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terça-feira, 8 de maio de 2012

Bloco contra a austeridade

Bloco contra a austeridade

Urnas põem Europa na encruzilhada
Autor(es): agência o globo:Deborah Berlinck
O Globo - 08/05/2012
 
Eleições mostram ascensão de partidos contrários à receita anticrise de Angela Merkel

O status quo começa a ser seriamente questionado na Europa. Cinco eleições nos últimos dias - que vão desde as disputas municipais na Itália e no Reino Unido, passando por uma regional na Alemanha até a mudança na Presidência da França e no Parlamento da Grécia - apontam para uma rejeição pública cada vez maior aos dirigentes e partidos que apoiam políticas econômicas de acordo com o receituário alemão de austeridade no continente em crise.
- Sentimos que um bloco começa a se constituir em oposição à Alemanha. Até quando a Alemanha vai poder resistir sozinha? Será que vai conservar sua liderança? Ela está cada vez mais isolada - constata Vivien Pertusot, que dirige, em Bruxelas, o Instituto Francês de Relações Internacionais (Ifri).
O maior exemplo desta tendência foi a volta triunfal neste fim de semana dos socialistas na França, 30 anos depois que François Mitterrand conquistou o poder numa eleição histórica, em 1981. O novo presidente, François Hollande, promete lutar contra a política de austeridade generalizada no continente. Ele quer rediscutir o pacto de estabilidade que 25 dos 27 países-membros da União Europeia (UE) assinaram em fevereiro, alegando que é preciso dar mais ênfase ao crescimento econômico. Uma proposta que a chanceler federal alemã, Angela Merkel, já rejeitou ontem mesmo depois de anunciar que receberia Hollande na Alemanha "de braços abertos":
- Nós, na Alemanha, e eu, pessoalmente, somos da opinião de que o pacto fiscal não é negociável. Já foi negociado e assinado por 25 países - disse.
O pacto foi costurado por Merkel com Nicolas Sarkozy, antecessor de Hollande. A dupla defensora da austeridade trabalhou tão junta que ganhou o apelido de "Merkozy". Na madrugada de segunda-feira em Paris, diante de uma multidão na Praça da Bastilha, o novo presidente lançou uma frase que resume a virada no humor dos franceses:
- Austeridade não precisar ser uma fatalidade na Europa - disse.
Hollande como catalisador
O movimento de rejeição não ocorreu apenas da França. No domingo, os dois principais partidos políticos encarregados de tirar a Grécia do buraco - o conservador Nova Democracia e os socialistas do Pasok - não conseguiram maioria nas eleições parlamentares. O que se viu foi a ascensão impressionante de extremistas de esquerda e de direita. A Grécia terá, pela primeira vez no Parlamento, deputados de um partido que defende ideologia neonazista, o Aurora Dourada, que carrega um símbolo muito próximo de uma suástica.
Na Grã-Bretanha, a coalizão conservadora liderada por David Cameron - um defensor da política de austeridade - perdeu as eleições locais para o Partido dos Trabalhistas, que, assim como Hollande, coloca o crescimento econômico como prioridade. As eleições municipais na Itália também deram provas da resistência do eleitorado às duras medidas de alta de impostos e cortes de pensões implementadas pelo premier Mario Monti, com o desempenho favorável de legendas de centro-esquerda nas urnas. Na própria Alemanha, o partido de Merkel perdeu o governo do estado de Schleswig-Holstein, que deverá passar a uma coalizão dos social-democratas com os verdes e a minoria dinamarquesa.
Para Vivien Pertusot, do Ifri em Bruxelas, a retórica dos franceses desafia os alemães. Mas na prática, não há interesse de Hollande e nem de Merkel em colidir.
- Nunca assistimos a uma queda de braço entre Alemanha e França desde 1963. O casal franco-alemão sempre tenta funcionar. Mesmo que haja hoje uma oposição sobre o pacto fiscal, claramente, não haverá ruptura neste casal.
Outra razão, segundo ele: François Hollande sabe que não pode isolar Angela Merkel, e vice-versa.
- Ele precisa ter uma relação sã com a Alemanha para poder conseguir passar outras iniciativas (de interesse da França) no nível europeu. Ele sabe que não vai conseguir mudar - explica, dizendo que possivelmente ocorrerão pequenas mudanças "cosméticas" no pacto, para que Hollande não saia perdendo.
Mas Hollande pode se tornar o catalisador de uma aliança entre países que se opõem à austeridade a qualquer preço, prevê Pertusot: os governos de Bélgica, Polônia e Espanha já declararam apoio a esta linha favorável ao crescimento.
O economista Francesco Saraceno, do Observatório Francês de Conjunturas Econômicas, acha que Hollande tem uma chance real de influenciar a mudança de direção da Europa. E uma das razões é que, agora, não se trata mais de queixas de pequenas economias, mas de grandes:
- Não se via a Grécia indo para Bruxelas e dizendo: olha, isso não está funcionando. Agora é um grande país que chega e diz: espera aí, isso não está funcionando. A França, sozinha, é pequena para mudar as coisas. Mas a França pode agir como uma força catalisadora organizando uma coalização de países com problemas (com a austeridade).
Mas ainda não há consenso sobre a eventual mudança de rumo no continente. Charles Grant, diretor do Centre for European Reform, em Londres, lembra que os franceses não estão de fato implementando um programa de austeridade. E relativiza a derrota dos conservadores no Reino Unido, dizendo que foi mais um voto contra os erros sucessivos de David Cameron do que contra a austeridade preconizada por ele.
- Na França eu diria que foi mais um voto contra Sarkozy do que contra a austeridade.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Hollande vence Sarkozy e socialistas voltam ao poder na França

