terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

A Primavera Árabe ainda não disse sua última palavra

QUATRO DESTINOS PARA UM REVOLUÇÃO
A Primavera Árabe ainda não disse sua última palavra
Três anos após o início do movimento que derrubou presidentes, a contestação no mundo árabe, ameaçada pelas ingerências externas e pelas divisões confessionais, procura um novo fôlego. Se a Síria vive o pior dos cenários, a Tunísia confirma que o desejo por cidadania pode desembocar em um progresso real
por Hicham Ben Abdallah El Alaoui
Em seus primórdios, a Primavera Árabe deitou por terra os preconceitos ocidentais. Ela colocou em maus lençóis os clichês orientalistas sobre a incapacidade congênita dos árabes de conceber um sistema democrático e abalou a crença segundo a qual eles não mereceriam nada melhor do que ser governados por déspotas. Três anos depois, as incertezas permanecem intactas quanto ao desfecho do processo, que entra em sua quarta fase.
Na primeira etapa, concluída em 2011, teve início uma onda gigantesca de reivindicações relativas à dignidade e à cidadania, alimentada por protestos intensos e espontâneos. A etapa seguinte, em 2012, marcou um momento em que as lutas se voltaram para si mesmas, para o contexto local e para o ajustamento delas à herança histórica de cada país. Simultaneamente, forças externas começaram a reorientar esses conflitos para direções mais perigosas, levando os povos à situação que conhecem hoje.
No ano passado, assistiu-se a uma terceira fase, marcada pela internacionalização e pela ingerência cada vez mais agressiva das potências regionais e ocidentais. O foco sobre as rivalidades entre sunitas e xiitas se generalizou por todo o Oriente Médio, pressionando cada Estado e cada sociedade a se polarizar sobre o eixo das identidades religiosas. O antagonismo entre o islamismo e o secularismo se cristalizou em grande escala. O perigo advém do fato de que as rivalidades geopolíticas e as tensões religiosas se sobrepõem às especificidades de cada país e parecem reduzir os atores locais a simples fantoches nas mãos das potências estrangeiras.
A comparação entre a Síria, o Bahrein, o Egito e a Tunísia revela um espectro multicor de influências internacionais. Nos dois primeiros países, as intervenções externas, em particular as sauditas, precipitaram a guerra civil e exaltaram as facções mais radicais dos revoltosos. No Egito, o apoio ocidental à política autoritária do novo regime esmagou as motivações democráticas iniciais. Apenas a Tunísia parece engajada num caminho promissor, à medida que permanece relativamente poupada dos confrontos geopolíticos, religiosos e ideológicos que varreram a região.
Entretanto, em cada um desses países, a Primavera Árabe deixou a marca indelével de uma mobilização popular na qual os cidadãos tomaram consciência de sua força. Ela abriu espaços de contestação que o Estado não pode mais fechar a não ser pagando o preço de uma repressão politicamente dispendiosa. Seja qual for a incerteza do futuro, a condução dos assuntos com mão de ferro que prevalecia anteriormente desapareceu por completo.
Na Síria, a guerra nasceu de um movimento de desobediência civil rapidamente transformado em levante popular de grande envergadura. A reação brutal do regime aos primeiros alertas não conseguiu intimidar os manifestantes, mas deflagrou um ciclo devastador de protestos e repressão. Se o aparato militar do presidente Bashar al-Assad rapidamente aniquilou a esperança de uma revolução pacífica, foram os cálculos geopolíticos e as questões religiosas que nela se intrometeram mais tarde que precipitaram a insurreição numa guerra civil abominável: até hoje, 120 mil mortos, 2,5 milhões de refugiados e 4 milhões de pessoas que tiveram de deixar seu lar.
Desde sempre, a Síria se caracterizou pela diversidade de suas tradições religiosas e comunitárias. Ao explorar as tensões internas, as potências externas detonaram esse frágil mosaico. O país se reveste de uma importância capital em uma região onde se entrechocam os interesses dos Estados Unidos, de Israel, da Arábia Saudita, do Catar, da Jordânia, da Turquia e do Irã. A divisão ancestral dessa parte do mundo entre as duas correntes rivais islâmicas, a sunita e a xiita, serviu de alavanca para esses Estados desejosos de tentar ampliar sua influência.
O clã dos alauitas, que compõe o regime de Al-Assad, é considerado parte de um arco xiita que se estende do Irã ao Líbano do Hezbollah, ao passo que os grupos de rebeldes pertencem, na maioria, ao lado sunita. Contudo, tais filiações recobrem um tabuleiro bem mais diversificado. De modo muito semelhante aos afegãos mujahedinsda década de 1980, a oposição síria se ressente gravemente de coesão. Seus representantes no exterior conhecem mal ou ignoram por completo os grupos armados que lutam no território. Estes vão buscar apoio em outra parte: ao norte do país, eles contam em geral com a ajuda da Turquia e do Catar, enquanto ao sul recebem armamento e assistência da Jordânia, da Arábia Saudita e dos Estados Unidos.
Essas imbricações geopolíticas dão lugar a paradoxos que contradizem uma leitura estritamente religiosa do conflito. Riad festejou o golpe de Estado militar no Egito contra a Irmandade Muçulmana, que é, entretanto, de mesma obediência que os grupos que ela arma no front sírio. O recente degelo entre Washington e Teerã relativiza de igual forma a visão simplista veiculada com frequência pelas mídias internacionais: Israel e Arábia Saudita se julgam abandonados por Washington perante Teerã e se veem repentinamente como aliados de fato.
A cisão entre forças não religiosas e islâmicas pesa igualmente. Se o Exército Livre da Síria (ELS) reivindica sua origem secular, a maior parte dos outros grupos compõe um mosaico religioso que vai dos islâmicos moderados até os jihadistas ligados à Al-Qaeda, passando pelos salafistas. Torna-se difícil, por conseguinte, avaliar em que medida as facções mais radicais, como a Ahrar al-Cham e o Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL), manifestam uma legítima convicção religiosa ou utilizam sua bandeira para fins mais prosaicos. Por fim, tal fragmentação, fonte de discórdias crescentes, abriu um segundofront no próprio seio do campo rebelde, conforme demonstram os combates mortais entre o ELS e o EIIL no norte da Síria, no início de janeiro. Essa dispersão da guerra civil não é estranha à sobrevivência do regime de Al-Assad.
