| O rolezinho da juventude nas ruas do consumo e do protesto |
Le Monde Diplomatique Brasil
Os “rolezinhos” levaram para dentro do paraíso do consumo a afirmação daquilo que esse mesmo espaço lhes nega: sua identidade periférica. Se quando o jovem vai ao shopping namorar ou consumir com alguns amigos ele deve fingir algo que não é, com os rolezinhos ele afirma aquilo que é!
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| por Renato Souza de Almeida |
“Sair de rolê...” significa dar uma circulada despretensiosa pela vila ou pela cidade. É possível dar um rolê de trem, de ônibus ou a pé. Geralmente, o rolê está ligado ao lazer ou a alguma prática cultural. Sai de rolê o pichador, o skatista, o caminhante... O que vem chamando a atenção de muita gente é como um simples gesto de sair e circular de forma livre tem ocupado um papel central nas principais mobilizações juvenis na cidade de São Paulo nos últimos tempos. Não é por menos que o estopim das manifestações de junho foi a luta do Movimento Passe Livre (MPL). O passe livre é uma reivindicação em favor da possibilidade de dar um rolê sem que a catraca – e o tributo que a acompanha – possa impedir. Quando a Polícia Militar decidiu impedir o rolê de uma pequena multidão na Avenida Paulista (ainda antes de as manifestações se alastrarem como chama pelo país), alguns dias depois uma imensa quantidade de pessoas tomou o Largo da Batata e seguiu de rolê para a mesma Avenida Paulista, para o Palácio dos Bandeirantes e para muitas outras ruas da cidade. O direito a dar um rolê foi a principal reivindicação daquele histórico movimento de junho de 2013. Quem não é mais jovem e sempre morou nas periferias de São Paulo, com raras exceções, vai se recordar que a rua era o espaço por excelência da sociabilidade, do lazer e da convivência. Com a chegada do asfalto, vieram também muitos carros e se instituiu como verdade o discurso de que a rua é lugar perigoso e violento. Para muitos adultos, as políticas culturais só se justificam se for para “tirar os jovens das ruas”. Para os jovens, ao contrário, suas ações culturais só têm força e sentido quando acontecem na rua, no espaço público. A condenação da rua como espaço da violência veio acompanhada da chegada dos shopping centers também às periferias. Muita gente vai ao shopping tentar encontrar um vazio deixado pelo “fim” das ruas. Para além do consumo, busca-se num shopping um passeio mais livre, solto, e a possibilidade de encontro com pessoas de fora do círculo mais próximo, familiar. No entanto, esse encontro não acontece. Tampouco a livre circulação. As pessoas só encontram uma multidão “sem rosto e coração” – nos dizeres dos Racionais MC’s –, e a circulação no interior do shopping não pode ocorrer de forma livre e espontânea. Ela tem regras claras e rígidas: os pobres podem circular pelo shopping, contanto que finjam pertencer a outra classe social. Mesmo que circulem no shopping sem recursos para consumir, eles devem desejar consumir. Da mesma forma, os negros podem circular pelo shopping tranquilamente, desde que finjam ser brancos nas vestimentas, nos cabelos, no comportamento etc. Os rolezinhos em shoppings – da periferia ou das áreas abastadas –, que se tornaram um fenômeno neste verão, têm características muito semelhantes com os pancadões de rua realizados de forma espontânea e congregam um número significativo de jovens que se reúnem, sobretudo, em torno da expressão cultural do funk. O polêmico e famigerado funk é um dos principais mobilizadores dos jovens na metrópole paulistana. E um dos segredos da sua força não está necessariamente no apelo sexual de algumas músicas ou na sua batida envolvente, mas na forma como ressignificouas ruas para esses jovens. “No dia em que tem pancadão, a rua é nossa!” E se a rua é “nossa”, pode-se fazer qualquer coisa, inclusive não fazer nada... E, se o “som é de preto, de favelado e, quando toca, ninguém fica parado”, não há necessidade de fingir ser outra coisa, como exigem os shoppings centers. Ao contrário, é um momento de afirmação dessa mesma identidade periférica. Nesse sentido, estar no shopping – no local que a sociedade estabeleceu para substituir a rua – é bastante provocador. Os rolezinhos levaram para dentro do paraíso do consumo a afirmação daquilo que esse mesmo espaço lhes nega: sua identidade periférica. Se quando o jovem vai ao shopping namorar ou consumir com alguns amigos ele deve fingir algo que não é, com os rolezinhos ele afirma aquilo que é! E quando faz essa afirmação ele revela a contradição na lógica dos shopping centers. Ou seja, os rolezinhos põem por terra a aparente circulação livre e o espaço aberto que os shoppings dizem proporcionar. Quando o jovem afirma, por meio do rolezinho, sua identidade de negro e pobre, a contradição se evidencia e a polícia é acionada, e tão logo o paraíso do consumo e do prazer se revela como o inferno do preconceito racial e da violência. Esses jovens que hoje mobilizam os rolezinhos são intitulados “geração shopping center”, consumista, por parte dos mais velhos. Porém, a prática dos rolezinhos nos shoppings está revelando a contradição mais aguda desse espaço que tentou tomar o locussimbólico da rua. Nos rolezinhos, os jovens não são consumidores, mas produtores. Produzem um novo jeito de circular pelo shopping. Produzem uma prática cultural que se contradiz com esse lugar. Produzem contradição e desordem no sistema. E produzem uma nova gramática política ao afirmar sua classe num espaço que existe para negá-la. É significativo que os rolezinhos nos shoppings se iniciem num momento em que um projeto de lei que proibia as festas de rua, sobretudo os bailes funks, apresentado por representantes da “bancada da bala”, se encontrava para sanção ou veto do prefeito. O prefeito vetou. Mas as ruas ainda estão longe de pertencer aos jovens. Por isso, os rolezinhos continuaram e aumentaram. Os jovens querem as ruas de volta. O pancadão é só um exemplo dessa demanda. Para demonstrarem que o desejo dos shoppings de assumir o lugar da rua fracassou, os jovens resolveram levar a rua para dentro dos próprios shoppings e escancararam a luta de classes na cidade. É como se o povo não estivesse mais na rua para exigir seus direitos. A própria rua virou um direito que esses jovens exigem. Uma das respostas encaminhadas pelo governo federal por conta das manifestações de junho foi a aprovação, no mês de agosto, do Estatuto da Juventude. Entre os “novos” direitos apontados em seus artigos, alguns enfatizam a importância da circulação e mobilidade dos jovens, seja no espaço urbano ou no campo. Esse direito, ao lado do direito à produção cultural e da ampliação dos espaços públicos de lazer, está no centro das reivindicações dos jovens, seja nos rolês nos shoppings ou nas jornadas das grandes avenidas.
