| O rolezinho da juventude nas ruas do consumo e do protesto |
Le Monde Diplomatique Brasil
Os “rolezinhos” levaram para dentro do paraíso do consumo a afirmação daquilo que esse mesmo espaço lhes nega: sua identidade periférica. Se quando o jovem vai ao shopping namorar ou consumir com alguns amigos ele deve fingir algo que não é, com os rolezinhos ele afirma aquilo que é!
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| por Renato Souza de Almeida |
“Sair de rolê...” significa dar uma circulada despretensiosa pela vila ou pela cidade. É possível dar um rolê de trem, de ônibus ou a pé. Geralmente, o rolê está ligado ao lazer ou a alguma prática cultural. Sai de rolê o pichador, o skatista, o caminhante... O que vem chamando a atenção de muita gente é como um simples gesto de sair e circular de forma livre tem ocupado um papel central nas principais mobilizações juvenis na cidade de São Paulo nos últimos tempos. Não é por menos que o estopim das manifestações de junho foi a luta do Movimento Passe Livre (MPL). O passe livre é uma reivindicação em favor da possibilidade de dar um rolê sem que a catraca – e o tributo que a acompanha – possa impedir. Quando a Polícia Militar decidiu impedir o rolê de uma pequena multidão na Avenida Paulista (ainda antes de as manifestações se alastrarem como chama pelo país), alguns dias depois uma imensa quantidade de pessoas tomou o Largo da Batata e seguiu de rolê para a mesma Avenida Paulista, para o Palácio dos Bandeirantes e para muitas outras ruas da cidade. O direito a dar um rolê foi a principal reivindicação daquele histórico movimento de junho de 2013. Quem não é mais jovem e sempre morou nas periferias de São Paulo, com raras exceções, vai se recordar que a rua era o espaço por excelência da sociabilidade, do lazer e da convivência. Com a chegada do asfalto, vieram também muitos carros e se instituiu como verdade o discurso de que a rua é lugar perigoso e violento. Para muitos adultos, as políticas culturais só se justificam se for para “tirar os jovens das ruas”. Para os jovens, ao contrário, suas ações culturais só têm força e sentido quando acontecem na rua, no espaço público. A condenação da rua como espaço da violência veio acompanhada da chegada dos shopping centers também às periferias. Muita gente vai ao shopping tentar encontrar um vazio deixado pelo “fim” das ruas. Para além do consumo, busca-se num shopping um passeio mais livre, solto, e a possibilidade de encontro com pessoas de fora do círculo mais próximo, familiar. No entanto, esse encontro não acontece. Tampouco a livre circulação. As pessoas só encontram uma multidão “sem rosto e coração” – nos dizeres dos Racionais MC’s –, e a circulação no interior do shopping não pode ocorrer de forma livre e espontânea. Ela tem regras claras e rígidas: os pobres podem circular pelo shopping, contanto que finjam pertencer a outra classe social. Mesmo que circulem no shopping sem recursos para consumir, eles devem desejar consumir. Da mesma forma, os negros podem circular pelo shopping tranquilamente, desde que finjam ser brancos nas vestimentas, nos cabelos, no comportamento etc. Os rolezinhos em shoppings – da periferia ou das áreas abastadas –, que se tornaram um fenômeno neste verão, têm características muito semelhantes com os pancadões de rua realizados de forma espontânea e congregam um número significativo de jovens que se reúnem, sobretudo, em torno da expressão cultural do funk. O polêmico e famigerado funk é um dos principais mobilizadores dos jovens na metrópole paulistana. E