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sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Pós-crise global: BC dos EUA reduz os estímulos

Pós-crise global: BC dos EUA reduz os estímulos

EUA vão retirar estímulos
Autor(es): Flávia Barbosa
O Globo - 19/12/2013
 

O banco central americano anunciou que começará a retirar estímulos dados à economia na esteira da crise de 2008. As compras mensais de títulos serão reduzidas em US$ 10 bi a partir de janeiro, o que deve elevar a cotação do dólar no Brasil
Injeção de recursos será reduzida a US$ 75 bilhões em janeiro. Dilma diz que país está preparado

WASHNGTON, BRASÍLIA, SÃO PAULO E RECIFE- O Federal Reserve (Fed, banco central americano) anunciou ontem, com o voto dissidente de apenas um de seus dez diretores, que começará a reduzir seu inédito programa de estímulos à economia, herança da crise financeira de 2008. A terceira e maior fase do chamado Quantitative Easing (QE3), iniciada em setembro de 2012, estabelece a compra mensal de US$ 85 bilhões em títulos, valor que será cortado para US$ 75 bilhões a partir de janeiro de 2014. Para evitar danos à ainda frágil recuperação dos EUA, o Fed enfatizou que não se trata do início de uma era de aperto monetário. A instituição pretende manter os juros básicos inalterados entre zero e 0,25% ao ano "por longo período de tempo" sem perspectiva de elevação antes do fim de 2015 mesmo que a taxa de desemprego caia ao patamar de 6,5% (hoje, está a 7%).
A decisão animou os mercados, por representar um voto de confiança na economia americana sem alterar as boas condições de financiamento e investimento. Nos EUA, os índices Dow Jones (1,84%) e S&P 500 (1,66%) da Bolsa de Nova York fecharam em recordes históricos de pontos. A Nasdaq subiu 1,15%. No Brasil, a Boves-pa fechou em alta de 0,94%, aos 50.563 e o dólar subiu 0,9%, a R$ 2,343. A moeda brasileira se desvalorizou mais do que a maioria das divisas de emergentes.
BERNANKE: "REDUÇÃO EM PEQUENOS PASSOS"
A presidente Dilma Rousseff disse que o país tem condições de enfrentar com tranquilidade a mudança nos EUA, em entrevista à Rádio Jornal do Commercio:
— O Brasil está preparado. Já saiu daquela fase em que se havia um espirro lá, tinham pneumonia aqui.
A equipe econômica recebeu com alívio a decisão do Fed. Na avaliação de técnicos, quanto mais cedo a retirada de estímulos, melhor. O governo sabe que a decisão pode trazer volatilidade aos mercados, mas considera que o mais importante era acabar com o suspense que abalava as expectativas dos agentes econômicos.
Pela manhã, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse que um dos efeitos é a valorização do dólar:
— Estamos muito bem calçados. As volatilidades vão e voltam. Você pode ter um valorização momentânea do dólar, depois ele volta. O país está muito sólido, tem reservas e também o mecanismo de swap do Banco Central.
O Comitê de Mercado Aberto avaliou que há sinais consistentes de recuperação do mercado de trabalho e da economia dos EUA, com bons indicadores de gastos das famílias, investimentos de empresas e vendas do varejo, e perspectivas animadoras no campo fiscal. Ontem, em raro esforço bipartidário, o Senado concluiu a aprovação pelo Congresso de um Orçamento de dois anos, com nível de despesas superior ao anteriormente previsto, o que dá tração à expansão econômica.
Ainda que os ganhos não estejam consolidados, o Fed acredita, pela primeira vez desde o início da retomada, em 2009, que o balanço de riscos está mais equilibrado e pró-crescimento. Por isso decidiu pela redução de US$ 10 bilhões no programa. A partir de janeiro, o volume de compra de títulos soberanos cairá de US$ 45 bilhões para US$ 40 bilhões e o de papéis lastreados em hipotecas, de US$ 40 bilhões para US$ 35 bilhões. Nova rodada de corte dependerá dos dados econômicos
dos próximos meses, disse Ben Bemanke, presidente do Fed. Mas deverá obedecer a mesma ordem de grandeza.
O plano inicial de encerrar o programa no meio de 2014 foi revisto. Com o gradua-lismo, o presidente do Fed crê que o horizonte é o fim do próximo ano. Mas não descartou a interrupção ou a revisão, caso mudem as condições nos EUA.
— Não estamos fazendo menos, não é algo pensado para ser um aperto (...) Nossa modesta redução no programa reflete a crença de que a retomada será sustentada — disse Bemanke. — Mas podemos interrompê-la (...) A redução dependerá dos dados e será feita em pequenos passos.
Foi a última entrevista coletiva de Ber-nanke à frente do Fed. Seu mandato termina em 31 de janeiro e ele será substituído pela atual vice, Janet Yellen. Considerada cautelosa em relação ao momento ideal de diminuição do programa de estímulo, Yellen acompanhou o voto da maioria.
O Fed deixou aberta uma janela para continuar o programa de estímulos além de 2014, bem como para manter juros zero depois de 2015. Tudo dependerá do
comportamento da taxa de desemprego e da inflação. O BC dos EUA estima que o patamar ideal da taxa de desemprego para se considerar a crise ultrapassada, de 6,5%, será alcançado no último trimestre de 2014. Mas Bemanke disse que a diretoria olhará outros sinais como procura por vaga, ocupação, desemprego de longo prazo, subemprego e salários para se certificar de que a recuperação é para valer.
No caso da inflação, o Fed espera que ela volte a subir. O patamar mínimo previsto na meta é de 2% ao ano. O índice de preços ao consumidor fechou novembro em 0,7% no acumulado em 12 meses. Inflação excessivamente baixa dificulta recuperação de margens de lucro das empresas, aumentos de salário e pagamento de dívidas. Uma alta de juros não deverá ser considerada pelo Fed até que a variação chegue a 2,5% anuais.
João Sorima Neto, Gabriela Valente, Martha Beck, Cristiane Bonfanti e Letícia Lins

BC dos EUA deixa o mundo aliviado

BC dos EUA deixa o mundo aliviado

Alívio no mundo
Autor(es): SIMONE KAFRUNI » VICTOR MARTINS » DECO BANCILLON
Correio Braziliense - 19/12/2013
 
Governos e mercados, que esperavam aflitos pela notícia, comemoraram o anúncio do Federal Reserve de que a redução dos estímulos à economia americana começará em janeiro e será gradual

Enfim, o Federal Reserve anuncia a redução dos estímulos à economia dos EUA. Mas, como o processo será gradual, governos e mercados comemoram. BC do Brasil venderá ao menos US$ 24 bi nos primeiros seis meses de 2014 para conter a alta do dólar

Com a recuperação — ainda que gradual — dos Estados Unidos, o Federal Reserve (Fed), o Banco Central norte-americano, anunciou ontem o que o mundo inteiro aguardava aflito: o início do corte de estímulos à maior economia do planeta. Em janeiro do próximo ano, os US$ 85 bilhões mensais injetados na economia serão reduzidos para US$ 75 bilhões e, até o fim de 2014, haverá diminuição gradual do incentivo. O presidente da instituição, Ben Bernanke, não se comprometeu em manter a diminuição do incentivo em US$ 10 bilhões por vez nem assegurou que a medida será tomada a cada reunião do banco.

Tão logo o Fed detalhou as regras do jogo, o Banco Central brasileiro anunciou que, em reação ao corte de estímulos, despejará pelo menos US$ 24 bilhões no mercado de câmbio entre janeiro e junho de 2014. O objetivo será conter uma arrancada mais forte do dólar e, por tabela, evitar a disparada da inflação. O BC informou que serão realizados leilões de swap cambial, de segunda a sexta-feira, no valor de US$ 200 milhões por dia, volume inferior aos US$ 500 milhões diários deste ano. A oferta de linhas de crédito em dólar, feita atualmente todas as sextas-feiras, só ocorrerá, nos primeiros seis meses do ano que vem se houver demanda. A instituição ainda deixou aberta a possibilidade de vender reservas cambiais do país, que totalizam US$ 376 bilhões, em momentos de maior turbulência e de escassez brutal de moeda estrangeira. 

