terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Papa Bento 16 Notícias Renúncia de Bento 16 pode levar Igreja Católica a repensar seu papel na sociedade, dizem especialistas



Renúncia de Bento 16 pode levar Igreja Católica a repensar seu papel na sociedade, dizem especialistas
 
de UOL
 
Especialistas consultados pelo UOL avaliaram que a renúncia do papa Bento 16, comunicada nesta segunda-feira (11), pode ser um momento importante para a Igreja Católica rever o modelo atual de como lidar com as questões de interesse da sociedade e até o próprio papel dela como instituição. 
O professor da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) Rafael Rodrigues da Silva afirmou que os últimos dois papas, João Paulo 2º e Bento 16, se afastaram da postura do pontífice que se posiciona em relação aos temas sociais, políticos e econômicos mundiais. Para ele, a alteração no comando do Vaticano poderia, justamente, representar uma mudança de postura.
 "Seria o momento de a igreja repensar e colocar na linha de frente um colégio de cardeais que possa pensar em levar adiante o processo de diálogo, que caminha mais para o pluralismo religioso do que para o conservadorismo", avaliou Silva, que é especialista em ciências da religião.
Silva destaca que "nunca será possível" saber as reais motivações da renúncia de Joseph Ratzinger ao cargo, mas, seja por pressões internas ou por problemas de saúde, a decisão não foi tomada do "dia para noite".
"Você tem um grande conjunto de grupos, movimentos e disputas internas de poder. E, além da força dos grupos conservadores e moderados, há os casos de pedofilia. E a grande dificuldade de responder, como grande líder, a isso tudo pode estar na raiz do próprio exercício de poder de Bento 16", completou o professor.
Na avaliação de Silva, a exemplo de como eram os documentos papais das décadas de 1960 e 1970, o próximo pontífice pode ser mais ativo nas manifestações cotidianas.  "No seu pontificado, ele [Bento 16] trouxe a discussão os elementos mais teológicos. Agora, o novo papa vai ficar marcado pelas correlações de forças e poderá dar um grande passo: voltar a abrir o Vaticano para a sociedade, dar voz ao que não têm, interferir, lutar contra a tortura, contra as ações militares", completou o professor.
Para o frade dominicano e escritor Frei Betto, a eleição do novo papa fará os cardeais refletirem sobre o futuro da igreja. "Os cardeais que vão eleger o novo papa devem pesar bastante o que significou Bento 16 em termos de impacto na igreja e que indiquem alguém que venha implementar as questões do Concílio Vaticano 2º, que tomou uma série de decisões de renovações da igreja, que não foram implementadas por João Paulo 2º nem por Bento 16. Espero que o próximo papa consiga fazer isso", afirmou.
O Concílio Vaticano 2º foi uma série de conferências realizadas na década de 1960 que resultaram em documentos que tratavam da abertura da igreja sobre vários aspectos como: doutrina social, a interpretação da Bíblia, a mudança na liturgia --as missas passaram a ser celebradas na língua dos locais onde estavam as igrejas (antes eram em latim), a relação com as outras religiões, entre outros assuntos.
"Neste momento, seria o ideal que o novo pontificado busque retomar aquilo que foi o princípio do Concílio Vaticano 2º, uma nova discussão sobre a colegialidade (...). No Concílio, o ponto de partida da igreja era o povo para chegar aos próprios representantes, você tem um novo jeito de ver a igreja", completou o professor Rafael Rodrigues da Silva.

Marcas do papado de Bento 16 

O especialista em ciências das religiões Mario Sérgio Cortella, professor do doutorado em educação da PUC-SP, destacou que, pela primeira vez, um papa irá participar do seu processo sucessório e que fez um anúncio oficial com antecedência.
"Provavelmente, ele entrará para a história com esta condição: em vez de entrar para a história como o papado que falou tanto de crises internas em relação ao clero, ele vai sair como o homem que foi generoso em relação ao uso do poder. Mesmo que ele não tenha sido isso como intenção, ele assim será lembrado", disse o professor.
Cortella se refere à série de casos de pedofilia que vieram à tona entre os anos de 2009 e 2010, envolvendo padres, cujos casos foram abafados, até então, pela Igreja Católica.
"O que Bento 16 quer é consolidar as estruturas. Renunciar significa preparar a transição sem traumas (...). Ele passou por um momento inédito que deu um nível de transparência maior em relação às ações de dentro do clero. Isso, sem dúvida, balançou parte das estruturas porque, com o aumento da democracia e a velocidade do repasse das informações, o grau de transparência aumentou e trouxe à tona uma série de denúncias que o levaram também a ser atingido como chefe da Igreja [Católica]", continuou Cortella. 
Questionados sobre os possíveis nomes para ocupar o cargo, os especialistas consultados pelo UOL preferiram não opinar e frisaram que os desafios enfrentados por Bento 16 à frente da Igreja Católica passarão para o seu sucessor.
"O diálogo com a cultura pós-moderna e com as demais religiões da Ásia e da África, uma igreja mais missionária e o avanço das igrejas evangélicas são alguns dos grandes temas que serão debatidos pelo próximo papa", enumerou o arcebispo emérito de São Paulo, dom Cláudio Hummes.
* Colaborou Fernanda Calgaro

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

O que está por trás da redução das tarifas de energia elétrica?

O que está por trás da redução das tarifas de energia elétrica?

 Publicado em Le Monde Diplomatique

 por Gustavo Teixeira Ferreira da Silva , Franklin Moreira

As mudanças anunciadas pela presidente Dilma para o setor elétrico se inserem no amplo conjunto de medidas que vêm sendo adotadas com o objetivo de estimular a economia nacional. Entretanto, ainda restam dúvidas quanto a seus resultados
Seguindo um diagnóstico de que o aumento do investimento é condição necessária para o país enfrentar os recentes desafios impostos pela crise mundial de 2008 e, assim, iniciar um novo ciclo de crescimento, o governo tem adotado uma estratégia de incentivo ao investimento privado e de “aumento” da competitividade do setor produtivo nacional. No entanto, as diversas ações tomadas ao longo de 2012 não confirmaram as expectativas de crescimento da economia. No início do ano, a previsão era de um crescimento acima de 4% – já os últimos dados apontam para um número abaixo de 1,5%.
Diante desse quadro, o governo viu na alternativa de antecipar para 2013 a prorrogação de uma parte importante dos contratos do setor elétrico (20% da capacidade instalada de geração e 67% do total de linhas de transmissão do país) a possibilidade de “viabilizar a redução do custo da energia elétrica para o consumidor brasileiro, buscando, assim, não apenas promover a modicidade tarifária e a garantia de suprimento de energia elétrica, como também tornar o setor produtivo ainda mais competitivo, contribuindo para o aumento do nível de emprego e renda no Brasil”.1
A fórmula para alcançar esse objetivo foi definida pela polêmica Medida Provisória 579, de 11 de setembro de 2012, que dispõe sobre a redução das tarifas de energia elétrica e a prorrogação de concessões de geração, transmissão e distribuição de energia elétrica.
Em síntese, a medida, inovadora, antecipou para o início de 2013 a possibilidade de prorrogação dos contratos de concessões que terminariam nos próximos sessenta meses, exigindo como contrapartida tarifas de geração e receitas de transmissão menores. O governo reduziu alguns encargos setoriais, que por muito tempo estiveram embutidos no preço final da tarifa, e se comprometeu a fazer, por meio do Tesouro Nacional, um aporte anual de R$ 3,3 bilhões para manter parcialmente os programas custeados por esses encargos.

