quinta-feira, 22 de novembro de 2012

BRASIL DÁ HOJE MAIS UM PASSO À FRENTE

BRASIL DÁ HOJE MAIS UM PASSO À FRENTE

A ASCENSÃO DE BARBOSA
Autor(es): DIEGO ABREU
Correio Braziliense - 22/11/2012
 

Ao ser empossado às 15h na presidência do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa se tornará o primeiro negro a chefiar o Poder Judiciário, um dos três pilares da República. Assim como a eleição de um operário e de uma ex-presa política para presidente do Brasil, a ascensão de Joaquim — filho de uma faxineira e de um pedreiro — era, até pouco tempo atrás, um fato impensável na história brasileira. Última nação independente da América a abolir a escravidão, o país ainda é, 124 anos depois, marcado por contradições, preconceitos e desigualdades sociais extremas. Dentro desse contexto, Barbosa chega ao topo da carreira orgulhoso por haver triunfado pelos próprios méritos e celebrado como herói nacional por relatar a ação penal que pôs fim à impunidade de políticos corruptos no país. No total, 2,5 mil pessoas — entre artistas, ativistas e autoridades públicas —foram convidadas para a posse.

Primeiro ministro negro a presidir o STF será empossado hoje, em cerimônia para cerca de 2,5 mil convidados. Graças ao julgamento da Ação Penal 470, Corte reforçou o prestígio perante a população

Um dos protagonistas do julgamento da Ação Penal 470, que resultou na condenação de 25 envolvidos com o escândalo do mensalão, Joaquim Barbosa chega hoje ao cargo máximo do Poder Judiciário brasileiro. A posse do primeiro presidente negro da história do Supremo Tribunal Federal (STF) está marcada para as 15h e vai ser prestigiada pelas mais altas autoridades do país e por dezenas de artistas e ativistas que confirmaram presença na solenidade.
Joaquim Barbosa, 58 anos, chega ao cargo de presidente do Supremo diante da popularidade que conquistou na condição de relator do processo do mensalão. Sua fama de implacável contra os corruptos logo se propagou e colaborou para levar a Suprema Corte aos holofotes. Barbosa assume o posto embalado pelo maior julgamento da história do órgão, que aproximou o STF dos cidadãos e transformou o tribunal no plenário mais conhecido dos brasileiros — desde agosto, a população passou a sintonizar com mais frequência a TV Justiça para acompanhar o passo a passo do mensalão.
O novo presidente do Supremo é filho de mãe faxineira e pai que foi pedreiro e caminhoneiro. Joaquim Barbosa nasceu em Paracatu (MG). Sempre estudou em escola pública, inclusive em Brasília, onde concluiu o segundo grau no Colégio Elefante Branco. Formou-se em direito na Universidade de Brasília (UnB), instituição na qual fez mestrado em direito de Estado. Com origem no Ministério Público, o magistrado chegou ao Supremo em junho de 2003, após ser nomeado pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Nove anos depois de ingressar no STF, Barbosa conduziu em plenário a condenação do principal ministro do primeiro mandato de Lula, o ex-chefe da Casa Civil José Dirceu, que foi quem o apresentou ao ex-presidente da República (leia mais na página 4). Relator do processo, Barbosa endossou a tese da Procuradoria Geral da República ao declarar que o PT montou um esquema de compra de apoio parlamentar ao governo Lula.
Embalado pelo julgamento do mensalão, que ontem chegou à 47ª sessão, Joaquim Barbosa iniciará a gestão à frente do STF acumulando nas próximas sessões as importantes funções de comandante da Corte e de relator do processo.
Elogios
Na avaliação do presidente da Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB), Nelson Calandra, o julgamento deu uma visibilidade nunca antes experimentada pelo STF. "O Supremo recebeu um destaque perante as pessoas comuns. É um impacto extraordinário e uma visibilidade que antes não havia. O que eu mais ouço nas ruas são elogios ao STF e, em particular, ao ministro Joaquim Barbosa", destaca Nelson Calandra.
O jurista pondera, porém, que Barbosa precisará assumir uma postura de comandante e evitar embates, como os travados ao longo do julgamento com o revisor do mensalão, Ricardo Lewandowski, que toma posse hoje na função de vice-presidente da Corte. "A cadeira do presidente vai exigir dele uma série de atitudes no sentido de evitar confrontos. O ministro Joaquim vai ter que agir de modo policiado, uma vez que a função é de coordenação."
Para o presidente nacional da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Ophir Cavalcante, não há dúvida de que o Supremo se tornou muito mais popular diante do julgamento do mensalão, não somente pela atuação de Barbosa. "Acredito que não se possa endeusar a conduta dele nem mesmo minimizar de quem quer que seja. É uma Corte colegiada. A postura dele não pode ser individualizada", afirma. Segundo Cavalcante, as expectativas são otimistas em relação à gestão que se inicia hoje. "O ministro Joaquim tem mostrado compromisso com as causas públicas e esperamos que haja sempre o respeito mútuo com as entidades que compõem o sistema de Justiça."
"O Supremo recebeu um destaque perante as pessoas comuns. É um impacto extraordinário e uma visibilidade que antes não havia. O que eu mais ouço nas ruas são elogios ao STF e, em particular, ao ministro Joaquim Barbosa"
Nelson Calandra, presidente da Associação dos Magistrados Brasileiros

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Israel bombardeia a Faixa de Gaza

Israel bombardeia a Faixa de Gaza

Da BBC Brasil

Em meio à indefinição sobre um cessar-fogo que segundo o Hamas seria anunciado oficialmente ainda na noite de hoje (20), a Faixa de Gaza foi bombardeada novamente por forças de Israel. Para especialistas, a nova ofensiva adia uma possível trégua no conflito.

Pelo menos 20 palestinos foram mortos. Dois israelenses - um soldado e um civil - também morreram, vítimas de ataques de foguetes lançados da Faixa de Gaza.

Mais cedo, autoridades egípcias e palestinas informaram que o cessar-fogo seria anunciado ao fim de conversas ocorridas no Cairo, capital do Egito. No entanto, o porta-voz do governo israelense, Mark Regev, disse à BBC que o acordo ainda não havia sido finalizado.

"Não tenho dúvida de que o Hamas queira uma trégua temporária para que possa descansar e rearmar-se de forma a atacar Israel novamente na semana que vem ou no próximo mês. Não estamos interessados nessa proposta", declarou.

Ainda na noite de hoje, um funcionário do alto escalão do Hamas, Izzat Risheq, avaliou que a trégua não seria firmada até a manhã de amanhã (21).

Já os militares israelenses alegaram que a nova ofensiva tinha por objetivo matar "dois alvos terroristas" na região central da Faixa de Gaza.