O conflito sírio é muitas vezes apresentado em termos de uma mecânica simples: quando o poder se enfraquece, a oposição se fortalece, e vice-versa. É esquecer que dinheiro e armas não são tudo numa guerra e que é preciso também um contingente humano. Nessas condições, a penúria ameaça constantemente o regime de Damasco. O reforço dos exércitos Al-Qods do Irã, das unidades do Hezbollah libanês e das milícias locais (chahibas) é, assim, vital à preservação do poderio militar. Com o recurso às armas químicas não sendo mais uma opção, o poder depende mais do que nunca desses reforços externos.
A Irmandade Muçulmana desmistificada
A principal fonte de preocupação é a nova radicalização da oposição síria e do regime. O Front Al-Nosra e o EIIL, que dizem pertencer à Al-Qaeda, se beneficiam largamente da ajuda proveniente do Golfo. A Arábia Saudita também conquistou sua ingerência sustentando grupos não filiados ao movimento terrorista fundado por Osama bin Laden, perturbando assim a relação de forças no cerne da oposição. Por sua vez, o Exército regular da Síria sofreu profundas modificações. Desde a batalha de Al-Qusayr, em abril de 2013, as brigadas Al-Qods e o Hezbollah redefiniram o contingente em pequenas unidades móveis organizadas como milícias.
Por todas essas razões, as potências estrangeiras pouco se preocupam em fazer cessar o conflito. Os Estados Unidos não podem se permitir entrar numa nova guerra e se acomodam ao ver sua hegemonia bater em retirada no Oriente Médio. Desde então, sua estratégia consiste em privilegiar a Ásia. Dentro da lógica conservadora norte-americana, Washington só tem a ganhar com a deterioração da questão síria: conforme apontado por Edward Luttwak no New York Times,1 a sabedoria ordena que se deixe os combatentes se matar uns aos outros tanto quanto possível, já que o triunfo de uma oposição dominada pelos islâmicos seria tão nefasta aos interesses ocidentais quanto a vitória do clã de Al-Assad. Já o aliado saudita veria com bons olhos o colapso do regime de Damasco e poderia se contentar com um país fragmentado, à beira do caos, que cortaria o eixo xiita que liga Líbano e Irã. Uma Síria ingovernável também poderia contentar Teerã e Moscou, arriscando deixar um membro da família Al-Assad reduzido ao papel de fantoche instalar-se em seu palácio de Damasco, como o fez, por algum tempo, seu homólogo afegão.
Uma paz a curto prazo parece, portanto, muito improvável. Se os autores das atrocidades cometidas sobre o território devem responder por seus atos, as potências estrangeiras que fomentam tais violências assumem uma grande parcela de responsabilidade. A guerra civil tornou-se tão assustadora que poucos ainda se recordam dos cortejos dos estágios iniciais, quando o povo reclamava simplesmente o direito à dignidade e à cidadania. Nesse quadro trágico, esse aspecto talvez seja o mais triste.
No Bahrein também as potências estrangeiras demonstram sua aptidão para exacerbar as tensões locais, porém de uma forma bem diferente da Síria. As primeiras manifestações nessa pequena ilha do Golfo traduziam um desejo de democracia amplamente compartilhado: estima-se que, no seu auge, elas mobilizaram quase um quinto da população. Se a intervenção militar do Conselho de Cooperação dos Estados Árabes do Golfo (CCG)2 rapidamente cortou no nascedouro tal aspiração coletiva, o fracasso do movimento se explica também e talvez principalmente pela irrupção da geopolítica e das palavras de ordem religiosas.
Enquanto na Síria um poder alauita enfrenta uma população majoritariamente sunita, o Bahrein é uma monarquia sunita povoada majoritariamente por xiitas. Daí por que os respectivos interesses das duas potências rivais da região, o Irã e a Arábia Saudita, ali se entrechocam violentamente. Em razão da proximidade geográfica, Riad exerce sobre seu vizinho um direito de vigilância particularmente intrusivo. Apoiada pelo Ocidente, a intervenção das tropas da CCG respondia de forma explícita à intenção de Riad de manter o Bahrein dentro de sua zona de influência.
A princípio, xiitas e sunitas marchavam lado a lado, sobre uma linha única de reivindicação democrática. Foi somente quando os sauditas wahabitas começaram a trabalhar no aspecto religioso que este, pouco a pouco, rechaçou os objetivos políticos. Entretanto, essa captação da dinâmica local por interesses externos colocou em destaque a fragilidade do regime. Sem a injeção financeira, militar e política dos Estados do Golfo, a dinastia Al-Khalifa não disporia dos meios nem da legitimidade necessários para se manter no poder. Sua sobrevivência só depende agora de seus protetores estrangeiros.
A internacionalização do conflito destruiu uma chance histórica de ver a sociedade do Bahrein resolver suas velhas tensões religiosas pelo diálogo democrático. Enquanto as mesmas causas desencadearam a explosão da Síria, no Bahrein elas mantêm sob respiração artificial um regime autocrático vergonhoso.
Diferentemente da Síria e do Bahrein, o Egito é um país forte e autônomo o suficiente para enfrentar as pressões externas. As grandes potências estrangeiras não estão menos intimamente ligadas ao drama político que ali se encena. Em julho de 2013, um golpe de Estado militar derrubou o governo depreciado, porém legítimo, da Irmandade Muçulmana. Em qualquer outro lugar, uma ruptura tão brutal do processo democrático teria provocado uma indignação mundial. No Egito, entretanto, ela obteve a aprovação das chancelarias ocidentais. Os Estados Unidos e seus aliados europeus, mas também a Arábia Saudita e seus vizinhos do Golfo, assim como a Jordânia e Israel, acomodaram-se diante do golpe de força militar, que os livrava de um Mohamed Morsi democraticamente eleito, mas tido como incontrolável.