Hollande vence Sarkozy e socialistas voltam ao poder na França

Publicado em Carta Capital
François Hollande diz querer ter "uma presidência normal". Foto: AFP

 O socialista François Hollande foi eleito presidente da França neste domingo 6 ao derrotar o atual chefe de Estado, o conservador Nicolas Sarkozy, no segundo turno das eleições francesas.
Em seu primeiro discurso como presidente eleito, Hollande afirmou que a “austeridade não deve ser uma fatalidade” entre os diversos governos de uma Europa em crise.
“Hoje mesmo, responsável pelo futuro do nosso país, estou ciente de que toda a Europa nos observa”. “Na hora em que o resultado foi anunciado, tive a certeza que em diversos países europeus houve um sentimento de alívio e de esperança, de que, por fim, a austeridade não deve ser mais uma fatalidade”, disse Hollande, que obteve 52% dos votos.
“Neste 6 de maio, os franceses escolheram a mudança para me levar à presidência da República” e estou “orgulhoso por ter sido capaz de devolver esta esperança”. “Prometo ser o presidente de todos”.
“Envio uma saudação republicana a Nicolas Sarkozy, que dirigiu a França durante cinco anos e que por isto merece nosso respeito”.
Sarkozy reconheceu a derrota no início da noite e chamou Hollande de “novo presidente” que o “povo francês elegeu de forma democrática e republicana”.
O atual chefe de Estado assumiu “toda a responsabilidade pela derrota” e comunicou a seus partidários que não liderará a luta para as eleições legislativas, previstas para 10 e 17 de junho.


