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segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Papa aprova decreto que pode antecipar escolha de seu sucessor

Papa aprova decreto que pode antecipar escolha de seu sucessor

25/02/2013

Thais Leitão*
Repórter da Agência Brasil

  O papa Bento XVI aprovou hoje (25) um decreto que possibilita a antecipação do conclave que vai eleger seu sucessor. Segundo informou o Vaticano, no documento, o pontífice lembra que o prazo normal para a realização de um conclave é no mínimo 15 dias e no máximo 20, após o início da Sé vacante, período que começa com a morte ou renúncia de um pontífice. Com isso, o processo de escolha do novo papa deveria começar entre 15 e 20 de março, como informou o porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi, no dia 13 deste mês.
"Deixo aos cardeais a possibilidade de antecipar o início do conclave, uma vez que todos estejam presente, ou o adiamento, em caso de motivos graves, da eleição por alguns dias", disse o papa no decreto divulgado hoje.
O papa Bento XVI anunciou no último dia 11 que deixará o pontificado na próxima quinta-feira (28) em razão da idade avançada.
Devem participar do conclave que vai eleger o novo papa 115 cardeais. Hoje (25), o cardeal Keith O'Brien, homem mais importante na hierarquia da Igreja Católica na Grã-Bretanha, apresentou seu pedido de renúncia, após de ter seu nome envolvido em um escândalo ocorrido há três décadas.
O alemão Joseph Ratzinger, 85 anos, assumiu o comando da Igreja Católica em 19 de abril de 2005, após a morte de João Paulo II. Aos 78 anos, Ratzinger foi um dos cardeais mais idosos a ser eleito papa e sua renúncia é a primeira de um pontífice na era moderna. O último chefe da Igreja Católica a renunciar foi Gregório XII, no século 15 (1406-1415).

*Com informações da agência pública de notícias de Portugal, Lusa // Edição: Juliana Andrade

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Entenda como será a eleição do próximo papa

Entenda como será a eleição do próximo papa

Publicado em Carta Capital

 Imagem de 16 de abril de 2005 mostra a capela Sistina pronta para o conclave que elegeu Joseph Ratzinger como o novo papa. Foto: Pierpaolo Cito / AFP

Imagem de 16 de abril de 2005 mostra a capela Sistina pronta para o conclave que elegeu Joseph Ratzinger como o novo papa. Foto: Pierpaolo Cito / AFP

A data de 28 de fevereiro, anunciada na segunda-feira 11 pelo papa Bento XVI como o dia em que renunciará ao cargo, não foi estabelecida de forma aleatória. A eleição para substituí-lo precisa ter início em, no máximo, 20 dias após a vacância do papado, como determina a Constituição do Vaticano, o que obriga os cardeais eleitores a se reunirem, e tomarem uma decisão, ainda em março. Assim, antes da Páscoa (que em 2013 ocorre em 31 de março), quando os cristãos celebram a ressurreição de Jesus Cristo, a Igreja Católica terá um novo líder.
As regras para a realização do conclave, a eleição do novo papa, foram estabelecidas e atualizadas na Constituição Apostólica, assinada por João Paulo II. Qualquer homem católico batizado pode ser escolhido como papa, mas apenas cardeais foram eleitos desde 1378. Participam da votação somente os cardeais com menos de 80 anos. Hoje há 117 eleitores aptos, 50 nomeados por João Paulo II e 67 por Bento XVI. A maioria (61) é da Europa. Há ainda 19 latino-americanos, 14 de Estados Unidos e Canadá, 11 africanos, 11 asiáticos e um da Oceania.
O processo eleitoral é coordenado por uma congregação formada pelo cardeal camerlengo, o administrador da propriedade e receita da Santa Sé, e por três cardeais assistentes. Desde 2007, o camerlengo é o italiano Tarcisio Bertone, ex-arcebispo de Gênova. Os assistentes são definidos por sorteio e têm “mandatos” de apenas três dias, sendo posteriormente substituídos após um novo sorteio. Essa comissão tem poder apenas para cuidar da eleição e tratar de assuntos urgentes, mas não pode tomar decisões de atribuição exclusiva do papa.
A Constituição Apostólica é uma admissão de que os cardeais não são santos. Há uma série de mecanismos e restrições para garantir a transparência do conclave e evitar fraudes ou influências indevidas sobre a votação.
Durante o conclave, os cardeais são obrigados a trajar a batina preta filetada e a faixa vermelha, com o solidéu, cruz peitoral e anel e devem-se manter em completo isolamento, não podendo trocar correspondência epistolar, telefônica ou por outros meios de comunicação com pessoas estranhas ao âmbito da eleição. Todas as pessoas que estarão no Vaticano durante a eleição, como os responsáveis por alimentação e limpeza, ou mesmo religiosos de nível inferior, estão proibidas de conversar com os cardeais.

