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segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Presidente do Paraguai faz campanha na ONU contra suspensão do país do Mercosul

Presidente do Paraguai faz campanha na ONU contra suspensão do país do Mercosul

24/09/2012

Renata Giraldi*
Repórter da Agência Brasil

Ao desembarcar em Nova York para participar da Assembleia Geral das Nações Unidas,  o presidente do Paraguai, Federico Franco, começou ontem (23) sua campanha contra a suspensão do país do Mercosul. Na reunião com o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon, Franco reclamou da suspensão e reiterou que o Paraguai segue a Constituição e mantém a ordem democrática.
O Paraguai está suspenso do Mercosul e da União de Nações Sul-Americanas (Unasul) desde o fim de junho, quando o então presidente paraguaio Fernando Lugo foi destituído do poder. Para os líderes políticos da região, houve o rompimento da ordem democrática pela forma como Lugo foi submetido ao processo de impeachment no Congresso.
Em Nova York, Franco marcou uma reunião como primeiro-ministro da Espanha, Mario Rajoy. Segundo ele,depois do encontro decidirá se participa da Cúpula Ibero-Americana, organizada pela Espanha. De acordo com o Ministério das Relações Exteriores do Paraguai, o governo não recebeu o convite a tempo.
Franco organizou uma agenda intensa de atividades ao longo desta semana em Nova York. O presidente paraguaio tem hoje (24) reuniões com o presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Luis Alberto Moreno, e o ex-presidente dos Estados Unidos Bill Clinton, que atualmente faz parte de uma organização não governamental.
À noite, Federico Franco participa de jantar oferecido pelo presidente norte-americano, Barack Obama. Ele retorna ao paraguai apenas quinta-feira (27). A presidenta Dilma Rousseff deve voltar antes. Ela planeja estar no Brasil quarta-feira (26).

*Com informações da agência pública de notícias de do Paraguai, Ipparaguay 
Edição: Graça Adjuto

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Paraguai pedirá fim de suspensões

Paraguai pedirá fim de suspensões

Renata Giraldi* - Repórter da Agência Brasil

O presidente do Paraguai, Federico Franco, participa na próxima semana da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) em Nova York, nos Estados Unidos, no esforço de mostrar que a democracia é respeitada no seu país e que a destituição de Fernando Lugo do poder, em junho, seguiu os preceitos constitucionais. Também quer apelar para o fim da suspensão do Paraguai do Mercosul e da União de Nações Sul-Americanas (Unasul).

Franco disse que, ao discursar, afirmará que é “injusta” a decisão de suspender o Paraguai tanto do Mercosul quanto da Unasul devido à destituição de Lugo. Ele pretende ainda reclamar da incorporação da Venezuela ao bloco neste período em que o Paraguai está suspenso. "Vamos falar sobre a situação real, vamos expor à comunidade internacional o que aconteceu no Paraguai”, reiterou ontem o presidente.

Segundo Franco, o impeachment que ocorreu no país está estabelecido na Constituição. Ele acrescentou que vai mostrar o quanto foi injusta, arbitrária e ilegítima a suspensão.

Desde o fim de junho, o Paraguai foi suspenso do Mercosul e da Unasul, pois os líderes políticos da região discordaram da forma como Lugo foi destituído do poder. Para os líderes, houve o rompimento da ordem democrática. O Paraguai nega irregularidades.

O ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, e o assessor especial de Assuntos Internacionais da Presidência da República, Marco Aurélio Garcia, reiteram que as decisões foram tomadas por unanimidade no Mercosul e na Unasul. Eles dizem que aguardam o fim das suspensões em 2013, após as eleições presidenciais no país.

