(Kim Jong-un em plenária do Partido dos Trabalhadores da Coreia do Norte)
Mais uma vez, a República Democrática Popular da Coreia (RDPC) deixa o
resto do mundo sem fôlego: onda de ameaças – ataques nucleares aos
Estados Unidos, rejeição do armistício de 1953,1 uma
inevitável “Segunda Guerra da Coreia” – e baterias de mísseis apontados
para o Japão e para a base norte-americana de Guam. Desde meados de
março, a propaganda norte-coreana intensificou-se, e os meios de
comunicação internacionais, ao difundir com complacência esses arroubos
belicosos sem medir quais são realmente as ameaças verossímeis,
propiciaram que essa propaganda ecoasse de forma desmedida, para a
grande satisfação da capital Pyongyang.
Depois da frequente confrontação de George W. Bush, os Estados Unidos
voltaram a apostar em uma estratégia mais contida com Barack Obama. Mas é
necessário reconhecer o fracasso dessa política, assim como a do
presidente sul-coreano Lee Myung-bak, que até fevereiro pensava exercer
algum poder sobre Pyongyang. A situação tornou-se infinitamente mais
complexa do que há quinze anos.
Sem dúvida, os objetivos da Coreia do Norte não são os mesmos de 1998,
quando lançou um míssil equipado com satélite (mesma tecnologia de um
míssil de longo alcance) contra o Japão, que caiu no Pacífico. A
administração Clinton recuou com sua política e, em outubro de 2000, a
secretária de Estado Madeleine Albright visitou Pyongyang. Na ocasião,
chegou-se a cogitar uma visita do próprio presidente. Contudo, Bush
varreu as iniciativas de seu predecessor.
Desde então, a RDPC realizou três testes atômicos, em 2006, 2009 e
2013, e se proclama uma potência nuclear. Dispõe de estoques de plutônio
e de um programa de enriquecimento de urânio de capacidades balísticas.
Na reunião do Comitê Central do Partido dos Trabalhadores, em 31 de
março, Kim Jong-un precisou: “As armas nucleares não são uma moeda de
troca para obter dólares. A RDPC não renunciará jamais [ao
desenvolvimento de tais armas] enquanto persistir a ameaça nuclear dos
imperialistas”. Assim, Pyongyang elevou a barreira para futuras
negociações.
Aos 30 anos, Kim Jong-un, segundo herdeiro do clã dos Kim, levado à
liderança do regime após a morte de seu pai, Kim Jong-il, em dezembro de
2011,2 parecia conferir uma imagem mais amena ao país – que
mantém cerca de 200 mil prisioneiros em campos de trabalho, segundo
organizações humanitárias. Um ano após ter ganhado plenos poderes
(primeiro secretário-geral do Partido dos Trabalhadores, primeiro
presidente da Comissão Nacional de Defesa, marechal e comandante-chefe
do Exército Popular), no entanto, ele desencadeou uma ofensiva de rara
virulência, com o lançamento de um satélite em dezembro e um teste
nuclear em fevereiro, ambos condenados pelo Conselho de Segurança da
Organização das Nações Unidas.
Jong-un estudou durante cinco anos em um liceu na Suíça e por essa
experiência no exterior sem dúvida se tornou mais consciente do que a
velha geração sobre a necessidade de reformas. Contudo, permanece fiel à
via traçada desde a década de 1990: “um país forte e próspero”, fórmula
que busca conciliar desenvolvimento e força militar. Com algumas
nuances lexicais, a mesma fórmula foi, no século XIX, a ambição do Japão
na era Meiji3 (“país rico, Exército forte”) perante a ameaça
estrangeira. Na Coreia do Norte, os dois objetivos são dificilmente
conciliáveis: a “prosperidade” supõe reformas, mas em particular a
abertura e o auxílio estrangeiro, sob a forma de assistência tecnológica
e investimentos. Os Estados Unidos e seus aliados, nesse contexto, se
recusam a cooperar com Pyongyang enquanto a capital representar uma
ameaça.
