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domingo, 2 de fevereiro de 2014

Mantega: ‘Combate à inflação é prioridade’

Mantega: ‘Combate à inflação é prioridade’

O Globo - 24/01/2014
 
Suíça - O ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse ontem no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, que a inflação não preocupa, embora seu controle seja uma prioridade para o governo brasileiro. Ao comentar a ata da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central (BC) - que elevou na semana passada a taxa básica de juros (Selic) em meio ponto percentual, para 10,5% -, o ministro se mostrou confiante, ressaltando que “o Brasil tem controlado a inflação nos últimos dez anos” e a mantido dentro da meta.

- Não vi a ata do Copom. Mas o IPCA-15 (índice que apresenta uma prévia do IPCA, indicador oficial de inflação) está abaixo das expectativas do mercado - disse Mantega. - O combate à inflação continuará sendo uma prioridade do governo. Sempre.
Indagado se o governo pretende aumentar a meta do superávit primário para este ano, o ministro afirmou que em fevereiro o governo poderá dizer “com mais precisão” qual será a meta.
Aposta agora em investimentos
Em um debate no fórum, Mantega reclamou da falta de crédito para estimular a economia e responsabilizou a crise mundial pela desaceleração no Brasil e em outros emergentes. Ele rebateu a afirmação do presidente do fórum, o empresário Klaus Schwab, de que o Brics ( Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) está em declínio ou em “crise de meia-idade”:
- Não acredito que há uma crise da meia-idade do Brics. O que há é uma crise mundial que afetou o Brics.
Mantega reconheceu que é preciso que os países Brics revejam o modelo do crescimento. E assegurou que o Brasil está fazendo isso, ao estimular o investimento com um programa da ordem de US$ 250 bilhões, excluindo o que será investido em petróleo e gás. Ele também destacou o avanço social no país:
- O Brasil fez uma grande inclusão social, expandiu a classe média. Temos o quarto maior mercado de carros. Mas para ativar este mercado está faltando crédito, que está escasso. É por isso que o governo está estimulando o investimento no Brasil.
Uma pesquisa com mil executivos feita pela Accenture e divulgada em Davos revelou que 60% das empresas pretendem realocar para outros mercados os investimentos realizados nos países do Brics. Mantega, no entanto, mostrou-se otimista, prevendo que o comércio mundial poderá crescer entre 4% e 5%, puxado pela recuperação econômica dos países ricos. Ele disse que uma eventual desvalorização do real não deverá afetar as empresas brasileiras que contraíram dívida no exterior:
- As empresas brasileiras aprenderam a lição em 2008 e todas elas estão hedgiadas (protegidas) para eventuais flutuações da taxa cambial.
Em meio à elite econômica e política, também era possível vislumbrar celebridades, como o cantor Bono, do U2. No encontro para divulgar sua ONG Red, que combate a Aids, ele participou de um jantar com empresários irlandeses e o premier Enda Kenny. No fórum, houve ainda protestos contra a petrolífera russa Gazprom e a têxtil Gap, que receberam o “prêmio vergonha 2014”.

‘BC está sozinho contra a inflação’, diz economista

‘BC está sozinho contra a inflação’, diz economista

O Globo - 16/01/2014
 
Silvia Matos avalia que, ao elevar gastos, o governo pressiona os preços de serviços, num cenário de expansão do crédito, ainda que em ritmo menor. Para ela, o Banco Central terá de recorrer a novas altas de juros, um remédio amargo para a economia.


Qual é a situação da inflação hoje?
Houve aceleração da inflação nos últimos dois meses, principalmente de serviços. Sem considerar passagens aéreas, ela acelerou de 8,45% em 2012 para 8,75% em 2013. Isso preocupa. Quase 70% dos itens da cesta do IPCA subiram acima de 4,5%, que é o centro da meta, e mais de 50% subiram mais de 50%. Que loucura é essa? A inflação está muito alta, persistente e generalizada. Mesmo que se possa ter algum alívio de preços de alimentos, a gente está muito fragilizado. Nosso cenário é de inflação pelo IPCA em 6% este ano, mas há risco de ficar mais perto do teto da meta.
Por que a inflação no país está resistente?
Quando ela começa a rodar em nível elevado, os agentes se preparam para isso, e as pessoas repassam preços. Apesar de a economia não estar grande coisa, a pressão de demanda existe. Temos uma combinação muito ruim, de inflação alta com atividade fraca. Infelizmente, os salários estão crescendo acima da capacidade da economia. É preciso dar uma esfriada nisso. Quando aumentam os gastos, o governo pressiona os preços de serviços. E o crédito continua crescendo. E o Banco Central fica sozinho (para combater a inflação).
O BC é o único no governo trabalhando para combater a inflação?
O BC faz o papel dele, mas, infelizmente, teria que subir mais os juros. O único remédio é amargo e é mais taxa de juros. A atividade cresceu pouco, mas a renda continuou em expansão. Só que a política fiscal é mais eficiente para combater a inflação. O governo está sinalizando o controle de gasto público, mas é muito pouco. E a política fiscal não tem muita margem de manobra. O governo só vai se mexer se a situação ficar dramática. A Fazenda teria que fazer mudanças radicais, mas é difícil em ano eleitoral.
Qual será o efeito do câmbio?
Teremos na inflação o componente do câmbio mais valorizado. E nem todo esse repasse do câmbio vem, como é o caso do combustível. Alguns preços estão desalinhados, como de combustíveis e de energia. Então, corremos o risco de um repique inflacionário mais à frente, o que exigiria uma dose cavalar de juros.
O que impede o crescimento da economia brasileira?
O baixo investimento é um problema estrutural. Os desembolsos em infraestrutura são fundamentais. Há também menos gente entrando no mercado de trabalho e com baixa qualidade. Há uma terceira questão: a ineficiência da economia como um todo. A política econômica está confusa, há uma instabilidade de regras. O Brasil tem problemas estruturais de baixo crescimento que devem ser perenes.

Alta da Selic gera custo extra de ao menos R$ 14 bilhões aos cofres públicos

Alta da Selic gera custo extra de ao menos R$ 14 bilhões aos cofres públicos

Autor(es): BRUNO VILLAS BÔAS
O Globo - 16/01/2014
 
O combate à inflação por meio da elevação da taxa básica de juros, a Selic, vai custar pelo menos R$ 14,2 bilhões a mais aos cofres públicos neste ano. É o que mostra cálculo do economista Felipe Salto, da Tendências Consultoria. Segundo ele, as despesas com juros devem crescer de R$ 56,5 bilhões no ano passado para R$ 70,7 bilhões neste ano, efeito do ciclo de aumento da Selic, que estava em 7,25% em abril de 2013 e chegou a 10,5% nesta quarta-feira.


Salto diz que sua estimativa é conservadora, pois considera apenas as operações compromissadas - instrumento do Banco Central (BC) para enxugar excesso de liquidez na economia pela venda de títulos públicos. Não está incluso o impacto dos juros sobre os títulos pós-fixados vendidos pelo Tesouro.
- Esses R$ 70 bilhões já representam três orçamentos do Bolsa Família. E o governo não vai conseguir mudar isso por decreto. É preciso mudar a base desta política fiscal expansionista, o que abriria espaço para uma política monetária mais decente - diz.
Pelos cálculos de José Roberto Afonso, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), o aumento de gastos com o ciclo da Selic é um pouco maior, de R$ 15,3 bilhões. O número, também considerado conservador, tem como base a estimativa informada na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) da União. Segundo o texto, o aumento de um ponto percentual da Selic provoca despesa extra com pagamento de juros de 0,09% do Produto Interno Bruto (PIB, soma de produtos e serviços produzidos no país).
- A taxa de juros é o instrumento predominante de política monetária também em outros países, mas parece que existe monopólio disso aqui no Brasil - disse Afonso, lembrando que o governo também tem adotado outros caminhos para conter preços. - O governo está intervindo diretamente nos preços dos combustíveis, da energia elétrica. Os chamados preços administrados estão sendo mais administrados do que nunca.
Segundo Margarida Gutierrez, professora da UFRJ, o crescimento do custo de pagamento de juros pode ser maior este ano por causa das incertezas em torno do corte da nota de classificação de risco do Brasil pela agência Standard & Poor’s (S&P) e do ano eleitoral. Ela explica que, neste cenário, os investidores tendem a exigir maior rendimento nos títulos do país.
- Se o BC não elevasse a Selic, aumentaria ainda mais a incerteza e cresceria ainda mais a conta de juros.

Economistas elevam projeção de inflação para 2014

Economistas elevam projeção de inflação para 2014

O Globo - 23/12/2013
 
BRASÍLIA - Mesmo depois de o Banco Central dar sinais que poderá subir os juros básicos da economia mais que o previsto, os analistas do mercado financeiro aumentaram a estimativa para a inflação no ano que vem. A previsão para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) passou de 5,95% para 5,97%. Foi a segunda alta consecutiva registrada pela pesquisa semanal que o Banco Central faz com as principais instituições financeiras. Além de maior pressão nos preços, os especialistas esperam menos crescimento.
Pela terceira semana seguida, os especialistas diminuíram a projeção de expansão da economia brasileira para o ano que vem. A expectativa caiu levemente de 2,01% para 2%.
Já para este ano, os entrevistados mantiveram a previsão de crescimento em 2,3%. Aumentaram, entretanto, a perspectiva para a inflação de 5,7% para 5,72%. As estimativas estão bem próximas às previsões oficiais.
Na semana passada, o BC divulgou o seu relatório de inflação. Nele, afirmou que o Brasil não deve acelerar o crescimento no ano que vem e ainda terá de lidar com uma inflação persistente nos próximos dois anos. A projeção da autarquia para a expansão da economia neste ano caiu de 2,5% para 2,3% e esse será o ritmo mantido pelo país no terceiro trimestre do ano que vem.
Já o IPCA deve encerrar o ano em 5,8%, segundo o BC. Em 2014, último ano do mandato da presidente Dilma Rousseff, cairia para 5,6% e chegaria a 5,4% em 2015. O BC aboliu do texto a palavra “convergência” para a meta de 4,5%. E deu a entender que pode subir mais juros do que o previsto pelos economistas do mercado financeiro.
- Está bastante claro, mas vou ajudar vocês dessa vez. Isso quer dizer que o Copom vai permanecer de olho no combate à inflação - frisou o diretor de Política Econômica, Carlos Hamilton Araújo, em entrevista na sexta-feira da semana passada.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