*Com informações da agência pública de notícias do Paraguai, Ipparaguay

Edição: Graça Adjuto

Fonte: EBC  
 
 

Publicado em: 21/09/2012

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Federico Franco apela para Dilma ouvir compatriotas e mudar de opinião sobre suspensão do Paraguai

Federico Franco apela para Dilma ouvir compatriotas e mudar de opinião sobre suspensão do Paraguai

19/09/2012 -

Renata Giraldi*
Repórter da Agência Brasil

O presidente do Paraguai, Federico Franco, apelou ontem (18) para que a presidenta Dilma Rousseff “ouça” os brasileiros que vivem em território paraguaio e mude de opinião sobre a suspensão do país do Mercosul e da União de Nações Sul-Americanas (Unasul). Franco disse que se Dilma ouvir os “compatriotas” perceberá que a destituição do poder do então presidente Fernando Lugo, em 22 de junho, obedeceu aos preceitos democráticos.
"Faço votos de que a presidenta [Dilma Rousseff] ouça seus compatriotas e vizinhos e possa escutar os cidadãos paraguaios de origem brasileira que vivem aqui e, depois de ouvi-los, entenda que o que ocorreu no Paraguai foi uma mudança de governo como resultado de um [processo de] impeachment legítimo e constitucionalmente aceito", disse ele.
Franco ressaltou ainda que a relação entre paraguaios e brasileiros reflete amor. Mas reiterou que o Paraguai é um país independente, autônomo e livre. "A relação é com o povo brasileiro que nos ama e nos respeita. O Paraguai é um país livre, soberano e que não aceita tutela”, disse ele, em Santa Rita, Alto Paraná, no Paraguai.
Ontem, o ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, e o assessor especial de Assuntos Internacionais da Presidência da República, Marco Aurélio Garcia, destacaram que a suspensão do Paraguai foi definida de forma unânime pelos líderes políticos da região, que observaram o rompimento da ordem democrática no país, a partir do processo de impeachment de Lugo.
Em 29 de junho, as presidentas Dilma Rousseff (Brasil) e Cristina Kirchner (Argentina) e o presidente José Pepe Mujica (Uruguai) aprovaram a suspensão do Paraguai no Marcosul até 21 de abril de 2013 – quando haverá eleições presidenciais no país. A medida foi tomada porque os presidentes discordaram da forma como Lugo foi destituído do poder, em 22 de junho.
Para Dilma, Cristina e Mujica, a ordem democrática foi rompida no Paraguai, uma vez que Lugo foi submetido ao processo de impeachment em menos de 24 horas. Um mês depois, o Mercosul formalizou o ingresso da Venezuela no bloco. A decisão contrariou o Paraguai que, até então, não havia aprovado a incorporação da Venezuela ao grupo nem participou das últimas negociações.

*Com informações da agência pública de notícias do Paraguai, Ipparaguay.
Edição: Talita Cavalcante

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Paraguai contrata especialistas norte-americanos para recorrer ao tribunal de Haia contra suspensão do Mercosul

Paraguai contrata especialistas norte-americanos para recorrer ao tribunal de Haia contra suspensão do Mercosul

09/09/2012 
 
Renata Giraldi*
Repórter da Agência Brasil
 
  O presidente do Paraguai, Federico Franco, anunciou que o governo pode recorrer ao Tribunal Internacional de Haia contra a decisão do Mercosul de suspender o país do bloco - até as eleições de abril de 2013. Franco disse que contratou uma equipe de especialistas norte-americanos para defender a ação movida pelo governo paraguaio contra a medida. O Paraguai foi suspenso do Mercosul, no final de junho, após a destituição do então presidente Fernando Lugo do poder.
"Por intermédio do chanceler [Félix Fernández Echibarria] decidimos pela contratação de uma equipe jurídica de primeiro nível, dos Estados Unidos [para levar a questão a Haia]”, disse o presidente. Anteriormente, Franco tinha anunciado a desistência da ação por considerar que o preço era elevado e a demora demasiada.
Segundo Franco, a equipe de especialistas irá fazer consultorias para verificar a possibilidade de o governo do Paraguai conseguir mover a ação e vencer o embate jurídico com o Mercosul. Para os líderes políticos do bloco, houve o rompimento da ordem democrática no Paraguai pela rapidez e pouco prazo para Lugo se defender no processo de impeachment.
As autoridades do Paraguai negam irregularidades no processo, informando que a Constituição e as leis do país foram seguidas, sem rompimento dos preceitos democráticos. Porém, a medida de suspensão também foi adotada pela União de Nações Sul-Americanas (Unasul) pelo mesmo prazo – até 21 de abril de 2013.
“[A avaliação dos juristas contratados pelo governo paraguaio] pode ajudar a diminuir a situação [de tensão] que estamos passando neste momento ", disse o presidente do Paraguai.

