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terça-feira, 12 de março de 2013

Conclave começa hoje com cardeais divididos em 4 grupos

Conclave começa hoje com cardeais divididos em 4 grupos

Cardeais se dividem em quatro correntes
O Estado de S. Paulo - 12/03/2013
 

O conclave para eleger o novo papa começa hoje, a partir das 16h30 (meio-dia no Brasil), quando os 115 cardeais votantes se reunirão na Capela Sistina. Eles chegam à votação divididos em quatro grupos: dois pró e dois contra a Cúria, informam os enviados especiais Jamil Chade e José Maria Mayrink. Para analistas, mais do que questões religiosas, prevalecerão disputas políticas internas. E, ao contrário de 2005, não há um nome favorito. O secretário de Estado do Vaticano, Tarcísio Bertone, garantiu aos cardeais ontem, último dia de reuniões, que o Banco do Vaticano, alvo de denúncias, é "transparente", mas se negou a prolongar o debate. O número de religiosos que pediram para falar foi tão grande que nem todos puderam fazer intervenções.
Num cenário político bizantino, os 115 cardeais entram hoje para o conclave profundamente polarizados, divididos e irão às urnas em uma eleição aberta. Fontes próximas aos cardeais confirmaram ao Estado que existem pelo menos quatro grupos atuando nos bastidores para que suas visões prevaleçam. Mas todos admitem que, ao contrário do conclave de 2005, não há um franco favorito. De um lado, dois grupos que se apresentam como espécies de partidos da situação, enquanto outros dois clamam por maior transparência, maior eficiência na gerência da Igreja e uma espécie de modernização na gestão pontifícia.
"Não há um debate sobre doutrina ou sobre fé", indicou um assessor de um cardeal de peso no Vaticano. "A Igreja hoje está falando com a mesma voz no que se refere à religião. É sua administração que está dividindo os cardeais", acrescentou.
Mas, para observadores em Roma, com o elemento religioso fora da campanha, é mesmo a disputa política que ganhará espaço de honra na Capela Sistina. Ontem, no último dia de reuniões, o número de cardeais que pediu para falar sobre o que esperavam do próximo papa era tão grande que nem todos puderam fazer suas intervenções.
Parte deles deixou claro que considerava que o debate deveria continuar. Mas a Cúria deu por encerradas as discussões. Assessores admitiram que isso era um sinal de que nem tudo está resolvido e que o pleito está aberto.
"No último conclave, havia um homem com uma estatura três ou quatro vezes maior que a dos demais cardeais", disse o cardeal francês Philíppe Barbarin, em referência a Joseph Ratzinger. "Desta vez não é o caso. A escolha terá de ser feita entre um, dois, três, quarto, uma dúzia  de candidatos", insistiu. "Não sabemos ainda de nada. Vamos ver  o que sairá daprimeira votação."
Primária. Nos últimos dias, Roma foi tomada por reuniões secretas de diferentes grupos, mobilizando forças para justamente permitir que seus candidatos descubram hoje se têm ou não apoio suficiente para continuar na batalha. Na tarde de hoje, a primeira votação servirá como uma espécie de primária. Diante da proliferação de nomes que podem atrair votos, quem não se sair bem na primeira votação será na prática eliminado.
Não por acaso, a meta dos grupos ontem era o de costurar os últimos apoios para garantir a sobrevivência de seus candidatos para os próximos dias.
Um dos grupos de maior peso é o que poderia ser chamado de "pró-Cúria", com o apoio de alguns dos principais príncipes do Vaticano que já estavam no poder durante a gestão do secretário de Estado, Tarcisio Bertone.