BC avisa: PIB será menor; e inflação, maior

BC avisa: PIB será menor; e inflação, maior

Marcha lenta
Autor(es): Gabriela Valente
O Globo - 28/06/2013
 
BC revê projeções para o ano e aposta em cenário de menos crescimento e mais inflação

Depois da decepção com o Pibinho no primeiro trimestre, o Banco Central já trabalha com um cenário de crescimento menor e preços mais altos. De acordo com relatório divulgado ontem, a previsão de expansão do PIB este ano passou de 3,1% para 2,7%. De outro lado, a projeção para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) subiu de 5,7% para 6%. O número poderia ser ainda pior se o BC não tivesse, na última hora, incluído nas contas a redução das passagens de ônibus anunciada por causa dos protestos nas ruas de todo o país. A queda das tarifas foi determinada após 7 de junho, último dia com informações incluídas no documento divulgado ontem. No entanto, os técnicos não atualizaram o valor do dólar, o que poderia jogar para cima as projeções de índices de preços.
Segundo especialistas, o arranjo favoreceu o número do BC. O diretor de Política Econômica da autarquia, Carlos Hamilton Araújo, não explicou o motivo de não ter atualizado o valor do dólar. Disse apenas que "não era oportuno". No fim do ano passado, a equipe econômica foi acusada de maquiar as contas públicas com manobras fiscais. Questionado se uma mudança não poderia afetar a credibilidade do BC, ele disse que não responderia "ilações" feitas por uma repórter.
- Não há (manipulação). Procuramos ser o mais transparente possível.
Para Antônio Madeira, economista da LCA Consultores, a decisão é justificável, mas acabou favorecendo o BC.
- Atualizar o valor do ônibus é simples e mexer em câmbio significa ter de fazer alterações em todo o sistema, mas isso tudo jogou a favor do número do BC - afirmou Madeira.
Na avaliação do BC, a economia terá uma expansão maior dos investimentos: a projeção passou de 4% para 6,1%. Já o consumo das famílias, que tem servido como motor do crescimento, foi revista de 3,5% para 2,6%.
chance de 29% de estourar meta
O economista Sérgio Vale, da MB Associados, criticou o documento, afirmando que ele continua sem sinalizar os caminhos do banco e reforça uma visão de indexação da economia.
- Ele tem uma visão de atividade ainda forte que não é mais o caso. É um documento para justificar o injustificável, dado que a decisão foi muito abrupta e totalmente diferente do que o banco pensava apenas algumas semanas antes, quando a inflação já estava muito elevada. Pior ainda, ela está sistematicamente acima de 4,5% há muito tempo - disse o analista.
O Banco Central admite que a inflação está alta. No entanto, para o diretor de Política Econômica, isso não significa fora de controle. Apesar de o BC afirmar que existe probabilidade de 29% de o teto da meta ser estourado neste ano, Hamilton acredita que a inflação terminará o ano menor do que os 5,84% vistos no ano passado. De acordo com ele, a promessa do presidente do BC, Alexandre Tombini, "está de pé", apesar de a projeção mostrar o contrário. Carlos Hamilton lembra que a previsão oficial não leva em consideração as próximas ações do Comitê de Política Monetária (Copom), numa indicação de que a taxa de juros (Selic), que está em 8% ao ano, deve continuar a subir.
- Essa é uma mensagem importante: apesar do quadro de curto prazo mostrar elevação, a inflação está sob controle e continuará sob controle - garantiu o diretor.
Para o ano que vem, a previsão para a inflação também aumentou. Passou de 5,3% para 5,4% e se afastou ainda mais do centro da meta de 4,5%, mas ainda dentro da margem de tolerância de dois pontos percentuais. O Copom avisou que há 25% de chance de o limite máximo ser ultrapassado. Perguntado sobre o relatório do Banco Central, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, afirmou que o importante é que as metas de inflação estabelecidas não devem ser ultrapassadas.
- Com a previsão que ele (BC) faz significa que estaremos dentro do teto da meta mais um ano consecutivo - disse.
O BC voltou a alertar para o alto nível de indexação da economia brasileira e que isso é uma resistência importante à queda da inflação no Brasil. Apesar da alta do dólar, o BC afirma que a importação de bens tende a contribuir para a redução da inflação no Brasil, porque promove a competição com os produtos nacionais.
Em relação à política fiscal, o BC deixou apenas como hipótese de trabalho o abatimento dos investimentos sobre a meta de 3,1% do PIB. De outro lado, o Ministério da Fazenda se compromete com uma meta de 2,3% do PIB, o que pressupõe também o abatimento das despesas com o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

INFLAÇÃO: APERTO MAIOR PARA A CLASSE C

INFLAÇÃO: APERTO MAIOR PARA A CLASSE C

INFLAÇÃO MINA O PODER DE COMPRA DA CLASSE C
Correio Braziliense - 14/06/2013
 

Segundo o IBGE, o aumento nos preços paralisou a ascensão social no Brasil. Juros e dólar devem prejudicar o consumo.

O comércio, que até bem pouco tempo crescia a um ritmo chinês, dá sinais de fadiga. Dados divulgados ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que, com a inflação em alta, o varejo já se ressente do esgotamento do processo de ascensão social que marcou o país nos últimos 10 anos. A nova classe média, formada por 40 milhões de brasileiros que engordaram o mercado de consumo nesse período, não só parou de crescer como está vendo o seu poder de compra encolher.
Segundo Reinaldo Pereira, gerente da coordenação de serviços e comércio do IBGE, esse quadro é claro. "Antes, havia a entrada de pessoas na classe média, que vinham com a demanda reprimida e consumiam muitos móveis, eletrodomésticos, informática, celular e veículos. Outras, que já tinham esses bens, queriam produtos mais modernos. Só que chega um momento que isso se esgota. O processo de troca de bens é muito mais lento agora. Além disso, estamos num período em que a inflação nos incomoda e a inadimplência está alta (pois muitas famílias se endividaram além da conta", afirmou.
Com isso, o varejo registrou alta de apenas 1,6% em abril na comparação com o mesmo período de 2012. Foi o pior resultado para este mês desde 2003, primeiro ano do governo Lula. Frente a março, houve avanço de minguado 0,5%, número que, a despeito de ser positivo, frustrou o mercado, que esperava o dobro desse desempenho. No acumulado do ano, o incremento das vendas chega a 3%, mas as receitas do setor saltaram 11,1%. Quer dizer: o comércio não se intimidou em reajustar as mercadorias a um ritmo quase quatro vezes maior do que o incremento do consumo.
Segundo o pesquisador do IBGE, a tendência é de piora. É que o varejo sentirá o baque da disparada do dólar e do aumento dos juros. "A valorização do dólar terá um efeito inflacionário e implicações nas vendas do comércio. Os preços aumentarão, afetando o consumo", disse. Para ele, todos os produtos importados ficarão mais caros nos próximos meses, inclusive bens fabricados no Brasil que usam componentes de fora do país. Ainda segundo o técnico, com a alta da taxa Selic, que passou de 7,25% ao ano para 8% — e pode chegar a 9,5% —, as compras a prazo de bens duráveis devem esfriar.
Supermercados
Entre os seguimentos que mais perderam força está o de supermercados e hipermercados, que recuou 0,5% no mês. No acumulado do ano, as vendas desses estabelecimentos ficaram estagnadas, ou seja, crescimento zero. Na avaliação dos especialistas, a culpa de desempenho tão ruim é da inflação. "Os preços no varejo cresceram, em média, 1,2% ao mês. Esse número é bem elevado, superior ao observado no IPCA", calculou Alexandre Schwartsman, ex-diretor do Banco Central.
Os dados do IBGE mostram ainda que o segmento de mercados registrou queda de 5,4% nas vendas na comparação com igual mês do ano anterior — o pior resultado desde agosto de 2003. Esse tombo, de acordo com análises do instituto, se explica pela elevação de preços — o grupo de produtos de alimentação consumidos no domicílio, por exemplo, encareceram 15,7% no acumulado de 12 meses.
Carlos Mussi, diretor do escritório da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), avaliou que, além da inflação, a velocidade de acesso ao crédito tem diminuído no país. "O consumidor está mais atento à situação financeira, e isso faz com que seja mais cauteloso nas compras. Não é um fato isolado no Brasil. A América Latina como um todo tem registrado desaceleração do consumo", argumentou.
Prévia do PIB
De acordo com Roque Pellizzaro, presidente da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), o varejo já esperava uma acomodação das vendas, sobretudo em função do endividamento da famílias e da carestia. "A questão é: uma das molas propulsoras do varejo, a demanda reprimida dos brasileiros, foi atendida. Com isso, há um novo perfil de consumo, bem mais moderado", argumentou.
O comportamento mais contido dos consumidores se reflete no crescimento do país. Hoje, será divulgado o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), um indicador que tenta antecipar o desempenho do Produto Interno Bruto (PIB) antes da publicação pelo IBGE. Para analistas, o número de abril estará entre uma expansão de 0,7% e 0,8%. "Com a continuidade de números positivos no mercado de trabalho e ajustes salariais de várias categorias, devemos ver algum avanço da massa salarial e um ritmo mais forte de atividade. Nos meus cálculos, o país vai crescer 2,3% em 2013", projetou Jankiel Santos, economista-chefe do Espírito Santo Investment Bank.
O Itaú Unibanco, que tem indicador semelhante ao do BC, projeta expansão de 0,8% para abril. "O resultado do PIB mensal indica que a atividade econômica está em expansão. Essa perspectiva se mantém mesmo com os dados preliminares de maio apontando para recuo da atividade econômica", relatou Aurélio Bicalho, economista da instituição.
Exclusividade
gera protestos
O programa Minha Casa Melhor, lançado na quarta-feira pelo governo, foi motivo de conflito entre os formuladores e os lojistas. O cartão do benefício será operado exclusivamente pela Redecard, Segunfo os comerciantes, a maioria dos estabelecimentos opera com outras empresas. Agora, terão de arcar com um novo custo para atender os clientes. A Caixa Econômica Federal afirmou que a exclusividade se deve a uma questão técnica. Os concorrentes não estariam preparados tecnologicamente para operar o cartão que será entregue aos clientes do Minha Casa, Minha Vida. Informações de bastidores apontam que a Redecard teria feito investimentos para participar do programa.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