“Não se dividam, permaneçam unidos. É preciso vencer a batalha das legislativas. Podemos ganhar. O resultado (deste domingo) foi honroso. Mas não vou liderar esta campanha”.
“Minha posição não pode ser a mesma. Meu compromisso com a vida do meu país será diferente agora”, disse Sarkozy.
Hollande se converte assim no segundo presidente socialista da V República Francesa fundada pelo general Charles De Gaulle em 1958, depois de François Mitterrand, chefe de Estado de 1981 a 1995.
Mais cedo, um de seus aliados, Jean-Marc Ayrault, afirmou que um dos primeiros atos de Hollande como presidente eleito será entrar em contato com a chefe do governo alemão, Angela Merkel, na noite deste domingo.
“Creio que ele entrará em contato com Merkel para discutir uma reorientação da Europa pelo crescimento, pela competitividade e pela proteção”, disse a jornalistas Ayrault, possível primeiro-ministro de Hollande.
O novo líder francês anunciou que renegociará o pacto fiscal europeu de ajustes e austeridade, elaborado por Sarkozy e Merkel, como parte de uma aliança batizada por ele de ‘Merkozy’, visando o acréscimo de um capítulo de apoio ao crescimento.
O ministro alemão das Relações Exteriores, Guido Westerwelle, afirmou na noite deste domingo que seu país “vai trabalhar junto” com a França “por um pacto de crescimento para a União Europeia”.
“Precisamos incrementar novas medidas de crescimento, e isto passa por reformas estruturais”, disse Westerwelle.
Hollande contou com o apoio incondicional do candidato da esquerda radical Jean-Luc Mélenchon (11,10% dos votos no primeiro turno), da ecologista Eva Joly (2,31%) e do centrista François Bayrou (9,13%), mas a dirigente da Frente Nacional (FN, extrema direita), Marine Le Pen (quase 18%), defendeu o voto em branco, apesar de criticar Sarkozy com virulência.
No início da noite, Le Pen afirmou que Sarkozy e seu partido UMP foram os responsáveis pela vitória dos socialistas.
“Foi Nicolas Sarkozy que permitiu a vitória de François Hollande. Foram todos os dirigentes da UMP que não pararam de dizer que votar nos socialistas não seria tão ruim, tão dramático”.
Sarkozy passa a engrossar a lista dos líderes políticos vítimas da crise europeia, ao lado do socialista espanhol José Luis Rodríguez Zapatero, do também socialista português José Socrates e do trabalhista britânico Gordon Brown, que pagaram nas urnas por sua política de austeridade.
A eles se somam o italiano Silvio Berlusconi (direita) e o socialista grego Giorgos Papandreu, forçados a sair por pressão da própria União Europeia.
A campanha na França, como as demais, foi marcada pela crise financeira que castiga duramente países como Espanha, Grécia, Itália e Portugal, e por questões como imigração e segurança nas fronteiras, com claro avanco da extrema direita.

APÓS 24 ANOS, FRANÇA ELEGE SOCIALISTA

APÓS 24 ANOS, FRANÇA ELEGE SOCIALISTA

FRANÇA REJEITA MEDIDAS DE SARKOZY E LEVA SOCIALISTA HOLLANDE À PRESIDÊNCIA
Autor(es): Andrei Netto
O Estado de S. Paulo - 07/05/2012
 

O discurso de defesa do crescimento econômico em lugar da austeridade devolveu ontem o poder na França aos socialistas, que não venciam eleições presidenciais havia 24 anos. Em votação apertada, o candidato do Partido Socialista François Hollande recebeu 51,7% dos votos, derrotando Nicolas Sarkozy, primeiro chefe de Estado francês em três décadas a não conseguir uma reeleição. Em um discurso sóbrio, Hollande disse que sua missão será levar a mensagem das urnas na França a toda a União Europeia. O vencedor toma posse no dia 15. Na primeira viagem como presidente, vai se encontrar com a chanceler alemã Angela Merkel, principal defensora da austeridade como receita contra a crise
Após mais de duas décadas de jejum, esquerda francesa vence eleição presidencial por margem apertada, destrona gaullista e volta ao Palácio do Eliseu; eleito promete "crescimento e prosperidade", presidente de saída indica que não concorrerá mais a cargos públicos

