Dados divulgados ontem pelo IBGE mostram que a economia
brasileira pisou no freio e cresceu menos de 1% em 2012. É o pior
desempenho do Produto Interno Bruto (PIB, total das riquezas produzidas
no país) desde o auge da crise internacional em 2009. Diante do
cenário de incertezas,no ano passado, os investimentos encolheram 4% na
comparação com 2011.O tombo foi o maior em quatro anos. Entre os
países que formam o bloco Brics, o Brasil foi o que menos avançou. A
China registrou expansão de 7,8%; a Índia, de 5%; a Rússia, de 3,4% e a
África do Sul, de 2,5%.
Avanço do Produto Interno Bruto no ano passado revela as
dificuldades do país para retomar as forças. O Brasil tem o pior
desempenho entre os Brics, fica atrás das nações vizinhas e perde o
posto de sexta economia do mundo para a Grã-Bretanha
Rio de Janeiro — A presidente Dilma Rousseff mandou
um curto, mas enfático recado, a sua equipe: “Não desanimem”. O
objetivo foi manter a cabeça erguida do governo, nocauteado ontem com a
divulgação de que o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro cresceu
minguado 0,9% em 2012, o menor resultado desde 2009. Apesar de
esperado, o número informado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE) expôs as fissuras da política econômica, que
assustou os investidores, deixou os empresários com o pé atrás e
instalou um clima de desconfiança que custa a dissipar, mesmo com todos
os estímulos ao setor produtivo alardeados pelo ministro da Fazenda,
Guido Mantega. A ordem, agora, do Palácio do Planalto é olhar para
frente, unificar o discurso e não dar mais munição à oposição, que já
se arma para as eleições de 2014.
Pelas contas do IBGE, nos dois primeiros anos do mandato de Dilma, a
média de crescimento anual ficou em 1,8%, considerando a expansão de
2,7% em 2011. Trata-se do pior resultado no primeiro biênio de um
mandato desde o governo de Fernando Collor de Mello, quando o Brasil
enfrentou recessão (-1,7%). Na avaliação de Guido Mantega, não se pode
fazer tal comparação, uma vez que, duas décadas atrás, o que jogava o
PIB para baixo era um crise interna, agigantada pela hiperinflação.
Agora, o país está sendo solapado por sérios problemas internacionais.
Esse argumento, no entanto, não se sustenta, pois, outras economias,
muitas delas vizinhas do Brasil, estão com crescimento de até 5%. E,
melhor, com inflação baixa — aqui, o custo de vida se mantém acima de
6% no acumulado de 12 meses.
A grande esperança do Planalto era de que o quarto trimestre de 2012
marcasse uma virada da economia, consolidando a retomada. Não foi,
porém, o que aconteceu. Entre outubro e dezembro, o PIB aumentou 0,6%
ante o trimestre anterior, abaixo da média das expectativas do mercado,
de 0,8%. Por isso, vários analistas já estão revisando as estimativas
de expansão em 2013. A Tendências Consultoria fala, agora, em 3% ante
os 3,2% projetados até ontem. Luciano Rostagno, estrategista-chefe do
Banco WestLB, assegurou que deve rever a sua previsão para menos de 3%.
“Os dados não são animadores, é preciso ser otimista de forma
cautelosa”, frisou. Não à toa, o ex-presidente Lula, que estava no
interior do Ceará, recusou-se a comentar o PIB.
Competitividade
O desempenho do Brasil em 2012 ficou abaixo da média mundial, de 3,2%, e
foi o pior dentre o Brics, grupo de nações emergentes que inclui a
Rússia (3,4%), a Índia (5%), a China (7,8%) e a África do Sul (2,5%). Na
América Latina, vários países ficaram acima da média mundial: México
(3,9%), Colômbia (4%) e Chile (5,5%). E mais: o Brasil perdeu o posto de
sexta economia do mundo para a Grã-Bretanha. “O Brasil tem uma
economia mais diversificada do que seus vizinhos da região”, disse o
coordenador de Contas Nacionais do IBGE, Roberto Olinto. No caso do
México, a explicação para a diferença é outra. “O PIB maior foi
influenciado pelos 2,2% de crescimento dos Estados Unidos. O México tem
muitas maquiladoras (fábricas que montam componentes importados
agregando pouco valor), que exportam para o mercado norte-americano”,
argumentou.
Professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) e economista-chefe da
Confederação Nacional do Comércio (CNC), Carlos Thadeu de Freitas Gomes
viu outras razões para o desempenho pífio da economia brasileira.
“Temos menor competitividade do que muitos países, sobretudo pela
precariedade da infraestrutura e do elevado custo da mão de obra”,
frisou. Para produzir o mesmo que um trabalhador dos EUA, é preciso
cinco brasileiros. Os altos salários pagos no país, por sinal, ajudam a
explicar o porquê, mesmo com o PIB patinando, o desemprego se mantém
baixo. As empresas não demitem, porque temem ser obrigadas a contratar
mais caro no futuro. De qualquer forma, o próprio governo admite que o
mercado de trabalho vai sentir o baque neste ano, com menor criação de
vagas formais.
“O gosto para o início de 2013 está meio amargo. Para chegar ao PIB de
4% que o governo quer, o investimento tem que ser retomado com força, o
que não estamos vendo, e o consumo tem que crescer ainda mais,
movimento difícil se levado em conta o elevado nível de endividamento
das famílias”, afirmou Thadeu. Ele destacou que os números ruins de
2012 contaminaram a confiança dos agentes econômicos. A agricultura
caiu 2,3% no ano. Já a indústria encolheu 0,8%, a despeito do corte do
Imposto sobre Produtos (IPI) para vários setores e de a taxa de juros
ter caído para o menor nível da história, 7,25% ao ano. Por conta do
fraco desses segmentos, o IBGE revisou, para baixo, os resultados do
terceiro trimestre, de 0,6% para 0,4%, e do segundo, de 0,3% para 0,2%.
Ladeira abaixo
Nada, porém, pesou tanto para empurrar a economia brasileira ladeira
abaixo como os investimentos produtivos, que tombaram 4% em 2012,
apesar do incremento de 0,5% entre outubro e dezembro. São os
desembolsos feitos pelos empresários para a ampliação de fábricas que
dão a dinâmica ao PIB. O problema é que muitos deles estão preocupados
com a política intervencionista adotada pela presidente Dilma. “O 0,5%
de avanço no quarto trimestre foi o primeiro sinal da recuperação dos
investimentos”, ressaltou Roberto Padovani, da Votorantim Corretora. “A
dúvida é se isso vai se manter”, afirmou Zeina Latif, economista da
Gibraltar Consulting.
Roberto Olinto, do IBGE, também ressalvou que é preciso observar mais
um trimestre para garantir que há aumento de fato “e não apenas uma
oscilação” no investimento Vários economistas veem a inflação em alta e
a ameaça de elevação dos juros como limitadores para um salto nos
desembolsos das empresas. “A inflação atrapalha, pois a indústria tem
aumento de custos e não consegue repassá-los para seus preços”, afirmou
Zeina.
Do lado positivo do PIB, o crescimento foi calcado pelo consumo do
governo e das famílias, com avanço de 3,1% e 3,2% no ano,
respectivamente. Carlos Thadeu, da CNC, explicou que, no caso dos
lares, o incremento se deveu à constante elevação da massa salarial no
país, puxada pelo salário mínimo. O consumo das famílias teve o 37º
trimestre de aumento entre outubro e dezembro na comparação com o mesmo
período do ano anterior. Os economistas acreditam, porém, que a
demanda dos trabalhadores deve esfriar se os juros realmente subirem.
No entender de Jankiel Santos, economista-chefe do Espírito Santo
Investiment Bank, o Brasil vai crescer mais neste ano, até porque a
base de comparação será baixa. Mas ele assinalou que se esgotaram as
políticas de incentivo ao consumo.