um dos segredos da sua força não está necessariamente no apelo sexual de algumas músicas ou na sua batida envolvente, mas na forma como ressignificouas ruas para esses jovens. “No dia em que tem pancadão, a rua é nossa!” E se a rua é “nossa”, pode-se fazer qualquer coisa, inclusive não fazer nada... E, se o “som é de preto, de favelado e, quando toca, ninguém fica parado”, não há necessidade de fingir ser outra coisa, como exigem os shoppings centers. Ao contrário, é um momento de afirmação dessa mesma identidade periférica. Nesse sentido, estar no shopping – no local que a sociedade estabeleceu para substituir a rua – é bastante provocador. Os rolezinhos levaram para dentro do paraíso do consumo a afirmação daquilo que esse mesmo espaço lhes nega: sua identidade periférica. Se quando o jovem vai ao shopping namorar ou consumir com alguns amigos ele deve fingir algo que não é, com os rolezinhos ele afirma aquilo que é! E quando faz essa afirmação ele revela a contradição na lógica dos shopping centers. Ou seja, os rolezinhos põem por terra a aparente circulação livre e o espaço aberto que os shoppings dizem proporcionar. Quando o jovem afirma, por meio do rolezinho, sua identidade de negro e pobre, a contradição se evidencia e a polícia é acionada, e tão logo o paraíso do consumo e do prazer se revela como o inferno do preconceito racial e da violência. Esses jovens que hoje mobilizam os rolezinhos são intitulados “geração shopping center”, consumista, por parte dos mais velhos. Porém, a prática dos rolezinhos nos shoppings está revelando a contradição mais aguda desse espaço que tentou tomar o locussimbólico da rua. Nos rolezinhos, os jovens não são consumidores, mas produtores. Produzem um novo jeito de circular pelo shopping. Produzem uma prática cultural que se contradiz com esse lugar. Produzem contradição e desordem no sistema. E produzem uma nova gramática política ao afirmar sua classe num espaço que existe para negá-la. É significativo que os rolezinhos nos shoppings se iniciem num momento em que um projeto de lei que proibia as festas de rua, sobretudo os bailes funks, apresentado por representantes da “bancada da bala”, se encontrava para sanção ou veto do prefeito. O prefeito vetou. Mas as ruas ainda estão longe de pertencer aos jovens. Por isso, os rolezinhos continuaram e aumentaram. Os jovens querem as ruas de volta. O pancadão é só um exemplo dessa demanda. Para demonstrarem que o desejo dos shoppings de assumir o lugar da rua fracassou, os jovens resolveram levar a rua para dentro dos próprios shoppings e escancararam a luta de classes na cidade. É como se o povo não estivesse mais na rua para exigir seus direitos. A própria rua virou um direito que esses jovens exigem. Uma das respostas encaminhadas pelo governo federal por conta das manifestações de junho foi a aprovação, no mês de agosto, do Estatuto da Juventude. Entre os “novos” direitos apontados em seus artigos, alguns enfatizam a importância da circulação e mobilidade dos jovens, seja no espaço urbano ou no campo. Esse direito, ao lado do direito à produção cultural e da ampliação dos espaços públicos de lazer, está no centro das reivindicações dos jovens, seja nos rolês nos shoppings ou nas jornadas das grandes avenidas.
Renato Souza de Almeida
Mestre em Antropologia, professor da Faculdade Paulista de Serviço Social (Fapss), assessor do Instituto Paulista de Juventude (IPJ) e coordenador do Programa de Valorização de Iniciativas Culturais (VAI) da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo.