Por meio da assessoria de imprensa, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse que viu com tranquilidade a decisão do Fed, sobretudo porque a diminuição dos estímulos será gradual, sem provocar solavancos no mercado, o que evitará movimentos bruscos nas cotações do dólar. Outra boa notícia foi o fato de o BC dos EUA ter mantido as taxas de juros variando entre zero e 0,25% ao ano. Ele determinou à equipe do ministério que monitore todos os dados dos mercados globais nos próximos dias, pois a reação ontem foi parcial, uma vez que as bolsas de valores da Ásia e da Europa estavam fechadas quando o Fed se pronunciou.

Para o mercado financeiro, a decisão do Fed põe fim às incertezas em torno da política monetária norte-americana. Mas isso não significa dizer que os países emergentes estão livres de uma batalha pesada para conter o derretimento de suas moedas. Brasil, Turquia, Indonésia, África do Sul e Índia são apontados como as nações mais vulneráveis às ações do BC dos EUA. O tamanho do enfrentamento dependerá do ritmo dos cortes promovidos pelo Fed, que condicionou suas ações à queda do desemprego para 0menos de 6,5% — a taxa atual, de 7% é a menor em cinco anos — e ao comportamento da inflação, que está abaixo de 2%.

Ao detalhar o corte dos estímulos à economia norte-americana, Ben Bernanke reforçou que não há um valor predeterminado para ser anunciado periodicamente. Se a atividade, que avançou 3,6% no terceiro trimestre deste ano, acima do previsto, tropeçar, a estratégia será abrandada. O presidente do Fed anunciou ainda que reviu as projeções para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) no próximo ano, de expansão entre 2,9% e 3,1% para um avanço entre 2,8% a 3,2%.

O impacto da decisão do Fed foi imediato nos mercados. A Bolsa de Nova York registrou alta de 1,84% e a Bolsa de Valores de São Paulo (BM&FBovespa), de 0,94%. Já o dólar subiu 0,87%, cotado a R$ 2,343 na venda. “O Fed fez uma coisa muita importante: tirou o foco da taxa de desemprego e o transferiu para a inflação, que está muito baixa. Isso significa que manterá os juros próximo de zero e que fará um programa de retirada de estímulos mais lento”, explicou Tony Volpon, chefe de Pesquisas para Mercados Emergentes das Américas da Nomura Securities International, em Nova York. “O anúncio do Fed veio antes do que esperávamos, mas, pelo menos, será bastante gradual”, acrescentou Jankiel Santos, economista-chefe do Espirito Santo Investment Bank.


» E EU COM ISSO

A redução dos estímulos à economia dos Estados Unidos terá impacto sobre o Brasil e isso poderá ser percebido, principalmente, no preço no dólar, que tende a subir. A previsão de parte dos especialistas é de que a moeda norte-americana chegará a R$ 2,50 até o fim de 2014. Diante dessa elevação, o custo de vida das famílias pode aumentar, e o Banco Central se verá obrigado a elevar ainda mais a taxa básica de juros (Selic), atualmente em 10% ao ano. Se essa taxa aumenta, o PIB cresce menos e, em um quadro extremo, o desemprego avançará.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

G-20 promete mais estímulos à economia

G-20 promete mais estímulos à economia

G-20 vai prometer medidas para estimular a demanda
Autor(es): Por Sergio Lamucci e Assis Moreira | De Washington e de Genebra
Valor Econômico - 18/04/2013
 

O G-20, grupo que reúne as maiores economias desenvolvidas e emergentes, se compromete a tomar medidas para acelerar o crescimento, criar empregos e enfrentar riscos que possam surgir em um mundo no qual a atividade segue fraca e o desemprego se mantém alto.
É o que diz a primeira versão do comunicado dos ministros de Finanças e presidentes de bancos centrais do grupo, que se encontram em Washington hoje e amanhã, durante a reunião do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial. "Muitos países tomaram medidas para estimular a demanda desde a última vez em que nós nos encontramos [em fevereiro, em Moscou], mas é necessário fazer mais para cumprir o nosso compromisso de enfrentar a atual fraqueza da economia global", afirma o documento, ao qual o Valor teve acesso.

O G-20, grupo que reúne as maiores economias desenvolvidas e emergentes, se compromete a tomar medidas para elevar o crescimento, criar empregos e enfrentar riscos que podem surgir em um mundo em que a atividade segue fraca e o desemprego se mantém alto em muitas nações.
É o que diz rascunho do comunicado dos ministros de Finanças e presidentes de bancos centrais do grupo, que se encontram em Washington hoje e amanhã, durante a reunião de primavera do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial.
"Muitos países tomaram medidas para estimular a demanda desde a última vez em que nós nos encontramos [em fevereiro, em Moscou], mas é necessário fazer mais para cumprir o nosso compromisso de enfrentar a atual fraqueza da economia global", afirma o documento a que o Valor teve acesso.
No texto, que continua em negociação, em Washington, o G-20 promete mais luta contra os paraísos fiscais e repete os compromissos para evitar desvalorizações competitivas. Uma novidade é o pedido para o FMI e o Banco Mundial fazerem uma pesquisa sobre uma possível revisão das "diretrizes para administração da dívida pública", indicando que a reestruturação das dívidas soberanas será uma das prioridades da presidência da Rússia no grupo, neste ano.
Responsáveis por cerca de 80% da produção mundial, os países do grupo traçam um quadro pouco animador da economia global, em linha com recentes alertas do FMI e outras organizações internacionais. "O crescimento não é forte, nem sustentável ou equilibrado", diz o documento, reconhecendo na prática que seus objetivos de cooperação não têm avançado.
Para o grupo, grandes riscos foram evitados e as condições do mercado financeiro continuaram a melhorar, mas a recuperação global segue desequilibrada e em velocidades diferentes. Países emergentes crescem a um ritmo relativamente forte e os EUA mostram o fortalecimento do setor privado, mas a retomada da zona do euro e do Japão segue pouco convincente. A contração fiscal, a incerteza política, problemas na intermediação financeira, a desalavancagem privada e um processo incompleto de reequilíbrio da demanda global continuam a pesar sobre as perspectivas globais de crescimento.
As prioridades continuam, em grande parte, as mesmas. "Na zona do euro, as fundações da união monetária devem ser tornadas mais seguras, incluindo uma movimentação mais rápida em direção à união bancária". EUA e Japão devem apresentar planos críveis de médio prazo para enfrentar a questão fiscal.
No caso dos EUA, porém, o G-20 vê espaço para desacelerar o ritmo da consolidação fiscal e, com isso, dar mais apoio à recuperação. "Economias com grandes superávits devem considerar e tomar passos adicionais para impulsionar fontes domésticas de crescimento, levando em conta as circunstâncias especiais de grandes produtores de commodities", uma recomendação que serve a países como China e Alemanha.
O diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Pascal Lamy, que estará em Washington para a reunião do FMI e do Banco Mundial, sugere que na paisagem econômica em plena mutação o mundo precisa de uma bússola. "A melhor maneira de atravessar a crise é utilizar uma boa bússola, e para a Europa essa bússola deve ser a "confiança", a confiança em sua capacidade de navegar num mundo cada vez mais globalizado", afirmou Lamy hoje em Dublin (Irlanda).
No combate à crise, o G-20 também deve informar que vai continuar a fazer progressos na agenda de reforma financeira para construir um sistema financeiro mais resistente, além de trabalhar numa agenda de reformas estruturais para estimular o crescimento. "As economias avançadas estão desenvolvendo estratégias de médio prazo em linha com os compromissos definidos por nossos líderes em Los Cabos, no México, para a cúpula de São Petersburgo. "Esses planos vão ser implementados de modo flexível, levando em conta o espaço fiscal e a necessidade de apoiar a atividade econômica."
O comunicado deve abordar câmbio, mas sem menção à guerra de divisas. Basicamente, retoma promessas anteriores, agora num cenário em que o Japão passou a adotar uma política monetária ultraexpansionista e levou a uma desvalorização significativa do iene. "Nós reiteramos nossos compromissos de caminhar mais rapidamente para sistemas de taxa de câmbio mais flexíveis e determinados pelo mercado", afirma o texto. Os países do G-20 também dizem que vão evitar desvalorizações competitivas e não vão adotar metas para o câmbio com objetivos de competitividade, além de prometerem resistir ao protecionismo e manter os mercados abertos. "A política monetária deve ser direcionada à estabilidade dos preços domésticos e a apoiar a recuperação econômica de acordo com os seus respectivos mandatos."
Um ponto importante é a pesquisa pedida pelo G-20 para o FMI e o Banco Mundial sobre o tema da reestruturação da dívida pública. A ideia é que isso leve em conta um ambiente de emissões mais desafiador e a emergência de complexas interações entre gestão da dívida pública e políticas fiscais e monetárias. "Uma combinação sensata de medidas fiscais e de políticas de dívida deve envolver regras claras para emissão de garantias de Estado, uma transformação de obrigações implícitas contingentes em garantias explícitas e a contabilidade apropriada de diferentes tipos de garantias", diz o texto em discussão pelos negociadores.
Os ministros de finanças e presidentes de BCs devem também mostrar preocupação quanto à proliferação de iniciativas nacionais para promover reformas estruturais na atividade bancária, apesar dos esforços para avançar em mudanças regulatórias globais. Isso causa incerteza regulatória, diz o comunicado. "Nós recebemos bem os esforços do Financial Stability Board para identificar pontos de fricção entre essas iniciativas nacionais e implementar um plano de ação para mitigá-las".
Outro tema a ser enfatizado é a luta contra os paraísos fiscais, para atacar a evasão quando os governos precisam desesperadamente de dinheiro. Para o grupo, eventos recentes mostram que mais precisa ser feito para lutar contra paraísos fiscais, uma menção implícita a Chipre e também às revelações da operação "OffshoreLeaks", de 2,5 milhões de fichas que detalham um sistema mundial de evasão fiscal através de mais de 120 mil empresas-fantasmas. Analistas estimam que cerca de US$ 1,6 trilhão escapem a cada ano aos fiscos.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Economia, desafio na Venezuela