O grupo, porém, queimado diante dos escândalos e da própria renúncia de Bento XVI, foi obrigado a buscar nomes de fora para atrair eleitores.
Um deles é de d. Odilo Scherer, afinado com as posições da Cúria. Ele atenderia a dois critérios: é o homem de confiança de um grupo no poder e, ao mesmo tempo, renovaria a imagem da Igreja ao se tomar o primeiro papa de fora da Europa em 1,3 mil anos. Jornais italianos apontam que o brasileiro  á poderia ter numa primeira votação entre 20 e 30 votos.
Mas nem o grupo do establishment da Igreja estaria unido. Parte dele, liderado pelo secretário de Estado, Tarcísio Bertone, defende a volta de um italiano para o comando da Santa Sé, depois de mais de 30 anos nas mãos de "estrangeiros". Um dos nomes seria o de Giancarlo Ravasi, o poderoso ministro da Cultura da Santa Sé. Mas não se descarta que o arcebispo do Sri Lanka, Malcolm Ranjith, possa ser uma alternativa se não houver uma sintonia entre os italianos.
Oposição. Do outro lado está a oposição que clama por uma reforma da administração e uma nova imagem de maior transparência na Igreja. O problema, segundo fontes no Vaticano, é que o único ponto em comum é o desejo de derrubar o grupo no poder. "Não há um nome único da oposição que atraia a atenção de todos", disse uma fonte.
Ironicamente, o representante da oposição considerado como tendo maiores chances é um antigo aliado de Bento XVI, o poderoso arcebispo de Milão, Ângelo Scola. Antes de renunciar, o papa chegou a dar sinais de que Scola seria seu candidato. Ele tem o apoio de outros cardeais italianos - mas nem todos.
"Scola é moderno, mas não progressista", insistia ontem Marco Politi, vaticanista italiano, cada vez que alguém tentava rotular Scola como um reformista. Mas parte da delegação americana também estaria inclinada a votar nele, desde que adote posições claras pró-transparência. Jornais italianos chegaram a apontar que o arcebispo de Milão poderia somar até 40 votos já na primeira rodada de votação.
Até a tarde de ontem, a prioridade de seu grupo de apoio era o de atrair o voto de cardeais independentes e descontentes com a atual Cúria. O problema é que nem todos estão convencidos de que Scola representaria de fato uma renovação da Igreja e que adotaria medidas drásticas de reformas.
Não por acaso, grupos debateram nos últimos dias nomes alternativos de oposição. São pessoas que não se alinham com o grupo pró-Cúria e nem com Scola. Mas ainda assim teriam o apoio de vários descontentes.
A lista, neste caso, é ampla e iria desde o canadense Marc Ouellet, passando pelo ganense Peter Turkson, os cardeais americanos Sean G"Malley e Timothy Dolan, o filipino Luis Antonio Tagle, o húngaro Péter Erdo e mesmo o brasileiro João Aviz. "A Cúria precisa de uma revolução", declarou o cardeal alemão Walter Kasper. "Precisamos de reforma e transparência", disse.
Já o canadense Marc Ouellet poderia ainda ser um dos nomes fortes, representante de uma espécie de compromisso entre os diversos campos. Para ser eleito, o novo papa terá de acumular 77 votos, o que pode não ser uma tarefa simples diante das divisões. Se houver um impasse entre os grupos e se as votações se repetirem sem um claro avanço de um dos candidatos, cardeais poderão chegar à conclusão de que terão de abandonar seus preferidos para buscar um nome de consenso. O canadense, não por acaso, é visto como um dos favoritos justamente por fazer a ponte entre os grupos, /jamil chade

