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terça-feira, 27 de março de 2012

Ahmadinejad defende saída de militares do Afeganistão e provoca protesto da delegação dos Estados Unidos

Ahmadinejad defende saída de militares do Afeganistão e provoca protesto da delegação dos Estados Unidos

Renata Giraldi* - Repórter da Agência Brasil

Ao defender hoje (26) a retirada imediata de todas as tropas norte-americanas e estrangeiras do Afeganistão, o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, provocou um protesto silencioso da delegação dos Estados Unidos durante a conferência que discute a segurança e a reconstrução da região. As discussões ocorrem Dushanbe, capital do Tadjiquistão.

"A Otan [Organização do Tratado do Atlântico Norte] e os Estados Unidos devem mudar de política. Queremos que as tropas estrangeiras deixem o Afeganistão o mais rápido possível", disse Ahmadinejad. “A causa de todos os males no Afeganistão é a presença das forças da Otan no solo afegão, sobretudo, as [tropas] dos Estados Unidos.”

A delegação norte-americana é comandada pelo subsecretário de Estado, Robert Blake. O presidente afegão, Hamid Karzai, também estava no local, no momento em que Ahmadinejad defendeu a retirada das tropas estrangeiras. Os norte-americanos retornaram à sala depois que o presidente iraniano concluiu o discurso.

Desde 2001, há no Afeganistão tropas estrangeiras. A ocupação foi definida pela Otan devido aos ataques de 11 de setembro (de 2001). A previsão é que as tropas deixem a região até o final de 2014 embora os alemães (que também integram as tropas) não confirmem essa data. “Nós queremos que a comunidade internacional nos ajude a estabelecer a serenidade e a estabilidade”, disse o presidente afegão.

Reuniões nas quais delegações norte-americanas e iranianas estejam presentes são raras. Os Estados Unidos e o Irã romperam as relações diplomáticas em 1979, quando houve a Revolução Islâmica iraniana. As tensões entre os dois país são elevadas devido às controvérsias envolvendo o programa nuclear iraniano.

Os norte-americanos lideram uma campanha internacional que levanta suspeitas sobre a produção secreta de armas atômicas no Irã. A suspeita é negada pelas autoridades iranianas. Segundo os iranianos, o programa tem fins pacíficos.

*Com informações da emissora pública de rádio da França, RFI    //     Edição: Lílian Beraldo

sexta-feira, 2 de março de 2012

Ahmadinejad na berlinda

Autor(es): » CAROLINA VICENTIN
Correio Braziliense - 02/03/2012
 

Com a oposição reformista excluída, eleição parlamentar reflete uma queda de braço entre aliados do presidente e do líder religioso supremo pela hegemonia. Expectativa é de baixo comparecimento

Os iranianos renovam hoje, nas urnas, as 290 cadeiras do Majlis (parlamento), mas a expectativa é de baixa participação dos 48 milhões de eleitores. Com candidatos selecionados pelo grupo de clérigos que controla o país, a escolha se fará apenas entre representantes da facção conservadora do regime islâmico. Um personagem, porém, tem interesse capital no resultado: o presidente Mahmud Ahmadinejad é, ao mesmo tempo, o fator que diferencia os concorrentes e o político que mais tem a ganhar ou a perder.
"Será, na verdade, uma briga entre aliados e opositores de Ahmadinejad", resume o professor Murilo Meihy, especialista em história contemporânea do Irã na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. As principais coligações que participam representam apoiadores do presidente ou setores críticos à sua tentativa de ganhar poder internamente. Nos últimos dois anos, Ahmadinejad — eleito e reeleito graças ao apoio do líder supremo do país, o aiatolá Ali Khamenei — passou a adotar uma posição mais forte em relação a vários temas. Por diversas vezes, ensaiou contrariar o líder, criando uma tensão política interna que aumenta as preocupações da comunidade internacional.
O principal temor é de que esse quadro dificulte ainda mais as negociações sobre o programa nuclear. "O Majlis tem muito pouco poder em relação à política externa. Mas, se Khamenei centralizar o poder em torno de seu grupo, é possível que o diálogo com o Ocidente siga estancado", afirma Luciano Zaccara, diretor do Observatório Eleitoral de Países Árabes e Islâmicos. "Nos últimos anos, foi justamente Ahmadinejad quem deu mostras de que deseja negociar com os Estados Unidos, algo a que o líder supremo se opõe", lembra o especialista.
Antes de a campanha começar, o Conselho de Guardiões, que supervisiona os processos eleitorais e legislativos, vetou candidatos mais críticos ao regime e ao governo. A medida atingiu principalmente a facção reformista do regime, que defende mudanças em alguns aspectos da Constituição e optou por boicotar o pleito. Dois de seus principais expoentes, Mir Hossein Mousavi e Mehdi Karrubi, ambos derrotados por Ahmadinejad na eleição presidencial de 2009 — sob denúncias de fraude generalizada —, estão sob prisão domiciliar. Outra razão para um alto índice de abstenção é que os iranianos estão mais preocupados com a economia do que com os rumos políticos do país.
Convocação
É possível, no entanto, que o governo acabe pressionando os cidadãos a votarem. "Acho que o líder supremo e muitos conservadores da Guarda Revolucionária instaram a população a ir às urnas", opina a iraniana Haleh Esfandiari, radicada nos EUA e diretora do programa para o Oriente Médio no Woodrow Wilson International Center for Scholars. Na quarta-feira, o ministro do Interior iraniano, Mostafa Najar, afirmou à imprensa que as eleições parlamentares seriam "gloriosas", com alto comparecimento da população. Para Haleh Esfandiari, mesmo que isso não ocorra, o regime islâmico vai mascarar dados para dizer que a eleição foi um sucesso. "Se eles precisarem, vão aumentar os números e divulgar que 60% dos eleitores participaram", disse ela, em entrevista ao Correio. O novo parlamento deve assumir após 21 de março, quando se comemora o ano-novo persa.