A intenção pode ser boa...
O resultado esperado é uma redução média de 20% na tarifa final em 2013, variando entre 16% para o consumidor residencial e 28% para a indústria. Caso essa expectativa se confirme, a redução do preço da energia elétrica permitirá um aumento do poder aquisitivo da população, estimulando, portanto, o consumo, a produção e o emprego, ao mesmo tempo que reduzirá o custo de produção do setor industrial, podendo levar ao aumento da produção e à diminuição do custo dos produtos finais.
Outro efeito esperado, mas pouco divulgado, é o impacto na inflação do ano que vem. De acordo com o Conselho de Política Monetária (Copom), a estimativa de redução nas tarifas de energia elétrica alterou a projeção de reajuste dos preços administrados por contrato e monitorados de 4,5% para 2,4% em 2013.2 Ou seja, se viabilizada, a redução do preço da energia elétrica poderá ter um efeito expressivo na inflação do próximo ano, aumentando dessa forma o grau de liberdade da política monetária, um dos principais instrumentos utilizados pelo governo para estimular o investimento e o consumo no país.
A medida também permitiu que uma parte importante do setor elétrico continuasse sendo operada por empresas estatais, uma vez que 98% das concessões de geração, 77% das de transmissão e 91% das de distribuição são de estatais. Como se sabe, essas empresas têm tido um papel estratégico, sobretudo na manutenção e expansão da matriz energética nacional.

Mas os fins justificam os riscos?
Se a intenção da medida é indiscutivelmente boa, pelos resultados esperados tanto para a população como para a indústria, além de segurar os preços no próximo ano, a forma pela qual o governo resolveu reduzir as tarifas e seus desdobramentos tem gerado algumas dúvidas.
As tarifas finais permanecerão “baixas” nos próximos anos? Pois, apesar de a medida resultar na redução do preço da energia elétrica, deve-se considerar que outros fatores poderão continuar a pressionar a tarifa, tais como os custos com perdas de energia na rede elétrica e os recursos para a indenização das usinas térmicas, como as que estiveram ligadas durante a estiagem registrada em 2012. Logo, o aumento nesses custos poderá anular ou compensar a redução anunciada?
Quanto às concessões, as novas receitas definidas pela União implicarão um forte e rápido ajuste de custos para as empresas estatais que aderiram à prorrogação (grande parte do Grupo Eletrobras). Qual é o impacto de um ajuste apoiado em milhares de demissões, conforme já anunciado, na capacitação e manutenção da memória técnica dessas concessões e na capacidade de melhorias em seus ativos? Ele poderá comprometer a modicidade tarifária?
Além disso, enquanto todas as concessões de transmissão aceitaram os termos de prorrogação, um grupo de empresas estaduais de geração – Cemig, Cesp, Copel e Celesc –, que representa cerca de 30% da potência total a ser renovada, optou por não prorrogar suas concessões. Nesse caso, tais empresas continuarão praticando as atuais tarifas até o final de seus contratos. Em torno da disputa política causada por essas decisões, encontram-se mais dois questionamentos. Qual será o impacto dessas decisões no alcance do percentual de redução anunciado pelo governo? E qual será o destino dado para essas concessões após o vencimento de seus contratos?
Na hipótese de uma nova licitação e eventual privatização, os efeitos sobre o emprego no setor poderão ser os mesmos do processo de desestatização de cunho neoliberal colocado em prática no Brasil na década de 1990, em que esteve ausente qualquer proteção ao trabalho: piora dos serviços prestados; diminuição de salários; redução de benefícios sociais; aumento da rotatividade; diminuição da qualificação da força de trabalho; jornadas de trabalho mais extensas; piora das condições de saúde e de segurança no ambiente laboral; e, ainda, desorganização da representação sindical.
No caso específico do setor elétrico, a ausência de proteção ao trabalho somada ao estímulo à precarização, garantido pela Lei n. 8.987/95, que permitiu às concessionárias do setor “contratar com terceiros o desenvolvimento de atividades inerentes, acessórias ou complementares ao serviço concedido, bem como implementação de projetos associados”, fizeram que ao longo dos últimos anos o número de terceirizados superasse o número de trabalhadores do quadro próprio, passando de 44% em 2004 para 55% do total da força de trabalho em 2010. Nesse particular, a precarização é tão evidente que cerca de 90% do total de acidentes fatais no setor elétrico ocorrem com trabalhadores terceirizados.3
Pois bem, parece que restam mais dúvidas do que certezas sobre qual será o balanço final das mudanças recentes no setor elétrico brasileiro. Contudo, o esclarecimento para muitas delas pode passar pela resposta a uma simples pergunta: que papel o governo espera que as estatais cumpram no desenvolvimento de nosso país?
Gustavo Teixeira Ferreira da Silva
Economista do Dieese e mestre em Economia pela UFRGS


Franklin Moreira Presidente da Federação Nacional dos Urbanitários, entidade que representa os trabalhadores dos setores de energia elétrica, saneamento e meio ambiente.


1 Item 1, da exposição de motivos da Medida Provisória 579, de 11 de setembro de 2012. Disponível em: www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2012/mpv/579.htm.
2 Cf. ata da 170ª reunião do Copom, out. 2012. Disponível em: www.bcb.gov.br/?ATACOPOM.
3 “Terceirização e morte no trabalho: um olhar sobre o setor elétrico brasileiro”, Estudos e Pesquisas, n.50, São Paulo, mar. 2010. Disponível em: www.dieese.org.br/esp/estPesq50TercerizacaoEletrico.pdf.

Franceses devem desocupar Mali

Franceses devem desocupar Mali

Renata Giraldi* - Repórter da Agência Brasil

O ministro das Relações Exteriores da França, Laurent Fabius, disse hoje (6) que os militares franceses devem deixar o Mali (na África) a partir de março. Mas, segundo ele, a retirada dos militares só ocorrerá se for controlada a situação de tensão no país, como pretendem as autoridades francesas. Fabius reiterou ainda que o governo da França não tem intenções de permanecer no país africano por “muito tempo”.

O ministro ressaltou também que a ação militar é “apenas um dos aspetos” da Operação Cerval.  “Acho que, a partir de março, se tudo correr como previsto, o número de tropas francesas deve diminuir”, disse Fabius. Pelos dados do Ministério da Defesa da França, estão no Mali cerca de 4 mil militares franceses que atuam ao lado de 3,8 mil soldados de vários países africanos.