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terça-feira, 25 de fevereiro de 2014
O rolezinho da juventude nas ruas do consumo e do protesto
domingo, 2 de fevereiro de 2014
Decifrando os rolezinhos
Decifrando os rolezinhos
| Autor(es): Denis Lerrer Rosenfield |
| O Globo - 27/01/2014 |
| Aquestão dos rolezinhos não deixa de
suscitar indagações, com diferentes atores políticos adotando posições
segundo as suas próprias conveniências, como se se tratasse de um
enigma de difícil decifração. Assim ocorre porque, no Brasil, tudo
aquilo que foge do controle governamental ou coloca uma pequena
dissidência em relação ao PT ou à mentalidade de esquerda reinante
termina se apresentando como um “enigma”. Nas jornadas de junho, foi mais fácil distinguir três momentos: a) primeiro, o das manifestações em sua irrupção, caracterizadas pela autonomia e espontaneidade, configurando uma expressão legítima da sociedade dizendo não às péssimas condições de mobilidade urbana, de saúde e educação. Ressaltava-se uma reação da sociedade, dizendo basta à corrupção e à malversação de recursos públicos; b) segundo, a instrumentalização desses grupos pelos movimentos sociais organizados, a saber, pelo MST e organizações afins, pela CUT e pelo PT, procurando apropriar-se deste movimento; c) a irrupção da violência, mais conhecida como ação dos black blocs, caracterizada pela ação radical de grupos de extrema-esquerda, tentando se apresentar como os verdadeiros protagonistas. A especificidade dos rolezinhos consiste em que os momentos “a” e “b” ocorreram quase simultaneamente, enquanto o momento “c” se encontra em gestação, podendo ou não surgir segundo o desenrolar dos acontecimentos. O momento “a” se caracterizaria pela participação, digamos, espontânea de jovens dos subúrbios, tentando “ocupar” os shopping centers, como se estes fossem lugares públicos equivalentes a ruas e praças. Ocorre que essas manifestações foram praticamente simultâneas às dos movimentos sociais organizados, como o dos sem teto, que é um braço urbano do MST, e por diferentes grupos de extrema-esquerda. Houve, por assim dizer, uma confluência entre esses dois processos, fazendo com que coincidissem. Note-se que, nas jornadas de junho, os jovens se manifestaram nas ruas, que é o local mais adequado para esse tipo de mobilização. Não houve, em seu primeiro momento, nenhuma conotação anticapitalista, mas sim, pelo contrário, uma indignação apartidária em relação aos governos federal, estaduais e municipais, pela péssima qualidade dos serviços públicos. Ademais, havia uma clara insatisfação em relação aos partidos políticos e movimentos sociais organizados. Agora, há uma diferença essencial. As manifestações estão sendo feitas em shopping centers, que são locais privados, empresariais. Isto é, os manifestantes, mesmo os genuínos rolezinhos, apesar de gostarem de roupas de grife, já se dirigem a estabelecimentos privados, apagando a distinção entre o público e o privado. De um lado, identificam-se com a economia de mercado e o consumo, procurando ter mais de seus produtos; são pró-capitalistas nesta perspectiva. De outro lado, não respeitam a propriedade privada. Neste sentido, eles se tornam uma massa de manobra de alto potencial de manipulação, pois são mais facilmente dirigidos contra um “símbolo” do capitalismo e do consumo, como que é o caso dos shopping centers. Observe-se que os representantes da esquerda governamental logo fizeram declarações contra a “discriminação racial”, a favor dos “excluídos” que não seriam tolerados pelas “elites”, contra os “conservadores” e assim por diante. Eles procuraram imediatamente se colocar junto aos “rolezinhos” visando a cooptá-los e, na verdade, a arregimentá-los às suas hostes. Estaria em curso um processo de apropriação dos rolezinhos na perspectiva dos movimentos sociais organizados, estilo sem-teto/MST, CUT, UNE e outros congêneres. O que está hoje em foco é toda uma campanha de formação da opinião pública de parte desses grupos mais à esquerda, visando a criar uma mentalidade contrária aos shopping centers, que sirva de base às ações de ocupação/invasão. É como se os shoppings se colocassem de forma contrária à liberdade constitucional de ir e vir. Vejamos os termos desta falácia: — Corredores de shoppings não podem ser equiparados a ruas ou praças, os primeiros sendo locais que pertencem a empresas, enquanto os segundos são locais públicos. Não se pode confundir um local com acesso público com um local público. — Se os corredores de shoppings são “ocupados” por correrias e grupos de centenas ou milhares de pessoas correndo de um lugar para outro, os frequentadores habituais desses estabelecimentos privados não possuem mais nenhuma liberdade de ir e vir. — Corredores de shoppings não são pensados como