*Com informações da agência pública de notícias do Paraguai, Ipparaguay

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Golpe franco no Paraguai

Golpe franco no Paraguai
Os deputados e senadores paraguaios não apresentaram nenhuma prova nem solicitaram que se investigassem os casos mencionados na acusação, porque, segundo o ordenamento jurídico vigente, fatos como esse não precisam ser provados, já que são de "notoriedade pública"
por Raúl Cazal
(Fernando Lugo discursa em Assunção uma semana após o golpe do dia 22 de junho)
O assassinato era o componente que faltava para submeter o presidente paraguaio a um julgamento político. Desde que assumiu a presidência, tentaram processar Fernando Lugo 23 vezes. Na 24ª, venceram. Mas, para isso, seis policiais e onze camponeses tiveram de morrer de forma violenta em Curuguaty, departamento de Canindeyú, ao norte do país. As terras pertencem ao Estado, mas o ex-senador do Partido Colorado, Blas N. Ferreira, se apossou delas na época da ditadura de Alfredo Stroessner.
À tese de enfrentamento entre policiais e camponeses imposta aos meios de comunicação paraguaios por setores políticos, se contrapôs a de franco-atiradores. Contudo, esta última não foi suficientemente divulgada em função dos interesses, dado que os deputados paraguaios já haviam decidido no Parlamento acusar o presidente de “mau desempenho de suas funções”.
O processo político levado adiante pelos parlamentares e que poucas horas depois destituiu o presidente sustentava que Lugo: 1) permitiu, supostamente, uma reunião no Comando de Engenharia das Forças Armadas – onde o delito teria sido a menção do conceito “luta de classes”; 2) dialogou com líderes camponeses sem terra que ocupavam terras de uma propriedade fiscal em Ñacunday, que são do Estado e estão reservadas para a reforma agrária, embora empresários aleguem possuir a titularidade delas – a acusação nesse episódio foi a “falta de resposta das forças policiais ante as invasões de supostos acampados e sem-terra em territórios de domínio privado”; 3) deixou crescer a insegurança; 4) assinou o protocolo de Montevidéu sobre o Compromisso de Democracia no Mercosul (Ushuaia II) na reunião de presidentes do Mercosul, em dezembro de 2011; e, finalmente, 5) permitiu a ocorrência do massacre de Curuguaty.
Os deputados e senadores paraguaios não apresentaram nenhuma prova nem solicitaram que se investigassem os casos mencionados na acusação, porque, segundo o ordenamento jurídico vigente, fatos como esse não precisam ser provados, já que são de “notoriedade pública”. Para os parlamentares, esta se justificaria pelas acusações ao presidente publicadas na imprensa nacional e internacional. Depois dessa etapa, o julgamento político dos parlamentares passa a ser um mero trâmite.
Em 24 horas, a classe política tradicional, representada pelos colorados e liberais, além de outros partidos políticos de direita, decidiu destituir o presidente porque a Constituição concede essa prerrogativa. Os chanceleres da União de Nações Sul-Americanas (Unasul) e seu secretário-geral, Alí Rodríguez Araque, deixaram a reunião da Rio+20 para interceder politicamente diante do iminente golpe de Estado.
O chanceler argentino, Héctor Timerman, em entrevista ao jornalista Martín Granovsky, do jornal Página 12, relatou sua conversa com o vice-presidente Federico Franco: “Eu disse: ‘Olha, não falta muito tempo. O senhor considera justo o que está sendo feito? Pensa que o mundo vai reconhecer essa destituição como um procedimento correto?’. E me lembro de sua resposta: ‘No Paraguai, um vice-presidente tem três funções: presenciar a reunião de gabinete, atuar como elo com o Congresso e assumir a presidência em caso de doença, morte ou destituição do presidente. Vou cumprir a Constituição paraguaia’. Então perguntei se duas horas para preparar uma defesa parecia tempo suficiente. E ele respondeu: ‘Só Deus sabe o tempo que lhe dei’”.
“Minha obrigação é assumir”, reiterou Franco a Timerman quando este lhe solicitou que acompanhasse os chanceleres ao Congresso e dissesse diante deles que Lugo “não havia tido tempo de preparar a defesa e que, portanto, não poderia assumir a presidência em caso de destituição”.