Poucas horas antes, Israel havia exortado moradores de vilarejos ao redor da Faixa de Gaza para se deslocarem a zonas centrais para sua "própria segurança". Entre os palestinos mortos hoje, estão dois jornalistas de uma TV ligada ao Hamas.

Há poucos minutos, a correspondente da BBC Lyse Doucet tuitou de Gaza que "ouviu fortes explosões" e que estava "sem luz". A queda de energia foi confirmada pelo repórter da BBC Rushdi Abualouf. Segundo ele, grande parte do território estava "às escuras".

Na noite desta terça-feira, a secretária de Estado dos Estados Unidos, Hillary Clinton, chegou a Israel, em um esforço para alcançar um armistício.

Ela disse que trabalharia com Israel e o Egito para costurar uma trégua em Gaza "nos próximos dias". Hillary acrescentou que é essencial "amenizar a situação" na região e aceitar os esforços egípcios.

Após uma reunião a portas fechadas com o premiê israelense Binyamin Netanyahu, a secretária de Estado americana deve viajar a Ramallah, na Cisjordânia e ao Cairo nesta quarta-feira.

Fonte: EBC
 
 

Publicado em: 21/11/2012

APÓS A MORTE DE CIVIS - SOB PRESSÃO, ISRAEL E HAMAS JÁ NEGOCIAM CESSAR-FOGO

APÓS A MORTE DE CIVIS - SOB PRESSÃO, ISRAEL E HAMAS JÁ NEGOCIAM CESSAR-FOGO

A UM PASSO DO ACORDO
O Globo - 20/11/2012
 
Com o aumento de mortes de civis, Israel e Hamas discutem termos de cessar-fogo
Desespero. Uma mulher palestina corre com os filhos em busca de abrigo na Cidade de Gaza: mortes de civis em bombardeios israelenses crescem e levam pânico à população
Socorro. Palestinos removem um homem ferido no ataque contra o edifício Shorouk, sede da imprensa em Gaza
CAIRO, JERUSALÉM e CIDADE DE GAZA Uma série de negociações teria resultado num acordo sobre 90% dos pontos necessários para a declaração de um cessar-fogo entre Israel e o movimento islâmico Hamas na Faixa de Gaza. E sob pressão internacional para evitar uma operação militar por terra no território palestino, o Gabinete de segurança de Israel convocou uma reunião que se arrastou madrugada de hoje adentro para discutir os detalhes finais do texto, elaborado no Cairo sob a mediação de Egito, Turquia e Qatar. À rede de TV al-Arabiya, fontes diplomáticas disseram que a trégua seria implementada em duas fases. Na primeira, os dois lados suspenderiam os ataques durante um ou dois dias. E em debate estaria o fim dos assassinatos seletivos e, ainda, a suspensão do bloqueio israelense imposto à Faixa de Gaza desde 2007 - uma das maiores exigências do Hamas.
Sobre os esforços diplomáticos pesou o aumento das mortes de civis palestinos. Segundo o Ministério da Saúde do Hamas, o número total de vítimas do confronto chegou a 107 - entre eles, 26 crianças, dez mulheres e 12 idosos. Pelo menos 36 são militantes reconhecidos. E a contagem de feridos também não para de crescer: 860 pessoas, sendo 260 crianças.
Os termos do acordo em discussão não foram confirmados em nenhum dos lados da fronteira. Fontes diplomáticas, porém, asseguram que um dos entraves é a exigência de garantias egípcias e internacionais pelos dois lados.
Apesar da retórica desafiadora comum entre as lideranças israelenses e palestinas, os números do embate davam indícios da disposição mútua de cessar as hostilidades. O número de agressões caiu ontem: 130 foguetes foram lançados de Gaza contra Israel (em comparação a 156 registrados no domingo) e o Exército atacou 80 alvos em Gaza (contra centenas de bombardeios na véspera).
O líder político do Hamas, Khaled Meshal, defendeu o cessar-fogo. Mas provocou:
- Quem começou isso que pare. Se eles quisessem lançar uma ofensiva terrestre, já teriam feito isso. Israel está usando a ameaça de invasão para ditar as regras e nos forçar ao silêncio. Desafio Israel a entrar na Faixa de Gaza.
O governo israelense preferiu ignorar e adotar um discurso mais contido.
- Se houver calma no Sul do país e não houver foguetes e mísseis lançados contra nossos cidadãos ou ataques terroristas planejados contra nós na Faixa de Gaza, não vamos atacar - afirmou o vice-primeiro-ministro Moshe Yaalon, do conservador partido Likud.
prédio dA IMPRENSA É BOMBARDEADO de novo
Segundo pesquisa do jornal "Haaretz", apesar de 84% dos israelenses aprovarem os bombardeios contra o Hamas, apenas 30% são favoráveis a uma operação terrestre, e outros 19% defendem que o governo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu trabalhe para assegurar o cessar-fogo rapidamente. Fontes egípcias, palestinas e israelenses falavam ontem com uma ponta de otimismo.
- Estamos muito perto de chegar a um documento para cessar as agressões. Falta apenas um pouco mais de flexibilidade do lado israelense - disse no Cairo o primeiro-ministro egípcio, Hisham Kandil.
Nas ruas de Gaza, porém, o pesar contrastava com qualquer perspectiva de paz. Milhares participaram do funeral da família al-Dalu, que perdeu nove integrantes - de quatro gerações - num bombardeio israelense contra o bairro de Nasser, na Cidade de Gaza. As quatro crianças vítimas do ataque tiveram seus corpos cobertos com bandeiras palestinas e do Hamas.
- Mataram uma família que era segura e feliz. Por motivo nenhum, Israel cometeu um massacre, um crime horrível - lamentou Hatem al-Dalu, um parente.
Sob os gritos de "Deus é o maior!", a multidão foi guiada por integrantes do primeiro escalão do grupo, como o porta-voz Sami Abu-Zuhri.
- Isto aconteceu porque falhamos no combate ao inimigo, porque falhamos em defender o nosso povo. Vamos vingar a morte destes mártires - declarou ele à TV al-Aqsa.
Mais tarde, outro bombardeio causou ultraje: Israel alvejou o edifício Shorouk, conhecido por abrigar os escritórios da imprensa palestina e internacional, pelo segundo dia consecutivo. Dois cinegrafistas ficaram feridos. Israel alega que no local estavam quatro altos integrantes da Jihad Islâmica. Um morreu e três foram feridos.
À espera do anúncio de um acordo, a pressão ganha reforços dos dois lados da fronteira. O chanceler turco, Ahmet Davutoglu, vai à Gaza, e o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, chega a Israel e à Cisjordânia.

