentar a crise conduziu a uma aceleração do processo de integração europeia. O novo tratado cuja ratificação está em curso limita as políticas orçamentárias nacionais, submetendo-as à fiscalização da Comissão e de outros governos. O princípio segundo o qual a “soberania diminui quando a solvência diminui” reduz a condição do país em regime de assistência a quase protetorado. Em Atenas, Lisboa e Dublin, os homens de preto da Troika ditam as medidas a serem tomadas, revelando as relações coloniais a que são submetidos os países da periferia. Na reunião do Conselho da União Europeia em junho de 2012, a Espanha e a Itália – apoiadas pelo novo governo francês – conseguiram arrancar uma promessa vaga de que a tutela seria menos rígida no futuro. A desilusão não tardou: em declarações recentes, Mario Draghi afirmou que só é possível usufruir a garantia completa do BCE – do qual ele se tornou diretor em novembro de 2011 – se as injunções da Troika forem completamente obedecidas pelas autoridades nacionais.4 Cesarismo europeu Assim, desde o início da crise, a Europa manifesta as características de um regime autoritário: governantes eleitos forçados a pedir demissão e substituídos por tecnocratas sem legitimidade democrática; proeminência de instituições supostamente “neutras”, como o BCE; enfraquecimento do Parlamento Europeu, cujo presidente – o social-democrata alemão Martin Schulz – se esforça para que reconheçam o papel desempenhado pela instituição;5 anulação de referendos; interferência do setor privado em decisões políticas... Para compreender essa dinâmica antidemocrática – passível de ser revertida somente por um movimento social amplo e de escala continental –, pode ser útil recorrer a um contemporâneo de Freud, também observador perspicaz da crise da civilização na década de 1930: Antonio Gramsci. De acordo com o intelectual italiano, durante as grandes crises do capitalismo, as instituições que dependem do sufrágio universal, como os parlamentos, passam para segundo plano. E, de forma inversa, circunstâncias extraordinárias consolidam “a posição relativa do poder da burocracia (civil e militar), do mercado financeiro, da Igreja e, de forma geral, de todos os organismos relativamente independentes das flutuações da opinião pública”.6 Em tempos normais, as instituições democráticas prevalecem no comando. Em situações de crise, contudo, suas contradições se agudizam e enfraquecem a capacidade decisória necessária quando o ritmo da política se acelera. Simultaneamente, nesses períodos, a opinião pública flutua consideravelmente e muitas vezes tende a apoiar soluções mais radicais. Gramsci chama de “cesarismo” essa propensão dos regimes democráticos a manifestar facetas autoritárias em tempos de crise. No século XIX e na primeira metade do XX, os elementos cesaristas emergiam no seio dos exércitos – como Napoleão Bonaparte, Otto von Bismarck e Benito Mussolini, três figuras emblemáticas desse fenômeno. A expressão “cesarismo” é inspirada em César, carismático general romano que atravessou o Rubicão e eliminou a fronteira entre o militar e o político. Mas Gramsci observou que atores não militares também podiam exercer a função de “césar”: é o caso da Igreja, do mercado financeiro ou da burocracia estatal. O autor dos Cadernos do cárcereconstata, por exemplo, a natureza fragmentária da nação forjada pelo Risorgimentoitaliano no século XIX – constituída pela agregação de territórios sucessivamente anexados sem a implicação das massas populares. Somente a burocracia estatal seria capaz de garantir a unidade desses povos, por isso desempenharia o papel de “césar”, sem o qual as forças centrífugas dividiriam novamente o conjunto. As dinâmicas em marcha na União Europeia evocam, assim, uma forma de cesarismo: não militar, mas financeiro e burocrático. Entidade política de soberania fragmentária, a Europa tem sua unidade garantida apenas pela burocracia de Bruxelas e pela interferência no funcionamento estrutural das finanças internacionais. Nos últimos três anos, os supostos “progressos” no processo de integração europeia acentuam essa característica. Esse cesarismo não é uma invenção da UE. Após a Segunda Guerra Mundial, algumas instituições não democráticas, entre as quais as cortes constitucionais ou os bancos centrais independentes, se tornaram cada vez mais centrais na Europa ocidental. As elites continentais da época consideravam que os totalitarismos gêmeos – nazismo e stalinismo – haviam sido produzidos pelo “excesso” de democracia, razão pela qual era necessário proteger a Europa de seu próprio descontrole.7 Desde sua origem, o projeto europeu se inscreve nessa lógica de manter as populações a distância. Mas a aceleração brutal desde 2009 radicalizou o processo: a união econômica e monetária tornou-se um instrumento autoritário usado para administrar as contradições econômicas e sociais produzidas pela crise. Assim, a atualidade não opõe mais construção europeia e retorno à escala nacional – como querem fazer acreditar os grandes meios de comunicação e os intelectuais euroliberais. Opõe, sim, duas opções antagonistas: o cesarismo e a democracia.