Tão logo o novo regime se estabeleceu, a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e o Kuwait se apressaram em lhe fornecer uma ajuda econômica de US$ 12 bilhões, ou seja, nove vezes o US$ 1,3 bilhão anual de assistência militar norte-americana. A escolha de Riad se explica pelo menos por duas razões: de um lado, a desconfiança de longa data do regime wahabita em relação à Irmandade Muçulmana; de outro, o medo de que o exemplo da jovem democracia egípcia se transformasse num caldeirão de óleo fervente e estimulasse seus próprios protagonistas a contestar o reino do clã Saud.
O fato de o Ocidente ter dado sua bênção ao golpe de Estado militar não aumentou seu prestígio no seio da população egípcia, escaldada pela mensagem implícita segundo a qual uma democracia só é aceitável se coloca no poder os candidatos investidos pelas potências estrangeiras. A ironia da história é que, ao voltar as costas à Irmandade Muçulmana, Washington e seus aliados sabotaram por sua própria conta o projeto árabe-ocidental de um bloco sunita coerente suscetível de conter a influência iraniana, provocando ao mesmo tempo uma insólita convergência das políticas estrangeiras saudita e israelense.
É verdade que o golpe de Estado do general Abdel Fattah al-Sissi resultou também de uma situação econômica desastrosa e da impopularidade crescente de Morsi. Mesmo seus eleitores tinham perdido a confiança na capacidade do governo de responder aos problemas do desemprego e da corrupção. As ambições hegemônicas da Irmandade Muçulmana, que se recusava a dividir uma mínima parcela do poder, precipitaram seu descrédito. Elas também entraram em choque com a resistência no aparelho de Estado, composto por policiais, juízes e fulus(dignitários do antigo regime) visceralmente hostis à confraria. Esse “Estado profundo” não perdeua ocasião de emergir até a superfície. Uma tarefa ainda mais fácil pelo fato de que a Irmandade Muçulmana, ao colocar de escanteio juízes, governadores e notáveis para impor seus próprios homens no seio do aparelho de Estado, também estava afastando seus aliados potenciais no seio da Igreja e dos salafistas.
O raio que se abateu sobre eles significa igualmente o fim da aura de invencibilidade que rodeava outrora o islamismo. A confraria não era um grupo revolucionário nem o ramo local de qualquer frente terrorista internacional, mas sim uma organização sobretudo conservadora que defendia a piedade religiosa, o liberalismo econômico e a caridade em relação aos mais pobres. Ela não se arrogava nenhum monopólio sobre o islã e não mantinha nenhuma ligação com os salafistas, tampouco com os teólogos do Al-Azhar.3Seus adeptos vivem hoje na prisão ou na clandestinidade. Mais prudentes, ou mais hábeis, os salafistas do partido Nour manifestaram seu pragmatismo demonstrando submissão ao regime militar. No fim das contas, a esfera islâmica diversificou-se e fragmentou-se ao mesmo tempo, fazendo emergir novas figuras fora dos círculos escolásticos e políticos tradicionais.
Prestar contas ao povo
Durante sua breve passagem pelo poder, a Irmandade Muçulmana evitou impor uma islamização forçada à sociedade. Seu objetivo consistia mais em consolidar sua dominação política no terreno institucional. Foi apenas por um acaso que, quando do golpe de Estado, o governo Morsi defendeu-se fazendo referência ao argumento da legitimidade (chara’iya) em vez de recorrer à lei islâmica (charia). Em relação a isso, o medo ocidental de ver a Primavera Árabe eclodir num contágio islâmico no Oriente Médio parecia não ter muita consistência.
No próprio Egito, o golpe de Estado militar recebeu a bênção do movimento dos jovens Tamarrod, da Igreja Copta e das formações leigas liberais. O liberalismo reivindicado por estas últimas não incluía explicitamente a defesa do pluralismo político, o qual se mostra incompatível com a exclusão da Irmandade Muçulmana. Desde então, o pluralismo podia desaparecer totalmente. A censura imposta pelo novo regime militar revelou-se mais implacável que aquela que reinava sob a presidência de Hosni Mubarak. Não somente a Irmandade Muçulmana foi riscada do mapa com uma brutalidade inédita desde a era do presidente Gamal Abdel Nasser, como seu banimento foi acompanhado de uma campanha nacionalista e xenófoba que associava seus militantes à imagem de inimigos públicos a serviço do estrangeiro. Consequência inesperada da revolução egípcia, uma presidência autocrática transformou-se em uma ditadura militar que recorre à lei marcial e à violência legal. As eleições não foram suprimidas, mas se desenvolvem sob um controle estrito.
Por causa da proibição da Irmandade Muçulmana e da atomização de todas as forças políticas do país, o Exército se impôs naturalmente. Ele não vai deixar o poder por iniciativa própria, pelo menos enquanto contar com a cumplicidade das potências ocidentais e dos países do Golfo, e enquanto se considerar o suporte da sociedade.
O Egito não é presa das tensões étnicas e religiosas que minam alguns de seus vizinhos; a hipótese de um conflito aberto parece, portanto, descartada. Não é menos verdade que os militares não podem se contentar em restaurar a antiga ordem. O custo de uma repressão maciça tornou-se politicamente exorbitante, e os egípcios tomaram gosto pela força das mobilizações de massa. O fosso entre o islamismo e o poder secular também se arrisca a crescer mais. Alguns membros da Irmandade Muçulmana poderiam ser tentados a pegar em armas.
Mas a principal novidade é a exigência cada vez maior, no seio da população, de uma prestação de contas. Mesmo quando do golpe de Estado de julho de 2013, os militares tiveram de justificar sua ação, depois que uma iniciativa democrática organizada por grupos de cidadãos exprimiu alto e bom som suas inquietudes. O regime está agora diante de uma escolha delicada: ele vai ressuscitar o sistema de Mubarak, com um general Al-Sissi passando do kaki para o terno e gravata, ou vai preferir o modelo argelino, em que os civis têm sua chance de se expressar, mas deixam aos militares o direito de veto sobre temas importantes?
Em comparação, a transição tunisiana pareceria quase um caminho fácil de percorrer. Conduzida por atores locais aparentemente desejosos por estabilidade e pelo respeito às regras democráticas, ela foi em grande parte poupada pelas manipulações externas. Isso se explica sobretudo por sua geografia: ainda que vigiada de perto pela ex-potência colonial francesa, a Tunísia raramente serviu de teatro para as disputas geopolíticas dos interesses estrangeiros. Sua população é relativamente homogênea no plano religioso. O pomo da discórdia mais notável, desde a queda do presidente Zine al-Abidine ben Ali, é a luta fratricida à qual se dedicam os islâmicos e os leigos.