BANCOS GANHAM NA JUSTIÇA AÇÕES CONTRA OS DERIVATIVOS

BANCOS GANHAM NA JUSTIÇA AÇÕES CONTRA OS DERIVATIVOS

TRIBUNAIS DE JUSTIÇA CONSIDERAM VÁLIDOS CONTRATOS DE DERIVATIVOS
Autor(es): Por Adriana Aguiar | De São Paulo
Valor Econômico - 21/11/2012
 

Os contratos de derivativos cambiais, que durante a crise de 2008 e a disparada do dólar afetaram as finanças de grandes grupos como Sadia, Aracruz e Votorantim, causando prejuízos bilionários, têm sido reconhecidos como legítimos pelo Judiciário. As empresas que questionaram a validade dessas operações têm perdido os processos tanto na primeira quanto na segunda instância. Nas condenações, os magistrados consideram que as companhias assumiram riscos previsíveis ao apostar nesse tipo de investimento e determinam que os bancos sejam ressarcidos.
Levantamento feito para o Valor pelo escritório Wald Associados Advogados mostra que há pelo menos 27 ações sobre o tema em tramitação na Justiça. Em praticamente todas as instituições financeiras tiveram ganho de causa. Treze desses processos já chegaram aos Tribunais de Justiça com vitória também dos bancos. Entre os casos há ações de empresas como a Imcopa, processadora de soja, a catarinense Tuper, processadora de aço, a Doux Frangosul, produtora de aves e embutidos, e a varejista de móveis e decoração Tok & Stok.


Advogado e professor Arnoldo Wald: Judiciário tem dado decisões técnicas, levando em consideração a natureza peculiar dos contratos de derivativos
A Justiça tem sido implacável ao considerar válidos os contratos de derivativos, vinculados à oscilação do dólar, firmados entre companhias e bancos no início da crise financeira mundial em 2008. Um balanço realizado pelo escritório Wald Associados Advogados, que acompanha as 27 principais ações sobre o tema, aponta que praticamente todas decisões dos Tribunais de Justiça de São Paulo, Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul foram favoráveis à manutenção dos contratos ou ao prosseguimento da cobrança pelas instituições financeiras.
Mesmo em primeira instância, são poucas as sentenças favoráveis à anulação dos contratos. Em razão desse panorama, muitas empresas preferiram fechar acordos com os bancos (leia abaixo) a prosseguir com as ações.
Entre as empresas que sofreram revés na Justiça, está a Imcopa, maior processadora de soja não transgênica do país. A companhia chegou a obter sentença favorável à anulação contratual. Contudo, o Tribunal de Justiça do Paraná (TJ-PR) foi unânime ao reformar a sentença e condená-la a pagar cerca de R$ 1,5 milhão ao banco WestLB. Após a decisão, as partes fecharam acordo.
A catarinense Tuper, uma das principais processadoras de aço do país, questionou parte dos contratos negociados. A companhia alegou já ter pago R$ 4,3 milhões ao Banco Itaú (atual Itaú-Unibanco) e que nada mais seria devido, pois os demais contratos não poderiam ser considerados válidos. A 23ª Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP), porém, manteve a condenação de primeira instância para o pagamento de cerca de R$ 3,4 milhões a mais. Com a decisão, a empresa também preferiu firmar um acordo.
Já outras companhias ainda aguardam novas decisões no Judiciário. A Doux Frangosul, produtora de aves e embutidos de Santa Catarina, recentemente arrendada pela JBS, recorreu ao TJ-SP depois de ser foi condenada pela 26ª Vara Cível de São Paulo a pagar R$ 30,5 milhões ao Banco UBS Pactual.
A Tok & Stok, varejista de móveis e decoração, ao entrar com pedido de anulação de contrato contra o Banco Itaú, não só teve seu pedido negado como foi condenada, em primeira instância, a pagar cerca de R$ 17 milhões pelas perdas nos contratos de derivativos firmados em agosto de 2011. Posteriormente, porém, a decisão foi anulada.
Com a crise financeira mundial em 2008 e a alta do dólar em setembro daquele ano, muitas companhias buscaram o Judiciário para anular esses contratos. Os negócios previam ganhos para as companhias caso o dólar ficasse abaixo de um limite estipulado no contrato, ou perdas, caso o dólar subisse.
As empresas defendem que houve desequilíbrio nos contratos. Os bancos teriam suas perdas limitadas, mas as companhias não contavam com essa proteção. Outras utilizam nos processos a teoria da imprevisão. Argumentam que a valorização do dólar, que foi de R$ 1,55 para R$ 2,40, seria um evento imprevisível, gerador de desequilíbrio, o que autorizaria a revisão dos contratos. Há processos que ainda sustentam que os bancos teriam oferecido as operações com derivativos a clientes sem o perfil adequado e não teriam alertado sobre os riscos envolvidos, o que autorizaria a anulação dos contratos por violação à boa-fé.
Esses argumentos, porém, foram rejeitados pelo Judiciário. O relator do caso da Imcopa no TJ-PR, desembargador Hayton Lee Swain Filho, também considerou a natureza do negócio "que leva em sua essência o risco da variação cambial". Para o magistrado "não se poderia considerar essas perdas como "fato imprevisível e extraordinário a causar injustificativa vantagem" ao banco.
A juíza Mariella Ferraz de Arruda Nogueira, da 39ª Vara Cível do Fórum Central de São Paulo, que condenou a Tok & Stok, entendeu que o risco do negócio foi destacado pelo banco na contratação. "O mínimo que se pode esperar de uma empresa com notória experiência no mercado, como é o caso, é que se busque informações no mercado e junto à própria instituição financeira quanto às possibilidades positivas e negativas da negociação", diz.
O advogado da empresa, Antonio Lopes Muniz, informou, porém, que, como teria havido cerceamento de defesa e as provas fornecidas pela companhia não teriam sido analisadas na primeira instância, a decisão foi revertida pelo TJ-SP. O caso será novamente avaliado pela 39ª Vara Cível. Para Muniz, não é a mesma situação dos contratos de swap, no qual as empresas tinham orientação da própria tesouraria para apostar dinheiro e correr o risco de perder. "A Tok & Stok não tem esse hábito e só firmou esse contrato por conta de um empréstimo", afirma.
Segundo os coordenadores do balanço, os advogados Arnoldo Wald e André de Luizi Correia, do escritório Wald Associados Advogados, as decisões sinalizam que há uma jurisprudência em formação favorável aos bancos.
Para Wald, a Justiça tem dado decisões técnicas, levando em consideração a natureza peculiar desses contratos. "Ganhar ou perder é um risco inerente a essas operações. Quem assumiu o risco deve suportá-lo, ainda que as perdas verificadas sejam consideráveis", diz o advogado, acrescentando que o princípio do equilíbrio entre as partes direcionado aos contratos comerciais não pode ser aplicado aos derivativos. "Esses contratos envolvem uma certa aposta." Segundo Wald, as empresas têm informações sobre o risco do negócio e, por isso, a Justiça também não poderia aplicar a teoria da imprevisibilidade.
Com os questionamentos judiciais, as operações com contratos de derivativos ficaram praticamente paralisadas no Brasil, segundo Correia. "Porém, voltaram com força em 2010 e viraram uma rotina", afirma.
O advogado Maurício Almeida Prado, sócio do escritório L.O.Baptista-SVMFA Advogados, estudioso do assunto, afirma que as decisões judiciais brasileiras se alinham com a jurisprudência da maioria dos países europeus ao não aceitar a aplicação da teoria da imprevisão. "São contratos de risco. É o mesmo que jogar em um cassino e depois reclamar pelo que se perdeu", diz. Ele acrescenta que, durante muitos anos, as companhias ganharam muito com esses contratos. Prado afirma ter recomendado a clientes com contratos dessa natureza a negociação com os bancos. "Tecnicamente seria muito difícil ganhar uma ação como essa na Justiça."
Procuradas pelo Valor, a assessoria de imprensa da JBS e a diretoria da Imcopa não deram retorno até o fechamento da edição. A Tuper informou que não se manifestará sobre o assunto.