INFLAÇÃO DETONA GUERRA ENTRE GOVERNO E OPOSIÇÃO

INFLAÇÃO DETONA GUERRA ENTRE GOVERNO E OPOSIÇÃO

INFLAÇÃO NO PALANQUE DO DIA DO TRABALHADOR
Correio Braziliense - 02/05/2013
 

Nas comemorações do Dia do Trabalho, Aécio Neves e centrais sindicais condenam a "leniência" com a alta de preços. Ministro Gilberto Carvalho rebate as críticas, e presidente Dilma Rousseff reafirma o compromisso com a estabilidade.
Em São Paulo, Aécio afirma que Planalto tem sido leniente com a economia e acusa governo de apoiar projetos antidemocráticos. Na TV, Dilma garante "luta constante" contra a alta de preços
As comemorações do Dia do Trabalho transformaram-se num cabo de guerra entre governo e oposição. No dia em que o presidenciável e senador Aécio Neves (PSDB-MG) pôs o dedo na ferida e acusou a administração petista de ser "leniente" com a alta dos preços, a presidente Dilma Roussef utilizou o pronunciamento oficial na televisão para rebater as críticas, assegurando que não vai permitir a retomada da inflação. Ela também pediu apoio ao projeto que destina os recursos do royalties do petróleo para investimentos em educação.
"É importante que o Congresso Nacional aprove nossa proposta de destinar os recursos do petróleo para a educação. Peço a vocês que incentivem o seu deputado e o seu senador para que eles apoiem esta iniciativa", afirmou a presidente. O Planalto terá que enviar uma nova proposta para o Congresso relacionada aos royalties. A Medida Provisória sobre a destinação dos recursos perde a validade em 16 de maio.
Em evento comandado pela Força Sindical, em São Paulo, Aécio usou o Plano Real de Fernando Henrique Cardoso para atacar a gestão petista. "Desde que votou contra o Plano Real, apresentado pelo governo do presidente Fernando Henrique, e a partir do momento em que começa a governar, o governo não tratou com aquilo que chamamos de tolerância zero à inflação. Não há uma meta real, a meu ver, buscada pelo governo", criticou Aécio.
Dilma rebateu o ataque afirmando que o governo não vai "descuidar nunca do controle da inflação". De acordo com a presidente, "esta é uma luta constante, imutável, permanente. Não abandonaremos jamais os pilares da nossa política econômica, que tem por base o crescimento sustentado e a estabilidade".
O senador tocou ainda em outros pontos espinhosos para o governo federal, como a queda de braço entre o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Congresso e, ainda, a repercussão negativa à Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 37, que retira o poder de investigação do Ministério Público. "Estaremos vigilantes, acima dos partidos políticos, para impedir qualquer ataque àquela outra grande conquista dos brasileiros que foi a democracia, a liberdade. Sempre que quiserem atacá-la, cerceando, por exemplo, as atribuições do Supremo Tribunal Federal, impedindo o Ministério Público de investigar, e inibindo a formação de legendas partidárias fora do guarda-chuva do governo, estaremos firmes e vigilantes porque o Brasil é um Brasil de todos", discursou Aécio.
Contraponto
O tucano saudou a classe trabalhadora com um convite: "Vamos juntos fazer o Brasil retomar o seu crescimento, qualificando sua mão de obra, para que não sejamos vítimas da importação de mão de obra estrangeira para suprir a baixa qualificação da nossa. Isso é responsabilidade de governo e estaremos atentos para cobrar", garantiu Aécio.
Também presente ao ato da Força, representando a presidente Dilma Rousseff — que permaneceu em Brasília — o ministro da Secretaria-Geral da Presidência afirmou que a chefe do executivo "zela como uma leoa" para defender os trabalhadores e conter a alta inflacionária. "Não é verdade que a inflação vai subir. Ela teve sim um pico nos últimos meses, e vocês sabem por quê. E agora ela começou a cair", discursou o ministro.
Durante o evento em São Paulo, o prefeito da capital paulista, Fernando Haddad (PT), lembrou as conquistas da gestão petista à frente da Presidência da República.
No pronunciamento da TV, a presidente evitou entrar em polêmica. Logo no início, Dilma prometeu ampliar a oferta de emprego, o salário e o poder de compra do trabalhador. "É por isso que nós, brasileiras e brasileiros, estamos tendo, nos últimos anos, a alegria de comemorar o 1º de Maio com recordes sucessivos no emprego, na valorização do salário e nas conquistas sociais dos trabalhadores", afirmou.
Lula 2018
O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, que também participou do evento organizado pela Força Sindical, ventilou a possibilidade de o ex-presidente Lula concorrer às eleições presidenciais em 2018. "Quem sabe um dia Lula volte à Presidência. Ele está bem de saúde", disse o petista, ao iniciar discurso para os trabalhadores que participavam da festa. Na saída, comentou novamente o assunto ao ser questionado por jornalistas. "Em 2018, por que não?"

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Para FMI, Brasil tem baixo PIB potencial

Para FMI, Brasil tem baixo PIB potencial

Inflação no Brasil sugere PIB potencial menor, diz FMI
Autor(es): Por Sergio Lamucci | De Washington
Valor Econômico - 22/04/2013
 

O economista-chefe do FMI, Olivier Blanchard, disse que o crescimento potencial do Brasil parece mais baixo do que se pensava. Na semana passada, o FMI reduziu a previsão de crescimento para o PIB brasileiro em 2013 de 3,5% para 3%. Segundo o economista, se a economia estivesse muito abaixo do ritmo potencial, o país veria a inflação cair mais.
Em entrevista ao Valor, em meio a maratona de encontros do FMI e do Banco Mundial, o economista francês afirmou ainda que o desempenho mais fraco da economia brasileira tem grande relação com baixo nível dos investimentos.