O Mali, na África, faz fronteira com oito países e está entre os mais pobres da região. Dos cerca de 12 milhões de habitantes, mais de 50% vivem abaixo da linha da pobreza. Incertezas políticas e histórico de golpes de Estado fazem parte do cotidiano do Mali. Nos últimos anos, a instabilidade aumentou com a ação de grupos extremistas islâmicos que tentam combater o governo do país. No próximo dia 29, a União Africana (que reúne 52 nações) debate a crise no Mali.

Os grupos extremistas islâmicos, que representam três comandos distintos, ocupam o Norte do Mali, enquanto o governo tem o controle do Sul do país. A população se queixa da insegurança e das pressões dos extremistas que aplicam a sharia (preceitos islâmicos no cotidiano).

Os grupos extremistas que atuam o Norte do Mali são Al Qaeda do Magrebe Islâmico (Aqmi), Ansar Dine Movimento para a Unidade e Jihad no Oeste Africano (Mujao). Em decorrência dos confrontos entre os extremistas e as forças do governo, o número de refugiados aumenta diariamente, segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur).

*Com informações da agência pública de notícias de Portugal, Lusa.

Edição: Talita Cavalcante

Fonte: Agência Brasil
 
 

Publicado em: 06/02/2013

ONU reconhece a Palestina como Estado observador. O que isso muda?

ONU reconhece a Palestina como Estado observador. O que isso muda?

Publicado em Carta Capital
O chefe da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas (o segundo da direita para a esquerda) e a delegação palestina aplaudem a decisão. Foto: Stan Honda / AFP

A Assembleia-Geral das Nações Unidas reconheceu nesta quinta-feira 29 a Palestina como Estado observador não-membro, uma elevação de status que, espera a liderança palestina, poderá levar ao estabelecimento do país de fato e de direito. A votação, realizada na sede da ONU, em Nova York, foi encerrada de forma acachapante: 138 países votaram a favor do reconhecimento, enquanto nove foram contra (Israel, Estados Unidos, Canadá, República Tcheca, Panamá, Palau, Ilhas Marshall, Micronésia, Nauru) e 41 se abstiveram.
A votação proporciona dois resultados simbólicos imediatos. Pela primeira vez na história, as fronteiras de 1967 da Palestina (composta pelo território da Cisjordânia e da Faixa de Gaza) é reconhecida como Estado pela ONU e não mais como “entidade”. A partir de agora, ao menos no papel o país chamado Palestina existe, apesar de ainda não ter a mesma forma de existir como a de outras nações reconhecidas como integrantes plenas da ONU. Isso serve para reforçar a chamada “solução de dois Estados”, por meio da qual dois países diferentes, um para os judeus e outro para os palestinos, devem existir.
O segundo peso simbólico da decisão é o impressionante isolamento de Israel na comunidade internacional. O fato de o país ter conseguido apenas nove votos, entre eles de cinco Estados-cliente dos Estados Unidos, seu maior aliado, mostra como as políticas recentes do governo de Benjamin Netanyahu serviram para dissolver quase que por completo o pouco apoio que Israel já desfrutava. A votação é um claro recado da comunidade internacional no sentido de que a situação atual não é tolerável.
Na prática, só o tempo dirá quais serão os efeitos do reconhecimento da Palestina. O novo status permite que os palestinos busquem admissão em outras organizações internacionais, como o Tribunal Penal Internacional. Um avanço deste tipo preocupa muito o governo de Israel, que teme ver alguns de líderes políticos acusados e transformados em réus nesta corte. Buscar admissão nessas instituições, no entanto, não deve ser a prioridade dos palestinos agora. É provável que a liderança palestina aguarde as reações imediatas de Israel.
Na quarta-feira 28, o jornal Israel Hayom afirmou que Netanyahu e seu ministro das Relações Exteriores, Avigdor Lieberman, planejavam um resposta feroz aos palestinos, mas decidiram reagir com moderação. Respostas mais duras só devem ocorrer em 2013. A partir das eleições parlamentares de 22 de janeiro, Netanyahu e Lieberman, políticos de direita e extrema-direita, respectivamente, devem ganhar ainda mais poder no país.
O risco dessa combinação de fatores – o reconhecimento da Palestina e o surgimento de um governo ainda mais extremista em Israel – é que o congelamento do processo de paz se torne ainda mais firme. Está claro que a liderança de Israel segue pelo caminho errado, mas a votação desta quinta não é suficiente para garantir a segurança e a prosperidade para israelenses e palestinos. Isso só será obtido quando os dois lados tiverem líderes prontos a realizar sacrifícios políticos para retomar o processo de paz e obter uma resolução final para o conflito de décadas.

O governo dos EUA é o pior, e único, mediador possível entre Israel e palestinos

O governo dos EUA é o pior, e único, mediador possível entre Israel e palestinos

José Antônio Lima

Publicado em Carta Capital
Operários realizam obra na Cidade Velha de Jerusalém, com o Domo da Rocha e a mesquita de Al-Aqsa ao fundo. A Fundação Al-Aqsa acusa o governo de Israel de querer construir uma sinagoga no local. Foto: Ahmad Gharabli / AFP
Operários realizam obra na Cidade Velha de Jerusalém, com o Domo da Rocha e a mesquita de Al-Aqsa ao fundo. A Fundação Al-Aqsa acusa o governo de Israel de querer construir uma sinagoga no local. Foto: Ahmad Gharabli / AFP

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, vai visitar Israel pela primeira vez no mês de março. Oficialmente, a intenção é “reafirmar os profundos e duradouros laços entre Estados Unidos e Israel”. Segundo o canal 10 de Israel, no entanto, a visita pode ser mais importante. Obama teria recebido a promessa de que, no país, poderia dar início à retomada do processo de paz com os palestinos.
A Casa Branca nega, até mesmo porque essa possibilidade dependerá da formação de um novo governo por Benjamin Netanyahu, o premier israelense, e da política palestina.
Convém manter o pessimismo.
Um processo de paz liderado pelos Estados Unidos é e continuará a ser a única possibilidade a ser vislumbrada para resolver o conflito, mas é também a pior possível.
Maior potência mundial e única minimamente capaz de influenciar israelenses e palestinos, os Estados Unidos têm uma postura altamente enviesada a favor de Israel. Este aspecto fica claro em momentos importantes, como a votação da ONU em novembro, na qual o voto de Washington foi um dos nove contra o Estado palestino, mas também no dia a dia. É difícil encontrar, nos EUA, livre debate sobre a questão palestina.
Dois episódios deixaram isso claro nesta semana.
A Brooklyn College, uma das principais faculdades da Universidade da Cidade de Nova York, marcou para esta quinta-feira 7 um debate sobre uma forma de pressão contra Israel cada vez mais popular: o boicote ao país, nos moldes do que o mundo fez com o regime segregacionista do Apartheid na África do Sul. O evento terá a participação do palestino Omar Barghouti e da filósofa norte-americana de origem judaica Judith Butler. Ambos são defensores do BDS, sigla em inglês para “boicote, desinvestimento e sanções”, uma campanha de ativistas palestinos contra a ocupação israelense.