Renato Souza de Almeida
Mestre em Antropologia, professor da Faculdade Paulista de Serviço Social (Fapss), assessor do Instituto Paulista de Juventude (IPJ) e coordenador do Programa de Valorização de Iniciativas Culturais (VAI) da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo.
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terça-feira, 25 de fevereiro de 2014
O rolezinho da juventude nas ruas do consumo e do protesto
Senado quer igualar black blocs a terroristas
Senado quer igualar black blocs a terroristas
| Jornal de Brasília - 11/02/2014 |
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Senadores chegaram a defender que se use a norma para enquadrar ações de vandalismo e depredação cometidas pelos integrantes dos movimentos nas diversas manifestações de rua. Atualmente, não há legislação específica para o crime de terrorismo. Sem uma lei, crimes têm sido enquadrados na Lei de Segurança Nacional, da época da ditadura militar.
Renan Calheiros disse que o Congresso vai fazer "a sua parte" para aumentar a pena de quem comete tais atos, a fim de inibi-los. "Quando você pune levemente, você passa para a sociedade a ideia de que o crime compensa. E o crime não pode jamais compensar", afirmou.
"Foi, sim, uma ação terrorista o que nós vimos na manifestação", protestou o primeiro vice-presidente do Senado, Jorge Viana (PT-AC). Pela proposta que deve ir a votação, o crime de terrorismo será punido com 15 a 30 anos de prisão em regime fechado. As penas poderão ser elevadas nos casos em que tenha ocorrido morte e uso de artefato explosivo, como no caso envolvendo o cinegrafista. Se aprovado pelo Senado, o texto terá ainda de passar pela Câmara dos Deputados.
Dar um ‘basta’.
O Conselho de Comunicação Social do Congresso também cobrou dos governos federal e estaduais "medidas urgentes" para garantir a integridade física dos profissionais de imprensa. "No presente e no futuro, é preciso dar um basta a esta crescente violência contra jornalistas, radialistas e outros comunicadores para garantir o direito do cidadão à informação", diz a nota de repúdio do órgão, que foi entregue ao presidente do Senado.
domingo, 2 de fevereiro de 2014
Especialistas rejeitam "cartilha antiprotesto"
Especialistas rejeitam "cartilha antiprotesto"
| Correio Braziliense - 24/01/2014 |
A
portaria que o Ministério da Justiça (MJ) vai publicar para
regulamentar o uso das tropas de choque durante manifestações populares é
vista por especialistas em segurança pública como desnecessária e até
mesmo prejudicial em algumas situações. Segundo estudiosos ouvidos pelo
Correio, as normas contidas na proposta apenas repetem o que as forças
policiais já sabem e são treinadas para fazer. "A cartilha serve apenas
para o governo brasileiro dar uma satisfação à comunidade internacional,
mostrando que está preocupado em enfrentar os distúrbios nas ruas (para
a Copa do Mundo, por exemplo)", avalia o cientista político com estudos
na área de segurança pública Antônio Flávio Testa.
Na
edição de ontem, o Correio mostrou os principais pontos do documento,
elaborado pelo Conselho Nacional de Comandantes Gerais de Policias
Militares (CNCG) e pela Secretaria Nacional de Segurança Pública
(Senasp), do MJ. A proposta de minuta detalha o uso de armas não letais,
a organização de centros de controle e até mesmo equipamentos que devem
ser disponibilizados aos policiais.
Depois
da publicação da minuta, a Secretaria Nacional de Segurança Pública do
Ministério da Justiça (Senasp) informou, em nota, que ainda estão sendo
realizados estudos para a padronização do trabalho operacional das
instituições policiais. "Tal iniciativa, ainda em elaboração, não tem
como objetivo nem diretriz coibir legítimas manifestações e protestos de
rua", ressaltou.
"Falácia"
Para o ex-superintendente da Polícia Federal em Brasília Daniel Sampaio, as autoridades estão "assustadas" com os protestos que ocorreram durante a Copa das Confederações, mas erram ao preparar um documento com essas diretrizes. "Elas estão preocupados com as normas de repressão a esses movimentos, mas esse documento é, na realidade, uma falácia. Não se pode engessar o comando, não se pode dizer como a pessoa (polícia) vai atuar. Cada situação se apresenta de maneira diferente, com soluções diferenciadas para casa caso", defende.
Alvo
de abusos em alguns protestos realizados no ano passado, os
profissionais da imprensa também ganharam destaque no documento do
Ministério da Justiça. A minuta estabelece que, "aos repórteres,
fotógrafos e demais profissionais de comunicação, deve ser permitido o
livre exercício de suas profissões, sendo vedado qualquer óbice às
atuações, desde que as atividades não comprometam a integridade física
própria ou de outrem".