Numa votação apertada, confirmando os prognósticos, o socialista François Hollande foi eleito ontem presidente da França. O deputado que adotou o slogan da mudança e do crescimento econômico, em lugar da austeridade, obteve 51,7% dos votos – segundo projeção do "Le Monde" – quebrando o jejum de 24 anos nos
quais a esquerda francesa perdeu todas as disputas presidenciais. Impopular, o presidente Nicolas Sarkozy tornou-se o primeiro chefe de Estado da França em
três décadas a não ser reeleito. Ele obteve 48,3% dos votos. Os números finais da vitória seriam confirmados pelo Ministério do Interior ainda na noite de ontem, mas a festa da vitória espalhou-se pelas principais cidades do país a partir das 20 horas (15 horas em Brasília), quando pesquisas de boca de urna começaram a ser divulgadas.
O resultado selou o retorno de um socialista ao Palácio do Eliseu 1 7 a nos após o fim da era François Mitterrand. Sarkozy, do outro lado, entrou para a Hitória ao lado do ex-presidente Valéry Giscard D"Estaing, conservador derrotado a o fim de seu primeiro mandato, em 1981. Menos de meia hora após a divulgação dos resultados, Sarkozy partiu do Eliseu na direção do Teatro da Mutualité, onde os militantes da União pelo Movimento Popular (UMP) o aguardavam. "Quero agradecer a todos
os franceses pela honra que me foi dada, de ter sido escolhido para presidir o país durante cinco anos. Jamais vou esquecer", disse ele, assumindo a "responsabilidade integral pela derrota". "Não consegui convencer uma maioria dos franceses. Fizemos uma campanha inesquecível contra todas as forças – e Deus sabe que elas foram numerosas e coesas contra nós. Mas não consegui fazer vencerem os nossos valores", admitiu Sarkozy diante de seus partidários.
O presidente sugeriu que não voltará a se candidatar a cargos públicos, como havia anunciado, mas tampouco se afastará da vida política. "Vocês podem contar comigo para defender essas ideias, essas convicções, mas meu lugar não poderá mais ser o mesmo", afirmou, encerrando seu discurso emocionado. Fala da vitória. Mais de uma hora depois, François Gérard Georges Hollande, de 57 anos, ex- secretário-geral do PS entre 1997 e 2008, agora presidente eleito, veio à multidão que o aguardava no centro de Tulle, sua cidade natal. Em um discurso sóbrio, sem espaço para a emoção, Hollande enviou uma "saudação republicana" a seu oponente eafirmou estar "orgulhoso de ter sido capaz de devolver a esperança aos franceses". Como em pronunciamentos anteriores, prometeu uma "presidência exemplar", sem excessos. "A mudança deve estar à altura da França. Ela começa agora", garantiu, prometendo realizar um governo aberto aos eleitores da extrema direita. "Saibam que
eu respeito suas convicções e serei o presidente de todos."
Hollande ainda não anunciou nenhum nome de seu governo, mas reiterou suas metas. A primeira, disse, é levar à Alemanha e à União Europeia a mensagem das urnas na França. "Minha missão é dar à construção europeia uma dimensão de crescimento, de emprego e de prosperidade." Ainda à noite, líderes europeus como a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, e o premiê britânico, David Cameron, tele-fonaram ao vencedor para parabenizá-lo. O presidente dos EUA, Barack Obama, também falou com o novo colega francês. O ministro das Relações Exteriores alemão, Guido Westerwelle, classificou a eleição como "histórica" e afirmou que os dois países "continuarão a cumprir suas missões e a assumir suas responsabilidades no seio da UE". "A disciplina fiscal e a estratégia do crescimento constituem as duas faces da mesma moeda", disse o ministro. Em sinal de reaproximação, Hollande e Merkel se encontrarão na primeira viagem oficial do novo presidente. O presidente eleito deixou Tulle em avião privado rumo à Paris, onde discursaria no início da madrugada às centenas de milhares de pessoas reunidas na Praça da Bastilha para comemorar a volta da esquerda ao poder.
Cumprimento de Dilma
A presidente Dilma Rousseff enviou ontem à noite cumprimentos a François Hollande. Ela defendeu que o aperto fiscal seja acompanhado por medidas de crescimento e inclusão social na França
PERFIL
François Hollande,
presidente eleito da França
Vencedor deu volta por cima
Há 18 meses, ninguém na França apostaria na vitória de François Hollande no segundo turno da eleição. Contrariando caciques do Partido Socialista, ele lançou em março de 2011 a pré-candidatura e iniciou um trajeto sem falhas até a vitória, mais de um ano depois. Filho de um médico ligado à extrema direita e de uma assistente social ultracatólica de esquerda, Hollande nasceu em 12 de agosto de 1954, em Rouen, noroeste da França. Criado em Neuilly-sur-Seine – a mesma cidade de Nicolas Sarkozy –, estudou Direito na Universidade de Paris, depois na Escola de Altos Estudos de Comércio (HEC) e no Instituto de Estudos Políticos (Sciences-Po), até chegar à Escola Nacional de Administração (ENA) – todas de alto prestígio.
Militante do partido desde 1979 e discípulo de François Mitterrand, eleito em 1981 presidente, fez o percurso "clássico" dos políticos franceses. Foi subindo de conselheiro municipal (equivalente a vereador) até chegar a secretário-geral do Partido Socialista, em 1997. Deixou o cargo sob críticas, desgastado pela derrota de Lionel Jospin para o extremista Jean-Marie Le Pen, em 2002, seguida do fracasso de sua mulher, Ségolène Royal, diante de Sarkozy, em 2007. Longe dos holofotes, Hollande separouse, emagreceu, conheceu a segunda mulher, a jornalista Valérie Trierweiller, e cercou-se de um grupo de conselheiros políticos que o aproximou dos discursos e símbolos de campanha de Mitterrand.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