A confiança em Franco
Quando o câncer linfático do presidente Lugo se tornou público, o vice-presidente Franco estava na Colômbia, representando o governo na posse presidencial de Juan Manuel Santos, e sua primeira declaração foi: “Lugo pode confiar em mim para o governo do país”.
Cinco meses antes, Franco havia se reunido com a então embaixadora dos Estados Unidos no Paraguai, Liliana Ayalde, ocasião em que expressou a “péssima gestão administrativa do presidente Lugo, razão pela qual ele merecia um julgamento político”. Essa conversa se fez pública por meio de uma carta do então ministro da Defesa, Luis Bareiro Spaini, enviada à representante diplomática, que, entre 2005 e 2008, foi diretora da Usaid [sigla em inglês de Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional] na Colômbia.
Para viabilizar o julgamento político do presidente, era necessária a aprovação de dois terços dos deputados e senadores dos partidos tradicionais, de acordo com a Constituição de 1992, escrita três anos depois da queda do ditador Alfredo Stroessner. Porém, a Câmara dos Deputados estava inteira contra Lugo, à exceção da deputada Aída Robles, do Movimento Popular Tekoyoya (MPT). Essa maioria esmagadora fez a decisão de submeter o presidente a um julgamento político ser tomada em apenas cinco horas. Constituído o tribunal, o Senado concedeu duas horas para a elaboração da defesa e suspendeu o direito à palavra do senador Sixto Pereira (MPT). Para os senadores, era imperioso que a destituição fosse decidida nos tempos estabelecidos.
“Essas duas horas de defesa concedidas ao presidente democraticamente eleito representam menos do que o tempo de defesa concedido a alguém que passou em um semáforo vermelho”, disse o chanceler argentino Timerman.

Em nome da Constituição
Desde que Stroessner passou a viver exilado no Brasil, em 1989, o Paraguai teve seis presidentes eleitos, dos quais quatro terminaram o mandato. Raúl Cubas Grau, do Partido Colorado, assumiu em 15 de agosto de 1998. Três dias depois, concedeu indulto ao general Lino Oviedo, preso por tentativa de golpe de Estado contra o presidente Juan Carlos Wasmosy no fim de abril de 1996. No quarto dia, setores do Partido Colorado aliados do vice-presidente Luis María Argaña, junto com os liberais (Partido Liberal Radical Autêntico, PLRA) do Encontro Nacional, tomaram a iniciativa de solicitar um julgamento político do presidente Cubas Grau.
O Congresso solicitou a intervenção da Corte Suprema de Justiça na liberdade de Oviedo e, no dia 2 de dezembro de 1998, declarou inconstitucional o decreto de Cubas Grau, que não admitiu a falha. O general ameaçou “enterrar” os juízes que votaram contra sua liberdade. Sete meses depois, em 16 de março de 1999, a Câmara dos Deputados definiu a data do julgamento para 7 de abril. Porém, no dia 23 de março, o vice-presidente Argaña foi assassinado. Os deputados convocaram uma reunião extraordinária para adiantar o julgamento, que contou com o mínimo necessário (um terço dos deputados e senadores) para aprovação. Desse dia até 26 de março, cidadãos se concentraram nas praças de Assunção em repúdio à crise suscitada e foram agredidos por apoiadores de Oviedo que estavam armados com paus e objetos cortantes. Em 26 de março, franco-atiradores assassinaram sete jovens que se manifestavam na praça em frente à Catedral de Assunção. No dia seguinte, Cubas Grau renunciou e foi substituído pelo presidente do Congresso, Luis A. González Macchi, do Partido Colorado – que não convocou eleições e terminou o mandato como “estabelece a Constituição”.
Em 1º de dezembro de 1991, foram eleitos 122 militantes do Partido Colorado para redigir a Constituição de 1992. A Assembleia Constituinte estava formada por 198 integrantes e, com apenas 55,1% dos votos, o Colorado – partido político que apoiou Stroessner durante os 35 anos em que se manteve como ditador – conseguiu maioria absoluta. O PLRA obteve 55 cadeiras; Constituição para Todos, 19; enquanto os partidos Revolucionário Febrerista e Democrata Cristão, 1.
O resultado dessa Assembleia foi a concessão de poderes exagerados ao Parlamento. Em 2004, o doutor em CiênciasJurídicas Daniel Mendonca, em seu livro La máquina de gobernar [A máquina de governar], escreveu que, “tal como está concebido na Constituição, é possível fazer uso excessivo” do julgamento político. Da mesma forma, “as razões pelas quais se aceita tal solicitação [...] são tão genéricas (especialmente a que se refere ao “mau desempenho de suas funções”, segundo a redação do artigo) que praticamente justificam qualquer solicitação apresentada”.
“A única pessoa autorizada a substituir o presidente imediatamente e sem nenhum trâmite é o vice. O processo do honrado Congresso Nacional que culminou no julgamento político de Lugo foi feito de maneira, reconheço, um pouco rápida, e isso foi uma surpresa para mim, para vocês e para todo o povo paraguaio”, foram as primeiras declarações de Franco à imprensa, depois de cumprimentar, sorridente, seus correligionários com as mãos para cima e abraços, como se tivesse feito um gol ou vencido uma eleição.