Cédric Durand
Conferencista de Economia da universidade Paris 13Razmig Keucheyan Conferencista de Sociologia da Universidade Paris-Sorbonne Ilustração: Benett 1 Sigmund Freud, Nouvelles conférences d’introduction à la psychanalyse [Novas conferências de introdução à psicanálise], Gallimard, Paris, 1984 (1ª ed.: 1933). 2 Ler Raoul Marc Jennar, “Deux traités pour un coup d’État européen” [Dois tratados para um golpe de Estado europeu] e “Traité flou, conséquences limpides” [Tratado fluido, consequências límpidas], Le Monde Diplomatique, respectivamente jun. e out. 2012. 3 Financial Times, Londres, 20 jul. 2011. 4 Financial Times, 7 set. 2012. 5 Le Monde, 9 jan. 2012. 6 Antonio Gramsci, Guerre de mouvement et guerre de position [Guerra de movimento e guerra de posição], fragmentos de Cahiers de prison [Cadernos do cárcere], escolhidos e comentados por Razmig Keucheyan, La Fabrique, Paris, 2012. Ler “Gramsci, une pensée devenue monde” [Gramsci, pensamento que se tornou mundo], Le Monde Diplomatique, jul. 2012. 7 Cf. Jan-Werner Müller, Contesting democracy. Political ideas in twentieth-century Europe [Contestando a democracia. Ideias políticas na Europa do século XX], Yale University Press, New Haven, 2010. |
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sexta-feira, 7 de dezembro de 2012
Atualidades Financeiras: uma europa cada vez menos democrática
segunda-feira, 12 de novembro de 2012
Grécia aprova Orçamento com cortes
Grécia aprova Orçamento com cortes
Renata Giraldi* - Repórter da Agência BrasilEm meio a protestos, o Parlamento da Grécia aprovou ontem (11) a proposta para o Orçamento do de 2013 do país, estabelecendo uma série de cortes e medidas de austeridade. O texto obteve 167 votos a favor e 128 contra. A aprovação do orçamento era uma exigência dos credores para o governo grego receber a ajuda de 31,5 bilhões de euros (mais de R$ 80 bilhões) da União Europeia e do Fundo Monetário Internacional (FMI).
Antes e durante a votação, mais de 100 mil manifestantes se reuniram em frente ao Parlamento, no centro de Atenas, a capital grega. O primeiro-ministro Antonis Samaras disse aos parlamentares que os cortes orçamentários serão os últimos que os gregos terão de enfrentar. "A Grécia fez o que lhe foi pedido. Agora é hora de os credores assumirem os compromissos que fizeram".
Anteriormente, Samaras havia dito que sem o auxílio da União Europeia e do FMI, o país pode enfrentar a falta de dinheiro no fim desta semana. A economia do país deve encolher 4,5% em 2013. Ministros da zona do euro vão se reunir hoje (12) em Bruxelas, na Bélgica. Samaras deve participar do encontro.
Um dos principais desafios enfrentados pelo primeiro-ministro é que pode demorar semanas até que a União Europeia aprove a nova cota de ajuda. A lentidão se deve ao fato de que a medida tem de ser aprovada por alguns parlamentos dos países do bloco, incluindo a Alemanha.
Na semana passada, um pacote de austeridade foi aprovado, em meio a protestos violentos, nos quais os manifestantes lançaram coquetéis molotov contra a polícia de choque, que respondeu com bombas de gás lacrimogêneo.
*Com informações da BBC Brasil
Edição: Graça Adjuto
Fonte: EBC
Publicado em: 12/11/2012
sábado, 18 de agosto de 2012
Crise Européia: Alemães com medo do espantalho grego
| Alemães com medo do espantalho grego | ||
A
vitória dos conservadores nas eleições gregas foi saudada por uma
insólita coalizão: de Washington a Pequim e de Paris a Berlim, chefes de
Estado parabenizaram o povo que decidiu manter os pagamentos ao sistema
financeiro. Intransigentes, líderes alemães se apoiam no sentimento de
que gregos abusam da solidariedade
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| por Olivier Cyran | ||
Nesta manhã de junho, o ensaísta mais influente da Alemanha participa de uma audiência no Café Einstein, um estabelecimento de alto nível de Berlim, a dois passos do Portão de Brandemburgo. O recepcionista acompanha o visitante à sala reservada ao “Herr Doktor”, onde uma equipe de televisão já arrumava as coisas para sair. Outros jornalistas esperam a vez. É preciso ser rápido: meia hora por entrevista. Esse homem de palavras tão disputadas pela imprensa alemã é um ex-banqueiro magro e de bigode, que jamais sorri. Seu nome, Thilo Sarrazin, vale ouro no mercado editorial: L’Allemagne court à sa perte [A Alemanha se extingue a si mesma], lançado em 2010, vendeu 1,5 milhão de exemplares, o que o tornou um dos maiores best-sellers além-Reno desde 1945. Nesse livro, o ex-membro da diretoria do Deutsche Bank descreve em termos apocalípticos a agonia de uma nação devastada pela imigração, pelo Islã e pelo peso demográfico dos “trabalhos menos inteligentes”. Hoje, Sarrazin inunda as estantes das livrarias com outra torrente: A Europa não precisa do euro,1 lançado em maio e já o mais vendido entre as obras políticas. O ensaísta incita a próspera Alemanha – que ainda não está completamente morta – a cavalgar sozinha e não depositar um centavo mais em seus parceiros mediterrâneos, acusados de destruir a Europa em sua alergia ao trabalho e indolência orçamentária. Essa tese, contudo, não é novidade. O nacionalismo econômico de Sarrazin irritou diversos rivais, entre eles Hans-Olaf Henkel, o ex-presidente da poderosa Federação da Indústria Alemã (BDI), que também lançou seu próprio panfleto em janeiro. Em Salvemos nosso dinheiro! A Alemanha exportada. Como a fraude do euro ameaça nossa prosperidade,2 também um best-seller, o porta-estandarte dos exportadores alemães preconiza a divisão da Europa em duas zonas monetárias diferentes: uma munida de um euro forte, reservada aos países do Norte, e a outra, dotada de um euro fraco, que uniria os “Estados azeiteiros” do Sul. Um inimigo por outro A “estrela da social-democracia”, como o apelidou Die Welt(Sarrazin é membro do Partido Social-Democrata Alemão – SPD), se expressa em tom monocórdio, ignorando graves e agudos. Primeiro, dedica-se a retificar a impressão segundo a qual ele teria trocado um inimigo público por outro, a figura do muçulmano retraído pela de sibarita grego: “Assegurar a paz entre os povos consiste em respeitar o direito de cada um a viver como bem entende. Se os gregos querem fazer uma sesta antes de trabalhar, se querem sair do trabalho três horas mais cedo para conviver mais com a família, isso é um problema deles. Com a condição de que eles não peçam depois que equilibremos a conta”. Ao ser questionado sobre a origem desse conhecimento da intimidade do povo grego, o economista respondeu: “Li um artigo muito interessante sobre isso em Der Spiegel”. Enquanto Sarrazin segura a vontade de espirrar, em um esforço considerável que arranca lágrimas de seus olhos, repensamos as palavras da véspera proferidas no bar Zur Traube, em Neukölln, um bairro popular de Berlim. “Os gregos levam uma vida suave e se aposentam aos 50 anos. Pelo menos, é o que dizem os jornais. Não me incomoda, eu faria como eles, mas não acho normal que a Alemanha pague sua dívida. Seria somar problemas demais, você não acha?”