O crescimento potencial do Brasil parece mais baixo do que se pensava, diz o economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), Olivier Blanchard, referindo-se ao ritmo de expansão do Produto Interno Bruto (PIB) que não acelera a inflação. Para ele, se a economia brasileira estivesse muito abaixo do potencial, o país veria a inflação cair mais. "Com isso, a margem de manobra para usar políticas de estímulo à demanda é provavelmente limitada", afirma Blanchard, lembrando que o FMI reduziu a previsão de crescimento para a economia brasileira em 2013 de 3,5% para 3%. Gargalos de infraestrutura e no mercado de trabalho foram apontados pelos economistas da instituição como restrições de oferta importantes que afetam o país.
O economista francês diz ainda que o desempenho mais fraco do Brasil no passado recente tem grande relação com o comportamento frustrante do investimento. "É provável que um número de distorções, assim como alguma incerteza sobre políticas, tenham um papel nisso", disse Blanchard ao Valor, em meio à maratona de encontros e seminários da reunião de primavera do FMI e do Banco Mundial, realizada na semana passada em Washington.
Blanchard diz ainda que países emergentes como o Brasil devem "ser livres" para suavizar movimentos de recursos externos mais voláteis, usando "instrumentos de administração de fluxos de capitais, medidas macroprudenciais e intervenção no mercado de câmbio". Alguns desses capitais são desestabilizadores, afirma, observando, contudo, que parte do dinheiro que chega de fora vem por um bom motivo - aproveitar as perspectivas mais favoráveis dos mercados emergentes.
Para ele, aliás, o Brasil não abandonou o regime de câmbio flutuante. "Eu chamaria de flutuação administrada. O real flutua, mas com o uso de controle de capitais", diz Blanchard, um dos principais responsáveis pela adoção de ideias mais flexíveis pelo FMI no pós-crise, como o apoio a controles de capitais em determinadas circunstâncias e a recomendação para que alguns países não exagerem na dose da austeridade fiscal.
Para Blanchard, a recuperação americana mostra sinais robustos, pelo lado do setor privado. O país vai crescer quase 2% mesmo com o ajuste fiscal equivalendo a uma contração de 1,8% do PIB. O economista elogia também a política monetária japonesa, e não a encara como uma medida voltada para produzir uma desvalorização competitiva do câmbio, mas sim para de fato tirar o país da deflação. A seguir, os principais trechos da entrevista.
Valor: A recuperação dos EUA é sustentável, num cenário em que o setor privado parece em boa forma, mas a incerteza sobre a política fiscal deve continuar elevada?
Olivier Blanchard: Eu estou confiante que a retomada vai continuar. Há muitos fatores que estão na direção certa. Primeiro, há a política monetária. O Fed foi agressivo e tomou muitas medidas para ajudar a economia. Os investidores esperam que as taxas de juros vão seguir baixas, o que é bom para a demanda. É bom que os juros básicos estejam baixos, mas as taxas que afetam a vida das pessoas é aquela de hipotecas e empréstimos. O sistema bancário nos EUA não está em situação perfeita, ainda há riscos, mas ele está melhorando em termos de indicadores de capital, de funding. O mecanismo de transmissão está funcionando de novo. Há juros baixos para quem quer tomar dinheiro emprestado. Há também o que os economistas chamam de demanda reprimida. Quando há uma recessão longa e poucos imóveis são construídos, o que nós vimos por algum tempo, então o estoque de imóveis cai. Em algum ponto não há imóveis suficientes, e a construção começa de novo. É a mesma coisa no mercado de automóveis. Se as pessoas não compram carros por um tempo, em algum momento elas têm que trocar um automóveis que não está funcionando bem. Nós vemos esse fenômeno no mercado imobiliário, nós vemos a mesma coisa em bens duráveis. Todos esses são sinais de uma economia que está se recuperando.
Se você olhar para a queda no crescimento [ no Brasil], ela parece vir em grande parte do investimento"
Valor: Mas e a política fiscal?
Blanchard: A política fiscal está de fato desacelerando a recuperação. A consolidação fiscal nos EUA é muito forte neste ano. É de 1,8% do PIB. Pode estar tirando de 1,5 a 2 pontos do crescimento. Eu espero que os EUA adotem uma trajetória melhor de ajuste fiscal. A ironia é que o sequestro [corte automático de US$ 85,3 bilhões que entrou em vigor em março], de algum modo, melhorou o panorama. Ele levou os investidores a concluir que o pior que pode acontecer é que o sequestro continue, e então o déficit será menor. Não é o melhor modo de fazer o ajuste, que deveria ser feito mais lentamente e com mais inteligência. Minha avaliação é de que a consolidação fiscal vai desacelerar e a demanda privada vai continuar forte. Com isso, a recuperação é razoavelmente forte.
Valor: O sr. acredita que os EUA poderão se tornar um competidor dos mercados emergentes nos próximos anos, devido ao renascimento da manufatura, mais do que uma economia baseada no consumo?
Blanchard: A maneira de pensar nisso é em termos de cadeias de valor. Produtos manufaturados não serão inteiramente fabricados na China, no Brasil ou nos EUA. Algumas partes serão produzidas na China, outras no Brasil e outras nos EUA. Pelo menos por algum tempo, os Estados Unidos vão continuar a ter vantagem em tecnologia de ponta, então parte da produção de manufaturados vai ocorrer no país. Nós vemos isso em biologia, em tecnologias da informação. No fim, produtos manufaturados serão feitos em todos os lugares do mundo. Nos casos em que é muito importante o trabalho barato, ela será feita nos países em que há esse fator. Nos segmentos em que for importante o trabalho especializado, será feita nos países em que ele existe. Quando for necessário basicamente estar próximo da pesquisa e desenvolvimento, os manufaturados serão feitos em países mais avançados, como os EUA.
Valor: Os bancos centrais dos países desenvolvidos, especialmente o Federal Reserve [Fed, o banco central americano] e o Banco do Japão, têm adotado políticas monetárias extremamente expansionistas. Como elas afetam os mercados emergentes? Eles devem manter ou intensificar controles de capitais para lidar com esses fluxos?
Blanchard: Há vários motivos pelos quais os capitais estão indo para os mercados emergentes, e é importante fazer distinções entre elas. A principal não tem a ver com a política monetária. Ela tem a ver com o fato de que os países em desenvolvimento simplesmente parecerem bem. Em termos de fluxos de investimentos estrangeiros diretos, os mercados emergentes, com forte potencial de crescimento, são muito atraentes. Em termos de investimento em carteira, os mercados de ações desses países parecem boas apostas, ainda que arriscadas. Esses fatores refletem a força dos mercados emergentes. Essa parte dos fluxos de capitais é boa. Outra força por trás dos fluxos de capitais são os diferenciais de juros. Como as economias avançadas têm um desempenho fraco e os mercados emergentes estão indo melhor em termos de atividade cíclica, há juros mais baixos nos países desenvolvidos e mais elevados nos países em desenvolvimento. Isso faz do investimento nos títulos dos mercados emergentes algo atraente. Esse diferencial de juros deve continuar por muito tempo e vai levar a fluxos de capitais para os emergentes. Também não são ruins, mas são menos importantes do que os do primeiro tipo. A terceira força por trás dos fluxos de capitais são episódios de aumento e redução de risco. Os investidores gostam de riscos, depois não gostam, o que faz os fluxos de capitais entrarem e saírem. Esses são desestabilizadores e países que os recebem, como o Brasil, devem ser livres para tentar suavizá-los por meio de instrumentos de administração de fluxos de capitais, medidas macroprudenciais e intervenção no mercado de câmbio.
Valor: O presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, diz que há uma solução de meio termo entre países desenvolvidos e emergentes sobre esse assunto. Os primeiros adotam políticas monetárias expansionistas e os segundos usam eventualmente medidas de controle de capitais e macroprudenciais para lidar com eles. O sr. concorda?
Blanchard: Eu não gosto do termo solução de meio termo [compromise, em inglês]. Eu prefiro a palavra acordo. Acho que há acordo amplo de que as economias avançadas precisam usar política monetária não convencional porque não sobrou nenhuma política monetária convencional para ajudar na recuperação. Eles precisam fazer tudo o que podem. Eles não podem usar a política fiscal, uma vez que precisam de consolidação fiscal. Ao mesmo tempo, os países avançados entendem que essas políticas monetárias vão produzir movimentos nos fluxos de capitais. Como eles são voláteis, o acordo é que os países que os recebem devem ser livres para suavizá-los e usar quaisquer ferramentas que tenham à disposição. Esse é o acordo implícito. Ele não é perfeito, mas não é ruim, e talvez seja o melhor que pode ser feito.
Valor: Daqui a alguns anos, os bancos centrais dos países desenvolvidos vão começar a elevar os juros. O FMI espera que, no caso do Fed, isso ocorra no começo de 2016, mas considera que possa ser antes, se o crescimento for mais forte. Como isso afetaria emergentes como o Brasil e como esses países devem se preparar para esse cenário?
Blanchard: Quando isso ocorrer, é provavelmente porque o crescimento voltou, e essa parte é uma boa notícia para os mercados emergentes. Isso significa que as exportações vão aumentar. É algo que vai ocorrer com juros mais altos e, com isso, vai levar uma reversão parcial dos fluxos de volta para onde os juros estão mais atraentes, que seriam os EUA. Alguns fluxos de capitais provavelmente vão mudar de sinal.
Valor: O Banco do Japão adotou uma política monetária muito agressiva. Ela pode dar início a um processo de desvalorização competitiva ou é uma resposta a um processo de desvalorização competitiva que já estava ocorrendo?
Blanchard: Nenhuma das duas coisas. O Japão é um caso especial. Ele está numa situação econômica difícil há muito tempo. Já tentou muitas coisas. Um dos problemas do Japão é a deflação. Não é uma grande deflação, mas é deflação. É necessário fazer alguma coisa para estimular a inflação. Acho que a desvalorização do câmbio, que é um dos efeitos da política monetária, não tem como objetivo aumentar a competitividade, mas aumentar os preços. Se ela for bem sucedida, veremos mais inflação. Com isso, no fim, a taxa real de câmbio (que considera a inflação) não vai se mover muito. E a política monetária não vai fazer a situação da dívida pior. É uma tentativa de fazer a economia andar, e um modo de reduzir a relação entre dívida e PIB é aumentando o PIB, e é isso o que eles estão tentando fazer. Nós desejamos sorte a eles.
Valor: O real oscila hoje num intervalo estreito, depois de uma desvalorização significativa no ano passado. O Brasil abandonou o regime de câmbio flutuante?
Blanchard: Eu não acho que o Brasil tenha abandonado o regime de câmbio flutuante. O real ainda é uma moeda que flutua. Manter a flexibilidade da taxa de câmbio é claramente importante para o Brasil. Eu chamaria de flutuação administrada. Ela flutua, mas com o uso de controle de capitais. Nesse sentido não é flutuação pura.
Valor: O Banco Central brasileiro reduziu agressivamente os juros, o câmbio teve uma desvalorização expressiva no ano passado, o governo fez uma série de desonerações tributárias, mas a economia teve crescimento fraco em 2012 e a recuperação não parece forte. Por que a economia não reagiu de modo mais vigoroso a todos esses estímulos?
Blanchard: Deixe-me fazer pontos. O primeiro é que o crescimento potencial talvez seja menor do que nós pensávamos antes. O outro é que, se você olhar para a queda no crescimento, ela parece vir em grande parte do investimento. É provável que um número de distorções, assim como alguma incerteza sobre políticas, tenham um papel aí.
Valor: O Brasil cresceu 0,9% no ano passado e a inflação ficou próxima de 6%. O Brasil está preso num equilíbrio ruim de baixo crescimento e inflação elevada?
Blanchard: Não acredito nisso. Para mim, isso sugere que o Brasil pode não estar longe do crescimento potencial. Se estivesse muito abaixo do PIB potencial, a inflação cairia. O fato de que não vemos a inflação cair muito sugere que talvez o crescimento potencial seja menor do que pensávamos. Nós revisamos a previsão de crescimento para 2013 de 3,5% para 3%. A margem de manobra para usar políticas de estímulo à demanda é provavelmente limitada.
Valor: Na quarta-feira, o Banco Central brasileiro elevou os juros em 0,25 ponto percentual. A inflação está acima do teto da meta, de 6,5%, mas a recuperação não é ainda forte. É uma boa ideia começar a elevar os juros num mundo com grande liquidez?
Blanchard: Eu não conheço os motivos exatos por trás da decisão, então vou fazer um comentário mais geral. Você não quer aumentar os juros no último minuto, numa grande magnitude. É perturbador e como leva tempo para o aumento dos juros afetar a atividade, pode ser tarde demais. Então você quer fazê-lo antes, e lentamente.

BC eleva a Selic e juros recuam

BC eleva a Selic e juros recuam

Taxas caem após Copom elevar a Selic
Autor(es): Por João José Oliveira, Lucinda Pinto e Angela Bittencourt | De São Paulo
Valor Econômico - 19/04/2013
 

A reação do mercado à suave elevação da taxa Selic para 7,5% foi cristalina - a maior queda nas taxas de contratos de Depósito Interfinanceiro (DI) na Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F) desde 1º de setembro de 2011, quando o Banco Central parou de elevar e começou a reduzir os juros. O juro real de curto prazo, calculado pela diferença entre o rendimento dos contratos de swap de 360 dias e a inflação projetada para 12 meses, caiu de 2,77% para 2,41%. O volume de negócios foi quase quatro vezes superior à média diária, em um sinal de que a maioria errou a aposta ao interpretar frases do presidente do BC, Alexandre Tombini, como sinal de um ajuste de 0,5 ponto percentual.