ENTRE SOCIALISTA E SARKOZY, VOTO RADICAL DECIDIRÁ 2º TURNO FRANCÊS

ENTRE SOCIALISTA E SARKOZY, VOTO RADICAL DECIDIRÁ 2º TURNO FRANCÊS

SARKOZY SE AGARRA À DIREITA
Autor(es): agência o globo:Deborah Berlinck
O Globo - 23/04/2012
Ao vencer o primeiro turno da eleição presidencial francesa, o candidato do Partido Socialista (PS), François Hollande, deu um importante passo em sua ambição de comandar a sexta maior economia do mundo nos próximos cinco anos, batendo o presidente conservador Nicolas Sarkozy por 28,8% a 26,1%. Mas a vitória veio acompanhada de uma má surpresa: a extrema-direita de Marine Le Pen, líder da Frente Nacional (FN), superou todas as expectativas ao conquistar o seu maior apoio até hoje num pleito presidencial, 18,5%.
Isso aumentou as chances de Sarkozy na disputa do segundo turno, em 6 de maio, embora as pesquisas hoje indiquem uma vitória com folga para Hollande, de 54% contra 46%. O campo situacionista se surpreendeu com este novo cenário e não perdeu tempo. Logo após a divulgação das primeiros resultados, o presidente-candidato e os porta-vozes de seu partido, o UMP, adotaram o discurso que vai marcar sua campanha nas próximas duas semanas: uma guinada para a direita.
- As pessoas expressaram um voto de crise que dá testemunho de suas preocupações, seu sofrimento e sua ansiedade em face do novo mundo que está se formando. Esta eleição é sobre o respeito às nossas fronteiras, os controles à imigração e a valorização do trabalho e da segurança. Neste mundo que muda tão rapidamente, a preocupação das pessoas sobre a preservação de seu modo de vida é a questão central desta eleição . Eu faço um apelo a todos os franceses que colocam o amor à pátria acima de suas preferências partidárias, a se unirem a mim. Viva a República! E viva a França! - disse Sarkozy, ovacionado no Palácio da Mutualité, em Paris.
Diante dos militantes em Tulle, na região da Corrèze, Hollande acusou o presidente de fazer o jogo da extrema-direita e de ser responsável pela alta votação da FN, e apelou para a união das forças de esquerda para o segundo e decisivo turno. Lembrou que mesmo nas eleições de 2002, quando a extrema-direita chocou o país ao alcançar o segundo turno e deixar de fora o candidato socialista Lionel Jospin, o partido nunca havia obtido tantos votos.
- Este é um novo sinal que chama a um sobressalto na República - disse para seus militantes.
Em contraste com o discurso nacionalista de Sarkozy, Hollande ressaltou a importância de sua eleição para a recuperação da economia europeia e global.
- Minha tarefa final , e eu sei que estou sendo observado bem além de nossas fronteiras, é colocar a Europa de volta na trilha do crescimento econômico e do emprego - afirmou.
Pior desempenho
de um governante
Com os resultados de ontem, Sarkozy se tornou o primeiro presidente candidato a um segundo mandato, no período da Quinta República, iniciada em 1958, a não vencer o primeiro turno da eleição. Para reverter a atual vantagem de Hollande, além do apoio da ultradireita, conta com a confrontação direta com seu adversário.
- Essas próximas duas semanas devem permitir a vocês fazer uma escolha com clareza. Eu proponho que três debates sejam organizados. Sobre as questões econômicas, as questões de sociedade, as questões internacionais - sugeriu.
Hollande recusou. Foi definitivo ao afirmar que não aceitará mais do que um debate entre os dois candidatos, "para durar o quanto for preciso".