CONCLAVE COMEÇA COM BRASILEIRO ENTRE FAVORITOS

CONCLAVE COMEÇA COM BRASILEIRO ENTRE FAVORITOS

115 CARDEAIS LARGAM EM CORRIDA IMPREVISÍVEL
Autor(es): Fernando Eichenberg
O Globo - 12/03/2013
 
Ansiedade. Visitantes aguardam na fila para conhecer a Basílica de São Pedro, no Vaticano: além de turistas, local atrai fiéis e curiosos, ávidos para conhecer o novo Papa

ROMA Os afrescos de Michelangelo retratam as cenas dramáticas do Juízo Final - quando Deus julga os homens na Terra. E com este pano de fundo, 115 cardeais estarão trancados a partir de hoje na Capela Sistina, no Vaticano, para o conclave que elegerá um novo Papa. A eleição é imprevisível e pode até resultar na escolha do primeiro brasileiro no comando da Igreja Católica e seus 1,2 bilhões de fiéis. Entre os cinco representantes do Brasil, é o arcebispo de São Paulo, dom Odilo Scherer, o que tem mais chance.
Scherer aparece na maioria das listas de papáveis dos vaticanistas, junto com o italiano Angelo Scola, arcebispo de Milão. Em comum, os dois cardeais têm no currículo o perfil que a burocracia da Santa Sé mais precisa. Ambos administram grandes arquidioceses, São Paulo e Milão. Mas isso pode não ser o bastante.
- Scola e Scherer vão se destacar no primeiro escrutínio, mas não estou convencido de que conseguirão se eleger - avalia Andrea Tornielli, vaticanista do jornal italiano "La Stampa".
DESDE 1831, SEM ULTRAPASSAR OS CINCO DIAS
Tornielli só tinha 14 anos quando o polonês Karol Wojtyla foi eleito Papa em 1978. Nenhum vaticanista imaginou na época que ele se tornaria um dos Pontífices mais populares da História da Igreja. Antes da eleição, seu nome não aparecia em nenhuma lista de papáveis.
- Lembro que quando anunciaram o nome dele, eu reagi : W-O-J-T-Y-L-A ? É um africano?
Tornielli, como vários outros vaticanistas, não exclui a possibilidade de uma grande surpresa novamente. Como o canadense Marc Ouellet.
- Fiquem de olho nos que correm por fora, como Jorge Mario Bergoglio (Argentina), Luis Antonio Tagle (Filipinas) e Francisco Robles Ortega (México). Bergoglio e Tagle fizeram intervenções (nas reuniões preparatórias) que todos gostaram, porque falaram com o coração.
John Allen Jr., o mais conhecido vaticanista americano, diz que este é provavelmente o conclave mais parecido com a eleição de Karol Wojtyla. Naquela ocasião, dois candidatos despontaram na frente: os italianos Giovanni Benelli e Giuseppe Siri. Mas, nas primeiras votações, nenhum deles conseguiu os dois terços necessários para se eleger.
- Então tiveram que buscar outro nome. Escolheram um candidato da Polônia e chocaram o mundo. Da mesma forma, poderemos desta vez ter uma outra surpresa - diz Allen Jr.
Sentados de frente uns para os outros, diante de compridas mesas cobertas por um pano branco e caimento de veludo vermelho, os cardeais terão diante de si uma cédula retangular onde está escrito, em latim, Eligo in Summum Pontificem - Elejo como Sumo Pontífice. Os nomes dos escolhidos serão escritos à mão.
E a opção, desta vez, não será fácil. O próximo Papa poderá - ou não - mudar os rumos de um Vaticano ingovernável e marcado por escândalos de pedofilia e corrupção. Bento XVI renunciou deixando dúvidas sobre seu legado - se de um revolucionário ou de um homem que quebrou a imagem de que o Papa é infalível. O racha na Igreja Católica, agora, é tal que ninguém se arrisca num palpite sobre quanto tempo o conclave pode durar. Mas uma coisa é certa: a fumaça branca que sairá da chaminé do Vaticano, um ritual histórico que anuncia a escolha de um Papa, não será vista hoje, após a única votação prevista para o dia.
- Esperem fumaça negra. A primeira votação em conclave dificilmente tem êxito - avisa o porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi.
Tornielli lembra que, em 2005, apenas dois cardeais tinham experiência em conclaves - contra 47 de agora. Porém, ele mesmo admite que isso pode não ter nenhuma influência na duração das votações. John Allen Jr. arrisca uma previsão mais concreta: para ele, o processo não vai durar mais do que três ou quatro dias. Desde 1831, aliás, um conclave não dura mais de cinco dias.
- Obviamente eles querem um Papa para a Semana Santa. Depois, porque no saturado mundo de mídia em que vivemos hoje, se passar de três dias, nós vamos todos produzir matérias sobre um conclave em crise. E eles (os cardeais) não querem isso - assegurou.
O processo de votação se inicia hoje com uma missa na Basílica de São Pedro. Além dos cardeais com direito a voto, estarão presentes, ainda, aqueles com mais de 80 anos e hierarquias mais baixas do clero, além de fiéis e autoridades, como o embaixador brasileiro no Vaticano, Almir de Sá Barbuda. Apesar de dom Odilo ser constantemente citado como favorito, o diplomata lembra de outra aposta - dom João Braz de Aviz, o arcebispo emérito de Brasília.
- Para o "Washington Post" (jornal americano), no grupo dos reformistas moderados ele era o que tinha mais chances. É um homem da Cúria Romana, mas mais crítico - afirmou, esquivando-se de prognósticos, mas sem esconder o entusiasmo com a possibilidade de um Pontífice brasileiro.
Segundo analistas ouvidos pelo GLOBO nas últimas semanas, três fatores devem influenciar na eleição do futuro Papa: idade, capacidade administrativa e mãos limpas. Ou seja, nenhum rastro de conivência com casos de pedofilia, corrupção ou qualquer outra irregularidade na Cúria - o que enterraria qualquer chance de ascensão de gente como o cardeal de Los Angeles, Roger Mahony. Ele desembarcou em Roma trazendo na bagagem suspeitas de ter acobertado 129 casos de pedofilia.
Para o vaticanista Tornielli, a Igreja precisa de um homem que seja capaz de mostrar ao mundo uma face positiva da Igreja, "um mensagem do Evangelho, de alegria e de misericórdia":
- E que consiga fazer as reformas pedidas por muitos cardeais depois dos tantos escândalos, que a Cúria fique a serviço do Papa e não seja um órgão de governo da Igreja, melhorando também a relação entre o centro (Vaticano) e a periferia (dioceses no mundo).
Cum Clave , em latim, significa fechado à chave - conclave. Hoje, às 16h30m (12h30m de Brasília), os 115 cardeais se trancam na Capela Sistina. E deixam do lado de fora 1,2 bilhão de fiéis curiosos. E em suspenso.