. Essas palavras não saíram da boca do banqueiro, mas de uma vendedora da rede de farmácias Schlecker, Martha Zwicker, de 48 anos, contratada no fim de 2010 por 7,5 euros a hora e demitida em março deste ano, pouco antes de os acionistas venderem a cadeia de drogarias. Esperando que o plano de reconversão negociado pelos sindicatos se concretize, ela empresta um ombro às confidências desconexas de seu vizinho de balcão, Tino, que terminou sua jornada de trabalho na garagem ao lado. Ele também não tem uma boa opinião sobre os gregos: “No país deles só há corrupção e quadrilhas. Pagamos suas contas e eles nos tratam como nazistas!”. Clichês na imprensa Considerações como essa não surpreendem em um país onde 62% da população é hostil a qualquer tipo de plano de auxílio a Atenas.3 Desde a eclosão da crise grega no fim de 2009, a imagem clichê de uma Europa preguiçosa que mama nas tetas germânicas se propagou em todos os setores da sociedade, das elites dirigentes aos balcões dos bares, passando pelas redações de jornais. A cobertura do periódico Focus, cuja capa exibia uma Vênus de Milo mostrando o dedo sob o título “Os vigaristas da família euro”, mostrava o tom dessa discussão em fevereiro de 2010. As páginas da publicação construíram uma interpretação da crise que foi utilizada em seguida, com mais ou menos nuances, por todos os meios de comunicação hegemônicos. “Aparentemente, o que dizem os jornais é verdade: vocês só aceitam trabalhar em troca de gorjeta”, acusava o escritor Walter Wüllenweber em uma “carta aberta aos gregos”, publicada por Stern em 5 de março de 2010. Com manchetes suculentas, como “defraudadores do Peloponeso”, “euro mussacá” e “aposentadoria de luxo dos gregos”, o jornal Bild Zeitung, do grupo Axel-Springer, forneceu aos leitores – estimados em 10 milhões de pessoas, ou seja, quase um alemão a cada cinco com idade para ler – uma interpretação cômoda da crise, à base de clichês que não contrariam muito os interesses dos bancos e de milhares de empresas. Essa “reportagem” de 26 de abril de 2010 resume o conteúdo: “O Bild [Banco Interamericano de Desenvolvimento] se rendeu ao país das bancarrotas e das aposentadorias de luxo, de defraudadores fiscais e aproveitadores”. Como não bastasse, o enviado especial jura ter conhecido um aposentado do correio grego que recebe “3.500 euros por mês”.4 Efeito garantido sobre o leitor, em particular se ele fizer parte dos 40% de assalariados alemães que vivem com menos de mil euros mensais. Refúgio dos investidores Os panfletos do Bild instalaram um burburinho de fundo que repercutiu também em seus concorrentes mais respeitáveis. Em 22 de maio deste ano, ao usar a manchete “O grego que dá medo reivindica caridade e ameaça a Europa” para se referir a Alexis Tsipras, dirigente da coalizão de esquerda Syriza, o jornal conservador Die Welt recorreu ao mesmo tipo de munição que o infranqueável Bild – que, por sua vez, publicou duas semanas antes uma foto de Tsipras com a seguinte manchete: “Se esse homem chegar ao poder, NOSSOS bilhões estarão em perigo!” (9 maio 2012). É esquecer rápido demais que os bilhões em questão não teriam se acumulado dessa maneira sem os desequilíbrios orçamentários que hoje Berlim denuncia, já que o excedente comercial alemão provém em grande parte do déficit de seus parceiros europeus.5 Ademais, desde o início da crise do euro, a Alemanha se tornou o refúgio dos investidores; assim, o país financia sua dívida com taxas de juros historicamente baixas. Segundo cálculo realizado pela versão digital do jornal econômico Les Échos (21 jun. 2012), “a base de custo desses empréstimos compensa praticamente todos os empréstimos outorgados a Atenas”. Profissional comercial em um grupo farmacêutico e militante do partido de Angela Merkel (União Democrática Cristã – CDU), Otto Henninger, de 62 anos, torce o nariz diante das confissões “xenófobas” da grande imprensa. Mas também se inquieta por seu capital. “A Alemanha é o país que financia a maior parcela do plano de ajuda à Grécia, um buraco sem fundo no qual nós, os contribuintes, depositamos dezenas e dezenas de bilhões. Não é viável. Em última instância, também nossa economia está ameaçada”. Diante do pedido de que identificasse mais precisamente a quais ameaças se referia, o homem suspirou desgostoso. Na realidade, está preocupado com sua futura aposentadoria. Como 13 milhões de compatriotas, ele se inscreveu no programa de previdência complementar por capitalização instaurado pelo governo Schröder em 2001. Esse dispositivo lhe promete uma aposentadoria de fato confortável, mas baseada em parte em fundos de pensão “cuja solvência depende da boa saúde dos mercados europeus”. Daí o acompanhamento dessas questões por todos os Ottos Henninger do país. “A verdade” Os alemães se mostram pouco inclinados a compartilhar o destino dos “causadores de quebras”, mas se bronzeiam felizes nas praias gregas e consideram essa experiência suficiente para torná-los “bons conhecedores” das realidades locais. “Os gregos são bon-vivants, e nós gostamos disso. Mas também são sonegadores de impostos e escondem suas fortunas em contas no exterior.” Todos? “Sim, todos. Todos os que eu conheço, em todo caso. E eles mesmos dizem que são os culpados.” Os gregos convidados a opinar nos meios de comunicação parecem dar razão a Henninger. “Claro que somos responsáveis”, assegura a escritora Soti Triantafyllou em entrevista publicada no jornal de centro-esquerda Süddeutsche Zeitung. A Grécia? “Um jardim de infância, uma sociedade de moleques imaturos” que de fato merece o martelo (4 jun. 2012). No mesmo dia, outro escritor