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domingo, 2 de fevereiro de 2014

Alta da Selic gera custo extra de ao menos R$ 14 bilhões aos cofres públicos

Alta da Selic gera custo extra de ao menos R$ 14 bilhões aos cofres públicos

Autor(es): BRUNO VILLAS BÔAS
O Globo - 16/01/2014
 
O combate à inflação por meio da elevação da taxa básica de juros, a Selic, vai custar pelo menos R$ 14,2 bilhões a mais aos cofres públicos neste ano. É o que mostra cálculo do economista Felipe Salto, da Tendências Consultoria. Segundo ele, as despesas com juros devem crescer de R$ 56,5 bilhões no ano passado para R$ 70,7 bilhões neste ano, efeito do ciclo de aumento da Selic, que estava em 7,25% em abril de 2013 e chegou a 10,5% nesta quarta-feira.


Salto diz que sua estimativa é conservadora, pois considera apenas as operações compromissadas - instrumento do Banco Central (BC) para enxugar excesso de liquidez na economia pela venda de títulos públicos. Não está incluso o impacto dos juros sobre os títulos pós-fixados vendidos pelo Tesouro.
- Esses R$ 70 bilhões já representam três orçamentos do Bolsa Família. E o governo não vai conseguir mudar isso por decreto. É preciso mudar a base desta política fiscal expansionista, o que abriria espaço para uma política monetária mais decente - diz.
Pelos cálculos de José Roberto Afonso, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), o aumento de gastos com o ciclo da Selic é um pouco maior, de R$ 15,3 bilhões. O número, também considerado conservador, tem como base a estimativa informada na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) da União. Segundo o texto, o aumento de um ponto percentual da Selic provoca despesa extra com pagamento de juros de 0,09% do Produto Interno Bruto (PIB, soma de produtos e serviços produzidos no país).
- A taxa de juros é o instrumento predominante de política monetária também em outros países, mas parece que existe monopólio disso aqui no Brasil - disse Afonso, lembrando que o governo também tem adotado outros caminhos para conter preços. - O governo está intervindo diretamente nos preços dos combustíveis, da energia elétrica. Os chamados preços administrados estão sendo mais administrados do que nunca.
Segundo Margarida Gutierrez, professora da UFRJ, o crescimento do custo de pagamento de juros pode ser maior este ano por causa das incertezas em torno do corte da nota de classificação de risco do Brasil pela agência Standard & Poor’s (S&P) e do ano eleitoral. Ela explica que, neste cenário, os investidores tendem a exigir maior rendimento nos títulos do país.
- Se o BC não elevasse a Selic, aumentaria ainda mais a incerteza e cresceria ainda mais a conta de juros.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Mesmo com Selic em queda, crédito encarece

Mesmo com Selic em queda, crédito encarece

Mesmo com a Selic em queda, custo do crédito sobe pelo 2º mês seguido
Autor(es): FERNANDO NAKAGAWA , ADRIANA FERNANDES
O Estado de S. Paulo - 28/03/2012
 
Apesar da queda do juro básico e dos bons indicadores de emprego e renda, o crédito está cada vez mais caro. Na média, o preço dos financiamentos avançou de 38% ao ano, em janeiro, para 38,l%, em fevereiro. O encarecimento é liderado pelas operações para pessoas físicas, cuja taxa alcançou 45,4% no mês passado, e a tendência de alta permanece. O Banco Central atribui o fenômeno à inadimplência