Teste para Cristina K.: Greve geral na Argentina afeta Brasil

Teste para Cristina K.: Greve geral na Argentina afeta Brasil

Surpresa no feriadão
Autor(es): Janaína Figueiredo
O Globo - 21/11/2012
 

Protesto é o maor em 10 anos no país vizinho. Voos entre Brasil e Argentina são cancelados

Buenos Aires e Rio A Argentina foi cenário ontem da primeira greve geral desde que os Kirchner chegaram ao poder, em maio de 2003. A paralisação, que interrompeu os transportes e suspendeu serviços básicos, foi convocada por três centrais sindicais que fazem oposição ao governo: a ala da Central Geral de Trabalhadores (CGT), liderada pelo líder dos caminhoneiros Hugo Moyano - até o ano passado, um forte aliado da Casa Rosada -, a Central dos Trabalhadores Argentinos (CTA), comandada por Pablo Micheli; e a Federação Agrária Argentina (FAA).
O protesto atrapalhou a volta ao país dos brasileiros que escolheram Buenos Aires como destino para o último grande feriado do ano. Ao todo, 25 voos entre o Brasil e o país vizinho haviam sido cancelados até a noite de ontem.
A Aerolíneas Argentinas foi a que suspendeu mais voos (17). Foram cinco que partiriam de Buenos Aires para o Rio (Galeão), outros cinco voos da capital argentina para São Paulo (Guarulhos) e dois voos para Porto Alegre. As partidas, desde os aeroportos de Ezeiza e Aeroparque, foram reprogramadas para hoje. As decolagens do Brasil para lá também foram canceladas: duas a partir do Rio, duas a partir de São Paulo e uma a partir de Porto Alegre.
Voos de Gol e TAM não são afetados
Já a Austral suspendeu quatro voos de São Paulo, dois Guarulhos-Buenos Aires e outros dois que partiriam da capital argentina para São Paulo. Para saber detalhes dos voos cancelados e acompanhar as reprogramações, a Aerolíneas recomenda acessar seu site (www.aerolineas.com.ar). A Austral pertence ao mesmo grupo.
A LAN cancelou quatro voos entre São Paulo e Buenos Aires. Os passageiros poderão ter reembolso integral dos bilhetes. Quem quiser remarcar a viagem pode entrar em contato com o call center: 0300 788 0045 no Brasil e 0810-9999-526 na Argentina. Voos de TAM e Gol não foram afetados.
A professora Luana Lisboa, que trabalha na Fundação Getulio Vargas, foi uma das que ficaram presas em Buenos Aires. Ela e os amigos Geisiane Rodrigues, servidora pública, Júlio César Rosa, auxiliar administrativo, e Paulo José Leal, analista de sistemas, viajaram para a Argentina quinta-feira passada, no feriado da Proclamação da República. O grupo deveria ter voltado ao Brasil ontem às 16h25m, no voo AR 1294.
Eles ficaram indignados com a falta de informação da companhia. A aérea ofereceu a promessa de embarcá-los em outro voo para o Rio, no próximo domingo, dia 25, sem pagar hotel nem táxi. Depois de muita discussão, o grupo conseguiu que a Aerolíneas os realocasse num voo previsto para hoje, às 16h30m. Eles escolheram a passagem da Aerolíneas porque era a mais barata.
- O atendimento da Aerolíneas foi péssimo. Eles nos deram um número de telefone para fazer reclamação e não pagaram alimentação, hotel nem transporte - reclamou Luana.
Carolina Vianna e Cléber Cruz também foram passar o feriado em Buenos Aires e voltariam para São Paulo, num voo da Aerolíneas (AR 1248) que sairia às 19h25m do Aeroparque com destino ao Aeroporto de Guarulhos (SP). O voo foi cancelado, e a companhia sugeriu que eles fossem para o Aeroporto de Ezeiza tentar embarcar em outro voo, sem ressarcimento. E eles ainda teriam de pagar pela nova passagem.
Eles não aceitaram a oferta e, depois de muito insistir, conseguiram vaga no voo AR 1246, saindo do Aeroparque à 1h50m de hoje para São Paulo.
- Tivemos que pagar pela corrida de táxi o triplo do valor normal do hotel até o aeroporto, por causa da greve - reclamou Cruz, no saguão do aeroporto.












































 