A
minuta determina ainda que as tropas de choque só poderão ser
utilizadas depois de "esgotadas as tentativas de negociação ou de
contenção inicial realizadas pelo policiamento regular". Armas não
letais, já usadas pela polícia em manifestações, como teaser, jatos
d"água, bombas de efeito moral, de gás lacrimogêneo e balas de borracha
continuam liberadas para utilização da força policial.
Em
protestos com grande número de participantes, as forças de segurança
deverão estabelecer "Centros de Comando e Controle", afastados das
manifestações. Os locais servirão também para receber manifestantes
detidos e oferecer atendimento médico aos feridos. Com a edição da
portaria, as polícias poderão passar a fazer a segurança dentro dos
estádios de futebol.
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quinta-feira, 28 de novembro de 2013
Comércio boicota senadores como protesto no Paraguai
Folha de São Paulo 28/11/2013
O "gigante acordou" no Paraguai. O país vive uma onda de protestos como os que ocorreram no Brasil, em junho. A novidade na "primavera paraguaia" é a adesão de restaurantes, shoppings, postos de gasolina e até taxistas às reclamações pelo fim da corrupção no país.
Desde o dia 15, quando houve uma grande passeata em Assunção, teve início um inédito "protesto gastronômico", com restaurantes e cafés informando que não aceitariam a presença de nenhum dos 23 senadores que votaram contra a perda de imunidade parlamentar do colega Víctor Bogado, do governista Partido Colorado.
| Reprodução | ||
| Em cartaz, oficina hidráulica recusa serviço a senadores |
Na sessão em que o Senado decidiu se Bogado poderia ser processado pelo caso, 23 dos 45 senadores, incluindo o acusado, disseram que não. Como o voto no país é aberto, os cidadãos ficaram sabendo quem não optou pela perda da imunidade.
A churrascaria Un Toro y Siete Vacas, famosa em Assunção, foi a primeira a colocar um aviso de que se reservava o direito de não aceitar a presença dos senadores que votaram a favor de Bogado. Depois, outros estabelecimentos fizeram o mesmo.
A La Pizza Nostra fez um cartaz com a imagem de Vito Corleone, de "O Poderoso Chefão", com os dizeres: "Ei, senadores que não votaram pelo fim da imunidade, a Cosa Nostra [máfia retratada no filme] não lhes admitirá na Pizza Nostra".
Até um salão de beleza entrou na onda do protesto. Mas, diferentemente dos outros locais, o Raio Bemba não proibiu a entrada dos senadores. "São bem-vindos, contanto que nos deixem massagear suas ideias e renovar suas cabeças", diz um cartaz com a foto dos 23, cada um com um penteado diferente.
"Pela primeira vez a sociedade paraguaia foi honesta em sua visão política. Estamos acordando para nossos problemas ", disse à Folha o dono do salão, Tote Pascual.
A pressão das ruas deu resultado. O grupo dos 23 decidiu rever sua posição e deve votar pela perda da imunidade de Bogado em nova votação, marcada para hoje.
sábado, 6 de julho de 2013
MAIS DE 1 MILHÃO VAI ÀS RUAS NO PAÍS; VIOLÊNCIA MARCA PROTESTOS
MAIS DE 1 MILHÃO VAI ÀS RUAS NO PAÍS; VIOLÊNCIA MARCA PROTESTOS
| UM MILHÃO DE PESSOAS PROTESTAM EM 75 CIDADES; 1 MORREU EM RIBEIRÃO PRETO |
| O Estado de S. Paulo - 21/06/2013 |
Em Brasília, a polícia reprimiu tentativa de invasão do Itamaraty. 22 ficaram feridos no Rio. Uma pessoa morreu atropelada em Ribeirão Preto • Em São Paulo, houve incidentes entre militantes do PT e manifestantes. Mesmo após a redução das tarifas de transporte público em 12 capitais e em dezenas de municípios, novas manifestações levaram ontem mais de 1 milhão de pessoas às ruas de 75 cidades do País. A violência marcou os protestos em diversos pontos. Uma pessoa morreu atropelada em Ribeirão Preto (SP). Em Brasília houve tentativa de invasão do Palácio do Itamaraty. Manifestantes se aglomeraram na rampa de acesso e tentaram invadir o edifício, mas foram contidos pela polícia. Em São Paulo, protestos tiveram incidentes entre manifestantes e militantes do PT, convocados para uma "onda vermelha", que fracassou. Cinco rodovias no entorno da capital foram bloqueadas. No Rio, confrontos deixaram 22 feridos. Em Porto Alegre houve saques a estabelecimentos comerciais. Em Salvador, manifestantes e Tropa de Choque entraram em confronto. Nas redes sociais, novas bandeiras eram discutidas. Em meio às reivindicações sociais e políticas, se destacou um slogan: "Sem partidos". (Págs. 1 e metrópole A11 a A24) Vladimir Palmeira, Economista e líder estudantil em 66 "A juventude brasileira começa a achar que pode construir um país melhor" • Mesmo com redução da tarifa, atos são violentos em diversos locais • Ao menos 96 pessoas se feriram no País • Em Brasília, multidão ateou fogo a colunas externas do Itamaraty e Esplanada dos Ministérios foi tomada por gás lacrimogêneo • Motorista irritado com manifestação atropelou e matou um no interior • Protesto em SP reuniu 100 mil • Multidão pede atos apartidários. Mesmo após a redução das tarifas de transporte público em 12 capitais – e em metade das cidades da Região Metropolitana de São Paulo -, novas manifestações levaram ontem mais de 1 milhão de pessoas às ruas de 75 cidades do País. E a violência voltou a se destacar: pela primeira