A confissão dos golpistas
Os políticos tradicionais do Paraguai que haviam forjado o julgamento político contra Lugo sabiam que não contavam com o apoio da Unasul e do Mercosul. Os chanceleres desses países, reunidos no Brasil, deixaram a Rio+20 para tentar impedir o golpe de Estado iminente. Contudo, pouco importavam aos senadores, deputados e ao vice-presidente as consequências que acarretariam ao país por quebrar a ordem democrática.
Desde que o presidente paraguaio assinou o Protocolo de Ushuaia II em Montevidéu, em dezembro de 2011, junto a seus pares de Argentina, Brasil e Uruguai e associados do bloco (Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, Peru e Venezuela), desencadeou-se uma campanha contra esse acordo no Paraguai com o argumento de que se tratava de uma nova Tríplice Aliança contra o país, porque, “em caso de ruptura ou ameaça de ruptura da ordem democrática” em algum dos países envolvidos, o protocolo prevê a possibilidade de “fechar de forma total ou parcial as fronteiras terrestres, suspender ou limitar o comércio, tráfego aéreo e marítimo, as comunicações e a provisão de energia e serviços”. Como dizem os advogados: “Diante da confissão do acusado, não há necessidade de provas”.
Contudo, na região de Mendoza, Argentina, os presidentes do Mercosul decidiram suspender o Paraguai do acordo estabelecido pelo Protocolo de Ushuaia I, assinado em 1998. Essa decisão foi tomada em função da instabilidade política do país, assim como da ameaça de interrupção do processo democrático, como havia ocorrido em 1996, quando o general Oviedo tentou derrocar o presidente Juan Carlos Wasmosy mediante um levante militar.
O Mercosul foi criado em 1991, com a assinatura do Tratado de Assunção. Naqueles anos, a hegemonia neoliberal se impunha com força na América Latina – o nome dado ao bloco de integração regional, Mercado Comum do Sul, não foi por acaso –, e setores do Partido Colorado, liderado por Argaña, eram contra a assinatura do tratado.
Atualmente, 51% das exportações do Paraguai são destinadas ao Mercosul. Em pesquisa para o Observatório da Economia Internacional do Centro de Análise e Difusão da Economia Paraguaia (Cadep), Francisco Ruiz Días, em seu trabalho “O dilema do Tarzan”, afirma que, junto ao Mercosul, o Paraguai tem mais capacidade de estabelecer acordos comerciais com terceiros do que unilateralmente, devido a seu “baixo desenvolvimento econômico”.
Sobre a consideração de diminuir assimetrias econômicas, uma das medidas tomadas pelo bloco em 2005 foi a criação do Fundo de Convergência Estrutural do Mercosul (Focem), ao qual o Paraguai deve aportar US$ 1 milhão anualmente e, em contrapartida, recebe transferências de recursos não reembolsáveis no valor de US$ 48 milhões.
Entretanto, o presidente da União Industrial Paraguaia, Eduardo Felippo, não considera que houve ruptura da democracia e acredita que a suspensão do Paraguai do Mercosul obriga o país a negociar fora do bloco. Na saída da reunião com Franco, duas semanas depois de armar o golpe parlamentar, Felippo disse que “o Paraguai é o produtor de soja e carne mais importante do mundo, está na lista dos dez primeiros, e todos necessitam disso”.