Economia, desafio na Venezuela

Reorganizar um país, a difícil tarefa do sucessor de Chávez
Autor(es): Por Fabio Murakawa | De Caracas
Valor Econômico - 15/04/2013
 

Melhorar a eficiência de um Estado inchado e reduzir a burocracia que alimenta uma corrupção endêmica. Tratar uma economia doente, com um déficit fiscal de cerca de 15% do PIB e inflação acima de 20% e subindo. Diversificar a economia de um país que importa 70% dos alimentos que consome. E convencer uma nação órfã de um presidente querido, morto há pouco mais de um mês, de que à frente da Presidência há um líder. Essas são as tarefa desafiadoras do sucessor de Hugo Chávez, qualquer que seja o vencedor das eleições, na disputa entre o chavista Nicolás Maduro e o opositor Henrique Capriles. Até o fechamento desta edição, o resultado não havia sido divulgado, mas circulavam informações de que a votação de Capriles tinha sido melhor do que o previsto nas pesquisas.

Melhorar a eficiência de um Estado inchado e reduzir a burocracia que alimenta uma corrupção endêmica. Tratar uma economia doente, com déficit fiscal de cerca de 15% do PIB e inflação acima de 20% e subindo. Diversificar a economia de um país que importa 70% dos alimentos que consome e onde o petróleo é responsável por 96% dos dólares da exportação. E convencer uma nação órfã de um presidente carismático e popular, morto há pouco mais de um mês, de que à frente da Presidência há um verdadeiro líder, capaz de conduzir e dar estabilidade a um país com histórico de golpes de Estado.
Essa é a tarefa hercúlea do sucessor de Hugo Chávez, qualquer que seja o vencedor da eleição presidencial realizada ontem na Venezuela, na disputa entre o chavista Nicolás Maduro, presidente interino, e o líder opositor Henrique Capriles. Até o fechamento desta edição ainda não havia um resultado.
"Independentemente de quem ganhe, é pouco provável que consiga substituir o papel de Chávez", diz Héctor Briceño, professor do Centro de Estudo de Desenvolvimento da Universidade Central da Venezuela (UCV). "O novo presidente terá o desafio de construir um modelo de sociedade e político que não gire em torno da figura do presidente. Com a morte de Chávez, isso perde o sentido".
Maduro herdou a candidatura, e a eleição tida como provável, do prestígio de Chávez junto à população mais pobre. Em dezembro, já ciente da gravidade de seu câncer, o ex-presidente pediu à população que votasse nele, caso não pudesse voltar ao poder após um derradeiro período de tratamento em Cuba, para onde embarcaria horas depois. Mas, na opinião de analistas, o pedido de Chávez não representa um cheque em branco para um eventual governo Maduro. Ele terá que provar sua capacidade de gestão e percorrer um caminho delicado entre manter os programas sociais criados pelo antecessor e reorganizar uma economia em processo de deterioração.
"Do ponto de vista eleitoral, o eleitor de Maduro votou no candidato designado por Chávez. Do ponto de vista do exercício do poder, o cenário é outro", diz Gilberto Buenaño, acadêmico chavista que foi vice-ministro de Planejamento de 2000 a 2005. "O apoio depende do comportamento de Maduro".
De acordo com ele, um dos grandes desafios de Maduro, caso eleito, será diversificar a economia, que há décadas se acostumou a viver da renda do petróleo, um modelo que já durante a gestão Chávez se dizia estar em esgotamento. "Somos dependentes das exportações. Não produzimos o que consumimos e não consumimos o que produzimos. Se o processo bolivariano não resolver o problema da economia produtiva, vai ter problemas para continuar existindo".
Se Maduro herdou de Chávez o direito à candidatura, o mesmo vale em relação aos problemas econômicos que foram crescendo ao longo de seus 14 anos de governo. A situação se agravou após a campanha para as eleições de 7 de outubro do ano passado, quando Chávez bombou os gastos sociais para aumentar suas chances de vitória contra o mesmo Capriles.
Depois disso, o governo teve que fechar as torneiras, e o país começou a sofrer com a escassez de produtos básicos nos supermercados e de divisas para a importação, o que elevou o dólar paralelo a uma cotação cerca de quatro vezes maior do que a oficial. Como parte de um ajuste fiscal, e com o presidente ainda vivo em Cuba, Maduro promoveu uma desvalorização do bolívar de 4,30 para 6,30 por dólar. No paralelo ilegal, a moeda americana varia de 20 a 28 bolívares.
"Há indícios de que a situação macroeconômica será difícil e vai chegar a outros âmbitos da vida nacional", diz um diplomata venezuelano. "Mas a liderança carismática do presidente Chávez não estará no panorama político. Os chavistas vão ter que dar grandes mostras de capacidade de gestão".
Maduro parece ter notado isso. Em seu último evento de campanha, um gigantesco comício em Caracas na quinta-feira, ele anunciou a criação de mais uma "missão" (como são batizados os principais programas sociais chavistas), a "Grande Missão Eficiência ou Nada". Sem detalhar, disse se tratar de "um corpo especial secreto para perseguir a corrupção".
O problema para Maduro será, na avaliação de analistas, manter unidos setores que ele não controla dentro do chavismo, como as Forças Armadas, os funcionários públicos, sobretudo os da PDVSA, e lideranças de bairros e conselhos comunais, caso a situação econômica piore. A tendência é que, nesse caso, o chavismo se fragmente e seu chegue ao fim antes do término do mandato de seis anos por meio de um referendo revogatório, previsto na Constituição.
Uma fonte do governo brasileiro nota que "há um desejo de mudança por eficiência do governo" e que "Capriles convence grande parcela da população que está cansada do chavismo". O opositor adotou contra Maduro tom mais agressivo que na campanha anterior. E tentou chamar para si o voto de eleitores fiéis a Chávez, mas não às pessoas que o cercavam. "Eu peço a todos os seguidores do "comandante" que votem em mim", disse no encerramento da campanha. "Maduro não é Chávez, e eu não sou a oposição. Sou a solução".
O trabalho de um eventual governo Capriles não será simples. Dos 23 Estados, 20 são governados por chavistas, que também controlam a Assembleia Nacional. A PDVSA está inchada com 120 mil funcionários, a maioria nomeada por Chávez. E instituições como a Justiça e as Forças Armadas também estão aparelhadas por simpatizantes do ex-presidente. Para Capriles, a tarefa mais difícil seria governar.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Europa enfrenta dilema com paraísos fiscais em seu próprio território