vez desde o início das manifestações, há 15 dias, uma morte foi registrada, quando um motorista avançou sobre um manifestante em Ribeirão Preto. Pelo menos outras 96 pessoas ficaram feridas, 62 só no Rio. Em Brasília, 12 foram hospitalizados. A cena que mais chamou a atenção, à noite, foi a tentativa de invasão do Palácio do Itamaraty, em Brasília. A polícia tentou conter os invasores com gás, mas o prédio teve janelas quebradas e focos externos de incêndio. Além disso, a paisagem da Esplanada dos Ministérios foi tomada pelo gás lacrimogêneo e até a Catedral se tornou alvo de vândalos. Após duas semanas de protestos, foi o ataque mais violento a um centro de poder. Antes, o Congresso Nacional, a Assembleia Legislativa do Rio, o Palácio dos Bandeirantes e o Edifício Matarazzo (sede da Prefeitura de São Paulo) haviam sido alvo de protestos. Ontem, com novas bandeiras para o movimento sendo discutidas no Twitter e no Facebook e em meio às reivindicações sociais e políticas diversas que eram ouvidas, um novo grito destacou-se: "sem partidos". Integrantes dessas agremiações foram proibidos de erguer bandeiras por todo o País e o PT viu fracassar a convocação de sua "onda vermelha". Houve confronto até entre manifestantes dos "sem partido" e os do "sem fascismo". Mas o caráter multifacetado do movimento já preocupa especialistas e analistas políticos, que falam em "mal-estar" da democracia no Brasil. Em São Paulo, a manifestação chegou à Câmara, à Assembleia e à sede da Prefeitura, mas sem confrontos – na Paulista, o tom de festa venceu. No entanto, as consequências da redução de tarifa ainda eram avaliadas por Fernando Haddad (PT), que passou o dia refazendo contas. Há pelo menos três hipóteses para cobrir o deficit financeiro provocado pela revogação do aumento da tarifa. De certo, o governo municipal aponta que o ritmo dos investimentos na cidade vai cair. Ainda ontem, a Justiça de São Paulo mandou soltar os quatro estudantes do Mackenzie e outras dez pessoas presas em flagrante e acusados de atos de vandalismo nos protestos de terça-feira, na região da Avenida Paulista. Eles ainda vão responder por formação de quadrilha, resistência, crime de dano, desacato e incêndio. Já a Prefeitura vai cobrar do estudante de Arquitetura Pierre Ramon Alves de Oliveira, de 20 anos, os danos que confessou ter causado à sede do Executivo municipal, na tentativa de invasão, na terça-feira. |
quinta-feira, 20 de junho de 2013
Após redução da tarifa, atos são mantidos
Após redução da tarifa, atos são mantidos
Além de São Paulo e Rio, mais de 80 cidades do País realizam manifestações nesta quinta-feira 20
Mídia NINJA
Mais de 80 cidades serão palco de protestos pelo
Brasil nesta quinta-feira 20. Os atos, convocados inicialmente contra o
aumento das tarifas e as más condições do transporte público, continuam
mantidos mesmo depois de cidades como São Paulo e Rio de Janeiro
terem anunciado a redução da passagem na quarta-feira 19. Os
manifestantes são chamados às ruas para comemorar as vitórias e
fortalecer as manifestações das outras cidades do País que ainda não
tiveram as reduções anunciadas.
Em São Paulo, a manifestação partirá da Praça do Ciclista, às 17 horas. A página do evento no Facebook tem mais de 179 mil confirmados. No interior, outras 19 cidades terão protestos: Adamantina, Americana, Botucatu, Campinas - com mais de 60 mil confirmados nas redes sociaiso maior número de adeptos depois da capital -, Caraguatatuba, Cruzeiro, Franca, Guaratinguetá, Ilhabela, Ilha Solteira, Indaiatuba, Itu, Jaú, Jundiaí, Lorena, Nova Odessa, Piracicaba, Ribeirão Preto, Rio Claro, Santos, São Carlos, São José dos Campos, Sertãozinho, Sorocaba e Taubaté.
No Rio de Janeiro, mais de 200 mil pessoas confirmaram a participação em eventos organizados pelo Facebook. O ponto de partida será a Candelária. Campos dos Goytacazes, Macaé, Resende, Saquarema, Volta Redonda também terão protestos.
Em Vitória, capital capixaba, a concentração será na Universidade Federal no Espírito Santo (UFES). Já em Belo Horizonte, onde os últimos protestos foram marcados por confronto entre policiais e manifestantes, o um terceiro grande ato está marcado para esta quinta-feira, com centração na Praça 7. Araguari, Diamantina, Itajaí, Itajubá, Itaúna, Lavras, Muriaé, Poços de Caldas, Ribeirão das Neves, Uberlândia também têm protesto agendados.
Na Bahia, diversos protestos aconteceram na quarta-feira 19, dentre elas Itabuna e Vitória da Conquista. Moradores da capital Salvador se mobilizam nesta quinta-feira 20. Em Amargosa, Barreiras, Feira de Santana, Ilhéus, Ipiaú, Itaberaba, Jequié, Porto Seguro. Juazeiro e Petrolina haverá uma manifestação conjunta programada. - 53
No Rio Grande do Norte, a previsão é que manifestações tomem as ruas de Natal, em Mossoró e Parnamirim. Já em João Pessoa, apesar do anúncio da redução da tarifa a partir do dia 1º de julho, de 2,30 reais para 2,20 reais, haverá protesto nesta quinta-feira 20. A organização do evento chama para o ato dizendo que outras bandeiras precisam ser carregadas, dentre elas o passe livre para estudantes, desempregados e grupos vulneráveis e a melhoria no serviço dos transportes públicos.