A reação do mercado à decisão do Comitê de Política Monetária do BC de elevar a taxa Selic em 0,25 ponto percentual, para 7,50%, ao invés de optar por um ajuste mais forte, de 0,50 ponto, foi clara: houve a maior queda nas taxas de contratos de Depósito Interfinanceiro (DI) na Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM&F) desde 1º de setembro de 2011 - justamente a data em que o Banco Central surpreendera o mercado, pela última vez, cortando a taxa básica de juros.
O volume de negócios na BM&F ontem foi quase quatro vezes superior à média diária. Sinal de que a maioria errou a aposta, numa posição que foi construída na sexta-feira passada, quando o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, disse estar acompanhando "atentamente" todos os indicadores. A frase foi interpretada, erroneamente, como aviso de que a dose do remédio seria mais forte.
Para uma parte do mercado, o fato de o Copom frustar tantas estimativas tem custos: a incerteza dos analistas aumentou ao invés de diminuir. "A decisão traz mais incertezas no curto prazo, aumenta a volatilidade e falha ao tentar ancorar as deterioradas expectativas de inflação", disse o estrategista chefe da Icap Brasil, Gabriel Gersztein.
A taxa do contrato DI com vencimento em maio de 2013 caiu de 7,39% para 7,26%. O DI de janeiro de 2014, o mais líquido do dia, recuou de 8,20% para 7,83%.
Na BM&F, as taxas dos contratos de curto prazo caíram mais intensamente que as de longo prazo. Assim, a diferença entre as taxas dos contratos DI com prazo em janeiro de 2014 e o DI de janeiro de 2017, por exemplo, subiu a 1,17 ponto, de 0,93 ponto na véspera. No mercado de juros, maior demanda por um prêmio significa um maior grau de incerteza.
Outro sintoma desse maior grau de incerteza está no comportamento do juro real de curto prazo, que caiu ao invés de aumentar. A taxa calculada pela diferença entre o rendimento dos contratos de swap de 360 dias e a inflação projetada para 12 meses cedeu a 2,41%, ante 2,77% no dia anterior.
Mas o cenário para a inflação piorou, como mostra a taxa projetada pelos negócios com a Nota do Tesouro Nacional Série B (NTN-B), papel atrelado ao Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). No papel com vencimento em 2015, a estimativa de inflação implícita subiu a 5,406%, ante 5,248% anteontem.
"Todo mundo sabe que esse é um ciclo para controlar expectativas, e a leitura que ficou é que o BC agiu empurrado pelo mercado, e não com a intenção de perseguir uma meta de inflação", disse o diretor da Nomura Securities, Tony Volpon.
O economista do HSBC, Constantin Jancsó, apontou que a opção do BC por um ajuste da Selic em 0,25 ponto não será suficiente para ancorar as expectativas de inflação entre os agentes econômicos.
Para o banco Fator, o ritmo da atividade vai ser determinante para o ciclo de juros a ser implementado pelo Banco Central. Embora tenha optado por manter a projeção de uma Selic subindo 150 pontos básicos, indo a 8,75% neste ano, o economista-chefe do Fator, José Francisco de Lima Gonçalves, afirma que o ritmo desse aperto vai depender, em última instância, do andamento da atividade econômica. "A escolha de ritmo mais lento deve implicar ajuste para cima na curva de juros, por força de eventual atraso da trajetória indicada e cuja confirmação fica para a leitura da ata na próxima quinta-feira", diz Lima Gonçalves.
Já o economista do Credit Suisse, Nilson Teixeira, enxergou fatores que justifiquem uma postura mais cautelosa do BC: os dados recentes de atividade no país e a deterioração recente da percepção de risco global elevam a probabilidade de o crescimento brasileiro ser inferior à previsão atual, além do risco de a inflação pelo IPCA ser inferior à projeção do próprio banco, de 5,6% - caso ocorra uma redução mais significativa de alimentos in natura, em conjunto com uma maior redução dos preços de commodities no mercado internacional ou mais desonerações tributárias.
"A autoridade monetária ganha flexibilidade para suas próximas decisões, inclusive para interromper o ciclo, se o cenário assim o demandar", afirma o diretor de pesquisas e estudos econômicos do Bradesco, Octavio de Barros. Flexibilidade que começa a ser testada hoje, quando o IBGE revela a prévia do IPCA de abril.

AMEAÇADO PELA INFLAÇÃO, BRASIL VOLTA A SUBIR JURO

AMEAÇADO PELA INFLAÇÃO, BRASIL VOLTA A SUBIR JURO

BC AUMENTA JUROS PARA 7,50%
Autor(es): VICTOR MARTINS
Correio Braziliense - 18/04/2013
 

Com aval da presidente Dilma, BC eleva taxa a 7,50% ao ano para combater a disparada dos preços. Empréstimos e financiamentos devem ficar mais caros

Com a inflação em alta e as famílias reclamando da perda de poder aquisitivo, o Banco Central eleva a taxa básica com aval da presidente Dilma Rousseff. Especialistas acreditam que o arrocho pode terminar em maio

Depois de 20 meses de afrouxamento monetário, o Banco Central aumentou a taxa básica de juros (Selic) em 0,25 ponto percentual, de 7,25% (o menor nível da história) para 7,50% ao ano. A decisão revelou divisão no Comitê de Política Monetária (Copom) e alimentou a expectativa de especialistas de que o arrocho deverá terminar em maio, com mais uma alta de 0,25 ou 0,50 ponto. Até lá, o BC terá uma série de indicadores de inflação e de atividade para avaliar melhor os rumos da Selic. A tendência é de ver reajustes menores de preços e crescimento econômico menor do que o esperado. O cenário central do banco, porém, é de quatro altas seguidas de 0,25 ponto cada, com a taxa básica cravando 8,25%.

Dois dos oito diretores do BC, Aldo Luiz Mendes (Política Monetária) e Luiz Awazu Pereira (Assuntos Internacionais) votaram pela manutenção da Selic em 7,25%. Mas prevaleceu a posição de que a instituição precisava agir, diante da resistência da inflação. Na semana passada, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) estourou o teto da meta, de 6,5%, ao bater em 6,59%, fato que levantou uma série de questionamentos sobre o real compromisso do governo em manter o custo de vida sob controle. São os mais pobres, os principais prejudicados pela carestia, pois os alimentos consomem a maior parte do orçamento desse contigente que, em grande maioria, vota na presidente Dilma Rousseff.

No comunicado divulgado após a reunião do Copom, o BC endureceu o tom contra a alta de preços, mas disse também que o cenário inspira cautela. “O Comitê avalia que o nível elevado da inflação e a dispersão de aumentos de preços, entre outros fatores, contribuem para que o IPCA mostre resistência e ensejam uma resposta da política monetária”, destacou o documento. “Por outro lado, o Copom pondera que incertezas internas e, principalmente, externas cercam o cenário prospectivo para a inflação e recomendam que a política monetária seja administrada com cautela.” A reunião de ontem foi uma das mais aguardadas desde a de agosto de 2011, quando o BC cortou a Selic em 0,50 ponto a despeito de todo o mercado aposta na direção contrária.

Gastos públicos
Na opinião de Carlos Thadeu Filho, economista da gestora de recursos Franklin Templeton, diante do comunicado do BC, há chances de o processo de alta da Selic se encerrar em maio. Ele contou que apostava em uma elevação de 0,25 ponto nesta reunião e em mais três ajustes de mesma intensidade nos próximos meses. Agora, contudo, avalia que esse processo pode ser interrompido rapidamente pois a inflação tende a desacelerar no decorrer do ano e o nível de atividade se mostrará mais fraco, pois as famílias perderam renda com a disparada dos preços. “Tínhamos esse cenário, e a ideia original era de quatro altas seguidas de 0,25 ponto. Agora, existe a chance de o arrocho ser interrompido no meio”, frisou. “O mundo está caminhando para deflação, devido à queda dos preços das commodities e da fraqueza da economia”, emendou.

Para Tatiana Pinheiro, economista do Banco Santander, o BC deve levar a Selic até 8% ao ano. “Na explicação, o banco ressalta o desconforto com a inflação, mas coloca, por outro lado, que incertezas externas e internas recomendam cautela”, justificou. “Quando a inflação vira piada e não sai do noticiário, é porque as coisas começam a sair do controle e exigem uma medida dura para controlar as expectativas. Foi por isso que o BC agiu ontem”, acrescentou Newton Rosa, economista-chefe da Sul América Investimentos.

Os especialistas ressaltaram, no entanto, que a alta de juros não diminui os preços de alimento. O aperto monetário afeta outros custos da economia, contaminados pelo encarecimento da comida. Os serviços, explicaram, são facilmente contaminados. Se o cabeleireiro gasta mais para sobreviver, por exemplo, ele vai repassar esse custo imediatamente aos clientes. Com esse quadro de repasses se disseminando pela economia, Luciano Rostagno, estrategista-chefe do Banco WestLB do Brasil, avaliou que não havia saída para o BC. “Nem mesmo as desonerações da conta de luz e da cesta básica ajudaram a conter a inflação”, destacou. Ele destacou ainda que o Banco Central também foi pressionado pela decisão do governo de afrouxar o gastos públicos, que são inflacionários.

Potencial candidato do PSDB à Presidência da República, o senador Aécio Neves (MG) disse que o aumento dos juros foi “lamentável”.



» Divergências

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) reconheceu a importância do Banco Central de controlar a inflação, mas lamentou a alta dos juros, que pode prejudicar a atividade produtiva. Para a Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT), a pressão sobre o BC foi “terrorismo de mercado”. “A medida vem na contramão do crescimento econômico e do desenvolvimento social”, avaliou Carlos Cordeiro, presidente da entidade.

Combate à inflação será ‘sistemático’, diz Dilma

Combate à inflação será ‘sistemático’, diz Dilma

Ataque à inflação será "sistemático", diz Dilma
Autor(es): Fernando Gallo
O Estado de S. Paulo - 17/04/2013
 