Europa enfrenta dilema com paraísos fiscais em seu próprio território

Publicado em Carta Capital

Para um investidor, nada é mais importante que segurança, altos rendimentos e baixos impostos para o seu dinheiro. E tais condições paradisíacas não são oferecidas apenas em praias de areia branca do Caribe – dentro da própria Europa florescem alguns paraísos fiscais. “Não precisamos olhar para o Caribe. Basta olhar ao nosso redor”, diz o auditor fiscal alemão Reinhard Kilmer.
O Reino Unido, por exemplo, protege as ilhas do Canal da Mancha e a Ilha de Man. A França protege Mônaco. Além disso, aponta Kilmer, os europeus ainda têm problemas com Luxemburgo, Suíça e Áustria. Nestes três países, os rendimentos não são tão elevados como, por exemplo, nas Ilhas Virgens, mas a segurança é imbatível.
Mulher caminha em frente ao banco austríaco Raiffeisenbank. Foto: Alexander Klein/ AFP
Mulher caminha em frente ao banco austríaco Raiffeisenbank. Foto: Alexander Klein/ AFP
O líder entre os paraísos fiscais da União Europeia é o pequeno Grão-Ducado de Luxemburgo, um membro fundador do bloco. O ministro luxemburguês das Finanças, Luc Frieden, rejeita, no entanto, a classificação. “Somos um centro financeiro europeu e não incentivamos ninguém à evasão fiscal”, diz.
Em Luxemburgo estão instalados 141 bancos de 26 países, segundo informações do governo local. “Luxemburgo está entre os dez melhores centros financeiros mundiais e é o segundo maior centro para fundos de investimentos do mundo”, afirma orgulhosamente o site da sucursal do Deutsche Bank no país.
O Deutsche Bank também sabe dizer por que Luxemburgo é tão popular: “A receita de sucesso: clareza e flexibilidade. Por um lado, um sigilo bancário rigoroso e duras leis de lavagem de dinheiro; pelo outro, uma política fiscal competitiva e autoridades pragmáticas, que dão andamento a processos de aprovação de forma rápida e desburocratizada.”
Transparência em questão
Há décadas Luxemburgo vem cultivando sua reputação de centro financeiro seguro. Por volta de 2,1 trilhões de euros estão aplicados apenas na forma de ativos de fundos de investimentos no país, segundo a empresa de consultoria financeira Ogier. Os fundos quase não pagam impostos sobre esse dinheiro.
Muitas empresas internacionais acabam abrindo filiais em Luxemburgo apenas para ter seus lucros submetidos a taxas menores. De acordo com as regras europeias, a manobra é totalmente legal. O dinheiro do exterior assegura a Luxemburgo a maior renda per capita da União Europeia, e não é de se admirar que eles defendam seu modelo de negócios. Nesse ponto, Frieden não quer que nada seja alterado – empresas e investidores devem continuar a se sentir bem amparados em Luxemburgo.

O eurodeputado Sven Giegold, especialista financeiro do Partido Verde, exige mais transparência nos modelos fiscais das empresas. “Em seus balanços, uma empresa deveria divulgar quantas filiais possui, quais os seus lucros e onde os obtêm e quanto imposto foi pago sobre eles”, diz Giegold. Assim, jornalistas e a sociedade civil poderiam constatar se isso se encontra numa proporção sensata. “Dessa forma, todo esse turismo fiscal ganharia transparência.”
Em entrevista ao jornal alemão FAZ, neste último fim de semana, Luc Frieden mostrou-se disposto a considerar se, no futuro, a receita proveniente dos juros de investimentos privados sejam automaticamente comunicados às autoridades fiscais do país de origem do investidor. Em Luxemburgo, ele foi logo criticado. “O sigilo bancário deve permanecer”, exigem imediatamente os Jovens Democratas (ala jovem do Partido Democrata) em comunicado.
Até agora, Luxemburgo e Áustria, o paraíso financeiro nos Alpes, evitaram a comparação automática entre rendimentos e impostos pagos na União Europeia. No ano passado, o comissário europeu responsável pela política fiscal, Algirdas Semeta, classificou o fato de “uma prática completamente injusta.”
UE como espectadora
A UE não é a responsável de fato pela política fiscal, mas os Estados-membros. A competição entre si por meio de diferentes alíquotas é proposital. Malta, por exemplo, não cobra nenhum imposto sobre empresas. O Chipre cobra 10%, e a Irlanda, 12,5%. Há anos os ministros de Finanças tentam chegar a um acordo quanto às bases de cálculo, ou seja, definir quanto da riqueza e da renda está sujeito ao imposto.
Sob a luz da política financeira, não é necessário que as taxas de impostos sejam uniformes, diz Guntram Wolff, economista do think tank Bruegel, em Bruxelas. O importante, segundo ele, é que as regras sejam claramente visíveis: “Acho que a transparência fiscal é absolutamente necessária. Paraísos fiscais na Zona do Euro não são desejáveis. Isso não pode acontecer, porque, em caso contrário, um país poderia operar realmente seus bancos e sua política tributária a custa de outros países.”
Quando um paraíso fiscal é atingido por tempestades, como foi o caso recente do Chipre, outros países da Zona do Euro podem ser convocados a ajudar. Os porta-vozes do governo em Luxemburgo e Malta excluíram ser comparados com o Chipre. Mas os bancos nesses dois países poderiam, em algum momento, entrar em dificuldades, acredita Thomas Meyer, economista-chefe do Deutsche Bank.
No site EU-Observer, ele declarou: “Mesmo com a melhor supervisão financeira, os bancos podem ficar debilitados. E se um Estado for muito pequeno em comparação com o setor financeiro, então esse Estado vai à falência.”
Filas às portas dos bancos na ilha do Mediterrâneo. Foto: Patrick Baz/ AFP
União europeia teve que intervir com 10 bilhões de euros para evitar que bancos cipriotas quebrassem. Foto: Patrick Baz/ AFP

No caso do Chipre, no entanto, os países da Zona do Euro intervieram com 10 bilhões de euros de ajuda. No Chipre, os depósitos bancários valiam sete vezes mais que o rendimento econômico anual da ilha. Em Luxemburgo, os bancos são 22 vezes mais valiosos que a economia do país. Meyer aconselha que os bancos mantenham mais capital próprio em Estados pequenos. Esse seria o caso atual da Suíça. Em Luxemburgo, Áustria e outros paraísos financeiros, prefere-se confiar no apoio da Zona do Euro e dos pacotes de resgate, afirma.
Suíça à frente
Através de seu porta-voz, a Comissão Europeia observa que, até agora, os Estados-membros ainda não conseguiram entrar em consenso sobre o que é um paraíso fiscal. Aplicando as normas da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), nenhum país europeu pertenceria mais ao rol dos paraísos fiscais. Baixas taxas de imposto num país, o que leva à evasão fiscal em outros países com impostos mais altos, não é ilegal, mas, para muitos, vai contra o senso de justiça.
Os ministros das Finanças de Luxemburgo, Letônia e Eslováquia – onde a carga tributária para empresas é mais baixa que na Alemanha e na França – argumentam de forma contrária: países com altos impostos poderiam reduzir suas taxas para atrair empresas e investidores.
A ONG britânica Tax Justice Network publicou uma lista própria de paraísos fiscais. A lista considera o tamanho do centro financeiro e o grau de discrição, ou seja, do sigilo bancário. Segundo o índice, a Suíça é o paraíso fiscal número 1, seguido das Ilhas Cayman e de Luxemburgo.