Em Maceió, capital alagoana, a concentração acontecerá na Praça Centenário, a partir das 17 horas. Já no Recife mais de 90 mil estão confirmados para o protesto desta quinta-feira 20. Em Pernambuco, a cidade de Garanhuns também se mobiliza nesta quinta. - 60
Na região Sul, protestos estão previstos nas cidades catarinenses de: Blumenau, Curitibanos, Jaraguá do Sul, Joinville, Lages, Rio do Sul, Xanxerê e Florianópolis. No Rio Grande do Sul, manifestações estão programadas para ocorrer em Alegrete, Jaguarão, Passo Fundo, Pelotas e Rio Grande. No Paraná, mais de 96 mil pessoas confirmaram presença em ao menos dois atos marcados para esta quinta 20 e sexta-feira 21 na capital, Curitiba, além de protestos nas cidades de Cascavel, Cornélio Procópio e Irati. Em Manaus, cerca de 50 mil manifestantes confirmados pedirão a redução das passagens para 2 reais e o passe livre estudantil.
Em Palmas, no Tocantins, manifestantes se reunirão na Praça dos Girassóis. Em Brasília, a concentração foi chamada para partir da rodoviária do Plano Piloto, enquanto em Goiânia já são cerca de 60 mil confirmados.
A previsão é que as capitais de Porto Velho, Fortaleza, Cuiabá, Aracaju também tenham protestos nesta quinta-feira 20.
Em São Paulo, a manifestação partirá da Praça do Ciclista, às 17 horas. A página do evento no Facebook tem mais de 179 mil confirmados. No interior, outras 19 cidades terão protestos: Adamantina, Americana, Botucatu, Campinas - com mais de 60 mil confirmados nas redes sociaiso maior número de adeptos depois da capital -, Caraguatatuba, Cruzeiro, Franca, Guaratinguetá, Ilhabela, Ilha Solteira, Indaiatuba, Itu, Jaú, Jundiaí, Lorena, Nova Odessa, Piracicaba, Ribeirão Preto, Rio Claro, Santos, São Carlos, São José dos Campos, Sertãozinho, Sorocaba e Taubaté.
No Rio de Janeiro, mais de 200 mil pessoas confirmaram a participação em eventos organizados pelo Facebook. O ponto de partida será a Candelária. Campos dos Goytacazes, Macaé, Resende, Saquarema, Volta Redonda também terão protestos.
Em Vitória, capital capixaba, a concentração será na Universidade Federal no Espírito Santo (UFES). Já em Belo Horizonte, onde os últimos protestos foram marcados por confronto entre policiais e manifestantes, o um terceiro grande ato está marcado para esta quinta-feira, com centração na Praça 7. Araguari, Diamantina, Itajaí, Itajubá, Itaúna, Lavras, Muriaé, Poços de Caldas, Ribeirão das Neves, Uberlândia também têm protesto agendados.
Na Bahia, diversos protestos aconteceram na quarta-feira 19, dentre elas Itabuna e Vitória da Conquista. Moradores da capital Salvador se mobilizam nesta quinta-feira 20. Em Amargosa, Barreiras, Feira de Santana, Ilhéus, Ipiaú, Itaberaba, Jequié, Porto Seguro. Juazeiro e Petrolina haverá uma manifestação conjunta programada. - 53
No Rio Grande do Norte, a previsão é que manifestações tomem as ruas de Natal, em Mossoró e Parnamirim. Já em João Pessoa, apesar do anúncio da redução da tarifa a partir do dia 1º de julho, de 2,30 reais para 2,20 reais, haverá protesto nesta quinta-feira 20. A organização do evento chama para o ato dizendo que outras bandeiras precisam ser carregadas, dentre elas o passe livre para estudantes, desempregados e grupos vulneráveis e a melhoria no serviço dos transportes públicos.
Em Maceió, capital alagoana, a concentração acontecerá na Praça Centenário, a partir das 17 horas. Já no Recife mais de 90 mil estão confirmados para o protesto desta quinta-feira 20. Em Pernambuco, a cidade de Garanhuns também se mobiliza nesta quinta. - 60
Na região Sul, protestos estão previstos nas cidades catarinenses de: Blumenau, Curitibanos, Jaraguá do Sul, Joinville, Lages, Rio do Sul, Xanxerê e Florianópolis. No Rio Grande do Sul, manifestações estão programadas para ocorrer em Alegrete, Jaguarão, Passo Fundo, Pelotas e Rio Grande. No Paraná, mais de 96 mil pessoas confirmaram presença em ao menos dois atos marcados para esta quinta 20 e sexta-feira 21 na capital, Curitiba, além de protestos nas cidades de Cascavel, Cornélio Procópio e Irati. Em Manaus, cerca de 50 mil manifestantes confirmados pedirão a redução das passagens para 2 reais e o passe livre estudantil.
Em Palmas, no Tocantins, manifestantes se reunirão na Praça dos Girassóis. Em Brasília, a concentração foi chamada para partir da rodoviária do Plano Piloto, enquanto em Goiânia já são cerca de 60 mil confirmados.
A previsão é que as capitais de Porto Velho, Fortaleza, Cuiabá, Aracaju também tenham protestos nesta quinta-feira 20.
Resistência passiva desafia o governo da Turquia
Resistência passiva desafia o governo da Turquia
Manifestantes adotam nova forma de protesto: ficar em
pé, imóveis, diante do retrato de Ataturk, fundador da República Turca.
Por Gianni Carta, de Istambul
por Gianni Carta
—
publicado
19/06/2013 19:39,
última modificação
20/06/2013 14:29
Gianni Carta
De Istambul
Praça Taksim, centro de Istambul, quarta-feira 19, 16h. É difícil fazer com que os chamados “homens de pé”, ou “pessoas de pé”, se exprimam.