As votações são administradas por nove cardeais também sorteados. Três são os “escrutinadores”, que contam os votos, três são os infirmarii, responsáveis por recolher os votos dos cardeais eventualmente doentes, e três são revisores da votação. Para o papa ser eleito, ele precisa de dois terços dos votos. No caso do sucessor de Bento XVI, serão necessários 78 votos (dois terços de 117). É na primeira votação que os cardeais descobrem quão favorito é cada um dos candidatos. “Até a primeira votação, você não sabe quem realmente tem força e quem não tem”, disse ao jornal norte-americano Chicago Tribune o arcebispo de Chicago, Francis George.
Caso não seja obtida a maioria de dois terços, os cardeais passam por um período de três dias nos quais devem realizar duas votações, uma pela manhã e outra à tarde, em busca de um consenso. Se não tiverem sucesso, os cardeais podem realizar mais três séries de sete votações, entremeadas por curtos períodos de “oração, de livre colóquio entre os votantes e de uma breve exortação espiritual”. Se ainda assim não houver consenso, realiza-se uma votação entre os dois cardeais mais votados.
A cada votação, as cédulas e as anotações dos cardeais são queimadas. Se o voto não tiver sucesso, a chaminé da Capela Sistina emitirá uma fumaça preta. Quando o nome do novo papa for definido, a chaminé soltará uma fumaça branca. Momentos depois, o protodiácono do Vaticano, atualmente o francês Jean-Louis Tauran, aparece na varanda central da Basílica de São Pedro para informar, com a frase habemus papam, que um novo papa foi escolhido e aceitou a nomeação. Após o anúncio, o novo papa é apresentado ao povo e dá a primeira bênção.

Pressões políticas podem ter influenciado Bento XVI

Pressões políticas podem ter influenciado Bento XVI

Publicado em Carta Capital

O anúncio da renúncia do Papa Bento XVI nesta segunda-feira 11 causou surpresa, mas não pode ser considerado um movimento tão inesperado. Em meio a um mandato marcado por tensões com outros líderes religiosos, novos casos de pedofilia envolvendo clérigos e a demanda por uma Igreja Católica mais aberta, Joseph Ratzinger vivia sob constante pressão. Algo que tornou-se mais evidente em delicados escândalos, como o do mordomo mandado para a prisão por revelar documentos que deixavam claro o jogo de poder nos corredores do Vaticano.
Papa Bento XVI no dia 25 de novembro de 2012 na Basílica de São Pedro. Foto: ©AFP / Vincenzo Pinto
Papa Bento XVI no dia 25 de novembro de 2012 na Basílica de São Pedro. Foto: ©AFP / Vincenzo Pinto

Em uma carta, Ratzinger afirma ter refletido repetidamente até concluir não ter mais “forças, devido à idade avançada (…) para exercer adequadamente o ministério petrino”. Embora isso não seja novidade, uma vez que ele assumiu o posto aos 77 anos, em 19 de Abril de 2005, o pontífice não mencionou nos últimos anos nenhuma doença grave que poderia afasta-lo de suas funções. Realizou recentemente, inclusive, um longo discurso a cardeais sem grandes problemas.
É preciso, então, avaliar as forças políticas do Vaticano, um monastério absolutista sobre o qual o Papa tem mandato vitalício e controla sozinho os poderes Judiciário, Executivo e Legislativo. Sem mencionar alguns aspectos das diretrizes econômicas do Estado independente cravado no centro da Itália. É, portanto, um cargo sujeito a pressões de todos os tipos. Algo que pode ter contribuído para a renúncia.
“O Papa vinha enfrentando problemas políticos entre os grupos [da Igreja]. Basta ver no ano passado quando o mordomo vazou documentos secretos. Tudo isso cria um conjunto de fatores políticos sérios que o desgastaram ainda mais na idade dele”, diz o teólogo Rafael Rodrigues da Silva, professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. “Logicamente, isso não vai aparecer de maneira oficial.”
O Vaticano, comenta o desembargador aposentado Walter Mairovitch, colunista de CartaCapital, é notório por guardar bem seus segredos. “No caso do mordomo, há várias notícias de um movimento contrário ao Papa e até um carta com uma ameaça de morte. Houve ainda o escândalo do Banco do Vaticano, em que se viu que o Papa tinha muita dificuldade de impor as regras mínimas da União Europeia contra a lavagem de dinheiro.”
Segundo Silva, a Igreja está rachada em três grupos: o que levou Ratzinger ao poder, um mais liberal e outro conservador, que figuram no aspecto político e econômico do Vaticano. “O caso dos vazamentos mostra claramente que há um grupo totalmente contrário ao Papa atual. E isso desgasta qualquer agente político.”