A presidente Dilma Rousseff disse ontem que "qualquer necessidade" de aumento de juros "para combate à inflação" hoje em dia "será possível fazer em um patamar bem menor" do que na época em que o País conviveu com taxas mais altas. Ela reiterou que o governo "não negociará" com a inflação. A declaração foi feita na véspera de o Copom anunciar se haverá alguma mudança na taxa de juros.
Presidente culpa "pessimismo especializado" pelas avaliações, cada vez mais frequentes, de que a economia brasileira começa a desandar.
A presidente Dilma Rousseff, disse ontem em Belo Horizonte que "qualquer necessidade" de aumento de juros "para combate à inflação" hoje em dia "será possível fazer em um patamar bem menor" do que na época em que o País conviveu com taxas mais altas. Ela voltou a dizer que o governo "não negociará" com a inflação e assegurou que não terá "o menor problema em atacá-la sistematicamente".
As declarações de Dilma foram dadas exatamente no dia em que o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central iniciou sua reunião para definir se haverá alguma mudança na taxa de juros (Selic). Com o avanço da inflação - que, nos 12 meses terminados em março alcançou 6,59%, acima do teto de meta, de 6,50% -, as apostas dos analistas apontam para um aumento na taxa (leia mais à página B4). O número será divulgado hoje.
Dilma participou, em Minas Gerais, da cerimônia do anúncio de uma fábrica que vai produz insulina humana no Brasil. E, em meio às críticas que o governo vem recebendo por conta dos rumos da política econômica, tentou passar uma mensagem otimista. "Não é hora de achar que a hora do Brasil passou. Pelo contrário, a hora do Brasil é agora. Temos de ter certeza de que passamos e estamos passando por um momento muito difícil no cenário internacional. O Brasil está passando esse momento mantendo a sua robustez, a capacidade de fazer política industrial", afirmou.
"Mantivemos a capacidade de buscar um maior equilíbrio entre as variáveis macroeconômicas, que é mudar o patamar de juros no Brasil. Jamais voltaremos a ter aqueles juros em que qualquer necessidade de mexida elevava os juros para 15% porque estava em 12% a taxa real, Hoje temos uma taxa real bem baixa. Qualquer necessidade para combater a inflação será possível fazer num patamar bem menor", disse.
A presidente voltou a culpar o "pessimismo especializado" pelas avaliações de que a economia pode desandar. "Acredito que tem uma parte dessa história que vocês escutam que é um pessimismo especializado, de plantão. Um pessimismo que nunca olha o que já conquistamos e a situação em que estamos. Sempre olha achando que a catástrofe é amanhã. Achando que esse processo é um processo que tem sinalizações indevidas."
Dilma declarou ainda que "não há hipótese" de o Brasil não apresentar crescimento econômico em 2013.
Tucanos. Na segunda à noite, falando a uma plateia petista, Dilma associara o "pessimismo" aos tucanos, ao dizer que os "pessimistas" eram os mesmos que haviam feito o racionamento de energia no País em 2001. Ontem, embora não tenha feito a mesma associação, fez os comentários na presença do governador mineiro Antonio Anastasia (PSDB), um dos principais aliados do senador Aécio Neves (PSDB-MG).
Aécio, que deve ser um dos oponentes de Dilma na disputa presidencial de 2014, disse em entrevista recente que a presidente é "leniente" com a inflação. Ao ouvir os comentários de Dilma, Anastasia apenas olhou, constrangido. Na cerimônia, ele fizera um discurso brando, no qual ressaltou as parcerias entre os governo federa1 e mineiro e agradeceu a Dilma por elas.
Dilma Rousseff
"Jamais voltaremos a ter aqueles juros em que qualquer necessidade de mexida elevava os juros para 15% porque estava em 12% a taxa real Hoje temos uma taxa real bem baixa. Para combate a inflação será possível fazer num patamar bem menor."

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Inflação não desanima investidor estrangeiro

Inflação não desanima investidor estrangeiro

Âncora externa
Autor(es): PAULO SILVA PINTO
Correio Braziliense - 15/04/2013
 

Investidores estrangeiros mantêm o interesse no Brasil, apesar da subida do custo de vida e do crescimento fraco

Em tempos de inflação em alta e de frustração com o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), os investimentos estrangeiros diretos, aqueles que são destinados à produção, são um alívio nos indicadores do país. Depois de anos seguidos de recorde, os números ainda se mantêm fortes. Em fevereiro, dado mais recente, o fluxo de recursos vindos de fora foi de US$ 2,65 bilhões, contra US$ 2,13 bilhões no mesmo mês em 2012, apesar do quadro de baixa expansão da atividade econômica. “As empresas estrangeiras estão batendo às nossas portas”, atesta o diretor de fusões e aquisições da Ernst Young Terco, Viktor Andrade. “O potencial de crescimento e amadurecimento da nossa economia é grande”, aposta o gerente de fusões e aquisições da Pricewaterhouse Coopers (PwC), Alexandre Pierantoni.

Só na semana passada, houve dois negócios de peso. Na sexta-feira, a Israel Aerospace Industries anunciou a compra de 40% da IACIT, companhia sediada em São José dos Campos (SP), que fornece serviços e equipamentos nas áreas de controle de tráfego aéreo e marítimo, meteorologia e tecnologia da informação. Dois dias antes, na quarta, foi fechada uma aquisição que vinha sendo discutida há meses — essa na área de agribusiness, em que a competitividade brasileira é notória. A multinacional holandesa DSM comprou a Tortuga, que produz nutrientes para bovinos. Fundada em 1954 por um imigrante italiano, a empresa tem sede em São Paulo e unidades em vários estados. O valor da transação foi divulgado, o que é raro: 440 milhões de euros (R$ 1,12 bilhão).

Na semana anterior, houve também duas transações significativas, igualmente nas áreas de tecnologia e de nutrição animal. Na terça, 3 de abril, a Intel, maior fabricante mundial de chips, comprou a Profusion, produtora de softwares de Campinas (SP). No mesmo dia, a norte-americana H.J. Baker ficou com a Fanton, de Bauru (SP), outra produtora de suplemento alimentar para gado.

A H.J. Baker não está chegando agora. No ano passado, havia adquirido outra fábrica de insumos para criadores, a Rumiphos, de Paranaíba (MS). O faturamento combinado das duas empresas é de R$ 20 milhões anuais, mas a perspectiva é crescer 50% em dois anos. E tem muito mais gente querendo entrar. A italiana Barilla, fabricante de massas, contratou o banco Goldman Sachs para procurar empresas brasileiras que possa comprar ou com as quais possa se associar. A Barilla é presidida desde o ano passado por Claudio Cozzani, que morou no país no período em que foi executivo da Unilever.

Nos três primeiros meses do ano, houve 22 negócios no Brasil envolvendo estrangeiros, de acordo com levantamento do blog Fusões e Aquisições. Desse total, 15 foram com investidores estratégicos — quando uma empresa estrangeira vem para cá — e 7 financeiros, em geral fundos de private equity, que pretendem lucrar, com a venda da fatia que compraram, daqui a alguns anos. “Eles são importantes porque, além do capital que trazem, cobram resultados e aumentam a eficiência das empresas”, diz Pierantoni, da PwC. Segundo ele, vários desses fundos que ainda não estão no Brasil vêm prospectando negócios no país.

Distorções
Desde a crise de 2008, as nações emergentes têm sido o destino preferencial de investimentos externos. E o Brasil se destaca. Foi o país que mais cresceu nesse quesito, no período. Em 2010, aumentou 56% em relação ao ano anterior o montante de líquido (descontando o que saiu) de recursos destinados a aumentar a produção aqui. Em 2011, houve nova subida expressiva, de 24%. Em volume financeiro, o país só perde para a China.

No ano passado, porém, o crescimento já começou a perder fôlego. Entraram no país
US$ 65,2 bilhões líquidos (descontado o que saiu), menos do que os US$ 66,7 bilhões de 2011. Em reais o volume foi superior, por conta da volatilidade na cotação das moedas. “De qualquer forma, o que importa é que estamos em um patamar elevado, por conta dos aumentos muito grandes nos anos anteriores”, nota Andrade, da Ernst & Young Terco.

A consultoria Tendências projeta para este ano um pequeno aumento, que elevará o total para US$ 67 bilhões. “A situação ainda é razoavelmente boa, apesar da piora na condução da política econômica”, aponta o economista da consultoria Bruno Lavieri. Ele critica a falta de previsibilidade quanto aos preços. “O governo não usa mais a política monetária. Tenta segurar a inflação por meio de incentivos que causam distorções na economia”, afirma.

INFLAÇÃO PÕE GOVERNO EM ALERTA. JUROS VÃO SUBIR

INFLAÇÃO PÕE GOVERNO EM ALERTA. JUROS VÃO SUBIR

GOVERNO BATE O MARTELO: JUROS VÃO SUBIR
Correio Braziliense - 13/04/2013
 

O ministro da Fazenda e o presidente do BC romperam o silêncio antes da reunião do Copom e sinalizaram com o aumento da taxa Selic, interrompendo a queda iniciada em agosto de 2011. Eles também prometeram medidas, até mesmo impopulares, contra a alta de preços

O governo elevou fortemente, ontem, o tom do discurso pelo qual vem prometendo combate sem tréguas à alta da inflação, que superou o teto da meta de 6,5% nos 12 meses terminados em março, ao cravar 6,59%. Com isso, consolidou no mercado a convicção de que o Banco Central vai aumentar a taxa básica de juros (Selic) na próxima quarta-feira. No Rio de Janeiro, o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, quebrou a regra de manter silêncio na véspera dos encontros do Comitê de Política Monetária (Copom) e afirmou que "não haverá tolerância com a inflação". O ministro da Fazenda, Guido Mantega, foi ainda mais taxativo. "Nós não vamos titubear em tomar medidas, mesmo que não populares, como o ajuste na taxa de juros", disse ele, durante evento em São Paulo.
A mensagem afinada dos principais comandantes da política econômica tornou unânime, entre os analistas, a previsão de alta dos juros e fez crescer significativamente o número dos que apostam em uma subida mais forte na semana que vem, de 0,5 ponto percentual, com a Selic passando dos atuais 7,25% para 7,75% ao ano. Até então, a maioria dos que previam um ajuste falava em correção de 0,25 ponto. Depois do recado dado por Tombini e Mantega, ninguém mais acredita que o BC adiará para maio a decisão de apertar a política monetária para quebrar a resistência da inflação, que assusta a população.
Nem mesmo declarações da presidente Dilma Rousseff, que fez uma crítica aos que defendem um aumento da taxa de desemprego como remédio contra a carestia, abalaram a certeza de que o Copom interromperá o longo ciclo de queda da Selic, iniciado em agosto de 2011, que trouxe a taxa para a mínima histórica. "Tem muita gente que fica dizendo por aí que nós temos de reduzir o emprego", afirmou a presidente, em Porto Alegre, durante solenidade de formatura de alunos do Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico (Pronatec). "É pouca gente, mas faz barulho. Essas pessoas estão equivocadas", completou.
O pronunciamento lembrou a entrevista de Dilma em Durban, na África do Sul, no fim de março, quando afirmou não concordar com políticas de combate à inflação "que olhem a redução do crescimento econômico". Na ocasião, a fala da presidente foi interpretada como um veto à subida dos juros e derrubou as taxas nas operações futuras, destruindo o trabalho feito pelo BC de recuperação de sua credibilidade. As palavras de ontem, no entanto, foram tomada pelo mercado apenas como um contraponto à decisão que o Copom deve oficializar na quarta-feira. Não faltou quem entendesse que elas foram proferidas com o objetivo de mostrar que o BC, cuja imagem tem sido cada vez mais arranhada, possui autonomia para determinar o rumo da Selic.
Mudança
"O Banco Central tem dito que não há e não haverá tolerância com a inflação. Nós estamos neste momento monitorando atentamente todos os indicadores, e, obviamente, no futuro, vamos tomar decisões sobre o melhor curso para a política monetária", afirmou Tombini. Para especialistas, o principal sinal dado pelo presidente do BC foi a inclusão da palavra "atentamente" na sua declaração. Eles lembraram que, no passado, essa foi a senha usada pelo Copom todas as vezes que deu início a um ciclo de alta dos juros.
O estrategista-chefe do Banco WestLB, Luciano Rostagno, é um dos que se convenceu definitivamente de que a porta está aberta para a elevação da Selic na semana que vem. "Em todas as declarações dadas até agora, Tombini não tinha sido tão enfático. Ele sabe que um termo como esse, num comunicado (do Copom), seria para indicar que subiria a taxa", frisou.
Tombini participou de um encontro de presidentes de bancos centrais da América do Sul. Num dos intervalos do evento, ao contrário do que costuma fazer às vésperas de uma reunião do Copom, ele não se esquivou das perguntas dos jornalistas. As afirmações do presidente do BC jogaram mais combustível no mercado futuro de juros, que já estavam subindo fortemente com as afirmações de Mantega. Reproduzida na internet, a entrevista também levou muitas instituições financeiras a mudarem suas projeções sobre a Selic, antecipando a previsão de alta de maio para abril.
Eleições
A Nomura Securities passou a acreditar que a taxa básica subirá 0,50 ponto percentual na próxima semana, mas manteve a perspectiva de que ela fechará o ano a 8,75%, ou seja, a alta total será de 1,5 ponto. Em relatório a clientes, o Citibank, que apostava na manutenção dos juros neste mês, informou que espera, agora, um ajuste de 0,25 ponto. A Selic não sobe desde meados de 2011, quando o BC deu início à série de 10 cortes seguidos, até outubro passado. Desde então, ela foi mantida em 7,25%.
A redução dos juros, feita com o objetivo de estimular a atividade econômica, foi também transformada pela presidente Dilma em uma bandeira de governo e num dos principais trunfos com que espera enfrentar a campanha pela reeleição, no próximo ano. O crescimento, porém, não veio, e a inflação se manteve perigosamente em alta. Nesse novo quadro, foi inevitável mudar a estratégia. Ontem, Mantega afirmou que o cenário político não influencia as decisões na área monetária. "Se vocês olharem ao longo do tempo, nós já elevamos juros em véspera de eleição. Em 2010, por exemplo, fizemos isso. Portanto, não nos pautamos por calendário político", garantiu.
ODAIL FIGUEIREDO
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PRESSÃO NO BOLSO - ALTA DOS PREÇOS JÁ DERRUBA VENDAS EM SUPERMERCADOS

