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terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Esse apagão é nosso

Esse apagão é nosso

Autor(es): Carlos Alberto Sardenberg
O Globo - 06/02/2014
 
A gente tem que admitir: dadas as circunstâncias, o pessoal da presidente Dilma saiu-se muito bem no dia do apagão. Não estava nada fácil garantir a segurança do sistema elétrico no momento mesmo em que faltava luz para seis milhões de pessoas, em 13 estados e mais o Distrito Federal. E isso no improviso: a coletiva de terça fora chamada para garantir que não haveria apagões; a energia pifou mal as autoridades começavam a explicar. Tudo considerado, a resposta foi, em interpretação livre, a seguinte: o nosso apagão é muito melhor.
Ainda completaram: melhor que os apagões do governo FH, melhor do que os ocorridos em outros países e melhor mesmo que aqueles verificados no próprio governo Dilma. Como? A rapidez com que se detectou o duplo curto-circuito e, mais importante, a rapidez com que se restabeleceu o sistema — isso é Primeiro Mundo, pessoal.
Primeiro Mundo, não. Foi mal. A presidente Dilma acha que eles, do mundo desenvolvido, têm feito praticamente só coisas erradas. Na linguagem do governo, portanto, o apagão de terça é Brasil, assim como a nossa Copa será a Copa das Copas.
Assim como a política econômica brasileira, com tudo — inflação, superávit primário e contas externas — na meta. Vá lá, alvo ampliado, mas e daí?
O problema é que os chamados agentes econômicos — as pessoas que compram, vendem, produzem, consomem, poupam e gastam — não estão acreditando que a nossa energia, quer dizer, nossa economia está brilhando.
Perguntas e dúvidas embaraçam, aqui e ali. No apagão, não se sabe bem se a culpa de tudo foi mesmo o duplo curto-circuito. E mais, por que teria ocorrido o curto? E por que um “curtinho” termina num apagão?
Uma investigação, digamos, normal talvez procurasse alguma ligação entre a falha e circunstâncias como: sobrecarga do sistema, uso seguido no pico, já que houve um recorde de carga três minutos antes de a luz pifar.
Negativo, assegura a equipe elétrica de Dilma, tão firme quanto a equipe econômica. O pessoal pode não saber ainda a causa — tem uma reunião hoje para discutir isso —, mas garante que não há sobrecargas, nem “estresse estrutural”.
Em resumo, até aqui, a resposta é essa mesma: apagão é apagão, acontece. O que queriam, que não ocorresse nenhum problema num sistema tão grande? A convicção das autoridades do setor elétrico é muito mais firme que o próprio sistema, disso não há dúvida.
Só não é mais firme que a convicção da presidente Dilma e do ministro Mantega quando falam de economia.
E, entretanto, parece que, na política econômica, o governo vai tentar dar uma satisfação ao distinto público. Ou seja, fazer algumas mudanças sem admitir que se está mudando. Ou anunciar mudanças sem mudar nada — dizem os céticos.
O problema é que há problemas reais. No setor elétrico, por exemplo, há um erro de fundo: o preço. A tarifa cobrada dos consumidores, residenciais e industriais, reduzida à força no ano passado, resulta mais barata que o custo de produção. Isso cria um incentivo às avessas: estimula o uso de um serviço caro e que não está sobrando. E não estimula o investimento para aumentar a oferta, pois as empresas do setor só não quebraram porque o governo federal lhes passou mais de R$ 20 bilhões no ano passado — dinheiro do contribuinte.
Eis, num detalhe, algo que se passa no modelo Dilma como um todo: muito consumo, pouco investimento.
Há duas possibilidades de se manejar o desequilíbrio financeiro do setor elétrico: ou aumentar a tarifa ao consumidor ou o Tesouro usar dinheiro dos impostos para cobrir os buracos.
Alta da tarifa bate na inflação. Não haveria problema se fosse verdade que a inflação está controlada, não é mesmo?
O Tesouro pagar a diferença — isso reduz o superávit primário, piora o estado das contas públicas, sob desconfiança das agências de classificação de risco. Também não seria problema se as contas públicas estivesses equilibradas...
E tem a política: a redução da conta de luz é ponto de campanha. Subi-la agora, justo no ano eleitoral e no momento em que a outra promessa de redução, a dos juros, já foi descumprida? Sim, descumprida: o Banco Central está elevando a taxa básica. Por que faria isso se dólar e preços estivessem controlados?
Em resumo: apagão acontece — esses curtos... —, mas o sistema é uma fortaleza. Preços sobem — esse mercado internacional.... —, mas não tem inflação. O superávit está caindo, mas a culpa é dos governadores e prefeitos, pois no federal vai tudo bem.
Os outros é que não entendem nada.