O partido Ennahda, de inspiração islâmica, ganhou as primeiras eleições livres, mas cometeu o mesmo erro da Irmandade Muçulmana: interpretou o mandato recebido como uma porta para o poder absoluto. Rapidamente a situação política se deteriorou, com o assassinato de vários opositores de esquerda e o aumento potencial dos grupos salafistas, violentamente hostis ao pluralismo eleitoral. Suas ameaças jogaram um jato de água fria na população, pouco habituada a um clima como esse.
Na Tunísia, nenhum setor pode pretender a hegemonia, e o Ennahda formou uma coalizão com dois partidos leigos. Os movimentos liberais e progressistas acabaram aceitando o diálogo nacional proposto pelo governo e trabalhando com os islâmicos – com exceção dos mais radicais, em especial os salafistas. Todos os partidos do tabuleiro eleitoral concordaram que o risco de uma espiral de violência política não poderia mais ser ignorado. Além disso, a divisão entre religiosos e leigos revelou-se menos insuperável que o previsto. Poucas coisas diferenciam afinal os islâmicos moderados de seus rivais leigos, já que estes últimos reconhecem com mais boa vontade a importância da religião em qualquer novo sistema político.
Mas foi sobretudo a turbulenta sociedade civil que reativou o calendário da transição democrática. A União Geral Tunisiana do Trabalho (UGTT), a organização patronal União Tunisiana da Indústria, do Comércio e do Artesanato (Utica), a Ordem dos Advogados e a Liga Tunisiana dos Direitos do Homem tiveram voz durante o diálogo nacional. Elas fixaram novos objetivos para o governo e pediram a ratificação da Constituição.
Já o Exército tem um peso nitidamente menor que no Egito: pouco numeroso em efetivos e despolitizado, ele permanece nos quartéis desde 2011. O antigo regime de Ben Ali era um Estado policial, não uma ditadura militar. Seu governo tecnocrático e cleptomaníaco poderia muito bem dispensar uma base ideológica. É por isso que a revolução tunisiana aposentou as elites do antigo partido único, deixando intactas a burocracia e as forças de polícia, que não eram ideologicamente conectadas ao regime. A preservação dessa ossatura contribuiu para manter uma relativa estabilidade da ordem legal. Além disso, a antiga autocracia tinha montado uma robusta estrutura de instituições e leis, que certamente pouco havia servido durante os dez últimos anos da era Ben Ali, mas que pode hoje se mostrar útil para construir um sistema democrático funcional. Precisamente porque o nepotismo de outrora era desprovido de qualquer ideologia suscetível de reaparecer, a restauração de um Estado autoritário parece pouco verossímil.
A Tunísia tem a oportunidade de responder às suas incertezas por seus próprios meios, sem se preocupar com a boa vontade alheia. As potências mundiais e regionais desempenharam um papel negligenciável na transição em curso. Washington não colocou seu veto à entrada do Ennahda no governo nem favoreceu este ou aquele candidato. Os países petrolíferos do Golfo se abstiveram de afundar seus favoritos sob toneladas de dinheiro. A França se limita a uma neutralidade circunspecta, com sua imagem permanecendo maculada pelo indefectível apoio que deu a Ben Ali até o último segundo de seu reinado. Em caso de sucesso, a experiência tunisiana seria recebida como um sinal de esperança em toda a região, e talvez além dela.
Sujeitos transformados em cidadãos
Agora que a Primavera Árabe entra em seu quarto ano, é preciso atentar para uma busca de ingerências nos conflitos locais e uma ampliação de seus efeitos deletérios. As linhas de frente geopolíticas, religiosas e ideológicas abalam hoje todo o Oriente Médio. É apenas renunciando a se imiscuir nas revoluções que o mundo exterior pode ajudá-las a renascer.
É possível, no entanto, destacar algumas tendências mais precisas para o ano que se inicia. Para começar, as monarquias do Golfo se arriscam a se intrometer ainda mais nos assuntos de seus vizinhos árabes. A renda vinda do petróleo lhes permite comprar uma influência decisiva sobre países mais favorecidos como o Egito, o Marrocos e a Jordânia, onde suas ajudas ultrapassam as do bloco ocidental.
Em seguida, é preciso sublinhar a importância dos pactos concluídos em período de transição nacional. Em outros contextos de democratização, como a América Latina, os pactos de acomodação entre forças rivais foram profundamente institucionalizados e aceitos por todos. No Oriente Médio, em contrapartida, a lógica de divisão prevalece sobre a busca do compromisso, de sorte que as frações se debatem pelo poder em lugar de partilhá-lo.
Em terceiro lugar, a fraqueza das instituições locais, aliada às intervenções mal pensadas de potências estrangeiras, forneceu munição aos sabotadores do processo democrático. Os salafistas tunisianos e os falsos liberais egípcios são personagens de segundo plano que não têm nada a perder ao quebrar compromissos negociados com dificuldade. Eles ganham em importância à medida que as instituições vão se erodindo e que os interesses em jogo crescem. Tais fenômenos são com frequência a marca de países em falência que não têm os meios de deter o círculo vicioso do dilema securitário. No Iêmen e no Líbano, vários grupos preferem pegar em armas a recorrer a um Estado incapaz de protegê-los, meio pelo qual o enfraquecem um pouco mais.
O último ponto, mais positivo, tem a ver com a cidadania. Os povos árabes não se percebem mais como massas de pessoas, mas como forças cidadãs que merecem o respeito e a palavra. Se uma nova sublevação surgisse algum dia, ela seria sem dúvida ao mesmo tempo mais espontânea, mais explosiva e mais duradoura. Os cidadãos árabes foram testemunha das soluções extremas às quais seus governos estão prestes a recorrer para se manter no poder. Os regimes coercitivos também conhecem bem a determinação das massas em “se livrar deles”. A Primavera Árabe não deu ainda sua última palavra.