A simples existência do debate deixou perturbados vários defensores de Israel. Alan Dershowitz, um proeminente advogado, escreveu artigo afirmando que o evento era uma “orgia de propaganda do ódio”.
Um membro do legislativo municipal de Nova York afirmou que o evento abriria as portas para “um novo Holocausto”.
Outro disse que Barghouti e Judith Butler eram simpatizantes do Hamas, do Hezbollah e “provavelmente” da Al-Qaeda.
Em conjunto com candidatos a prefeito de Nova York e membros do legislativo estadual, os representantes da cidade de Nova York decidiram atacar a liberdade acadêmica: escreveram uma carta ameaçando cortar o financiamento da universidade se o debate fosse levado a cabo. Karen L. Gould, a presidente do Brooklyn College, encontrou uma solução. O evento será realizado, mas nos próximos meses eventos com opiniões contrárias ao boicote a Israel também serão organizados no local.
O primeiro-mninistro de Israel, Benjamin Netanyahu, toma posse nesta quarta-feira 6 ao lado Yair Lapid, líder do Yesh Atid, segundo maior partido do novo parlamento. Netanyahu não quer a paz. Foto: Onen Zvulun / AFP
O primeiro-mninistro de Israel, Benjamin Netanyahu, toma posse nesta quarta-feira 6 ao lado Yair Lapid, líder do Yesh Atid, segundo maior partido do novo parlamento. Netanyahu não quer a paz. Foto: Onen Zvulun / AFP

A histeria só ocorre quando defensores de Israel são deixados de fora do debate. Nada parecido ocorreu nesta quarta-feira 5, quando o Comitê de Relações Exteriores da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos realizou um debate sobre a questão palestina. O nome do evento era “A reconciliação Hamas-Fatah: ameaçando as perspectivas de paz”, um título altamente enviesado.
Especialistas de diversas correntes acreditam que jamais haverá uma paz duradoura caso o secular Fatah e o religioso Hamas (considerado terrorista por Israel e pelos EUA) não encerrem o conflito interno iniciado em 2007. Quem defende que a reconciliação entre os dois grupos é um obstáculo para a paz é justamente a direita israelense. A mesma direita que não deseja a paz com os palestinos, mas manter e ampliar a ocupação sobre os territórios.
No evento no Congresso, os três convidados eram judeus e não havia debatedores palestinos. Dois eram do Washington Institute for Near East Policy, instituição ligada ao lobby de Israel nos Estados Unidos, e outro do American Enterprise Institute, também pró-Israel. Dois deles disseram que a reconciliação era um caminho ruim, enquanto o outro sugeriu que os EUA usassem sua diplomacia para fazer com que Egito, Turquia e Catar tentassem influenciar o Hamas para torná-lo menos radical, uma posição bem mais razoável. Não houve, entretanto, qualquer convidado capaz de mostrar o lado palestino do conflito e ponderar como Israel deveria mudar suas atitudes para obter a paz.
Ainda que o debate transcorra desta forma nos Estados Unidos, Washington é o único mediador capaz entre Israel e palestinos. Os países do Oriente Médio são vistos com desconfianças por um ou pelos dois lados, a China e a Rússia não têm interesse na região e à Europa falta poder de persuasão e capacidade para ser a fiadora da paz. Sobra, então, o governo norte-americano, o que ajuda explicar, ao menos em parte, porque a paz, hoje, parece inviável.

PETROBRAS VÊ 2013 PIOR E AÇÕES DESPENCAM 8%

PETROBRAS VÊ 2013 PIOR E AÇÕES DESPENCAM 8%

"2013 SERÁ MAIS DIFÍCIL"
Autor(es): Ramona Ordoñez, Bruno Rosa,
O Globo - 06/02/2013
 

