Banco Central admite que vai seguir a cartilha de Dilma e protelar
ao máximo a elevação dos juros para estimular a retomada da atividade
produtiva. Pelas suas projeções, o IPCA deste ano será de 5,7% e o
Produto Interno Bruto terá incremento de 3,1%
O Banco Central deixou bem claro ontem que é a presidente Dilma
Rousseff quem determina o rumo da política monetária. Durante a
divulgação do Relatório Trimestral de Inflação, sinalizou que vai
tolerar a continuidade da alta dos preços até que a economia se
recupere. Para o diretor de Política Econômica do órgão, Carlos
Hamilton Araújo, porém, há um único remédio eficaz para conter a alta
inflação: a taxa básica de juros (Selic). Diante das incertezas no
mercado interno e externo, o BC indicou que deve esperar mais um pouco
para tomar qualquer decisão. Na visão dos analistas, esse prazo pode
acabar em maio, quando a maioria do mercado espera aumento de 0,25
ponto percentual na Selic, de 7,25% para 7,50% ao ano.
“No momento, a nossa percepção de inflação é maior que a média. Isso,
em parte, se deve a aumentos grandes, e com frequência elevada, de
itens que são muito visíveis. Alimentos e combustíveis são os
principais pontos. E quando os aumentos de preços estão concentrados
nesses itens, a percepção da população é de que há mais inflação do que
o índice de preços aponta”, justificou Hamilton. Ao explicar sobre as
armas necessárias para conter a alta do custo de vida, o diretor do BC
falou em “remédios ruins” que podem ser usados pelo Comitê de Política
Monetária (Copom) e citou o ex-primeiro-ministro britânico Winston
Churchill (1940-45 e 1951-55). “Tem várias coisas que podem ser feitas.
Consta que, em certa oportunidade, Churchill disse que democracia é o
pior sistema de governo com exceção de todos os outros. Para combater a
inflação, a taxa de juros é o pior remédio à exclusão de todos os
demais”, afirmou Carlos Hamilton. “Agora, sobre o que vai ser feito,
especificamente, o Copom vai se reunir, e isso é uma decisão do
Comitê”, completou.
Na avaliação do economista Alexandre Schwartsman, ex-diretor do BC, com
essa afirmação, o BC sinalizou que vai obedecer à presidente Dilma,
apesar de não concordar. “Esse comentário vai em direção oposta ao que a
presidente disse. Neste momento, o melhor é focar no combate da
inflação e menos na retomada do crescimento. E os juros são, realmente,
a ferramenta mais eficiente para conter a alta de preços”, destacou.
Na última quarta-feira, em Durban, na África do Sul, Dilma afirmou que
“não concorda com políticas de combate à inflação que olhem a questão
da redução do crescimento econômico”. Diante da péssima repercussão
entre os investidores, a presidente disse que sua fala foi “manipulada”
pela imprensa e pelo mercado.
Abandono
No relatório divulgado ontem, o BC elevou a projeção para o Índice de
Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) deste ano de 4,8% para 5,7%. Em 2014,
prevê alta de 5,3%. Com isso, o governo Dilma Rousseff será marcado
por um período de forte inflação e de crescimento pífio, com o Produto
Interno Bruto (PIB) apontando média de crescimento anual de 2,55%. Nas
contas do BC, o avanço do PIB em 2013 será de apenas 3,1%, depois de
2,7% em 2011 e de 0,9% no ano passado. Essa combinação nada
confortável, de fraca atividade e custo de vida elevado, mostra que a
autoridade monetária praticamente abandonou o compromisso de levar a
inflação para o centro da meta, de 4,5%, definida pelo Conselho
Monetário Nacional (CMN). O IPCA acumulado em 12 meses, por sinal,
baterá em 6,7% no segundo trimestre deste ano, rompendo o teto da meta,
de 6,5%.
Na visão do economista-chefe da Votorantim Corretora, Roberto Padovani,
o relatório de 100 páginas do BC confirma parte das declarações da
presidente Dilma em Durban. “O texto diz que o país tem um problema de
crescimento e de choque de oferta. Enquanto tivermos esse quadro, com a
economia patinando, o Banco Central não deverá tomar medidas mais
firmes, como o aumento de juros”, disse. “Para que os juros não subam
agora, o Ministério da Fazenda vai ajudar no controle da inflação com
mais desonerações”, completou. A seu ver, a alta da Selic, se vier,
começará apenas em agosto, chegando a 8,5% ao ano em dezembro. “A visão
que tenho é de que há um risco inflacionário muito alto. O BC precisar
agir, mas o risco de a economia não crescer é alto”, afirmou.
DUAS PERGUNTAS PARA
SERGIO VALE, economista-chefe da MB Associados
O Banco Central vem demorando para aumentar a taxa básica de juros
(Selic), mesmo com a inflação se mantendo em um nível preocupante, o que
pode custar caro ao país mais à frente. É o que ressalta o
economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale. No entender dele, isso
só demonstra que a autoridade monetária está confortável em trabalhar
com uma meta inflacionária informal de 5,5% e não de 4,5% ao ano, como
foi definido pelo Conselho Monetário Nacional (CMN).
Com esta previsão de 5,7% de inflação em 2013 de crescimento de
3,1%, o BC deixa a entender que não deverá elevar os juros como
deveria?
Ao anunciar projeção de inflação de 5,7% para este ano, o Banco
Central deixa a percepção é de que está atrasado para subir a taxa
Selic. Esse atraso apenas aumenta as expectativas não apenas para 2013,
mas para os anos seguintes, pois sinaliza que a instituição está
confortável com
níveis próximos de 5,5%. Esse número está na cabeça de todo mundo como a
verdadeira meta de inflação hoje. O perigo de atrasar ainda mais a
decisão de aumentar os juros é a meta de inflação subir mais um pouco,
para 6%.
Qual o fator do relatório de inflação que o senhor considera mais preocupante e que poderá espantar os investidores?
O fato de a expectativa de inflação ter subido quase um ponto
percentual de um relatório para o outro e o BC praticamente não mudar o
tom. Pelo contrário, a autoridade monetária continua insistindo que a
inflação tende a passar logo, que são problemas que não vão ocorrer
mais, como câmbio, aumento forte de salários e de alimentos. O problema
é que os pontos relevantes foram praticamente deixados de lado. Um
indicador importante, como a difusão (total de produtos e serviços com
preços remarcados), que está em mais de 75%, foi praticamente relevado
às traças no documento.