A partir de agora, a vitória dependerá do apoio que esquerda e direita conseguirão dos partidos que ficaram de fora do segundo turnoe, principalmente, dos eleitores dessas legendas. Marine Le Pen se tornou uma peça fundamental para as pretensões de Sarkozy. Mas a nova líder da extrema-direita, que ontem superou a votação de seu pai, Jean-Marie Le Pen, no pleito de 2002 (16,9%), manteve o suspense. Ela se autoproclamou "chefe da oposição", e disse que somente em 1º de maio, Dia do Trabalhador, cinco dias antes da votação decisiva, anunciará sua indicação de voto para o segundo turno. As primeiras sondagens apontam que 60% dos eleitores da extrema-direita votarão em Sarkozy no segundo turno, e 18% escolherão Hollande. Essa migração não é suficiente para reverter a vantagem do socialista, que conta com a adesão quase total dos eleitores de outros candidatos de esquerda.
O principal deles, Jean-Luc Mélenchon, teve um desempenho abaixo do esperado. Nas pesquisas, ele brigava cabeça a cabeça pelo terceiro lugar com Marine, mas na votação acabou num distante quarto, com apenas 11,7% dos votos.
Visivelmente decepcionado com seu desempenho, Mélenchon evitou citar ontem o nome de Hollande. Mas fez um forte apelo a seu eleitorado para derrotar Sarkozy, e frisou, sem pedir nada em troca:
- Eu peço a vocês para não hesitarem, peço para que se mobilizem e façam como se se fosse um voto para que eu ganhasse a eleição.
Entre outros nomes da esquerda, a ecologista Eva Joly (2,3% dos votos) manifestou seu apoio nominal ao candidato socialista para o segundo turno.
De maneira vaga, o centrista François Bayrou, do MoDem, que obteve 8,8% do total de sufrágios - menos do que o previsto pelas pesquisas -, disse apenas que "assumirá suas responsabilidades" para a fase final do pleito. Em relação aos simpatizantes de seu partido, a partilha, ainda segundo as pesquisas, é igualitária: 50% para cada um dos candidatos.
O temor de uma anunciada fraca participação dos eleitores neste primeiro turno não se confirmou. Os franceses se mobilizaram para votar no domingo, com um índice de abstenção de 20%, pouco acima dos 16,2% registrados no primeiro turno de 2007, mas abaixo dos 28,4%, em 2002, e dos 21,6% de 1995.
Jean-Claude Gaillardon, de 61 anos, aposentado há seis meses, considerou o resultado "excelente":
- A única chance para Sarkozy era vencer o primeiro turno. Democracia é alternância. É a alegria que volta para nós depois da vitória de François Mitterrand, em 1981 - disse, otimista, em meio a celebração militante em frente à sede do PS, na rua Solférino, na capital francesa.
O entusiasmo não é partilhado por Norah, de 73 anos, também na comemoração socialista:
- Vejo com muita preocupação a escassa margem de avanço neste primeiro turno. É pouco para assegurar a vitória no segundo turno.
Nada está decidido, afirma chanceler
No quartel-general da campanha de Sarkozy, os fiéis escudeiros do UMP respiravam aliviados com o resultado bem menos catastrófico que o previsto pelas sondagens, que apontavam vantagem de até cinco pontos para Hollande e cerca de metade dos votos para a esquerda. O chanceler Alain Juppé festejava que "nada está decidido". Mas como disse a professora de história aposentada Françoise M., de 65 anos, a batalha ainda está "longe da vitória".
- É preciso que ele (Sarkozy) dê uma guinada para a direita em todos os temas, levando em conta a importante votação de Marine Le Pen. É a última chance para a França e para os franceses - avaliou.
Amélie Pochouny, de 28 anos, é funcionária da Disneilândia de Paris, com uma remuneração mensal de 1.180, pouco menos que um salário mínimo.
- Não fossem Mitterrand e a esquerda, talvez eu tivesse um trabalho melhor na Disneilândia... Talvez tivesse feito melhores estudos... Talvez ganhasse mais hoje.