Presidente da Petrobras prevê ano pior que 2012 e diz que buscará reajustes. Ação despenca
RIO, BRASÍLIA e SÃO PAULO Para a Petrobras, que venha 2014. Sem meias palavras e com uma sinceridade que surpreendeu os analistas que participaram ontem da apresentação dos resultados de 2012, a presidente da estatal, Maria das Graças Foster, disse que este ano será pior do que foi 2012, quando seu lucro encolheu 36% em relação ao ano anterior. Segundo Graça, a produção deve cair 2% este ano, não serão feitos novos investimentos, e a empresa continuará buscando um reajuste nos preços dos combustíveis, para elevar a geração de caixa. Sem dinheiro, a companhia alterou a distribuição de dividendos de 2012 para os investidores que detêm ações ordinárias (ON, com direito a voto). A medida fez com que os papéis despencassem ontem 8,28% na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa). É o menor valor das ações ON desde dezembro de 2005.
Com o tombo das ações, o valor de mercado da Petrobras encolheu mais US$ 4,33 bilhões, para US$ 113,47 bilhões. No ano, a perda chega a US$ 11,21 bilhões, o equivalente ao valor da Natura. Quando terminou sua megacapitalização, em outubro de 2010, a petroleira valia US$ 223,5 bilhões na Bolsa. Em pouco mais de dois anos, a companhia vale a metade. Em Nova York, os recibos de ações ordinárias (ADRs) fecharam em queda de 7,93%.
PARA MANTEGA, AUMENTO NÃO É OPORTUNO
Em 2013, segundo Graça Foster, a companhia prevê perdas de R$ 6 bilhões com poços secos (não econômicos). No ano passado, esse prejuízo foi de R$ 7,058 bilhões. Somente no segundo semestre deste ano é que, segundo a executiva, a companhia retomará a trajetória de crescimento. Graça afirmou ainda que vai continuar brigando e trabalhando pelo reajuste dos preços dos combustíveis.
- O ano de 2013 será mais difícil que 2012. No primeiro semestre terão que ser feitas paradas em plataformas para manutenção. E no segundo semestre será a partida para a recuperação da nossa produção. A gente não tem como chegar ao segundo semestre sem passar pelo primeiro semestre. É um ano difícil e tudo tem que funcionar - afirmou Graça.
Ela explicou que em 2012, apesar de o preço do petróleo tipo Brent ter ficado em US$ 111, perto dos US$ 110 de 2011, a desvalorização cambial gerou defasagem (em relação ao mercado internacional) de 17% nos preços da gasolina e do diesel. Por isso, afirmou, não foi possível recuperar a diferença com os reajustes concedidos. Graça garantiu que a busca por novos aumentos para o fim dessa defasagem é contínua. A estatal prevê mais importação de gasolina, passando de 90 mil barris por dia, em 2012, para 110 mil barris por dia, este ano.
- No início do ano, chamei todos os coordenadores de programas e disse que 2013 vai ser muito mais difícil que 2012, mas estamos melhor preparados. É brigar, trabalhar e buscar a convergência de preços. É buscar a eficiência e a produtividade. É dever da companhia mostrar para nossos conselheiros as consequências negativas dessa diferença, na nossa capacidade de fazer caixa, e buscar o mínimo de captação no exterior - destacou Graça, ao lembrar que a área de abastecimento da empresa teve prejuízo de R$ 22,9 bilhões.
Mas, à noite, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, afirmou que não considera "oportuno falar em um novo aumento" da gasolina neste momento. O ministro disse, no entanto, que a tendência é acompanhar mais de perto a evolução dos preços do petróleo no exterior - o que deixa uma brecha para algum reajuste, na interpretação de fontes do mercado.
- É claro que a nossa tendência é acompanhar mais a evolução dos preços do petróleo porque o preço da gasolina tem de ter uma correção com o preço do barril de petróleo internacional. Procuraremos estar mais colados à variação de preços do barril de petróleo lá fora para que não haja nenhum prejuízo para a Petrobras.
Para cumprir seus R$ 97,7 bilhões de investimentos previstos para 2013, Graça admitiu que em alguns momentos deste ano a relação entre o endividamento líquido e a sua geração de caixa poderá superar o número de 2012, que foi de 2,77 vezes. Ela não escondeu a preocupação com o risco de a companhia perder o grau de investimento concedido pelas agências risco:
- Temos uma apreensão muito grande em relação ao nosso grau de investimento. Sabemos que temos urgência em resolver. E trabalhamos por essa urgência incessantemente. Temos projetos avançando, com sete novos sistemas que entrarão em produção neste ano, por isso acreditamos que teremos a confiança das agências.
Para gerar mais caixa, a Petrobras adotou uma medida polêmica: alterou a forma de distribuição de dividendos relativos ao exercício de 2012, com o objetivo de economizar cerca de R$ 3,5 bilhões. A redução dos dividendos atingirá quem tem ações ONs, como o governo federal e o BNDES, controladores da companhia. Com a mudança, o dividendo da ON cai pela metade, para R$ 0,47 por ação, contra R$ 0,96 das ações preferenciais (PN, sem direito a voto). Até então a Petrobras estendia para as ONs o mesmo critério das PNs.
- A mudança é para manter o caixa e continuar os investimentos. Por isso, fizemos essa diferenciação. Com esse valor (R$ 3,5 bilhões) é possível construir uma unidade e produzir 150 mil barris por dia, que renderá receita futura - disse Graça.
DIVIDENDOS CAEM DE R$ 12 bi para R$ 8 bi
No total, a Petrobras vai pagar R$ 8,8 bilhões em dividendos referentes a 2012, segundo o diretor financeiro da Petrobras, Almir Barbassa. Sem a mudança, pagaria R$ 12,3 bilhões. Por isso, as ONs atingiram ontem o menor patamar desde 2005. As PNs fecharam em alta 0,44%.
"A reação negativa era esperada após a empresa anunciar que pagaria 49% dos dividendos que serão pagos pelas ações PN", avaliou relatório do banco J.P. Morgan. Analistas do Bank of America Merrill Lynch classificaram a decisão como um "precedente negativo".
A venda de ativos é outra estratégia da empresa para fazer caixa. Graça anunciou que abrirá um data room (banco de dados com informações dos projetos dos quais a empresa quer vender) em abril para se desfazer de ativos (participações acionárias em blocos) tanto no Brasil quanto no exterior. Disse ainda que vai buscar sócios para as refinarias que serão construídas no Maranhão e no Ceará.
A executiva afirmou que desistiu de vender neste momento a refinaria de Pasadena, no Texas (EUA). A polêmica refinaria, comprada por US$ 1,1 bilhão, deverá passar por um programa de melhorias para ser vendida posteriormente.
Com recursos escassos, a Petrobras será "seletiva e criteriosa" na escolha das áreas que pretende disputar nos leilões que a Agência Nacional do Petróleo (ANP). Segundo Graça, a companhia buscará também parceiros para reduzir riscos. Além disso, manterá um forte programa de redução de custos, que deverá atingir R$ 32 bilhões até 2016, além do aumento na eficiência das plataformas - a meta deste ano na Bacia de Campos é de 76%. Para cumprir seu programa de investimentos, a Petrobras prevê uma captação de recursos de US$ 20 bilhões neste ano.