grego, Nikos Domou, satisfazia os entrevistadores do Spiegelao dissertar sobre os problemas psicológicos de seus compatriotas: “Queremos ter tudo, aproveitar-se de tudo”. Esse refrão é repetido por todos os jornais como se fosse “a verdade”, assim como o prestigioso Spiegel, convencido de que na Grécia “os funcionários se aposentam antes dos 50 anos” (Spiegel Online, 1º maio 2010). Não é tão difícil, contudo, checar a informação: bastaria ir até a embaixada grega em Berlim e conversar com um dos funcionários, Pantelis Pantelouris, ainda ativo aos 65 anos. Esse antigo resistente do regime dos coronéis, cuja redução de efetivos o obrigava a trabalhar sete dias por semana, muitas vezes até as 22 horas, está pronto para se aposentar. Da mesma forma que a maioria dos funcionários gregos, receberá uma pensão raquítica, equivalente a metade de um salário já amputado em 40%. Generalização Seu filho, Michaelis, está furioso. Nascido em Berlim e criado em Hamburgo, jamais se sentiu tão grego como nos últimos anos. “Cada vez lido pior com as zombarias, os insultos e as calúnias que proferem contra os gregos.” Jornalista independente, alimenta um blog de contrainformação no qual analisa os elementos de linguagem aplicados a seus compatriotas.6 Ele observa que “os meios de comunicação tratam os gregos como tratam os desempregados: por causa de uma ou duas fraudes no sistema de benefício social, aponta-se o dedo a todos os trabalhadores desocupados. É uma forma de sabotar as solidariedades possíveis entre os assalariados mal pagos e os mais pobres que eles”. Pantelouris se pergunta sobre a “relação erótica” que os alemães mantêm com o dinheiro e suas economias. “A palavra ‘dívida’ (schulden) é muito próxima à palavra ‘erro’ (schuld). Esse parentesco semântico expressa uma visão de mundo: endividar-se é cometer um erro, um pecado. A dívida não é vista como uma ferramenta econômica eventualmente útil, e sim como uma maldição.” Talvez seja um vestígio traumático da República de Weimar, quando a hiperinflação obrigava os alemães a passar uma bolsa cheia de notas para comprar pão? “Se eles têm tanto medo da alta dos preços, é também pela repetição incessante de que eles deveriam ter medo.” Um episódio recente ilustra essa hipótese. No início de maio, o presidente do Banco Central alemão, Jens Weidmann, declarou que o país poderia muito bem suportar uma inflação levemente superior à média europeia (2,6% ao ano). O comentário arrancou um grito de horror do Bild Zeitung, que publicou a seguinte manchete: “Alerta à inflação! Banco Central enfraquece o euro. Com que rapidez nosso dinheiro será consumido?” (11 maio 2012). A manchete vinha ilustrada com a fotografia de uma nota de mil marcos que datava de 1923. “É absurdo!”, indigna-se o blogueiro de Hamburgo. “Em uma Europa onde a maior parte das pessoas reclama por moedas, trata-se antes de uma deflação do que uma inflação!” O fantasma da inflação, contudo, não é incoerente: caminha junto com a nostalgia dos tempos de ouro do deutschemark (marco alemão), quando a mais robusta das moedas europeias já continha todos os atributos de uma moeda única, mas a serviço exclusivo das economias merecedoras. Mão de obra qualificada Uma leve gagueira em sua dicção monocórdia trai a emoção que invade Sarrazin quando ele evoca as décadas do pós-guerra, durante as quais “reinava a paridade absoluta entre o marcoe as outras moedas de países satélites da Alemanha, como a Holanda, a Áustria e a Dinamarca”. Apesar de não ser favorável a uma saída à força do euro, como reivindica o pequeno partido Eleitores Livres, o ex-codiretor do Deutsche Bank tem o prazer de reforçar que “os excedentes comerciais acumulados pela Alemanha fora da zona do euro fazem que a moeda única seja cada vez menos vital em nossa economia” – ponto de vista bastante difundido entre as elites patronais. Se por um lado a Europa não é mais motivo de entusiasmo econômico, por outro os empregadores alemães ainda permanecem muito ligados à necessidade de mão de obra qualificada e barata entregue em domicílio. A crise constitui, nesse sentido, um tipo de providência, porque impulsiona milhares de sulistas estrangulados pelo desemprego a buscar a sorte na Alemanha. Segundo as estatísticas federais, as ondas de imigração provenientes da Espanha e da Grécia cresceram, respectivamente, 49% e 84% durante o primeiro semestre de 2011. Esse fluxo de trabalhadores prontos a trabalhar praticamente reconciliaria os industriais com o ideal comunitário. “Bingo! Isso é a Europa, sim ou não?”, alardeava entusiasmada a gerente de uma fábrica de cola durante um fórum econômico, em dezembro do ano passado, enquanto o patrão dos biscoitos Bahlsen rememorava os belos anos da década de 1960, quando sua empresa “importava espanhóis às centenas”.7 Essa recepção calorosa, contudo, se choca com algumas restrições. Em março, o governo federal suprimiu por decreto os benefícios sociais aos quais os imigrantes europeus podiam ter acesso quando entravam em território alemão. “A cultura da hospitalidade não deve ser um convite à imigração por nosso sistema social”, advertia o porta-voz do Ministério do Trabalho. O espectro de uma onda de hispânicos e gregos utilizando os serviços sociais alemães parece, entretanto, sem consistência, já que o próprio ministério reconhece que as demandas de auxílio social se limitavam a alguns “casos isolados” – como o de Kostas Konstantinos, por exemplo. Desembarcado em Berlim em setembro de 2011 sem um centavo no bolso, esse técnico em informática ateniense de 35 anos havia solicitado um auxílio de 530 euros que lhe permitira acompanhar um curso de alemão e ambicionar “outro emprego, além de ser garçom em um restaurante grego”. Subitamente privado desse benefício e da cobertura de saúde, ele teve um ataque de estresse pela situação em que se encontrava e agora se pergunta como pagar as tarifas que o hospital está cobrando. O Ministério do Trabalho contribui, porém, para a amizade entre os povos. Enquanto deixa Konstantinos na rua, concede uma subvenção especial às fundações de cinco grandes partidos políticos (CDU, SPD, FDP, Verdes e Die Linke) para que abram um escritório em Atenas. Como explica o ministério em um comunicado, essa operação deve ser interpretada como “um sinal da intensificação da amizade germano-grega”.