Ao tomar a linha de frente, o regime norte-coreano abalou o status quo:
colocou em discussão a “paciência estratégica” de Washington, reforçou
as sanções internacionais que estrangulam o país e agudizou seu
isolamento até em relação à China, que, apesar de ajudar o país
economicamente, engrossa o coro das condenações internacionais. Ao
desafiar os Estados Unidos e seus aliados, o terceiro teste nuclear
representa também uma afirmação de soberania com relação a Pequim.
Ao dispor de uma força de dissuasão, a RDPC se considera protegida de
um ataque nuclear – ameaça de Washington pelo menos em cinco ocasiões.
Dessa forma, o governo passou a justificar seu regime e os sacrifícios
pela necessidade de tornar o país invulnerável e garantir a
independência como um objetivo sagrado, e por isso tem amplo respaldo da
população. Portanto, uma renúncia a essa arma – única conquista da era
Kim Jong-il – parece improvável.
A obstinação da RDPC em se fazer reconhecer como potência nuclear pelo
resto do mundo e sua aparente recusa diante de qualquer transição
pós-totalitária se baseiam em um nacionalismo exacerbado. Esse aspecto
do país se inscreve menos na história da bipolaridade – que desapareceu
com o desmoronamento do bloco soviético – do que na do pós-colonialismo.
Na Europa, a Guerra Fria foi, na realidade, uma época de paz. Na Ásia,
na península coreana e no Vietnã, foi um período de enfrentamentos
armados vividos como prolongamentos das guerras de libertação.4
Na RDPC, a propaganda reaviva a memória sublimada da “gloriosa luta”
dos partidários reunidos atrás de Kim Il-sung contra a ocupação japonesa
– fundamento da legitimidade do regime − e localiza sistematicamente a
situação atual no contexto da luta contra o imperialismo.
Após o fim da URSS, os temas recorrentes do pós-colonialismo –
independência, soberania nacional, solicitações de reconhecimento –
ressurgiram com força, acentuando no seio da população uma mentalidade
de país permanentemente invadido.5 Ao fazer a Coreia do Norte
figurar no considerado “eixo do mal”, e em seguida atacando o Iraque,
Bush reforçou esse sentimento de ameaça. Atual potência nuclear, a RDPC
jamais terá o mesmo destino do Iraque, martela a propaganda.
De qualquer forma, a situação geopolítica é diferente: a proximidade do
país com a China impossibilita uma intervenção militar. Pequim, de
fato, pretende evitar qualquer instabilidade que possa levar a uma
reunificação da península “à força”, sob o comando do Sul, com o apoio
das Forças Armadas norte-americanas em sua fronteira. Em caso de guerra,
a RDPC certamente perderá, mas não sem causar terríveis estragos ao
Sul, sem mencionar ao Japão. E, nesse caos, o que aconteceria com as
armas nucleares ou os estoques de plutônio dos quais dispõe? Esse risco
deveria ser suficiente para incitar outra forma de abordagem do problema
que recorrer a sanções e boicotes.
Philippe Pons é jornalista, autor particularmente de Misère et crime au Japon, du XVII e siècle à nos jours, 1999, e D'Edo à Tokyo, 1998, ambos pela Gallimard, Paris.
Ilustração: Reuters/ KCNA
1 A Guerra da Coreia, entre o Sul e o Norte, a partir de 1950,
terminou em 1953 com a assinatura de um armistício, mas, desde então,
nenhum acordo de paz foi formalizado.
2 Ler Bruce Cumings, “La dynastie Kim ou les deux corps du roi” [A dinastia Kim ou os dois corpos do rei], Le Monde Diplomatique, fev. 2012.
3 A era Meiji (1868-1912) marca o início da política de modernização.
4 Heonik Kwon, The other Cold War[A outra Guerra Fria], Columbia University Press, Nova York, 2010.
5 Ler “En Corée du Nord, la société s’éveille” [Na Coreia do Norte, a sociedade desperta], Le Monde Diplomatique, jan. 2011.
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