Sob velha direção: Os novos donos do Congresso

Sob velha direção: Os novos donos do Congresso

Tudo dominado
Autor(es): Cristiane Jungblut
O Globo - 05/02/2013
 
Com vitória de Henrique Alves, PMDB lidera Congresso e ocupa linha sucessória de Dilma
Isabel Braga
BRASÍLIA Favorito e com o apoio de 20 partidos, o deputado Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN) foi eleito ontem novo presidente da Câmara dos Deputados com 271 votos, um placar que ficou aquém da vitória acachapante que os peemedebistas esperavam. Cacique do partido e com 11 mandatos como deputado federal, Alves venceu outros três candidatos no primeiro turno, mas com apenas 22 votos além dos 249 exigidos regimentalmente. Os peemedebistas apostavam em adesão de pelo menos 300 deputados. A avaliação foi que a traição partiu principalmente do PT, do PSD e até mesmo do PMDB.
Com a eleição de Henrique Alves, os três primeiros nomes dos quatro da linha sucessória da Presidência da República são políticos do PMDB: o vice-presidente, Michel Temer (SP); o presidente da Câmara, Henrique Alves (RN); e o presidente do Senado, Renan Calheiros (AL). O quarto nome da linha sucessória é o presidente do Supremo Tribunal Federal.
Alves foi eleito mesmo depois de uma enxurrada de denúncias de irregularidades envolvendo apadrinhados políticos indicados por ele para cargos federais, além de suspeitas sobre seus mandatos, como o uso suspeito de emendas parlamentares ao Orçamento da União em favor de empresas de um assessor.
O dia da sua eleição começou com a tensão em torno de um dossiê apócrifo distribuído desde a madrugada de ontem pelos gabinetes de todos os deputados. O documento tem na capa uma foto do parlamentar de cabeça baixa, e a frase: "Candidato condenado no Rio Grande do Norte, com direitos políticos cassados e responde a vários processos". No conteúdo, há cópias da decisão do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte que o condenou em primeira instância por improbidade administrativa, e cópias de reportagens com denúncias que o envolveram.
Nos discursos de ontem, Alves criticou a imprensa e avisou que sua gestão será de um Parlamento "altivo e palpitante". Ele apresentou ainda uma plataforma para agradar o público interno, como brigar pelo pagamento impositivo das emendas individuais, cuja cota hoje é de R$ 15 milhões por parlamentar, por ano.
Ignorando a vitória apertada e as denúncias contra ele, Alves afirmou que o importante foi vencer no primeiro turno. O peemedebista usou a tribuna antes e depois da eleição para dizer aos colegas que o Parlamento é o único Poder em que todos os integrantes são eleitos com o voto popular. No Executivo, com exceção da presidente da República, e no Judiciário, os integrantes são nomeados, frisou.
- O Poder que representa o povo brasileiro na sua mais sincera legitimidade, queiram ou não queiram, é esta Casa aqui. Não faltará a um ou a outro o nosso respeito, mas tanto um quanto outro não se esqueçam que aqui, nesta Casa, só tem parlamentar abençoado pelo voto popular. Vamos discutir e votar. Esse Parlamento não foi feito para discutir com a barriga, é para discutir e votar - disse o novo presidente da Câmara.
Votação de Júlio Delgado surpreendeu
Os três adversários de Henrique Alves obtiveram juntos 223 votos, quase metade dos 497 presentes. Três votos foram em branco. A votação expressiva, 165 votos, do deputado Júlio Delgado (MG), candidato oficial do PSB, também surpreendeu. Na Câmara, o PSB tem 27 deputados. O governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), atuou nos bastidores, especialmente junto ao pessoal do PSD de Gilberto Kassab e a nomes do PSDB. Muitos optaram por não votar em Henrique Alves para não fortalecer ainda mais o PMDB, que vai comandar as duas Casas.
Líder do PSB na Câmara, o deputado Beto Albuquerque (RS) afirmou que a vitória apertada é um sinal de que a Casa quer mudanças e novas práticas políticas:
- Para quem achava que ia ganhar de goleada, fazer um gol nos 50 minutos do segundo tempo não é um bom resultado. Os 226 mostram que a Casa quer mudança.
A peemedebista Rose de Freitas (ES), que se lançou como candidata avulsa, recebeu 47 votos. E o candidato do PSOL, Chico Alencar (RJ), 11 votos.
Em resposta às denúncias que pesam contra ele, Henrique Alves, ainda discursando como candidato, classificou-as como "labaredas" incapazes de destruir seus 42 anos de vida pública. Segundo ele, a imprensa só apresentou as denúncias às vésperas da eleição:
- Fui relator do pré-sal, do Minha Casa Minha Vida e nunca se disse uma vírgula de mim, nunca se opôs uma palavra. Agora, no mês eleitoral, de repente redescobriram o Henrique. Cada um aqui (dos deputados presentes) sabe o que eu digo. Tentaram refazer o Henrique, inventar o Henrique. Apareceu isso, aquilo. Mas digo: são labaredas que não chamuscam o alicerce de uma vida inteira que construí.
Já como presidente eleito, o peemedebista não voltou a falar nas denúncias. Defendeu uma pauta propositiva, e disse que é do tempo em que a Câmara se impunha pelos debates e melhores valores.
- Vivi tudo isso e vivi também tempos como hoje, quando é fácil ter arroubos de se bancar o valentão ou destemido. Mas é preciso coragem para não sucumbir, para resistir. Atravessei esse tempo e chego inteiro para ser presidente da Câmara. Esta Casa dá-nos força interior. Por mais que haja má vontade aqui e acolá, jogos perversos em relação ao Legislativo aqui e acolá, críticas absurdas e descabidas à atividade parlamentar.
O novo presidente da Câmara listou aos colegas suas promessas de campanha: empenhar-se para aprovar o orçamento participativo para as emendas parlamentares individuais, o que obrigaria o Executivo a pagar as emendas sem que deputados tenham que implorar por isso; distribuição mais equitativa de relatorias de medidas provisórias; modificação da cobertura da TV Câmara para mostrar que os deputados trabalham muito, inclusive nos finais de semana, percorrendo suas bases eleitorais nos estados; além de uma pauta de debates importantes, incluindo a votação do pacto federativo.
Referências ao pai e a Ulysses Guimarães
Antes da eleição, Henrique Alves tentou se diferenciar dos concorrentes que se apresentavam como candidatos éticos e da mudança. Criticou o voto de traição, contra orientação partidária, e pediu aos deputados o voto coerente. No final do discurso, fez referência ao pai, Aluízio Alves, cassado pela ditadura, e Ulysses Guimarães, que classificou como padrinho político:
- Se eu me sentar naquela cadeira (da presidência da Câmara), vou honrar o Parlamento.
Candidato do PSB de Eduardo Campos, o deputado Júlio Delgado fez um duro discurso contra o desgaste do Poder Legislativo junto à opinião pública:
- Temos que vencer as práticas políticas que envergonham o Parlamento. Meu sentimento é de vencer a politicagem no Parlamento. Podemos construir um Parlamento altivo e das grandes causas, e não das pequenas causas.
Em seguida, Chico Alencar também atacou as atuais práticas:
- O Parlamento do Brasil está mal, assim como os partidos políticos.
Logo depois do resultado da eleição na Câmara, foi tornado público que o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, apresentou denúncia no último dia 28 ao Supremo Tribunal Federal (STF) por crime eleitoral contra Júlio Delgado. Segundo Gurgel, na última campanha para deputado federal, Delgado exibiu propaganda eleitoral no site da campanha no dia da eleição, uma prática proibida por lei.

O TOMBO DA GIGANTE - PETROBRAS TEM MENOR LUCRO EM OITO ANOS

O TOMBO DA GIGANTE - PETROBRAS TEM MENOR LUCRO EM OITO ANOS

O TOMBO DA GIGANTE
Autor(es): Bruno Villas Bôas
O Globo - 05/02/2013
 
Lucro da Petrobras em 2012 recua 36%, para R$ 21,18 bi, o pior resultado em oito anos