115 CARDEAIS, UM ÚNICO PAPA

115 CARDEAIS, UM ÚNICO PAPA

OS 115 ELEITORES E O ESPÍRITO SANTO
Autor(es): DIEGO AMORIM Enviado especial
Correio Braziliense - 12/03/2013
 

O mundo inteiro estará de olho hoje na chaminé da Capela Sistina. Nesta manhã, 115 cardeais de 50 países se reúnem a portas fechadas no recinto . Eles só sairão de lá quando uma fumaça branca subir anunciando a 1,2 bilhão de fiéis que a Igreja Católica tem um novo papa. O conclave tanto pode ter minar ainda nesta terça-feira, depois da primeira votação, à tarde, quanto se estender por tempo indeterminado. Enviado especial do Correio ao Vaticano, o repórter Diego Amorim relata que, embora haja favoritos — como o arcebispo de Milão, Angelo Scola, e o brasileiro dom Odilo Scherer —, o processo, iniciado após a inesperada renúncia de Bento XVI, pode terminar de forma tão surpreendente como começou. Isso porque, em tese, qualquer um dos cardeais que participam do encontro está apto a ocupar o trono de Pedro e usar a mitra (alto) que o artesão colombiano Luis Abel Delgado , 44 anos, confeccionou para o próximo pontífice. Para isso , o religioso precisa obter o voto de pelo menos 70 colegas

Na manhã de hoje, depois de invocar inspiração divina, os cardeais serão trancados na Capela Sistina para o conclave que elegerá o novo papa

Cidade do Vaticano — Chegou o dia. Hoje, 115 homens vão se isolar do mundo para eleger quem assumirá a barca de Pedro em plena tempestade. Sob o inspirador teto da Capela Sistina, com os célebres afrescos renascentistas, cardeais de 50 países terão de chegar a um consenso e, em votação ultrassecreta, indicar a 1,2 bilhão de fiéis o novo líder da Igreja Católica. Desde o anúncio de que Bento XVI deixaria o cargo, um mês atrás, nomes de prováveis sucessores vieram à tona. Mas, embora haja favoritos, o processo pode terminar tão surpreendente quanto começou.

Na manhã de ontem, os purpurados se reuniram pela última vez antes do conclave, encerrando uma maratona de 10 encontros em sete dias. Ao longo das 27 horas de Congregações Gerais, houve 161 intervenções e, ainda assim, nem todos os inscritos tiveram oportunidade de dizer o que pensam. Na extensa pauta, desabafos e cobranças públicas, o perfil do próximo pontífice e temas espinhosos, como o escândalo do Vatileaks e a situação financeira da Santa Sé.

Vencido o arrastado período de preparação, está tudo pronto para os cardeais tomarem a decisão mais esperada pelos católicos. Bombeiros do Vaticano instalaram ontem a cortina vermelha no balcão central da Basílica de São Pedro, que se abrirá para o novo papa ser apresentado ao povo. Cerca de 90 pessoas que trabalharão na área do conclave — entre enfermeiros, médicos, seguranças e o pessoal da limpeza — juraram silêncio sobre tudo o que vão ver e ouvir nos próximos dias.

