Caso Assange expõe a 'hipocrisia internacional'
Renuka Rayasam
Der Spiegel
Miguel Medina/AFP
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Em foto, de fevereiro deste ano, Assange acena antes de ser julgado na Suprema Corte, em Londres
Por quase dois anos, o fundador do WikiLeaks, Julian Assange, tem
driblado os esforços para extraditá-lo para a Suécia, onde enfrenta
acusações de agressão sexual. Agora com a decisão do governo equatoriano
de lhe conceder asilo em sua embaixada em Londres, Assange conseguiu
outro adiamento. O que acontecerá a seguir está longe de estar claro.
O governo britânico retaliou ameaçando invocar uma lei pouco usada para
remover o status diplomático da embaixada, para que possa enviar
Assange para a Suécia. A lei foi aprovada em 1987 após um policial
britânico ter sido baleado no lado de fora de uma embaixada líbia.
Fazê-lo seria uma violação dos princípios por trás da Convenção de Viena
de 1961, que considera as embaixadas como áreas extraterritoriais, para
que os diplomatas possam trabalhar sem serem perturbados nos países
estrangeiros. Além disso, Londres prometeu prender Assange tão logo ele
coloque os pés em solo britânico, algo que terá que fazer caso deseje
viajar para o Equador.
É claro, o jogo ainda não acabou em torno dos supostos crimes sexuais
do australiano. Ao divulgar uma enorme quantidade de comunicações
confidenciais, principalmente cabogramas diplomáticos americanos e
documentos militares do Iraque e do Afeganistão, pelo seu site
WikiLeaks, Assange se tornou um fora-da-lei internacional instantâneo.
Assange disse temer que assim que chegasse à Suécia, ele seria
extraditado para os Estados Unidos, onde enfrentaria acusações sérias
sobre a divulgação de documentos confidenciais do governo americano.
Os jornais alemães veem o mais recente desdobramento na saga de Assange
como uma disputa política de poder entre o Reino Unido e o Equador, que
conta com seu próprio histórico de abuso de direitos humanos. Assange é
apenas um pequeno peão em um jogo maior.
Ao conceder asilo para Assange, os editorialistas concordam que o país
sul-americano está desdenhando o restante do mundo e que o presidente
Rafael Correa está exibindo sua força no cenário internacional. Enquanto
isso, a resposta do Reino Unido, eles dizem, ocorre em detrimento das
normas internacionais estabelecidas. Julian Assange, eles argumentam,
não vale o problema.
“Independente do que alguém pense de Julian Assange e seus atos, ele não
é nem Osama Bin Laden e nem um chefão da máfia. É por isso que,
colocando de modo cuidadoso, foi um erro o governo britânico ter
desafiado o Equador com uma lei que lhe permite retirar os requerentes
de asilo das embaixadas em casos individuais. (...) Ao seguir por esse
caminho, o governo britânico fez um favor para Assange. Agora ele pode
continuar construindo seu próprio mito.”
“O fato de um governo como o Equador, entre todos, agora poder se
passar como defensor dos direitos humanos é vergonhoso, mas isso
acontece por culpa de Londres. Infelizmente, também significa que o fato
de Assange ter sido acusado de estuprar uma mulher na Suécia passou
para um segundo plano.”
O esquerdista “Die Tageszeitung” escreve:
“O caso do fundador do WikiLeaks, Julian Assange, se tornou um exemplo
inacreditável de hipocrisia internacional. Ambos os países envolvidos, o
Reino Unido e o Equador, são culpados.”
“Longe da atenção do mundo, o governo equatoriano está expulsando um
ex-funcionário do governo de Belarus que desfrutou de três anos de asilo
no Equador. O motivo foi que há seis semanas, o presidente bielo-russo,
Alexander Lukashenko, esteve em Quito para assinar vários acordos de
comércio e aplicar pressão. Logo depois o homem, Alexander Barankov, foi
preso em Quito. Tendo isso como fundo, as palavras floreadas do
ministro das Relações Exteriores do Equador sobre a importância do asilo
político não têm muito valor.”
“O Reino Unido, por sua vez, ameaçou abertamente invadir a embaixada
equatoriana com força policial para prender Assange. Isso representa um
absurdo diante de sua própria posição apoiada internacionalmente de
proteção dos representantes diplomáticos e cumprimento da Convenção de
Viena.”
“O fato de o governo britânico estar preparado até mesmo a sugerir esse
precedente é um duro golpe. O fato de estarem dando tamanha importância
para Assange é surpreendente.”
O centro-esquerdista “Süddeutsche Zeitung” escreve:
“Por que (o presidente equatoriano Rafael Correa) tem tanta simpatia
por um australiano chamado Julian Assange...? Porque Correa vê o
fundador da plataforma de denúncia WikiLeaks como uma alma gêmea. Ao
publicar os despachos confidenciais que expuseram acima de tudo os
Estados Unidos, Assange agradou Correa. Seu lugar é ao lado de Hugo
Chávez da Venezuela, Evo Morales da Bolívia e Fidel Castro de Cuba como
os mais importantes oponentes de Washington. Em segundo lugar, o
equatoriano temperamental vê uma chance de intervir na política mundial e
exibir a nova autoconfiança da América do Sul.”
“Oferecer asilo está em seu direito. Na prática será muito mais
complicado. A Suécia está pressionando pela extradição (de Assange) não
devido ao WikiLeaks, mas devido à sua suposta agressão sexual. Por esse
ponto de vista, ele não pode ser formalmente considerado como vítima de
perseguição política. De qualquer forma, Correa tem direito de proteger
sua embaixada de invasão pela Inglaterra. Mas ele deveria exibir
respeito igual por seus críticos em casa.”
O jornal de negócios “Financial Times Deutschland” escreve:
“Julian Assange provavelmente enviará uma carta de agradecimento ao
governo britânico – apesar de provavelmente sem selos equatorianos. O
fundador da plataforma de denúncia WikiLeaks, que está escondido na
embaixada em Londres do país andino, obteve asilo político no Equador.
Com isso, ele recebeu muita divulgação gratuita pelos britânicos
desajeitados, que catapultaram o australiano quase esquecido de volta às
manchetes. E ele até mesmo está em seu papel favorito de Davi contra os
Golias do mundo, principalmente os Estados Unidos e o Reino Unido.”
“O Reino Unido ajudou Assange novamente a se retratar como vítima de
perseguição política. (...) Na verdade, Assange está fugindo de uma
longa sentença de prisão na Suécia. E o governo equatoriano, acima de
tudo o presidente Rafael Correa, quer alfinetar os detestados Estados
Unidos ao conceder asilo para Assange. O relacionamento entre os dois
países é tenso há anos.”