Olivier Cyran é jornalista.
1 Thilo Sarrazin, Europa braucht den Euro nicht, DVA, Berlim, 2010. 2 Hans-Olaf Henkel, Rettet unser Geld! Deutschland wird ausverkauft − Wie der Euro-Betrug unseren Wohlstand gefährdet, Heyne, Munique, 2011. 3 Segundo pesquisa do Instituto Ennid pelo Bild am Sonntag, 26 fev. 2012. 4 O autor dessa reportagem, Paul Ronzheimer, e Nikolaus Blome, também jornalista do Bild, obtiveram em 2011 o prêmio de meios de comunicação Herbert-Quandt por seus artigos sobre a crise grega. Ronzheimer deixou-se fotografar na Praça Syntagma, em Atenas, enquanto agitava, hilário, um maço de velhos dracmas a um grupo de manifestantes. 5 Ler Costas Lapavitsas, “Grèce, sortie de crise, sortie de l’euro” [Grécia, saída da crise, saída do euro], Le Monde Diplomatique, jun. 2012. 6 pantelouris.de. 7 “Fluchtpunkt Deutschland”, Der Spiegel, Hamburgo, 22 dez. 2011. |
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segunda-feira, 18 de junho de 2012
VITÓRIA DE CONSERVADORES NA GRÉCIA DÁ NOVA CHANCE AO EURO
VITÓRIA DE CONSERVADORES NA GRÉCIA DÁ NOVA CHANCE AO EURO
| GRÉCIA VOTA PARA FICAR NO EURO |
| O Globo - 18/06/2012 |
| Vitória de conservador alivia tensão no bloco, mas partido terá que negociar coalizão Os eleitores gregos indicaram ontem que desejam permanecer na zona do euro. Com 99,8% das urnas apuradas das eleições parlamentares, o partido conservador Nova Democracia, liderado por Antonis Samaras, obteve 29,7% dos votos, número que o autoriza a negociar uma coalização de partidos favoráveis ao acordo fechado entre o governo anterior e a União Europeia (UE). O principal opositor do pacto pró-austeridade, o esquerdista Alexis Tsipras reconheceu a derrota e prometeu manter sua oposição ao plano. Seu partido, o Syriza, obteve cerca de 26,9%, segundo as projeções. O partido socialista Pasok, de Evangelos Venizelos, ficou em terceiro lugar, com 12,3%. Confirmado o resultado, os três partidos obteriam, respectivamente, 129, 71 e 33 assentos no Parlamento. Para os gregos, não foi uma escolha fácil. Samaras foi ardorosamente apoiado por líderes da UE, temerosos de que uma vitória de Tsipras empurrasse o país para fora da zona do euro, com consequências catastróficas para o bloco europeu. O Nova Democracia, porém, é um partido associado à classe política que levou o país à falência, na origem da crise. Mas a ideia de simplesmente rasgar o acordo que permitiu a Atenas obter ajuda financeira e permanecer na zona do euro pareceu "louca" demais, como disse um eleitor, e foi rejeitada nas urnas. - É triste ter que escolher entre um ladrão e um louco - afirmou o motorista de ônibus Nikos ao jornal "El País", sem revelar em quem votou. Duas coisas pareciam claras ontem à noite. A primeira era que a sociedade grega estava bastante dividida entre aqueles que aceitavam as políticas de austeridade, condicionadas no acordo de ajuda da UE, e aqueles que não a suportam mais. A outra é que o Nova Democracia, se quiser formar um governo viável, terá que fazer uma coalizão ampla não apenas com o Pasok, mas também com outros partidos. Com 80% dos votos apurados, o partido Independentes Gregos obteve 7,5% dos votos (20 cadeiras); o ultranacionalista Aurora Dourada, 6,9% (18); o Esquerda Democrata, 6,2% (17 assentos); e o partido comunista grego, o KKE, recebeu 4,5% dos votos (12). A coalizão que formar maioria no Parlamento de 300 assentos indicará o novo primeiro-ministro e terá cacife para aprovar medidas impopulares. O resultado do pleito representou um alívio para os demais sócios da Grécia na zona do euro. Segundo fontes, as negociações para formar um governo começaram ontem mesmo. Samaras classificou sua vitória como "um êxito para a Europa": - O povo grego votou hoje (ontem) para se manter num rumo europeu e permanecer na zona do euro. Não haverá mais aventuras. O lugar da Grécia na Europa não será posto em dúvida. Os sacrifícios do povo grego darão frutos - disse Samaras. Samaras fala em crescimento Ele acrescentou que o país cumprirá todos os compromissos assumidos com a UE, mas buscará adotar incentivos ao crescimento, para reduzir o mal-estar social provocado pela estagnação da economia grega, o que vem estimulando um preocupante fenômeno de xenofobia violenta: - Faremos o que tiver que ser feito - prometeu Samaras. - Mas trabalharemos com os sócios europeus para introduzir nas políticas de austeridade algumas medidas que fomentem o crescimento. Nos últimos dias de campanha, a pressão dos sócios europeus, sobretudo