Hicham Ben Abdallah El Alaoui é primo do rei do Marrocos, Mohammed VI, e pesquisador visitante do Center on Democracy, Development en the Rule of Laz, da Universidade de Stanford, Estados Unidos.

Ilustração: Mariana Zanetti

1  Edward Luttwak, “In Syria, America loses if either side wins” [Na Síria, os Estados Unidos perdem seja qual for o lado vencedor], The New York Times, 24 ago. 2013.
2 Seus seis membros são Arábia Saudita, Bahrein, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Catar e Omã.
3 Instituição principal do islamismo sunita com sede no Cairo.

O rolezinho da juventude nas ruas do consumo e do protesto

O rolezinho da juventude nas ruas do consumo e do protesto

Le Monde Diplomatique Brasil

Os “rolezinhos” levaram para dentro do paraíso do consumo a afirmação daquilo que esse mesmo espaço lhes nega: sua identidade periférica. Se quando o jovem vai ao shopping namorar ou consumir com alguns amigos ele deve fingir algo que não é, com os rolezinhos ele afirma aquilo que é!
por Renato Souza de Almeida
Osjovens têm criado formas cada vez mais interessantes de manifestação. Desde as jornadas de junho de 2013 – que levou às ruas milhares de brasileiros – até os chamados “rolezinhos” – que também vêm colocando centenas em circulação – se instalou uma crise na análise daqueles que insistiam em afirmar uma possível apatia dessa geração juvenil.
“Sair de rolê...” significa dar uma circulada despretensiosa pela vila ou pela cidade. É possível dar um rolê de trem, de ônibus ou a pé. Geralmente, o rolê está ligado ao lazer ou a alguma prática cultural. Sai de rolê o pichador, o skatista, o caminhante... O que vem chamando a atenção de muita gente é como um simples gesto de sair e circular de forma livre tem ocupado um papel central nas principais mobilizações juvenis na cidade de São Paulo nos últimos tempos.
Não é por menos que o estopim das manifestações de junho foi a luta do Movimento Passe Livre (MPL). O passe livre é uma reivindicação em favor da possibilidade de dar um rolê sem que a catraca – e o tributo que a acompanha – possa impedir. Quando a Polícia Militar decidiu impedir o rolê de uma pequena multidão na Avenida Paulista (ainda antes de as manifestações se alastrarem como chama pelo país), alguns dias depois uma imensa quantidade de pessoas tomou o Largo da Batata e seguiu de rolê para a mesma Avenida Paulista, para o Palácio dos Bandeirantes e para muitas outras ruas da cidade. O direito a dar um rolê foi a principal reivindicação daquele histórico movimento de junho de 2013.
Quem não é mais jovem e sempre morou nas periferias de São Paulo, com raras exceções, vai se recordar que a rua era o espaço por excelência da sociabilidade, do lazer e da convivência. Com a chegada do asfalto, vieram também muitos carros e se instituiu como verdade o discurso de que a rua é lugar perigoso e violento. Para muitos adultos, as políticas culturais só se justificam se for para “tirar os jovens das ruas”. Para os jovens, ao contrário, suas ações culturais só têm força e sentido quando acontecem na rua, no espaço público.
A condenação da rua como espaço da violência veio acompanhada da chegada dos shopping centers também às periferias. Muita gente vai ao shopping tentar encontrar um vazio deixado pelo “fim” das ruas. Para além do consumo, busca-se num shopping um passeio mais livre, solto, e a possibilidade de encontro com pessoas de fora do círculo mais próximo, familiar. No entanto, esse encontro não acontece. Tampouco a livre circulação. As pessoas só encontram uma multidão “sem rosto e coração” – nos dizeres dos Racionais MC’s –, e a circulação no interior do shopping não pode ocorrer de forma livre e espontânea. Ela tem regras claras e rígidas: os pobres podem circular pelo shopping, contanto que finjam pertencer a outra classe social. Mesmo que circulem no shopping sem recursos para consumir, eles devem desejar consumir. Da mesma forma, os negros podem circular pelo shopping tranquilamente, desde que finjam ser brancos nas vestimentas, nos cabelos, no comportamento etc.
Os rolezinhos em shoppings – da periferia ou das áreas abastadas –, que se tornaram um fenômeno neste verão, têm características muito semelhantes com os pancadões de rua realizados de forma espontânea e congregam um número significativo de jovens que se reúnem, sobretudo, em torno da expressão cultural do funk. O polêmico e famigerado funk é um dos principais mobilizadores dos jovens na metrópole paulistana. E um dos segredos da sua força não está necessariamente no apelo sexual de algumas músicas ou na sua batida envolvente, mas na forma como ressignificouas ruas para esses jovens. “No dia em que tem pancadão, a rua é nossa!” E se a rua é “nossa”, pode-se fazer qualquer coisa, inclusive não fazer nada... E, se o “som é de preto, de favelado e, quando toca, ninguém fica parado”, não há necessidade de fingir ser outra coisa, como exigem os shoppings centers. Ao contrário, é um momento de afirmação dessa mesma identidade periférica.
Nesse sentido, estar no shopping – no local que a sociedade estabeleceu para substituir a rua – é bastante provocador. Os rolezinhos levaram para dentro do paraíso do consumo a afirmação daquilo que esse mesmo espaço lhes nega: sua identidade periférica. Se quando o jovem vai ao shopping namorar ou consumir com alguns amigos ele deve fingir algo que não é, com os rolezinhos ele afirma aquilo que é! E quando faz essa afirmação ele revela a contradição na lógica dos shopping centers. Ou seja, os rolezinhos põem por terra a aparente circulação livre e o espaço aberto que os shoppings dizem proporcionar. Quando o jovem afirma, por meio do rolezinho, sua identidade de negro e pobre, a contradição se evidencia e a polícia é acionada, e tão logo o paraíso do consumo e do prazer se revela como o inferno do preconceito racial e da violência.
Esses jovens que hoje mobilizam os rolezinhos são intitulados “geração shopping center”, consumista, por parte dos mais velhos. Porém, a prática dos rolezinhos nos shoppings está revelando a contradição mais aguda desse espaço que tentou tomar o locussimbólico da rua. Nos rolezinhos, os jovens não são consumidores, mas produtores. Produzem um novo jeito de circular pelo shopping. Produzem uma prática cultural que se contradiz com esse lugar. Produzem contradição e desordem no sistema. E produzem uma nova gramática política ao afirmar sua classe num espaço que existe para negá-la.
É significativo que os rolezinhos nos shoppings se iniciem num momento em que um projeto de lei que proibia as festas de rua, sobretudo os bailes funks, apresentado por representantes da “bancada da bala”, se encontrava para sanção ou veto do prefeito. O prefeito vetou. Mas as ruas ainda estão longe de pertencer aos jovens. Por isso, os rolezinhos continuaram e aumentaram. Os jovens querem as ruas de volta. O pancadão é só um exemplo dessa demanda. Para demonstrarem que o desejo dos shoppings de assumir o lugar da rua fracassou, os jovens resolveram levar a rua para dentro dos próprios shoppings e escancararam a luta de classes na cidade. É como se o povo não estivesse mais na rua para exigir seus direitos. A própria rua virou um direito que esses jovens exigem.
Uma das respostas encaminhadas pelo governo federal por conta das manifestações de junho foi a aprovação, no mês de agosto, do Estatuto da Juventude. Entre os “novos” direitos apontados em seus artigos, alguns enfatizam a importância da circulação e mobilidade dos jovens, seja no espaço urbano ou no campo. Esse direito, ao lado do direito à produção cultural e da ampliação dos espaços públicos de lazer, está no centro das reivindicações dos jovens, seja nos rolês nos shoppings ou nas jornadas das grandes avenidas.

Renato Souza de Almeida
Mestre em Antropologia, professor da Faculdade Paulista de Serviço Social (Fapss), assessor do Instituto Paulista de Juventude (IPJ) e coordenador do Programa de Valorização de Iniciativas Culturais (VAI) da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo.