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

ISRAEL ATACA ALVOS CIVIS NA FAIXA DE GAZA

ISRAEL ATACA ALVOS CIVIS NA FAIXA DE GAZA

PRESSÃO CONTRA INVASÃO DE GAZA
O Globo - 19/11/2012
 
EUA e aliados acautelam contra expansão de conflito; conversas de cessar-fogo avançam
Cidade de Gaza e Tel Aviv O quinto e mais sangrento dia da ofensiva israelense em Gaza, com 24 palestinos mortos, foi marcado pelo massacre de uma família palestina e pela intensificação da pressão internacional para evitar uma invasão terrestre ao território. Fiel aliado de Tel Aviv, os Estados Unidos manifestaram apoio incondicional ao parceiro histórico - ressaltando, porém, que um ataque por terra não seria "preferível", como definiu o presidente Barack Obama. O Reino Unido também expressou solidariedade a Israel, enquanto a França, que mandou seu chanceler a Jerusalém, foi mais reticente.
A mobilização ocidental, assim como a pressão dos vizinhos no Oriente Médio, parece ter surtido efeito. Segundo a rede al-Jazeera, ontem à noite Ramzi Hamad, um dos chefes do Hamas na Faixa de Gaza, afirmou que o grupo palestino e Israel já concordaram em 90% dos termos para um acordo de cessar-fogo. Já uma das autoridades do Fatah, organização rival ao Hamas e que também participa das negociações, confirmou que as conversas com os israelenses estão em estágio avançado.
O relativo otimismo com o fim do confronto veio após um dia marcado pela violência. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu assegurou que as Forças Armadas israelenses estão preparadas para "expandir significativamente" a operação contra os militantes palestinos na Faixa de Gaza. Além de manter em vigor a ameaça da invasão terrestre a Gaza, Israel comandou o ataque a um centro de imprensa no território palestino, deixando oito jornalistas feridos - um deles teve de amputar a perna. A situação ficou ainda mais tensa após um míssil atingir em cheio a casa da família al-Dallu, na Cidade de Gaza. Doze de seus integrantes morreram, entre eles quatro crianças e cinco mulheres. O massacre gerou críticas até da TV israelense, que ressaltou que, até agora, os bombardeios tinham precisão quase cirúrgica.
Em comunicado, o Hamas protestou contra a chacina: "O massacre da família al-Dallu não ficará sem resposta". Os outros 15 palestinos mortos ontem foram atingidos por ataques a cidades como Shejaiya, no Leste de Gaza, e Jabaliya, no Norte do território.
Ontem, 114 mísseis foram disparados de Gaza em direção a Israel, atingindo Beersheba, Ashdod, Ashkelon e Sderot, deixando pelo menos cinco feridos. O sistema antimísseis Domo de Ferro conseguiu interceptar 30, entre eles quatro que atingiriam Tel Aviv.
Israel pôs a culpa das mortes nos militantes palestinos. O general Yoav Mordechai, porta-voz do Exército, mostrou vídeos do que seriam grupos atuantes em Gaza operando mísseis em regiões habitadas, próximo a mesquitas, escolas e prédios.
- O Hamas está usando a população de Gaza como escudo humano - acusou. - Eles estão explorando áreas urbanas residenciais muito habitadas.
Apesar das hostilidades, Israel e Hamas garantiram, ao longo do dia, estar abertos a negociações para interromper a troca de mísseis. Funcionários palestinos afirmaram que um cessar-fogo poderia ser assinado ainda hoje, no Cairo. A imprensa israelense informou que uma delegação do país também estava na capital egípcia, embora um porta-voz do governo tenha negado. O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, chegará à cidade hoje para reforçar o grupo de autoridades que tentam um acordo.
Ban será recebido pelo presidente egípcio, o islamista Mohamed Mursi - que, durante todo o fim de semana, foi anfitrião de colegas da Liga Árabe. Mursi conseguiu do primeiro-ministro do Hamas, Ismail Haniyeh, a promessa de que ele assinaria um cessar-fogo, desde que o grupo palestino receba "garantias de que não haverá uma agressão no futuro".
Obama: "Israel tem o direito de se defender"
Em visita à Tailândia, sua primeira viagem internacional desde a reeleição, no dia 6 passado, Obama deixou claro que os EUA estão firmemente ao lado de Israel, mas apelou para que Netanyahu dê mais tempo para os governantes do Oriente Médio tentarem controlar o Hamas.
- Se esse objetivo pode ser atingido sem a evolução de uma atividade militar em Gaza, seria preferível - avaliou. - E isso não é preferível apenas para a população de Gaza, mas também para os israelenses, porque, se as tropas de Israel estiverem em Gaza, haverá um risco muito maior de ocorrerem mortos e feridos.
De acordo com Obama, Israel tem o direito de se defender do ataque. Com a mensagem de Netanyahu de que Israel estaria pronto para expandir sua ofensiva, Obama alertou aos líderes do Oriente Médio que Tel Aviv "tem todo o direito de garantir que mísseis não serão disparados contra seu território".
- Não há um país no planeta que toleraria mísseis, vindos de fora de suas fronteiras, chovendo sobre seus cidadãos - ressaltou Obama em Bangcoc, capital tailandesa. - Apoiamos totalmente o direito de Israel de se defender.
Apesar de ter uma relação difícil com Netanyahu, o líder americano destinou os comentários mais ásperos a Mursi e ao primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, que têm se posicionado como críticos ferozes das operações israelenses em Gaza. Obama advertiu os apoiadores de um Estado palestino independente que qualquer acordo de paz seria empurrado para um "futuro distante" se o conflito atual aumentasse.
- O que eu disse ao presidente Mursi e ao premier Erdogan é que os defensores da causa palestina deveriam reconhecer que, se a situação em Gaza se agravar, a probabilidade de termos um acordo de paz será empurrada para o futuro - alertou. - Estamos trabalhando ativamente com os representantes da região para ver se podemos cessar o lançamento de mísseis sem uma escalada de violência.
"Simpatia internacional" em jogo
O governo britânico também cerrou fileiras ao lado de Israel. O ministro das Relações Exteriores do Reino Unido, William Hague, atribuiu ao Hamas a principal responsabilidade pela crise em Gaza, devido aos constantes bombardeios palestinos ao território israelense. Hague, no entanto, considerou que seria difícil para a comunidade internacional continuar simpática a Israel se o país insistisse numa operação terrestre. Esta opção tornaria mais difícil conter as baixas civis, o que provocaria um prolongamento do conflito.
- O primeiro-ministro (David Cameron) e eu salientamos aos nossos colegas israelenses que uma invasão por terra da Faixa de Gaza custaria a Israel muito do apoio internacional que ele tem nessa situação - revelou, em entrevista a uma emissora de TV britânica. - Seria muito mais difícil restringir ou evitar mortes de civis durante uma ação como esta.
- Deixamos nosso ponto de vista muito claro para Israel - acrescentou. - Assim como, para nós, é muito claro que o fim do disparo de mísseis de Gaza para o Sul de Israel é uma situação intolerável, e não é uma surpresa que o país tenha respondido a isso.
A França despachou seu ministro das Relações Exteriores, Laurent Fabius, para Israel. O chanceler francês ofereceu ao colega israelense, Avidgor Lieberman, os esforços de seu país para que o confronto terminasse com um "cessar-fogo imediato".
Lieberman agradeceu a "mobilização francesa para evitar vítimas", mas avaliou que apenas "quando todas as organizações terroristas anunciarem um cessar-fogo", Israel poderá considerar "todas as ideias que o ministro francês e outros amigos estão propondo".
O chanceler ressaltou que seu país não negociaria uma trégua na Faixa de Gaza enquanto mísseis ainda fossem disparados do território palestino.
- A primeira e absoluta condição para uma trégua é acabar com o bombardeio vindo de Gaza - destacou.
O ministro israelense ainda impôs que todas as facções palestinas presentes em Gaza se comprometam com o cessar-fogo. Esta, segundo ele, é a forma de conseguir "um acordo de longo prazo".