da Alemanha, sobre os eleitores gregos para que votassem em Samaras e rejeitassem o esquerdista Tsipras se tornou evidente. Para os líderes europeus, um governo conservador na Grécia deverá aliviar o impacto da crise nos mercados, especialmente em países como Espanha e Itália, que já vinham pagando ágios cada vez mais caros para leiloar seus títulos soberanos. Segundo analistas, os investidores ficarão de olho agora nas negociações para a formação de um governo, a favor da política de austeridade e do euro. Também avaliarão a atuação da oposição. Para o Syriza, a derrota não tem um sabor amargo. Em 2009, o partido era uma agremiação periférica, com apenas 4,6% dos votos. Nas eleições de 6 de maio passado subiu para 16,7%, e agora supera os 25%. |
segunda-feira, 11 de junho de 2012
Espanha anuncia pedido de ajuda à Europa, que lhe oferece até 100 bi de euros
Espanha anuncia pedido de ajuda à Europa, que lhe oferece até 100 bi de euros
A Espanha anunciou neste sábado 9 que pedirá ajuda
financeira à zona do euro, que se mostrou disposta a conceder-lhe um
empréstimo de até 100 bilhões de euros para sanear seu setor bancário,
debilitado após o estouro da bolha imobiliária.
“O governo espanhol declara sua intenção de solicitar ajuda financeira europeia para a recapitalização dos bancos que a necessitarem”, afirmou o ministro de Economia, Luis de Guindos, durante coletiva de imprensa após uma teleconferência dos 17 ministros de Finanças da união monetária, na qual também participou a diretora-gerente do FMI, Christine Lagarde.
O Eurogrupo se mostrou disposto a responder “favoravelmente” ao pedido espanhol afirmando que “o montante a ser financiado deve cobrir as necessidades de capital com uma grande margem de segurança adicional, com uma soma estimada em até 100 bilhões de euros no total”.
“Após a solicitação formal, será realizada uma avaliação pela Comissão, conjuntamente com o BCE, o EBA (Autoridade Bancária Europeia) e o FMI, assim como uma proposta com as condições para o setor financeiro”, disse o Eurogrupo em um comunicado.
“O que se pede é um apoio financeiro, não tem nada a ver com um resgate”, disse De Guindos, antes de insistir que “as condições seriam impostas aos bancos e não à sociedade espanhola”, descartando que o empréstimo irá envolver mais medidas de austeridade para os espanhóis nem implicará em um resgate, ao estilo de Grécia, Irlanda ou Portugal.
“Não há nenhum tipo de condição macroeconômica, nenhum tipo de condição fiscal, nenhum tipo de reforma econômica fora do âmbito do setor financeiro”, afirmou o ministro.
O Eurogrupo, por sua vez, se declarou confiante de que a Espanha honrará seus compromissos de redução do déficit e relativos às reformas estruturais para corrigir os desequilíbrios macroeconômicos”.
De Guindos reforçou que “não haverá nenhum resgate à Espanha”,
precisando que o financiamento será dirigido à parcela de 30% dos bancos
espanhóis que têm mais dificuldades, eleitos pelo relatório do FMI
publicado na sexta-feira à noite.
Tal relatório estima em ao menos 40 bilhões de euros as necessidades do setor, mas o ministro afirmou que o montante acordado com a Eurozona é uma quantidade máxima, que inclui uma margem de segurança importante.
Segundo o ministro espanhol, a cifra final pedida pelo governo dependerá do resultado da auditoria do banco espanhol realizada pelas empresas Roland Berger (alemã) e Oliver Wyman (norte-americana), que deverá ser entregue até o dia 21 de junho.
Ainda de acordo com De Guindos, os fundos de resgate europeus, o FEEF e o MEE, que entrarão em vigor em julho, injetarão diretamente capital no Fundo público de Reestruturação Ordenada Bancária (FROB), que será encarregado de direcionar o capital às entidades com problemas.
Tal medida supõe uma solução intermediária que satisfaz a todos, já que o governo espanhol não vê sua soberania ameaçada, ao menos não por uma intervenção tão dura como a da Grécia, e Alemanha também restringe a ajuda aos meios dos fundos de resgate.
Debilitados por sua alta exposição à bolha imobiliária que estourou em 2008, os bancos espanhóis acumulam em seus balanços 184 bilhões de euros em ativos problemáticos até o final de 2011, ou seja, 60% de sua carteira.
E o resgate histórico dos 23,5 bilhões de euros solicitados em maio pelo Bankia, terceiro maior banco do país em ativos, gerou pânico nos mercados, temerosos, de que a Espanha não pudesse fazer frente por si só às exigências financeiras de seu sistema bancário.