Eles e elas aderiram, após três semanas de confrontos entre as forças policiais e manifestantes, a uma nova forma de manifestar: ficam de pé, imóveis, não se comunicam. Os olhares fixam o Centro Cultural Ataturk, onde jaz um conspícuo retrato do fundador da República Turca, em 1923: a de Mustafa Kemal Ataturk.
Trata-se de uma forma de resistência passiva, iniciada anteontem pelo coreógrafo Erdem Gunduz.
Através das redes sociais, a nova onda se esparramou país afora.
Um senhor de cabelos brancos, na Praça Taskim, me diz: “Não quero falar. Faço isso em honra do ‘homem de pé’”.
Outro, este com um violão, olhar fixo na imagem de Ataturk, aceita, com um aceno da cabeça, ser fotografado. Mas não quer falar.
E uma moça a ler de pé explica: “Estou lendo”.
O motivo pelo qual esses cidadãos protestam são claros.
O premier Recep Erdogan, há dez anos no poder, e líder do Partido de Justiça e Desenvolvimento (AKP), sigla de centro-direita com raízes islâmicas, “tornou-se um déspota nos últimos anos”, me disseram na noite de terça-feira um grupo de manifestantes.
Todos concordaram que nunca houve uma democracia plena na Turquia desde sua fundação, em 1923. Houve, afinal, quatro golpes militares desde os anos 1920.
“Mas houve liberdade”, diz um dos presentes.
Erdogan, apesar de ser um muçulmano conservador, parecia respeitar as regras de governos seculares estabelecidas por Ataturk. Nos últimos anos, contudo, o atual primeiro-ministro Erdogan parece ter tomado outro caminho.
Durante as últimas três semanas, grupos de manifestantes se expuseram a canhões d’água e gás lacrimogêneo. Berrak e Simla, duas jovens, estão na vanguarda desse movimento.
O motivo?
Simla: “Sempre soubemos que Erdogan tinha uma agenda islamita, mas agora está claro”.
Álcool não pode ser vendido entre as 22 horas e 6 da manhã. O beijo público está vetado, assim como as pílulas de aborto. O governo recomenda a cada casal ter no mínimo três filhos – e, nesta semana, Erdogan retificou o tiro: melhor ter cinco filhos. Mais: protestos são proibidos, mesmo que a Constituição os permita.
A mídia é controlada.
Por tabela, a base religiosa conservadora a apoiar Erdogan, tem acesso somente à mídia turca, e, assim, não sabe o que realmente acontece no país.
Os protestos pacíficos das últimas três semanas que levaram a polícia a atuar com inaudita brutalidade esmoreceram.
Houve, na quarta-feira, esparsos protestos país afora, mas nada similares aos violentos confrontos ocorridos nas últimas três semanas na Praça Taksim.
Eis o balanço: cinco mortos, centenas de feridos e milhares de presos e torturados.
“Fizemos o que pudemos. Temos de voltar à democracia”, observa Simla. “No entanto, agora sabemos o poder que temos. Erdogan pode latir, mas cão que ladra não morde. E poderemos voltar a agir quando for necessário.”
Berrak parece pronta a voltar a agir.
Ela sofre de asma, mas diz estar alerta para novos eventos. Na noite de sábado 15, apenas duas horas após o discurso de Erdogan, que parecia conciliatório com a oposição, a polícia atacou brutalmente a Praça Taksim.
Berrak teve um ataque de asma durante cinco minutos, mesmo com máscara. Pensou que fosse morrer. “Mas eu era outra pessoa, sentia que tinha uma missão.” E acrescenta: “E como não lutar contra um premier que nos chama de terroristas e lança gás lacrimogêneo de helicópteros?”
Finalmente, na Praça Taksim, encontro um casal de “silenciosos” a honrar “o homem de pé”, disposto a conceder uma entrevista.
Diz Menderes, diretor de uma loja, de 26 anos: “Estou aqui porque quero liberdade”. Sua companheira, Guliz, de 23 anos, trabalha na área de telemarketing. Ela diz: “Sou muçulmana praticante, mas acho que Erdogan está islamizando esse país”.
Indagado se eles não têm medo, visto que na terça-feira 18, 71 “pessoas de pé” na Praça Taksim foram presas por uma noite, o casal retruca em uníssono. “Não. E você não tem medo de nos entrevistar?”
Guliz diz se sentir mal por não ter podido participar das manifestações em Istambul. Ela não estava na cidade, “e por isso me senti frustrada”.
Por sua vez, Menderes, participou. Teve problemas de saúde, mas agora adotou esse novo método, “silencioso”, de manifestação.
Guliz e Menderes, como vários turcos, acreditam que têm de se exprimir para mudar o futuro “autocrático” da Turquia.
Praça Taksim, centro de Istambul, quarta-feira 19, 16h. É difícil fazer com que os chamados “homens de pé”, ou “pessoas de pé”, se exprimam.
Eles e elas aderiram, após três semanas de confrontos entre as forças policiais e manifestantes, a uma nova forma de manifestar: ficam de pé, imóveis, não se comunicam. Os olhares fixam o Centro Cultural Ataturk, onde jaz um conspícuo retrato do fundador da República Turca, em 1923: a de Mustafa Kemal Ataturk.
Trata-se de uma forma de resistência passiva, iniciada anteontem pelo coreógrafo Erdem Gunduz.
Através das redes sociais, a nova onda se esparramou país afora.
Um senhor de cabelos brancos, na Praça Taskim, me diz: “Não quero falar. Faço isso em honra do ‘homem de pé’”.