A terra e o agronegócio
Os camponeses sem terra que reivindicam a efetividade da reforma agrária foram classificados pejorativamente de “carperos” (pois vivem em carpas, barracas, em português). Desde a ditadura de Stroessner, os camponeses foram reprimidos e massacrados, como no dia 8 de março de 1980, em Caaguazú, onde ainda hoje se desconhece o paradeiro dos dez cadáveres que foram enterrados em valas comuns. Os assassinos continuam impunes.
Lugo, em seu último pronunciamento à nação como presidente, disse que se tratava de um golpe da máfia. A justiça paraguaia está sitiada por partidários dos grupos tradicionais que se beneficiam com terras, algumas concedidas por Stroessner. Apesar de muitos terem se apropriado de terras do Estado, o Poder Judiciário sempre sentenciou a favor dos fazendeiros, como no caso de Curuguaty.
“Quando entramos no governo, em 2008, queríamos realizar uma verdadeira reforma agrária e um cadastro de propriedade das terras”, confessou Lugo depois de ser destituído. “O Paraguai tem 406.752 quilômetros quadrados, mas, somando todos os títulos de propriedade rural, fica com 529 mil quilômetros quadrados. Ou seja, algumas terras podem ter dois, três ou até quatro títulos. É preciso ajustar essa conta, mas não é fácil porque depende do Judiciário, e não do Executivo”.
A regularização das terras, contudo, não é o único obstáculo com que deparou Lugo ao chegar à presidência. Dois dias antes de os deputados aprovarem o libelo acusatório contra o presidente por “mau desempenho em suas funções”, o Serviço Nacional de Qualidade e Saúde Vegetal e de Sementes (Senave) recusou a inscrição da semente de algodão DP404BG, comercializada pela empresa transnacional Monsanto como algodão Bollgard. Franco, então, colocou Jaime Ayala, empresário do agronegócio, acionista e presidente da Pacific Agrosciences, empresa que se instalou no país com um investimento de US$ 3 milhões, para dirigir o Senave. Uma das primeiras medidas do novo dirigente – além de demitir mais de duzentos funcionários – foi aprovar a semente antes recusada por não cumprir os requisitos requeridos pelo órgão.
Enquanto o golpe parlamentar era levado a cabo, o jornalista Idilio Méndez Grimaldi revelou que a “Monsanto faturou US$ 30 milhões no ano passado, livre de impostos [porque não declara essa parcela de sua renda] somente com royalties pelo uso de sementes transgênicas no Paraguai”.
O artigo intitulado “Monsanto golpeia o Paraguai”, difundido em meios de comunicação digitais, argumenta que toda a soja cultivada nesse país é transgênica e abarca uma “extensão de 3 milhões de hectares, com uma produção em torno de 7 milhões de toneladas em 2010”.
Martín Almada, ativista paraguaio defensor dos direitos humanos, sublinha que a suposta legalidade constitucional foi referendada por “deputados e senadores que integram um parlamento corrupto”. O golpe de Estado “cheira a dólar”, suspeita.
Aliados aos partidos Colorado e Liberal Radical Autêntico, entre outros de tendência ideológica similar nesse golpe de Estado, estão também a cúpula da Igreja e os setores empresariais e transnacionais do agronegócio – que se negam a pagar impostos e pretendiam realizar um “tratoraço” (greve com a interrupção de vias terrestres com tratores), suspendido logo após a subida de Franco à presidência.
Desde que Lugo assumiu, esses setores não pararam de investir contra o presidente. Em setembro de 2008, com quinze dias de mandato, Lugo denunciou a conspiração de um golpe de Estado contra ele, por parte de Oviedo. No golpe de 2012, esse general apareceu no Congresso, sentado ao lado do senador e presidente do PLRA, Blas Llano, na posse de Franco à presidência. Oviedo se gabou de ser o primeiro a cumprimentar e felicitar o novo ocupante do cargo máximo do governo nacional. “Deus os cria, e eles se unem” é o dito popular que serve de epílogo.
Raúl Cazal
Diretor do Le Monde Diplomatique Venezuela