Caso Adidas é o segundo em dez dias que relaciona o Brasil ao turismo sexual

Caso Adidas é o segundo em dez dias que relaciona o Brasil ao turismo sexual


Aline Valcarenghi - Repórter da Agência Brasil Edição: Fábio Massalli
O presidente do Instituto Brasileiro de Turismo (Embratur), Flávio Dino, disse hoje em coletiva à imprensa que o caso das camisetas da Adidas é o segundo de grandes proporções em menos de dez dias que relaciona o Brasil ao turismo sexual. O governo brasileiro pretende se reunir com a Federação Internacional de Futebol (Fifa) e com os patrocinadores da Copa do Mundo para discutir o tema e montar uma estratégia de combate à exploração sexual. "Felizmente [no caso Adidas] prevaleceu o bom-senso e a empresa viu que era uma prática comercial totalmente lesiva no que se refere ao mercado brasileiro", avaliou Dino.
Há cerca de 10 dias, o jornal Diário Catarinense veiculou um encarte turístico direcionado a estrangeiros com fotos de mulheres seminuas. A Embratur entrou em contato e manifestou-se contra a publicação e o jornal retratou-se. Em seguida, a Adidas lançou uma camiseta em edição especial da Copa do Mundo no Brasil com figuras que vinculam o Brasil ao turismo sexual.  Depois de notificação da Embratur, a empresa anunciou que vai tirar do mercado as camisetas.
Segundo Dino, do ponto de vista quantitativo a modalidade de turismo sexual não é expressivo. "Em 2013 os casos foram muito raros", defendeu, acrescentando que a Embratur parte de denúncias. Em 2013 foi registrado apenas um caso, de uma agência de turismo americana que vendia pacotes para turismo sexual no Amazonas travestido de pacote de pesca. O presidente reconhece que há uma subnotificação de casos, mas há um trabalho do governo para combater essa associação.
"Queremos uma Copa acolhedora, cordial.  Sabemos que a maioria dos estrangeiros que nos visita tem um espirito de festa, que faz parte da cultura brasileira.  Mas isso não quer dizer que vale tudo", defendeu Dino.

Termina ciclo de negociações com as Farc

Termina ciclo de negociações com as Farc

Leandra Felipe – Correspondente da Agência Brasil/EBC 

Edição: Nádia Franco

Em comunicado conjunto, as delegações da Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e do governo colombiano que negociam um acordo de paz anunciaram hoje (13), em Havana, o término de mais um ciclo de conversações e informaram que já existe um “esboço” de acordo sobre o problema das drogas, terceiro ponto da agenda de diálogos.

“Neste momento, podemos dizer que temos os primeiros rascunhos com a base desse acordo [sobre cultivos ilícitos e narcotráfico], e estamos de acordo que a essência de qualquer solução é a reforma rural integral [primeiro ponto da agenda]”, diz o comunicado.

Os negociadores não adiantaram detalhes sobre os pontos que constarão do acordo, mas disseram que um elemento importante no combate ao narcotráfico será o “fortalecimento da presença institucional do Estado em territórios afetados, com ações que promovam o desenvolvimento integral”.

A declaração conjunta menciona ainda a necessidade de “fechar a fronteira agrícola, a recuperação dos ecossistemas e de promover o desenvolvimento sustentável”. Cada região também deverá ser tratada de maneira distinta, devido às particularidades em cada zona.

O comunicado não fala sobre propostas levantadas pela mesa quanto à descriminalização do cultivo de maconha, cocaína e papoula no país, para que sejam usadas para fins terapêuticos, conforme as Farc propuseram.

A solução para o problema das drogas começou a ser discutida em novembro do ano passado. Os negociadores anunciaram que o próximo ciclo começa no dia 24 deste mês, data em que a mesa pretende finalizar a discussão sobre o tema.

Encerrada a discussão desse assunto, deve entrar em pauta a reparação das vítimas do conflito, além da questão do desarmamento e da reintegração de guerrilheiros e de garantias para o cumprimento dos acordos celebrados no pós-conflito.

Desde que foram iniciados em novembro de 2012, os diálogos de paz já produziram acordos parciais sobre o tema agrário e a participação política das Farc, mas os negociadores destacam que não existe “acordo enquanto não houver consenso sobre todos os pontos da agenda de negociação”.

Caso seja bem-sucedido, o processo dará fim a um conflito de quase 50 anos, após pelo menos três tentativas frustradas de negociação anteriores.

 
 

Publicado em: 14/02/2014

Seguem protestos na Venezuela

Seguem protestos na Venezuela

Leandra Felipe - Correspondente da Agência Brasil/EBC 

Edição: Carolina Pimentel

Manifestantes contra e a favor do governo entraram em confronto na VenezuelaTelám/AVN
 
Os protestos na Venezuela nessa quarta-feira (12) deixaram três mortos, 61 feridos e 69 pessoas foram detidas por causa dos confrontos entre manifestantes governistas e oposicionistas, segundo o governo do país. 

O governo convocou para a tarde de hoje (13) marchas populares “contra o fascismo da oposição”. “Venezuela unida contra o fascismo! Convocamos os movimentos sociais e o povo para uma concentração contra a violência opositora”, anunciou a ministra de Informação, Delcy Rodríguez.

As ruas ficaram vazias pela manhã, sem os frequentes engarrafamentos, conforme relatos de jornalistas que vivem em Caracas. O movimento nas escolas também diminuiu, porque embora não tenha sido decretada a suspensão das aulas, muitos pais preferiram não levar os filhos aos colégios.

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O trânsito também foi interrompido nas proximidades do Palácio de Miraflores (sede do governo) e o esquema de segurança foi reforçado.

A imprensa local noticiou que o Serviço Bolivariano de Inteligência recebeu ordens hoje para prender Leopoldo López, um dos líderes da oposição, aliado do governador de Miranda, Henrique Capriles. A ordem de prisão foi expedida pela juíza Ralenys Tovar, sob acusação de homicídio, lesões graves e “associação para delinquência”, conforme a imprensa.

Em sua conta no Twitter, López retrucou: “Maduro sabe bem que o que aconteceu ontem foi plano de vocês. Os mortos e feridos são sua
responsabilidade”.  Os meios de comunicação nacionais e estrangeiros também comentam que um ex-embaixador venezuelano na Colômbia, Fernando Gerbasi, teria tido uma ordem de prisão expedida.

Até o momento, o governo do país não confirmou as ordens de prisão, mas declarou que irá agir com “autoridade democrática e acionará a Justiça” para punir os responsáveis pelos danos materiais e imateriais.