Foto: Hermenpaca/Flickr
Pressões políticas podem ter influenciado decisão do Papa. Foto: Hermenpaca/Flickr

Um desgaste capaz de fazê-lo tomar uma decisão quase sem precedentes na Igreja Católica. Bento XVI se tornará o primeiro Papa a renunciar nos últimos 600 anos. O último foi Gregório XII, que deixou o cargo em 1415. “Estou bem consciente de que este ministério, pela sua essência espiritual, deve ser cumprido não só com as obras e com as palavras, mas também e igualmente sofrendo e rezando. [...] É necessário também o vigor, quer do corpo, quer da mente; vigor este que, nos últimos meses, foi diminuindo de tal modo em mim que tenho de reconhecer a minha incapacidade para administrar bem o ministério que me foi confiado”, disse.
Na carta, Bento XVI afirma estar “consciente da gravidade deste ato, com plena liberdade” e define a decisão como de grande importância “para a vida da Igreja”. E de fato será. Os cardeais, que devem anunciar um substituto até março, não poderão ignorar que o secularismo vem ganhando espaço no mundo e que a sociedade espera mudanças no posicionamento da Igreja sobre temas como o uso de preservativos. “Quando ele diz que não tem plenas forças para continuar, poderia se esperar que a igreja teria uma posição rumo À modernidade, com um sucessor mais jovem”, aponta Maierovitch.
O papado de Bento XVI, diz Silva, foi uma transição ao João Paulo II e a renúncia indica que já cumpriu seu papel. O que abre espaço para as especulações sobre o seu substituto. Pela primeira vez, a Igreja Católica poderia ser chefiada por um não-europeu. Entre os nomes cotados estão o dos brasileiros dom Odilo Pedro Scherer, arcebipso de São Paulo, e João Braz de Aviz, do departamento de Congregações Religiosas do Vaticano. O argentino Leonardo Sandri, do departamento de Igrejas Ocidentais, é outro cotado.
As mudanças poderiam ocorrer também na condução da Igreja, que não enfrenta uma “revolução” desde o Concílio do Vaticano II, entre 1962 e 1965. À época, o Papa João XXIII e bispos de todo o mundo modernizaram a igreja para estancar a perda de fieis. Como resultado, as missas deixaram de ser rezadas em latim com o padre de costas para o público, para acontecerem no idioma local. “A expectativa é ter um sucessor que siga o caminho de abertura pelo Vaticano II, algo que Paulo II e Bento XVI representaram um retrocesso”, acredita Silva.

Papa Bento 16 Notícias Renúncia de Bento 16 pode levar Igreja Católica a repensar seu papel na sociedade, dizem especialistas



Renúncia de Bento 16 pode levar Igreja Católica a repensar seu papel na sociedade, dizem especialistas
 