Apesar da queda do juro básico desde agosto do ano passado e dos bons indicadores de emprego e renda, o crédito está cada vez mais caro. Segundo o Banco Central (BC), a inadimplência recorde no financiamento de veículos levou os bancos a adotar uma postura mais conservadora: aumentaram as margens nos empréstimos, o chamado spread, e por consequência as taxas de juros nessas operações.
Dados apresentados ontem pelo BC mostram que o preço dos financiamentos subiu pelo segundo mês seguido. Na média, o juro avançou de 38% ao ano, em janeiro, para 38,1%, em fevereiro. O encarecimento é liderado pelas operações para pessoas físicas, cuja taxa alcançou 45,4% no mês passado. Dado preliminar de março mostra que a tendência de alta segue e o custo já atingiu 45,5% no dia 15, o maior desde setembro.
O chefe do Departamento Econômico (Depec) do BC, Túlio Maciel, avalia que a inadimplência que resiste em cair é a grande culpada da alta do juro aos clientes, especialmente no crédito para compra de veículos.
Nessa operação, o calote subiu de 5,3% em janeiro para 5,5% no mês passado, novo recorde. Boa parte dessa inadimplência, diz Maciel, nasceu em operações realizadas em 2010. Naquele ano, o governo incentivou o crédito via bancos públicos e o total de empréstimos para veículos cresceu impressionantes 49,1%.
A inadimplência geral entre todos os financiamentos para famílias e empresas está estacionada em 5,8%, o pior resultado para fevereiro. Diante do calote alto, bancos estariam "se defendendo" com a aumento das margens. "Bancos estão com uma posição mais cautelosa e mais seletiva", explica Maciel.
Historicamente, a inadimplência elevada faz com que bancos aumentem a margem para compensar possíveis perdas. Hoje, a cada R$ 100 pagos em juro por uma pessoa física, R$ 78,85 vão para o caixa da instituição. Um ano atrás, a fatia era de R$ 71,23. O restante do dinheiro vai para o investidor que depositou o dinheiro usado pela instituição para fazer o empréstimo.
"O comportamento do crédito para veículos em 2010 foi exagerado. Agora que o carro deixa de ser novidade, as famílias comprometem a renda com outras coisas e o financiamento perde prioridade no fim do mês", diz o professor de finanças pessoais do Insper, Ricardo José de Almeida. Ele comenta que atualmente muitos consumidores preferem manter outros pagamentos em dia - como telefonia e internet - porque a recuperação de um carro, pelo banco que deu o financiamento, é mais demorada que o cancelamento de serviços.
Mesmo com a preocupação dos bancos, Tulio Maciel mantém a previsão otimista de que a inadimplência deve melhorar em breve. "Há perspectiva de reversão no médio prazo", disse o chefe do Depec do BC.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Selic a 9% obriga mudança da poupança