A OMC na encruzilhada

A OMC na encruzilhada

Autor(es): Rubens Barbosa
O Estado de S. Paulo - 09/04/2013
 

Para discutir o funcionamento do sistema multilateral de comércio o International Centre for Trade and Sustainable Development e o World Trade Institute, de Genebra, resolveram criar um grupo de peritos. Convidado a integrá-lo,    participei nessa cidade suíça de dois dias de reuniões em que foram passados em revista diferentes aspectos da situação atual da Organização Mundial de Comércio (OMC) à luz do fracasso da Rodada Doha e da proliferação dos mega-acordos regionais e bilaterais de comércio.
A função negociadora da OMC, um dos pilares da organização, e a participação e o maior " engajamento do setor privado nos entendimentos multilaterais foram dois dos principais temas tratados pelo grupo de peritos.
O grande número de países- membros tornou difícil o processo decisório baseado no consenso e deixou a negociação necessariamente mais arrastada e demorada, chegando muitas vezes a paralisá-la. Há uma forte demanda dos países-membros por maior participação, ao mesmo tempo que cresce o anseio por mais transparência nas decisões e pela redução das assimetrias na capacidade de absorção das informações, cada vez mais técnicas e complexas.
Estão sendo cogitados ajustes na regra do consenso, no tocante à tomada de decisão, para evitar que os entendimentos sejam bloqueados por um número reduzido de países. Maioria qualificada, massa crítica, geometria variável, acordos plurilaterais e setoriais são algumas das ideias colocadas sobre a mesa.
O impacto das decisões da OMC sobre as operações comerciais também ocupou boa parte das discussões do grupo. Afinal, as decisões tomadas pelos governos afetam diretamente o setor produtivo e exportador privado. Há um sentimento geral de que o empresariado não está devidamente informado a respeito das negociações multilaterais que ocorrem em Genebra nem está preparado para acompanhá-las, por sua complexidade. O fracasso da Rodada Doha nos últimos dez anos também contribuiu para o desestímulo do setor.
Os peritos reconheceram haver um crescente interesse de todos os países em propiciar uma maior participação do setor privado. Registrou-se a disposição dos governos de responder aos empresários com mais informação e explicações. Apesar disso, sendo a OMC uma organização intergoverna- mental, não está prevista a participação de empresas, associações ou federações nas delegações dos países-membros, nem a presença delas nas reuniões fechadas. Como aumentar o nível da informação sobre as negociações e da transparência nas decisões tomadas pelos governos para que haja um efetivo engajamento da comunidade privada? Como os governos poderiam aproveitar melhor a experiência e o conhecimento do setor privado? A OMC poderia receber contribuição diretamente desse grupo? Foram aventadas diversas possibilidades, como a criação de um Conselho Consultivo do setor privado ou de um Conselho Empresarial da OMC para fazer recomendações aos governos sobre os temas em discussão.
Em termos mais gerais, ficou claro em nossos debates que, com 159 membros, a OMC deixou de ser um clube que regula o comércio tradicional e busca a liberalização dos fluxos de intercâmbio pela redução ou eliminação das barreiras tarifárias e não tarifárias na fronteira. A negociação multilateral está entrando em nova fase. A elaboração de regras de comércio nos acordos regionais e bilaterais, nos últimos 20 anos, está marginalizando a OMC e vai obrigar os países-membros a adaptar a organização às novas demandas de transparência e tratamento justo exigidas pelos países que não fazem parte das negociações dos acordos de livre- comércio. Os acordos dos E UA com a Ásia e com a União Europeia vão criar uma dinâmica distinta no comércio internacional, baseada na integração das cadeias produtivas globais. A tendência atual nas negociações plurilaterais para promover a liberalização dos mercados é a redução das restrições existentes dentro do território ("behind the border rules") dos países que participam desses entendimentos. Além da redução das tarifas e das barreiras não tarifárias, o que está sendo discutido nos mega-acordos são regras que vão além daquelas existentes na OMC, como investimento, serviços, compras governamentais, propriedade intelectual, ou mesmo que nem estão reguladas pela organização, como controle de capital.
Como os países que estão discutindo e já aprovaram regras nos acordos regionais e bilaterais fora da OMC são também membros da organização, o momento é de perplexidade. Como será feita a transição da instituição para absorver o novo cenário que se abre com os mega- acordos? Será possível incorporar as novas regras à OMC? O esforço realizado nas grandes rodadas de negociações, como a de Doha, em que o princípio básico de que nada seria decidido sem que tudo estivesse decidido, parece esgotado, pois as expectativas agora são diferentes. Os países que não estão participando dessas meganegociações - inclusive os emergentes, nos quais se inclui o Brasil - relutam em encarar negociações futuras sobre essas regras. Outros, como a China, estão sendo deliberadamente excluídos por questões geopolíticas.
Não se trata, portanto, de uma questão menor de procedimento - como facilitar a tomada de decisões no âmbito da OMC, a manutenção ou não de "single undertaking" e do tratamento especial e diferenciado para países em desenvolvimento e de menor desenvolvimento relativo. Trata-se de um problema de substância das negociações comerciais que abrem caminhos em áreas nunca antes reguladas.
As discussões no âmbito do grupo de peritos, depois de novo encontro em junho, serão resumidas num documento com propostas concretas a serem encaminhadas à reunião ministerial da OMC que ocorrerá em Bali, na Indonésia, em dezembro./ Presidente do Conselho de Comércio de Comércio Exterior da FIESP

Investimentos brasileiros na Europa chegam a US$ 67 bi

Investimentos brasileiros na Europa chegam a US$ 67 bi

O Estado de S. Paulo - 08/04/2013
 

As empresas brasileiras são as que têm o maior estoque de in­vestimentos na Europa entre to­dos os países dos Brics e, nos últi­mos quatro anos, o volume che­gou a superar a todos as demais economias do bloco emergentes - Rússia, China, índia e África do Sul-juntas.
Mesmo se a crise na Europa gerou uma certa hesitação por parte de alguns segmentos dos empresários brasileiros, analis­tas, executivos e o governo acre­ditam que o processo de interna cionalização das empresas nacio­nais vai continuar e que a Europa será um dos focos.
A presença cada vez mais forte do empresariado brasileiro na Europa levou o governo de Dilma Rousseff a fechar um acordo com a União Européia para tentar desenvolver um plano de cooperação no setor de investimen­tos, o que deve ocorrer nas próxi­mas semanas. Na avaliação de diplomatas brasileiros, há até pou­cos anos, falar de investimentos na agenda bilateral significava apenas tratar do fluxo que o Bra­sil recebia dos estrangeiros. Ho­je, os interesses nacionais na Eu­ropa são considerados como es­tratégicos para os planos das multinacionais brasileiras.
Há dez anos, para cada € 10 investidos pelos europeus no Brasil, havia € 1 brasileiro na Eu­ropa. Hoj e, a diferença é bem me­nor. Os estoques de capital euro­peu no Brasil chegam a US$ 180 bilhões. Já os do Brasil na Euro­pa atingiram US$ 67 bilhões. Em toda a América Latina, os investi­mentos brasileiros não superam a marca de US$ 20 bilhões. No total, o estoque de investimen­tos de empresas brasileiras no ex­terior chega a US$ 230 bilhões.
Nos últimos anos, o número de aquisições foi relevante. O  JBS comprou abatedouros pela  Europa e tem três fábricas de pro­cessamento de carne só na Itália, enquanto o grupo Camargo Corrêa comprou a cimenteira Cimpor, de Portugal e a Embraer abriu, em Portugal, sua primeira fábrica de peças na Europa.
Um dos aspectos da abertura de fábricas na Europa, segundo o próprio Itamaraty, é a capacida­de que as empresas nacionais conseguem de acesso aos finan­ciamentos dados pela Comissão Européia.
Atração. O movimento de aqui­sição, interessa aos europeus, principalmente nos países em di­ficuldades. Nos últimos meses, missões de governos e de empre­sários têm desembarcado em Brasília justamente para apelar para que as empresas nacionais invistam em seus mercados. Um deles foi o rei Juan Carlos. "A Es­panha se transformou em uma base europeia para muitas em­presas ibero-americanas e quere­mos que sej a também para as bra­sileiras", disse.
Para Malcolm Lloyd, da con­sultoria PwC, "nas condições atuais, os investidores de países emergentes têm uma oportunidade única para realizar investi­mentos e ganhar vantagem com­petitiva em mercados madu­ros"./J.c.

