segunda-feira, 19 de novembro de 2012

CIVIS SÃO MASSACRADOS NA PALESTINA

CIVIS SÃO MASSACRADOS NA PALESTINA

VÍTIMAS DO HORROR
Autor(es): RODRIGO CRAVEIRO
Correio Braziliense - 19/11/2012
 

Os conflitos entre militares israelenses e militantes palestinos voltaram a vitimar inocentes: ontem, ataque das forças de Israel na Faixa de Gaza matou uma família inteira de uma só vez. Foram dois homens, seis mulheres e quatro crianças. No total, sobe para 75 (três judeus) o número de vítimas desde o início da ofensiva, há seis dias. Presidente Dilma Rousseff, que está em Madri, telefonou ao secretário-geral da ONU e pediu esforço pelo cessar-fogo.

Israel bombardeia casa na Faixa de Gaza e mata 12 pessoas da mesma família. Hamas lança chuva de foguetes

"As crianças eram engraçadas e falantes. Eu adorava conversar com elas e jogar cartas." O ativista palestino Majed Abusalama se referia a Ranin, 5 anos, Jamal (7) e Yousef (10). Além deles, o irmão Ibrahim (1 ano); o pai, Mohammed; o avô Jamal e outros seis parentes morreram ontem quando um míssil disparado por um caça F-16 israelense caiu sobre a residência da família Al-Dalou, na Rua Al-Nasser, no bairro de Sheikh Redwan, região oeste da Cidade de Gaza. O ataque, ocorrido por volta das 15h10 (11h10 em Brasília), tinha como alvo Yehiya Rabiah, chefe da unidade de lançamentos de foguetes do movimento islâmico Hamas.
A explosão atingiu a casa vizinha, matando 12 pessoas da mesma família — seis mulheres, quatro crianças e dois homens. Yehiya sobreviveu. "Famy Al-Dalou, meu amigo, vivia lá e ficou bastante ferido. Suas irmãs morreram", lamentou Majed, em entrevista ao Correio. Até as 23h de ontem, 71 palestinos tinham sido mortos desde quarta-feira, 28 nos bombardeios de ontem. Foguetes do Hamas também mataram três israelenses, na quinta-feira. No fim da noite, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, pediu a palestinos e a judeus um cessar-fogo "imediato". "Isto deve parar", avisou, por meio de um comunicado no qual lamentou as mortes na família Al-Dalou.
O jornalista palestino Samy Elajramy foi até o local da casa dos Al-Dalou e relatou à reportagem ter ficado chocado. "As pessoas daqui estão falando sobre o massacre mais horrível que já ocorreu desde quarta-feira. Nada sobrou da residência. Todas as casas ao redor estão danificadas", disse, também por telefone. "Outros integrantes da família choravam, querendo saber quem estava lá. Foi algo comovente", admitiu. "Israel, o que as crianças e os recém-nascidos fizeram?", perguntava, entre lágrimas, Khalil Al-Dalou. As Brigadas Ezzedine Al-Qasam — braço armado do Hamas, cujo líder, Ahmed Jabari, foi morto na quarta-feira — prometeram que "o massacre não ficará impune".
O premiê israelense, Benjamin Netanyahu, anunciou ao seu gabinete ministerial que Israel está preparado para "expandir de forma significativa" a Operação Pilar de Defesa. Durante a madrugada de ontem, um escritório da rede estatal de tevê russa Russia Today ficou destruído, depois que a aviação israelense atacou o centro de imprensa Al-Shawa. O escritório ficava no 11º andar de um prédio e dividia espaço com outros meios de comunicação, como a Sky News, a ITV e agências de notícia palestinas.
Khader El-Zahar, cinegrafista da rede de tevê Al-Quds, teve a perna direita arrancada pela explosão. Outros cinco jornalistas ficaram feridos. O edifício Al-Shorouk, de 16 andares, também foi bombardeado. Os estúdios da tevê Al-Aqsa foram atingidos. "Israel quer esconder a verdade", acusou a jornalista Mousheera Jammal, moradora da Cidade de Gaza, em entrevista pela internet. Samy tem a mesma opinião. "Os israelenses exigiram que todos deixassem os prédios. Foi um claro ataque a jornalistas. Querem nos silenciar", desabafou.
O Hamas lançou 120 foguetes contra o sul de Israel (40 a mais do que na véspera) — desde o início do confronto, na quarta-feira, foram 980. As sirenes antiaéreas soam a cada sete minutos. Dois artefatos foram interceptados pelo sistema Domo de Ferro, antes que caíssem em Tel Aviv. A britânica Beverly Jamil mora há 30 anos em Ashkelon, a 21km de Gaza. "Viver aqui tem sido muito assustador. A cada sirene, você pula. Hoje, as sirenes tocaram oito vezes. Começou às 8h30", relatou ao Correio, por telefone. Questionada se crê em trégua, ela responde com uma pergunta. "Se você tivesse pessoas disparando foguetes a todo o momento, não gostaria que alguém o salvasse? Minhas crianças e as crianças palestinas querem crescer em paz."
A 18km dali, Ashdod teve uma tarde apavorante. Pelo menos 15 foguetes foram lançados pelo Hamas contra a cidade em um intervalo de apenas cinco minutos. O israelense Yaniv Cackon, 31 anos, disse que a comunidade é unida e tenta manter a calma. "Nós queremos ter uma vizinhança (Gaza) vivendo em um paz", comentou.
Diplomacia
Por enquanto, o acerto de um cessar-fogo parece improvável. Izat Al-Rishak, integrante do birô político do Hamas, expôs as condições do grupo fundamentalista para a trégua. "Nós insistimos que a agressão e os assassinatos devem parar, e o bloqueio injustificável a Gaza tem que ser removido", declarou. O presidente dos EUA, Barack Obama, considerou que os ataques com foguetes precipitaram a guerra. "Nós estamos trabalhando ativamente com todas as partes da região para ver se podemos pôr fim ao disparo desses mísseis, sem que haja a escalada de violência", afirmou, depois de conversar com Netanyahu, com o colega egípcio, Mohamed Morsy, e com o premiê turco, Tayyip Erdogan. Obama alertou para os perigos de uma ofensiva terrestre. "Se as tropas entrarem em Gaza, haverá um risco maior de baixas", disse.
No início da noite de ontem, na capital espanhola, a presidente Dilma Rousseff ligou para Ban Ki-moon para pedir empenho do Conselho de Segurança da ONU nos conflitos no Oriente Médio. Na prática, Dilma se disse preocupada com o uso desproporcional da força e considerou que o conselho deve assumir as responsabilidades em buscar um acordo de trégua na região. Horas antes, Dilma recebeu uma ligação do presidente egípcio, que considerou a influência do Brasil na ONU. "Morsy ficou satisfeito (com a conversa) e vamos acompanhar a situação", disse o assessor especial para assuntos internacionais da Presidência, Marco Aurélio Garcia, que criticou o Quarteto para o Oriente Médio — EUA, Rússia, União Europeia e ONU. ""Enquanto continuar essa política intransigente e esta desídia das grandes potências em relação ao conflito, esses fenômenos vão se multiplicar", disse Garcia.
Colaborou Leonardo Cavalcanti, enviado especial a Madri

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