Defasagem nos preços da gasolina e do diesel, aumento das importações de combustíveis, alta do dólar, queda de 2% na produção e poços secos. Estas são as causas que explicam o menor resultado registrado pela Petrobras nos últimos oito anos. A estatal obteve um lucro líquido no ano passado de R$ 21,18 bilhões, uma queda de 36% em comparação aos R$ 33,3 bilhões do ano anterior. Foi menor lucro da estatal desde 2004, quando registrou ganho de R$ 17,8 bilhões. Considerando os valores nominais, ou seja, com a inflação do período embutida nos números, a queda percentual é a maior desde a registrada em 1995 (48,7%), ano seguinte à implementação do Plano Real, que estabilizou a moeda. Os números são da base de dados da consultoria Economatica.
No quarto trimestre do ano passado, o resultado de R$ 7,7 bilhões foi 39% maior do que os R$ 5,5 bilhões do trimestre anterior. Os reajustes de 7,83% dado à gasolina e de 3,94% para o diesel em junho, seguidos de mais 6% para o diesel no mês seguinte, contribuíram para a melhoria do resultado da companhia no último trimestre do ano.
No comunicado à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), a presidente da Petrobras, Maria das Graças Foster, afirma que o resultado se deveu principalmente ao aumento das importações de derivados a preços mais elevados em relação aos de venda no mercado interno e à desvalorização cambial, que impactou tanto os resultados da companhia como seus custos operacionais. Graça Foster explica ainda que o resultado também foi influenciado por despesas extraordinárias, como a baixa de poços secos, além da queda de 2% na produção de petróleo em 2%, que ficou em 1,98 milhão de barris por dia.
O resultado do quarto trimestre veio um pouco acima do esperado pelo mercado. Segundo Leonardo Alves, analista da corretora Safra, a Petrobras surpreendeu graças à venda de títulos públicos e à economia com impostos, que contribuíram com R$ 2,78 bilhões para o lucro líquido nos três últimos meses do ano.
- São resultados que não se repetem. É um dinheiro que entrou no caixa da companhia no trimestre passado, mas que não entra mais no futuro - afirma Alves. - Descontado isso, os números de produção vieram dentro do que era esperado pelo mercado.
Alves diz que o dado negativo ficou por conta da relação entre o endividamento e o lucro antes dos impostos (Ebitda) da companhia, que chegou a 2,77 vezes. Segundo ele, um número acima de 2,5 vezes coloca em risco o grau de investimento da Petrobras, o que significa que pode ficar mais caro para a empresa tomar dinheiro emprestado no mercado:
- Mas não quer dizer que a nota de classificação de risco da Petrobras será imediatamente cortada. Só que é algo que se precisa acompanhar.
No ano passado, a Petrobras importou 433 mil barris diários de combustíveis, principalmente gasolina e diesel, volume 12% maior do que os 387 mil barris diários no ano anterior. Isso porque o consumo de combustíveis no país cresceu 8%. A demanda por gasolina aumentou 17%. Ao todo, incluindo petróleo, as importações totalizaram 779 mil barris diários, 4% a mais em relação aos 749 mil barris diários do ano anterior. A área de Abastecimento teve um prejuízo em 2012 de R$ 34,5 bilhões, por causa da defasagem dos preços dos combustíveis, representando um aumento de 136% em relação ao prejuízo de R$ 14,5 bilhões no ano anterior.
Já as exportações de petróleo e derivados caíram 13%, totalizando 548 mil barris diários, contra 631 mil barris diários no ano anterior.
No ano passado, a Petrobras investiu R$ 84,1 bilhões, um aumento de 16% em relação aos R$ 72,5 bilhões do ano anterior. Para este ano a companhia prevê investimentos de R$ 97,7 bilhões.
Segundo Hersz Ferman, gestor da Yield Capital, o resultado reflete em parte as intervenções do governo na companhia. Segundo ele, somente num cenário de desaceleração da inflação a Petrobras vai conseguir um novo reajuste no preço dos combustíveis.
- O governo não tem deixado a Petrobras atuar como uma empresa voltada ao lucro. Está difícil para a empresa equilibrar assim a necessidade de fazer investimentos gigantes - afirma.
Ontem, as ações da Petrobras fecharam em queda na Bovespa. Os papéis preferenciais (PN, sem voto) chegaram a recuar 3,09%, antes de fechar em baixa de 2,49%, cotadas a R$ 18. As ações ordinárias (ON, com voto) caíram 2,79%, a R$ 18,10. O Ibovespa fechou em queda de 1,29%.
Luis Gustavo Pereira, estrategista da Futura Corretora, diz que, além das expectativa sobre o resultado, a Petrobras foi afetada ontem na Bolsa pela queda de 4,9% da produção de petróleo em dezembro, como informou a ANP.
- No longo prazo, a defasagem dos combustíveis segue pesando.

Oviedo morre e aliados suspeitam de crime político

Oviedo morre e aliados suspeitam de crime político

Queda de helicóptero mata Oviedo no Paraguai; aliados falam em "atentado"
O Estado de S. Paulo - 04/02/2013
 
Morreu ontem, na queda de um helicóptero, o general e candidato presidencial paraguaio Lino Oviedo, articulador do golpe que derrubou o ditador Alfredo Stroessner em 1989. As primeiras informações indicavam que o mau tempo causara a tragédia. Mas aliados de Oviedo, que já foi asilado no Brasil, suspeitam de “atentado” e “crime político”. O governo do país abrirá investigação para apurar as causas do acidente, que também matou o piloto da aeronave e um guarda-costas Governo paraguaio diz que abrirá uma investigação para descobrir o que causou o acidente, ocorrido quando o candidato presidencial voltava a Assunção, em meio ao mau tempo, de um comício; para "oviedistas", foi uma ação da máfia Morreu ontem, na queda de um helicóptero, o general e candidato presidencial paraguaio Lino Oviedo – que participou de várias tentativas de golpe, incluindo a que derrubou o ditador Alfredo Stroessner, em 1989. As primeiras informações indicavam que o mau tempo causara a tragédia. Mas aliados de Oviedo, que já foi asilado no Brasil, falavam em "atentado".O helicóptero partiu de Concepción para Assunção na noite de sábado, levando Oviedo, de 69 anos, um segurança e o piloto. Os três morreram. À meia-noite, o sistema aéreo paraguaio entrou em alerta, após notificar o desaparecimento da aeronave. À rádio Ñanduti, um dos porta-vozes do "oviedismo", César Durand, afirmou que "foi um crime político, uma mensagem da máfia". "Descartamos totalmente a possibilidade de que tenha sido uma tormenta (a causa do acidente)", completou Durand, dizendo que a data da morte "foi uma mensagem". O dia 3 de fevereiro de 1989 marcou o fim dos 35 anos da ditadura Stroessner. General da reserva acusado por inimigos políticos de várias atividades ilícitas, incluindo contrabando, lavagem de dinheiro e narcotráfico, Oviedo tinha poucas chances de vencer a eleição presidencial de abril. As equipes de resgate da polícia encontraram seu corpo em meio aos destroços do helicóptero no norte do Paraguai, onde Oviedo viajara para um evento de campanha. "Em nome do governo, enviamos nossas sinceras condolências à família do general", disse o presidente paraguaio, Federico Franco, numa mensagem pelo Twitter. O governo decretou luto de três dias e suspendeu todas as atividades oficiais. Oviedo apoiou a destituição-relâmpago do presidente Fernando Lugo, em junho, que levou Franco ao poder. Oviedo foi acusado de tramar para derrubar governos nos anos 90 e foi sentenciado a 10 anos de prisão. Ele foi perdoado antes de completar a pena, e retornou à política como líder do partido conservador União Nacional de Cidadãos Éticos (Unace). "Ele é uma pessoa que inquestionavelmente figura na história de nosso país, com todas suas luzes e sombras", disse o ministro das Comunicações, Gustavo Kohn. As fotos mais recentes na página de Oviedo no Facebook o mostram usando um chapéu de palha e camisa quadriculada, falando no sábado durante um comício político na Província de Concepción, no norte do país. O ministro do Interior, Carmelo Caballero, disse que o governo investigará o acidente, que ocorreu na noite de sábado quando Oviedo estava voando de volta para a capital, Assunção, em condições de tempo ruins. "Não podemos descartar nenhuma hipótese", disse Caballero. O presidente anterior do Paraguai, Fernando Lugo, foi afastado do poder pelo Congresso em junho quando os parlamentares votaram por sua saída por não ter conseguido restabelecer a paz depois que 17 policiais e camponeses morreram em choques relacionados a um despejo de terras. Faltava um ano para o líder de esquerda completar seu mandato de cinco anos. Os advogados do ex-bispo católico Lugo questionaram a constitucionalidade de seu impeachment a toque de caixa. Mas o supremo tribunal eleitoral do país a ratificou. Brasil deu asilo a paraguaio Lino Oviedo e o então presi­dente paraguaio, Raúl Cubas, foram, acusados em 1999 da morte do vice-presidente Luis Maria Argana em um atenta­do. Cubas foi deposto e se refu­giou no Brasil, e Oviedo, na Ar­gentina, onde receberam asilo político. Em dezembro de 1999, dias antes da posse presidencial de Fernando de la Rúa, que ti­nha prometido expulsar Oviedo da Argentina, o general da reser­va fugiu do país. Reapareceu em, junho de 2000 em Foz de Igua­çu, onde foi capturado pela polí­cia brasileira. O Supremo Tribunal do Bra­sil rejeitou o pedido de extradi­ção do Paraguai e libertou Ovie­do 18 meses depois, após quali­ficar seu caso como "persegui­ção política disfarçada". Vol­tou ao Paraguai em junho de 2004 e foi preso. Em setembro de 2007 foi solto após uma cor­te militar confirmar que ele era vítima de perseguição polí­tica. Oviedo teve seus direitos políticos restituídos e ficou em 3º lugar nas eleições presi­denciais de 2008. / AFP