PRESSÃO NO BOLSO - ALTA DOS PREÇOS JÁ DERRUBA VENDAS EM SUPERMERCADOS

SOB PRESSÃO
Autor(es): Clarice Spitz
O Globo - 12/04/2013
 
Comércio tem queda de 0,4% com alta da inflação. Nos supermercados, recuo foi de 1%
RIO e SÃO PAULO A alta da inflação nos últimos meses, com a disparada de preços de alimentos, já provoca uma queda nas vendas do comércio. O IBGE informou ontem que as vendas do varejo recuaram 0,4% em fevereiro, frente a janeiro, já com ajuste sazonal. O resultado surpreendeu os analistas, que previam uma alta de 1,2% nas vendas do comércio varejista. Em relação a fevereiro do ano passado, o movimento caiu 0,2%. No segmento de supermercados e varejo de alimentos e bebidas, as vendas recuaram 1% em relação a janeiro e 2,1% na comparação com fevereiro de 2012.
- O preço freou a demanda e influenciou muito - disse o economista do IBGE Reinaldo Pereira - Apesar da massa salarial maior e do emprego, começamos a observar o impacto da alta de preços.
Os preços de alimentos e bebidas subiram 13,48% nos 12 meses até fevereiro. Além de afetar as vendas nos supermercados, a inflação desse grupo acaba prejudicando o resultado de outros setores do varejo.
- A inflação mais alta de alimentos diminui o consumo porque pesa muito nos orçamentos das famílias. Ao gastar mais com alimentos, que são uma despesa que não se pode substituir, deixa-se de gastar com outros produtos - diz Luís Otávio Leal, economista-chefe do ABC Brasil.
Depois das fortes altas de preços de alimentos no primeiro trimestre, o consumidor deverá ver um alívio este mês. O fim do período das chuvas vai coincidir com os efeitos da desoneração da cesta básica, anunciada pela presidente Dilma Rousseff em 8 de março. Itens como açúcar, óleo de soja e carnes terão queda mais acentuada de preços. Mas começam a aparecer novos focos de pressão, caso do leite longa vida. E analistas afirmam que serviços e transportes poderão puxar a inflação.
No atacado, os preços de alguns alimentos começam a ceder. A caixa com 18 quilos de tomate tipo Débora, que chegou a custar R$ 150 no início de abril, já era comercializado a R$ 80 ontem na Ceasa do Rio. O feijão preto deve se beneficiar da chegada do produto importado da China e passar de cerca de R$ 180 (a saca de 60 quilos) para R$ 120 em maio, no atacado, na previsão do presidente da Bolsa de Gêneros Alimentícios do Rio de Janeiro, José de Souza e Silva.
Na Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp), que é o maior centro de abastecimento de hortifrutigranjeiros do país, a expectativa é de uma "normalização" nos preços. A oferta de tomate, por exemplo, melhorou, e fez o preço cair de R$ 7,80 para R$ 4,20 o quilo. Josmar Macedo, assistente-executivo do Ceagesp, diz que a expectativa é que esse preço caia para R$ 2,50.
No varejo, dados da Fundação Getulio Vargas (FGV) apontam queda de 3,29% do quilo do açúcar refinado nos 30 dias encerrados em 10 de abril. Nos 30 dias encerrados em 1º de abril, a queda era menor, de 2,61%. O frango inteiro passa de uma alta de 1,19% em 1º de abril para uma queda de 0,57% agora. Mas o leite sai de uma alta de 1,36% para 2,82%. Segundo André Braz, da FGV, a alta do leite está relacionada ao clima. Com menos chuvas, as pastagens começam a secar. Para Elson Teles, do Itaú Unibanco, o aumento do leite pode ter relação com a seca na Nova Zelândia, que é grande produtor.
Se a alta da maioria dos alimentos começa a perder fôlego, outros itens poderão pressionar a inflação daqui para frente, como os serviços e as tarifas de transportes. O emprego e a renda em alta, apesar do "PIB anêmico", segundo Paulo Picchetti, da FGV, são algo sem precedente que dificulta projeções, mas vão continuar pressionando a demanda. Juan Jensen, da Consultoria Tendências, lembra que, em São Paulo, o último reajuste das tarifas de ônibus foi em janeiro de 2011, o que significa que em junho, quando serão reajustadas, as tarifas estarão há 30 meses congeladas.

Mercado vê alta de juro só em maio

Mercado vê alta de juro só em maio

Economistas estimam Selic estável em abril, com alta suave em 2013
Valor Econômico - 12/04/2013
 

Se depender da aposta majoritária dos analistas de mercado, o Comitê de Política Monetária (Copom) manterá inalterada a taxa básica de juros na semana que vem e deixará para deflagrar o ciclo de aperto monetário na reunião de maio.
Das 37 instituições consultadas pelo Valor PRO, 29 veem a taxa Selic estável em 7,25% ao ano, 6 esperam aumento de 0,25 ponto e só 2 contam com alta de 0,5 ponto. Também a maioria, 28 dos 37 entrevistados, trabalha com a perspectiva de que o aperto monetário será concentrado em 2013 - hipótese que, se confirmada, eximirá o BC de realizar essa desconfortável tarefa em ano eleitoral - e prevê um ciclo total de aumento de 1 a 1,5 ponto percentual.