As imagens do canal colombiano NTN24  deixaram de ser veiculadas hoje em território venezuelano. Ontem, o canal dava ampla cobertura dos protestos quando o sinal foi interrompido. De acordo com a diretora do canal na Colômbia, Claudia Gurisatti, o governo venezuelano já havia feito “ameaças sobre a retirada em momentos anteriores”, mas não houve notificação sobre a interrupção do sinal.

A recomendação do governo do país era que as emissoras privadas nacionais e internacionais não deveriam transmitir imagens dos protestos para não “incitar a violência”. Quem não cumprisse, poderia ser penalizado, de acordo com a Comissão Nacional de Telecomunicações (Conatel).

 
 


Publicado em: 14/02/2014

Irã negocia acordo em Viena


*Da Agência Brasil 

Edição: Graça Adjuto

O Irã tem "vontade política" de chegar a um acordo com as grandes potências sobre o seu programa nuclear, declarou o ministro iraniano dos Negócios Estrangeiros, Mohammad Javad Zarif, citado hoje pela agência oficial de notícias Irna.

"Nós estimamos que é possível chegar a um acordo e viemos para cá com a vontade política de conseguir", disse Mohammad Javad Zarif após jantar de trabalho nessa segunda-feira (17) com a chefe da diplomacia europeia, Catherine Ashton.

As negociações entre o Irã e o Grupo 5+1 (formado pelos Estados Unidos, a Rússia, China, França, o Reino Unido e a Alemanha) estão sendo retomadas hoje em Viena, com o objetivo de alcançar um acordo definitivo que permita encerrar uma década de crise entre Teerã e o Ocidente.

"Se todas as partes participarem das negociações com a vontade política de chegar a uma solução, nós teremos resultados positivos, mas isso leva tempo", acrescentou Ashton.

Ontem, o guia supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei, disse que as negociações "não vão levar a lado nenhum".

*Com informações da Agência Lusa


Publicado em: 18/02/2014

Venezuela terá dia de protestos

Venezuela terá dia de protestos

Leandra Felipe - Correspondente da Agência Brasil/EBC 

Edição: Graça Adjuto

Protestos na Venezuela

Venezuela vive a apreensão de nova onda de manifestações e marchas.
 
A Venezuela vive a apreensão de uma nova onda de protestos e marchas marcadas para hoje (18). O líder do Partido da Vontade Popular, Leopoldo López, convocou simpatizantes para saírem às ruas e acompanhá-lo em manifestações que chamou de "resistência", antes que ele se apresente à Justiça. O governo de Nicolás Maduro também convocou a população que o apoia para uma marcha pela paz, contra as manifestações  “da direita fascista” 

A segunda-feira (17) foi de “relativa calma”, embora tenham ocorrido manifestações em algumas regiões. O metrô de Caracas teve sete estações fechadas durante a tarde, devido aos confrontos entre os funcionários do serviço de transporte e manifestantes.

Apesar de um clima moderado nas ruas, nas redes sociais e nos meios de comunicação locais, a oposição e o governo trocaram acusações e difundiram notícias que denunciaram a manipulação de informações de ambos os lados, como a publicação de fotos montadas, supostamente para incriminar os opostos (por exemplo, fotos falsas de pessoas feridas).

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A ministra de Comunicação e Informação, Delcy Rodríguez, denunciou, em sua conta no Twitter, que grupos de direita teriam planos de ações violentas para hoje. Ela comentou a denúncia vinculada na estatal Venezuelana de Televisão (VTV), que revela que representantes da direita teriam contratado 300 sicários (como são chamados assassinos contratados) para promover a violência na capital durante as marchas.

“Alerto a comunidade internacional, porque grupos violentos planejam para hoje tomar o poder à força”, escreveu em sua conta no Twitter. De acordo com as denúncias difundidas pela emissora de TV estatal, setores de oposição teriam um fundo de 120 milhões de bolívares para o pagamento dos assassinos.

Entre os opositores, o clima mostra diferenças. Leopoldo López manteve o plano de manifestações, ainda que o governo tenha dito que ele não poderia fazê-lo e que será capturado.

O governador do estado de Miranda, Henrique Capriles, procura afastar-se de López, mas mantém as críticas ao governo de Maduro. Em carta divulgada nessa segunda-feira (17), ele pediu que a Constituição do país seja respeitada e defendeu o diálogo como caminho.

“É o momento para que o governo mostre a vocação humanista que tanto proclama. Esperamos que o governo se retifique, que desarme grupos paramilitares e que cesse com a repressão e a tortura. Que aprove recursos para a compra de alimentos, remédios e papel para a impressão de jornais”, diz a carta.

Desde o início dos protestos, Capriles atribui parte da violência a grupos armados de civis, segundo ele, os coletivos socialistas apoiados pelo governo. Ele disse que respeita posições distintas (de outros opositores), mas que é preciso ter cautela e caminhar para “uma solução real”, em vez de criar “expectativas irreais e personalistas”.

O governo de Nicolás Maduro nega que existam coletivos armados envolvidos nas manifestações.

*Com informações da Agência Lusa

Fonte: http://agenciabrasil.ebc.com.br" target="_blank">Agência Brasil (EBC) 



Publicado em: 18/02/2014

Venezuela fará conferência pela Paz

Venezuela fará conferência pela Paz

*Da Agência Brasil Edição: Graça Adjuto

Palácio da Justiça da Venezuela Miguel Gutiérrez/Agência Lusa

O presidente venezuelano, Nicolás Maduro, informou nesse domingo (23) que convocou uma Conferência Nacional de Paz para a próxima quarta-feira (26), para que todos os setores se reconheçam venezuelanos e digam que querem a paz.

"Estou convocando a conferência na quarta-feira, aqui no Palácio Presidencial", disse Maduro, em entrevista transmitida pelo canal estatal VTV. Ele quer reunir os setores políticos e sociais para discutir a situação do país.

"Convoco todo o país para a Conferência Nacional de Paz, para nos olharmos nos olhos, para nos reconhecermos como venezuelanos, para dizermos: queremos a paz, vamos fazer a paz", acrescentou o presidente.

Maduro lembrou que nesta segunda-feira (24) será realizada uma reunião do Conselho Federal, órgão do qual fazem parte todos os governadores, incluindo o líder opositor Henrique Capriles, que já confirmou presença.

O presidente da Venezuela informou também que pedirá uma Comissão da Verdade na Assembleia Nacional (Parlamento) para que investigue a violência durante os protestos.