CIVIS SÃO MASSACRADOS NA PALESTINA

CIVIS SÃO MASSACRADOS NA PALESTINA

VÍTIMAS DO HORROR
Autor(es): RODRIGO CRAVEIRO
Correio Braziliense - 19/11/2012
 

Os conflitos entre militares israelenses e militantes palestinos voltaram a vitimar inocentes: ontem, ataque das forças de Israel na Faixa de Gaza matou uma família inteira de uma só vez. Foram dois homens, seis mulheres e quatro crianças. No total, sobe para 75 (três judeus) o número de vítimas desde o início da ofensiva, há seis dias. Presidente Dilma Rousseff, que está em Madri, telefonou ao secretário-geral da ONU e pediu esforço pelo cessar-fogo.

Israel bombardeia casa na Faixa de Gaza e mata 12 pessoas da mesma família. Hamas lança chuva de foguetes

"As crianças eram engraçadas e falantes. Eu adorava conversar com elas e jogar cartas." O ativista palestino Majed Abusalama se referia a Ranin, 5 anos, Jamal (7) e Yousef (10). Além deles, o irmão Ibrahim (1 ano); o pai, Mohammed; o avô Jamal e outros seis parentes morreram ontem quando um míssil disparado por um caça F-16 israelense caiu sobre a residência da família Al-Dalou, na Rua Al-Nasser, no bairro de Sheikh Redwan, região oeste da Cidade de Gaza. O ataque, ocorrido por volta das 15h10 (11h10 em Brasília), tinha como alvo Yehiya Rabiah, chefe da unidade de lançamentos de foguetes do movimento islâmico Hamas.
A explosão atingiu a casa vizinha, matando 12 pessoas da mesma família — seis mulheres, quatro crianças e dois homens. Yehiya sobreviveu. "Famy Al-Dalou, meu amigo, vivia lá e ficou bastante ferido. Suas irmãs morreram", lamentou Majed, em entrevista ao Correio. Até as 23h de ontem, 71 palestinos tinham sido mortos desde quarta-feira, 28 nos bombardeios de ontem. Foguetes do Hamas também mataram três israelenses, na quinta-feira. No fim da noite, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, pediu a palestinos e a judeus um cessar-fogo "imediato". "Isto deve parar", avisou, por meio de um comunicado no qual lamentou as mortes na família Al-Dalou.
O jornalista palestino Samy Elajramy foi até o local da casa dos Al-Dalou e relatou à reportagem ter ficado chocado. "As pessoas daqui estão falando sobre o massacre mais horrível que já ocorreu desde quarta-feira. Nada sobrou da residência. Todas as casas ao redor estão danificadas", disse, também por telefone. "Outros integrantes da família choravam, querendo saber quem estava lá. Foi algo comovente", admitiu. "Israel, o que as crianças e os recém-nascidos fizeram?", perguntava, entre lágrimas, Khalil Al-Dalou. As Brigadas Ezzedine Al-Qasam — braço armado do Hamas, cujo líder, Ahmed Jabari, foi morto na quarta-feira — prometeram que "o massacre não ficará impune".
O premiê israelense, Benjamin Netanyahu, anunciou ao seu gabinete ministerial que Israel está preparado para "expandir de forma significativa" a Operação Pilar de Defesa. Durante a madrugada de ontem, um escritório da rede estatal de tevê russa Russia Today ficou destruído, depois que a aviação israelense atacou o centro de imprensa Al-Shawa. O escritório ficava no 11º andar de um prédio e dividia espaço com outros meios de comunicação, como a Sky News, a ITV e agências de notícia palestinas.
Khader El-Zahar, cinegrafista da rede de tevê Al-Quds, teve a perna direita arrancada pela explosão. Outros cinco jornalistas ficaram feridos. O edifício Al-Shorouk, de 16 andares, também foi bombardeado. Os estúdios da tevê Al-Aqsa foram atingidos. "Israel quer esconder a verdade", acusou a jornalista Mousheera Jammal, moradora da Cidade de Gaza, em entrevista pela internet. Samy tem a mesma opinião. "Os israelenses exigiram que todos deixassem os prédios. Foi um claro ataque a jornalistas. Querem nos silenciar", desabafou.
O Hamas lançou 120 foguetes contra o sul de Israel (40 a mais do que na véspera) — desde o início do confronto, na quarta-feira, foram 980. As sirenes antiaéreas soam a cada sete minutos. Dois artefatos foram interceptados pelo sistema Domo de Ferro, antes que caíssem em Tel Aviv. A britânica Beverly Jamil mora há 30 anos em Ashkelon, a 21km de Gaza. "Viver aqui tem sido muito assustador. A cada sirene, você pula. Hoje, as sirenes tocaram oito vezes. Começou às 8h30", relatou ao Correio, por telefone. Questionada se crê em trégua, ela responde com uma pergunta. "Se você tivesse pessoas disparando foguetes a todo o momento, não gostaria que alguém o salvasse? Minhas crianças e as crianças palestinas querem crescer em paz."
A 18km dali, Ashdod teve uma tarde apavorante. Pelo menos 15 foguetes foram lançados pelo Hamas contra a cidade em um intervalo de apenas cinco minutos. O israelense Yaniv Cackon, 31 anos, disse que a comunidade é unida e tenta manter a calma. "Nós queremos ter uma vizinhança (Gaza) vivendo em um paz", comentou.
Diplomacia
Por enquanto, o acerto de um cessar-fogo parece improvável. Izat Al-Rishak, integrante do birô político do Hamas, expôs as condições do grupo fundamentalista para a trégua. "Nós insistimos que a agressão e os assassinatos devem parar, e o bloqueio injustificável a Gaza tem que ser removido", declarou. O presidente dos EUA, Barack Obama, considerou que os ataques com foguetes precipitaram a guerra. "Nós estamos trabalhando ativamente com todas as partes da região para ver se podemos pôr fim ao disparo desses mísseis, sem que haja a escalada de violência", afirmou, depois de conversar com Netanyahu, com o colega egípcio, Mohamed Morsy, e com o premiê turco, Tayyip Erdogan. Obama alertou para os perigos de uma ofensiva terrestre. "Se as tropas entrarem em Gaza, haverá um risco maior de baixas", disse.
No início da noite de ontem, na capital espanhola, a presidente Dilma Rousseff ligou para Ban Ki-moon para pedir empenho do Conselho de Segurança da ONU nos conflitos no Oriente Médio. Na prática, Dilma se disse preocupada com o uso desproporcional da força e considerou que o conselho deve assumir as responsabilidades em buscar um acordo de trégua na região. Horas antes, Dilma recebeu uma ligação do presidente egípcio, que considerou a influência do Brasil na ONU. "Morsy ficou satisfeito (com a conversa) e vamos acompanhar a situação", disse o assessor especial para assuntos internacionais da Presidência, Marco Aurélio Garcia, que criticou o Quarteto para o Oriente Médio — EUA, Rússia, União Europeia e ONU. ""Enquanto continuar essa política intransigente e esta desídia das grandes potências em relação ao conflito, esses fenômenos vão se multiplicar", disse Garcia.
Colaborou Leonardo Cavalcanti, enviado especial a Madri