“É uma ajuda extremamente confiável, que tira qualquer dúvida sobre a capacidade de recapitalização do FROB”, disse De Guindos, depois do forte ceticismo demonstrado nas últimas semanas pelos mercados financeiros com relação à Espanha, que teve que pagar juros cada vez mais elevados para se capitalizar.
A decisão espanhola foi celebrada por vários de seus sócios como Alemanha, cujo ministro de Finanças, Wolfgang Schäuble, afirmou que a “Espanha está em um bom caminho”, enquanto que seu homólogo francês, Pierre Moscovici, afirmou que “trata-se de um bom acordo, de um forte sinal de solidariedade”.
Também os Estados Unidos e o FMI felicitaram a iniciativa de ajuda. A diretora-gerente do FMI, Christine Lagarde, o classificou de “confiável”.
Para De Guindos, o acordo alcançado neste sábado manifesta o “absoluto compromisso dos países do euro com o projeto do euro”.
“O governo espanhol declara sua intenção de solicitar ajuda financeira europeia para a recapitalização dos bancos que a necessitarem”, afirmou o ministro de Economia, Luis de Guindos, durante coletiva de imprensa após uma teleconferência dos 17 ministros de Finanças da união monetária, na qual também participou a diretora-gerente do FMI, Christine Lagarde.
O Eurogrupo se mostrou disposto a responder “favoravelmente” ao pedido espanhol afirmando que “o montante a ser financiado deve cobrir as necessidades de capital com uma grande margem de segurança adicional, com uma soma estimada em até 100 bilhões de euros no total”.
“Após a solicitação formal, será realizada uma avaliação pela Comissão, conjuntamente com o BCE, o EBA (Autoridade Bancária Europeia) e o FMI, assim como uma proposta com as condições para o setor financeiro”, disse o Eurogrupo em um comunicado.
“O que se pede é um apoio financeiro, não tem nada a ver com um resgate”, disse De Guindos, antes de insistir que “as condições seriam impostas aos bancos e não à sociedade espanhola”, descartando que o empréstimo irá envolver mais medidas de austeridade para os espanhóis nem implicará em um resgate, ao estilo de Grécia, Irlanda ou Portugal.
“Não há nenhum tipo de condição macroeconômica, nenhum tipo de condição fiscal, nenhum tipo de reforma econômica fora do âmbito do setor financeiro”, afirmou o ministro.
O Eurogrupo, por sua vez, se declarou confiante de que a Espanha honrará seus compromissos de redução do déficit e relativos às reformas estruturais para corrigir os desequilíbrios macroeconômicos”.
“Os progressos serão vigiados muito de perto e com regularidade, paralelamente à assistência financeira” oferecida, disse.
Tal relatório estima em ao menos 40 bilhões de euros as necessidades do setor, mas o ministro afirmou que o montante acordado com a Eurozona é uma quantidade máxima, que inclui uma margem de segurança importante.
Segundo o ministro espanhol, a cifra final pedida pelo governo dependerá do resultado da auditoria do banco espanhol realizada pelas empresas Roland Berger (alemã) e Oliver Wyman (norte-americana), que deverá ser entregue até o dia 21 de junho.
Ainda de acordo com De Guindos, os fundos de resgate europeus, o FEEF e o MEE, que entrarão em vigor em julho, injetarão diretamente capital no Fundo público de Reestruturação Ordenada Bancária (FROB), que será encarregado de direcionar o capital às entidades com problemas.
Tal medida supõe uma solução intermediária que satisfaz a todos, já que o governo espanhol não vê sua soberania ameaçada, ao menos não por uma intervenção tão dura como a da Grécia, e Alemanha também restringe a ajuda aos meios dos fundos de resgate.
Debilitados por sua alta exposição à bolha imobiliária que estourou em 2008, os bancos espanhóis acumulam em seus balanços 184 bilhões de euros em ativos problemáticos até o final de 2011, ou seja, 60% de sua carteira.
E o resgate histórico dos 23,5 bilhões de euros solicitados em maio pelo Bankia, terceiro maior banco do país em ativos, gerou pânico nos mercados, temerosos, de que a Espanha não pudesse fazer frente por si só às exigências financeiras de seu sistema bancário.
“É uma ajuda extremamente confiável, que tira qualquer dúvida sobre a capacidade de recapitalização do FROB”, disse De Guindos, depois do forte ceticismo demonstrado nas últimas semanas pelos mercados financeiros com relação à Espanha, que teve que pagar juros cada vez mais elevados para se capitalizar.
A decisão espanhola foi celebrada por vários de seus sócios como Alemanha, cujo ministro de Finanças, Wolfgang Schäuble, afirmou que a “Espanha está em um bom caminho”, enquanto que seu homólogo francês, Pierre Moscovici, afirmou que “trata-se de um bom acordo, de um forte sinal de solidariedade”.
Também os Estados Unidos e o FMI felicitaram a iniciativa de ajuda. A diretora-gerente do FMI, Christine Lagarde, o classificou de “confiável”.
Para De Guindos, o acordo alcançado neste sábado manifesta o “absoluto compromisso dos países do euro com o projeto do euro”.
sábado, 9 de junho de 2012
Eurozona cogita resgate de até 100 bilhões de euros para Espanha
Eurozona cogita resgate de até 100 bilhões de euros para Espanha
A Eurozona considera conceder à Espanha um resgate de até 100 bilhões de euros na teleconferência entre os países da união europeia iniciada neste sábado às 11h00 (horário de Brasília), informou uma fonte europeia.
Em troca da ajuda, o bloco exigirá da Espanha um saneamento do setor financeiro.
Os ministros das Finanças do Eurogrupo se reúnem em teleconferência "para aprovar uma declaração que destaca a intenção da Espanha de solicitar ajuda, e o compromisso do Eurogrupo de proporcioná-la", disse a mesma fonte.