Selic a 9% obriga mudança da poupança

Cristiano Romero
Valor Econômico - 07/03/2012
 

É bem provável que a economia brasileira esteja caminhando para um novo patamar de taxa de juros. Há dúvidas sobre a capacidade do país de manter os juros baixos nos próximos anos, mas poucos duvidam do espaço existente hoje para redução no curto prazo. A queda da taxa básica (Selic) cria, a exemplo do que ocorreu em 2009, um desafio imediato para as autoridades: a mudança da regra de correção da caderneta de poupança, hoje definida como a variação da TR mais juro fixo de 6,17% ao ano.
A alteração na poupança é necessária porque, do contrário, com a queda da taxa Selic abaixo de um determinado patamar, os investidores migrarão em massa para as cadernetas, criando um grave problema: interrupção no financiamento da dívida pública. Numa economia em que o mercado de capitais ainda é asfixiado pela presença do Estado, os investidores aplicam maciçamente em títulos emitidos pelo governo, que, por sua vez, paga caro para se financiar no mercado.
Com a queda contínua da Selic, um processo que vem ocorrendo desde 2003, o país se aproxima de uma taxa básica de juros que torna mais vantajoso investir em caderneta de poupança, em vez de na compra de um título público. Em 2009, a Selic caiu para a mínima histórica - 8,75% ao ano. Pouco depois, subiu novamente, chegando a 12,5%. Agora, está em 10,5%, mas o Banco Central (BC) já avisou que ela recuará para um dígito.
É possível que, na reunião de hoje, o Comitê de Política Monetária (Copom) corte a Selic em 0,75 ponto percentual, levando-a para 9,75% ao ano. O ciclo de cortes não deve parar por aí. O Copom pretende reduzir os juros enquanto a inflação em 12 meses estiver em queda, o que pode ocorrer até meados do ano.
Na opinião de especialistas, uma Selic em 9% ao ano já deveria mover o governo a mexer na regra de correção de poupança. Evitaria, assim, um aumento desnecessário da volatilidade no mercado de títulos públicos. Se a regra não mudasse, nem todos os investidores correriam para a poupança. Alguns procurariam papéis privados com rentabilidade maior que a das cadernetas ou títulos públicos de prazos mais longos. Este seria o efeito positivo de se deixar tudo como está. O problema é que o mercado se tornaria extremamente volátil, acarretando custos imprevisíveis à gestão da dívida pública.
Em 2009, o governo chegou a formular proposta para a correção da poupança, baseada num gatilho - a cada queda da Selic, o rendimento da caderneta teria redução equivalente, de forma a se manter sempre menos atrativo que o de um título público atrelado à taxa básica. Agora, o Ministério da Fazenda planeja indexar a poupança a um percentual da Selic, sem mexer nos depósitos antigos.
O governo estaria postergando a decisão porque, a rigor, o Copom pode não reduzir os juros abaixo de 9% neste ano (alguma dica dos próximos movimentos deve vir hoje, com o comunicado da reunião do Comitê, ou na divulgação da ata, daqui a oito dias). Há também as eleições municipais no segundo semestre. O Palácio do Planalto sabe que a mudança da poupança será explorada à exaustão pela oposição.
Mudar a cultura do juro alto existente no Brasil não é, de fato, tarefa fácil. Os juros vêm caindo de forma persistente há uma década - em 2003, a Selic média foi de 23,24% ao ano; em 2011, caiu para 11,69%. Ainda assim, muitos investidores preferem se refugiar em papéis de prazo curto, atrelados à taxa Selic. O curioso é que, proporcionalmente, esse hábito é mais disseminado hoje entre instituições oficiais do que no próprio mercado.
Até janeiro, os fundos extramercado (que aplicam recursos do FAT, do Funcafé e do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação e das estatais não-financeiras, com exceção da Petrobras) eram os maiores aplicadores em LFT, título público corrigido pela Selic. Do total da carteira desses fundos, 66% estavam em LFTs no primeiro mês do ano, proporção maior que a de aplicação do mesmo título pelos bancos (29%) (ver tabela).
Em fevereiro, o governo obrigou os fundos oficiais a migrar para papéis com juros prefixados e títulos atrelados à inflação. A troca chegou a R$ 61,2 bilhões, o que permitiu ao Tesouro Nacional reduzir a participação das LFTs na composição da dívida em 3,3 pontos percentuais. Curiosamente, ao se manterem sobreaplicados nesses papéis, os fundos oficiais perderam dinheiro em 2011 porque a rentabilidade média dos títulos atrelados a preços e juros prefixados foi maior.
Neste momento, o Tesouro negocia migração idêntica com os gestores das disponibilidades do Fundo de Garantia do Tempo Serviço (FGTS). O impacto pode chegar a R$ 35 bilhões ou R$ 40 bilhões, o equivalente a cerca de dois pontos percentuais da dívida em LFT. Concluída mais essa permuta, o estoque total de LFTs deve cair para 25% da dívida mobiliária federal.
Trata-se de um avanço, mas ainda há muito chão pela frente. Para o Tesouro, a composição ótima de LFTs na dívida deveria variar de 10% a 20% do total. De qualquer forma, muito já foi feito nos últimos anos - em 2003, taxas flutuantes, como a Selic, corrigiam 47,8% da dívida pública.

APÓS TOMBO DO PIB, CORTAR JUROS VIRA PRIORIDADE

APÓS TOMBO DO PIB, CORTAR JUROS VIRA PRIORIDADE

CORTE MAIOR DE JUROS AGORA VIRA PRIORIDADE
Autor(es): agência o globo:Gabriela Valentee
O Globo - 07/03/2012
 