“Vou pedir à Assembleia Nacional que forme uma Comissão da Verdade, que investigue toda a violência, todas as denúncia sobre o golpe de Estado em marcha, que investigue todas as mentiras e manipulações nacionais e internacionais”, disse.

Os protestos contra o governo ocorrem desde o dia 12, quando uma manifestação de estudantes e de opositores ao regime acabou com incidentes violentos e com a morte de três jovens.

Desde o início dos protestos na Venezuela, 11 pessoas morreram em incidentes relacionados às manifestações. Governo e oposição têm pedido que os protestos decorram sem incidentes, mas além das 11 mortes, já foram registrados mais de 150 feridos e dezenas de detidos.

*Com informações da Agência Lusa

 
 

Publicado em: 24/02/2014

Ucrânia propõe conferência internacional

Ucrânia propõe conferência internacional

*Da Agência Brasil Edição: Graça Adjuto

A Ucrânia precisa de US$ 35 bilhões (25,4 bilhões de euros) nos próximos dois anos e pede a realização de uma conferência internacional de doadores, anunciou hoje (24) o ministro interino das Finanças, Iuri Kolobov. “O montante de ajuda econômica que a Ucrânia necessita pode chegar aos US$ 35 bilhões em 2014-2015”, disse ele em comunicado.

“Pedimos aos nossos parceiros ocidentais a concessão de crédito, dentro de uma semana ou duas”, acrescentou o ministro, sem precisar o valor solicitado.

A Ucrânia também propôs “organizar uma grande conferência internacional de doadores com a União Europeia (UE), os Estados Unidos, o FMI [Fundo Monetário Internacional] e outras organizações financeiras internacionais, com o objetivo de obter fundos para a modernização e reformas na Ucrânia”, disse ainda Kolobov.

O presidente interino Olexandre Turchinov advertiu, nesse domingo, que a Ucrânia se encontra à beira de não cumprir os pagamentos. “A Ucrânia está escorregando para um precipício, está à beira de não cumprir os seus pagamentos”, declarou Turchinov, denunciando que o governo do presidente deposto, Viktor Ianukóvich, e de seu primeiro-ministro, Mykola Azarov, “arruinou o país”.

O Parlamento ucraniano destituiu, no sábado (22), o presidente, depois dos confrontos entre manifestantes e forças de segurança na semana passada, que deixaram 82 mortos no centro de Kiev, embora a oposição fale em mais de 100.

Viktor Ianukóvich, que está desaparecido desde sábado, é alvo de um mandado de prisão por “assassinato em massa”, anunciou o ministro do Interior interino ucraniano, Arsen Avakov. “Uma investigação criminal contra Ianukóvich e outros funcionários governamentais foi aberta por causa da morte em massa de civis. Um mandado de prisão foi assinado", anunciou o ministro em sua página no Facebook.

A representante da diplomacia europeia, Catherine Ashton, é esperada em Kiev no início da tarde de hoje. Os países ocidentais já demonstraram receio sobre a integridade da Ucrânia após a crise da semana passada.

A União Europeia já se mostrou pronta a ajudar a Ucrânia, a honrar os seus compromissos financeiros e ajudar a negociar a transição política, disse o ministro das Finanças britânico, George Osborne.

A chanceler alemã, Angela Merkel, e o presidente russo, Vladimir Putin, concordaram que a Ucrânia “deve instaurar rapidamente um governo capaz de agir e que a integridade territorial deve ser preservada”,
anunciou a chancelaria alemã.

Amanhã (25), é esperada a nomeação de um governo interino, que ficará no poder até as eleições presidenciais, em 25 de maio.

 
 

Publicado em: 24/02/2014

Distensão com o Irã continua avançando

Distensão com o Irã continua avançando

O Globo - 11/02/2014
 
O Irã celebra hoje o 35º aniversário da Revolução Islâmica, justo quando melhoram as relações com o Ocidente após o acordo de 24 de novembro em que Teerã concordou em negociar a gradativa submissão de seu programa nuclear à comunidade internacional, via Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), da ONU. Mas a retórica deve continuar agressiva. Por isto, um dos negociadores iranianos, Abbas Araghi, lembrou que o país “tem problemas com os EUA sobre dúzias de temas”. E concluiu: “Nada mudou. Os EUA ainda são o Grande Satã”.
Mas algumas coisas mudaram sim. Ontem, o presidente Hassan Rouhani reiterou, diante de de embaixadores e dignatários estrangeiros, que Teerã está disposta a chegar a um “acordo definitivo e global” com o grupo 5+1 (EUA, Rússia, China, França e Reino Unido, mais Alemanha) sobre a questão nuclear. Esta se resume, grosso modo, ao Irã conseguir provar ao Ocidente que seu programa atômico é para fins pacíficos, não tem propósitos bélicos e, portanto, não representa qualquer ameaça ao mundo e, especificamente, a Israel.
No último fim de semana, houve mais uma reunião entre negociadores iranianos e da AIEA. Foi proveitosa. O Irã comprometeu-se a fornecer informações que a Agência busca há anos, inclusive suas pesquisas sobre detonadores. A expectativa é que, a partir destas, seja possível determinar se o programa tem, ou teve, objetivos bélicos. Ainda há muitos problemas: por exemplo, os iranianos não concordaram em abrir à inspeção a unidade de Parchin, ao Sul de Teerã, onde os EUA suspeitam terem sido testados explosivos nucleares. Mas sinais positivos continuam surgindo: a Guarda Revolucionária — a guardiã da linha-dura —, deu sinal verde aos negociadores iranianos.
Porém, no aniversário da Revolução, é preciso dar satisfações. O chefe do organismo nuclear do Irã, Ali Akbar Salehi, anunciou que os técnicos criaram um novo tipo de centrífuga 15 vezes mais poderosa do que as atualmente em uso nas usinas de enriquecimento de urânio. Segundo ele, a máquina será usada em breve no centro médico de Razi, a Oeste de Teerã. Pelo acordo com o 5+1, o Irã se comprometeu a não aumentar o número de centrífugas em operação. Cerca de 10 mil estão em funcionamento mas, conforme o acordado, não podem produzir urânio enriquecido a mais de 3%.
A mudança de postura do Irã não resulta da eleição de um presidente moderado. É o contrário. O regime dos aiatolás é que trabalhou para elegê-lo, para viabilizar uma negociação com o Ocidente que resulte num afrouxamento das sanções que asfixiam a economia iraniana e provocam o descontentamento da população. O efeito das sanções mostrou o acerto dos EUA e do Ocidente de tratar o impasse pelo lado diplomático. Foi criada, assim, a maior chance para um acordo histórico com o Irã.