Ilustração: Mario Valdes / Reuters

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Paraguai rejeita Venezuela no Mercosul

Paraguai rejeita Venezuela no Mercosul

Renata Giraldi* - Repórter da Agência Brasil

O presidente do Paraguai, Federico Franco, disse que vai promulgar a decisão do Congresso do país de rejeitar o protocolo de adesão da Venezuela ao Mercado Comum do Sul (Mercosul). Segundo Franco, a decisão tomada, sem a chancela do Paraguai, foi irregular. O Paraguai está suspenso do Mercosul desde o final de junho em reação à destituição do então presidente paraguaio Fernando Lugo do poder – em 22 de junho deste ano.

"Vou promulgar a decisão do Congresso quando receber o ato do Senado de não aceitar a entrada da Venezuela no Mercosul", disse Franco. A Venezuela foi admitida oficialmente no Mercosul no último dia 31, durante cerimônia em Brasília, com as presenças dos presidente Dilma Rousseff, Hugo Chávez (Venezuela), José Pepe Mujica (Uruguai) e Cristina Kirchner (Argentina).

O presidente reiterou que a decisão do Congresso do Paraguai é "soberana" no que se refere à rejeição da adesão da Venezuela ao Mercosul, embora o Brasil, a Argentina e o Uruguai tenham aprovado o ingresso dos venezuelanos no bloco. O governo da Venezuela negociou por seis anos o ingresso do país no grupo, mas o Parlamento do Paraguai jamais votou o protocolo, diferentemente dos demais legislativos dos outros países.

"Não só temos sido marginalizados no Mercosul, mas também a decisão de permitir a entrada da Venezuela vai contra as disposições do Tratado do Mercosul que tem uma cláusula que estabelece que a decisão [de ingresso de um novo membro ao bloco] deve contar com [o apoio de todos os] membros plenos", disse Franco.

O presidente do Paraguai disse ainda que vai à Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em setembro, defender a legalidade do seu governo e do processo de impeachment a que foi submetido Lugo, em junho. "[Participarei da assembleia] para defender a legalidade e legitimidade da decisão tomada pelo Congresso em junho passado", disse ele.

Em seguida, Franco acrescentou que é preciso deixar claro à comunidade internacional que “a decisão do Congresso sobre o impeachment foi feito de acordo com a lei, respeitando a Constituição”.

O presidente reiterou ainda que o governo não pretende recorrer ao Tribunal de Haya para acabar com a suspensão do Paraguai do Mercosul e da União de Nações Sul-Americanas (Unasul). Segundo ele, os custos do processo são elevados e o tempo de espera por uma decisão pode chegar a 15 anos.

*Com informações da agência pública de notícias de Portugal, Lusa.

Edição: Talita Cavalcante

Fonte: EBC
 
 