Incentivo ao setor produtivo também está entre opções para país crescer 4%. Mercado aposta em redução da Selic de 0,5 a 0,75 ponto hoje
Martha Beck,
BrasÍLIA e RIO. O mercado aumentou as apostas em corte mais acentuado na taxa básica de juros, a Selic, a ser anunciado hoje após a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Cetral (BC), após o ministro da Fazenda, Guido Mantega, afirmar que o governo fará o necessário para a economia crescer 4% em 2012, desempenho esperado pela presidente Dilma Rousseff. O arsenal de medidas para estimular o crescimento inclui, além da queda maior nas taxas de juros, desonerações em segmentos estratégicos do setor produtivo, incentivos para investimentos e ações para estimular o crédito e o consumo das famílias.
- Sempre é possível criar estímulos que podem ser fiscais ou monetários. No ano passado, ficamos mais contidos, por causa do cenário inflacionário. Estou tranquilo que, com os instrumentos que temos, vamos conseguir fazer o que precisamos - afirmou Mantega.
A expectativa é que o BC acelere a queda na Selic para estimular ainda mais a economia. No governo, há consenso de que existe espaço para mais cortes na taxa básica, hoje em 10,5% ao ano.
Para aumentar a oferta de crédito, o governo conta com um plano de redução dos juros nos empréstimos concedidos por bancos públicos. Com financiamento mais barato, as empresas poderão aumentar a produção e as famílias, consumir mais. A estratégia é estimular a competição, forçando as instituições privadas a baixarem suas taxas, que, na avaliação do governo, são excessivamente elevadas.
Além disso, o BNDES terá seu capital reforçado para financiar investimentos em infraestrutura, setor fundamental para impulsionar o crescimento do país e com grande poder de geração de empregos. No campo das desonerações, o governo pretende ampliar o número de setores que são beneficiados pela redução de tributos que pesam sobre a folha da pagamentos. Isso porque, além de tirar a competitividade em relação aos concorrentes de outros países, o alto custo de um funcionário formalizado inibe as contratações.
Para turbinar o crescimento, o governo conta também com as ações anunciadas no ano passado, mas que só terão efeito prático este ano. É o caso do programa Reintegra, que prevê um crédito tributário de 3% para os exportadores de manufaturados. Antes, havia uma grande burocracia para comprovar o direito a esse tipo de benefício, mas com o plano Brasil Maior - anunciado no ano passado - o governo resolveu abrir essa possibilidade a todas as empresas que vendem tais produtos no mercado internacional.
Preocupação demonstrada pelo governo muda apostas
Os recentes sinais de preocupação do governo com a queda do dólar e com o impacto negativo do excesso de liquidez gerado pelos bancos centrais dos países desenvolvidos - que a presidente Dilma chamou de "tsunami monetário" - reforçaram as apostas do mercado em uma Selic menor.
Ontem de manhã, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2013 (mais negociados na Bolsa de Mercadorias & Futuros) chegou a 8,93%, menor patamar já atingido, segundo a agência Bloomberg News. No fim do pregão, houve uma correção e a taxa ficou em 9,01%, ante 9,03% do pregão anterior.
Nos últimos pregões, mais investidores passaram a apostar numa aceleração dos cortes na Selic, passando do 0,5 ponto percentual para 0,75 ponto. Segundo analistas, como o PIB anunciado ontem veio dentro do esperado - se o crescimento econômico viesse ainda mais baixo no quarto trimestre, poderia haver mais espaço para o BC cortar mais os juros -, a preocupação do governo tem tido impacto.
Também os economistas já estão revendo suas projeções para a Selic diante dos movimentos do governo, embora o consenso ainda seja por um corte de 0,5 ponto hoje. Ontem, o Banco Modal divulgou relatório revisando a projeção de corte de 0,5 para 0,75 ponto. Em relatório da sexta-feira, a corretora Icap Brasil divulgou projeção de corte de 1 ponto, com a Selic caindo para 9,5% anuais hoje.
Para Jacob Weintroub, sócio da gestora Oren Investimentos, a sinalização do governo sobre o câmbio e a liquidez internacional trouxe uma nova variável para definir as apostas no mercado de juros futuros.
- Há uma leitura de que uma maneira de combater o efeito do excesso de fluxo de recursos para o país seria cortar mais os juros - diz Weintroub, destacando que as taxas dos contratos já consideram 50% de chance de um corte de 0,75 ponto na Selic hoje.