locais para manifestações públicas, estando voltados para sua atividade fim, que é comercial. Não se pode a eles aplicar a lógica das ruas e praças que obedecem, isto sim, a outras finalidades. — Mesmo no caso de ruas, por exemplo, o Poder Público não permite que elas sejam aleatoriamente “ocupadas” por centenas e milhares de manifestantes, precisamente por impedirem a liberdade de ir e vir de outros cidadãos. Se isto não vale nem para as ruas, por que valeria para os shoppings? — Os tumultos ocasionados por essas manifestações em shoppings, além de desrespeitarem a liberdade de ir e vir dos frequentadores habituais de shoppings, podem suscitar medo em pessoas que lá passeiam com crianças. O mesmo ocorre com idosos, que podem se sentir ameaçados por jovens que correm de um lugar para outro. Há uma questão da maior relevância, relativa à construção e arquitetura dos shoppings, planejados para serem visitados por um número médio determinado de pessoas, segundo um desenho específico. Não são pensados para abrigarem manifestações públicas. A sua arquitetura não permite uma invasão de milhares de pessoas para correrem em seus interiores, cantando e criando tumulto. Para este efeito, não importa que sejam jovens, idosos, brancos, negros, homens ou mulheres. Não há aqui nenhuma questão de discriminação, mas tão somente de quantidade e de forma de manifestação. Cuidado com a ótica ideológica, ela pode obliterar a visão! |
Gilberto Carvalho critica repressão policial e postura de empresários aos rolezinhos
Gilberto Carvalho critica repressão policial e postura de empresários aos rolezinhos
| O Globo - 17/01/2014 |
| Em Pernambuco para o 3° Encontro da
Juventude Camponesa, o ministro da Secretaria-Geral da Presidência da
República, Gilberto Carvalho, defendeu o movimento denominado
“rolezinhos” e criticou a repressão policial aos atos e a postura
inadequada dos proprietários de lojas e shopping centers. Para o
ministro, a ação da polícia tem sido inadequada e coloca “gasolina no
fogo”. — A ação inadequada da polícia acaba colocando gasolina no fogo - disse Carvalho, que defendeu o acesso dos jovens de periferia ao lazer: — Esses jovens de periferia também têm direito à diversão e lazer. Se trata de mais um desses passos que a sociedade vai dando — disse para logo em seguida criticar também a inadequada postura dos empresários de querer bloquear a entrada desses jovens de periferia nos shopping centers. — Eu não tenho dúvida que isso está errado. Para mim é, no mínimo, inconstitucional. Qual o critério que você vai selecionar uma pessoa da outra? É a cor, é o tipo de roupa que veste? Tudo isso implica no preconceito, no pré-julgamento de uma pessoa e fere a Constituição e o Instituto da Criança e do Adolescente ao lazer — defendeu Carvalho.
Dilma está atenta aos jovens da periferia, diz ministro
O ministro também pediu cautela no tratamento dado ao movimento e afirmou que a presidente Dilma Rousseff (PT) está atenta ao assunto ligados aos jovens de periferias. — Não dá para embarcar nessa história de repressão, temos que fazer uma aproximação progressiva e com humildade para tentar entendê-los [os jovens] e procurar manter um diálogo para que os jovens conquistem aquilo que desejam. Se é o lazer o que eles mais desejam, o encontro, vamos trabalhar para que eles tenham esses espaços. Se é direito à igualdade de ir e vir, eles têm esse direito — pontuou Carvalho, fazendo referência ao posicionamento da presidente sobre os rolezinhos. A proliferação dos rolezinhos em São Paulo pôs em evidência jovens, entre 15 e 20 anos, moradores da periferia paulistana. Todos têm perfis no Facebook, mas quase nunca informam o que fazem, tampouco onde estudam. Costumam tratar esses detalhes com ironia. Dizem que trabalham na empresa VASP (Vagabundos Anônimos Sustentados pelos Pais), ou que são sócios do Neymar. São fãs de funk ostentação, com letras que enaltecem o consumo de luxo. Tênis de grife, bonés e correntes ganham espaço de honra nos álbuns de fotos nas redes sociais. Além dos shopping centers, o movimento também está sendo realizado em parques. Os eventos são marcados para os finais de semana. Um dos rolezinhos marcados para um parque de São Paulo já tem mais de 1.800 pessoas confirmadas. Outro “rolê”, agendado para o aniversário da cidade, em 25 de janeiro, já contava, até esta segunda-feira, com 1.050 confirmações. Na internet, o fato de os shopping centers entrarem na Justiça acabou fomentando as discussões nas redes sociais. No Facebook, há pelo menos 13 rolês marcados até o início de fevereiro em estabelecimentos e parques de São Paulo e da região metropolitana. Também foram agendados eventos que ironizam a situação, como os “rolês” da classe média às favelas. |
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