Brics investem US$ 100 bi em empresas de países ricos

Brics investem US$ 100 bi em empresas de países ricos

Crise dos países ricos vira oportunidade de expansão para empresas dos Brics
O Estado de S. Paulo - 08/04/2013
 

A crise nos países ricos tomou-se uma oportunidade para empresas dos Brics. Entre 2010 e 2012, companhias do Brasil, Rússia, Índia e China investiram mais de US$ 100 bilhões na compra de grupos da Europa, dos Estados Unidos e até do Japão, segundo dados das Nações Unidas. Em 2012, os estoques totais de investimentos dos Brics - bloco que também inclui a África do Sul - no mundo atingiram a marca recorde de US$ 1,1 trilhão. A China liderou esse movimento

Jamil Chade
CORRESPONDENTE / GENEBRA
A crise nos países ricos tomou-se uma grande oportunidade para as empresas dos Brics. Apenas entre 2010 e 2012, companhias do Brasil, Rússia, Índia e China investiram mais de US$ 100 bilhões na compra de grupos da Europa, dos Estados Unidos e até do Japão, segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU).
Os números da ONU revelam que, ainda que o discurso do bloco de países emergentes seja o de investir no continente africano e promover a cooperação sul-sul, é para a Europa que vai a maior parte dos investimentos de suas empresas.
No total, os estoques de investimentos dos Brics - bloco que também inclui a África do Sul -pelo mundo atingiram em 2012 a marca recorde de US$ 1,1 trilhão. Se no ano 2000 os países do bloco investiam anualmente US$ 7 bilhões, em 2012 esse volume chegou a US$ 120 bilhões. Em dez anos, os Brics passaram de representar 1% do fluxo de investimentos para mais de 9% no mundo.
Do total de estoques de investimentos, porém, apenas US$ 29 bilhões foram investidos nos próprios países do bloco emergente. O mercado americano conta com um volume maior de investimentos dos Brics - cerca de US$ 31 bilhões - que os próprios sócios do grupo. Já na Europa os investimentos chegam a US$ 385 bilhões, 34% do total. No geral, os países ricos contam com estoques de investimentos dos Brics de US$ 470 bilhões. Mas o que mais chama a atenção dos especialistas da ONU é o padrão da entrada dessas empresas nos países ricos. Entre 2010 e 2012, enquanto as economias desenvolvidas viveram estagnações e recessões, o fluxo de investimentos dos Brics a suas economias chegou a US$ 105 bilhões em aquisições.
A China liderou o movimento, com 54% do total. Especialistas apontam que Pequim considera a Europa "mais aberta" que os EUA para investir. Segundo um informe da Câmara de Comércio da UE na China, estatais chinesas estariam até mesmo planejando ampliar essa participação nos próximos anos e aproveitar justamente as privatizações que ocorrerão no Velho Continente por conta da redução dos gastos públicos que governos terão de implementar. Em 2012, a China investiu € 3,3 bilhões na empresa de energia em Portugal, que estava sendo privatizada.
Hoje, o país que mais atrai empresas chinesas é a Alemanha, seguida pela França, Itália e Holanda. No Reino Unido, os chineses já compraram a fábrica dos tradicionais táxis de Londres, a Manganese Bronze. O fundo soberano China Investment Corporation (CIC) é o terceiro maior acionista da Songbird Estates, império que controla o Canary Wharf Group. Bancos chineses :já compraram 28 mil m2 de escritórios em Londres desde o início  da crise financeira.
Nos últimos anos, uma das maiores aquisições da China chegou a US$ 2,2 bilhões e envolveu a Elkem, uma empresa da Noruega  que faz componentes para painéis solares. A chinesa Goldwind ainda comprou a alemã Vensys, produtora de turbinas. Em 2010, o conglomerado chinês Fosun comprou 9,3% das ações do Club Med, cadeia francesa de hotéis. No mesmo ano, os chineses compraram a rede de varejo grega Folli Follie.
As novas multinacionais indianas também optaram pela aquisição de empresas europeias como parte de sua expansão pelo mundo. Grupos como Wipro, Tata Consultancy Services, Infosys e HCL Technologies são apenas alguns do setor de tecnologia que já partem para a ofensiva no Velho Continente e seu mercado de € 155 bilhões.
Na Alemanha, a Indiana Geomegies comprou a 3Cap Technologies, enquanto a Cognizant Technology Solutions levou de uma só vez seis empresas alemãs do setor da tecnologia. Em 12 anos, empresas indianas promoveram aquisições no exterior no total de US$ 116 bilhões. Mas foi nos últimos cinco anos que essa tendência ganhou força, depois que a Tata Steel comprou a Corus Group por US$ 7,6 bilhões e depois adquiriu a Jaguar/Land Rover por US$ 2,3 bilhões.
Leste Europeu. Outro peso pesado entre os investidores dos Brics na Europa é a Rússia. Entre 1991 e 2008, os investimentos de Moscou no Leste Europeu somaram apenas US$ 2,4 bilhões. Mas, desde então, esse volume já ultrapassou US$ 3 bilhões. "Empresas na Rússia descobriram que são rentáveis e que o mercado russo já não é suficiente", disse Kalman Kalotay, pesquisador da Conferência da ONU para o Comércio e Desenvolvimento. Em Moscou, parte da estratégia de negócios passa diretamente pelos interesses políticos do Kremlin. O maior banco estatal russo, o Sberbank, comprou a divisão do Leste Europeu de um banco austríaco, enquanto outro banco comprou a maior estatal de cigarros da Bulgária.
Na Grécia, quebrada e em recessão há seis anos, investidores russos estão comprando hotéis, como em Zepko, por € 200 milhões. Mas é a Gazprom que lidera a ação dos russos pela Europa. A empresa garante 25% do gás que o Velho Continente consome. Em países como Eslováquia e Bulgária, 90% do gás é fornecido pelos russos.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Brasil e UE tentam acelerar investimentos