de UOL
 
Especialistas consultados pelo UOL avaliaram que a renúncia do papa Bento 16, comunicada nesta segunda-feira (11), pode ser um momento importante para a Igreja Católica rever o modelo atual de como lidar com as questões de interesse da sociedade e até o próprio papel dela como instituição. 
O professor da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) Rafael Rodrigues da Silva afirmou que os últimos dois papas, João Paulo 2º e Bento 16, se afastaram da postura do pontífice que se posiciona em relação aos temas sociais, políticos e econômicos mundiais. Para ele, a alteração no comando do Vaticano poderia, justamente, representar uma mudança de postura.
 "Seria o momento de a igreja repensar e colocar na linha de frente um colégio de cardeais que possa pensar em levar adiante o processo de diálogo, que caminha mais para o pluralismo religioso do que para o conservadorismo", avaliou Silva, que é especialista em ciências da religião.
Silva destaca que "nunca será possível" saber as reais motivações da renúncia de Joseph Ratzinger ao cargo, mas, seja por pressões internas ou por problemas de saúde, a decisão não foi tomada do "dia para noite".
"Você tem um grande conjunto de grupos, movimentos e disputas internas de poder. E, além da força dos grupos conservadores e moderados, há os casos de pedofilia. E a grande dificuldade de responder, como grande líder, a isso tudo pode estar na raiz do próprio exercício de poder de Bento 16", completou o professor.
Na avaliação de Silva, a exemplo de como eram os documentos papais das décadas de 1960 e 1970, o próximo pontífice pode ser mais ativo nas manifestações cotidianas.  "No seu pontificado, ele [Bento 16] trouxe a discussão os elementos mais teológicos. Agora, o novo papa vai ficar marcado pelas correlações de forças e poderá dar um grande passo: voltar a abrir o Vaticano para a sociedade, dar voz ao que não têm, interferir, lutar contra a tortura, contra as ações militares", completou o professor.
Para o frade dominicano e escritor Frei Betto, a eleição do novo papa fará os cardeais refletirem sobre o futuro da igreja. "Os cardeais que vão eleger o novo papa devem pesar bastante o que significou Bento 16 em termos de impacto na igreja e que indiquem alguém que venha implementar as questões do Concílio Vaticano 2º, que tomou uma série de decisões de renovações da igreja, que não foram implementadas por João Paulo 2º nem por Bento 16. Espero que o próximo papa consiga fazer isso", afirmou.
O Concílio Vaticano 2º foi uma série de conferências realizadas na década de 1960 que resultaram em documentos que tratavam da abertura da igreja sobre vários aspectos como: doutrina social, a interpretação da Bíblia, a mudança na liturgia --as missas passaram a ser celebradas na língua dos locais onde estavam as igrejas (antes eram em latim), a relação com as outras religiões, entre outros assuntos.
"Neste momento, seria o ideal que o novo pontificado busque retomar aquilo que foi o princípio do Concílio Vaticano 2º, uma nova discussão sobre a colegialidade (...). No Concílio, o ponto de partida da igreja era o povo para chegar aos próprios representantes, você tem um novo jeito de ver a igreja", completou o professor Rafael Rodrigues da Silva.

Marcas do papado de Bento 16 

O especialista em ciências das religiões Mario Sérgio Cortella, professor do doutorado em educação da PUC-SP, destacou que, pela primeira vez, um papa irá participar do seu processo sucessório e que fez um anúncio oficial com antecedência.
"Provavelmente, ele entrará para a história com esta condição: em vez de entrar para a história como o papado que falou tanto de crises internas em relação ao clero, ele vai sair como o homem que foi generoso em relação ao uso do poder. Mesmo que ele não tenha sido isso como intenção, ele assim será lembrado", disse o professor.
Cortella se refere à série de casos de pedofilia que vieram à tona entre os anos de 2009 e 2010, envolvendo padres, cujos casos foram abafados, até então, pela Igreja Católica.
"O que Bento 16 quer é consolidar as estruturas. Renunciar significa preparar a transição sem traumas (...). Ele passou por um momento inédito que deu um nível de transparência maior em relação às ações de dentro do clero. Isso, sem dúvida, balançou parte das estruturas porque, com o aumento da democracia e a velocidade do repasse das informações, o grau de transparência aumentou e trouxe à tona uma série de denúncias que o levaram também a ser atingido como chefe da Igreja [Católica]", continuou Cortella. 
Questionados sobre os possíveis nomes para ocupar o cargo, os especialistas consultados pelo UOL preferiram não opinar e frisaram que os desafios enfrentados por Bento 16 à frente da Igreja Católica passarão para o seu sucessor.
"O diálogo com a cultura pós-moderna e com as demais religiões da Ásia e da África, uma igreja mais missionária e o avanço das igrejas evangélicas são alguns dos grandes temas que serão debatidos pelo próximo papa", enumerou o arcebispo emérito de São Paulo, dom Cláudio Hummes.
* Colaborou Fernanda Calgaro