Publicado em: 28/08/2012

sábado, 18 de agosto de 2012

Crise Paraguaia: Golpe de Classe

Golpe de classe      
Claudius
por Silvio Caccia Bava
O governo brasileiro está numa situação muito delicada diante do golpe que depôs o presidente paraguaio Fernando Lugo.
De um lado existem todos os compromissos com a democracia e o combate à pobreza, tanto com os brasileiros como no plano internacional. Isso levaria o Brasil a decidir por sanções fortes ao golpe de Estado e a sugerir essa política ao Mercosul, pressionando o atual governo paraguaio para o pronto restabelecimento da democracia e fortalecendo esta como uma conquista inquestionável e coletiva.
De outro lado está o agronegócio brasileiro, que se expandiu para o Paraguai em busca de menores custos de produção. Os “brasiguaios” se transformaram nos maiores produtores de soja do país, com plantações que ocupam 1,2 milhão de hectares. E há também a agropecuária e outros interesses. Esses brasiguaios do agronegócio – é preciso distingui-los de outras ondas de migração do Brasil para o Paraguai, que trouxeram agricultores familiares expulsos de suas terras pela expansão das grandes fazendas – foram dos primeiros a reconhecer a legitimidade do presidenteFederico Franco, recém-empossado.
O núcleo do conflito é a propriedade da terra. A expansão recente das grandes fazendas e a mecanização no campo multiplicaram o número de agricultores familiares expulsos de suas terras. Uma parte deles se organizou no movimento sem terra, mas não encontra espaço na política para reivindicar seus direitos. No Paraguai, 80% dos estabelecimentos agrícolas são de agricultura familiar, mas estes ocupam apenas 6,2% do território. Aumentam os sem-terra, começam as ocupações, o conflito se acirra.
O presidente Lugo foi eleito com o apoio de um amplo arco de movimentos sociais. Entre seus compromissos, assumiu a promoção da reforma agrária e a distribuição de terras para os sem-terra. Mas foi se distanciando dos movimentos e dessas promessas, perdendo o apoio dos movimentos sociais e do arco de forças que o elegeu.
Quando Lugo enfrentou uma maior pressão dos grandes fazendeiros em seus conflitos com os sem-terra, buscou uma reaproximação com os movimentos e regulamentou, em janeiro deste ano, uma lei de 2005 que proíbe a venda a estrangeiros de terras consideradas de segurança nacional, isto é, as áreas até o limite de 50 quilômetros das fronteiras nacionais. Segundo os sem-terra, essas áreas teriam sido oferecidas de maneira ilegal pela ditadura de Stroessner a brasileiros, como estímulo ao desenvolvimento. Foi aí que se concentraram grandes plantações de soja. Ao mesmo tempo que a regulamentação da lei deu um alento aos movimentos sociais, também mobilizou o agronegócio, que, inclusive, pediu proteção ao governo brasileiro.
Não é demais lembrar que essa proteção já lhes foi oferecida antes, em outubro de 2008, quando o movimento sem terra paraguaio anunciou uma data de ocupação das grandes fazendas. O Exército brasileiro mobilizou 11 mil homens em exercícios militares na fronteira com a área de conflitos entre os carperos, como são chamados os sem-terra, e as grandes fazendas de brasiguaios. Os comandantes da operação argumentaram que usavam do poder de dissuasão para evitar o conflito.
O momento agora era outro. Lugo se viu sem sustentação política e buscou uma reaproximação com os movimentos sociais. Em janeiro, ordenou ao Exército que fizesse a medição e a instalação de marcos nas propriedades que estivessem dentro da área de 50 quilômetros da fronteira. Declarou que as terras que fossem reconhecidas como públicas seriam reapropriadas pelo Estado para a promoção da reforma agrária.
Mexeu com os grandes proprietários rurais, que não viram nenhuma dificuldade em mobilizar o Congresso conservador e oligárquico para sua deposição. O presidente não tinha quem o sustentasse. Assim, cumpridos os requisitos formais, em menos de dois dias o presidente Lugo sofreu o impeachment e o vice assumiu, totalmente afinado com os interesses dos grandes fazendeiros. As acusações foram tão genéricas e o cerceamento das possibilidades de defesa por parte de Lugo tão evidentes que vários países da região reconheceram nessa situação um golpe de Estado. O Brasil ficou em uma situação delicada: se aplicar as sanções previstas nos acordos do Mercosul, irá contra os interesses dos brasiguaios do agronegócio.
A questão agora é como restabelecer a democracia e criar alternativas para que haja eleições no mais curto espaço de tempo, mas, mais do que isso, como criar uma alternativa eleitoral progressista, comprometida com avanços sociais, ambientais e com a inclusão produtiva dos sem-terra. Inquietante é a via autoritária que se abre para a solução dos conflitos.
Silvio Caccia Bava
Diretor e editor-chefe do Le Monde Diplomatique Brasil