Brasil e UE tentam acelerar investimentos

Valor Econômico - 01/04/2013
 

José Durão Barroso já informou a presidente Dilma sobre quem integrará o lado europeu da comissão
A União Europeia (UE) e o Brasil estão acelerando a implementação de um comitê de ministros para reduzir entraves e promover investimentos e competitividade nos dois lados. A iniciativa foi acertada na cúpula UE-Brasil, em fevereiro em Brasília, e não é por acaso que tem nível ministerial, conforme negociadores. Pelo menos no papel, o objetivo é tomar decisões concretas, em sintonia com empresários europeus e brasileiros.
Algumas decisões para estimular negócios podem ocorrer ou ser sugeridas na cúpula que ocorrerá neste ano em Bruxelas.
O presidente da Comissão Europeia, José Durão Barroso, enviou carta à presidente Dilma Rousseff informando que os representantes europeus no grupo serão o vice-presidente da comissão e comissário de Indústria, Antonio Tajani; o comissário de Comércio, Karel de Gucht; e a comissária para Ciência, Pesquisa e Inovação, Màire Geoghegan-Quinn. O Brasil está ultimando sua escolha.
A UE tem pressa. Um estudo da Comissão Europeia concluiu que 90% do crescimento econômico global deve ser gerado fora de seus 27 países membros, até 2015.
A UE é o principal parceiro comercial do Brasil. É também o maior investidor no país com estoque de mais de € 180 bilhões, mais que todos os investimentos europeus somados na China, Índia e Rússia. Por sua vez, o estoque de investimentos diretos brasileiros nos países da UE superam os € 67 bilhões, transformando o Brasil no quinto maior investidor no bloco.
Conforme os europeus, existe crescente interesse em estabelecer ou ampliar a presença no Brasil, inclusive por parcerias público-privadas. E há foco em crescente competitividade de empresas brasileiras no mercado europeu.
Enquanto os europeus reclamam de problemas burocráticos que causam protecionismo, o lado brasileiro aponta questões de regras de concorrência não escritas ou sobre ajuda do Estado para inovação e tecnologia, que são complicadas e dificultam empresa brasileira instalada na UE a ter aceso aos programas.
Estudo de três especialistas do Centre for European Policy Studies, Daniel Gross, Cinzia Alcidi e Alessandro Giovannini, examina o interesse estratégico da Europa e o potencial da economia brasileira, e sugere que Brasília e Bruxelas busquem nova iniciativa econômica bilateral. Como o Brasil não pode negociar acordos comerciais clássicos sem o Mercosul, a ideia seria de brasileiros e europeus aprofundarem outros temas, como facilitação de comércio e para investimentos diretos brasileiros na Europa em crise.
Para Luigi Gambardella, presidente da UEBrasil, entidade que procura reforçar os vínculos bilaterais, o Brasil tem também um interesse vital em aprofundar sua parceria econômica com a Europa para não ficar isolado pelo lançamento da negociação UE-Estados Unidos e pelo avanço do Acordo Comercial Transpacífico (TPP) que reune EUA, Japão, Austrália, Chile, Malásia, Nova Zelândia, Peru, Cingapura, Vietnã e outros. "Esses países estão entre os clientes brasileiros mais importantes e o Brasil não pode correr o risco de ser bloqueado por essas novas grandes iniciativas bilaterais."

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Fora do abismo, mas com riscos

Fora do abismo, mas com riscos

O Estado de S. Paulo - 03/01/2013
 

Mais uma vez a eco­nomia americana foi salva do desas­tre no último ins­tante, com a apro­vação pela Câmara de Representantes, às 11 horas da noite de terça-feira, de um acordo contra o abismo fiscal. Na madrugada do mesmo dia os senadores haviam aprovado as medidas para evitar um arrocho orçamentário suficiente pa­ra jogar o país de novo na recessão e difiçultar a superação da crise glo­bal. Na Câmara, dominada pelos re­publicanos, a resistência da oposição foi muito mais forte e a insegurança predominou até pouco antes da votação. O resultado final foi recebido com manifestações de alívio em to­do o mundo e as bolsas fecharam os pregões com grandes altas. O susto passou, mas nem todos os riscos fo­ram afastados e o presidente Barack Obama ainda terá de enfrentar no­vas negociações com os oposicionis­tas. A dívida federal chegou a US$ 16,4 trilhões na virada do ano, bateu novamente no teto e será preciso mais uma vez elevar seu limite. A dis­cussão desse tema será um dos pon­tos principais da agenda presiden­cial nos próximos tempos.
A economia americana cresceu no terceiro trimestre em ritmo equiva­lente a 3,1% ao ano. Foi um desempe­nho mais que invejável para a maior parte dos países desenvolvidos e até para um dos grandes emergentes, o Brasil. De outubro para novembro o desemprego caiu para 7,7% da força de trabalho, enquanto continuou em alta na Europa. Não se sabe ainda se a produção terá perdido impulso nos últimos três meses, nos Estados Uni­dos, mas indicadores do setor indus­trial têm sido positivos. Todos têm, objetivamente, excelentes motivos para torcer pela recuperação do mais importante mercado consumi­dor. Com a reativação americana, a economia global será de novo puxa­da por mais um potente motor.
Mas o desafio enfrentado pelo pre­sidente Barack Obama seria muito menos assustador se fosse apenas econômico. A economia americana ainda é uma das mais flexíveis e cria­tivas do mundo e sua capacidade de recuperação foi muitas vezes com­provada. Mas o problema é funda­mentalmente político, porque as ban­deiras dos conservadores incluem cortes em programas sociais e barrei­ras a qualquer elevação de impostos para as classes de rendas mais altas.
Para conseguir o acordo e evitar a queda no abismo, o presidente foi obrigado a ceder em pontos impor­tantes. Desistiu de conseguir um au­mento de imposto para os contri­buintes com renda individual acima de US$ 200 mil por ano ou casais com ganho superior a US$ 250 mil.
Teve de aceitar um teto mais alto - US$ 400 mil para solteiros e US$ 450 mil para casais.
Os republicanos também cede­ram, porque combatiam qualquer no­va tributação desse tipo, mas tive­ram uma vitória parcial. Foram pre­servados benefícios fiscais para bol­sas de estudos, pesquisas e atenção às crianças, assim como o seguro, por mais um ano, para 2 milhões de desempregados. Mas Obama foi inca­paz de evitar a elevação do desconto sobre o salário. Além disso, ainda se­rá necessária uma negociação para evitar um corte automático de gas­tos de US$ 110 bilhões dentro de dois meses.
Na Europa, o crescimento econô­mico deve continuar lento em 2013 e o desemprego, elevado. Houve sinais de melhora em algumas economias e até de algum avanço do governo gre­go na redução do déficit fiscal, mas o risco de mais recessão permanece.
Uma das novidades mais importan­tes do fim do ano foi o acordo entre os governos da zona do euro em tor­no de uma política bancária centrali­zada. O Banco Central Europeu fica­rá encarregado de fiscalizar e discipli­nar as instituições mais importan­tes. Isso pode contribuir para a sepa­ração dos problemas dos bancos e dos Tesouros nacionais. Mas faltam outras medidas para impulsionar as economias da região.
A China deve reagir, depois de al­guma desaceleração em 2012, mas seu crescimento provavelmente será mais lento que na década anterior. Ainda assim, continuará sendo o principal foco de dinamismo interna­cional e um grande mercado para as commodities brasileiras. Um cená­rio melhor dependerá, nos próximos meses, principalmente do sucesso político do presidente Barack Obama e de novos avanços da economia americana.

EUA APROVAM PROJETO CONTRA "ABISMO FISCAL" E BOLSAS SOBEM

EUA APROVAM PROJETO CONTRA "ABISMO FISCAL" E BOLSAS SOBEM

ACORDO ADIA RISCO DE ‘ABISMO FISCAL’ NOS ESTADOS UNIDOS
Autor(es): Denise Chrispim Marin
O Estado de S. Paulo - 03/01/2013
 

A Câmara dos Deputados dos Estados Unidos aprovou, nos últimos minutos do prazo fixado, projeto parcial de ajuste nas contas públicas que evita o chamado “abismo fiscal” e consequente nova recessão. Por 257 votos a favor e 167 contra, os congressistas mantiveram os cortes de impostos para a classe média e o aumento das taxas sobre os mais ricos. Como não houve acerto sobre gastos públicos, foi adiado para março o risco de o país enfrentar um corte automático de US$ 560 bilhões no setor até 2022 – US$ 110 bilhões somente neste ano – e uma possível suspensão dos pagamentos das obrigações da dívida, de fornecedores e servidores. Os mercados, tanto nos EUA quanto na Europa, reagiram bem à medida. A nova rodada de negociações será o primeiro desafio do segundo mandato de Barack Obama, que começa no dia 21. As conversas serão dificultadas pela piora do ambiente para diálogo entre republicanos e democratas
Sem entendimento sobre os gastos públicos, pacto ficou restrito ao capítulo tributário; corte nos gastos só será negociado em 2 meses