Fatah e Hamas concordam em se unir em meio à crise em Gaza

Fatah e Hamas concordam em se unir em meio à crise em Gaza

Publicado em Carta Capital

As facções rivais palestinas Fatah e Hamas afirmaram nesta segunda-feira que decidiram terminar com anos de disputas em uma demonstração de solidariedade pela crise de Gaza, informou um correspondente da AFP.
Palestinos se reúnem em manifestação na Cidade de Gaza em 13 de novembro. Foto: AFP / Marco Longari

“A partir daqui, anunciamos com outros líderes (de facções) que estamos acabando com a divisão”, afirmou o oficial Jibil Rajoub, do Fatah, a uma multidão de cerca de mil pessoas que se reuniram para um protesto em Ramallah, a capital política da Cisjordânia.
Dentre os presentes, estavam integrantes do alto escalão do Hamas na Cisjordânia, assim como funcionários da liderança de sua rival menor Jihad Islâmica, informou um correspondente da AFP.
A praça Manana de Ramallah se tornou um mar de bandeiras palestinas, enquanto a multidão gritava “Unidade!” e “Atinjam, atinjam Tel Aviv”, em um apelo aos militantes do Hamas que dispararam ao menos cinco foguetes contra a cidade costeira deste quinta-feira.
“Quem fala sobre divisão depois de hoje é um criminoso”, disse o líder do Hamas, Mahmud al-Ramahi, à multidão.
O Fatah e o Hamas, as duas principais facções nacionais palestinas, travaram uma intensa disputa por anos.
Mas o atual derramamento de sangue na Faixa de Gaza, governada pelo Hamas, onde Israel realizava nesta segunda-feira um sexto dia de ofensiva aérea que já matou até agora 90 palestinos, parece ter levado a uma reconsideração das rivalidades tradicionais.

domingo, 18 de novembro de 2012

Uma guerra na hora certa para Netanyahu?

Uma guerra na hora certa para Netanyahu?

Publicado em Carta Capital
Médico palestino carrega bebê ferido após ataque aéreo de Israel na cidade de Gaza. Mahmud Hams / AFP

O assassinato de Ahmed Jabari, líder militar do Hamas, nesta quarta-feira 14, deve marcar o início de um novo conflito armado entre Israel e o grupo radical palestino que controla a Faixa de Gaza. Ainda não se sabe a dimensão que a operação “Pilar da Defesa” terá, mas, como em confrontos anteriores entre as duas partes, este teve início após uma série de episódios violentos na fronteira. Desta vez, entretanto, há duas peculiaridades a serem observadas. A primeira afeta a política interna de Israel. Em apenas dois meses, os israelenses vão às urnas escolher seu novo primeiro-ministro e a lembrança mais recente que terão dos palestinos será este confronto armado. A segunda pode impactar todo o Oriente Médio. Este pode ser o primeiro conflito de grande porte entre israelenses e palestinos desde o início da Primavera Árabe.
Desde o dia 9 de novembro, patruhas militares israelenses e militantes palestinos se envolveram em pequenas confrontações na fronteira. O episódio mais grave ocorreu no domingo 11 quando, em retaliação a um ataque palestino, tanques israelenses atingiram uma área urbana da cidade de Gaza, matando 5 pessoas e ferindo outras 30. Pode-se alegar que qualquer governo reagiria como Israel, mas é difícil separar o ataque desta quarta-feira das eleições de janeiro.
Confrontos com os palestinos tendem a unir a sociedade israelense, geralmente em torno de figuras linha-dura. Benjamin Netanyahu, o atual primeiro-ministro, que adiantou as eleições para garantir sua continuidade no poder, é este tipo de líder. Criticar o governo em tempos de conflito externo é um ato considerado extremista nesses períodos. Assim, Netanyahu e seu ministro da Defesa, Ehud Barak, outro alpinista político, apostam em reações como a do parlamentar Yoel Hasson, do oposicionista Kadima. “Hoje não há oposição ou coalizão. Devemos deixar que o Exército derrote o Hamas”, disse. Este tipo de postura dá ao governo e aos militares carta branca para agir. Neste clima de guerra, os ataques de Israel, que muitas vezes deixam vítimas civis, entre elas crianças, são realizados praticamente sem oposição.
A imagem de defensor de Israel fomentada por Netanyahu é alimentada também pela tática criminosa do Hamas nesses confrontos: o lançamento aleatório de foguetes e morteiros contra alvos civis israelenses. Após a morte de Ahmed Jabari, dezenas de foguetes foram lançados contra cidades do sul de Israel, como Beersheva, Ashdod, Eshkol e Ofakim, provocando pânico nos civis.

Mulher ferida é levada ao hospital na cidade israelense de Beersheva após ataque com foguetes do Hamas. Foto: Amnon Gutman / AFP

Um grande conflito com o Hamas deve fortalecer a posição de Netanyahu dentro do Egito, mas pode aumentar ainda mais seu isolamento no Oriente Médio. As relações com a Turquia, abaladas desde 2010, podem ruir de vez, fazendo Israel perder definitivamente um aliado moderado na região. Outro problema para Israel pode ser a postura do Catar. Desde o início da Primavera Árabe, o Hamas deixou a aliança com o Irã, a Síria e o Hezbollah. Assim, atraiu outros aliados, como o governo do Catar, que aproveita a instabilidade na região para ganhar peso diplomático. O Catar é particularmente importante na Liga Árabe e pode usar seu peso na organização para fomentar ainda mais a hostilidade árabe contra Israel.
A reação mais esperada, no entanto, é a do Egito. Mohamed Morsi, o presidente egípcio, é um integrante da Irmandade Muçulmana, grupo religioso que odeia Israel e tem laços fortes com o Hamas (criado sob influência da Irmandade). Ao mesmo tempo, o Egito tem um tratado de paz com Israel, que precisa manter por questões pragmáticas: a aliança com os Estados Unidos e a necessidade de se manter um ator internacional confiável num momento de crise econômica. Não há dúvidas de que setores radicais dentro da Irmandade Muçulmana, mas também fora dela, pressionarão Morsi a ter uma posição dura contra Israel. O governo do Egito pediu que Israel parasse os ataques à Faixa de Gaza e convocou seu embaixador em Tel Aviv, mas não é possível saber se irá ainda mais longe.
O conflito entre Israel e o Hamas não é uma novidade, mas desta vez se dá sob condições novas. Netanyahu terá ganhos a curto prazo, inclusive eleitorais, e manterá Israel “seguro” por conta do armamento infinitamente superior. A longo prazo, entretanto, seu governo continua tornando a situação de Israel insustentável: cada vez mais israelenses e palestinos se odeiam e, cada vez mais, o mundo árabe quer ver Israel fora do mapa.