Mercado de trabalho: Desemprego é o menor em dez anos

Mercado de trabalho: Desemprego é o menor em dez anos

Recordes no trabalho
Autor(es): Henrique Gomes Batista
O Globo - 01/02/2013
 
Desemprego de 5,5% em 2012 é o menor em 10 anos. Renda subiu 4,1%, maior alta na década
O morno desempenho econômico de 2012 - quando o Brasil deve ter crescido cerca de 1% apesar de todos os estímulos - não afetou fortemente o mercado de trabalho: o desemprego, segundo a Pesquisa Mensal de Emprego (PME) do IBGE, fechou o ano em 4,6% em dezembro, menor resultado mensal para a pesquisa iniciada em 2002. O número é ligeiramente inferior ao registrado em novembro (4,9%) e em dezembro de 2011 (4,7%). A média do desemprego do ano passado também é um piso histórico: 5,5%, contra 6% em 2011. O ano de 2012 apresentou alta do rendimento e da formalização de emprego nas seis regiões metropolitanas pesquisadas pelo instituto (São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Recife, Salvador e Porto Alegre).
O total de ocupados nas seis regiões chegou a 22,956 milhões de pessoas no ano passado, uma alta de 2,2% frente a 2011. O rendimento médio no ano foi estimada em R$ 1.793,96, o que correspondeu a um crescimento de 4,1%, em relação a 2011, motivado principalmente pela alta do salário mínimo, de 14%. Foi a maior alta em dez anos. No ano anterior, a subida do rendimento havia sido de 2,7%
Cimar Azeredo, coordenador de Trabalho e Rendimento do IBGE, afirma que o ano de 2012 apresentou resultados mais modestos que em 2011. Em parte, explica, isso se deve à menor atividade econômica e à comparação com 2011, ano bom para o mercado de trabalho, ainda sob o efeito da recuperação da crise de 2008 e 2009. Adriana Beringuy, pesquisadora do IBGE, afirma que o crescimento menor da economia em 2012 não retraiu o mercado de trabalho:
- Não houve, de maneira alguma, deterioração do mercado de trabalho no ano passado. O que vimos, no máximo, foi um ritmo menor no crescimento do emprego formal e do nível de ocupação - disse.
Dezembro mais "frio" que o ano
Mas os dados de dezembro vieram piores que o esperado pelos analistas. A variação da taxa do desemprego foi considerada estatisticamente estável e foi obtida principalmente por uma redução na procura por emprego, algo comum no fim do ano. O rendimento médio do trabalhador ficou em R$ 1.805, valor 0,9% inferior ao de novembro de 2012. Azeredo afirmou que apenas com os dados de janeiro será possível saber se o mercado de trabalho continua evoluindo ou se haverá uma certa acomodação. Ele afirmou ainda que é cedo para falar em pleno emprego no país:
- A pesquisa trata apenas de seis regiões metropolitanas e que, mesmo entre elas, há muitas diferenças. E temos ainda um contingente muito grande de trabalhadores sem carteira assinada, sem proteção previdenciária, com baixa escolaridade e renda, não acho correto falar de pleno emprego.
O economista José Márcio Camargo, professor da PUC-Rio, afirma que a retração da renda em dezembro deve ter sido causada principalmente pela aceleração da inflação. Ele acredita que o país já está vivendo o pleno emprego - pois a renda do trabalho cresce em velocidade superior à da produtividade. Para ele, o mercado de trabalho em expansão mesmo com a economia fraca vem da alta do setor de serviços, que demanda mais trabalhadores que a indústria, por exemplo, e que está crescendo em velocidade superior ao total da economia. Ele também diz que a oferta de mão de obra e a demanda devem continuar crescendo, o que dá margem para taxas de desemprego ainda mais baixas em 2013.
- O resultado foi um pouco aquém do esperado em dezembro, mas a taxa está muito baixa e tende a ficar neste patamar.
Caio Martins, economista da LCA Consultores, também credita ao setor de serviços e comércio a alta do emprego, além da manutenção de postos na indústria. Ele alega que o setor não quer dispensar funcionários pelos altos custos das demissões e por temer ficar sem pessoal, se a economia crescer de forma vigorosa. Ele estima que o desemprego em 2013 vai ficar em 5,3%.
O comércio continua contratando forte. A rede de supermercado Superprix está abrindo lojas e contratando 350 pessoas, como Beatriz Brás, de 18 anos, que conseguiu seu primeiro emprego. Nessa leva de contratações entrou também Míriam de Oliveira, que estava procurando um posto há cinco meses e que se surpreendeu com a velocidade da recolocação, mas lembrou que os empregadores estão cobrando mais qualificação.
- Não basta agora ter apenas experiência, estamos exigindo mais cursos na hora de contratar - diz Miriam.
Em 10 anos, renda sobe 27,2%
O IBGE também divulgou ontem um estudo comparativo dos primeiros dez anos de PME. Na década, o total de desempregados caiu de 2,608 milhões de pessoas em 2003 para 1,338 milhões em 2012. A média de horas trabalhadas por semana passou de 41,3 em 2003 para 40,3 horas. Também aumentou o percentual de trabalhadores que contribuem para a previdência: passou de 61,2% em 2003 para 72,8% em 2012. No período, o setor de serviços foi o que mais ganhou peso: passou de 13,4% em 2003 para 16,2% em 2012. O setor de comércio, contudo, ainda lidera com 18,7% dos trabalhadores. A renda média do trabalhador no período cresceu 27,2%, já descontada a inflação.