Outro, este com um violão, olhar fixo na imagem de Ataturk, aceita, com um aceno da cabeça, ser fotografado. Mas não quer falar.
E uma moça a ler de pé explica: “Estou lendo”.
O motivo pelo qual esses cidadãos protestam são claros.
O premier Recep Erdogan, há dez anos no poder, e líder do Partido de Justiça e Desenvolvimento (AKP), sigla de centro-direita com raízes islâmicas, “tornou-se um déspota nos últimos anos”, me disseram na noite de terça-feira um grupo de manifestantes.
Todos concordaram que nunca houve uma democracia plena na Turquia desde sua fundação, em 1923. Houve, afinal, quatro golpes militares desde os anos 1920.
“Mas houve liberdade”, diz um dos presentes.
Erdogan, apesar de ser um muçulmano conservador, parecia respeitar as regras de governos seculares estabelecidas por Ataturk. Nos últimos anos, contudo, o atual primeiro-ministro Erdogan parece ter tomado outro caminho.
Durante as últimas três semanas, grupos de manifestantes se expuseram a canhões d’água e gás lacrimogêneo. Berrak e Simla, duas jovens, estão na vanguarda desse movimento.
O motivo?
Simla: “Sempre soubemos que Erdogan tinha uma agenda islamita, mas agora está claro”.
Álcool não pode ser vendido entre as 22 horas e 6 da manhã. O beijo público está vetado, assim como as pílulas de aborto. O governo recomenda a cada casal ter no mínimo três filhos – e, nesta semana, Erdogan retificou o tiro: melhor ter cinco filhos. Mais: protestos são proibidos, mesmo que a Constituição os permita.
A mídia é controlada.
Por tabela, a base religiosa conservadora a apoiar Erdogan, tem acesso somente à mídia turca, e, assim, não sabe o que realmente acontece no país.
Os protestos pacíficos das últimas três semanas que levaram a polícia a atuar com inaudita brutalidade esmoreceram.
Houve, na quarta-feira, esparsos protestos país afora, mas nada similares aos violentos confrontos ocorridos nas últimas três semanas na Praça Taksim.
Eis o balanço: cinco mortos, centenas de feridos e milhares de presos e torturados.
“Fizemos o que pudemos. Temos de voltar à democracia”, observa Simla. “No entanto, agora sabemos o poder que temos. Erdogan pode latir, mas cão que ladra não morde. E poderemos voltar a agir quando for necessário.”
Berrak parece pronta a voltar a agir.
Ela sofre de asma, mas diz estar alerta para novos eventos. Na noite de sábado 15, apenas duas horas após o discurso de Erdogan, que parecia conciliatório com a oposição, a polícia atacou brutalmente a Praça Taksim.
Berrak teve um ataque de asma durante cinco minutos, mesmo com máscara. Pensou que fosse morrer. “Mas eu era outra pessoa, sentia que tinha uma missão.” E acrescenta: “E como não lutar contra um premier que nos chama de terroristas e lança gás lacrimogêneo de helicópteros?”
Finalmente, na Praça Taksim, encontro um casal de “silenciosos” a honrar “o homem de pé”, disposto a conceder uma entrevista.
Diz Menderes, diretor de uma loja, de 26 anos: “Estou aqui porque quero liberdade”. Sua companheira, Guliz, de 23 anos, trabalha na área de telemarketing. Ela diz: “Sou muçulmana praticante, mas acho que Erdogan está islamizando esse país”.
Indagado se eles não têm medo, visto que na terça-feira 18, 71 “pessoas de pé” na Praça Taksim foram presas por uma noite, o casal retruca em uníssono. “Não. E você não tem medo de nos entrevistar?”
Guliz diz se sentir mal por não ter podido participar das manifestações em Istambul. Ela não estava na cidade, “e por isso me senti frustrada”.
Por sua vez, Menderes, participou. Teve problemas de saúde, mas agora adotou esse novo método, “silencioso”, de manifestação.
Guliz e Menderes, como vários turcos, acreditam que têm de se exprimir para mudar o futuro “autocrático” da Turquia.
Transporte engole até 30% da renda dos trabalhadores
Transporte engole até 30% da renda dos trabalhadores
Em Nova York, transporte custa 68% a mais que em São
Paulo, mas o serviço compensa, dizem usuários. No mundo todo, é preciso
qualidade para atrair usuários
Martin Abegglen/Flickr
Na sétima maior metrópole do mundo, São Paulo, 55% dos moradores usam transporte coletivo. O deslocamento dos 11 milhões de habitantes da cidade é feito principalmente pelo asfalto: 15 mil ônibus transportam seis milhões de passageiros todos os dias – agora, por uma tarifa de 3,20 reais.
A revolta contra o aumento da passagem na capital paulista desencadeou uma série de manifestações por todo o país, mostrando, entre outros temas, a insatisfação com a falta de mobilidade. Fazem parte da rotina dos paulistanos a lotação nas cinco linhas de metrô e nos trens metropolitanos e os congestionamentos que, em alguns períodos, chegam a 144 quilômetros.
Sem qualidade nos transportes fica difícil convencer qualquer um a deixar o carro em casa. E as melhorias, afirma o coordenador do setor de Serviços Urbanos Básicos da ONU-Habitat, Andre Dzikus, passam também por uma mudança de comportamento. "O maior desafio é mudar a mentalidade para que as pessoas passem a usar o transporte público", afirma o especialista em questões de transporte e mobilidade que vive em Nairobi, no Quênia.
O que ele defende aparece em quase todos os planos de governo: as cidades precisam oferecer alternativas que sejam financeiramente viáveis, pontuais e que cubram o espaço urbano de uma maneira que garanta que as pessoas cheguem aonde querem.