Mas até o momento a Espanha não solicitou nada publicamente. O governo espanhol analisava o relatório do Fundo Monetário Internacional (FMI), que calculou em mais de 40 bilhões de euros o capital que os bancos do país necessitam, e declarou que esperava adotar uma decisão após a reunião do Eurogrupo.
A imprensa acredita que as necessidades do setor bancário espanhol serão o dobro deste valor.
O primeiro-ministro sueco, Fredrik Reinfeldt, mencionou neste sábado que o plano de resgate para os bancos da Espanha pode superar 80 bilhões de euros.
quarta-feira, 23 de maio de 2012
Salvar o euro não é solução para resolver a crise
Salvar o euro não é solução para resolver a crise
O governador do Banco da Inglaterra estava mais perto do porão do banco que do telhado quando se queixou na semana passada de que “nosso maior parceiro comercial, a Zona do Euro, está se dilacerando sem qualquer solução evidente”. No dia seguinte, David Cameron aproximou ainda mais a Grã-Bretanha de seus parceiros do outro lado do canal com a advertência de que a Zona do Euro “ou tem de se refazer ou está olhando para uma potencial ruptura”.
Para sir Mervyn, que se aproxima de seu último ano no cargo e se manifesta cada vez mais, o problema não é “sobrevivência da Zona do Euro bom, colapso da Zona do Euro ruim”, mas os enormes desequilíbrios comerciais, os déficits de balança de pagamentos, as vastas diferenças em competitividade e os sistemas bancários europeus ainda defeituosos. “A sobrevivência do euro não é o problema”, ele disse.
O que estamos presenciando é uma conjuntura potencialmente cataclísmica da duradoura crise do capitalismo financeiro moderno e os defeitos inerentes à Zona do Euro como foi concebida originalmente.
Há muitos paradoxos e ironias nesta crise. A ideia geral por trás da União Europeia foi garantir que não houvesse mais guerras na Europa. Intimamente associado a esse objetivo estava o desejo de evitar os níveis de desemprego e inquietação social que causaram a ascensão de partidos extremistas de direita. (Não se passa um dia sem que haja uma referência a Hitler na imprensa ou no rádio.)
Ao defender o mecanismo da taxa de câmbio e depois a zona do euro, os franceses quiseram garantir que a política econômica da Europa não fosse dominada pelos alemães. Mas estes continuam mais obcecados por memórias folclóricas da inflação de Weimar do que pelo desemprego que levou ao extremismo.
Esta é uma batalha que certamente não foi vencida pelos franceses — na verdade, quando meu amigo Jean-Claude Trichet se tornou presidente do Banco Central Europeu, ele foi amplamente acusado de ter-se “nativizado”.
O resultado da eleição francesa mostra que hoje se espera que François Hollande pegue o bastão. Os otimistas — ainda há alguns por aí — apontam para algumas aparentes concessões dos políticos alemães sobre a questão da assimetria da política econômica da Zona do Euro. Por exemplo, se os membros meridionais da área quiserem estreitar a brecha em sua competitividade de preços com a Alemanha, os alemães devem visar ativamente um índice de inflação mais alto. Também há um reconhecimento mais amplo da necessidade de grandes projetos de infraestrutura.
Meus amigos mais de esquerda esperam que o desenrolar dos acontecimentos, não apenas na França mas também nas eleições estaduais da Alemanha, anunciem o início de algo grande. Eu tenho dúvidas. Com o desemprego elevado, e uma clara deficiência de demanda na Zona do Euro, assim como no Reino Unido, ainda há demasiada ênfase dos políticos para as reformas estruturais — no funcionamento do mercado de trabalho, por exemplo.
A fragilidade dessa abordagem foi bem captada muitos anos atrás pelo economista James Tobin, o da famosa taxa Tobin, sobre transações financeiras, muito apreciado pelo presidente Hollande. (Tobin, que eu tive o privilégio de conhecer, teve a distinção de não apenas ganhar um Prêmio Nobel de economia, mas também de ter servido de modelo para um personagem de O Motim, de Herman Wouk.
Tobin escreveu: “Apesar das terríveis profecias de ficção-científica que acompanham cada período de alto desemprego, o ressurgimento da demanda agregada sempre criou empregos em números vastamente além da imaginação dos pessimistas… Políticas estruturais de mercado de trabalho só podem causar melhoras marginais”.
De fato, outro distinto economista Prêmio Nobel, o nosso Tony Atkinson, sugeriu em uma conferência organizada pelo grupo de pensadores Resolution Foundation na semana passada que o modo como as reformas estruturais foram introduzidas no Reino Unido teve um impacto perverso sobre os incentivos ao emprego.
Merkel e Hollande: França e Alemanha têm ideias diferentes sobre a direção da Zona do Euro.Foto: Brendan Smialowski/AFP
Houve um tempo em que, sob os auspícios da OCDE, vários “grupos de trabalho” de autoridades analisavam os acontecimentos e recomendavam ajustes nas políticas econômicas dos países, inclusive em relação às taxas de câmbio. Mas naquele tempo os custos raramente estavam tão desalinhados quanto se tornaram na Zona do Euro.
A boa notícia é que graças à opção de não participar de sir John Major, e da recusa de Gordon Brown a entrar, a economia britânica pôde ajustar sua taxa de câmbio.
A má notícia é que, como o primeiro-ministro britânico David Cameron e o chanceler George Osborne continuam nos dizendo, poderemos ser duramente atingidos por uma implosão de nosso principal mercado de exportação de qualquer modo — embora menos gravemente do que se tivéssemos aderido ao euro. Mas o governo britânico está sendo matreiro ao atribuir todos os nossos problemas econômicos atuais à Zona do Euro: Osborne fez uma contribuição significativa através de suas políticas excessivamente deflacionárias.
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