SISTEMA OPERA LIMITE E APAGÃO PODE SE REPERTIR

SISTEMA OPERA LIMITE E APAGÃO PODE SE REPERTIR

SISTEMA ELÉTRICO JÁ PERTO DO LIMITE E PODE VOLTAR A FALHAR NESTE ANO, DIZEM ESPECIALISTAS
O Globo - 05/02/2014
 
O apagão que atingiu as regiões Sudeste, Sul, Centro-Oeste e parte do Tocantins nesta terça-feira indica que o sistema elétrico está operando no limite, segundo especialistas. Eles avaliam que — com o nível dos reservatórios das regiões Sul e Sudeste/Centro-Oeste baixando e o consumo batendo recordes — há probabilidade de novas ocorrências de cortes de luz no país ao longo do ano.
Na última segunda-feira, o nível dos reservatórios no Sudeste/Centro Oeste chegou a 39,6%, contra 40,8% da semana anterior. As duas regiões, que representam 60% do consumo nacional, atingiram recorde de consumo: foi às 15h33 de anteontem, chegando a 50.854 megawatts (MW). No Sul, o armazenamento das hidrelétricas ficou em 55% na segunda, contra 59,4% da semana passada. Já as usinas da Região Norte subiram para 64,1% e as do Nordeste avançaram para 42,8%.
Atraso em projetos
Para Ricardo Savoia, diretor de Regulação e Gestão em Energia da consultoria Thymos, como as chuvas do período úmido (entre novembro e fevereiro) não vieram, há incertezas:
— Ao longo de 2013 havia a expectativa de mais chuvas, o que não ocorreu. Muitos projetos de geração térmica e de linhas de transmissão não entraram em operação. Isso elevou o risco do setor. No ano passado, no momento mais crítico, o risco de déficit de energia foi de 18%. Hoje, está em 20%. Sabemos que o aceitável é 5%.
Savoia diz que a situação poderia ser mais grave se a indústria estivesse consumindo mais:
— Se as chuvas não vierem e se os projetos de geração térmica não entrarem em operação, como o previsto, a situação ficará mais delicada. A única notícia positiva é que os reservatórios no Nordeste quase dobraram neste mês em relação a dezembro.
O consultor Raimundo Batista avalia que está ocorrendo uma degradação acentuada do sistema elétrico:
— O sistema está chegando no limite. As condições mudaram muito rápido. Um indicativo são os preços de energia no mercado livre, que atingiram patamar recorde, no teto, em R$ 822,83 por MWh. O governo incentivou o consumo e não toma medidas para reduzi-lo, potencializado pelos aumentos na temperatura — diz, em referência à redução nas tarifas anunciada pela presidente Dilma Rousseff, em janeiro do ano passado.
Já para Luiz Pinguelli Rosa, diretor da Coppe/UFRJ, ainda há espaço para que o governo acione térmicas “mais custosas”, movidas a óleo combustível. Segundo o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), as térmicas responderam por 18,06% (ou 13.254 MW) da energia consumida na última segunda-feira. O número é maior que a geração de Itaipu, com 10.616 MW (ou 14,46%). As hidrelétricas somaram 46.950 MW, cerca de 63,97%.
— O risco (de déficit de energia) é de 20%. É altíssimo. A temperatura elevada contribui para o aumento do consumo. O problema é o que vai acontecer nos próximos meses, com o ritmo de chuvas. É preciso saber como vai se comportar o consumo. Como não estamos no limite ainda, é cedo para saber se haverá racionamento. Mas há risco de mais apagões — diz Pinguelli.
Falta de eficiência
A preocupação é partilhada por Hermes Chipp, diretor-geral do ONS, que lembra que hoje só cinco termelétricas não estão ligadas: quatro no Nordeste e uma no Sudeste, que juntas têm capacidade de 400 MW, ou 2,6% do total das térmicas no país. Mas lembra que as chuvas ainda podem atenuar o problema:
— Há excesso de consumo e nível baixo dos reservatórios, mas em algum momento a chuva chegará.
Roberto D'Araújo, diretor do Instituto de Desenvolvimento Estratégico do Setor Energético (Ilumina), critica a falta de comunicação entre consórcios que constroem usinas e os que montam as linhas de transmissão:
— É preciso aumentar a eficiência energética entre as distribuidoras. Hoje, a perda de energia chega a 15%.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Metade de Itaipu parou à noite

Metade de Itaipu parou à noite

Itaipu perdeu metade da carga ontem à noite
O Globo - 04/10/2012
 
Desligamento súbito da usina acionou sistema de emergência. Periferias de Sudeste, Sul e Centro-Oeste ficaram sem luz
Metade da hidrelétrica de Itaipu parou de operar, subitamente, ontem à noite. Por volta das 21h, distribuidoras estaduais foram orientadas a acionar os esquemas regionais de alívio de carga (Erac). São protocolos de operação, em que áreas periféricas têm o fornecimento interrompido para que regiões prioritárias não sejam afetadas. Assim, grandes capitais, como Rio e São Paulo, não se apagaram. Hospitais e sistemas de transportes públicos nas metrópoles também foram poupados. Já se sabe que áreas do Sudeste, do Sul e do Centro-Oeste foram prejudicadas pelo desligamento de Itaipu. As regiões Norte e Nordeste não teriam sido atingidas. O Operador Nacional do Sistema (ONS) só deve saber nesta quinta-feira a causa da perda dos 5.600 MW em Itaipu, praticamente metade de toda a geração da usina nesta época do ano. Quatro transformadores da subestação de Foz do Iguaçu foram desligados. A uma distribuidora foi dito que três turbinas de Itaipu pararam de funcionar. Hermes Chipp, diretor do ONS, disse à coluna que o sistema de emergência funcionou e evitou o blecaute no país. Até 40% da carga de cada distribuidora podem ter sido cortados.