Às 10h (6h em Brasília), os eleitores rezarão uma missa para pedir ajuda ao Espírito Santo, em um momento delicado e decisivo para a Igreja. Depois, seguirão em procissão para a Capela Sistina, onde serão fechados a chave sob a proclamação de Extra omnes (“todos fora”). À tarde ocorrerá o primeiro escrutínio, e vários cardeais tendem a receber votos. Segundo o porta-voz do Vaticano, o padre Federico Lombardi, dificilmente haverá uma definição hoje. Até sexta-feira, porém, a fumaça branca deverá ser avistada da Praça de São Pedro, anunciando que um papa foi eleito.

Incomunicáveis

Até sair um vencedor, os cardeais se manterão enclausurados. A Casa Santa Marta, onde ficarão alojados, teve os sistemas de internet e telefonia bloqueados. Até os televisores foram retirados. Somente durante as refeições os cardeais poderão conversar entre si. O responsável por conduzir o conclave, na condição de decano do Colégio dos Cardeais, será o italiano Giovanni Battista Re, um dos que teriam declarado apoio a dom Odilo Scherer, o brasileiro mais citado nas bolsas de apostas da sucessão papal.

Apesar de indicarem uma polarização entre dom Odilo, arcebispo de São Paulo, e o italiano Angelo Scola, titular da arquidiocese de Milão, jornais europeus, abastecidos com informações de vaticanistas, informaram ontem que mais da metade dos cardeais não entrará para o conclave com voto definido, o que poderia estender o processo e anular previsões. Há que levar em conta, ainda, a força de nomes que correm por fora, como os dos arcebispos de Boston, Sean O’Malley, e de Nova York, Timothy Michael Dolan, além do canadense Marc Ouellet, prefeito da Congregação para os Bispos.

Para o povo que espera ansioso pelo tradicional pronunciamento de Habemus papam (“temos um papa”), pouco importa se as especulações vão se confirmar ou não. “Não sei quem vai ser, mas espero que seja jovem. Se for para ficar só de enfeite, não serve”, opina a aposentada paulista Amália Irani, 64 anos, “católica praticante”. Como outras milhares de pessoas, ela pretende fazer plantão na praça à espera da fumaça branca.

Mesmo entre os fiéis mais fervorosos, os papáveis são pouco conhecidos. Quase ninguém consegue indicar um cardeal preferido. “Não sei quem são, mas torço por um latino-americano. Somos mais católicos que os europeus”, comenta a cubana Karina Rodrigues, 37, de férias pela Itália. “Queria alguém mais aberto, mas não é o papa quem vai ditar o que eu tenho de fazer”, completa a amiga peruana Heidy Fischer, 37.

Acompanhado da esposa e da filha no passeio pelo Vaticano, o comerciante venezuelano René Barandela, 33, diz ter uma referência para o futuro pontífice. “Precisamos de um papa carismático como (Hugo) Chávez”, dispara ele, referindo-se ao presidente morto na semana passada. A partir de hoje, se intensificarão as apostas, as orações, e os olhos do mundo se voltarão de vez para Roma.

Depoimento
Aos fiéis, cabe dizer amém

Com o início do conclave, aumentarão as especulações em torno de quem será o novo papa. Enquanto a fumaça branca não for avistada, de todos os lados surgirá quem tente adivinhar o sucessor de Bento XVI. Nada mais natural.

Três são os nomes mais falados, não necessariamente nessa ordem: Angelo Scola (Itália), Odilo Scherer (Brasil) e Marc Ouellet (Canadá). Mas há um punhado de outros cardeais citados. Correndo por fora, um deles pode surpreender.

A avaliação possível de ser feita, no momento, é assim mesmo: solta, indefinida, especulativa, quase vaga. Há mais de 10 dias em Roma, estou convencido de que o colégio cardinalício não pode ser encarado como um parlamento qualquer.

Há, sim, entre os humanos purpurados, grupos, tendências e preferências. Mas não se trata da mesma lógica adotada por partidos políticos. Por isso, dificilmente alguém consegue “violar o painel” da Capela Sistina.

Os “príncipes da Igreja” vivem sujeitos a disputas de poder, vaidades, carreirismo e tantas outras práticas pouco evangélicas. Não parecem, porém, muito dispostos a, “diante de Deus e pelo bem da Igreja”, exercer voto de cabresto.

A cada conclave, os eleitores-candidatos insistem no fator espiritual e, portanto, na surpresa da votação secreta. Unânimes, creditam a palavra final ao Espírito Santo, porque é nisso que creem. A nós, reles mortais, ao menos por ora, resta dizer amém.