Monica de Bolle, sócia-diretora da Galanto e diretora da Casa das Garças, está entre os economistas que veem a autoridade monetária postergando para maio o início da alta da taxa básica
Se depender da aposta majoritária dos analistas ligados ao mercado, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) vai manter a taxa básica de juros, a Selic, na semana que vem, em 7,25% ao ano, e deixa para deflagrar o ciclo de aperto monetário na reunião prevista para 28 e 29 de maio.
A maioria dos analistas consultados pelo Valor PRO, serviço em tempo real do Valor, está convencida de que a Selic subirá no mesmo dia em que o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgará o resultado do Produto Interno Bruto (PIB) do primeiro trimestre.
Das 37 instituições financeiras e consultorias ouvidas entre segunda e quarta-feira - data em que foi conhecido o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de março, (de 0,47%) -, 29 veem a Selic estável na semana que vem nos atuais 7,25% ao ano, 6 esperam aumento de 0,25 ponto e apenas 2 contam com alta de 0,5 ponto.
Os analistas também estão afinados em outro ponto. A maioria, 28 dos 37 entrevistados, trabalha com perspectiva de que o aperto monetário será concentrado em 2013, hipótese que, se confirmada, exime o BC de arrastar a desconfortável tarefa de elevar o juro para um ano eleitoral.
Esse mesmo elenco, de 28 dos 37 economistas pesquisados, contempla o próximo ajuste monetário com um ciclo total de 1,0 a 1,5 ponto percentual de alta, o que levaria o juro básico brasileiro a um intervalo de 8,25% a 8,75% ao fim de 2013. E que essa taxa permaneceria constante até dezembro de 2014.
Independentemente do ritmo do ajuste a ser adotado pelo BC, nenhum dos analistas enxerga a inflação declinando para o centro da meta, de 4,5%, neste ano ou no próximo. Na melhor hipótese, o IPCA em 2013 cai a 4,9% e, na pior, rompe o teto da banda e cola em 6,7%. Para 2014, a menor projeção para o IPCA é de 5,2%; a maior, de 6,5%. O teto da banda estará preservado.
Solange Srour, economista-chefe do BNY Mellon ARX Investimentos, está com a maioria e vê o Copom elevando a Selic em maio. Mas ela reconhece que cresceu a chance de o juro subir já. "A possibilidade não é desprezível. Seria uma chance única para que o BC tome as rédeas da política monetária que não parecem estar tão restritas ao comando do BC. Iniciar o aperto monetário em abril seria uma forma de retomar o controle. É inquestionável também que o IPCA, embora menor de fevereiro para março, continua nada confortável. As indicações para o indicador em abril já mostram pressão. Além disso, é necessário reconhecer que a inflação do primeiro trimestre, apesar das benesses do governo, foi muito alta. O pior resultado desde 2003. Sinal que não dá para adiar demais o início desse novo ciclo monetário".
A economista do BNY Mellon no Brasil diz ainda que o governo não deve esgotar o estoque de desonerações neste ano. "É importante e inteligente ter uma reserva para 2014, mas retomar já o discurso de que a inflação é um bem maior, de todos. E a elevação da Selic em abril pode conduzir o debate por esse caminho que a oposição começou a trilhar", diz a economista que não vê a inflação convergindo a 4,5% nos próximos dois ou três anos.
Também para o sócio da Troster & Associados, Roberto Troster, ex-economista chefe da Federação Brasileira dos Bancos (Febraban), o BC deve aproveitar a oportunidade e antecipar o ciclo de aumento de juros. "O ajuste já deveria ter começado há algumas reuniões. Mas já que não o fez, seria melhor o BC começar de maneira mais forte, para passar um sinal de que consegue reduzir a alta total e encurtar o ciclo de aperto."
Troster aponta que o BC poderia recorrer ainda a uma estratégia complementar, aumentando a meta de inflação no curto prazo, para 6% em 2013, e reduzindo a de longo prazo, para menos de 4,5%, a partir de 2017. "O momento pede reposicionamento na gestão monetária do país".
Já Monica Baumgarten de Bolle, sócia diretora da Galanto Consultoria e diretora da Casa das Garças, está entre os que veem uma autoridade monetária postergando para maio o início da alta de juros. A economista estima que o Copom vai esperar para ver o que acontece com a inflação a partir dos efeitos das desonerações.
Darwin Dib, economista-chefe da CM Capital Markets, acredita que o BC vai contrariar a cartilha que manda elevar juros para conter a inflação. Ele não vê ajuste de Selic nem neste ano nem no próximo, a despeito de projetar um índice de inflação próximo a 6% no acumulado em 12 meses em qualquer período.
Embora trabalhe com a perspectiva de elevação da Selic a partir de maio, Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados, também vê o BC particularmente atento à inflação corrente, mês a mês, para tomar decisões de política monetária, "torcendo para que os inúmeros pacotes do governo diminuam alguns percentuais da inflação deste ano".
Também para o diretor da Nomura Securities, Tony Volpon, o BC deve começar a elevar a taxa em maio, seguindo o protocolo que a própria autarquia iniciou em março. "Para um Banco Central que quer ganhar credibilidade, é importante seguir o protocolo. Interromper o ritual sem que tenha havido uma mudança material pode ser bem negativo".
Volpon afirma que não surgiu nada, desde a última reunião do Copom, que abale a expectativa de alta de juros, nem que sirva de argumento para o BC a antecipar o aumento semana que vem. Para ele, a única mudança observada até aqui é o comportamento dos juros futuros, que passaram a indicar probabilidade de alta da Selic na semana que vem. "Mas o Banco Central não pode se curvar, nem ao mercado, nem ao governo", afirma.
O diretor da Nomura faz referência ao mercado futuro de juros - composto pelas aplicações de investidores locais e estrangeiros, pessoas físicas, tesourarias de bancos e empresas, além de operações de hedge (proteção) - onde as apostas em aumento da Selic ganharam força.
Ontem, por exemplo, o contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) com vencimento em maio de 2013, avançou a 7,146% de 7,125% na véspera. Segundo cálculos de operadores, a curva de juros projetada na BM&F pelas taxas dos DIs aponta alta de 0,25 ponto percentual da Selic na semana que vem, e mais 0,38 ponto na reunião de maio.
Os profissionais ouvidos pelo Valor apontam os fatores que podem ser determinantes na redução dessa dispersão de cenários para os juros. Luis Otavio de Souza Leal, economista-chefe do Banco ABC Brasil, e Luciano Rostagno, estrategista-chefe do WestLB, consideram o resultado do PIB no primeiro trimestre uma variável-chave para a definição da política monetária pelo BC.
Já o economista da Ibiúna Investimentos, Marcelo Ferman, avalia que o Copom deve prestar especial atenção às medidas de persistência inflacionária, como núcleos e indicadores de difusão do IPCA. Além disso, o BC tenderá a aumentar o peso das expectativas de inflação em suas deliberações. "Além da inflação cheia, o BC provavelmente também olhará para a inflação de preços livres, que é o componente do IPCA que responde mais diretamente à política monetária", aponta Ferman.

Inflação já corrói vendas do comércio

Inflação já corrói vendas do comércio

Inflação alta afeta vendas do comércio
Valor Econômico - 12/04/2013
 

O ano começou morno também para o comércio varejista, que vinha crescendo de forma muito mais acentuada do que a indústria. Um exemplo do desempenho mais fraco foram as vendas dos supermercados do Grupo Pão de Açúcar no primeiro trimestre, que descontadas a inflação e as lojas inauguradas recentemente tiveram queda de 0,2% em relação ao ano passado. Em fevereiro, segundo o IBGE, o volume de produtos vendidos caiu 0,4% frente a janeiro. "O varejo vinha crescendo continuamente, mês a mês, e agora estancou. Isso acontece essencialmente porque a inflação está muito alta", diz Fábio Ramos, da Quest Investimentos.

Com preços em alta, as famílias já começam a comprar menos. É o que aponta a Pesquisa Mensal do Comércio, divulgada ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Segundo o levantamento, o volume de produtos vendidos em fevereiro pelo comércio restrito, que não considera cadeia automotiva e materiais de construção, caiu 0,4% em relação a janeiro, na série com ajuste sazonal, e recuou 0,2% na comparação com fevereiro de 2012. Por outro lado, a receita nominal cresceu 0,6% sobre janeiro e foi 7,6% superior a fevereiro de 2012.
"O varejo vinha crescendo mês a mês, e agora estancou. Isso acontece porque a inflação está muito alta", diz Fábio Ramos, analista da Quest Investimentos.
O impacto da inflação foi mais forte no segmento de hipermercados e supermercados, que inclui produtos alimentícios, bebidas e fumo, com queda de 2,1% em volume ante fevereiro de 2012, a maior nesse tipo de comparação desde novembro de 2003. Por outro lado, a receita do segmento cresceu 9,3% no mesmo período. Na prática, isso significa que os consumidores desembolsaram mais, mas levaram menos produtos para casa.
É no grupo alimentos que a inflação está mais alta - 13,48% em 12 meses no IPCA, o índice oficial de preços, até março -, bem acima da inflação geral, que ficou em 6,59% no período, rompendo pela primeira vez desde 2011 o limite da meta estipulada pelo governo, uma banda que tolera de 2,5% a 6,5% ao ano.
Fernanda Della Rosa, economista da FecomercioSP, entidade que reúne as empresas do setor no Estado de São Paulo, aponta ainda para o fato de que a inflação alta, além de corroer diretamente o poder de compra, também dificulta o pagamento de dívidas acumuladas, o que tem feito o nível de endividamento subir. "Com produtos de necessidade básica mais caros, caso dos alimentos, sobra menos dinheiro para que as pessoas paguem suas dívidas", diz. "O número de famílias endividadas está estável, e em um patamar razoável, mas a porcentagem da renda de comprometida com dívidas subiu."
Segundo pesquisa mensal da FecomercioSP, 52% das famílias da cidade de São Paulo possuíam algum tipo de dívida em março, praticamente o mesmo nível de 52,3% registrado um ano antes. Já a parcela daqueles que, dentre os endividados, estão com mais de 50% do orçamento comprometido sobe mês a mês. Saiu de 14,8% em junho, o piso do ano passado, para 21,8% em março. "Foi justamente o período em que a inflação começou a aumentar", diz Fernanda. Em junho de 2012, o IPCA em 12 meses era de 4,92%, também o piso do ano. O resultado é uma renda cada vez mais corroída tanto por dívidas quanto pela inflação, e cada vez menos renda disponível para a compra de outros bens.
A menor renda disponível após as despesas com alimentos, pode explicar a queda em três dos outros sete grupos pesquisados pelo IBGE, além dos supermercados: na comparação de fevereiro de 2013 contra fevereiro de 2012, o volume de vendas caiu em combustíveis e lubrificantes (-2,1%), móveis e eletrodomésticos (-1,0%) e de tecidos, vestuário e calçados (-1,1%).
Jankiel Santos, economista-chefe do Banco Espírito Santo (BES), lembra ainda que os preços dos alimentos não são os únicos a pressionar no varejo. "Não adianta dizer que a culpa é apenas dos alimentos, ou de um produto ou outro, como o tomate. A alta é generalizada e atinge tanto os produtos que dependem apenas de renda quanto os que dependem de crédito", disse. Levantamento feito pelo banco mostra que, até janeiro, a inflação acumulada em 12 meses dos produtos ligados à renda, grupo majoritariamente formado pelos alimentos, é de 12,5%, enquanto a daqueles que dependem mais de crédito, como eletrodomésticos e eletroeletrônicos, é de 4,3%.
Entre os fatores para isso, está principalmente o câmbio, que, após um processo de valorização no ano passado, puxou também o preço de bens de consumo e outros importados, como os eletrônicos, para cima. "O preço de computadores, que costumava cair 10% ao ano com o avanço da tecnologia, não cai mais de 2% agora, por conta do câmbio alto", disse Ramos, da Quest. "É o comportamento desse tipo de produto que antes segurava a inflação do varejo, e que agora também não está mais ajudando."
A Quest também olhou para a inflação do varejo e concluiu que chegou a 7,8% nos 12 meses encerrados em fevereiro, acima dos 6,3% do IPCA. A conta considera alimentos, eletrônicos e outros bens.
Para Thaís Zara, economista-chefe da Rosenberg & Associados, os resultados do varejo em fevereiro bastante abaixo do esperado pelo mercado - a estimativa apurada pelo Valor Data era de alta de 1,6% ante janeiro - reforça o alerta de que o Banco Central deve aumentar a Selic, a taxa básica de juros. "A questão da inflação já começou a prejudicar o volume de vendas e essa queda mostra uma atividade com dificuldade de reação", disse. A Rosenberg prevê que o BC aumente a Selic em 0,25 ponto percentual na quarta-feira, e, no total, eleve a taxa dos atuais 7,25% para 8,5% este ano.