"Um sistema de transporte eficaz é aquele que anda", resume o engenheiro Alain Le Saux, secretário geral da organização Metropolis, uma organização mundial de troca e aconselhamento que reúne representantes das maiores cidades do mundo. O pior problema de uma cidade é parar e a fluidez na locomoção também oferece indícios de uma economia eficaz, comenta.
O desafio de atingir essa fluidez é comum às grandes metrópoles, mas não existe uma solução única. Se para uma cidade a melhor alternativa são trens, para outra, segundo Le Saux, podem ser até mesmo elevadores. "Depende da geografia, do tamanho e de uma série de outros fatores", justifica.
Serviço ilegal convive com o sistema
São Paulo não é a única grande metrópole a encontrar problemas. Em Jacarta, segunda maior região metropolitana do mundo, a jornalista indonésia Veby Mega precisou encontrar opções para fugir dos congestionamentos que impedem o fluxo dos ônibus. A passagem custa aproximadamente 0,76 real, mas o tempo que os veículos ficam parados, a lotação e o calor afugentam quem pode pagar por outros meios.
"Eu costumava usar, mas não é confortável, especialmente em uma cidade com o ar quente e úmido como Jacarta", conta. A cidade criou corredores exclusivos de ônibus em alguns trajetos e promete a construção do metrô – parte subterrânea e parte suspensa – até 2020. Por hora, Veby e os outros 10,1 milhões de habitantes da metrópole se valem de outras opções.
Como o táxi tradicional é mais caro, o mototáxi, mesmo ilegal na cidade, virou uma alternativa que cabe no orçamento. A presença desse meio de transporte no trânsito rende cenas que os brasileiros já conhecem: para fugir do engarrafamento, as motos fazem percurso em ziguezague entre os carros parados.
O projeto do metrô de Jacarta deve contemplar inicialmente um corredor norte-sul e outro leste-oeste, mas o pacote de obras promete uma solução ampla para o transporte da capital da Indonésia. Em outros países, no entanto, as respostas já foram encontradas. Alain Le Saux, da Metropolis, cita Berlim e Paris como exemplos. "Quando não há greve", ressalva, referindo-se à capital francesa.
Ele lembra ainda que a qualidade nos serviços deve ir além do transporte motorizado. Calçadas, ciclovias, estações para o aluguel de bicicletas completam a estrutura que dá segurança e fluidez. Singapura, Genebra e Copenhague estão na lista de bons exemplos de Andre Dzikus, da ONU-Habitat.
Preço não é o mesmo para todos
Os mesmo fatores que influenciam na decisão pelo meio de transporte mais adequado também contam na composição da tarifa do ônibus. Nas grandes metrópoles, quem anda mais, paga mais, geralmente. Mas essa combinação de variáveis não é a única a compor a fatia que cada pessoa gasta com transporte. O impacto no bolso é diferente em cada região do mundo.
Nos países mais pobres, em locais onde pessoas foram deslocadas para a periferia ou reassentadas em áreas mais distantes e precisam manter seus empregos na região central das cidades, a situação é mais crítica. Em casos assim, o dinheiro gasto com transporte pode chegar a 30% da renda mensal. Já em outros lugares, a margem fica em torno de 10%. "É difícil fazer uma média, já que as situações são diferentes", adiciona o representante da ONU-Habitat.
A relativização do preço também está relacionada à percepção que o usuário tem da qualidade do serviço. Em Nova York, um dos destinos favoritos de turistas brasileiros e para quem decide viver fora do país, o valor da passagem é 68% mais caro que o cobrado em São Paulo. Mas a eficiência – mesmo que existam falhas – compensa o preço.
A passagem custa aproximadamente 5,38 reais, mas existem opções de bilhetes semanais ilimitados, por 64,60 reais, e mensais, por 241 reais. Segundo a Metropolitan Transportation Authority, que opera o sistema, descontos são oferecidos em alguns casos – estudantes, por exemplo, pagam meia – mas ninguém anda de graça.
O jornalista carioca Douglas Gamma vive na cidade há quatro anos e considera o preço justo. Apesar de criticar a sujeira das estações e dos próprios trens – são 8,7 mil vagões que circulam por 3.294 quilômetros de trilhos em toda a região metropolitana –, ele elogia a estrutura. "O metrô de Nova York é super bem planejado e te leva para todos os lugares da cidade, 24 horas por dia", destaca. Quando quer apreciar a paisagem, Gamma opta por um dos 5,7 mil ônibus que atendem a região.
A paulista Paula Maria trabalha com planejamento urbano na cidade norte-americana e também concorda com a avaliação positiva dos serviços, que ela define como eficientes. O que falta é uma intensificação da oferta de transporte nos bairros mais afastados. "É onde vivem as pessoas que mais precisam, por conta das dificuldades financeiras", avalia.
De olho nas ruas do Brasil
A eficiência que a paulista encontrou em Nova York ainda não existe na sua cidade natal. Mesmo longe do país, ela e o carioca acompanham a movimentação que ganhou as ruas do Brasil. Embora considerem a qualidade do sistema de transporte público de São Paulo e Rio de Janeiro inferior ao oferecido em Nova York, eles não têm dúvida de que as reivindicações vão muito além da discussão da tarifa. "Foi apenas a gota d'água que transbordou o copo", opina Gamma.
"Acho que os brasileiros estão cansados de serem usados como caixas eletrônicos", diz Paula Maria. Para ela, os 20 centavos foram o estopim para quem quer não só transporte público de qualidade, mas também exige que os direitos dos cidadãos entrem de vez para a agenda dos políticos brasileiros.
- Autoria Ivana Ebel
- Edição Nádia Pontes
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