A sanção presidencial ao acor­do parcial de ajuste nas contas públicas americanas adiou pa­ra março o risco de os Estados Unidos enfrentarem um corte automático de US$ 560 bi­lhões nos gastos públicos e o risco de suspensão dos paga­mentos das obrigações da dívi­da, de fornecedores e servido­res públicos. Mesmo incom­pleto, o acordo saiu nos últi­mos minutos do prazo fixado e trouxe alívio ao evitar a que­da do país no "abismo fiscal" no primeiro dia útil do ano e em uma nova recessão.
Os mercados foram reabertos ontem, depois dos feriados de ano-novo, mais calmos em todo o mundo. O diretor de Relações Internacionais do Fundo Mone­tário Internacional (FMI), Gerry Rice, parabenizou o Con­gresso pelo acordo, sem o qual "a recuperação econômica pode­ria descarrilar". "Entretanto, ain­da resta muito a ser feito para colocar as finanças públicas dos EUA de volta em um caminho de sustentabilidade sem ameaçar a ainda frágil recuperação."
Aprovado pelo Senado na noi­te de segunda-feira, o acordo foi tema de debates tensos na Câma­ra dos Deputados no dia seguin­te. Os republicanos radicais do Tea Party resistiam a aprová-lo sem emendas. No final da noite, recuaram. Em votação concluí­da às 23I1 (2h de ontem, no horá­rio de Brasília), o texto obteve 257 votos a favor - 87 de republi­canos - e 167 contra.
Formulado pelos líderes de­mocrata e republicano do Sena­do, o acordo restringiu-se ao ca­pítulo tributário, para impedir uma elevação generalizada dos recolhimentos de impostos logo nos primeiros dias do ano. Co­mo não houve acerto sobre gas­tos públicos, o Senado adiou por dois meses a adoção do corte au­tomático de US$ 110 bilhões em despesas apenas em 2013. A me­dida seria posta em prática na au­sência de um acordo.
Novo round. A segunda rodada de negociações deverá começar depois da posse do presidente dos EUA, Barack Obama, em seu segundo mandato, no dia 21. Se­rá seu primeiro desafio. O corte automático de gastos - US$ 560 bilhões até 2022 e US$ 110 bi­lhões este ano - em 10 de março só será impedido com a aprova­ção de uma proposta bipartidária alternativa.
Nesse mesmo período, o go­verno terá ainda de extrair do Congresso a autorização para elevar o teto da dívida pública. O tema fora adicionado aos deba­tes do acordo fiscal porque o go­verno alcançaria em 31 de dezem­bro o limite de US$ 16,4 trilhões. Mas o Tesouro suspendeu al­guns investimentos e abriu uma brecha de US$ 200 milhões, que devem se esgotar ao final de dois meses. Sem a autorização do Congresso, o Tesouro terá de suspender os pagamentos, pela primeira vez na história.
"A atmosfera política em Wa­shington continua ruim. Só não impediu que o acordo fosse apro­vado porque havia o risco de uma potencial crise econômica. O go­verno continua disfuncional", afirmou WardMcGarthy, economista-chefe da Jefferies & Co. "Foi um sombrio começo de 2013.0 acordo não é bom para a economia. Não faz nada para re­duzir o peso dos gastos públicos. Não reforma os programas de benefícios sociais do governo", es­creveu o analista conservador Da­niel Mitchell, do Gato Institute.
O acordo assinado custará um aumento de US$ 4 trilhões na dívida pública até 2022, segundo j projeções do Escritório de Orça- j mento do Congresso. Tal como está, permitiu a elevação, de 35% para 39,6%, da alíquota do impos­to de renda para os americanos com renda anual acima de US$ 400 mil US$ 450 para casais).
Houve aumento do imposto sobre ganhos de capital e de propriedade de imóveis para os seg- 1 mentos mais ricos. Os trabalha­. dores, entretanto, terão de pa­gar mais imposto sobre salário.
O texto manteve o seguro-desemprego para 2 milhões trabalhadores sem ocupação há mais de um ano.

Perspectivas para a economia mundial melhoram em 2013

Perspectivas para a economia mundial melhoram em 2013

Valor Econômico - 02/01/2013
 
Se existem perspectivas mais animadoras para a economia global em 2013, elas se devem especialmente ao fato de os bancos centrais corajosos estarem conduzindo os destinos dos países desenvolvidos. Desde 2008, quando uma pavorosa recessão ameaçou o mundo, o Federal Reserve (Fed, banco central americano) e, depois, o Banco Central Europeu (BCE) conseguiram evitar a quebra generalizada de bancos dos dois lados do Atlântico e falências de países, no caso da zona do euro. Conseguir afastar os piores perigos, nessas circunstâncias, já seria uma façanha. Fazê-lo sem poder contar com o poderoso auxílio das políticas fiscais - e até remando contra as consequências delas, em certo sentido - é admirável. Durante os últimos cinco anos o mundo desenvolvido foi regido por juros reais próximos do zero, quando não negativos. Isso por si só colocou notáveis desafios para as autoridades monetárias, pois o remédio foi insuficiente para evitar o colapso de economias inteiras. Os EUA conseguiram navegar relativamente bem após forte recessão nos últimos meses de 2008 e início de 2009, graças ao ativismo de Ben Bernanke, um estudioso atento da Grande Depressão. O Fed fez o que nunca tinha feito: comprar títulos privados, aceitar garantias que seriam rechaçadas em tempos normais e inchar seu balanço em mais de US$ 1 trilhão. O Tesouro americano entrou no capital de fortalezas bancárias, como o Citibank. Os grandes bancos levaram uma surra, mas nenhum deles faliu depois da desastrosa derrocada do Lehman Brothers. O epicentro da crise se deslocou para a zona do euro desde 2010 e lá permanece. A Grécia quebrou e ameaçou levar a união monetária junto consigo. Os títulos soberanos, considerados os mais seguros, tornaram-se papéis podres diante da montanha de déficit público acumulada por Irlanda, Portugal, Espanha, Itália e outros países, em grande parte para evitar uma catástrofe financeira provocada pela ganância e irresponsabilidade dos bancos. Em 2012, a falência combinada de Estados e instituições financeiras esteve prestes a se concretizar. Os líderes europeus agiram com reticências e tardiamente, deixando um vácuo que foi preenchido pela ação do Banco Central Europeu. O bloco monetário foi duas vezes salvo por Mario Draghi, presidente do BCE. Em um dos picos da crise, no fim de 2011, Draghi tomou a dianteira ao dar financiamento ilimitado por três anos, a custo simbólico, para todos os bancos que dele necessitassem. Afastado provisoriamente o risco imediato de quebra bancária generalizada, o outro lado do pêndulo da crise se moveu. O custo de financiamento de países como Itália e Espanha, terceira e quarta maiores economias da zona do euro, foi para a lua. De novo, Draghi, navegando na estreita linha permitida pelos tratados da União Europeia, anunciou a compra dos títulos dos países sob sufoco no mercado secundário, desde que se submetessem aos planos de austeridade da Comissão Europeia, FMI e BCE. Imediatamente o preço exigido pelos investidores para sustentar a rolagem da dívida dos Estados declinou e hoje está significativamente abaixo do pico de 2011 - e, o que é mais curioso, sem que o BCE tenha de fato feito compras maciças de títulos soberanos e Espanha e Itália tenham pedido socorro formalmente. A compra de títulos soberanos foi uma alternativa levantada desde o início da crise do euro e só foi tomada, ainda assim, com a união monetária à beira do precipício. Além disso, os líderes europeus finalmente se convenceram de que deveriam salvar a Grécia e manter a unidade da zona do euro. Aceitaram que seu fundo de estabilização fosse usado para sanear bancos em dificuldades e concordaram em criar uma supervisão bancária única para os grandes bancos, a cargo do BCE. Problemas de fundo do bloco monetário subsistem, como a necessidade de coordenação das políticas fiscais, envolvendo significativa perda de soberania dos Estados membros. Mas o BCE conseguiu finalmente comprar tempo e deter a escalada fatal da crise. A zona do euro continuará em recessão ao longo de 2013 e uma recuperação econômica plena demorará anos. Se os EUA domarem o abismo fiscal como tudo indica, a China melhorar um pouco sua performance e os demais emergentes se recuperarem, como dão sinais de fazê-lo, o drama europeu, que apavorou os mercados nos últimos anos, se tornará administrável. Por isso, 2013 pode ser o ano que marcará o começo do fim da crise global.