Israel intensifica ataques e prepara ação terrestre

Israel intensifica ataques e prepara ação terrestre

Publicado em Carta Capital

O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, disse neste domingo que Israel está disposto a “intensificar significativamente” a operação iniciada na quarta-feira contra a Faixa de Gaza governada pelo Hamas.

Jovens palestinos se protegem em barricadas durante confronto com soldados israelenses. Foto: ©AFP / Abbas Momani

“O exército está preparado para intensificar significativamente a operação”, disse Netanyahu no início do conselho de ministros. “Os soldados estão preparados para qualquer atividade que possa ser levada adiante”, disse.
O primeiro-ministro fez seus comentários enquanto milhares de soldados e equipamentos militares se concentram junto à fronteira com Gaza, o que alimenta a hipótese de que Israel inicie uma operação terrestre após cinco dias de ataques aéreos.
Os bombardeios israelenses mataram neste sábado 16 palestinos em Gaza e destruíram a sede do governo do Hamas, enquanto reuniões são realizadas no Cairo para tentar estabelecer uma trégua.
O presidente egípcio, Mohamed Mursi, se mostrou otimista neste sábado à noite, mencionando contatos com Israel e com os palestinos e “algumas indicações sobre a possibilidade de um cessar-fogo em breve”.
Desde o início da operação militar israelense “Pilar de defesa” contra os grupos armados palestinos da Faixa de Gaza, na quarta-feira, 48 pessoas — 45 palestinos e três israelenses — morreram, enquanto 400 palestinos e 15 israelenses ficaram feridos.
O secretário-geral da Liga Árabe, Nabil al-Arabi, conduzirá uma delegação ministerial a Gaza em sinal de solidariedade, anunciou a organização ao final de uma reunião de emergência dos ministros árabes das Relações Exteriores neste sábado no Cairo.


Além disso, o ministro francês das Relações Exteriores, Laurent Fabius, é aguardado neste domingo em Jerusalém e em Ramallah, segundo fontes oficiais.
O líder do Hamas no exílio, Khaled Mechaal, realizava negociações por uma trégua no Cairo com o chefe do serviço de inteligência egípcio, com o primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, e com o emir do Qatar, Hamad Ben Khalifa Al-Thani, mas seu movimento exige garantias internacionais, segundo um alto funcionário do Hamas, que não quis ser identificado.
“Por intermédio do Egito, nós chegamos a um acordo sobre uma trégua (segunda-feira), e ela foi quebrada em 48 horas”, lembrou essa autoridade.
“O Egito não pode mais fornecer garantias de uma trégua”, considerou.

Membros do Hamas inspecionam prédio da organização destruído por ataque israelense em Gaza. Foto: ©AFP / Mahmud Hams

Erdogan considerou que Israel tem total responsabilidade pela escalada e deve prestar contas “pelo massacre dessas crianças inocentes”. Em visita neste sábado de manhã a Gaza, o ministro tunisiano das Relações Exteriores, Rafik Abdessalem, também denunciou uma “agressão israelense flagrante”.
A Casa Branca, por outro lado, reafirmou que “os disparos de foguetes a partir de Gaza são o fator desencadeador deste conflito”, reconhecendo o direito de Israel “de se defender e de decidir a tática a se utilizada”.
Quase a metade dos 45 palestinos mortos pelos ataques israelenses não era combatente, incluindo seis crianças e três mulheres, segundo fontes médicas e das organizações de defesa dos direitos humanos.
Domo de Ferro. Neste sábado à noite, cinco palestinos foram mortos, sendo quatro homens em dois ataques israelenses no centro da Faixa de Gaza e uma mulher em uma casa atingida no sul do território.
As casas de cinco comandantes militares do Hamas foram alvos de ataques aéreos no território, segundo o movimento e testemunhas.
No total, a ofensiva israelense matou 16 palestinos neste sábado, incluindo pelo menos sete combatentes do Hamas e um da Jihad Islâmica, segundo fontes médicas em Gaza.
Enquanto isso, nove israelenses ficaram feridos, incluindo quatro soldados, de acordo com o Exército israelense, que indicou 733 foguetes disparados desde quarta-feira a partir do território palestino, sendo que 243 foram interceptados pelo sistema antimísseis “Domo de Ferro”, e 950 alvos atingidos na Faixa de Gaza.
Além da sede do governo do Hamas, os ataques atingiram o quartel-general da polícia, a Universidade Islâmica e o estádio “Palestina”, principal centro esportivo de Gaza.
Em torno do prédio de dois andares do governo, inteiramente destruído, ainda havia durante a manhã um cheiro de pólvora. A poeira tomava conta do ar e papéis e pedaços de madeira estavam espalhados por todos os lados.
O ataque provocou pânico. “É um filme de terror que se tornou realidade”, disse Soha, de 18 anos, ferida em sua cama por pedaços de vidro.
Pelo terceiro dia consecutivo, as sirenes de alerta soaram em Tel Aviv. Pouco depois, uma nova bateria “Domo de Ferro”, instalada de manhã, interceptou um foguete.
O disparo foi reivindicado pelo Hamas, que afirmou ter disparado um foguete Fajr 5. Na quinta e na sexta-feira, três foguetes caíram na região de Tel Aviv, capital econômica de Israel, sendo dois no mar.
O confronto chegou na sexta-feira a um novo patamar com o disparo de um foguete, que caiu sem deixar vítimas na Cisjordânia, a cinco quilômetros a sudoeste de Jerusalém.
No momento em que os preparativos para uma eventual operação terrestre se intensificam, cerca de 20.000 reservistas israelenses foram mobilizados, e o governo pode autorizar no domingo a mobilização de um total de 75.000 reservistas.
Em plena campanha eleitoral para as legislativas de janeiro, Israel lançou sua ofensiva na quarta-feira com um ataque contra Ahmed Jaabari, chefe de operações militares do Hamas em Gaza, a mais importante autoridade morta desde a ofensiva devastadora de dezembro de 2008 – janeiro de 2009, que apenas suspendeu temporariamente os disparos de foguetes.